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terça-feira, 21 de agosto de 2018

Sobre ser da fronteira

Foto: na beira do rio Uruguai/São Borja.

Eu nasci na fronteira entre Brasil e Argentina, e desde bem menina já sabia falar três línguas: o português, o espanhol e o portunhol. Estudei no Passo, o bairro de São Borja que fica na beira do rio, lugar de onde saía a balsa para Santo Tomé. Meus pés de menina pisavam as pedrinhas e a lama do Rio Uruguai quase todos os dias, e no fim de semana, com o pai, passávamos para o outro lado para comprar batatada e balas Mumu. Em épocas de enchente, corríamos para a beira do rio para ver passar as madeiras, conduzidas pelos paysanos e gaúchos, que as manejavam gritando: ibibibiuuuuururu.

Na fronteira, aprendi que a vida mesma não tem divisão. Argentinos e uruguaios eram como nós, filhos de uma mesma pampa, com história comum, com costumes comuns. São Borja, Uruguaiana, Quaraí, cidades irmãs de Santo Tomé, Paso de los Libres, Artigas. Nunca pude perceber onde cada uma começava ou terminava, ainda que as aduanas e os milicos de cara amarrada interpusessem paradas e rituais. A pampa é quase um estado de espírito. Está em nós e não lá fora.

Aprendi a ser latino-americana assim, ainda bem niñita, nesse enfrentamento diário com a vida, com a história e com a cultura. Ora tomando mate com leite, ora amargo, enchendo o pão com doce de leite, ou tomando limonada, comendo matambre, milanesa, dançando vanerão e chamamé. Quando comecei a entender o mundo, então, já estava tomada pela Pátria Grande. Não poderia ser diferente. Cada voz argentina era de um irmão. E aos argentinos e uruguaios foram se somando os bolivianos, chilenos, paraguaios, colombianos, peruanos, equatorianos, venezuelanos, cubanos, nicas, guatemaltecos, hondurenhos, mexicanos, caribenhos... todos e cada um.

Mas, é bom que se esclareça. Há dois tipos de fronteiriço. Os que ocupam as canhadas para delas se apossar (os patrões) e os que, sem nada além da força de trabalho, vivem nos descampados a dura lida do existir (os trabalhadores). Os primeiros não se ocupam de encontros humanos, são produtores de mercadoria, caçadores do lucro. Já os segundos veem o território como um amplo espaço por onde podem andar e viver, enredados com os hermanos, na mesma faina da manutenção da vida. Esses, trabalhadores, são seres amalgamados de horizontes diversos, e têm vários mundos girando dentro de si. Por conta das mesmas necessidades, não pode lhes caber preconceito, não pode lhes caber o ódio, não pode lhes caber o medo do outro. Porque estão também tecidos de outridades, o tempo todo e todo o tempo.

A única forma de mudar a forma amorosa de um fronteiriço é inventar um inimigo. E é assim que se fazem as guerras. Os grandes forjam sonhos de conquista e disseminam a ideologia do outro, no outro lado, como inimigo. Assim, aquele que até ontem tomava mate com a gente vira um monstro a quem temos de eliminar. A guerra é dos grandes, mas somos nós os que entregamos os corpos.

Amigos fronteiriços. Não há fronteiras. Tudo o que existe são desenhos pintados pelos que estão no poder. Assim se balcanizou a américa baixa. Pela ganância e pelo desejo de poder de uns e outros. Não fosse isso hoje seríamos todos patriagrandinos, filhos do mesmo continente. Com nossas particularidades, é fato, mas cheios dessa universalidade abyayálica que nos iguala. Toda terra nos pertence e por ela temos o direito de andar.

Quase 70 milhões de pessoas estão agora, agorinha mesmo, enquanto lês esse texto, saindo de sua terra ancestral. Caminham não porque querem – como eu, criança, indo buscar balinhas Mumu - mas acossados por guerras, fome, medo, ódio, engano, incompreensão. Carregam seus filhos, tralhas e esperanças. Tudo o que querem é um olhar doce, uma mão amiga, um pão, e a compreensão de que somos todos um pequeno gênero humano.

Que as pessoas que vivem nas fronteiras não caiam no conto dos latifundiários, dos empresários, dos gananciosos, dos comerciantes, dos que estão no poder. Não acreditem que o outro – igual a ti - é o inimigo. O inimigo é bem diferente. É o que te explora e te consome aí mesmo, no teu lugar. O que rouba tua força de trabalho, o que te incita a lutar guerras por eles, guerras que nem sequer podes entender.

Nós, os trabalhadores, temos de fazer aflorar a consciência de classe, ficar junto daquele que sofre o mesmo que nós, ainda que ele mesmo não perceba. Não nos deixamos levar pela invenção de um inimigo imaginário. O outro, que sofre, é meu/teu irmão. Com ele enfrentaremos a classe dominante. Com ele destruiremos o capital.

Se eu o renego, se queimo suas roupas, se maltrato seus filhos, estou dando linha para os que nos temem. Esses que sabem, que se estivermos juntos, ficamos mais fortes e podemos mudar o mundo. Por isso nos dividem e nos afastam. Não vamos temer o migrante, o que caminha, o que foge, o que procura vida melhor. Vamos travar com ele aliança e virar o mundo “patas arriba”.

O fronteiriço não pode erguer cercas, nem muros. O fronteiriço, por conter tantos, tem de ser ele mesmo espaço de comunhão.

Por fim, o fato é que nós, os trabalhadores, somos todos fronteiriços, sempre à beira de algum alambrado. E, como diria Victor Jara, é tempo de desalambrar.


quinta-feira, 1 de março de 2018

No enterro do Jango, o começo de uma caminhada




Era o começo de dezembro de 1976. Na pequena cidade onde vivíamos não se falava em outra coisa. Jango estava morto. A notícia se espalhou como um rastilho de pólvora, afinal, São Borja era sua terra-mãe. Em casa, o clima era de profunda tristeza. Nossa vida inteira tinha sido marcada pela presença de João Goulart. Meu pai trabalhava para ele na emissora ZYF-2 Fronteira do Sul desde os anos 60, quando Jango já era o dono da rádio. Com essa marca, de ser uma rádio do Jango, a emissora atravessou os anos de chumbo, sempre vigiada e com os censores à porta. 

Quando veio o golpe e Jango se exilou no Uruguai, ele distribuiu as ações entre os funcionários e a rádio funcionava como uma cooperativa, algo realmente inusitado naqueles dias de ditadura militar. O faturamento era dividido entre eles. O pai tinha o cargo de gerente e, por incrível que possa parecer, a rádio seguiu transmitindo, ainda que vigiada. Quando o governo de Garrastazu Médici já chegava ao final, em 1973, as coisas ficaram mais difíceis. A rádio começou a ter problemas. Os trabalhadores não conseguiam provar que as ações tinham sido passadas pelo Jango, e a fiscalização não deu trégua. O pai chegou a ir até o Uruguai junto com outro diretor da rádio para ver com Jango como regularizar tudo, mas não conseguiram. 

Finalmente, em 1975, já no governo de Ernesto Geisel, num belo dia, o representante do Dentel na cidade foi até o transmissor e cortou o cabo da antena. A rádio estava fechada, com o transmissor lacrado, sem nenhuma explicação. Era o fim da generosa proposta de uma emissora de rádio cooperativada. Aquilo tudo foi um baque na vida da família. Sem emprego e ainda com a marca de ser um dos caras do Jango, a saída do pai foi montar um pequeno negócio junto com outro diretor da rádio. Uma tabacaria, bem em frente à praça. Não deu certo, mas isso já é outra história.

Um ano depois do fechamento da rádio Jango estava morto e hoje é possível fazer as ligações sobre como a ditadura estava no pé do ex-presidente. Por isso não duvido de que tenha sido mesmo assassinado.

Naquele triste dezembro de sua morte, surpreendentemente, a família foi autorizada a trazer o corpo para ser enterrado em São Borja, embora houvesse ordens expressas para ser um enterro discreto, sem aglomerações.  Mas, esse foi um “milagre” que a ditadura não conseguiu realizar. A cidade fervia. Todos se preparavam para receber Jango. Ele teria as honras do povo. Lá em casa, preparávamos nossa melhor roupa. Iríamos ver o presidente, chefe do nosso pai, desse o que desse. O exército montou uma operação de guerra para impedir que houvesse qualquer manifestação. Já na ponte entre Libres (Argentina) e Uruguaiana o carro com o caixão foi parado com a ordem expressa de que seguisse até São Borja em alta velocidade, para que as gentes não pudessem saudá-lo. Ainda assim, se soube de centenas de pessoas à beira da estrada, despedindo-se do presidente. 

O combinado com o chofer era de que seguisse imediatamente para o cemitério. Mas, sabe-se lá como, o carro foi direto para a Igreja Matriz, onde as pessoas já se aglomeravam aos milhares. Nós estávamos lá, eu e meu irmão, agarrados à mão do pai. São Borja nunca vira uma manifestação como aquela. Eram mais de 10 mil pessoas rodeando a igreja. Depois dos ofícios, os milicos ainda tentaram sair com o caixão para levar, de carro, até o cemitério. O povo não deixou. O caixão foi arrancado das mãos dos milicos e levados pelos são-borjenses, em caminhada, até a morada final. Devia ter mais de 30 mil pessoas nas ruas. 

Eu tinha 15 anos, mas já estava familiarizada com a luta contra a ditadura. Lá em casa, sempre falamos e soubemos de tudo. E politicamente estávamos ligados ao então MDB. Mas, aquele enterro foi uma espécie de batismo na luta aberta, na ação de massa. Porque na clandestinidade já atuava, distribuindo panfletos do MDB, durante as noites, denunciando a ditadura. Só que naquele dia, no meio da multidão, devo ter entendido que quando estamos juntos, os nossos desejos não podem ser detidos. Nada do que o exército planejara aconteceu. Tudo saiu do script, pelas mãos do povo, e Jango atravessou a cidade nos braços dos seus. Aquilo foi bonito demais, e, hoje, recordando cada minuto daquele dia com a ajuda das memórias do meu irmão, percebo que foi também um divisor de águas para mim.

Quem conhece a fronteira sabe o quanto um dezembro pode ser calorento. Pois aquele dia foi assim. E durante o dia todo foi uma louca romaria, com os homens em mangas de camisa, suando em bicas, e as mulheres arrumadas para domingo, de salto alto e lágrimas no rosto. Eram quase cinco da tarde quando Jango finalmente desceu à sepultura. O cemitério cheio, gente por cima dos túmulos, todos dispostos a não arredar pé até o último instante de adeus.

Eu, meu pai e meu irmão, então com 10 anos, éramos um pingo na multidão. E fizemos todo o trajeto, rendendo as homenagens, como toda a gente. A manifestação, rebelde, popular e massiva, e a quebra de todas as regras impostas pelos milicos ficaram marcadas em mim como um sinal. Era preciso enfrentar o que fosse para que nossa gente enterrasse a ditadura militar. E aquela despedida missioneira, dramática, cadente e sofrida, se fixou nas retinas, para sempre. Dois anos depois, já em Minas, integrei-me visceralmente à luta pela anistia e nunca mais deixei estar no movimento popular. 

De todas as formas, a vida e o governo de João Goulart, o Jango, bem como sua morte, marcaram minha/nossa vida para sempre. E eu o tenho guardado dentro do coração. 




segunda-feira, 17 de outubro de 2016

Minuano e Tormenta

























Vivi até os 16 anos em São Borja, fronteira com a Argentina, na pampa, região de descampado. Espaço de muitos conflitos, ora de espanhóis, ora de portugueses, sempre de guaranis, charruas, minuanos e tapes. Banda oriental, terra de Manuel Artigas, el caciquillo, grande guerreiro charrua.

Além da geografia – campo aberto, sem morros ou montanhas – dois recorrentes fenômenos naturais forjam as gentes do lugar: o vento minuano e as tormentas. Quem passa por isso pode enfrentar o que mais vier nessa vida. Assim dizem os mais velhos.

O minuano é um vento forte e gelado que vem das zonas polares. É cortante, enregela ossos e alma. Quando ele sopra poucos se encorajam sair de casa. Eu não. Ainda menina, gostava de colocar o brinco de argola, sem qualquer proteção na cabeça, e andar pelas ruas vazias, afrontando sua força. O vendo assoviava, passando pelo brinco, fazendo um som de choro, um lamento, alguma coisa muito triste. Mas, ao mesmo tempo, aquele zunido me aparecia como um desafio. Avançar pelos caminhos, de cara para o vento, sozinha, era meu jeito de festejar a chegada do frio.

A “tormenta” é outro fenômeno que também forja nosso espírito. Chuva forte, vento louco, raios e trovões assustadores. Quando ela vinha todos se abrigavam nas casas, acendendo ramos bentos, fazendo ladainhas para Santa Bárbara. Minha mãe cobria todos os espelhos da casa, desligava os eletrodomésticos e fechava as cortinas. Mas, eu, não me abatia pelo medo e gostava de apreciar o espetáculo. Corria para a janela e espiava o tropel da natureza, passando em desenfreada carreira, arrastando coisas e gentes. A força incomum da Pachamama, mostrando que nada pode detê-la, muito menos a arrogância humana. Tempo de aprender que o planeta tem de ser espaço de convivência e não de destruição.

Quando tudo parava, as gentes saiam pelas ruas, olhos postos na destruição, ajudando os vizinhos que tinham tido as casas destelhadas ou derrubadas. Um mutirão de solidariedade em meio à devastação.

Essas eram cenas que se repetiam, ano a ano. O minuano no inverno, as tormentas no verão. Duas estações de embates, quando enfrentávamos o destino de viver na pampa, nos construindo como fortalezas. E, no meio disso, a alegria de viver, de resistir, de renascer. Força e sensibilidade.

Talvez por isso o Campeche me tome assim, por inteira. Aqui voeja o vento sul, esse malino, que arranca as roupas do varal, descabela e destelha. E chega de chofre, em qualquer estação. Para mim, filha do minuano, ele é só uma brisa. E me enredo na sua dança louca, tal qual fazia nos caminhos de São Borja, com o vento assoviando nas orelhas.

Agora, por tantas alterações que fazemos com a natureza, já chegam por aqui também as tempestades, como ontem. Raios, trovões e ventania. Mas nada que se compare ao tropel da tormenta fronteiriça. Por isso, espio da janela, sem nem acender ramos bentos. Enquanto a chuva bate com força, eu chimarreio e penso que a tormenta, a tormenta mesmo, aquela, da pampa, vive é em mim. E, tal como na fronteira, aparece assim, sazonal, poderosa e arrebatadora.

É bom que se tema. É bom que se tema! E para essas há que clamar à Santa Bárbara. 


sexta-feira, 27 de junho de 2014

Quando tudo fica gris







O rio Uruguai, sempre uma bênção






Onde era o bar do picolé, agora é agropecuária, mas segue ali, firme.










A escola Francisco de Miranda, ainda de pé...






 
Minha irmã mais velha foi quem me ensinou a ler. Ela chegava da escola e fazia os deveres numa pequena lousa de "brinquedo", fazendo as vezes de mestra, ensinando. Eu, olhuda e atenta, aprendia. Mal sabia ela o tanto de bem que me fazia. Tinha cinco anos quando fui levada para a escola pela nossa vizinha, Maria Tereza, que era professora. O colégio era longe, ficava no bairro do Paso, bem na beira do Rio Uruguai, e a gente ia de ônibus. Pelo caminho, eu vislumbrava uma cidade diferente da que se via pelo "centro". O quartel, enorme, se estendendo por metros a fio, os guardinhas parados vigiando o nada, as casinhas pequenas, os pátios cheios de bergamoteiras, as pessoas sentadas na varanda, as mulheres varrendo a calçada, a gurizada correndo pelas ruas de chão. A Escola Municipal Francisco de Miranda tampouco era diferente do bairro onde se encontrava. Simples, com partes de madeira, carteiras velhas. A diferença é que tinha, bem na entrada, a foto do grande precursor das batalhas de libertação nessa nossa imensa Abya Yala: Francisco de Miranda. Imagino eu que foi ali que meu sentido de pertencimento a essa américa baixa foi se formando.

Na hora do recreio, a gurizada se espalhava pelo campo enorme que havia em frente a escola e a maior aventura era correr até o casarão da esquina para comprar picolé. Naquelas horas de folguedo também era possível se misturar às crianças do bairro, muitas delas com voz argentina. Essa coisa boa de viver na fronteira. Uma mistura de línguas e costumes. Voltar para casa, tão distante da escola, era sempre triste. Era como adentrar outro mundo, um mundo que não tinha o encantamento da vida do Paso. Foi assim que me apeguei aos livros. Por sorte, meu pai tinha pena dos vendedores de livros que batiam à porta, com sua algaravia de provações, e comprava tudo o que ofereciam. Assim, desde bem pequena tive contato com o que há de melhor da literatura nacional. Coleções inteiras com as obras de Machado de Assis, Aluísio de Azevedo, Castro Alves, Euclides da Cunha, Graciliano Ramos. Também chegavam livros sobre os Incas, Maias, Astecas, os povos africanos, os grandes filósofos, os mitos gregos. A minha casa era um mundo encantado.

Foram os livros também os responsáveis pela minha tristeza. De tanto conhecer as coisas do mundo, fui ficando macambúzia. Tanta impotência com os dramas humanos. Como entender a destruição dos indígenas? Ou a dor de um continente inteiro, como o africano? Como explicar a violência do nazismo? Por que havia tanto mal, tanta miséria, tanto aniquilamento? Minha mãe, católica praticante, dizia: "são os desígnios de deus". Mas, eu, desconfiava. Se deus era puro amor, aquilo não era obra dele. Parecia evidente que era obra humana. Mas, por quê? Não tinha a resposta. Lia mais e mais, e nada. Decidi que não poderia ser alegre com tanta tristeza nesse mundo. Passei muitos anos assim, mergulhada na desesperança.

Todo esse pano de fundo me levou ao jornalismo. Amante das palavras, a vida só parecia fazer sentido quando eu mesma juntava as letras e contava as histórias. Se não havia como salvar as pessoas de tanta tragédia, pelo manos narrá-las, para que não se perdessem na noite da história. E assim fui, pelos caminhos, re-construindo mundos. Pretensiosa aventura, sempre inconclusa. Já era adulta quando percebi que podia ter direito a algumas alegrias, e re-aprendi a rir com vontade, gargalhar, desfrutar dos pequenos momentos de felicidade que aparecem na vida da gente, num átimo. Esses que valem uma vida.

Ontem, vendo um vídeo que contava a história de um homem - Nicholas Winton - que ajudou a salvar 700 crianças do horror nazista, me abateu a tristeza de outrora. O repórter aludiu ao terror daqueles dias, tão longínquos. E o sábio velhinho redarguiu, ligeiro: "Não se engane, os dias de hoje não são melhores do que aqueles. Falta ética e compromisso". Bateu como um martelo. Pura verdade. "A humanidade não aprendeu nada", disse, desolado. E me deixou, assim, nessa tristeza infinda...


quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Com Maria do Carmo, outra vez...!





Eu era menina quando ouvi as gurias mais velhas falarem de um túmulo que havia atrás do quartel, na cidade de São Borja, fronteira com a Argentina. “Ela é santa”, cochichavam, e preparavam prendas para levar quando fossem pedir para que viesse o príncipe. Andava-se muito para chegar até lá e os adultos não aconselhavam percorrer a pequena trilha no meio do mato. “É perigoso, vão sossegar”. Mas que, as gurias não descansavam enquanto não iam levar as ofertas e fazer os pedidos àquela que alguns davam como certo fazer milagres.

As versões do caso eram muitas, mas a que mais se ouvia era de que lá pelo mês de agosto de 1890, ali havia sido assassinada a jovem Maria do Carmo Fagundes, guria de vida airosa, que era como chamavam as prostitutas naqueles dias. Mas, ao que parece, esta tinham um princípio irremovível: jamais se deitava com milicos. E vem daí a tragédia. Conta-se que um soldado apaixonou-se por Maria do Carmo e, desesperado por saber-se impossível, decidiu que ela não seria de mais ninguém. Então a matou, bem ali, atrás do quartel, o mesmo lugar onde alguns poucos amigos a enterraram. Mas, sua alma alegre não suportou a fria terra, e ela decidiu que ali vagaria, acolhendo as dores do amor e fazendo felizes aqueles que lhe pedissem graça.

Foi aí que começaram os milagres. Não são poucas as histórias de gente que viu a mulher de longos cabelos negros brincando com o vento, fazendo os soldados, que ficavam nas guaritas do quartel, tremer feito vara verde. Desde aí se espalharam os feitos da Maria do Carmo, a prostituta virada santa. Seu amor foi embora? Clame à Maria do Carmo. Faltou dinheiro? Clame à Maria do Carmo. Bateu a depressão, faltou o príncipe encantado, a vida foi pelo ralo? Clame à Maria do Carmo.

Quando chegava o mês de agosto era de lei caminhar pela trilha até o pequeno túmulo para levar flores, perfumes, bijuterias. A Maria do Carmo era nossa Iemanjá, venerada no outono. Não foram poucas as lágrimas derramadas naquele campo santo, fruto de amores não correspondidos e desejos de vida feliz.

Então, o tempo passou, eu cresci, fui embora da cidade, mas a força da santa das mulheres sempre me acompanhou. Há alguns anos (2009), num janeiro, passei por São Borja, num átimo. Tinha várias opções. Ver alguns velhos amigos, visitar antigos vizinhos, caminhar pelas veredas da minha infância. O tempo era curto, mas não hesitei. “Quero ir ao túmulo da Maria do Carmo”. Por algum motivo, aquele lugar nunca saiu de mim, espaço de encantos e sortilégios. Surpresa eu constatei que já não havia trilha, nem mato, não era mais um lugar ermo. Havia casas por perto e uma estrada de chão levava até o campo santo, agora cercado, pintado e sinalizado. Pelas placas que ali estão, vê-se que a obra é de 2005.

Maria do Carmo dorme no pequeno túmulo azul, simples, mas bem cuidado, e ao seu redor multiplicam-se os presentes. Flores, perfumes, velas, bijuterias. O tempo passou e a mulher alegre, de longos cabelos continua bailando atrás do quartel. Dizem que os soldados já não lhe têm medo, ao contrário, a veneram e lhe trazem prendas. E, a contar pelos presentes espalhados no chão, a romaria de gente continua. Eu toquei seu nome e lhe fiz um pedido. Saí dali com o coração leve. Na tarde de verão missioneiro, incrivelmente soprava um brisa. Era ela. Eu sabia. Tocou meu rosto, senti seu cheiro. E quando o carro partiu a vi pelo espelho. Voejava envolta em azul. Acenou e sorriu. Então lembrei a última graça que lhe pedira antes de partir da cidade, em 1977. Estava cumprido. Não era à toa que eu estava ali.