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segunda-feira, 27 de janeiro de 2025

O pátio da Dona Noêmia




Quando eu tinha 4 e 5 anos morava numa casa de esquina na rua João Palmeiro, em São Borja. Era uma casa grande, com um quintal imenso, mas o que me atraia mesmo era o casarão que ficava em frente, na outra esquina: a casa da Dona Noêmia e do seu Aparício. Ali viviam os dois com os seus filhos, uma das quais, Maria Elena, seria aquela que me levaria para o colégio, meu inesquecível primeiro ano no Francisco de Miranda, no bairro do Passo. Tenho-a na lembrança como minha primeira mestra, ainda que não tivesse sido minha professora. Era ela quem me pegava pela mão até o ônibus que nos levaria para escola, bem longe dali. Imagino eu que minha mãe confiasse muito naquela guria para deixar que sua pequena, de apenas cinco anos, fosse estudar tão distante de casa. 

O fato é que eu aprendera a ler muito cedo, ensinada por minha irmã, que fazia seus temas num quadro verde no quintal de casa. Eu via e aprendia. Dizia a mãe que a Maria Elena, ao saber que eu já lia, insistira para que eu fosse logo para a escola e assim aconteceu. Com ela eu empreendia, todos os dias, a longa viagem de ônibus até o Passo, até hoje lugar de minhas mais doces memórias.

Por conta dessa amizade, era comum a gente estar por ali, no pátio da casa da Dona Noêmia, brincando. Era um desses lugares de encantamento, cheio de plantas e um pouco úmido, onde assomavam flores coloridas. No meio dele um enorme poço, do qual a família abastecia a casa. E no seu entorno não era raro a gente encontrar algum desses sapos enormes, acostumados a viver no meio dos musgos. Tenho marcada na memória a figura da dona Noêmia puxando o balde enquanto seu Aparício tomava chimarrão na sombra da área. 

Agora em janeiro passei por São Borja, bem rapidamente, quando fui levar as cinzas do pai. E não poderia deixar de visitar minha querida primeira mestra, Maria Elena. Para minha alegria, além de abraça-la pude encontrar, linda, lúcida e cheia de memórias, a inesquecível dona Noêmia, hoje com 99 anos. Foi um desses momentos estelares, quando a alegria se faz plena. Tomamos tererê (os termômetros marcavam mais de 40 graus) e revivemos os bons tempos, contando da vida. 

Dona Noêmia, quase completando um século, lembrava cada detalhe daqueles tempos nos quais fomos vizinhas. Foram muitas risada e uma profusão de boas recordações. Quando chamei para registrar o encontro numa foto, ela levantou, bem serelepe, e foi ao banheiro pentear o cabelo para sair bem bonita. Uma querida. Naquela tarde calorenta com a cidade ardendo sob o sol, nós três desfrutamos da frescura da amizade que não morre. Passados quase 60 anos daqueles dias na João Palmeiro, o pátio da dona Noêmia segue sendo lugar de absurda beleza. O grande casarão não existe mais, mas aquele jardim secreto continua vivo na nossa memória.



sábado, 25 de janeiro de 2025

Museu Getúlio Vargas








Dos seis aos 10 anos vivi colada na vida de Getúlio Vargas, em São Borja. Minha família morava numa casa de aluguel pertencente à Dona Dília, getulista roxa. Bem em frente ao casarão do qual ocupávamos a metade estavam os fundos da casa do filho de Getúlio, Viriato, e alguns metros à frente, a casa do próprio Getúlio. Andar por ali era caminhar na história. Foram incontáveis as vezes que brinquei nos jardins da casa do Viriato com outras crianças que eram filhas das empregadas da casa. Ao contrário da casa do Getúlio, que sempre foi um típico casarão da Banda Oriental, a casa do Viriato se destacava como uma mansoneta moderna, com um imenso pórtico de pedras. 

Neste janeiro fui à São Borja e como não poderia deixar de ser fui visitar minhas memórias. Lá estava a casa da Dona Dília, sólida e impecável, bem como a do Viriato, esta transformada agora em uma empresa. Mais dois passos e Getúlio me acolhia com uma boa cuia de chimarrão. É que hoje tem uma estátua dele, sentado num banco, em tamanho natural, bem em frente ao casarão. 

A casa que hoje abriga o museu foi construída em 1910 e para ela se mudou Getúlio no ano seguinte logo após o casamento com sua esposa Darcy. Era ali também que ele tinha seu escritório de advocacia, no qual atendia a gente de São Borja, ricos e pobres. O museu foi idealizado pelo seu filho mais velho, o Dr. Lutero, e em 1984 foi inaugurado.  Ali se pode acompanhar a trajetória política do caudilho, ver os seus objetos pessoais, móveis, livros, documentos, roupas, discos, retratos e até a máscara mortuária. Getúlio está sereno na sua expressão final. 

Aquele dia em São Borja estava especialmente calor, com a sensação térmica acima dos 40 graus, ainda assim, por conta do pé direito bem alto, a casa se mantinha fresca e a visita pode ser feita com vagar. Por conta das mudanças na política local, a professora que atendia como guia havia sido transferida para outro espaço municipal e a casa contava com apenas uma trabalhadora. Ela não sabia dar muitas explicações sobre os objetos e a vida de Getúlio, mas era visível seu carinho pelo presidente. “Ele foi o pai dos pobres”.

E assim, enquanto a cidade ardia no calor, percorremos os cômodos reverenciando aquele que muito fez pelo Rio Grande, pelo Brasil e pelos trabalhadores. Foi o presidente que abriu a porteira do capitalismo moderno, mas que, ainda assim,  mantinha firme seus ideais nacionalistas. 

Para mim, a Elaine menina, além de ele ser o pai do seu Viriato, em cuja casa nos esbaldávamos, já aparecia como uma espécie de herói visto que meu pai tinha por ele muito respeito. Naqueles dias eu pouco sabia de sua história, mas já lhe queria bem, porque meu pai dizia que ele protegia os empobrecidos. Hoje conheço sua vida e suas contradições, e continuo lhe querendo bem...

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2023

Bolachas



Do Rio Grande guardo saudades atávicas. Memórias que se encravam na alma e que galopam nas noites frias dos invernos e nos abafados verões. O rio Uruguai, os balseiros, a gurizada banhando agarrada às boias de pneu de caminhão, as tormentas, o minuano, o túmulo da Maria do Carmo, o caminho para o Passo, o estádio do Internacional, o túmulo do Getúlio, a terra vermelha, o trigo, as ovelhas, as taipas dos arrozais. Memórias que pastoreiam meu cérebro sempre que a noite vem. 

Mas, há uma que me toma todos os sentidos: a bolacha. Suspeito que esse pão só seja feito ali nos pagos de São Borja e Uruguaiana, pois nunca vi em outro lugar no sul. A bolacha não é pão de sal, nem sovado, nem cabrito. É bolacha. Algo intraduzível e insuperável. Para mim bolacha é simplesmente sinônimo de infância. Não há uma única lembrança da minha meninice na qual não esteja, indefectível, a bolacha. Com manteiga, com salame, com queijo, com chimia. É parecida com um biscoito comum, só que grande, e imagino eu que deva ter uma maneira diferente de sova ou preparo. Não sei e nem quero saber. Porque, para mim, bolacha é também magia. 

Lembro que quando ia passar as férias de verão com os meus avós que moravam em Japejú, Uruguaiana, a gente andava quilômetros no meio das vacas e das caixas de abelha, da casa da vó até a “faixa”, que era como chamavam a estrada geral asfaltada, para comprar as bolachas do mês. Vínhamos carregando as bichinhas dentro de um saco desses de farinha, grande. Chegando a casa, a vó colocava todas elas dentro de uma lata de azeite, daquelas de 10 litros, e ali elas ficavam até que viesse o próximo mês, sempre molinhas e gostosas. Bolachas. 

Depois que saí da fronteira, há décadas, nunca mais vi uma bolacha. Até que ontem, elas me chegaram pelas mãos da minha querida amiga Cassiana, que veio de São Borja passar uns dias na ilha. Um saco imenso de bolachas as quais eu espio com os olhos mareados, percebendo nas suas curvas as belezuras da infância. Vejo a gurizada da rua brincando no engenho de arroz, as correrias na rua de chão vermelho, as conversas das famílias nas calçadas, o chimarrão na tardinha, vejo amigos que já se foram e outros que nunca mais encontrei, mas que ainda moram em mim. Vejo meu pai saindo pra rádio Fronteira do Sul, a mãe fazendo café com farinha, as gurias do seu Jesus e da dona Cira, a Cassiana passando pra gente ir pra aula, a Regina, a Luiza, a turma toda do CESB.

E, quando não, vejo assomando à porta a guriazinha de cabelos armados e patitas chuecas que eu era, com os olhos cheios de eternidade, estendendo a mão para o pão sagrado, mágico. Senta-se à mesa comigo, mulher de 60, e sorri. Somos uma só na alegria, na partilha da bolacha. É uma epifania. 

Obrigada Cassiana, por esse presente. E gracias por termos preservado, por quase meio século, essa amizade que não esmorece.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2023

Memórias


O ano é provavelmente 1972 ou 73 e aqui estão o Claudemir, Zé Newton (meu mano) e Elton, três amigos inseparáveis naqueles dias. E a foto me traz um mundo. Foi tirada na parte de trás da casa na rua dos Andradas, em São Borja, onde o pai colocava o fusca, entrando pelo terreno da casa do pai do Claudemir. Nosso velho fusquinha amarelo com o qual empreendíamos a deliciosa viagem à Uruguaiana todos os verões. 

Nossa casa fazia divisa com a casa da Dona Cira, mãe do Elton, e com a da dona Alda, mãe do Claudemir. Apenas uma cerca, como era comum, a qual era ultrapassada sem pedir licença no vai-e-vem da criançada. Nossa casa estava sempre em construção, como ocorrem ser as casas de quem não tem muito dinheiro. Essa parte de tijolo sem reboco que aparece era onde ficava o tanque e a sala do radioamador do pai. Sim, ele tinha um desses rádios que nos trazia o feitiço do mundo depois da janta, quando ele se instalava ali e ficava conversando com gente de todo o planeta. "QSL? QSL?" Talvez venha daí essa minha curiosidade pelo mundo e seus mistérios geográficos e humanos. 

O quintal era o espaço da fantasia de todos nós. Ali armávamos grandes batalhas com bonequinhos de plástico, inventávamos selvas, florestas, ou construíamos enormes cidades, onde circulava essa fulgurante frota que aparece na frente dos guris, orgulhosos. A casa de São Borja era como um útero, quentinho, protetor, e tanto que até hoje, sempre que eu sonho que estou em casa, é nesta casa que estou, com seus quartos grandes, cozinha vasta e pátio repleto de frutas e mistérios. 

É por isso que agora, olhando esses gurizinhos, que hoje já são homens, eu mais uma vez volto pra lá, buscando também a magricelinha que fui, de cabelo grande e cheia de sonhos. É sempre bom voltar pra casa...

segunda-feira, 17 de outubro de 2022

São Borja na memória


Pracinha da Lagoa

Quando eu estudava  no colégio das freiras a caminhada para chegar até lá era grande. Morando quase no final da Rua dos Andradas, eu ia serpenteando pelas ruas, passando pelos lugares mais bonitos da cidade. Era longe, mas para a guriazinha daqueles dias, o trajeto era uma aventura. 

Acordava cedinho, sem que ninguém me chamasse, sempre gostei de estudar. Já deixava preparada a pasta no dia anterior. Levava os cadernos bem encapados com plástico colorido, o estojo de lápis, os lápis de cor e o plástico dobrado para colocar em cima da carteira. Sim, naquele tempo a gente protegia as coisas no colégio e todo mundo tinha de levar um plástico que cobria a carteira. Assim a sala ficava colorida, pois cada um levava da cor que mais gostava. 

A mãe preparava o café, eu comia e logo saia troteando, carregando a bolsa pesada. Ainda não havia mochilas e era preciso carregar na mão. Gostava ainda mais quando era inverno e o vento minuano assoprava no meu ouvido. Aquilo era música pra mim. O frio intenso e a cidade vazia. Pegava a rua do CTG e logo dobrava para passar em frente ao Hotel Charrua. Ali, atravessava a Pracinha da Lagoa, passando pelas pontezinhas, observando os bichos nos laguinhos, vez em quando balançando no balanço, pulando pelas alamedas. Depois seguia em direção a casa Nemetz, onde me deliciava vendo as lindas vitrines, sempre bem montadas. Dalí passava em frente ao Cinema Municipal, com uma paradinha para vez os cartazes dos filmes, e então seguia para a Praça XV e a atravessava de ponta a ponta, já que o colégio ficava numa de suas esquinas. Eram mais de dez quadras, cumpridas com indisfarçável alegria. Depois tinha a volta, o caminho todo de novo, feito com a mesma lentidão, observando cada pequeno detalhe do trajeto.

Hoje, pensando nisso, vejo que vem desde aí essa felicidade que eu sinto quando ando pela cidade onde moro. Desde pequenina trago comigo esse olhar deslumbrado pelas coisas sempre vistas, nas quais geralmente consigo encontrar novidades intermináveis. Um caminho nunca é igual. Ainda que o cenário pareça o mesmo, tudo sempre está em mudança. É tão lindo prestar atenção, maravilhar-se, surpreender-se.

Assim era aquele caminho até o colégio, feito todos os dias, mas sempre tão novo. Era diferente no verão, no outono, na primavera, no inverno. Todas as manhãs aquela cidade me presenteava com seus cenários encantadores e surpreendentes, fazendo com que eu me perdesse e me encontrasse todos os dias. Guardo nas retinas as imagens, as cores e os sons, que me chegam agora no outono da vida de maneira tão vívida. 

Essa minha adorável São Borja, pampa amiga que forjou meu espírito missioneiro, estradeiro e payador. Como foi bom percorrer essas ruas e vivenciar tanta beleza... 



sexta-feira, 30 de julho de 2021

O CESB e meu primeiro amor



Estudei no CESB no início dos anos 70. Era o maior colégio público de São Borja e muito bem gabaritado. Formar ali era certeza de um bom ensino. Lembro-me de cada dia naquele saguão imenso, com suas colunas redondas, e a efervescência do bar que ficava bem na entrada, no lado direito. Éramos adolescentes e a vida se descortinava como uma grande aventura. Meu curso era o Curso de Defesa Sanitária Vegetal e Animal e além das aulas normais de português, matemática, física, e outras do tipo, tínhamos as aulas específicas do curso técnico. Aprendíamos a fazer horta, e a conhecer as culturas do arroz, do trigo, a criação de gado ovino e bovino. Numa cidade como São Borja, repleta de estâncias, aquele era um curso bastante procurado. Nossas aulas práticas eram na Escola Técnica Viriato Vargas. Eram tardes incríveis as que passávamos lá. Foi numa dessas que aprendi a dirigir trator e era bem engraçado ligar o bichão, visto que eu era muito pequena e magrinha. Tinha de colocar o peso do corpo todo na embreagem, num esforço danado, que gerava gargalhadas nos guris. Inesquecíveis foram as aulas com o professor Moacir, uma criatura doce e adorável. 

Mas, além de todas essas boas lembranças da vida escolar o que o CESB me trouxe de mais lindo foi o meu primeiro amor. Eu era completamente apaixonada pelo astro do vôlei da escola, um guri lindo e enorme. Tudo platônico, claro, até porque eu era extremamente tímida, reservada e me achava feia, então não tinha esperança alguma de namorar o guri, visto que as gurias mais bonitas do CESB estavam sempre à volta dele. Poucas amigas sabiam da minha paixonite pelo lindo Paulo Lul: a Regina, a Luiza e a Cassiana. Só que não precisava ser muito esperto para saber, pois eu simplesmente acompanhava todos os jogos do time do CESB, inclusive quando era fora e organizavam-se excursões para a torcida. Torcedora número um. O Paulo era meu sonho de adolescente e eu simplesmente botei na cabeça que ou eu casaria com ele ou com mais ninguém. Claro que ele não sabia disso e nunca soube. 

Por conta dessa paixão eu sempre chegava cedo ao colégio, esperando vê-lo sair de sua casa, que ficava a meia quadra do CESB, e vir, com seu passo dançante na direção do portão. Todas as manhãs eram assim. Ele vinha, passava por mim e eu morria. Nunca me dirigiu um olhar, e eu o amava até a morte. Seguia seus passos nos jogos de vôlei, e nas tardes dos finais de semana, fazia minha irmã passar umas mil vezes em frente ao Clube Comercial onde ele sempre estava com os amigos, na esperança de vê-lo.

Fui embora de São Borja em 1977, logo depois de me formar no ensino médio e nunca sequer lhe roubei um beijo. Mas ainda sonhava em casar com ele. Sonho que se esvaiu numa noite de verão quando uma carta da amiga Cassiana contava que ele havia se casado. Eu já tinha 20 anos e ainda pensava que poderia encontrá-lo. A notícia do casório acabou com tudo e eu finalmente decidi abrir meu coração para outros rapazes. 

Muitos anos depois também soube que ele havia encantado, ainda bem jovem, e chorei por dias. Um sonho definitivamente perdido para sempre. Ainda assim, conservo até hoje uma foto dele, que comprei na Foto Madrid, provavelmente tirada num carnaval. Era comum as fotos ficarem expostas na frente da loja para que as pessoas se achassem. Eu o achei e guardei pra mim. 

Hoje, passados tantos anos, ainda volto a essa foto com o maior carinho do mundo, pensando no beijo que nunca roubei e na jura secreta que nunca fiz. 

Por isso e muito mais, o CESB vive no meu coração, assim como o imenso e lindo Paulo Lul (na foto, é o que está agachado).




terça-feira, 25 de maio de 2021

A rua dos Andradas em São Borja







Mudamos para a rua dos Andradas, em São Borja, no ano de 1970. Em 1969 ainda vivíamos numa casa alugada, bem em frente à casa do filho do Getúlio Vargas, ao lado da Dona Dília e do Dr. Hildebrando. Lembro que nessa casa era bem comum brincarmos no carramanchão do dr. Hildebrando, com a filha da empregada dele, a Dona Tereza, e por vezes também circulávamos na casa do Viriato, entrando pelo portão dos fundos. Mas, foi na rua dos Andradas que vivemos os melhores dias porque ali estava a nossa casa própria, construída durante quase um ano inteiro. Quando nos mudamos acreditávamos que seria para sempre. Não foi assim.

A casa era ladeada por duas vizinhanças maravilhosas. De um lado a família Savian e do outro a Rodrigues. Cada uma delas acabou se transformando em família também porque a vida ali era vivida em comunhão. Na frente tinha a casa do Miro, da Dona Gersey e da dona Nezinha. Mais à esquerda o seu Ciro e na parte de trás do terreno divisámos com a dona Alda. Havia muita criança. Era um mundaréu. E também era comum andarmos todos circulando e correndo por dentro das casas como se nossas fossem. Não havia barreiras. Brincávamos de mocinho e bandido nas cascas de arroz, de pique-esconde pelas casas todas, de Tarzan, pendurados nos cinamomos da casa do Miro e nas noites ocupávamos a rua inteira em brincadeiras de todo o tipo, enquanto as famílias sentavam em frente às casas, enfeitando as calçadas. Nas noites de invernos íamos ouvir casos de assombração na casa do seu Ciro, com sessões comandadas pela Gorda, apelido da Fátima. Ficava a turma toda espremida na sala e depois, saíamos em algaravia, tudo abraçado, com medo de ver os espíritos. 

Era comum a minha irmã pular a janela para sair à noite com as gurias do seu Savian e apesar de acharem que estavam saindo às escondidas, a dona Nezinha sempre estava à espreita na sua janela, atrás das cortinas de crochê, e sabia de todas as escapulidas, fossem a hora que fossem. Era incrível. Sabia de todos os acontecimentos, de todas as casas, embora pouco fosse  vista. 

Entre a gurizada havia, na verdade, três gerações. Os jovens, da idade de minha irmã, os menores, como eu, e os mais criança ainda, como meu irmão. Mas, no geral, nossas atividades se misturavam porque em cada família tinha gente pertencente aos três grupos. E ainda tinha gente que vinha de mais longe como era o caso do Tiririca, que passava por ali sempre puxando sua vaca leiteira. Tinha-lhe tanto apreço que pintou seu nome na vaca, para evitar roubo. Não lhe conhecíamos a família, mas ele era um dos nossos, participando de todas as brincadeiras. Também tinha o Timóteo, que vinha pedir comida, e acabava ficando para brincar e o Juarez, que morava na rua transversal. Fazia parte do cenário também o Newton, um cara a quem chamavam de “louco” porque ele vinha xingar o seu Ciro todos os dias, gritando-lhe impropérios, indo depois pedir comida nas casas. Todos o amavam. 

Nas noites de verão, a rua de terra vermelha se alegrava inteira, com a multidão de gente, crianças e bichos nas rodas de chimarrão e de traquinagens. Brincávamos de Diabo-Rengo, Batatinha Frita, Sapata (amarelinha), Pique-Esconde, Passa o anel, Escolher Fita. Lembro que havia um homem, que morava quase no final da rua, numa casa bem simples, a quem atribuíam o fato de ser lobisomem. Ele era magrinho e sempre usava chapéu, com um bigode estilo Fernando Pessoa. Quando ele apontava na esquina do Bar da Zezé, a gente saía tudo correndo, se escondendo em casa. Estar ali fora era como possuir o mundo. 

Na esquina tinha o armazém da Dona Zezé, onde se comprava de tudo. Não havia isso de supermercado. Ela era uma mulher adorável, penteava o cabelo à moda antiga, armado de laquê. E ficava furiosa quando batíamos na janela, no horário do meio-dia, querendo comprar picolé. Ainda assim ela abria e trazia os picolés, não sem xingar à larga. E caso se precisasse de qualquer coisa, mesmo à noite, era só bater, que lá vinha ela no passo manso. O marido dela, um argentino chamado Pepino, era uma figuraça e estava sempre de bom humor, contrabandeando balas junto com o troco. 

Minha irmã, quatro anos mais velha que eu andava com a turma das gurias do seu Savian. Eu, com as gurias do seu Jesus e da dona Cira, sendo que a Liziane era minha melhor amiga. Com ela compartilhava os segredos e os dias. E ali A Negra e a Gordinha eram menores, mas acabavam sempre com a gente. A nossa casa se dividia com uma cerca, sem muro, praticamente compartilhávamos o mesmo terreno, então para estarmos juntas nem precisávamos sair de casa. Eu sentava na janela do quarto, do meu lado da cerca, e ela na da sala, do outro lado. O seu Jesus era uma figura incrível, grande e engraçada, sempre inventando coisas para a gente brincar. Lembro-me dele às vezes nos levando para a escola em um desses carros antigos, estilo alemão, uma preciosidade que comprou por puro gosto. Minha irmã tinha vergonha de ir, porque achava o carro velho, mas eu sabia que estava andando em uma joia e não via a hora de entrar naquela beleza. 

Vivemos ali apenas sete anos, mas com certeza é de onde me vêm as melhores lembranças, o sentido de comunidade, de solidariedade, de família estendida. Ali vivenciamos as amizades mais puras, as brincadeiras mais sadias, e aprendi o sentido da partilha e a beleza do comum. 

Saímos de São Borja no começo de 1978 em circunstâncias bem tristes, mas aquele lugar nunca saiu de mim. Tanto que sempre que eu sonho que estou em casa, é na casa da rua dos Andradas que estou. Voltei lá em 2009, mais de 30 anos depois, quando fui levar as cinzas da mãe e a rua estava lá igualzinha, com todas as casas, apenas agora calçada de paralelepípedo. Até mesmo o bar da Zezé estava aberto e tomamos uma cerveja lá. Também fizemos uma foto em frente a nossa velha casa, sem coragem de pedir pra entrar. 

Lembro que enquanto estávamos fazendo as fotos, num carro da casa ao lado, avistei uma carinha familiar. Era o Fernando, filho do seu Jesus, que eu conhecera bebê. Foi fácil reconhecer na hora os olhos clarinhos e a carinha redonda, muito parecido com minha amiga Liziane. 

Foi lindo circular outra vez naquela velha rua, reencontrando a minha criança interior. Agradeço e peço a bênção a todos os que me ensinaram tanto. Tia Tida, dona Mira, Preta, Sabiá, Gucha, Negrinha, Mimo, Tiano, Neco, Artur, Alemão, César, Serginho, Rosângela, Regina, Seu Artur, seu Donini e tantos outros que vivem em mim.


terça-feira, 5 de janeiro de 2021

São Borja, o engenho de arroz e a propriedade coletiva



Quando éramos pequenos, vivendo em São Borja, nossa maior alegria era brincar na montanha de cascas de arroz. Do lado da nossa casa, na propriedade do seu Artur Savian, havia um engenho. Lá dentro eles beneficiavam o arroz. O esquema era muito legal e entrar naquele engenho era adentrar em um mundo mágico. Enorme, cheio de tubos gigantes, a nossa Nárnia. O arroz entrava com a casca e no processo ela era descartada através de um enorme cano bem no alto do engenho, se armazenando na parte de fora. Isso fazia com que se formasse uma espécie de montanha de cascas.

Brincar ali era divino, apesar da coceira que dava depois. Mas, quando a gente é criança essas coisas não têm qualquer importância. Era bastante comum a gente fazer túneis nas cascas, nos quais entrávamos para nos esconder. Hoje eu vejo o perigo que era. Tudo era muito frágil e se aqueles túneis desabassem sobre nós, provavelmente morreríamos sufocados. Bueno, nunca aconteceu.

A melhor brincadeira era a de mocinho e bandido. E aí não importava muito se a gente era o mocinho ou o bandido porque o bom mesmo era ser atingido e rolar pela montanha de cascas. Era uma queda homérica, épica mesmo, com direito a várias cambalhotas. Descer rolando aquela montanha de cascas nos fazia todos excepcionais candidatos a dublês em filmes de ação. A nossa melhor aventura.

Não bastasse isso, naqueles dias não havia de maneira alguma o conceito de propriedade privada. Como a gurizada era muita, nas brincadeiras de esconde-esconde era comum a gente entrar na casa uns dos outros e nos esconder nos quartos, embaixo das mesas, nos armários. Se havia muros, os portões estavam sempre escancarados e nas demais casas só o que tinha era um cerca de arame, as quais ultrapassávamos sem problema. 

Lembro até hoje da querida Dona Mira, esposa do seu Artur, que vez ou outra se surpreendia com um de nós nos quartinhos que ficavam ao longo do enorme alpendre. Mas, não dava nada. Ela fazia cara de paisagem para não entregar ninguém e a turma seguia a brincadeira. Assim era também na casa da Nelci, onde buscávamos os cinamomos para brincar de Tarzan, pulando de galho em galho enquanto ela lavava a roupa sem se ocupar de nós.

Que tempos aqueles na rua dos Andradas, quando a rua e as casas eram de todos.

terça-feira, 21 de agosto de 2018

Sobre ser da fronteira

Foto: na beira do rio Uruguai/São Borja.

Eu nasci na fronteira entre Brasil e Argentina, e desde bem menina já sabia falar três línguas: o português, o espanhol e o portunhol. Estudei no Passo, o bairro de São Borja que fica na beira do rio, lugar de onde saía a balsa para Santo Tomé. Meus pés de menina pisavam as pedrinhas e a lama do Rio Uruguai quase todos os dias, e no fim de semana, com o pai, passávamos para o outro lado para comprar batatada e balas Mumu. Em épocas de enchente, corríamos para a beira do rio para ver passar as madeiras, conduzidas pelos paysanos e gaúchos, que as manejavam gritando: ibibibiuuuuururu.

Na fronteira, aprendi que a vida mesma não tem divisão. Argentinos e uruguaios eram como nós, filhos de uma mesma pampa, com história comum, com costumes comuns. São Borja, Uruguaiana, Quaraí, cidades irmãs de Santo Tomé, Paso de los Libres, Artigas. Nunca pude perceber onde cada uma começava ou terminava, ainda que as aduanas e os milicos de cara amarrada interpusessem paradas e rituais. A pampa é quase um estado de espírito. Está em nós e não lá fora.

Aprendi a ser latino-americana assim, ainda bem niñita, nesse enfrentamento diário com a vida, com a história e com a cultura. Ora tomando mate com leite, ora amargo, enchendo o pão com doce de leite, ou tomando limonada, comendo matambre, milanesa, dançando vanerão e chamamé. Quando comecei a entender o mundo, então, já estava tomada pela Pátria Grande. Não poderia ser diferente. Cada voz argentina era de um irmão. E aos argentinos e uruguaios foram se somando os bolivianos, chilenos, paraguaios, colombianos, peruanos, equatorianos, venezuelanos, cubanos, nicas, guatemaltecos, hondurenhos, mexicanos, caribenhos... todos e cada um.

Mas, é bom que se esclareça. Há dois tipos de fronteiriço. Os que ocupam as canhadas para delas se apossar (os patrões) e os que, sem nada além da força de trabalho, vivem nos descampados a dura lida do existir (os trabalhadores). Os primeiros não se ocupam de encontros humanos, são produtores de mercadoria, caçadores do lucro. Já os segundos veem o território como um amplo espaço por onde podem andar e viver, enredados com os hermanos, na mesma faina da manutenção da vida. Esses, trabalhadores, são seres amalgamados de horizontes diversos, e têm vários mundos girando dentro de si. Por conta das mesmas necessidades, não pode lhes caber preconceito, não pode lhes caber o ódio, não pode lhes caber o medo do outro. Porque estão também tecidos de outridades, o tempo todo e todo o tempo.

A única forma de mudar a forma amorosa de um fronteiriço é inventar um inimigo. E é assim que se fazem as guerras. Os grandes forjam sonhos de conquista e disseminam a ideologia do outro, no outro lado, como inimigo. Assim, aquele que até ontem tomava mate com a gente vira um monstro a quem temos de eliminar. A guerra é dos grandes, mas somos nós os que entregamos os corpos.

Amigos fronteiriços. Não há fronteiras. Tudo o que existe são desenhos pintados pelos que estão no poder. Assim se balcanizou a américa baixa. Pela ganância e pelo desejo de poder de uns e outros. Não fosse isso hoje seríamos todos patriagrandinos, filhos do mesmo continente. Com nossas particularidades, é fato, mas cheios dessa universalidade abyayálica que nos iguala. Toda terra nos pertence e por ela temos o direito de andar.

Quase 70 milhões de pessoas estão agora, agorinha mesmo, enquanto lês esse texto, saindo de sua terra ancestral. Caminham não porque querem – como eu, criança, indo buscar balinhas Mumu - mas acossados por guerras, fome, medo, ódio, engano, incompreensão. Carregam seus filhos, tralhas e esperanças. Tudo o que querem é um olhar doce, uma mão amiga, um pão, e a compreensão de que somos todos um pequeno gênero humano.

Que as pessoas que vivem nas fronteiras não caiam no conto dos latifundiários, dos empresários, dos gananciosos, dos comerciantes, dos que estão no poder. Não acreditem que o outro – igual a ti - é o inimigo. O inimigo é bem diferente. É o que te explora e te consome aí mesmo, no teu lugar. O que rouba tua força de trabalho, o que te incita a lutar guerras por eles, guerras que nem sequer podes entender.

Nós, os trabalhadores, temos de fazer aflorar a consciência de classe, ficar junto daquele que sofre o mesmo que nós, ainda que ele mesmo não perceba. Não nos deixamos levar pela invenção de um inimigo imaginário. O outro, que sofre, é meu/teu irmão. Com ele enfrentaremos a classe dominante. Com ele destruiremos o capital.

Se eu o renego, se queimo suas roupas, se maltrato seus filhos, estou dando linha para os que nos temem. Esses que sabem, que se estivermos juntos, ficamos mais fortes e podemos mudar o mundo. Por isso nos dividem e nos afastam. Não vamos temer o migrante, o que caminha, o que foge, o que procura vida melhor. Vamos travar com ele aliança e virar o mundo “patas arriba”.

O fronteiriço não pode erguer cercas, nem muros. O fronteiriço, por conter tantos, tem de ser ele mesmo espaço de comunhão.

Por fim, o fato é que nós, os trabalhadores, somos todos fronteiriços, sempre à beira de algum alambrado. E, como diria Victor Jara, é tempo de desalambrar.


quinta-feira, 1 de março de 2018

No enterro do Jango, o começo de uma caminhada




Era o começo de dezembro de 1976. Na pequena cidade onde vivíamos não se falava em outra coisa. Jango estava morto. A notícia se espalhou como um rastilho de pólvora, afinal, São Borja era sua terra-mãe. Em casa, o clima era de profunda tristeza. Nossa vida inteira tinha sido marcada pela presença de João Goulart. Meu pai trabalhava para ele na emissora ZYF-2 Fronteira do Sul desde os anos 60, quando Jango já era o dono da rádio. Com essa marca, de ser uma rádio do Jango, a emissora atravessou os anos de chumbo, sempre vigiada e com os censores à porta. 

Quando veio o golpe e Jango se exilou no Uruguai, ele distribuiu as ações entre os funcionários e a rádio funcionava como uma cooperativa, algo realmente inusitado naqueles dias de ditadura militar. O faturamento era dividido entre eles. O pai tinha o cargo de gerente e, por incrível que possa parecer, a rádio seguiu transmitindo, ainda que vigiada. Quando o governo de Garrastazu Médici já chegava ao final, em 1973, as coisas ficaram mais difíceis. A rádio começou a ter problemas. Os trabalhadores não conseguiam provar que as ações tinham sido passadas pelo Jango, e a fiscalização não deu trégua. O pai chegou a ir até o Uruguai junto com outro diretor da rádio para ver com Jango como regularizar tudo, mas não conseguiram. 

Finalmente, em 1975, já no governo de Ernesto Geisel, num belo dia, o representante do Dentel na cidade foi até o transmissor e cortou o cabo da antena. A rádio estava fechada, com o transmissor lacrado, sem nenhuma explicação. Era o fim da generosa proposta de uma emissora de rádio cooperativada. Aquilo tudo foi um baque na vida da família. Sem emprego e ainda com a marca de ser um dos caras do Jango, a saída do pai foi montar um pequeno negócio junto com outro diretor da rádio. Uma tabacaria, bem em frente à praça. Não deu certo, mas isso já é outra história.

Um ano depois do fechamento da rádio Jango estava morto e hoje é possível fazer as ligações sobre como a ditadura estava no pé do ex-presidente. Por isso não duvido de que tenha sido mesmo assassinado.

Naquele triste dezembro de sua morte, surpreendentemente, a família foi autorizada a trazer o corpo para ser enterrado em São Borja, embora houvesse ordens expressas para ser um enterro discreto, sem aglomerações.  Mas, esse foi um “milagre” que a ditadura não conseguiu realizar. A cidade fervia. Todos se preparavam para receber Jango. Ele teria as honras do povo. Lá em casa, preparávamos nossa melhor roupa. Iríamos ver o presidente, chefe do nosso pai, desse o que desse. O exército montou uma operação de guerra para impedir que houvesse qualquer manifestação. Já na ponte entre Libres (Argentina) e Uruguaiana o carro com o caixão foi parado com a ordem expressa de que seguisse até São Borja em alta velocidade, para que as gentes não pudessem saudá-lo. Ainda assim, se soube de centenas de pessoas à beira da estrada, despedindo-se do presidente. 

O combinado com o chofer era de que seguisse imediatamente para o cemitério. Mas, sabe-se lá como, o carro foi direto para a Igreja Matriz, onde as pessoas já se aglomeravam aos milhares. Nós estávamos lá, eu e meu irmão, agarrados à mão do pai. São Borja nunca vira uma manifestação como aquela. Eram mais de 10 mil pessoas rodeando a igreja. Depois dos ofícios, os milicos ainda tentaram sair com o caixão para levar, de carro, até o cemitério. O povo não deixou. O caixão foi arrancado das mãos dos milicos e levados pelos são-borjenses, em caminhada, até a morada final. Devia ter mais de 30 mil pessoas nas ruas. 

Eu tinha 15 anos, mas já estava familiarizada com a luta contra a ditadura. Lá em casa, sempre falamos e soubemos de tudo. E politicamente estávamos ligados ao então MDB. Mas, aquele enterro foi uma espécie de batismo na luta aberta, na ação de massa. Porque na clandestinidade já atuava, distribuindo panfletos do MDB, durante as noites, denunciando a ditadura. Só que naquele dia, no meio da multidão, devo ter entendido que quando estamos juntos, os nossos desejos não podem ser detidos. Nada do que o exército planejara aconteceu. Tudo saiu do script, pelas mãos do povo, e Jango atravessou a cidade nos braços dos seus. Aquilo foi bonito demais, e, hoje, recordando cada minuto daquele dia com a ajuda das memórias do meu irmão, percebo que foi também um divisor de águas para mim.

Quem conhece a fronteira sabe o quanto um dezembro pode ser calorento. Pois aquele dia foi assim. E durante o dia todo foi uma louca romaria, com os homens em mangas de camisa, suando em bicas, e as mulheres arrumadas para domingo, de salto alto e lágrimas no rosto. Eram quase cinco da tarde quando Jango finalmente desceu à sepultura. O cemitério cheio, gente por cima dos túmulos, todos dispostos a não arredar pé até o último instante de adeus.

Eu, meu pai e meu irmão, então com 10 anos, éramos um pingo na multidão. E fizemos todo o trajeto, rendendo as homenagens, como toda a gente. A manifestação, rebelde, popular e massiva, e a quebra de todas as regras impostas pelos milicos ficaram marcadas em mim como um sinal. Era preciso enfrentar o que fosse para que nossa gente enterrasse a ditadura militar. E aquela despedida missioneira, dramática, cadente e sofrida, se fixou nas retinas, para sempre. Dois anos depois, já em Minas, integrei-me visceralmente à luta pela anistia e nunca mais deixei estar no movimento popular. 

De todas as formas, a vida e o governo de João Goulart, o Jango, bem como sua morte, marcaram minha/nossa vida para sempre. E eu o tenho guardado dentro do coração. 




segunda-feira, 17 de outubro de 2016

Minuano e Tormenta

























Vivi até os 16 anos em São Borja, fronteira com a Argentina, na pampa, região de descampado. Espaço de muitos conflitos, ora de espanhóis, ora de portugueses, sempre de guaranis, charruas, minuanos e tapes. Banda oriental, terra de Manuel Artigas, el caciquillo, grande guerreiro charrua.

Além da geografia – campo aberto, sem morros ou montanhas – dois recorrentes fenômenos naturais forjam as gentes do lugar: o vento minuano e as tormentas. Quem passa por isso pode enfrentar o que mais vier nessa vida. Assim dizem os mais velhos.

O minuano é um vento forte e gelado que vem das zonas polares. É cortante, enregela ossos e alma. Quando ele sopra poucos se encorajam sair de casa. Eu não. Ainda menina, gostava de colocar o brinco de argola, sem qualquer proteção na cabeça, e andar pelas ruas vazias, afrontando sua força. O vendo assoviava, passando pelo brinco, fazendo um som de choro, um lamento, alguma coisa muito triste. Mas, ao mesmo tempo, aquele zunido me aparecia como um desafio. Avançar pelos caminhos, de cara para o vento, sozinha, era meu jeito de festejar a chegada do frio.

A “tormenta” é outro fenômeno que também forja nosso espírito. Chuva forte, vento louco, raios e trovões assustadores. Quando ela vinha todos se abrigavam nas casas, acendendo ramos bentos, fazendo ladainhas para Santa Bárbara. Minha mãe cobria todos os espelhos da casa, desligava os eletrodomésticos e fechava as cortinas. Mas, eu, não me abatia pelo medo e gostava de apreciar o espetáculo. Corria para a janela e espiava o tropel da natureza, passando em desenfreada carreira, arrastando coisas e gentes. A força incomum da Pachamama, mostrando que nada pode detê-la, muito menos a arrogância humana. Tempo de aprender que o planeta tem de ser espaço de convivência e não de destruição.

Quando tudo parava, as gentes saiam pelas ruas, olhos postos na destruição, ajudando os vizinhos que tinham tido as casas destelhadas ou derrubadas. Um mutirão de solidariedade em meio à devastação.

Essas eram cenas que se repetiam, ano a ano. O minuano no inverno, as tormentas no verão. Duas estações de embates, quando enfrentávamos o destino de viver na pampa, nos construindo como fortalezas. E, no meio disso, a alegria de viver, de resistir, de renascer. Força e sensibilidade.

Talvez por isso o Campeche me tome assim, por inteira. Aqui voeja o vento sul, esse malino, que arranca as roupas do varal, descabela e destelha. E chega de chofre, em qualquer estação. Para mim, filha do minuano, ele é só uma brisa. E me enredo na sua dança louca, tal qual fazia nos caminhos de São Borja, com o vento assoviando nas orelhas.

Agora, por tantas alterações que fazemos com a natureza, já chegam por aqui também as tempestades, como ontem. Raios, trovões e ventania. Mas nada que se compare ao tropel da tormenta fronteiriça. Por isso, espio da janela, sem nem acender ramos bentos. Enquanto a chuva bate com força, eu chimarreio e penso que a tormenta, a tormenta mesmo, aquela, da pampa, vive é em mim. E, tal como na fronteira, aparece assim, sazonal, poderosa e arrebatadora.

É bom que se tema. É bom que se tema! E para essas há que clamar à Santa Bárbara. 


sexta-feira, 27 de junho de 2014

Quando tudo fica gris







O rio Uruguai, sempre uma bênção






Onde era o bar do picolé, agora é agropecuária, mas segue ali, firme.










A escola Francisco de Miranda, ainda de pé...






 
Minha irmã mais velha foi quem me ensinou a ler. Ela chegava da escola e fazia os deveres numa pequena lousa de "brinquedo", fazendo as vezes de mestra, ensinando. Eu, olhuda e atenta, aprendia. Mal sabia ela o tanto de bem que me fazia. Tinha cinco anos quando fui levada para a escola pela nossa vizinha, Maria Elena, que era professora. O colégio era longe, ficava no bairro do Paso, bem na beira do Rio Uruguai, e a gente ia de ônibus. Pelo caminho, eu vislumbrava uma cidade diferente da que se via pelo "centro". O quartel, enorme, se estendendo por metros a fio, os guardinhas parados vigiando o nada, as casinhas pequenas, os pátios cheios de bergamoteiras, as pessoas sentadas na varanda, as mulheres varrendo a calçada, a gurizada correndo pelas ruas de chão. A Escola Municipal Francisco de Miranda tampouco era diferente do bairro onde se encontrava. Simples, com partes de madeira, carteiras velhas. A diferença é que tinha, bem na entrada, a foto do grande precursor das batalhas de libertação nessa nossa imensa Abya Yala: Francisco de Miranda. Imagino eu que foi ali que meu sentido de pertencimento a essa américa baixa foi se formando.

Na hora do recreio, a gurizada se espalhava pelo campo enorme que havia em frente a escola e a maior aventura era correr até o casarão da esquina para comprar picolé. Naquelas horas de folguedo também era possível se misturar às crianças do bairro, muitas delas com voz argentina. Essa coisa boa de viver na fronteira. Uma mistura de línguas e costumes. Voltar para casa, tão distante da escola, era sempre triste. Era como adentrar outro mundo, um mundo que não tinha o encantamento da vida do Paso. Foi assim que me apeguei aos livros. Por sorte, meu pai tinha pena dos vendedores de livros que batiam à porta, com sua algaravia de provações, e comprava tudo o que ofereciam. Assim, desde bem pequena tive contato com o que há de melhor da literatura nacional. Coleções inteiras com as obras de Machado de Assis, Aluísio de Azevedo, Castro Alves, Euclides da Cunha, Graciliano Ramos. Também chegavam livros sobre os Incas, Maias, Astecas, os povos africanos, os grandes filósofos, os mitos gregos. A minha casa era um mundo encantado.

Foram os livros também os responsáveis pela minha tristeza. De tanto conhecer as coisas do mundo, fui ficando macambúzia. Tanta impotência com os dramas humanos. Como entender a destruição dos indígenas? Ou a dor de um continente inteiro, como o africano? Como explicar a violência do nazismo? Por que havia tanto mal, tanta miséria, tanto aniquilamento? Minha mãe, católica praticante, dizia: "são os desígnios de deus". Mas, eu, desconfiava. Se deus era puro amor, aquilo não era obra dele. Parecia evidente que era obra humana. Mas, por quê? Não tinha a resposta. Lia mais e mais, e nada. Decidi que não poderia ser alegre com tanta tristeza nesse mundo. Passei muitos anos assim, mergulhada na desesperança.

Todo esse pano de fundo me levou ao jornalismo. Amante das palavras, a vida só parecia fazer sentido quando eu mesma juntava as letras e contava as histórias. Se não havia como salvar as pessoas de tanta tragédia, pelo manos narrá-las, para que não se perdessem na noite da história. E assim fui, pelos caminhos, re-construindo mundos. Pretensiosa aventura, sempre inconclusa. Já era adulta quando percebi que podia ter direito a algumas alegrias, e re-aprendi a rir com vontade, gargalhar, desfrutar dos pequenos momentos de felicidade que aparecem na vida da gente, num átimo. Esses que valem uma vida.

Ontem, vendo um vídeo que contava a história de um homem - Nicholas Winton - que ajudou a salvar 700 crianças do horror nazista, me abateu a tristeza de outrora. O repórter aludiu ao terror daqueles dias, tão longínquos. E o sábio velhinho redarguiu, ligeiro: "Não se engane, os dias de hoje não são melhores do que aqueles. Falta ética e compromisso". Bateu como um martelo. Pura verdade. "A humanidade não aprendeu nada", disse, desolado. E me deixou, assim, nessa tristeza infinda...


quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Com Maria do Carmo, outra vez...!





Eu era menina quando ouvi as gurias mais velhas falarem de um túmulo que havia atrás do quartel, na cidade de São Borja, fronteira com a Argentina. “Ela é santa”, cochichavam, e preparavam prendas para levar quando fossem pedir para que viesse o príncipe. Andava-se muito para chegar até lá e os adultos não aconselhavam percorrer a pequena trilha no meio do mato. “É perigoso, vão sossegar”. Mas que, as gurias não descansavam enquanto não iam levar as ofertas e fazer os pedidos àquela que alguns davam como certo fazer milagres.

As versões do caso eram muitas, mas a que mais se ouvia era de que lá pelo mês de agosto de 1890, ali havia sido assassinada a jovem Maria do Carmo Fagundes, guria de vida airosa, que era como chamavam as prostitutas naqueles dias. Mas, ao que parece, esta tinham um princípio irremovível: jamais se deitava com milicos. E vem daí a tragédia. Conta-se que um soldado apaixonou-se por Maria do Carmo e, desesperado por saber-se impossível, decidiu que ela não seria de mais ninguém. Então a matou, bem ali, atrás do quartel, o mesmo lugar onde alguns poucos amigos a enterraram. Mas, sua alma alegre não suportou a fria terra, e ela decidiu que ali vagaria, acolhendo as dores do amor e fazendo felizes aqueles que lhe pedissem graça.

Foi aí que começaram os milagres. Não são poucas as histórias de gente que viu a mulher de longos cabelos negros brincando com o vento, fazendo os soldados, que ficavam nas guaritas do quartel, tremer feito vara verde. Desde aí se espalharam os feitos da Maria do Carmo, a prostituta virada santa. Seu amor foi embora? Clame à Maria do Carmo. Faltou dinheiro? Clame à Maria do Carmo. Bateu a depressão, faltou o príncipe encantado, a vida foi pelo ralo? Clame à Maria do Carmo.

Quando chegava o mês de agosto era de lei caminhar pela trilha até o pequeno túmulo para levar flores, perfumes, bijuterias. A Maria do Carmo era nossa Iemanjá, venerada no outono. Não foram poucas as lágrimas derramadas naquele campo santo, fruto de amores não correspondidos e desejos de vida feliz.

Então, o tempo passou, eu cresci, fui embora da cidade, mas a força da santa das mulheres sempre me acompanhou. Há alguns anos (2009), num janeiro, passei por São Borja, num átimo. Tinha várias opções. Ver alguns velhos amigos, visitar antigos vizinhos, caminhar pelas veredas da minha infância. O tempo era curto, mas não hesitei. “Quero ir ao túmulo da Maria do Carmo”. Por algum motivo, aquele lugar nunca saiu de mim, espaço de encantos e sortilégios. Surpresa eu constatei que já não havia trilha, nem mato, não era mais um lugar ermo. Havia casas por perto e uma estrada de chão levava até o campo santo, agora cercado, pintado e sinalizado. Pelas placas que ali estão, vê-se que a obra é de 2005.

Maria do Carmo dorme no pequeno túmulo azul, simples, mas bem cuidado, e ao seu redor multiplicam-se os presentes. Flores, perfumes, velas, bijuterias. O tempo passou e a mulher alegre, de longos cabelos continua bailando atrás do quartel. Dizem que os soldados já não lhe têm medo, ao contrário, a veneram e lhe trazem prendas. E, a contar pelos presentes espalhados no chão, a romaria de gente continua. Eu toquei seu nome e lhe fiz um pedido. Saí dali com o coração leve. Na tarde de verão missioneiro, incrivelmente soprava um brisa. Era ela. Eu sabia. Tocou meu rosto, senti seu cheiro. E quando o carro partiu a vi pelo espelho. Voejava envolta em azul. Acenou e sorriu. Então lembrei a última graça que lhe pedira antes de partir da cidade, em 1977. Estava cumprido. Não era à toa que eu estava ali.