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quarta-feira, 27 de março de 2019

A violência de todo o dia será discutida em Audiência Pública




Comunidades da periferia e dos morros de Florianópolis, bem como militantes sociais e juventude estão em processo de luta contra a violência policial que vem recrudescendo dia a dia em Florianópolis. É sabido que a repressão aos pobres não é coisa de hoje, mas nos últimos tempos piorou, com ações extremas no centro da cidade, próximo a bares e espaços de convivência de público jovem, adeptos do Hip Hop e LGBT, marcadamente popular. 

Na segunda-feira (25), moradores do Mocotó, no centro da cidade, bloquearam a rua que dá acesso à Avenida Mauro Ramos, denunciando mortes, surras e até a ordem de toque de recolher na comunidade, o que tem assustado as pessoas e inviabilizado a vida. A Polícia diz que está na luta contra o tráfico e age dentro da lei, mas o relato das famílias é de que a ação violenta é indiscriminada. Nem todo mundo que mora no morro é bandido, dizem. E uma pessoa precisa saber o porquê de estar sendo detida ou surrada. Também questionam que esse tipo de ação fique focado apenas nas comunidades pobres quando é sabido que os traficantes mesmo, os graúdos, os que abastecem as bocas, não vivem nos barracos da periferia. E jamais se soube de uma ação policial violenta em áreas nobres da cidade. Mesmo quando prende algum traficante de peso, tudo é feito dentro dos trâmites, com mandato e tudo. Na comunidade, não. 

Ainda na segunda-feira, enquanto a comunidade do Mocotó se mobilizava numa ação desesperada, já que suas demandas não têm visibilidade, foi feita uma visita ao Batalhão Central da Polícia Militar, onde uma comissão do Movimento Popular, que já vem acompanhando esse aumento da violência policial contra pobres e movimentos sociais,  entregou um documento denunciando as ações da PM e convidando o comando da instituição para participar da Audiência Pública que acontece nessa quarta-feira (27), na Assembleia Legislativa, às 18h e 30min, justamente para debater o abuso policial e a violência. Faixas foram colocadas em frente ao quartel, para informar a sociedade sobre a questão. Logo em seguida o grupo foi até o terminal urbano, para conversar com as pessoas e também convidar para a audiência.

Hoje à noite, na Alesc, os movimentos pretendem discutir em profundidade com todas as autoridades locais e espera-se que representantes da PM e da Prefeitura também participem. A luta social não é crime e as comunidades de periferia não são redutos de ladrões e bandidos. Tanto na luta popular como nos espaços de moradia da periferia da cidade estão os trabalhadores buscando viver com dignidade. À violência do crime não pode se contrapor outra violência, é o que argumentam. 

Os movimentos sociais estão chamando concentração para as 18h e 30 min, em frente à Assembleia. A Audiência Pública começa às 19horas. Esse é um tema que diz respeito a todas as pessoas, pois a continuar o processo indiscriminado da violência, ninguém está protegido. Nem os policiais, nem a população. A proposta do debate é encontrar caminhos de proteção e de paz, afinal, a polícia existe é para proteger os cidadãos. Todos e Todas.  

Moradores do Mocotó fazem barricada

Movimentos Sociais no centro da cidade


domingo, 30 de abril de 2017

Não é o método, são os motivos



Na Venezuela, "opositores"

 No Brasil, "vândalos"

Certa vez um amigo me dizia que colocar fotos de palestinos mortos nos atos pela Palestina não era bom. Afastava as pessoas. Ninguém quer ver tragédia, argumentava. Eu fiquei muito tempo pensando sobre isso, tentando encontrar outras formas de falar sobre a Palestina ocupada e violentada. Mas não havia. Eu então me perguntava. Mas por que tanta gente assiste a esses programas horríveis, de mortes e tragédias? Se não gostam de vê-las, por quê?

O mesmo se dá com o lance dos vândalos. Quando os que quebram e depredam estão na Venezuela, são “opositores”. Se isso acontece no Brasil, contra a reforma da Previdência, são vândalos. 


Ora, não é preciso a gente ser muito inteligente para se tocar. Não é o método. São os motivos. Se alguém sai às ruas botando fogo em prédios públicos, carros de polícia e machucando pessoas, mas o faz contra o “ditador” Maduro, tudo bem. São até transformados em heróis. Vejam o caso do ex-prefeito de Chacao, Leopoldo Lopez, que é tido como um “prisioneiro político” pela direita mundial. Incitou o povo à violência e foi o responsável por mais de 40 mortes.


Mas, no Brasil, se as pessoas quebram vidros, queimam ônibus, ou se defendem com pedras de uma polícia assassina, são chamados de vândalos. E as carolas destilam seus ódios pelas redes sociais, desejando que jovens morram, porque não deveriam estar na rua lutando contra a ditadura do capital. 


São dois pesos e duas medidas. Noam Chomsky já desvendou essa dupla mirada que existe principalmente nos meios de comunicação. No seu livro “Guardiões da Liberdade” ele mostra como os inimigos dos Estados Unidos são mostrados como bandidos, à exaustão. E os inimigos dos amigos dos EUA também. Já os amigos que fazem coisas ruins, aparecem muito rapidamente, numa nota de roda pé. E olhe lá. 


A questão deve ser vista então sob um olhar de classe. Todos aqueles que lutam contra o sistema capitalista estão a favor dos trabalhadores, tem um lado claro, sem rugosidades. E os que atacam os governos progressistas ou socialistas, mesmo que sejam pobres, estão ao lado da classe dominante. Escolheram um lugar. E não é do lado dos trabalhadores. Preferem seguir comendo as migalhas da mesa do banquete dos patrões. 


Por isso os jovens venezuelanos “guarimbeiros” aparecem na mídia como defensores da liberdade. É uma verdade isso aí. Só que a liberdade que eles estão a defender é a de meia dúzia de milionários que os descartarão tão logo cheguem ao poder. Ou o manterão apenas como subalternos, cães de guarda.


Já a nossa juventude que se arrisca no confronto com as forças da repressão, são os “comunistinhas vagabundos”, os que estão “pedindo para levar”. E se por acaso se ferem gravemente ou morrem, os bons cristão proferem a sentença: bem-feito, quem mandou fazer baderna. E se quebram o vidro de um banco então, deus nos acuda. Pobrezinhos dos bancos. São tão pobres que precisam ter suas dívidas de 25 bilhões perdoadas pelo governo. Claro, o governo pode tirar do trabalhador. 


Então a parada é simples. Não importa como a gente faça a luta. Se nossos motivos forem as lutas contra o capital ou contra a classe dominante, a ideologia que é vomitada pelos meios de comunicação sempre nos colocará como bandidos. Ainda que entreguemos flores, como foi o caso de uma ciclista em São Paulo. Ela ofereceu flores ao prefeito João Dória e ele indignou-se, jogou tudo pela janela. Pois não é que teve gente que achou bom? Na visão dessa gente a garota e seu gesto de paz era apenas “uma ridícula”. Pois é. Insisto: não é o método, são os motivos.




sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

Quando a regra é eliminar


Três homens agridem um mendigo em Porto Alegre

As cenas se repetem sem pudores nas redes sociais. Imagens horrendas do massacre em Manaus, homens espancando mendigos em Porto Alegre, outros homens matando um camelô em São Paulo, mais 30 presos mortos em Roraima. E tudo está normal. Normalíssimo. Basta uma olhadela nos comentários. No geral o mantra se repete: "bandidos e pobres – sinônimos – é tudo lixo e precisa mesmo ser eliminado".  

Isso não se configura uma novidade quando vivemos num mundo no qual o outro é sempre visto como inimigo. Nossa sociedade é gerida pela pedagogia do medo. Esse é o caminho “educativo” que os grandes meios de comunicação oferecem. E não vamos esquecer de que os grandes meios televisivos chegam à casa de 97% dos brasileiros.  A pedagogia do medo se reforça todos os dias em programas policialescos, que mostram à exaustão as tragédias humanas. Mas, não quaisquer tragédias. Elas têm classe. No geral são os pobres e os negros matando ou roubando “gente de bem”. Como se só esses crimes fossem dignos de nota. Os crimes dos ricos não saem nos jornais. Por isso mesmo, a sociedade vai criando medo daqueles que se lhes aparece como os “do mal”.

No geral, quando os meios dão destaque a algum crime de rico, impossível de deixar passar, como foi o caso da Richtoffen, que matou os pais, sempre é mostrado como uma patologia. Algo que aconteceu por conta de uma falha na matrix. E a vilã ainda acaba passando por vítima. Já os pobres, não. Eles são condenados mesmo sem provas. Bastou ser pobre e negro e pronto. Já está dada a sentença.  Por isso, torna-se “natural” que as pessoas em geral não se sensibilizem com a morte de pessoas assim, mesmo em condições de selvageria como foi a do presídio em Manaus. Na cabeça da maioria, aqueles eram homens “do mal”, portanto, receberam o que mereceram. Nenhuma reflexão sobre o que pode tê-los levado ao crime, ou se de fato, todos eles era mesmo criminosos. Não. Pobres. Já julgados: “culpados”!

Outro elemento típico da sociedade ocidental é o que incita a eliminar aqueles que causam estranhamento ao senso comum. Não é sem razão que há mais de 15 anos, em todos os países do mundo, fazem estrondoso sucesso programas chamados de “reality shows”, estilo Big Brother, com todas as suas imitações, no qual essa pedagogia do medo pode ser exercitada. É um jogo cruel, no qual o público tem a vida dos participantes nas mãos. Qualquer coisa que o jogador faça pode ser motivo para a eliminação, e as pessoas ainda pagam uma ligação telefônica, engordando o lucro das empresas, para ter o gosto de “eliminar” os que consideram chatos, bobos, metidos ou qualquer outra coisa que venha a atiçar esse lado selvagem.

Não se trata de uma questão moral. Pessoas boas e pessoas más. É uma sociedade inteira sendo alfabetizada no medo, no ódio ao pobre, ao negro, ao homossexual, ao diferente, que, ao fim e ao cabo, nem é tão diferente assim. O jogo real é justamente esse que está fora do jogo da TV, a vida, programada e palmilhada por toda essa ideologia vomitada dia após dia no rádio, na TV, no jornal, na escola, na família. E assim, na vida, diariamente, vamos “eliminando” todos aqueles que nos incomodam. Sem qualquer pudor. Eliminar está legitimado.

Colada a essa ideologia está o próprio sistema capitalista que é, em sua natureza, um jogo de competição e destruição do outro. São os jogos vorazes em ação.  É fundamental que os trabalhadores compitam entre si, se matem até, para que o 1% que domina o mundo siga com sua vidinha de paz e riqueza. Por isso não vê falar nada ruim do mundo dos ricos. Só coisas boas, festas, celebrações, champanhe, viagens, o mundo perfeito. Uma espécie de espelho onde todos querem ver sua face refletida. Só que não é possível. É uma ilusão. Pelo menos não no sistema capitalista que exige o pobre para que o rico exista. Além do mais, esse mundo perfeito é só um quadro do tipo de Dorian Gray. Bonito na aparência, mas na essência cheio de podridão, porque, afinal, se sustenta a partir da vida e do sangue dos outros.

Assim é que entre os que estão na parte abaixo do 1% sempre ouviremos falar que “bandido bom é bandido morto”, que quem morre na favela é porque mereceu, que as chacinas nas comunidades e nas prisões são momentos de “limpeza”. Essa é uma mentira que se faz verdade pelo processo da repetição exaustiva. Poucos se importam em saber por que existe a pobreza, por que pessoas vivem em condições sub-humanas, por que o crime vira uma opção.

Poucas coisas podem mudar esse cenário horripilante, mas cotidiano. Uma tragédia pessoal talvez possa furar a bolha criada pela ideologia dominante. Isso comumente acontece, mas não muda a vida da maioria. Muda apenas a da pessoa afetada. É bom, mas é pouco. Haveria de se arranjar uma forma coletiva de mudar essa forma de pensar. Uma revolução.

Enquanto não construímos essa opção, resta a perplexidade.


sexta-feira, 20 de setembro de 2013

A dor do outro


Tenho um amigo que diz que a dor singular não deve nos comover, que precisamos atentar para o coletivo. Mas, adelmiana que sou, é do singular que eu caminho para o universal. Talvez, por isso, a dor do outro, que tem nome e sobrenome, me toque tão profundo. Penso firmemente que na história de uma pessoa singular está escondido o mundo. Daí que toda história pode ser um caminho para se entender o universal. 

Na madrugada dessa sexta, alguém, talvez um pequeno grupo de jovens, agrediu de forma brutal um homem bom. Não sei o seu nome, mas todos os dias eu o vejo. Sentado como um rei africano, muito ereto, olhar fixo em alguma coisa que me escapa. Seu rosto é como uma esfinge e os olhos, perdidos, são como um lago profundo, escuro, e repleto de imagens que só a ele compete ver. O cabelo é branco e comprido. As roupas em trapos. Ainda assim, há uma majestade nele. Não o vejo pedindo, ou falando com alguém, nada. Sempre que passo no centro lá está ele, sentado, impávido, mergulhado no mundo interior. Hoje pela manhã o encontraram, o rosto sangrando, o olho vazado. “Não sei o que aconteceu. Eu acordei assim”. 

Testemunhas falaram de quatro jovens a dar-lhe pontapés. E ele, tão abandonado em si mesmo, que nem se apercebeu. Chamam-no de o “Barba”, por ostentar uma barba longa. Não fala com ninguém, ninguém sabe de sua história. É um homem só. Ao vê-lo ali, indefeso e assombrado com a maldade humana, bate aquela desesperança com a raça. O que leva um guri a ver um homem pobre como um nada? Por que aquele que está na rua, sabe-se lá porque, precisa ser eliminado? O que temem os que veem os pobres como lixo? 

O Barba se foi para o hospital. Pode ficar sem a visão. Os caras podem nunca serem encontrados, afinal, “era só um mendigo”. E se forem, pode acontecer como o que passou com aqueles guris que queimaram o índio Galdino, ou seja: nada. O Barba certamente voltará para a rua, e sentará ali no mercado do mesmo jeito, altaneiro e ensimesmado. Mas a nossa cidade já não será mais a mesma. Coisas como essa são pontos de viragem. Alguma coisa se perdeu hoje nesse ataque tão covarde... E é aí que a dor do Barba se universaliza, porque coloca em xeque essa sociedade bruta, que coisifica as pessoas e elimina as que, de alguma forma, lhe incomoda. 

 E a gente fica assim, impotente, pensando que a vida é um sopro, um mísero sopro...