quarta-feira, 10 de junho de 2026

A comunitária do Campeche resiste


Desde há dois anos, a Rádio Comunitária Campeche vem enfrentando pesados reveses. Primeiro foi a perda do estúdio. O terreno onde estava, com uso em comodato por mais de 20 anos, foi colocado à venda pelo Sinergia. Tivemos de ver o estúdio, feito pelas mãos da comunidade, ir ao chão. Com a derrubada do estúdio começou uma batalha para garantir novo espaço onde fosse possível colocar a antena. Reuniões na prefeitura, na SPU, conversas, um incessante vai-e-vem. Sem a antena, a rádio perdeu várias oportunidades criadas pelo governo federal, com editais para as comunitárias, que ajudariam muito na manutenção. 

Sem o estúdio, para não ficar de todo muda, a rádio conseguiu um espaço no Sindicato dos Trabalhadores da Justiça Federal (Sintrajusc), onde foram montados os equipamentos e desde ali, seguiu transmitindo na internet. Mas, sem um ambiente próprio, no qual pudesse receber a comunidade, a rádio foi ficando um pouco desconectados da vida mesma. Afinal, a força maior sempre foi o contato, a presença, a rádio aberta para o bairro. Ainda assim, a comunitária seguiu com a programação musical e um único programa ao vivo, o "Campo de Peixe”, todos os sábados pela manhã, na tentativa de manter os vínculos com a cidade e com a comunidade.

Ainda no ano passado a rádio foi acionada na Justiça pelo ECAD, exigindo o pagamento mensal de direitos autorais. As comunitárias vêm numa luta de anos para ficar isentas deste pagamento já que não são empresas, não visam lucro, não vendem produtos. Mas, depois de longa batalha, a justiça decidiu que isso não importa. Que os direitos são devidos e devem ser pagos. De nada valeu mostrar ao juiz as nossas finanças, a realidade de uma emissora comunitária que arrecada por mês apenas o suficiente para pagar luz, água  e telefone. Nesse cenário, incluir um valor mensal para o ECAD seria praticamente impossível. Mesmo assim, não teve choro, perdemos a ação. 

O resultado foi a condenação que resulta no pagamento de uma multa bem salgada, mais o valor do pagamento do advogado do ECAD e, se quisermos continuar transmitindo, o pagamento da mensalidade ao ECAD.  Isso significa - incluindo todas as despesas  - um valor de 900 reais que, para uma rádio que vive apenas das contribuições dos sócios, é verdadeiramente uma montanha a ser superada. Além do mais, se levarmos em conta a manutenção dos computadores - sempre com problemas por conta da maresia - que exige frequentes campanhas para conseguirmos pagar, o drama se aprofunda. 

Não bastasse tudo isso, agora estamos esperando que o governo federal aprove a renovação da outorga, num processo que tem se arrastado por mais de um ano. É incrível como empresas como a Globo, a Band e outras desse porte têm suas outorgas liberadas em dias, enquanto as comunitárias precisam amargar um calvário burocrático que não tem fim.

Com todos esses problemas foi chamada uma assembleia geral, no dia 16 de maio, para que os sócios pudessem tomar pé da situação e decidir o destino da rádio. O cenário é difícil. Estamos a dois anos buscando um lugar onde reconstruir a rádio. Uma batalha dura, pois o bairro vive um momento de grande valorização fundiária. A terra aqui é ouro.

A situação da rádio se põe complicada e por conta disso, uma das propostas que veio para a assembleia foi a do fechamento. Uma proposta difícil, se considerarmos os 27 anos de vida e de resistência desta pequena valente, que já enfrentou muitos vendavais. É certo que nunca tantos ao mesmo tempo. Fechar significaria cerrar as portas para uma comunidade que, sim, mudou muito, mas que ainda precisa de um espaço onde possa expressar a voz das lutas necessárias que continuam acontecendo. Então, depois de muito debate, os sócios que acorreram à assembleia decidiram que é preciso fazer um esforço para manter a rádio funcionando. E foram apresentadas propostas de ações para garantir que a comunitária siga irradiando: campanhas de arrecadação para o pagamento da multa, aumento da anuidade, busca de parceria no comércio local. Uma batalha.

Também foi estipulado um prazo até o final deste ano para ver se todos esses nós se desatam. O ponto central é torcer para que o Ministério das Comunicações libere a renovação da outorga. Há uma pequena luz no fim do túnel no que diz respeito a um terreno onde replantar nossa rádio. Tudo está por se definir até 2027. 

Como podem notar pelo relato, o tempo é ruim, mas tem aberturas de sol. O trabalho comunitário é assim, sempre cheio de percalços... Mas, há lutadores, há garra, há trabalho.

Por agora temos um grupo organizado que insiste em manter a rádio no ar. Todos os esforços estão sendo feitos. Já atravessamos alguns desertos. Este pode ser só mais um. Numa conjuntura em que as redes sociais e as big techs estão engolindo nossas almas, manter a comunitária é um compromisso ético. 

Vamos conseguir…

OBS – Quem quiser ajudar com doações, estamos recebendo. Chave PIX: 03434315000135 

quinta-feira, 4 de junho de 2026

Universidade e MST: Pontes de Esperança




Fotos: Maria Isabel Serrão


Quando em maio de 1985, cerca de 1.500 famílias ocupavam duas fazendas em Abelardo Luz, no oeste do estado, apareceu para o mundo o Movimento dos Trabalhadores Sem-Terra, uma organização que juntava agricultores na luta pela terra. Uma gente que plantava e produzia, mas sempre em terra alheia, trabalhadora, sujeita aos humores dos grandes proprietários. Aquela ocupação abriu um caminho para os camponeses brasileiros que penavam no campo, sendo obrigados a migrar para as cidades, aprofundando ainda mais a miséria. Depois dela outras ocupações começaram a aparecer por todos os cantos do país, mostrando que aquele movimento veio para ficar. Não era um bando de “criminosos” como diziam alguns. Eram famílias organizadas que queriam trabalhar e produzir. 

E assim, enquanto o MST crescia, garantindo terra e produção, a universidade também começou a perceber que ali estava algo novo de original, que especificamente foi específico. E, nos mais diversos cursos foram aparecendo pessoas - estudantes e professores - querendo observar mais de perto aquele movimento. Na UFSC não foi diferente. Já nos primeiros anos do MST desenvolveu trabalhos de final de curso e dissertações com o objetivo de narrar e compreender a luta dos agricultores. E, com o passar do tempo, a relação que era apenas de estudo passou a ser também de interação. 


Na medida em que o MST avançava na luta era necessário fazer pontes com a cidade, afinal fez, a razão principal do movimento - produzir comida - estava visceralmente ligada à mesa dos trabalhadores. E foi assim que os Sem-Terra começaram a também fazer parte da realidade citadina, realizando marchas, encontros, protestos e atividades políticas na capital. fornecer somaram-se ao MST os sindicatos, os movimentos sociais e as universidades - UFSC e UDESC. Todas essas forças passaram a desenvolver parcerias, seja no apoio político, seja no apoio estrutural. No caso das universidades, em pouco tempo, já havia um bom grupo de professores e alunos desenvolvendo projetos nos mais diversos campos do saber, em conjunto com o MST. Por diversas vezes a universidade foi espaço de grandes encontros como foi o caso dos Encontros Estadual do Sem-Terrinha, que reuniu crianças dos acampamentos e assentamentos para discutir a realidade do processo de reforma agrária. Mas foram muitos outros…


Essa relação de parceria, que se estreitava com pesquisadores, professores e estudantes, foi se aprofundando e abrindo veredas jamais imaginadas. Foram esses encontros cidade/campo, universidade/MST que aconteceram ao nascimento do PRONERA (Programa Nacional de Educação na Reforma Agrária) no governo de FHC. E, a partir daí, vários outros projetos foram criados, participantes na produção, distribuição e distribuição, que só fizeram avançar o conhecimento bem como a luta pela reforma agrária. Além disso, esse movimento cidade/campo faz nascer o Curso de Educação do Campo, hoje uma referência em todo o país.   


Em 2025 comemoraram-se os 40 anos do MST em Santa Catarina e um grupo de professores que já atua nesta parceria, em conjunto com a Udesc, decidiram criar um projeto chamado “Pontes de Esperança”, buscando recuperar a memória desta caminhada conjunta. Assim, com a ajuda de uma emenda parlamentar conquistada no processo comunitário do deputado petista Pedro Uczai, foi garantida uma palavra para a gravação de depoimentos dos que ao longo dos anos consolidaram esta parceria. Além disso, também foi construída coletivamente - UFSC, UDESC e MST - uma proposta de monumento para marcar esses 40 anos de caminhada conjunta. Esse monumento, que dará destaque justamente para a memória - está sendo construído no lugar onde agonizava a velha Concha Acústica. O espaço será recuperado e tudo será eternizado a memória desta relação campo e cidade, saber acadêmico/saber popular, universidade/MST. É bom registrar que esta é uma construção coletiva que envolveu mais de mil pessoas de todo o Estado, num processo de respeitosa escuta e que traduz a esperança de paz com justiça social, com o campo e a cidade irmanadas por um projeto agropedagógico de sustentação de todas as vidas, e do planeta. O Monumento Pontes de Esperança, em linguagem artística, expressa horizontes de cura e integração de todas as formas de vida.             


Paulo Capela e Sandra Dalmagro coordenam o projeto que em breve deverá inaugurar o monumento, bem como disponibilizar um espaço denominado “Memorial dos Trabalhadores e Trabalhadoras”, onde ficarão eternizadas a história deste longo processo de construção de uma sociedade justa. UFSC, UDESC e MST, juntos, ensinando e aprendendo. Não por acaso, o Memorial ficou na antiga sede dos Volantes, espaço histórico dos trabalhadores da UFSC. O caminho para esta parceria começou a ser trilhado com a concretização da memória dos trabalhadores da UFSC, os primeiros a se organizarem em associação, também gravado em vídeo. Assim, o memorial, além de guardar a história da relação MST/UFSC e UDESC, guardará outros relatos de luta dos trabalhadores da própria UFSC. Um processo que deverá estar em construção constante. 


Em breve todo o material será disponibilizado na internet. 



sábado, 23 de maio de 2026

A Venezuela caiu

Aviões estadunidense mostrando força em Caracas

 Lembro-me da dor profunda que senti quando Chávez morreu. E do tanto que chorei. Era o fim de um sonho de ver nossa América baixa soberana. Nunca mais aquela voz de trovão, aquele riso, aquele olhar de águia. Sabia que Maduro o haveria de suceder, mas não seria igual. E não foi. Ainda assim, creio que Maduro, com erros e acerto, ia cumprindo o legado bolivariano, anti-imperialista. Foi estrangulado com o roubo do ouro e das divisas da Venezuela, também com as sanções comerciais, até que acabou sequestrado numa espetaculosa ação estadunidense que, certamente, contou com um traidor. Trinta combatentes cubanos caíram defendendo Maduro, firmes até o fim, leais companheiros da Pátria Grande. Com eles mais outros 70 venezuelanos.

Já andava triste com o caminhar das coisas na Venezuela desde o sequestro criminoso, que foi tratado pelo mundo inteiro como coisa normal. Está bem. Foi sequestrado. Legal! Nenhum protesto, nada. Só o vazio das vozes. E, dias depois a vice-presidente em exercício, Delcy Rodríguez, já recebia enviados estadunidenses para discutir coisas do país. Venezuela estava tomada. Caíra naquela madrugada quando Maduro foi tirado de casa e levado embora para os Estados Unidos. Só o sangue dos 100 soldados cubanos e venezuelanos que tombaram foi testemunha. Depois veio a abertura da embaixada dos EUA e o subsequente roubo do petróleo.

Hoje de manhã voltei a chorar, copiosamente. Porque até então alimentava algumas ilusões. Delcy estava dando tempo ao tempo, mantendo o povo tranquilo, esperando a boa hora para que a Venezuela voltasse a ser autônoma. Mas, hoje, vendo os Estados Unidos realizarem manobras militares bem no centro de Caracas, treinando com aviões de guerra no que chamaram de “capacidade de resposta rápida” vi que não há mais espaço para ilusão. A Venezuela bolivariana caiu. E assim, sem, qualquer resistência popular. Apenas os 30 cubanos e os 70 venezuelanos que deram a vida pelo sonho de Chávez.  

No dia seguinte ao sequestro não estavam nas ruas as milícias, treinadas durante anos. A população, acalmada pela presidente e pelos demais dirigentes, esperou. E o resultado é esse: políticos e empresários estadunidenses tomando conta das riquezas do país e militares ianques fazendo provocações, como essa dos aviões ensaiando uma “resposta rápida” no centro da capital. Acordei do torpor. A Venezuela é hoje mais um país ocupado pelos criminosos da “américa”. Ali está, de joelhos, como jamais poderia supor. Cedendo a cada pequeno capricho do governo invasor. Sem qualquer resistência. Trump ainda tripudia e diz que com o petróleo que tirou da Venezuela está conseguindo pagar a conta da guerra que armou contra o Irã. E o mundo quietinho, quietinho... 

Este é certamente um momento triste para Nuestra América. Venezuela ocupada, Cuba sitiada, Raul ameaçado de sequestro, Colômbia em risco, sanções e chantagens sobre qualquer um que resolva não pactuar com a sanha imperialista, resistência enfraquecida. A impressão que tenho é de que toda a gente está com a cara no celular vendo alguma dancinha enquanto nosso continente queima, a Palestina queima, o Líbano, o Sudão e tantos outro lugares onde alcança a mão criminosa do império. 

É certo que já vivemos momentos assim, e superamos. Com alto custo, é óbvio. Quanto ainda haveremos de pagar, por termos riquezas e por querermos ser livres? Não sei... O que sei é que chove... Na cidade e em mim. E o presente é tão desgarrador quanto a frase do androide no Blade Runner: "Todos esses momentos se perderão no tempo, como lágrimas na chuva. Hora de morrer." 



quinta-feira, 21 de maio de 2026

Os destinos do HU da UFSC




 A audiência pública realizada hoje na UFSC sobre os destinos da Ebserh, empresa que administra o Hospital Universitário desde há dez anos, e que está com seu contrato vencido, mostrou que esse não é um tema pacificado na comunidade. Há os que defendem a não renovação do contrato, ancorados no descumprimento sistemático do que foi acordado no contrato anterior. Há os que defendem um novo contrato que incorpore garantias de campo de estágio e de formação para os estudantes do campo da Saúde, na lógica da universidade pública e não de uma empresa privada como é hoje. E há os que defendem a renovação do contrato por mais 20 anos, segundo o modelo que a empresa tem para todos os HUs do país. Embutidos aí, nestas três propostas, estão claramente três projetos diferentes de universidade. 

Defender a não renovação do contrato implica em travar uma luta larga e dura com o governo federal. Desde que o governo Lula criou a Ebserh, lá no final do seu segundo mandato, ele simplesmente tirou os HUs da mão das universidades. Seria a partir de uma empresa de direito privado que o hospital passaria a ser gerido. Todo o sentido de ser de um HU começou a ser destruído. E os recursos, que antes eram repassados diretamente à universidade, passaram a ser jogados na Ebserh, que precisaria cumprir determinadas “metas”. Então, o que era um hospital-escola público, que formava médicos numa perspectiva de saúde pública, com os estágios e residências sendo coordenados por professores da universidade, passou para a mão privada. A formação dos médicos começou a ser priorizada na lógica da saúde privada, e a universidade foi perdendo o controle dessa formação. 

É importante lembrar que os HUs foram criados, não para atender à comunidade nos casos gerais, mas para ser um centro de formação capaz de produzir ciência. Ou seja, um espaço de formação no qual estudantes e residentes poderiam avançar na pesquisa de atendimentos complexos. O Hu não deveria atender casos comuns, que poderiam ser tratados em qualquer hospital público. Mas, com parcas opções de hospital público de qualidade na capital, com o tempo, a comunidade foi encontrando no HU o espaço para consultas, tratamento e procedimentos não-complexos. Aí já foi uma grande derrota da universidade. Porque, envolvidos nos atendimentos que deveriam ser prestados pelo Estado, os estudantes perdem espaço para pesquisa e construção de novos conhecimentos. O estado, ao não criar novos hospitais de referência públicos, jogou para o HU essa carga e, hoje, é ali que chegam pacientes de toda Santa Catarina. Porque não há hospital de referência nas regiões, a sobrecarga é no HU.  

A chegada da Ebserh só aprofunda o problema, porque agora o hospital é gerido apenas na lógica do lucro. Qualquer série estadunidense de hospital, destas que são famosas na TV, mostra bem como a banda toca. É o dinheiro que comanda. E o médico formado dentro dos princípios do lucro é diferente do médico formado com os princípios da saúde pública, como bem comum e direito de todos. Só por isso a Ebserh deveria ser rejeitada. Mas, não foi. Quando a comunidade da UFSC teve a chance de decidir, ela disse não. Só que a reitora da época, Roselane Neckel, levou a reunião do Conselho para dentro do quartel da Polícia Militar e os conselheiros votaram pela aprovação da Ebserh. Segundo tombo para o HU.

Desde aí, nestes 10 anos de administração, muitas lutas foram travadas para que houvesse fiscalização do contrato. O Sintufsc batalhou bravamente. Muita coisa acordada não foi cumprida, o que por si só já deveria garantir a quebra do contrato. Ninguém teve coragem. E a Ebserh fincou raízes. 

Agora, a empresa quer empurrar goela abaixo um contrato de mais vinte anos, que mantém as coisas como estão, aprofundando cada dia mais o processo de mercantilização da saúde. Qualquer pessoa que defenda a saúde pública rejeita essa proposta. Não é possível.

Como o governo federal não está nem aí para o problema, não há qualquer ação que aponte para a retomada dos HUs pelas universidades. A Ebserh não é questionada pelo governo brasileiro, apesar de todas as denúncias de não cumprimento do contrato acordado em vários HUs espalhados por todo o país. O governo lava as mãos. Daí o segundo grupo entender que, sem financiamento garantido pelo governo, não é possível abrir mão da Ebserh, por isso a tentativa de construir um contrato menos leonino, como esse apresentado pela comissão que trabalhou por três anos seguidos. A proposta é melhorar algumas coisas, como garantir o controle da universidade na formação de médicos e outros profissionais da saúde, medidas administrativas colegiadas ou cooperadas, enfim, dar algumas rédeas para a universidade manejar. É uma decisão pragmática, mas nada garante que na mesa de negociação a Ebserh aceite a proposta. 

O argumento de que o governo não financiaria é furado. Se há dinheiro para ser colocado na Ebserh, que esse mesmo recurso venha para a universidade. A universidade saberia gerir.  Ou não? Eu aposto que sim. Saberia, e melhor. Mas seria preciso um movimento forte a sustentar essa decisão. Luta, camaradas, luta!

O terceiro grupo que topa o contrato da Ebserh como está é o que lucra com ele ou que compactua com a lógica privada. Há gordos salários em disputa, há muitos negócios envolvendo toda a maquinaria de um hospital. É a privatização em estado puro, mantendo um atendimento público pelo SUS, mas controlando a formação de profissionais na lógica privada. Tudo de boa com o capital. 

Aí está o imbróglio. E é nestes cenários que vamos decidir. Ou melhor, o Conselho Universitário vai decidir, dentro do nada democrático 70/30, no qual trabalhadores TAEs e estudantes, serão minoria. 

Nestes cenários nem falei dos dramas dos trabalhadores que precisam conviver, parte públicos, parte privados. Que muitas vezes se encaram como adversários. Porque uma eventual partida da Ebserh colocaria muitos trabalhadores CLT na rua. São as questões mais intestinas que precisam de outro texto. Procurei dar uma visão de macro para que as pessoas que não são da UFSC possa entender melhor o que está em jogo. 

terça-feira, 7 de abril de 2026

Sobre as mentiras e a UFSC


Irineu, a melhor pessoa


As eleições na UFSC sempre foram um embate entre a direita e a esquerda. Porque aí está embutido um projeto de universidade. A direita usa a universidade para seus propósitos particularistas, nas parcerias privadas, nos projetos ligados a empresas, numa visão privatista. A esquerda pensa a universidade como espaço do conhecimento que deve ser direito de todos, e busca incentivar a pesquisa de temas que tenham a ver com o desenvolvimento regional e nacional, sempre numa visão pública. 


Em cada eleição para a reitoria, essa dicotomia volta a aparecer. Por vezes, os grupos mais à esquerda se dividem, mas a direita nunca. Podem divergir no que for, mas quando chega a eleição, se junta. Historicamente são sempre batalhas duras. A direita, useira e vezeira de empunhar armas sujas, mas, de certa forma, ainda havia algum pejo. As coisas não eram muito claras, se escondiam, se camuflavam. Hoje, não. O pessoal da direita se orgulha do seu jogo sujo.


Nesta eleição em particular estamos vendo o reitor da UFSC, Irineu, candidato à reeleição, ser atacado moralmente por essa turba de gente desonesta. Sujam aquilo que lhe é mais caro: a sua genuína honestidade. Vendo postagens nas redes sociais a impressão que se tem é de que o irineu é um monstrinho com sede de poder e, que, usando de sua condição de reitor, está manipulando as regras da eleição.


Isso é uma mentira. Mas, esse é o jogo dos desonestos. Mentir e mentir e mentir, até que pareça verdade. Até mesmo jornalistas de nome têm reproduzido essas mentiras, sem fazer o que é o mínimo no jornalismo: checar. Também temos visto políticos menores, buscando tirar uma casquinha, reproduzindo comentários totalmente descabidos. Um festival de desonestidade e vigarice.


Nós, na universidade, temos lutado uma vida inteira contra esses grupos que não suportam a democracia, que sonham em tornar a universidade seu pequeno feudo. Pessoas que defendem a constituição de uma aristocracia docente, acreditando que apenas os professores têm capacidade de dirigir. São contra o voto universal e abominam o voto paritário, que equilibra as categorias. Essas pessoas olham para os trabalhadores não-docentes com absoluta indiferença e não aceitam um espaço igualitário, no qual todos têm o mesmo peso e valor. São esses os que estão alardeando que a UFSC está um caos e que o Irineu é um inepto. Um velho e conhecido jogo sujo, que só explicita o preconceito e o autoritarismo. Querem voltar ao tempo da fazendinha, onde mandavam e desmandavam.


O reitor não tem nada a ver com a Comissão Eleitoral. Não é ele quem escolhe. Os integrantes da comissão são escolhidos nas categorias, pelos integrantes de cada categoria. Já faz algum tempo que esse grupo que sonha com a eleição 70/30 (que significa 70% de peso para os professores), tenta melar o processo eleitoral. Não é de hoje. E quando não consegue impor a sua proposta, faz beicinho e sai do jogo, mostrando que não sabe mesmo viver em democracia. Querem de volta a fazendinha.


O reitor da UFSC não tem nada a ver com a Comissão. Ela é autônoma, não responde a ele, não tem ligação alguma com ele. Isso foi uma conquista nossa. Tirar o processo da mão do poder instituído. O erro com relação à lista de Blumenau, foi um erro da comissão. Não há nenhum complô armado para fazer o Irineu ganhar a eleição usando de jogo sujo. Essa não é a prática das entidades que historicamente vem bancando o voto paritário. Basta uma olhadinha na história. Mas, quem se importa com a história, né? O que vale é acreditar em sujeitos abjetos como um ex-deputado direitista que quer fazer palco para sua próxima campanha política. O que vale é cegamente acreditar no discurso que quem pouco se importa com os destinos da universidade. O jogo nós já conhecemos bem. O tristemente famoso gabinete do ódio bolsonarista fez isso desde 2018, defendendo a família ( a sua), a pátria (dos EUA) e a propriedade (a sua). Um jogo que vem criando monstros e destruindo pessoas. Hoje seguimos vendo essa mesma prática, inclusive entre alguns que se dizem de esquerda. É dramático.


O cenário está em plena vista. Há que ter olhos para ver. A direita não discute a universidade. Ela ataca a pessoa do reitor. Porque ele não é da turma dos aristocratas. É o combo bolsonarista. A direita diz que é preciso "mudar” para transformar a UFSC. Transformar no quê? No seu reduto privado? Querem a volta da fazendinha.


Olho vivo, trabalhador. Olho vivo, estudante. A "mudança” proposta pela chapa da direita é nada mais, nada menos do que o retorno da universidade à esfera do privado. E isso é que é o caos. 


A gestão do Irineu/Joana pegou a UFSC em escombros, depois de uma pandemia e de encolhimento orçamentário. Não fez milagres, mas avançou em coisas muito importantes. 


Agora é disso que se trata: seguir avançando ou caminhar para trás. 


Por vezes "mudar” é o pior. O mudar que está na boca dos verde-amarelo é a volta da fazendinha. Tu quésh? 



domingo, 22 de março de 2026

A eleição na UFSC



Dia primeiro de abril é dia de votar para escolher quem vai ser reitor da UFSC. De minha parte, sigo com Irineu e explico o porquê da minha escolha. Demoramos muito para escolher um reitor que, além das questões gerais da universidade, realmente enxergasse os TAEs. Foram muitas gestões mais à direita ou conservadoras. Tivemos esperanças com Roselane, mas sua gestão foi um fracasso. Basta lembrar o triste episódio da aprovação da EBSERH dentro da Polícia Militar. Cancelier tinha bastante entrada ente os TAEs, mas, infelizmente, por conta do horror da Lava Jato, não conseguiu terminar o mandato. Por fim, veio o Irineu e, com ele, tivemos muitos avanços.

A primeira mudança foi no quesito participação. Esta foi uma gestão que primou pelo processo participativo, com os TAEs assumindo espaços importantes nos Conselhos e nas instâncias da UFSC. Acolheu as demandas históricas dos trabalhadores e fez com elas se tornassem reais, como o Controle Social, por exemplo, além de outras pautas como a flexibilização e o tele trabalho. Na grande greve realizada em 2024, abriu as portas da reitoria, para que os TAEs discutissem com todo o grupo dirigente as demandas internas e muito se caminhou em estradas até então estéreis. Aprimorou o combate ao assédio moral e valorizou os trabalhadores com a distinção de TAE Emérito, momento inédito. Num tempo em que a saúde virou mercadoria e os Planos privados comem os salários buscou viabilizar a volta do atendimento gratuito à saúde dos trabalhadores nos moldes do antigo SASC, que deve começar em pouco tempo.


Administrou a UFSC num de seus piores momentos. Saíamos de uma pandemia com a estrutura da universidade bastante prejudicada, dávamos início a um novo tempo marcado pela vida online e pelo esvaziamento do campus, além de enfrentar mais cortes no orçamento. E mesmo que ainda tenhamos problemas estruturais, muito foi feito, com reformas em todos os espaços e o planejamento de obras há muito reivindicadas, como a do Centro de Convivência, que deverá ressurgir. Diante do aperto orçamentário foi à luta, buscando as emendas parlamentares para garantir o funcionamento da UFSC. 


Para os estudantes esta também foi uma administração atenta. Aumentaram os valores das bolsas – reivindicação antiga -, teve política de permanência para mães, a construção da casa para os estudantes indígenas, mudanças significativas no sistema de ingresso, aumento das políticas de ação afirmativa e até café da manhã, que incluiu também os trabalhadores terceirizados. 


Esta foi uma gestão que não se furtou ao debate. Os grandes temas sempre tiveram as reuniões do Conselho Universitário abertas, sem qualquer confronto com estudantes ou TAEs. O caminho da conversa e do respeito foi o mais trilhado. E, através da popularização da Editora, a UFSC levou o livro para a praça e tem aberto veredas nacionais no campo editorial. 


É claro que a UFSC não virou um paraíso. Os problemas existem, novos e velhos, e vão sendo resolvidos da melhor forma. É fato que a brutal terceirização iniciada com o governo FHC segue causando estragos e não é fácil administrar mais de 300 contratos com empresas privadas que, muitas vezes, deixam a universidade na mão. Mas, gerir uma universidade é isso mesmo. Desafios de toda ordem que precisam ser desenrolados e vencidos no dia-a-dia. 


Agora, com Moretti como vice, novas dinâmicas se anunciam. Ele é um colega vibrante e resolutivo, e está disposto a colocar sua energia para que a UFSC possa passar por estes tempos de mudança de temperatura do mundo, garantindo sua importância social e fomentando a capacidade de ser uma referência para o desenvolvimento regional e nacional. 


A Ufsc Unida é nossa melhor opção.

terça-feira, 17 de março de 2026

O HU e a armadilha da EBSERH





Vivemos tempos difíceis, nos quais os argumentos já não são mais suficientes. Há um clima de torcida organizada, e cada um, ao ter escolhido o lado, fecha os ouvidos para qualquer coisa que venha do outro lado, mesmo que seja algo bom pra a comunidade. É o caso do HU, o Hospital Universitário, cujas obras foram finalizadas em 1980, servindo desde ai como hospital escola, formando os profissionais da saúde que se espalham pelo estado. De lá até hoje é o único hospital público federal do Estado. 

De 1980 até 2016, o HU foi custeado pelo governo federal. Sofria dificuldades como sofrem todos os órgãos públicos e muitas vezes precisou apelar para uma fundação privada, principalmente para contratar funcionários. Estes problemas, igualmente vividos por outros HUs do país, em vez de serem resolvidos com mais investimento – já que saúde é um direito de todos  - acabaram encontrando uma “solução” mais fácil, mas também mais perigosa. E foi o próprio presidente Lula, em seu segundo mandato, quem empurrou esse explosivo para dentro dos hospitais. Criou uma fundação privada para gerir os HUs, a malfadada EBSERH.

Na época houve uma gritaria geral. Em todas as universidades, reitores e comunidades se levantaram contra a proposta, pois já sabiam que privatizar a administração não daria bons resultados. O governo insistia com o sofisma de que era uma fundação pública, de direito privada. Mas, na prática, a lógica instaurada era de uma gestão privada: metas, produtividade, redução de custos. Ora, como reduzir custos em saúde? A catástrofe era óbvia.

Apesar de toda gritaria contra, o governo de Lula criou a Fundação e foi obrigando cada Hospital a migrar para o novo sistema. Dizia que cada universidade poderia decidir, mas, na prática, quem ficasse de fora, não teria de onde buscar dinheiro. Na UFSC, a comunidade se mobilizou, discutiu e decidiu em uma votação pública e aberta por não aderir a EBSERH. Cerca de 70% dos votantes disseram “não”. Apesar desta decisão, a reitora da época, Roselane Neckel decidiu que aderir era o melhor a fazer e, evitando protestos e mobilizações, acabou levando a sessão do Conselho Universitário para dentro da Polícia Militar. Uma decisão inédita e inaceitável que já dava mostra de que o CUn poderia decidir contrariamente a decisão da comunidade. E foi o que aconteceu. A UFSC então aderiu à EBSERH.

De lá pra cá, o que todos já denunciavam se cumpriu. E, em vez de melhorar o atendimento, tudo piorou. Não bastasse o atendimento ao público ter piorado, o hospital foi, aos poucos perdendo a sua característica principal, que é o de ser hospital escola. Isso aconteceu em todos os HUs, as denúncias são frequentes e bem fundamentadas. Lá, já não há vastos espaços de estágio e mesmo os poucos que ainda existem são supervisionados sob outra ótica de serviço, que é a lógica do privado. Assim, os alunos dos cursos ligados à Saúde, que podiam fazer formação no HU, acompanhados por professores da UFSC, foram minguando. O relatório a comissão criada em 2023 para avaliar os serviços deixou isso bem claro. 

Agora, a EBSERH, que imperou nos últimos 10 anos, quer renovar o contrato com os HUs por mais 20 anos. E, como é óbvio, a comunidade universitária precisa decidir sobre isso. Afinal, é tempo demais, e principalmente porque a lógica privatista se aprofunda. Vejam, o HU é 100% SUS, mas a forma como é administrado responde a interesses privados, portanto elementos como produtividade e redução de custos estão acima do interesses público. O que pode ser produtivo num hospital? E que custos podem ser reduzidos num tratamento? Isso não tem qualquer sentido. 

Vai daí que o atual reitor, o professor Irineu, não quer fazer como fez a Roselane. Levar a discussão e a decisão de um contrato deste tipo para dentro da PM. Esse contrato tem de ser conhecido pela comunidade, debatido e decidido pela comunidade. Por isso, como o primeiro contrato terminou, a proposta foi fazer uma prorrogação do contrato por 120 dias. Neste prazo, os debates vão acontecer e a comunidade vai decidir. Logo, não há perigo de a população perder o atendimento, como anunciam alguns veículos, de maneira sensacionalista. ´Há um parte substancial da comunidade que não quer mais a EBSERH dentro do HU. Afinal, com ela, todo o sentido do HU se perdeu e quem mais perdeu foi a universidade que não conta mais com o vasto campo de estágio proporcionado pelo hospital. Perde também a sociedade que recebe profissionais formados mais pela lógica do lucro que do público.  

A questão de fundo que praticamente ninguém debate é: por que Lula criou a EBSERH? Que interesses estão em jogo? Como justificar a entrega de grande volume de dinheiro para uma fundação gerir os HUs, se as próprias universidades poderiam fazer isso, como sempre fizeram? Pesquisas realizadas dão conta de que se esse volume de dinheiro que escorre para a EBSERH fosse investido na universidade, os HUs estariam bem melhor arranjados que agora, servindo muito mais à comunidade e sem perder seu papel crucial de hospital-escola. Ocorre que há pouco embate por parte dos reitores. A maioria prefere entregar o HU para o privado. Algumas universidade até já renovaram o contrato leonino de mais 20 anos.  Isso enfraquece a luta, porque se a maioria adere, os que não aderirem terão de enfrentar grandes dificuldades para manter o HU, visto que o governo se desobrigou.

O que se sabe é que o Ministério da Saúde não quer os HUs, bem como o Ministério da Educação. Estão se lixando. Logo, há que ter uma luta nacional contra a EBSERH. Há que responsabilizar o governo federal por esse erro. Há que fazer o governo federal se responsabilizar pelo financiamento público de uma gestão pública do HU. A batalha é gigante, mas precisa ser travada. Esperamos que a comunidade UFSC entenda isso, bem como a sociedade em geral. Saúde não é despesa. Saúde é investimento. 

Ontem, o reitor da UFSC mostrou que é possível dizer não a um contrato leonino e, coletivamente, construir outra saída. 


sexta-feira, 13 de março de 2026

A Universidade e os TAEs


Houve um tempo na “fazendinha” em que havia medo. Os trabalhadores técnico-administrativos (TAEs) eram massacrados pelos professores. O que imperava era a política do favor. Tu me ajudas e eu te ajudo. Não era uma relação profissional, era um jogo de troca no qual estava implícito a submissão dos TAEs. Sabe-se de histórias de professores que mandavam TAEs buscar os seus filhos na escola, ou fazer compra no supermercado ou pagar contas no banco. Essas eram histórias que rolavam a boca pequena no sindicato, porque praticamente ninguém ousava verbalizar publicamente.


O tempo passou e as coisas foram mudando, mas eu lembro bem das grandes greves nos anos 1990, quando nos comando locais unificados eram necessárias grandes batalhas com os professores para que respeitassem os TAEs. Nós, TAEs, ainda brincávamos que para fazer o debate tinha muitos, mas para carregar faixas nas passeatas só a Doroti Martins e o Osvaldo Maciel, companheiros docentes de valor. A velha diferenciação entre trabalho intelectual e trabalho braçal se explicitando na prática da luta. Pedagogicamente tínhamos de retomar esse debate em cada greve ou luta pontual que nos unificava. Não há separação entre trabalho braçal e intelectual como já mostrou teoricamente Alfred Sohn-Rethel. Até mesmo o ato singelo de digitar uma nota no sistema exige intelecto, logo, ninguém é melhor que ninguém. Foram anos nessa discussão.

Hoje, não existe mais a fazendinha, não impera a política do favor, mas ainda temos remanescentes dos velhos tempos que consideram os TAEs como trabalhadores braçais, sem intelecto para dirigir os destinos da universidade. E ainda há quem os trate como “empregadinhos”. Mas, ocorre que os tempos mudaram mais ainda e temos outro perfil de trabalhador. A maneira de reagir ao assédio e ao desrespeito também mudou. Os TAEs atualmente estão lado a lado com os professores na formação, por exemplo. Grande parte tem mestrado e doutorado. E os mais antigos, que não lograram garantir a pós-graduação, conhecem com tanta profundidade a máquina administrativa que, muitas vezes, até superam os professores nesse quesito. Isso significa que o que nos diferencia não é a capacidade intelectual. Não era assim antes, embora muitos docentes acreditassem nisso, e não é assim agora.

Ocorre que também a universidade mudou. O trabalho do TAE ficou tão desvalorizado, tão degradado, tão mal pago, que poucos são os que querem continuar por aqui. Na primeira oportunidade, pulam fora em busca de vida melhor. Coisa absolutamente justa. Também mudou a relação do trabalhador com a universidade. Se antes éramos movidos por um robusto espírito de corpo, alavancado na defesa do serviço público de qualidade, na garantia de uma universidade pública e gratuita, hoje temos uma geração mais focada em si mesmo. É o sinal dos tempos. As pessoas escolhem o que é melhor para si, muitas vezes não levando em conta o que é melhor para a instituição. Eu vejo isso todos os dias no contato com colegas. E é difícil mudar esse pensar. Afinal, o cálculo que fazem é: por que lutar por um lugar que nos adoece? Por que defender um lugar que paga mal e que não apresenta possibilidade alguma de ascensão na carreira? Por que entregar a vida por um espaço que está sendo sucateado e destruído lentamente? E a saída muitas vezes é: vou cuidar de mim.

Esta situação me entristece, mas não podemos demonizar o trabalhador por isso. Ele é fruto do tempo em que a política deixou de ser um espaço frutífero de debate, em que o coletivo perdeu força diante das necessidades individuais e a realidade o sugou para dentro das redes, que mais geram solidão que belezas. Vejam o que é luta pelo trabalho remoto. Ficar em casa, ficar sozinho, ficar sem a presença incômoda do outro, do conflito, do assedio, da intolerância, do preconceito. Ficar em paz, mediado apenas pela máquina. Esse é o sonho moderno.

E qual tem sido o papel dos intelectuais da universidade nesse debate? Como têm se colocado diante do drama da vida material do trabalhador, acossado pelo baixo salário, pelo transporte ruim, pela expulsão da cidade que cobra aluguéis estratosféricos? Quem se importa? Mais fácil apontar o dedo, chamar de incompetente, relapso e outros quetais.

Enfim, a realidade da universidade não muda sozinha, nem por obra e graça de uma administração. Ela é também retrato do tempo. O que muda a universidade é a mudança da sociedade inteira. Ela não é um gueto, é um espaço onde se expressam os dramas gerais. O que nos resta é seguir, discutindo, debatendo e avançando, não só na direção da universidade necessária, mas na sociedade necessária.

Estrada longa...

sexta-feira, 6 de março de 2026

As eleições e o Irineu



Nas eleições, como na guerra, o que vale é a mentira. Interesses pessoais ou particularistas (de causas) se transformam, num átimo, em interesses gerais. Os discursos jorram e as propagandas tomam o lugar do debate. Há tempos que não discutimos mais projetos. Tudo vira uma onda louca de peças publicitárias, nas quais as promessas se acumulam.  Nestas horas, vale prestar atenção às práticas, às ações cotidianas, a maneira de atuar na vida. 

Vejamos as eleições na UFSC. Pessoas que já estiveram no comando da universidade vêm a público falar do que não foi feito pelo atual reitor. Reclamam de coisas que eles mesmo não fizeram, e em tempos bem menos hostis. Estranho. Por isso é sempre bom voltar no tempo e pensar nas gestões passadas. O que foi o mandato de Ubaldo? Como enfrentou o tempo da pandemia? Como foi deixada a universidade? O que foi o mandato da Roselane? Como ela atuou politicamente com os trabalhadores, com a tão falada democracia?  Lembram-se da EBSERH votada na Polícia Militar? E as gestões liberais, quem ainda se lembra de suas atuações privatistas? 

Pois é, eu lembro. A universidade é um campo de batalha. Aqui se expressa vida mesma, tal como fora do campus. Há projetos de país em disputa, há projetos de educação em disputa, há projetos políticos em disputa. Não é só como se vai “gerir” a máquina. Diz respeito a que tipo de universidade queremos comandar. Uma universidade abraçada com interesses de grupos de poder ou uma universidade que se coloque na vanguarda do conhecimento necessário aos interesses nacionais e regionais? Uma universidade que se abre para a participação equitativa ou uma universidade que se fecha em círculos elitizados?

Nesta disputa que se avizinha em abril elejo o Irineu, porque conheço suas práticas cotidianas. Tive a sorte de compartilhar com ele a vida no mesmo Centro onde foi diretor. Pessoa querida, equilibrada, sempre disposto a organizar consensos se o que estiver em jogo for o melhor para a comunidade, aberto ao diálogo fraterno, respeitoso com os estudantes, com os trabalhadores TAEs, defensor da participação direta. 

Li num artigo de um professor no sítio da APUFSC que ele é um ‘inexpressivo`. Engraçado como os professores gostam de diminuir o Irineu. Não me lembro de ter visto críticas “ad hominem” a figuras como o Rodolfo, Prata, Lúcio, Ubaldo, ou mesmo  Roselane. No geral as críticas que havia eram respeitosas. Mas, ao Irineu, os colegas gostam de tripudiar, diminuir. Será por quê?  O que seria ser um “inexpressivo”? Seria por não ser membro honorário da maçonaria? Seria por não ser amigo de lideranças estaduais ou nacionais da suja política tradicional? Seria por não estar ligado a grupos empresariais de “prestígio”? Seria por ele ter sido técnico-administrativo?   Seria por sua singela humildade? Seria por sua capacidade de tratar com respeito a qualquer um? 

Sim. Irineu não é dado a grandes discursos nem tem relações pessoais com figurões. Mas é um dedicado trabalhador da UFSC que aqui entrou quando tinha 18 anos. Conhece as entranhas da UFSC e já trilhou muitos dos seus caminhos de administração, sempre fazendo um trabalho diligente e competente. Prefere agir quietinho, sem choramingar. Critica o governo no que cabe e atua para resolver os dramas da universidade, sempre ameaçada e sucateada. Pegou uma UFSC desmontada, pelo drama da pandemia e por uma administração pouco eficaz. Era óbvio que não mudaria a realidade em meses. Tudo foi tendo de ser refeito, reconstruído, repensado. Administrar é isso. Resolve algo aqui, aparece outra coisa ali. As coisas vão tendo de ser reavaliadas. A Universidade perdeu muito de sua autonomia. Gerencia hoje mais de 300 contratos com empresas privadas, porque os governos foram eliminando e extinguindo funções. Limpeza e manutenção é coisa difícil de gerir, por ser privado e por estar submetido a uma série de regras que não favorecem a universidade. E aí, a coisa pega. Mas, vai-se trabalhando.

Estou na UFSC desde a gestão do Diomário, que foi bem boa. Teve seus problemas, como todas têm. Depois tivemos os privatistas, contra os quais lutamos muito, ora impedindo retrocessos, ora não conseguindo. Roselane, da dita “esquerda”, que foi uma decepção. Cancelier, morto pela onda lavajatista. Nada é 100%. Nosso papel, como trabalhador público, é seguir zelando pelo melhor. E hoje, o melhor segue sendo o Irineu. Disso não tenho dúvidas. Para mim ele não é um inexpressivo. É um trabalhador da UFSC da maior qualidade. Um professor exemplar. Um administrador competente. Um homem de valor. Talvez seja isso que incomode tanto. 

Irineu, meu voto é teu.  

quarta-feira, 4 de março de 2026

O tempo das atrocidades




Quando em 2017 Donald Trump foi eleito presidente dos EUA pela primeira vez aberto, com esse feito, um caldeirão de atrocidades. Uma espécie de corolário do irracionalismo que vem se consolidando desde a primeira grande guerra. Conhecido mundialmente por sua frieza e maldade expressas de maneira clara num desses abjetos shows de realidade chamados “O aprendiz”, estava mais do que lógico de que governaria o país com a mesma arrogância com a qual ofendia, humilhava e despedia os seus “aprendizes” de monstros. Sim, porque o tal programa era um show no qual os aprendizes tinham de tomar decisões administrativas que se caracterizavam por falta de empatia, desumanidade e vilania. O mais calhorda era o que ganhava e o prêmio era ser assessor de Trump. Logo, era absolutamente certo de que o que se veria na presidência do país aqui mais poderoso do mundo era exatamente isso: vilanias. Deixemos claro: o Trump foi eleito, o que significa que essa fatia da população, que o conhecia bem, sabia o que estava fazendo. 

O que se viu, então, neste mandato, foi o seu showzinho já conhecido. Grosserias, preconceito, humilhações, arrogância. E, junto com isso, o crescimento de um movimento de ultradireita chamado QAnon, baseado em mentiras e invenções alucinantes. Esse movimento se passou rapidamente pelos eternos repetidores de bobagens estadunidenses e logo chegou à América Latina. Usando as mesmas técnicas de Trump, Bolsonaro se elegeu no Brasil, trazendo para a política o mesmo modo de desempenho. E assim, quanto mais fora da casinha fosse o candidato, mais chance passaria a ter. Claro que as experiências ditas progressistas deram uma mãozinha ao não conseguirem apresentar às populações respostas aos seus dramas. 

Javier Milei, na Argentina, é outro que se elegeu usando a mesma técnica. Gritos, ofensas, atos espetaculosos. E o que é pior. Foi extremamente claro na sua campanha sobre o que iria fazer: acabar com os direitos trabalhistas, destruir os serviços públicos e ajudar a família, a sua é clara. Foi escolhido no voto pelos argentinos. 

Agora, nos últimos anos, já no segundo mandato de Trump, vimos a naturalização da barbárie. O genocídio do povo palestino, perpetrado por Israel, assistido ao vivo nas telas dos celulares, sem causar muita comoção. Pelo contrário. Nos comentários das imagens pudemos ler os horrores de uma gente completamente destituída de humanidade. Apesar das grandes manifestações pelo mundo, nada aconteceu. O genocídio aumentou, sem trégua e segue ainda... Ficou tão naturalizado que já não importa mais... Israel matou crianças, velhos, explodiu gente nos hospitais, nas barracas de refugiados, matou jornalistas, médicos, as coisas mais abjetas. Sem limites. 

Então, quando os soldados estadunidenses entraram na Venezuela e sequestraram Maduro e Cilia, presidente e vice do país, não houve surpresas. O que é um sequestro diante de mais de 100 mil palestinos destruídos? Tá de boa! A Venezuela foi tornada refém e segue tutelada por Trump que governa desde Washington. E, para o mundo, tudo está bem. “É bem feito para os venezuelanos que inventaram de afrontar os Estados Unidos”, são os comentários que proliferaram na internet. Aí também decidimos estrangular Cuba, matar o povo de fome, na escuridão. E está tudo bem. Há quem festeje... e são muitos.

Então, se não há mais limites para o terror, bora bombardear o Irã. Sim, porque os Estados Unidos odeiam o fato de que o Irã não é seu capacho. Logo, vamos “aquecer” as coisas lá no Oriente Médio. O primeiro ato foi fenomenal: uma escola de meninas. Mais de 180 meninas mortas, destroçadas pelas bombas de Israel. Ah, mas não importa. São projetos de terroristas. De novo, o metralhar de comentários maldosos e vis de gente ruim e da mídia comercial, capacho do poder. Então, quando o Irã reviveu e bombardeou Israel. MEUS DEUS!!!! Que pecado atroz. Que gente ruim... está bombardeando alvos civis. Hipócritas!

E assim vamos. Não há limites. Somos, todos, reféns da megalomania de dois ou três governantes que se arvoram xerifes do mundo. E que têm bombas atômicas, capazes de destruir a todos. Não há limites. Nada a esperar de títulos de governos. Tudo indica que esta escalada de terror será longa. Os amantes de Trump, Bolsonaro, Milei e outros quetais, babam, felizes. O que acontecerá quando a realidade os surpreender? 

Os tempos são duros, mas, resistimos! 


quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

Derrota para a soberania digital

Os monstros comedores de energia

Na madrugada desta quarta-feira (25/03) a Câmara de Deputados aprovou projeto de lei de autoria do deputado José Guimarães (PT/CE) que isenta de imposto de importação os equipamentos usados ​​na fabricação de data centers e que zera os tributos sobre a exportação de serviços do setor. Uma pancada na luta pela soberania digital. O projeto, agora lei aprovada, substitui uma Medida Provisória que havia sido baixada pelo governo federal. Mais uma vez, o governo Lula se mostra completamente alinhado aos interesses do Congresso e dos grupos multinacionais de comunicação. 

Agora, enquanto vários países debatem e discutem a presença dos centros de dados em seus territórios, por conta do excessivo gasto com energia, o Brasil caminha na contramão, chamando para o país “monstros” que consomem essa água potável e luz de maneira extraordinária. São, pelo menos, 90 mil litros de água por dia. Não bastasse isso, ainda concede incentivo para que as grandes big-techs se apropriem, não só dos recursos naturais, mas também dos dados dos brasileiros. As condições dadas às empresas são um atestado de submissão. 

Quem cria os centros de dados precisa fornecer apenas até 10% do processamento ao mercado interno, e investir ao menos 2% do valor dos produtos adquiridos no mercado interno em projetos de pesquisa ou inovação. O projeto também diz que as empresas deverão publicar relatórios de “sustentabilidade” contendo índices de Eficiência Hídrica e as fontes de energia. Há uma exigência de que apenas energia limpa ou renovável seja utilizada, mas quem define o que é “limpa”? 

Um levantamento feito pela mídia comercial (G1) apontou que só quatro projetos de centro de dados de Inteligência Artificial previstos no Brasil poderão consumir energia equivalente a quase 17 milhões de casas. Isso é um absurdo de energia. E o governo já anunciou que para dar conta desta demanda a carga energética precisa crescer 600% até 2037. 

O argumento do governo para o MP que agora é lei é de que a suspensão do imposto de importação para os centros de dados tornará o Brasil um importante polo digital, competitivo e sem dependência de outras infraestruturas estrangeiras. Mas, quem serão as empresas que poderão construir esses “monstros”? Quem serão os donos senão os mesmos que já detém o domínio desta tecnologia? É uma farsa. 

As palavras de Everton Rodrigues, do movimento Software Livre, integrante da Rede pela Soberania Digital e do movimento Economia Solidária, resumem o horror desta situação: “Lamento profundamente ter que admitir que o discurso do nosso presidente Lula sobre soberania digital é lindo, mas, na prática, o governo não tem e não discute com a sociedade, um projeto nacional de soberania digital, não escuta quem está discutindo e está fazendo outra coisa, completamente diferente e totalmente desarticulada dos interesses da sociedade. O mercado internacional de formulação de dados está tomando conta do Brasil. projeto aprovado, as big techs trilionárias, que não precisam de isenções de impostos, que usam nossos dados, a mentira e a desinformação para ganhar trilhões e que já estão ocupando grande parte das cidades brasileiras, terão isenção de tributos por cinco anos na compra de equipamentos para instalar seus data centers no Brasil.”.

Ou seja, mais um projeto para derrubar a nossa soberania.