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sexta-feira, 7 de maio de 2021

A escravidão e o Jacarezinho



O sistema colonial que se instalou no “novo mundo” depois da invasão das Américas precisava de mão-de-obra para fazer o trabalho andar. Foi assim que os países ricos da época – Inglaterra e Holanda  - começaram um comércio até então inédito: o de gente. Levavam os navios para o continente Africano, sequestravam gente, e levavam para a América para trabalhar como escravo. Foram séculos dessa infâmia.

No caso do Brasil, quase dois milhões de pessoas foram trazidas para trabalhar nas fazendas dos senhores de engenho ou de café. Mais de 200 mil morreram no caminho. Essa gente toda foi espalhada pelo território e apesar das condições brutais de existência, gerou descendência. Um censo realizado em 1872 - 16 anos antes da abolição - dá conta de que 58% da população brasileira se declarava negra ou parda, ou seja, os negros eram maioria, sempre foram desde que trazidos da África. Quando a abolição finalmente chegou, o país tinha ainda 723 mil pessoas na condição de escravo. 

É bom que se lembre de que antes disso teve a Lei do Ventre Livre, que deu “liberdade” aos nascidos de pessoas ainda escravizadas e a Lei do Sexagenário, que liberou os mais velhos. Ora, todas essas duas leis foram perversas porque jogavam numa condição ainda mais miserável os bebês, que apesar de “livres” tinham de ficar com os pais ou abandonados, e abandonava os velhos a sua própria sorte depois de já terem sido consumidos. Nem às crianças nem aos velhos foi dada qualquer condição de reproduzir a vida. 

Da mesma forma, toda essa gente escravizada se viu livre numa manhã de 1888, sem qualquer opção de existência. A eles não foi dado o direito de propriedade e muito menos qualquer política pública de recomeço da vida agora como um ser livre. Nem mesmo o trabalho lhes restava porque as levas de imigrantes agora viriam a substituir os negros, e estes eram sempre a primeira opção dos fazendeiros. Isso mostra bem a condição do negro naqueles dias de libertação. Começava aí um novo processo de aprisionamento, desta vez como exército de reserva do capitalismo nascente. 

Depois de 300 anos de escravidão, os negros eram largados com uma mão na frente e outra atrás. Sem emprego e sem opção, eles foram ocupando terras periféricas e se organizando como dava. No geral, o máximo que conseguiam eram trabalhos esporádicos, bicos, e suas condições de vida eram precárias. É dessa história de sequestro, violência e abandono que nasce o menino de rua, a favela, o mendigo. É claro que muitos negros conseguiram romper com essa planejada destruição, mas a maioria foi jogada na marginalidade.  

A tragédia do Jacarezinho – Rio de janeiro/2021

Neste dia 06 de maio de 2021, 133 anos depois daquele maio que tornou livres os negros escravizados, uma tropa da polícia civil do Rio de Janeiro entrou na comunidade do Jacarezinho e matou, sem direito a julgamento ou defesa, 25 pessoas. Gente jovem e preta, como tem sido, sistematicamente, há décadas, em todas as regiões do país. A lógica é cortar o “mal” pela raiz. O argumento é singelo: os policiais estavam ali “limpando” a área para garantir a segurança aos “cidadãos de bem”. Segundo a versão oficial, as pessoas mortas eram bandidos, traficantes e mereceram o destino: CPF cancelado, para usar a linguagem dos tempos bolsonarísticos. Não foi um confronto, foi uma execução. 

Analistas entendidos da realidade carioca falam que o Jacarezinho é uma região do Rio onde as milícias ainda não puderam entrar. E que são elas as que dominam quase 60% do território. Pode estar aí um dos motivos para essa “incursão” já que todo o poder institucional do estado e da cidade está conectado com as milícias. Há quem diga que o próprio clã que hoje governa o país também. Tudo isso são questões que aparecem de maneira periférica na discussão. Geralmente quando acontece algo assim sempre vêm à tona as guerras de facções, os esquemas de poder do submundo do crime e tal. 

Para o leitor/espectador comum, o foco todo fica sempre no morto: era um bandido. Mesmo que não seja. Se era preto e vivia na favela, era bandido. Essa é a compreensão. E se o morto é uma criança, as pessoas pensam: bom, se não era bandida ainda, seria. Porque no imaginário nacional o negro está sempre vinculado ao lado ruim da força. Essa é a ideia que vem se reforçando desde o princípio da escravidão, eu intuo. Imagino os donos de engenho repassando aos filhos a informação: “não cheguem perto dos negros, eles não são gente, são coisas do mal”. Depois, quando os negros estavam livres e foram se incrustar nos morros, seguiam sendo apontados como os “malvados”, os “capoeiras”, os “marginais”. Hoje, ainda confinados às regiões mais pobres, eles seguem sendo a imagem do mal. É uma construção histórica que muito bem serve à classe dominante, essa que nunca saiu da casa grande.

Pode ser que alguns daqueles jovens assassinados no Jacarezinho fossem traficantes. Pode ser. Muitos deles são. Porque aos pobres do país muitas vezes não resta saída. Ser recrutado pelos gerentes do tráfico é coisa corrente nas comunidades. É bem difícil escapar desse destino porque no geral não há trabalho para jovens negros, e se há, é subemprego. Com o tráfico eles tiram em um dia o que ganhariam em um mês. Que jovem não faria esse cálculo? Negro, branco, vermelho, amarelo ou azul? Qualquer um, afinal, vive-se num mundo capitalista no qual a pessoa é medida pelo que tem. A questão é? São eles, culpados? E sendo, deveriam ser executado assim, sem julgamento ou direito à defesa?

Não faz muito tempo um avião presidencial – eu disse presidencial - foi pego com quilos e quilos de cocaína. Cocaína é droga. Sabem o que aconteceu? Nada. Nenhuma invasão ao aparelho, nenhum tiro. O militar – assim trata a imprensa, em vez de bandido ou traficante - que acabou responsável pelo caso foi preso sem alarde e nem sei se ainda está. Outro caso famoso é o de um avião cheio de cocaína que era de propriedade de um deputado mineiro e que foi apreendido dentro da fazenda do deputado, tampouco teve tiro ou execução. E inclusive, mesmo sendo o avião do deputado e a fazenda do deputado, o tal deputado não foi incriminado. Parece que só sobrou para o piloto. Eis a questão! 

Os traficantes de verdade, os que importam, os que fazem girar o mundo das drogas, esses não estão na favela. Eles frequentam os salões e vivem no asfalto. Suas casas não são invadidas e eles não são assassinados em frente às mães, às irmãs, aos primos. Eles são os que estão no comando. Nada lhes toca. A guerra é feita aos gerentes e aos soldadinhos do tráfico, para mostrar que se está fazendo algo. E com muito mais violência a guerra é feita  aos soldadinhos, porque esses não tem nenhum poder a não ser a arma que carregam. Eles podem ser abatidos como moscas para serem expostos como troféus de uma “política de segurança”. Mas, outros como eles logo estão prontos para se alistar no exército do tráfico, porque não encontram saída do labirinto onde foram jogados há séculos. 

Esse é o jogo. Essa é a incômoda verdade. “Todo camburão tem um pouco de navio negreiro”, diz a canção do Rappa. 

E, nesse contexto, basta a gente se levantar em defesa dos mortos e já vem a matilha a gritar: “leva pra casa, tomara que estuprem tua mãe”. Porque essas criaturas, que não conseguem enxergar o todo, temem os traficantes, os bandidos, os “negrinhos”. Não conseguem ver que o temor precisa tomar outra direção. Os verdadeiros causadores da tragédia das drogas não são os guris do morro. Eles são apenas um elo da corrente, o mais fraco, aliás. O verdadeiro traficante – o dono da droga – está protegido e seguirá assim até que um dia esse mundo mude pela força das nossas mãos. 

Hoje as famílias do Jacarezinho choram seus mortos, e daqui a algumas horas, outras famílias, de outros morros, outras comunidades, também chorarão. Tem sido assim, todos os dias. Porque são herdeiras daquela gente “descartável” que cometeu a heresia de ficar por aqui, de não morrer. 

E assim vai a vida nesse triste país, sem parada. 

Dia virá, eu espero, que os deserdados se levantarão, organizados e coletivamente, e arrancarão das mansões os verdadeiros fabricantes da morte e do terror. 


quarta-feira, 7 de abril de 2021

Destruição de escola quilombola em Santa Catarina está ligada à luta pela terra



a escola no chão

No feriado da semana santa os moradores do quilombo Invernada dos Negros, localizado na divisa entre os municípios Campos Novos e Abdon Batista, em Santa Catarina, foram surpreendidos com a notícia da derrubada da escola estadual José Faria Neto que era utilizada por eles para atividades de educação de mais de 100 alunos e também de organização da comunidade. Uma máquina chegou e simplesmente colocou no chão o prédio. Todo o material da educação quilombola que estava dentro sumiu. Ninguém sabe, ninguém viu. O governo estadual, responsável pelo patrimônio público, diz que não mandou derrubar, mas declarou em nota que uma nova escola foi construída a 500 metros da que caiu, sugerindo que os quilombolas se conformem e passem a usar o prédio novo. Um inquérito sobre o caso, registrado como dano ao patrimônio público, foi aberto na policia civil de Campos Novos, mas até ontem, terça-feira (07/04), não havia sido iniciada a oitiva das testemunhas.

A questão que se coloca é: se não foi o estado o que mandou derrubar a escola, quem se atreveu a um ato dessa natureza? Colocar no chão uma escola inteira que é patrimônio do povo catarinense? A suspeita dos quilombolas recai sobre a Empresa Imaribo, uma madeireira que planta pinus na região e que, inclusive, tem uma disputa antiga com o quilombo, na medida em que está instalada em pelo menos quatro mil hectares que pertencem à Invernada dos Negros. Ou seja: a batalha é pela terra. A destruição da escola foi mais um passo no sentido de quebrar a espinha dos quilombolas, arrancando deles um espaço conquistado com muita luta junto à Secretaria de Educação para garantir educação à comunidade. 

A história do quilombo

As terras onde hoje vivem os remanescentes de negros escravizados conhecida como Quilombo Invernada dos Negros, ao contrário de muitos outros quilombos que não têm registro de propriedade, foram deixadas como herança, em testamento, no ano de 1877, pelo então proprietário Matheus José de Souza e Oliveira, a oito pessoas ainda escravas e três libertas. Como naqueles dias era muito mais difícil a um negro garantir seus direitos na justiça, as terras não foram regularizadas. Ainda assim, as famílias seguiram vivendo suas vidas no local até que a partir dos anos 1940 começaram a ver seu território invadido. Desde aí tem sido sistemática a luta contra os grileiros, com os negros sempre em desvantagem.

O território original do quilombo é de 7.950 hectares, mas apenas uma parte desse total foi titulada e regularizada em 2014 (cerca de 639 hectares), sendo que pelo menos quatro mil hectares seguem na mão da Empresa Imaribo, que se diz dona das terras e continua plantando pinus no local. Como se sabe, o pinus é uma cultura alienígena que inclusive provoca a destruição do solo para outras culturas. Isso significa que quanto mais os pinus seguirem infestando o campo, menos chance a comunidade terá de recuperar a fertilidade da terra. Já a parte ocupada pelos quilombolas preserva a vegetação nativa e busca garantir uma cultura de existência.

Em 2014 quando finalmente o Incra reconheceu o território quilombola as terras que estavam sob ocupação da Imaribo foram colocadas como sendo do quilombo e passíveis de indenização por parte do estado. Mas, até hoje não se sabe de qualquer avanço nesse sentido e a empresa segue comportando-se como se dona fosse. Tanto que agora pode ter derrubado a escola que fica nessas terras. 

Em 2019, aproveitando que a empresa fez um corte de pinus em um dos espaços da terra, as famílias quilombolas ocuparam o lugar, visando assim forçar o estado a resolver de vez a questão da desapropriação. Na época, a empresa Imaribo entrou na justiça pedindo reintegração de posse, que foi aceita pelo judiciário. Na iminência de serem despejados de suas próprias terras, os quilombolas recorreram ao Ministério Público Federal, que reconheceu serem os quatro mil hectares que estão sob o nome da Imaribo, parte do território quilombola.  Já a justiça catarinense entendia que como a empresa tinha o título imobiliário os quilombolas tinham que sair. O caso acabou indo para a justiça federal que, por fim, impediu o despejo violento. Mais tarde, a justiça também decidiu que os quilombolas poderiam ficar na área, pois um acordo anterior com a empresa Imaribo dava conta de que ela não poderia replantar os espaços onde já houvesse feito o corte da madeira. 

É assim que a os quilombolas da Invernada dos Negros vem, a cada tanto, enfrentando a madeireira visando recuperar os quatro mil hectares que lhes pertence. Eles entendem que a empresa pode ter comprado a terra de boa fé, mas cabe ao governo resolver o conflito indenizando a Imaribo. 

A educação quilombola

Outra batalha travada pelo quilombo diz respeito à educação quilombola, direito que conquistaram em 2003, quando o governo federal aprovou a lei que definia que tanto os indígenas como os quilombolas tinham suas singularidades culturais e poderiam trabalhar a educação dentro desses parâmetros. Foi assim que a partir de 2004, conforme conta Maria de Lourdes Mina, do Movimento Negro Unificado de Santa Catarina, começou um trabalho com os quilombolas e o governo do Estado para garantir esse direito. Foram realizados inúmeros encontros e seminários com as gerências regionais de educação para informar e formar os gestores, mas até o ano de 2010 nada havia sido encaminhado. Foi necessário entrar na justiça contra o Estado para garantir que os quilombos pudessem ter a educação conforme sua cultura e tradição.  E, como a justiça é lenta quando se trata do direito dos empobrecidos, a decisão só saiu em 2019 quando então o estado foi obrigado a implementar a educação quilombola.

Na Invernada dos Negros esse trabalho de educação começou principalmente com os jovens e adultos, pois havia muita gente que não sabia ler nem escrever. Gente com 60, 70 anos que tinha como sonho aprender a ler o mundo. Havia inclusive a promessa do governo estadual de que o quilombo teria sua própria escola física, visto que é um dos mais populosos do estado.  Foi assim que eles começaram a usar a escola estadual José Faria Neto, que agora foi demolida. O estado alega que construiu uma escola nova que dista 500 metros da escola que foi ao chão, mas para os quilombolas isso não significa nada. A escola, se deixava de servir aos demais alunos da região, deveria ter sido destinada ao quilombo, pois lá, além das aulas, acontecem atividades de formação da comunidade, encontros de organização e atividades culturais. É importante registrar que ter garantido o direito a trabalhar com educação quilombola – que leva em conta a oralidade e a ancestralidade - foi considerada uma das maiores conquistas da Invernada dos Negros. 

Edson Camargo, liderança do quilombo, confirma que não houve qualquer conversa nem com a Secretaria de Educação, nem com a Empresa Imaribo, sobre o que ia acontecer com a escola. Ela estava fechada por conta da pandemia, mas a comunidade chegou a realizar uma reunião no começo do ano para se preparar para a volta ao trabalho. Todo o patrimônio foi destruído: o físico e o imaterial, porque a escola, bem mais do que um prédio, significava uma vitória sobre o preconceito e uma garantia para que a história do quilombo seguisse seu caminho dentro do modo de ser quilombola. Derrubar o prédio é atingir também essa conquista. Jogar as crianças e adultos para a escola nova é destruir todo o processo que vinha sendo constituído desde 2004. “O prédio da escola existe há 40 anos como uma escola pública. Como que da noite para o dia vira propriedade da Imaribo? Como que uma máquina destrói o patrimônio público e não acontece nada? Como que o estado não sabia? Até quando vão nos atacar e tentar nos destruir, inclusive os nossos sonhos?”. 

O Movimento Negro Unificado (MNU) realizou nesta terça-feira um encontro virtual juntando representantes do quilombo com apoiadores de vários segmentos, sindicalistas, movimentos sociais, vereadores, deputados estaduais e federais. A intenção é fazer com que destes espaços todos partam ações no sentido de cobrar o governo do estado a explicar o que aconteceu e a garantir um espaço digno para que a Invernada dos Negros possa continuar com seu trabalho dentro da lógica da educação quilombola. 

Tentamos contato com a empresa Imaribo para ouvir sua versão sobre os fatos, mas não conseguimos. Foi pedido o meu número de telefone para um retorno, pois apenas uma pessoa na empresa está autorizada a falar sobre o caso. Mas, até o fechamento da matéria, ninguém ligou. 

A luta segue na Invernada dos Negros. 


quinta-feira, 11 de junho de 2020

Manifestações nos EUA e no Brasil


O assassinato de George Floyd gerou uma onda de protestos no mundo todo na discussão do racismo e da violência policial contra os negros. Nos Estados Unidos, obviamente, as manifestações foram maiores. A comunidade negra, já calejada nesse sofrimento, explodiu em mais uma onda de protestos que iniciou violenta como reação imediata ao assassinato e, na medida em que foi sendo encampada por outros grupos sociais, passou a marchas pacíficas, inclusive com o apoio das autoridades. 

As manifestações da população negra não são novidade nos Estados Unidos. No chamado “mundo livre” essas comunidades estão excluídas de direitos reais desde sempre, como acontece em quase toda a América. Nem a independência, nem a tão incensada Constituição foram capazes de apagar a lógica escravocrata da sociedade estadunidense, daí que esse estrato da população precisa sistematicamente se levantar em rebelião para garantir o mínimo. E é sempre o mínimo.

Lendo algumas análises sobre os levantamentos e vendo a comoção mundial, duas linhas de pensamento se expressam de maneira bastante diferenciada. Uma diz que agora sim os negros estadunidenses farão a revolução há tempos desejada, desde os grandes líderes da luta por igualdade de direitos até os mais radicais como os Panteras Negras. Isso claramente não está dado, mas pode estar, caso os protestos avancem para discussões mais profundas e mobilizem ainda mais gente, envolvendo partidos e organizações. 

A segunda linha diz que é só mais um levante, entre tantos dos que já aconteceram, que apenas reivindicam inclusão na sociedade capitalista. A falta de consciência de classe é apontada como o grande entrave das mudanças estruturais, visto que os protestos pedem mudanças na polícia, mas não no sistema, deixando a estrutura intocada.

Para a professora Cris Sabino, do Serviço Social da UFSC, dizer que a luta dos negros não está vinculada às mudanças estruturais é totalmente injusta e só denota desconhecimento da realidade. Segundo ela, um negro, aqui no Brasil ou nos EUA, sabe que para que o racismo se acabe é preciso que as mudanças aconteçam no mais profundo das coisas, afinal, ele se expressa em tudo, desde a impossibilidade do acesso a questões básicas, como saúde e educação até o sistemático processo de extermínio. “O negro precisa estar o tempo todo lutando para se manter vivo, para ser tratado como um ser humano e não ser exterminado como um bicho. É um equívoco então dizer que os negros não pautam a luta de classe. A base da luta do povo negro é ter condições de igualdade perante a sociedade e a gente sabe que isso não vai acontecer sem uma mudança estrutural. Veja que quando as pessoas negras se movimentam elas movimentam toda a base da sociedade. O que falta, na verdade, é que os demais movimentos tradicionais e sindicais, pautem o racismo, isso sim”. 

Nos Estados Unidos, em meio à comoção provocada pela violência contra George Floyd,  boa parte dos governantes – governadores, prefeitos, congressistas – têm se posicionado a favor da pauta dos manifestantes no que toca a reformar as polícias e já se fala até em excluir dos protocolos de abordagem o tal do estrangulamento que acabou matando George. Mas, não se vê qualquer deles falando em mudar a estrutura do poder repressor, muito menos a sociedade como um todo. Os candidatos presidenciais, por exemplo, desviam o tema estrutural. De Trump, nada se espera, e o candidato democrata Joe Biden já declarou que não vai reduzir orçamento para as polícias. Ou seja, os partidos da ordem não têm propostas para os conflitos raciais, que se expressam mais concretamente na relação comunidade x polícia. Isso também pode ser percebido na relação da polícia, não apenas com os negros, mas também com os imigrantes de toda cor: latinos, árabes, chineses, etc... O racismo seguirá intacto, a menos que os protestos encontrem outros elementos de luta que mantenham as pessoas – negras e não-negras - mobilizadas e dispostas a mudanças maiores do simplesmente um protocolo de abordagem. 

No Brasil, por exemplo, onde o extermínio da população negra é uma realidade cotidiana nas grandes e médias cidades, que protocolos poderiam ser mudados? Não atirar 80 vezes num carro em movimento com uma família dentro? Não atirar mais de 70 balas em uma casa particular onde adolescentes negros estão jogando vídeo-game? Não sumir com os corpos negros, como o do Amarildo? 

Agora, durante o caos gerado por uma estudada e planejada “incompetência” do governo federal no enfrentamento ao novo coronavírus, são os corpos negros os que estão pagando o preço alto da morte. São eles – em maioria - que estão nas ruas, trabalhando, e são eles os que ficam à espera de respiradores em postos de saúde, muitas vezes por dias, sem conseguir. Número do Sistema Único de Saúde mostram que 67% dos usuários são negros e uma boa parte pertencente ao grupo de risco, com diabetes, tuberculose, hipertensão e doença renal.

O racismo estrutura a sociedade capitalista: nos países do centro do sistema por terem sido os traficantes de gente, e nos países de periferia por terem sido os espaços onde os povos originários foram violados e os negros sequestrados da África amargaram a dor de ser escravizado. Esses, depois da chamada libertação, foram lançados no mundo sem o direito à propriedade, o que, de cara, já colocou uma pedra gigante na proposta de igualdade de direitos. Como ter igualdade no capitalismo sem propriedade? Impossível. Nos Estados Unidos, um dos pais da Pátria, Thomas Jefferson, tinha como proposta mandar embora do país todos os negros libertos, porque tinha medo que eles tivessem de roubar para sustentar-se, visto que obviamente formariam um bloco de miseráveis. 

Assim que os protestos dos negros nos Estados Unidos, bem como em todo o mundo são efetivamente uma chispa perigosa para o sistema, mas que precisa de mais lenha para queimar até colocar em queda o racismo estrutural. 

terça-feira, 13 de dezembro de 2016

Hoje caiu um menino


Agora mesmo caiu um menino. Crivado de balas. Chutado, espancado, torturado. Caiu um menino, negro, pobre, “favelado”. Quando esse menino é filho de alguém famoso, como o da cantora Tati Quebra-Barraco, tem até direito a alguma divulgação. Mas, não se enganem. Ele ainda é culpabilizado por ser quem é. Se perigar, até a mãe é julgada. 

E assim segue a vida. Todo dia, a cada hora, cai um menino. Assassinado pelo estado, pelas gangues, por um desafeto. Morrer assim é cotidiano. E nos programas policiais essas mortes viram espetáculos grotescos, que somente servem para criar a pedagogia do medo. Os meninos e meninas são números, estatísticas sobre a violência, deles, é claro. E nesses quadros, são as vítimas que aparecem como culpadas. “Alguma coisa tinha feito”. Não importa se, depois, no jornal do dia seguinte, aparece a história do caído: era trabalhador, vinha da escola, nunca esteve metido com nenhuma droga. Já passou. A mensagem principal já foi dada: era um negro, era uma negra, bandidos, bandidos. 

E, se por acaso, alguém resolve questionar essa barbárie, esse massacre descarado que acontece dia pós dia, então aparecem os “cidadãos de bem”: leva pra casa, vadia dos direitos humanos, tomara que matem um parente teu, tomarem que te assaltem. 

Ninguém está preocupada em destapar o véu da aparência. Por que existem as favelas? Por que os negros são maioria ali? Por que a miséria é regra nos morros e na periferia? Por que os meninos e meninas entram para o tráfico? Não, essas perguntas não importam. Não carece de saber. O que o sistema capitalista de produção quer que as pessoas saibam é o que diz o seu braço armado comunicacional. O discurso do Marcelo Rezende, do Datena e dos seus imitadores regionais. “São monstros, assassinos, sem alma e sem recuperação”. 

Nada de história do Brasil, nada de debate sobre a escravidão e todo o seu legado de exclusão e miséria. Não, da escravidão o que se incensa é a abolição e a Princesa Isabel. Como se o dia seguinte a Lei Áurea tivesse sido de festa e alegria para os negros. Já a famosa Lei do Ventre Livre, assinada em 1871, foi uma aberração. A criança nascida de uma mulher escravizada era considerada livre. Coisa boa? Não! Se o “dono” da mãe não quisesse a criança, podia jogá-la na rua. Era livre. Não servia para o sistema. Vem daí a prática de viver na rua, meninos e meninas de rua, sem pai ou mãe. Livres! A hipocrisia de uma sociedade escravocrata.

Depois, com a abolição, os negros foram jogados na vida. Sem terra, sem casa, sem nenhuma política de acolhimento ou reparação. Virem-se! Era o que diziam os “generosos” senhores da classe dominante. Por mais de três séculos essa gente e seus antepassados traficaram mais de três milhões de seres humanos, trazidos para o trabalho escravo, que deu origem a essa nação. Quando o capitalismo já se fortalecia também nas Américas, o sistema de escravidão não fazia mais sentido. Era muito gasto garantir a vida dos escravizados. Melhor seria acabar com o sistema escravocrata para escravizar de outra forma, travestido de liberdade, sob o signo do salário. E assim veio a abolição. Nenhuma dádiva, nenhuma bondade. Só o faro dinheirista. Um trabalhador livre era mais barato que um escravizado. 

Livres, os negros tiveram de encontrar, sozinhos, uma forma de permanecer vivos. Saiam das fazendas sem nada além dos seus corpos nus. Alguns foram incorporados como trabalhadores, mas a maioria ficou ao deus dará. 

Essa é a chaga que ainda hoje segue aberta. A escravidão jamais foi reparada. Escondeu-se sob o manto da bondade da princesa. É o que se aprende na escola. E hoje, os “libertos” continuam a sofrer a dor da exclusão e da miséria. Por isso seguem sendo exterminados. Na cabeça da classe dominante há que matar essa gente que “mancha” a história da nação. E mata-se. 

Os negros e as negras, filhos desses milhões de seres sequestrados de seus lugares, seguem aí. E exigem seu lugar nessa nação. Não como escória, porque não o são. Foi de suas mãos que brotou a riqueza do Brasil colonial. Sem eles, o projeto português teria fracassado. Há que coloca-los no seu verdadeiro lugar na história do Brasil. Não apenas como os que foram escravizados, mas os que garantiram com seu trabalho – a única força que gera valor - a existência dessa nação mestiça. Por isso eles estão em luta, cada dia e todo dia. Porque precisam combater inclusive a própria história oficial que os subalterniza e os diminui, na medida em que não expressa a verdade.

E é nessa batalha que estão por aí, a cair, todos os dias, os meninos e meninas negras da periferia. Porque precisam enfrentar, além da miséria, os escravocratas desse tempo. Os filhos dos velhos “senhores” e os que são ensinados por eles a odiar os negros. A classe dominante de hoje descende da mesma velha classe que dominou no Brasil colonial, com alguns adendos de novos ricos. São os mesmos que patrocinam os meios de comunicação para que sigam contando mentiras, escondendo as verdades, e construindo preconceitos. 

O sistema capitalista de produção é o que determina o racismo estrutural. Morto o primeiro, estaremos dando passos gigantes para que a história seja recontada e para que o preconceito e a discriminação desapareçam. 

Mas, enquanto isso não acontece  - batalha dura e difícil – temos de seguir contando e combatendo. Nós, não-negros, mas sabedores da história. E os negros, que sabem e sentem. Por isso que cada menino caído é um punhal cravado no peito. Não importa se era um bandido, um marginal, um traficante. Porque, no fundo, esse, vencido pelas circunstâncias, era um menino que não teve a oportunidade de ser outra coisa. Não por culpa dele, mas de um sistema que oculta a história, nega a vida plena e engole as pessoas em nome do lucro.

Agora mesmo caiu um menino. E isso tem de acabar!