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terça-feira, 5 de fevereiro de 2019

A terra-mãe



A terra, como ensinam os povos originários não é só um lugar onde nós, os humanos, caminhamos.  Ele é viva, interage e se comunica. Viver em equilíbrio com ela é valor que faz parte de qualquer filosofia originária, de qualquer etnia dos povos antigos. Pacha é espaço e tempo, sem divisão. E nós, somos parte desse universo pulsante, aqui, hoje, ontem e amanhã.

Não descobri isso agora, há tempos comungo desse sentipensar, ainda que tenha de ver tudo isso ser ridicularizado por gente que nos chama de “pachamamistas”, ou “bicho grilo” ou “hippie” ou qualquer outra coisa de conotação depreciativa. Não importa. Creio nisso e sigo no meu caminho respeitando essa poderosa mãe.

Lá em casa tenho por costume dar pago à terra todos os dias. Cuido dela, alimento, acarinho, porque sei que ela também cuida de mim. Porque somos uma coisa só, parte da mesma grandeza infinita.

Percebi que no meu quintal desde alguns anos brotaram determinadas plantas que não havia lá: melissa, alecrim, fisalis, maracujá.  Ontem, sentada à sombra, com meu pai, tomando chimarrão, entendi que a terra que vibra em mim mandava mensagens. Todas essas plantas têm a ver com calmante e memória, duas coisas de que necessito agora, quando vivencio o processo de perda de memória do pai. Uma dura caminhada de aprendizado sobre a finitude.

Certa feita, lá no planalto central, caminhando na imensidão das terras secas, ouvi de um conhecedor das ervas essa verdade: a terra dá o que precisamos. Basta olhar ao redor e ali estarão as plantas que são vitais para nossas dores. Ontem, assim, num átimo, me surpreendi com a concretude dessa máxima.

Tudo está ao nosso alcance. Basta saber enxergar. Alegrei-me por ainda saber ver. E agradeci!


sexta-feira, 27 de abril de 2018

O crime do padre Amaro- Defender a vida e o direito à terra para os camponeses



Já se vão trinta dias de mais uma prisão injusta no Brasil. Seria apenas uma estatística, afinal, isso é mais regra que exceção. Mas, para os lutadores sociais do Pará e de toda a região norte, o preso em questão não é só um número. Ele tem nome, sobrenome e trabalho junto aos empobrecidos. É o padre Amaro, cujo pecado cometido não tem nada a ver com o do romance do Eça de Queirós. Seu “crime” é atuar ao lado dos camponeses e ser uma das principais lideranças da equipe da Pastoral da Terra da Prelazia do Xingu, na paróquia de Santa Luzia do Anapu, Pará. Amaro era o braço direito da missionária estadunidense, Dorothy Stang, que foi assassinada em fevereiro de 2005, justamente por enfrentar os fazendeiros da região.

Pois o padre Amaro foi preso no dia 27 de março, também na lógica de prisão preventiva, por conta de uma investigação sobre supostos crimes de extorsão, ameaça, assédio sexual e ocupação violenta de terras. Quem conhece o trabalho do padre junto aos camponeses e empobrecidos afirma com certeza de que essas acusações não passam de um grande golpe dos latifundiários locais, para tirar o padre da luta pela terra. “A gente acredita que é armação, porque ele é um exemplo de vida inquestionável, com seu compromisso histórico em defesa da justiça e do povo. Sabemos do contexto de conflito de interesses onde ele trabalha e querem criminaliza-lo como líder e a sua luta", afirma Tiago Valentim, da coordenação da CPT do Pará.
  
Amaro trabalha desde 1998 na Paróquia Santa Luzia, onde é líder comunitário e coordenador da Pastoral da Terra (CPT) e nessa sexta-feira se completam 30 dias que ele está encarcerado no Centro de Recuperação Regional de Altamira/PA, onde também está o assassino de Irmã Doroty. Segundo a Irmã Irene Lopes, secretária executiva da Rede Eclesial Pan Amazônica-Brasil, a prisão do padre Amaro faz parte de um longo processo de perseguição de agentes de pastoral e de direitos humanos que cotidianamente são criminalizados, sofrem ameaças ou são mortos na região. 

Na última semana, os advogados do padre tentaram uma liminar para garantir sua soltura, uma vez que ele é conhecido na região, tem residência fixa, não havendo qualquer necessidade de prisão preventiva, num caso de uma investigação que não foi concluída ainda, mas a liminar foi negada pela desembargadora Vânia Lúcia Carvalho da Silveira, do Tribunal de Justiça do Estado do Pará/TJE.

Hoje o Pará se mobiliza em ação e oração pela liberdade do padre Amaro. 

sábado, 19 de dezembro de 2015

Não tem arrego para pobres


















Fotos: Coletivo Maruim


Em 2013, por essa mesma época, perto do natal, famílias empobrecidas que viviam na ilha sem mais condições de pagar os altos aluguéis, ocuparam uma área na região da praia de Canasvieiras, um dos espaços mais caros da ilha. O terreno foi reivindicado pelo empresário Artêmio Paludo, que não conseguiu provar na justiça a posse legal de todo o espaço. Ainda assim, as famílias que ocuparam o terreno foram obrigada a sair da área, com a ação sempre truculenta da polícia militar. Quem acompanhou de perto aquela saga sabe muito bem o drama que é para as pessoas que buscam vida melhor na cidade, o despedaçamento de seus sonhos. Naqueles dias, muitos dos ocupantes eram migrantes do interior do estado e de outros estados do Brasil. Todos tentando encontrar na capital - que é chamada de ilha da magia - um lugar onde fincar uma casinha e seguir na batalha renhida pela vida. E esse, talvez, seja o sonho mais difícil de ver realizado. A terra na ilha tem peso de ouro. Perto da praia, então, não é coisa para "o bico de pobre".

A ocupação Amarildo, que colocou à nu o processo de grilagem de terras em Florianópolis, abriu um debate único na cidade. De quem são os terrenos? Como eles foram conseguidos? Foram comprados, roubados, grilados? Foram presente de alguns caciques políticos? Os "amarildos" como ficaram conhecidos os que reivindicavam o direito à morar e produzir, inauguraram um profundo debate sobre o latifúndio urbano, coisa que mais tarde veio desembocar no importante trabalho de investigação sobre a terra do historiador e ambientalista Gert Shinke. Esse trabalho já é livro: " O golpe da Reforma Agrária - fraude milionária na entrega de terras em Santa Catarina" e mostra como os apaniguados dos governantes foram beneficiados com a distribuição de lotes, não só na capital, mas em todo o estado, durante a ditadura militar. Gert escancara as verdades sobre "a propriedade da terra", e tanto, que seu livro até hoje permanece invisível para os meios de comunicação.

Ainda assim, a cidade parece que não se importa mesmo com o destino daqueles que, na divisão do trabalho, ficam com o que é considerado menos nobre. Os empobrecidos, os que vivem nas ruas, os que se agrupam nas periferias, os "empregados" dos que vivem no asfalto, esses seguem sendo tão invisíveis quanto as verdades que pulam do livro do Gert. Eles até podem reivindicar alguns direitos, um aumento salarial ou coisa assim. Mas querer "pegar o que não é seu", aí não pode. Tomar terra improdutiva ou terra grilada da união - portanto passíveis de desapropriação - é considerado pelos "bons cristãos" um crime. Poucos se importam em ver que crime mesmo é inventar um sonho de vida boa na cidade grande e depois escorraçar aqueles que acreditam nele.

Na madrugada de sábado novas famílias ocuparam o mesmo terreno em Canasvieiras, até porque até hoje o tal "dono" não conseguiu provar que ele é seu, e a própria Superintendência do Patrimônio da União garante que a maioria do terreno é mesmo da União. Mas, dessa vez não teve conversa, nem arrego. Em poucas horas, mesmo sendo final de semana, a Justiça provou sua eficácia quando é para agir contra as gentes. Quando o dia amanheceu a ocupação já estava cercada pelo aparato de força do estado. E a velha estória se repetiu. Pouca conversa, bombas de gás, tropa de choque.

Em poucas horas tudo já se acabara. Os que decidiram sair por vontade própria, ficaram na beira da estrada, na estupefação que sempre vem, apesar de tantas quedas. E os que decidiram não sair foram tirados à força e presos. E lá foram eles, mãos na cabeça, como se fossem perigosos bandidos. Sobrou até para os jornalistas que faziam a cobertura da ocupação. Duas fotógrafas do Coletivo Maruim - mídia popular, e um do Diário Catarinense, do oligopólio estadual de mídia, a RBS, também foram detidos com o argumento esdrúxulo de "estarem fora da área permitida para os jornalistas" (????). 

Desta vez, não se permitiu que o acampamento ficasse ali, próximo ao balneário mais amado pelos hermanos argentinos, "incomodando" os turistas. E a ocupação "Guerreira Dandara" foi desfeita.  
Para os que caminham pela cidade em busca de um canto onde encostar a cabeça, a batalha por um chão recomeça. Ou uma encosta de morro, ou uma favela, ou algum aglomerado irregular na beira de um esgoto. E para os que olham com olhos acusadores essa parece a melhor solução. "Que vão para qualquer lugar, menos para as áreas nobres, incomodar. E que vão trabalhar porque deve ser tudo vagabundo".

E a procissão dos trabalhadores sem-nada segue enquanto a cidade se prepara para o natal e para o ano novo. Vai ter fogos na Beira-Mar e champanhe em Jurerê.  É certo que se algum desses ocupantes estiver vendendo cerveja no isopor, pode até ser que ganhe um sorriso.  Dandara, a negra que reinou em Palmares, só é bem-vinda nas gravuras de livros. Na vida mesma, não. Se por acaso se levanta com um rosto real, aí recebe toda a força da repressão. Não tem arrego para os pobres. Esse é nosso ordinário mundo.    




segunda-feira, 20 de janeiro de 2014