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segunda-feira, 5 de agosto de 2024

Os tempos atuais



Está difícil entender o mundo. E, paradoxalmente isso acontece num tempo em que o que mais circula é a informação. O advento das redes sociais permite que qualquer pessoa munida de um celular possa disseminar informações em fração de segundo e para milhões de pessoas. O que menos importa nesse caso é a verdade dos fatos. O que vale é a versão. E, no geral, o que mais sucesso faz são as mentiras, armações, falsificações e sensações desprovidas de contexto. Vale tudo por um joínha, o dedo em positivo, o coraçãozinho.

Essa desvairada caçada de seguidores ou cliques tornou o mundo um lugar difícil de ser compreendido já que a leitura apurada, a análise complexa, o texto totalizante são coisas que perdem de goleada diante da informação ligeira que tem como base coisa nenhuma além do “é o que eu acredito” dos escreventes. Não bastasse isso a dissociação cognitiva causada pelo excesso de rolagem de inutilidades no celular leva as pessoas a não entender o que está dito, fazendo com que misturem alhos com bugalhos. 

Nesse universo turbulento quem ganha a guerra do discurso é o nosso velho conhecido sistema capitalista de exploração do mundo e das gentes. Quanto mais despreparadas estiverem as cabeças, mais fácil dominar.  Não é sem razão que impera no mundo a lógica liberal, mesmo na chamada esquerda. Tenho visto, estupefata, gente conhecida, lutadores sociais, jornalistas, políticos, assumirem posturas inimagináveis como, por exemplo, acreditar que a atual vice-presidente dos Estados Unidos, Kamala Harris, possa ser um grande avanço para a democracia no mundo visto que é mulher, negra e pode tornar-se presidente do império. É aterrador, porque, inclusive, não se pode alegar desconhecimento. 

O Partido Democrata é uma máquina de guerra e atualmente apoia e financia um genocídio. Como Kamala pode ser um avanço para a democracia? De que democracia fala essa gente, por deus? O fato de ser negra e mulher é suficiente para que aceitemos uma dirigente que aplaude e promove o massacre de crianças no Iêmen, na Palestina, na Somália e em tantos outros espaços onde os EUA intervêm? 

Tivemos na Universidade Federal de Santa Catarina uma situação aberrante também quando uma Cátedra que leva o nome da primeira deputada negra do estado, Antonieta de Barros, se manifesta publicamente alegando que quem defende o povo palestino é racista e antissemita. O que é isso, minha gente? E quem assina a nota são pessoas que estudam, que têm conhecimento sobre a realidade. Como explicar isso senão observando que é a defesa de uma ideologia? Ideologia de direita, de defesa do capital. 

Agora a bola da vez é a Venezuela. Num átimo estamos cheios de comentaristas sobre o país irmão, do qual não conhecem nada além do que reproduz a Globo, a Record ou as redes sociais. É uma infinidade de bobagens que nos avermelham a cara, não por comunistas, mas por vergonha. Desconhecem a história, não compreendem a geopolítica, ignoram os fatores locais, surfam unicamente na aparência, e caso sejam confrontados com uma análise mais aprofundada, a reação é não ouvir, não ler, não dar bola. “Vi no instagram, me mandaram no uatizapi” solapam anos e anos de estudo sobre dada realidade. É desesperador. 

Diante deste turbilhão nos resta seguir. Tudo o que temos é a luta contra o capital que tudo esmaga, inclusive a capacidade de raciocinar. E para isso, seguiremos estudando, observando as entranhas do monstro e das vítimas, analisando o que se esconde, sempre numa perspectiva crítica é claro, porque o estudo em si, sozinho, não garante nada também. Uma hora dessas vem um novo pachakuti. É o que me mantém no prumo! P´alante! 



segunda-feira, 23 de agosto de 2021

O império às claras


Ouvi ontem a fala do presidente dos Estados Unidos sobre a retirada do “seu” pessoal do Afeganistão. Ele informava à nação sobre a evacuação do país e sobre quem eles tinham decidido salvar. Tranquilo e sem pejo ele disse que 28 mil afegão tinham sido resgatados, aqueles que durante esse tempo de ocupação haviam colaborado com os Estados Unidos. “Fizemos isso, porque é assim que somos. Cuidamos dos nossos”. Pois bem, 28 mil pessoas e ponto final. Os demais que se virem. Foram lá e destruíram um país, então esse descaso com as gentes não é novidade. “Só se dá bem que é nosso amiguinho”. E provavelmente a audiência aprovou sem destaques a decisão.

Disse ainda o presidente que não havia mais o que fazer no Afeganistão. Eles tinham ido pra lá para pegar Osama Bin Laden e destruir a Al-Kaeda. Isso já estava feito. Então, nada mais havendo a tratar, encerramos essa etapa. Foram 20 anos para ver que nem Osama estava lá, nem a Al-Kaeda. Mas, Julian Assange, o homem que o governo estadunidense quer encarcerar e destruir, já havia dito há anos atrás: não se trata de vencer, se trata de manter a máquina de guerra. Tudo o que há é o business. Tudo que se quer é manter a economia girando. E, depois, o mundo é tão grande. Há tantos países para destruir. Mas, não se preocupem, quem ficar do nosso lado, a gente resgata. Essa foi a mensagem.

Assim, apaziguados e certos de terem sido solidários com os seus amiguinhos, os estadunidenses devem ter ido dormir em paz. Provavelmente haverá algumas campanhas de denúncias por conta da situação das mulheres e depois, em alguns dias, o assunto sai das manchetes e tudo segue seu curso. Tampouco se falará que o Talibã é cria do serviço não tão secreto dos EUA.

Pouco sei do Afeganistão, sua cultura e sua forma de viver. Mas, ao longo desses 20 anos sempre estive do lado daqueles que defendiam o direito do país se autodeterminar. Dizem alguns que lá é um emaranhado de clãs, dominado por tradições arcaicas e que é dever do mundo ocidental, civilizado, impor sua maneira de viver a isso que consideram um atraso. Bem, nós, em Abya Yala, sabemos de cor e salteado sobre o que acontece quando alguém se arvora em ser  “a” civilização. No caso específico do Afeganistão nós pudemos acompanhar via satélite: os crimes, os massacres, o terror, a tortura, tudo o que foi imposto pelas armas estadunidenses em nome da “democracia e liberdade”. Provavelmente isso só foi bom para uma minoria que encheu os bolsos. De novo, o que deve ter pesado foram os negócios, o dinheiro, o lucro.

Assim que os fatos se apresentam sem disfarces para todos nós. Quem tiver olhos para ver, que veja. Quem tiver ouvidos para ouvir, que ouça. Enquanto o que dominar o mundo for o interesse de uma classe minoritária, as coisas serão assim.



sexta-feira, 9 de abril de 2021

Os movimentos brasileiros e Biden



 Li a carta para Joe Biden, o presidente dos Estados Unidos, que quase 200 entidades e movimentos brasileiros assinam. Eles pedem que o governo dos Estados Unidos não feche nenhum acordo com o governo de Jair Bolsonaro e que discuta com a sociedade brasileira as proposta que ele possa ter para ajudar a Amazônia. Um equívoco constrangedor. 

Ora, companheiros. Biden não terá nenhuma proposta para a Amazônia que não seja para defender os interesses dos Estados Unidos, como sempre foi qualquer ação por parte dos EUA na América Latina e no mundo. Esse é um governo que já começou bombardeando a Síria, reforçando os ataques aos palestinos e prendendo crianças latinas na fronteira. Biden não é um interlocutor para os movimentos sociais nem para os indígenas. O máximo que ele pode aceitar dos povos originários brasileiros é que eles se mantenham como um reduto folclórico, que é exatamente o que espera dos povos originários dos Estados Unidos. Nada de reivindicar terra ou direitos.  Nada de se interpor a qualquer ação do capital para roubar energia ou riqueza. Quando Biden fala em proteger a Amazônia ele está dizendo proteger para eles. 

Jamais, nem nos meus mais terríveis pesadelos, pensei em ver companheiros e companheiras que caminham nas lutas mais radicais dentro do nosso país fazendo esse pedido que chega a ser patético.  Que é que restou da esquerda desse país? Que é que restou de nossa dignidade? Foi-se com a pandemia? Foi comida pelo vírus? Não temos sido capazes de lutar por nós mesmos, vamos pedir ajuda ao império? A um estado que já nos imputou as maiores violências e dores? 

Sei que muitas vezes os povos originários do Brasil precisam sair pelo mundo fazendo denúncias e expondo as tragédias que vivem porque, no geral, tampouco encontram nos movimentos nacionais, nos sindicatos e partidos de esquerda, a força que precisam para enfrentar com mais eficácia os ataques que sofrem. Isso é necessário, muitas vezes.  Mas querer estabelecer um “diálogo” com Biden é um tiro no pé. O governo dos Estados Unidos não têm amigos, ele tem interesses, já disse um de seus Secretários de Estado.  

Não há diálogo com os Estados Unidos. É sempre uma imposição que vem de lá. Sempre. Basta perseguir a história. Sentar com o presidente dos Estados Unidos para tentar fugir da sanha de Bolsonaro é trocar seis por meia-dúzia.

Só tem uma forma de vencer Bolsonaro: nossa luta aqui, entre nós. Qualquer ingerência nos cobrará caro. 

Não assino essa carta. Eu a repilo.  E tremo de dor e indignação.

terça-feira, 28 de julho de 2020

As milícias nos Estados Unidos e a reação negra


Nos Estados Unidos são bastante comuns as milícias ou grupos paramilitares que reúnem centenas de pessoas em bandos fortemente armados para defender causas no geral relacionadas ao supremacismo branco. Como lá a compra de armas é liberada não é nada incomum dar de cara com esses grupos, vestidos a moda militar, carregando metralhadoras e fuzis de última geração. Atualmente são pelo menos 160 diferentes grupos de milícias que se auto intitulam “patriotas” em luta para que os Estados Unidos não sejam tomados por estrangeiros, negros e pobres. Eles são o braço armado de cerca de 630 outros movimentos civis que se apresentam como lutadores pelos direitos civis, o principal deles sendo o direito de andar armado. A maioria desses movimentos se diz contra o governo federal alegando que os governantes estariam vinculados a tramoias globais de ameaça à paz. Praticamente todos esses grupos têm suas raízes em organizações racistas e antissemitas, como a histórica Ku Klux Klan.

Pois nesse último dia da independência – 4 de julho – os estadunidenses foram surpreendidos com a aparição de uma milícia bastante diferente, também vestida a moda militar e fortemente armada, mas com uma diferença radical: todos negros. É a milícia NFAC, sigla para “Not Fucking Around Coalition”, algo assim como um “não brinque com a coalizão”. No dia em que os racistas costumam se manifestar em frente a uma estátua dedicada à Confederação num famoso parque da Georgia (berço da KKK) , milhares de negros surgiram em colunas, armados até os dentes para enfrentar os racistas em frente a obra que é considerada uma apologia ao racismo. 

Naquele dia, os manifestantes se colocaram em frente a escultura e provocaram: “Não estou vendo os boogie boys, os 3% e todo o resto dos racistas assustados . Estamos aqui! Onde vocês estão! Estamos aqui, na sua casa!” E quando os jornais falaram em manifestação dos negros, as lideranças da NFAC rebateram: ““Somos uma milícia negra. Não somos manifestantes. Não viemos aqui fazer discurso nem cantar. Não é isso o que fazemos”. E para deixar ainda mais claro, John Johnson – Mestre Jay - um dos líderes afirmou: “Não sou um manifestante, sou um general a mando da minha milícia”. 

Dias depois, no 25 de julho, a milícia realizou outra marcha, desta vez na cidade de Louisville, no estado do Kentucky, pedindo justiça para Breonna Taylor, uma mulher negra que foi assassinada dentro de seu apartamento por policiais à paisana. “Queremos saber o que está sendo feito sobre esse assassinato. Se não nos dizem nada vamos pensar que não estão fazendo nada”, salientou Jay. 

A NFAC está sendo comparada ao movimento dos Panteras Negras, uma organização urbana socialista e revolucionária, famosa nos anos 60, que patrulhava as cidades fiscalizando as ações da polícia. Ainda é cedo para essas comparações, mas que a força da milícia negra nessas duas últimas ações teve repercussão no país, isso teve. Tanto que vários “famosos” negros estão tuitando e falando com alegria sobre essa aparição. 

As coisas esquentam no país do Tio Sam, em pleno momento de eleição. 

quinta-feira, 11 de junho de 2020

Manifestações nos EUA e no Brasil


O assassinato de George Floyd gerou uma onda de protestos no mundo todo na discussão do racismo e da violência policial contra os negros. Nos Estados Unidos, obviamente, as manifestações foram maiores. A comunidade negra, já calejada nesse sofrimento, explodiu em mais uma onda de protestos que iniciou violenta como reação imediata ao assassinato e, na medida em que foi sendo encampada por outros grupos sociais, passou a marchas pacíficas, inclusive com o apoio das autoridades. 

As manifestações da população negra não são novidade nos Estados Unidos. No chamado “mundo livre” essas comunidades estão excluídas de direitos reais desde sempre, como acontece em quase toda a América. Nem a independência, nem a tão incensada Constituição foram capazes de apagar a lógica escravocrata da sociedade estadunidense, daí que esse estrato da população precisa sistematicamente se levantar em rebelião para garantir o mínimo. E é sempre o mínimo.

Lendo algumas análises sobre os levantamentos e vendo a comoção mundial, duas linhas de pensamento se expressam de maneira bastante diferenciada. Uma diz que agora sim os negros estadunidenses farão a revolução há tempos desejada, desde os grandes líderes da luta por igualdade de direitos até os mais radicais como os Panteras Negras. Isso claramente não está dado, mas pode estar, caso os protestos avancem para discussões mais profundas e mobilizem ainda mais gente, envolvendo partidos e organizações. 

A segunda linha diz que é só mais um levante, entre tantos dos que já aconteceram, que apenas reivindicam inclusão na sociedade capitalista. A falta de consciência de classe é apontada como o grande entrave das mudanças estruturais, visto que os protestos pedem mudanças na polícia, mas não no sistema, deixando a estrutura intocada.

Para a professora Cris Sabino, do Serviço Social da UFSC, dizer que a luta dos negros não está vinculada às mudanças estruturais é totalmente injusta e só denota desconhecimento da realidade. Segundo ela, um negro, aqui no Brasil ou nos EUA, sabe que para que o racismo se acabe é preciso que as mudanças aconteçam no mais profundo das coisas, afinal, ele se expressa em tudo, desde a impossibilidade do acesso a questões básicas, como saúde e educação até o sistemático processo de extermínio. “O negro precisa estar o tempo todo lutando para se manter vivo, para ser tratado como um ser humano e não ser exterminado como um bicho. É um equívoco então dizer que os negros não pautam a luta de classe. A base da luta do povo negro é ter condições de igualdade perante a sociedade e a gente sabe que isso não vai acontecer sem uma mudança estrutural. Veja que quando as pessoas negras se movimentam elas movimentam toda a base da sociedade. O que falta, na verdade, é que os demais movimentos tradicionais e sindicais, pautem o racismo, isso sim”. 

Nos Estados Unidos, em meio à comoção provocada pela violência contra George Floyd,  boa parte dos governantes – governadores, prefeitos, congressistas – têm se posicionado a favor da pauta dos manifestantes no que toca a reformar as polícias e já se fala até em excluir dos protocolos de abordagem o tal do estrangulamento que acabou matando George. Mas, não se vê qualquer deles falando em mudar a estrutura do poder repressor, muito menos a sociedade como um todo. Os candidatos presidenciais, por exemplo, desviam o tema estrutural. De Trump, nada se espera, e o candidato democrata Joe Biden já declarou que não vai reduzir orçamento para as polícias. Ou seja, os partidos da ordem não têm propostas para os conflitos raciais, que se expressam mais concretamente na relação comunidade x polícia. Isso também pode ser percebido na relação da polícia, não apenas com os negros, mas também com os imigrantes de toda cor: latinos, árabes, chineses, etc... O racismo seguirá intacto, a menos que os protestos encontrem outros elementos de luta que mantenham as pessoas – negras e não-negras - mobilizadas e dispostas a mudanças maiores do simplesmente um protocolo de abordagem. 

No Brasil, por exemplo, onde o extermínio da população negra é uma realidade cotidiana nas grandes e médias cidades, que protocolos poderiam ser mudados? Não atirar 80 vezes num carro em movimento com uma família dentro? Não atirar mais de 70 balas em uma casa particular onde adolescentes negros estão jogando vídeo-game? Não sumir com os corpos negros, como o do Amarildo? 

Agora, durante o caos gerado por uma estudada e planejada “incompetência” do governo federal no enfrentamento ao novo coronavírus, são os corpos negros os que estão pagando o preço alto da morte. São eles – em maioria - que estão nas ruas, trabalhando, e são eles os que ficam à espera de respiradores em postos de saúde, muitas vezes por dias, sem conseguir. Número do Sistema Único de Saúde mostram que 67% dos usuários são negros e uma boa parte pertencente ao grupo de risco, com diabetes, tuberculose, hipertensão e doença renal.

O racismo estrutura a sociedade capitalista: nos países do centro do sistema por terem sido os traficantes de gente, e nos países de periferia por terem sido os espaços onde os povos originários foram violados e os negros sequestrados da África amargaram a dor de ser escravizado. Esses, depois da chamada libertação, foram lançados no mundo sem o direito à propriedade, o que, de cara, já colocou uma pedra gigante na proposta de igualdade de direitos. Como ter igualdade no capitalismo sem propriedade? Impossível. Nos Estados Unidos, um dos pais da Pátria, Thomas Jefferson, tinha como proposta mandar embora do país todos os negros libertos, porque tinha medo que eles tivessem de roubar para sustentar-se, visto que obviamente formariam um bloco de miseráveis. 

Assim que os protestos dos negros nos Estados Unidos, bem como em todo o mundo são efetivamente uma chispa perigosa para o sistema, mas que precisa de mais lenha para queimar até colocar em queda o racismo estrutural. 

quarta-feira, 21 de agosto de 2019

Estados Unidos e Afeganistão



Na segunda-feira passada, dia 19, o Afeganistão celebrava o centenário de sua independência da Grã-Bretanha, mas ainda mergulhado na tragédia que tem sido a vida da população depois da invasão estadunidense em 2001. O país foi invadido depois do ataque de 11 de setembro, quando a culpa recaiu sobre o grupo Al Qaeda que, conforme os Estados Unidos, tinha uma base naquele país.

Pois, em vez de festa nesse centenário os afegãos tiveram de viver uma série de atentados com bombas explodidas em restaurantes e outros espaços públicos na cidade de Jalalabad, deixando mais de 60 feridos. No sábado anterior, outro atentado, reivindicado pelo Estado Islâmico, foi registrado em Kabul durante um casamento, no qual morreram 63 pessoas e 200 ficaram feridas. Uma rotina macabra que assola a vida dos civis.

A invasão do Afeganistão pelos EUA, baseada em mentiras, tinha como proposta levar a “liberdade e a democracia” ao país, derrubando o governo dominado pelo Talibã. Nada disso aconteceu. O que se deu foi o aprofundamento de uma luta fratricida sem fim, com o fortalecimento do Talibã, que tem resistido numa guerra de guerrilha, e ainda com a criação do Estado Islâmico, outro grupo fundamentalista. Atualmente os Estados Unidos está sendo obrigado a negociar com o Talibã um acordo de paz que inclui a retirada das tropas estadunidenses do país depois de 18 anos fomentando o caos. O governo legalmente constituído, e apoiado pelos Estados Unidos, não participa das negociações.

Ou seja, o Afeganistão se configura mais uma derrota gigantesca para os Estados Unidos, visto que em 18 anos de invasão os soldados estadunidenses não conseguiram derrotar os talibãs. Hoje, os Estados Unidos têm cerca de 14 mil soldados no país e nesses quase vinte anos consumiu quase dois trilhões de dólares para manter a guerra. O departamento de Defesa dos Estados Unidos divulga que mais de dois mil soldados estadunidenses morreram no Afeganistão, enquanto que os mortos da força afegã aliada somam 45 mil. A ONU aponta perto de 200 mil mortos desde o início da invasão.

Os EUA levaram o terror para um povo sem qualquer outro motivo senão o de garantir poder geopolítico e roubar as riquezas. E, agora, 18 anos depois, pretendem sair do país, deixando uma nação destruída e, de novo, na mão do Talibã. Não responderão por isso em nenhum tribunal, ainda que sejam criminosos.

segunda-feira, 10 de junho de 2019

O mundo livre



Nos Estados Unidos um professor universitário está sendo processado pelo estado por ter oferecido água, comida, roupa limpa e uma cama a alguns migrantes na cidade de Ajo, estado do Arizona. Para o governo, Scott Warren cometeu crime ao ajudar as pessoas e pode pegar até 20 anos de prisão. Segundo a organização "No more Deaths" (Não mais mortes), que dá apoio aos migrantes na região, nos últimos 15 anos mais de três mil pessoas encontraram a morte no deserto do Arizona, tentando chegar aos Estados Unidos, atraídas pela promessa de "oportunidades". Warren, que é professor na Universidade do Arizona e ativista dos Direitos Humanos, foi preso em janeiro de 2017, quando a polícia fez um arrastão nos acampamentos das organizações humanitárias e o encontrou, ajudando a dois migrantes. Em todo o país, organizações de direitos humanos se movem para impedir a condenação de Scott, coisa que pode abrir um precedente gravíssimo no país. No chamado mundo livre, solidariedade humana é crime.

quinta-feira, 29 de novembro de 2018

Vale a pena ser parceiro dos EUA?

Panamá - Bairro Chorrillo, destruído na invasão, segue sendo reduto de muita pobreza
Iraque - Mossul, uma cidade esplendorosa destruída pela guerra


Posso entender as pessoas que pensam que estar próximo e aliado dos Estados Unidos é bom para o Brasil. A indústria cultural mostra isso o tempo todo. Os Estados Unidos como o guardião da liberdade, o salvador dos povos, o pai da democracia. Há um bombardeio massivo dessa “verdade”, e as pessoas creem. Está na televisão, está nos filmes, está no jornal, nas revistas. Mas, se prestarem bem atenção, verão que não é bem assim. 

É muito comum aos Estados Unidos usarem da mentira para fazer crer aos povos de que seus motivos são bons. Para comprovar isso, é só fazer o teste da realidade. Qual invasão estadunidense acabou bem para o país invadido? Só para lembrar algumas invasões recentes na história, vamos ver a situação do Panamá, invadido em 1989, a pretexto de salvar o país de um presidente narcotraficante. 

Na verdade, o que o os Estados Unidos queriam era recuperar o controle do canal, visto que seu velho aliado, Noriega, que inclusive tinha sido agente da CIA, estava aumentando os impostos para o uso da passagem. Foi acusado de traficante e deposto do cargo de presidente por marines estadunidenses que entraram no país e deixaram um saldo de milhares de mortos, a maioria civis. Depois de tudo deixaram lá um presidente amigo e o Panamá segue sob suas asas, transformado que está em um paraíso fiscal. Lá, há visivelmente dois Panamás: um, que é dos financistas, na parte rica e outro que é o das gentes, o dos panamenhos, da maioria, sempre dependente e pobre. 

Outro exemplo, e ainda mais gritante é o Iraque, invadido em 2003, também com base em uma mentira: a de que Saddam, que havia sido agente da CIA também, tinha armas químicas e era uma ameaça ao mundo. A promessa era levar a democracia ao país árabe. E o que chegou foi a morte. Mais de um milhão de pessoas, civis, já foram assassinadas no Iraque desde a invasão, o país segue em conflito, com guerras intestinas e cada vez mais pobre. Toda a sua riqueza cultural foi destruída e hoje, nada mais resta a não ser o petróleo, que passou para as mãos das empresas estadunidenses. Nunca foram encontradas armas químicas.

Então, quando a família do presidente eleito vai para os Estados Unidos jurar fidelidade ao governo estadunidense está fazendo uma arriscada aposta. O Brasil tem riquezas demais, entregá-las aos Estados Unidos não trará nada de bom para a maioria da população. Alguns ganharão muito dinheiro, é certo, mas não seremos nós, não serão os trabalhadores que votaram em Bolsonaro acreditando que o Brasil estaria acima de tudo. Ajoelhar-se para os EUA traz o de sempre: roubo, guerra, dependência, pobreza, miséria, fome, desemprego, morte. 

Não é isso que queremos. Então, temos de lutar contra a entrega do país.

Para os que não acreditam nas informações que passamos, basta pesquisar e seguir o dinheiro. Quem lucra com a parceria? 

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Chelsea Manning, livre!


Bradley Manning

Bradley Manning é o jovem soldado estadunidense que repassou ao Wikileaks mais de 700 arquivos secretos referentes à guerra dos EUA contra o Iraque e o Afeganistão. Ele queria, ao revelar os horrores cometidos pelos soldados do seu país, fazer com que tudo aquilo parasse. Ingenuamente acreditou que se as autoridades soubessem o que acontecia de fato, ordenariam que não houvesse mais o terror. Mas, em vez de ser visto como um herói, por informar ao mundo sobre os ataques a civis, torturas, e outras maldades, foi condenado e preso. Sua condenação foi de 35 anos e ele foi anunciado como um traidor da pátria.

Na prisão, o soldado passou por torturas físicas e psicológicas, jogado, nu, numa cela, por longos períodos de completo isolamento. Sofreu todas as dores possíveis. Enfrentando ainda todo um processo interno sobre identidade de gênero, a ele foi negado tratamento médico e acompanhamento psicológico. Por várias vezes tentou o suicídio. Como um típico jovem estadunidense ele sempre acreditou no governo e acreditava sinceramente que estava fazendo um bem ao país.

Massacrado pela perplexidade, solidão, medo, terror e angustias ele ainda conseguiu  encontrar seu verdadeiro eu. Agora, Bradley ficou no passado. Apesar de ter sido negado o tratamento com hormônios, Manning se identifica como Chelsea e assumiu definitivamente sua identidade feminina.

Em todo mundo surgiram campanhas de luta pela libertação de Chelsea, com a atuação sistemática dos movimentos de direitos humanos, visto que as condições da prisão eram absurdas e ilegais. Até o seu julgamento foi secreto.

Finalmente, num dos últimos atos do presidente Barak Obama - no governo até o dia 20 - a pena de Chelsea foi comutada de 35 para sete anos. Com essa decisão ela deverá ser posta em liberdade no próximo mês de maio.


Uma boa notícia, finalmente. Resta saber em que condições ela sairá e como enfrentará a vida fora da prisão. 

Do fundo do meu coração espero que Chelsea ainda receba a merecida honra por ter divulgado ao mundo os massacres de civis no Iraque e toda a sorte de terrores que são impostos pelos EUA aos povos que dizem "salvar". Manning, com Snowden e Assange são os heróis reais do nosso tempo. 

quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

A democracia no Iraque


Em 2003 os Estados Unidos invadiam o Iraque para dar ao povo democracia e liberdade. O argumento para a invasão era de que Sadam tinha armas químicas e era uma ameaça ao mundo ocidental. Tudo era mentira, como ficou comprovado depois. Desde então, mais de um milhão de pessoas foram mortas. O país está destruído e hoje vive o drama de ter de conviver não apenas com os "mariners" estadunidenses e sua habitual violência, mas também com o "monstro" criado pelos EUA: o Estado Islâmico. No ano de 2016 foram registradas 6.878 mil mortes de civis ou seja, gente que não estava envolvida na guerra propriamente dita. Também há registros de 12 mil pessoas feridas. Dados que são divulgados, fora o que está fora das estatísticas.

quarta-feira, 9 de novembro de 2016

Trump na presidência dos EUA


Nenhuma surpresa na vitória de Trump. Os Estados Unidos construíram esse momento. A arrogância do império forjou uma população cada vez mais xenófoba, isolacionista, racista. Agora, tudo isso se volta contra eles mesmos. provarão do próprio veneno. Por outro lado, Trump é apenas um gerente do capital - verdadeiro governante. Fará o que for seguro para os investidores, seguirá a cartilha das Fundações milionárias que comandam a vida no país e atuará internamente com suas pautas reacionárias até enquanto não prejudicar os interesses do sistema. Se pisar na bola com as grandes corporações, será eliminado, tal qual ele eliminava os "maus gestores" no seu show de TV. Vai se enquadrar direitinho. Não é à toa que é um bilionário. Não jogará contra ele mesmo.

De resto seguirá a mesma política de imperialismo, expansionismo e dominação sobre as demais nações. Clinton faria igual ou pior. Os estadunidenses viverão dias duros, mas poderão crescer com isso. Como nós, aqui no Brasil, estamos avançando apesar dos ataques. Aos trabalhadores restará fazer o que sempre fizeram. Resistir, lutar e avançar, até que se conquiste o grande meio-dia. Não há nada de novo sob o sol.

sexta-feira, 18 de julho de 2014

A batalha na Crimeia




Na Rússia, a opinião da maioria das pessoas comuns, é de que Putin está mais do que certo em defender o povo da Crimeia. Segundo eles, a Crimeia sempre pertenceu a Rússia e só se anexou à Ucrânia, numa divisão artificial feita durante o regime soviético. "Quando a Crimeia foi cedida à Ucrânia ninguém imaginava que a URSS iria se acabar um dia. Estava todo mundo junto". Por outro lado, a "culpa" sobre tudo o que acontece agora é atribuída ao ex-presidente Boris Ieltzin. Contam os russo que quando a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas se acabou, o então presidente da Ucrânia  perguntou a Ieltzin se ele gostaria de ter novamente sob o controle territorial da Rússia a região da Crimeia, e ele teria dito que não. "Também naqueles dias ninguém imaginava que a Ucrânia seria um dia governada por nazistas".

É por isso que a opinião pública russa respalda as ações de defesa da Crimeia. Porque entende que é dever do governo russo proteger os russos que vivem naquela região. No geral, as pessoas mais simples, que estão no plano da consciência ingênua, reputam a guerra à apenas esse ponto, sem levar muito em consideração os demais motivos que levam, inclusive, os Estados Unidos a apoiarem o movimento reacionário/nazista que hoje domina a Ucrânia. Não é levado em conta o fato de a Ucrânia ser um espaço estratégico de dominação, não se discute o fato de o conflito estar no centro de uma disputa de geopoder que envolve a Rússia e a recusa do governo em ceder aos chamados de coalizão com a Europa, aliada histórica dos Estados Unidos. Na verdade, a Rússia segue firme no propósito em fazer parte de outro bloco de poder, que dialoga com os EUA, mas não se subordina. O parceiro principal segue sendo a China, configurando assim o bloco sino-russo que cresce em força. Um exemplo disso é o recorrido que Putin fez nas últimas semanas pela América Latina, buscando atrair velhos aliados e puxando novos parceiros para o bloco.

Nas cidades mais distantes da fronteira com a Crimeia, a guerra é só uma coisa que acontece nas telas da televisão. E ela só se concretiza nas famílias que têm algum parente na região. Ainda assim, o apoio aos russos que vivem na Ucrânia é incondicional.

Agora, com a notícia da queda do avião da Malásia, supostamente derrubado por um míssil, a guerra de informação esquenta ainda mais o conflito. De um lado, os neo-nazis que dominam a Ucrânia acusam os pró-russos de terem disparado o também suposto míssil. Do outro, os pró-russos acusam os neo-nazis de terem derrubado o avião  pensando ser o que levava Putin de volta à Rússia. A história toda é muito controversa. Primeiro porque não se tem certeza de que foi um míssil que derrubou o avião. E segundo, porque as pessoas sabem que na guerra, a primeira vítima é a verdade.

Basta recordar os motivos que levaram os EUA à guerra com o Afeganistão ou o Iraque, todos eles baseados em mentiras que, mesmo depois de terem sido desmascaradas, não mudaram em nada o andar dos fatos. O Iraque foi destruído, o Afeganistão foi destruído e os Estados Unidos nunca responderam  pelos crimes que cometerem e seguem cometendo nesses países.

O que se vê agora são os blocos de poder se movendo do mundo, cada um tentando buscar mais força para expandir seu domínio. Nessa movimentação, a conta sobra para alguns que, desgraçadamente, estejam no caminho desses desejos. Assim, vê-se uma frente de batalha na Palestina, com Israel buscando exterminar de vez o povo que heroicamente resiste, sendo uma pedra no sapato para o bloco estadunidense que quer dominar totalmente a entrada para o Oriente Médio, e outra frente na Ucrânia que, sob o domínio neo-nazi, parceiro dos EUA, será um caldeirão fervente na porta da Rússia, sempre a incomodar. O projeto do bloco EUA/Europa é controlar o gás e se apropriar das riquezas mineirais e energéticas que são grandes no país.

A guerra "quente" está em ação e como sempre acontece, nenhum argumento moral impedirá que as coisas sigam seu curso. Coisas "sem importância" como a vida de centenas de milhares de pessoas não serão levadas em conta. O que interessa mesmo é o tabuleiro de domínio que está à frente dos governantes. Lá embaixo, na vida real, os "peões" são eliminados sem qualquer pudor. Não está dado nas coerências operacionais dos que fazem a guerra o sentimento de compaixão pelos que, para eles, só atrapalham o projeto de poder. Por isso que clamar por paz ou justiça aparece quase como um gesto inútil, como tem sido na luta pela desocupação do Iraque, Afeganistão e Haiti. Resta aos que sofrem viverem sua dor em solidão.

Muita bomba vai rolar no rastro de mais uma imolação feita em nome da guerra, como parece ser o caso das 280 pessoas mortas  pela queda ou explosão do avião da Malásia. Seja lá o que for que tenha acontecido, tenha sido um míssil ou um problema técnico, isso será usado por todos os lados para reforçar os argumentos de cada um.