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sexta-feira, 29 de outubro de 2021

Pezinho



Hoje do nada, acordei em lágrimas. Não tinha lembrança de sonho, nada. Só aquela sensação de profunda e desesperada tristeza. Ouvi ao longe o miado da Juanita e então soube o porquê daquele sentimento. Meu Pezinho encantou. Não voltará mais. Pezinho é meu gato, que compartilhava a vida com a gente desde há 12 anos. Nasceu da Bartolina, cinza, com as patinhas brancas, daí seu nome: Pé de Pano, vulgo Pezinho. Ele sobreviveu a muitas aventuras, como a perda do rabo, várias infecções urinárias, internações hospitalares e lutas com o cachorro do vizinho. Era gato rueiro, sempre dando suas voltinhas, mas seu porto seguro era aqui. 

Quando o Fabricio, menino vizinho, me entregou sua cachorra Mel, com quatro filhos, ele não gostou muito e começou a se afastar. Ainda assim quando a Chiquinha – filha da Mel - ficou paralisada, ele ficava ao seu lado, pesaroso. Depois que ela morreu, Pezinho decidiu buscar outra casa. Então, vivia na casa de um vizinho da frente, mas vinha fazer as refeições aqui. De manhã, lá pelas dez horas, já se ouvia o seu miado incessante, dizendo: cheguei, corre lá botar a ração. Comia e se esparramava na mesa, dormindo tranquilo. Ficava até o final da tarde, comia de novo e se mandava. Dormia na outra casa. Vez em quando concedia a sua presença, miando alto na porta do quarto do Renato, pedindo para entrar. Enfim, era um gato, soberano e majestoso gato. 

Aceitava abraços e beijos como se fosse um deus e lá de vez em quando, sem alarde, subia no colo da gente, dormindo, tranquilo, enquanto ficávamos paralisados para não incomodar. Pois já faz algumas semanas que ele não aparece mais. Na primeira, pensei: Pezinho tá demorando, mas já vem. E ficava esperando pelo seu miado urgente. Todas as manhãs espiando a rua e nada. Tudo bem, ele já havia ficado duas semanas sem aparecer e depois surgira, impecável. 

Esta manhã percebi que já se passaram quatro semanas. Ele não vai voltar. Deve ter encantado, virado poeira cósmica. Foi-se no silêncio, sem alarde, sem adeus. A casa fica mais triste sem ele e eu só posso mesmo chorar. Sei que ele está no céu dos gatos deitado em alguma almofada quentinha, entreabrindo levemente os olhos enquanto eu choro, e pensando, com um muxoxo: humanos, tão sentimentais. Gracias, Pezinho, por tantos anos de presença... Bem-vindo a casa da beleza.

sábado, 9 de fevereiro de 2019

Juanita e o vento



Uma das minhas gatinhas, que tem por nome Juana Azurduy, tem medo de vento. É uma coisa bem incrível isso. Basta começar a soprar o vento sul ela fica numa agitação sem fim e começa a miar desesperadamente. Ela é do tipo que detesta qualquer carinho, e tomá-la no colo é uma invasão a qual ela não permite de nenhuma forma. A não ser que tenha vento. Só aí consigo apertá-la junto ao coração, acarinhando devagar. Ela vai acalmando, acalmando e fica, com os olhos graúdos, olhando pra mim, já em paz. E enquanto venta, não sai de dentro de casa.

Numa dessas noites de tormenta ela foi surpreendida numa área que fica em cima no puxadinho de trás da casa. E, como sempre, paralisou. Fica incapaz de se mexer. Era umas quatro horas da manhã e ouvi seus miados de desespero. A chuva caia com força e o vento agitava as ramagens, que batiam umas nas outras, como cabeleiras loucas. Os gritos de Juanita rasgavam a noite.

Lá fui eu, noite adentro, buscar a bichinha. A força do vento tornava qualquer guarda-chuva obsoleto, então, o jeito foi correr pelo pátio e subir as escadas sem proteção. Juanita estava num canto, horrorizada, e tanto que não me permitia pegá-la. A chuva nos fustigava. Desci e peguei uma toalha, das grandes, e voltei. Ela gritando, em desespero. Atirei sobre ela a toalha e segurei com força, para que não me rasgasse com as unhas. Ela se debatendo em completo desespero.

Desci a escada correndo, entrei em casa, fechei a porta e coloquei uma musiquinha, baixinho, enquanto acarinhava seu corpinho trêmulo. Foi acalmando, acalmando, acalmando, até que se enroscou no sofá, dormindo como um anjo. Não sei o que ela vê no vento, mas a parada é lôca. Então, sempre fico atenta quando o vento vem. E mesmo que seja no meio da madrugada, lá vou eu, tal qual um super-herói, salvar a "mocinha". 

Os bichos nos têm!