Mostrando postagens com marcador Danilo. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Danilo. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 15 de janeiro de 2024

Nos falta um esquerda revolucionária


Foto: Danilo, no Iela...

Danilo Carneiro era um comunista, militante social que participou da Guerrilha do Araguaia – durante a ditadura militar – e que tinha princípios muito claros sobre o caminho a seguir. Atuando junto ao Iela desde a sua criação em 2004, era assim uma espécie de decano. Vinha ao Instituto todos os dias para estudar e ficava até umas dez horas da noite lendo e conversando com os estudantes. Era um mestre. Fez isso até poucas semanas antes de morrer, aos 80 anos de idade, no primeiro dia do ano de 2022, sofrendo as sequelas das torturas que sofreu. Dentre as muitas lições que nos deixou há duas que seguem sendo suleadoras: para lutar tem de estar organizado e para mudar há que ter um partido revolucionário. "Sem isso não dá, nega". Era o seu bordão.

Observando a política latino-americana, eivada de novos golpes, e particularmente a brasileira, completamente entregue a conciliação, fica nítido o quão distante estamos da ação de uma esquerda revolucionária. Mesmo depois de termos passado por um governo como o de Jair Bolsonaro, quando comandaram a nação as criaturas mais ignóbeis, o que se vê é o mesmo velho jogo da conciliação. Nada avança. Patinamos. Não há uma esquerda visível e as forças em ação são da chamada realpolitik: "É o que se pode fazer agora". "Não podemos puxar a corda". "Há que entender a realidade". E coisas do tipo. Criticar o governo não se pode, senão já vem a etiqueta de "fazer o jogo da direita". Lutar, fazer greve, manifestações, também não pode, porque senão é jogar água no moinho da direita. Ou seja, há que aceitar as coisas mais absurdas como a nova Lei da Polícia Militar, ou a mesma lógica econômica que rege o mundo neoliberal, as alianças no Congresso com os mesmos que jogaram o país no inferno em 2016, ou as esdrúxulas parcerias que vão se arranjando para as eleições municipais. "Vamos agora ganhar as prefeituras, depois a gente avança", dizem. E tudo gira em torno do eleitoral. As mudanças profundas e necessárias não vêm. Não virão.

Lendo Lukács, na sua análise sobre o irracionalismo alemão que levou a Hitler, fui me surpreendendo com sua escrita. Parecia estar falando de nós. Diz ele que a vitória do reformismo e da conciliação na construção do que foi a República de Weimar foi o passo decisivo para que mais tarde a população da Alemanha aceitasse os horrores do nazismo. Para barrar a revolução – o levante das massas - durante a grande crise os reformistas diziam: tem que estabilizar a república, os comunistas são muito radicais, não se deve fazer greve por conta de salário, não se deve fazer manifestação, acalmem-se. Ou seja: a razão reformista não apenas deixou a classe trabalhadora incapaz de lutar contra o capitalismo imperialista que se instalava na Alemanha, bem como impossibilitada de enfrentar o fascismo. Além disso, destruiu a ideia do desenvolvimento histórico no qual a classe trabalhadora luta e avança. Os alemães, abobados pelos pregadores da realpolitik, acabaram mais tarde elegendo Hitler e deu no que deu. 

Voltando ao presente, pressinto que os sacerdotes da atual realpolitk estejam agindo com desenvoltura visando abobalhar os trabalhadores. Obviamente a história só se repete como farsa, mas ainda assim é um grande risco. O país da conciliação já gerou um "mito", figura típica do irracionalismo político. O que mais pode vir? Chegaremos ainda mais fundo nesse poço? Por isso me volta a lição do Danilo, da necessidade de um partido revolucionário de verdade. Mas, ando cética. Creio que com essa humanidade tik tok não iremos muito longe. Os tempos são grises...

****


quinta-feira, 12 de abril de 2018

O menino e as pedras




Vai longe o tempo, mas a memória lembra. Ele era menino ainda, uns sete anos, e vivia em Rio Turvo, Minas Gerais, cidade onde nasceu. Pequeninho e mirrado era alvo sistemático de Zé Bodão, um garoto da mesma idade, mas grandote, que dava umas três vezes o seu tamanho. Zé Bodão batia em todo mundo, era o valentão da escola. E não havia jogo de bolita ou de semente de cinamomo que ele não estragasse. Chegava, pegava as bolinhas e ainda metia o cucuruto em todo mundo.

Danilo era pequeno, mas valente. E fervia de raiva pela impotência de ver, todos os dias, o valentão bater nele e nos seus amigos. Ninguém podia com Zé Bodão. O gurizinho então decidiu dar ouvidos aos conselhos da mãe, que desde sempre vaticinara: “Virem-se na vida, deem jeito, não choraminguem”.  

Ele avaliou todas as possibilidades. Na mão não ganharia, o cara era grande demais. E mesmo que os amigos se juntassem talvez o Zé Bodão ainda vencesse todos eles. O caso não era de força. Tinha de ser de esperteza. Foi aí que decidiu ser um exímio atirador de pedras.

Os dias se passaram e, na escola, a gurizada seguia apanhando e tendo as bolinhas de gude roubadas. Mas, no silêncio dos entardeceres, Danilo treinava pontaria com as pedras. Dias, meses se passaram. Então, ele viu que estava pronto. Seus dedinhos pequenos eram bazucas explosivas e as pedras chegavam ao alvo, certeiras. Chegara a hora.

Zé Bodão tinha a tarefa de, depois da escola, levar a tropa do pai para o pasto. Ia sozinho. Danilo sabia. Então, subiu num pequeno elevado que dava para o descampado e posicionou-se. Os bolsos cheios de pedra. Num segundo elas voavam na direção do Bodão. Bingo. Ele tomara uma saraivada.

E assim foram os dias. Os mísseis certeiros causando danos. Bodão descobriu quem era o atirador. Mas, no colégio, quando Danilo chegava, com os bolsos cheios de pedra, ele retraia. O pequenininho fizera o que mãe mandara: vire-se! Pois se virou. E desde então ninguém mais mexeu com ele na escola. Era o guri das pedras, e elas machucavam.

Foi esse mesmo guri que, depois, já moço, se internou nas matas de Goiás, na Guerrilha do Araguaia. Não tinha como ser diferente. Ele aprendera que quando a força é bruta, há que enfrentá-la, na coragem.

Danilo Carneiro, um mestre. Todos os dias dando lições aqui no IELA.



quarta-feira, 5 de outubro de 2016

Danilo




Ali estávamos, técnicos e estudantes, na vigília contra o atraso. Nosso Centro, o de Ciências Econômicas, estava para votar o fim do voto paritário. Um retrocesso que viabiliza o domínio completo dos professores nas consultas eletivas. A desqualificação total dos trabalhadores técnicos e dos estudantes. Coisa do tempo das trevas.

Durante dias os estudantes haviam mobilizado seus pares, bem como os técnicos. E naquela sexta-feira, estavam ali os de luta, os de sempre, os que não se acovardam. Dentro da sala rolava o debate, no segredo. Os professores não permitiram a entrada dos manifestantes. Então, o povo aguardava, do lado de fora, esperando pela hora da votação.

Foi então que vivemos um momento estelar. Essas frações de segundos que valem uma vida. Esses momentos de profunda emoção que nos fazem humanos de verdade. Vindo, devagarinho, no final do corredor, assoma o Danilo. Ele não é estudante, nem técnico, nem professor concursado. Mas é mestre.

Militante do movimento Tortura Nunca Mais, ele foi um guerreiro contra a ditadura. Participou da luta armada, esteve no Araguaia, foi preso, torturado, teve seu corpo marcado para sempre e até hoje sofre as consequências da maldade humana concretizada no ato da tortura. Mas, é um homem que não desiste. Seu conselho diário é: “estudem, estudem e estudem!”

E isso é coisa que ele faz. Lê oito horas por dia, paciente e sistemático. Por volta das três horas da tarde chega ao Iela, de onde sai só lá pelas dez da noite. Pesquisa, conversa, ensina. Em volta dele juntam-se os estudantes e o ouvem, embevecidos e reverentes. É amado e respeitado como um mestre. Não precisa usurpar 70%, para ganhar a atenção e a consideração dos estudantes e dos trabalhadores. Ele se faz imprescindível por sua prática, seu exemplo. É amado como guru.

Por isso, aquele momento, no dia da votação, foi estelar. Porque quando ele assomou no final do corredor, caminhando lento e seguro na direção dos estudantes, a reação foi imediata. A atenção que estava voltada para a sala onde os “professores” decidiam de maneira antidemocrática sobre a vida de todos, virou-se para Danilo. Todos pararam de conversar, o violão emudeceu, e principiaram as palmas. De mansinho, em meio o frenético bater de mãos, todos começaram a gritar: Danilo, Danilo, Danilo...

E ele foi se chegando, com um riso tímido diante da reverência, misturando-se ao movimento, fazendo-se gota no rio. Com sempre faz, de mãos dadas com a maioria, com a justiça, com a luta. Mesmo na derrota – porque é claro que fomos derrotados – é bonito demais viver coisas assim. 


Danilo é mestre, e nem precisa de diploma...