quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Com Maria do Carmo, outra vez...!





Eu era menina quando ouvi as gurias mais velhas falarem de um túmulo que havia atrás do quartel, na cidade de São Borja, fronteira com a Argentina. “Ela é santa”, cochichavam, e preparavam prendas para levar quando fossem pedir para que viesse o príncipe. Andava-se muito para chegar até lá e os adultos não aconselhavam percorrer a pequena trilha no meio do mato. “É perigoso, vão sossegar”. Mas que, as gurias não descansavam enquanto não iam levar as ofertas e fazer os pedidos àquela que alguns davam como certo fazer milagres.

As versões do caso eram muitas, mas a que mais se ouvia era de que lá pelo mês de agosto de 1890, ali havia sido assassinada a jovem Maria do Carmo Fagundes, guria de vida airosa, que era como chamavam as prostitutas naqueles dias. Mas, ao que parece, esta tinham um princípio irremovível: jamais se deitava com milicos. E vem daí a tragédia. Conta-se que um soldado apaixonou-se por Maria do Carmo e, desesperado por saber-se impossível, decidiu que ela não seria de mais ninguém. Então a matou, bem ali, atrás do quartel, o mesmo lugar onde alguns poucos amigos a enterraram. Mas, sua alma alegre não suportou a fria terra, e ela decidiu que ali vagaria, acolhendo as dores do amor e fazendo felizes aqueles que lhe pedissem graça.

Foi aí que começaram os milagres. Não são poucas as histórias de gente que viu a mulher de longos cabelos negros brincando com o vento, fazendo os soldados, que ficavam nas guaritas do quartel, tremer feito vara verde. Desde aí se espalharam os feitos da Maria do Carmo, a prostituta virada santa. Seu amor foi embora? Clame à Maria do Carmo. Faltou dinheiro? Clame à Maria do Carmo. Bateu a depressão, faltou o príncipe encantado, a vida foi pelo ralo? Clame à Maria do Carmo.

Quando chegava o mês de agosto era de lei caminhar pela trilha até o pequeno túmulo para levar flores, perfumes, bijuterias. A Maria do Carmo era nossa Iemanjá, venerada no outono. Não foram poucas as lágrimas derramadas naquele campo santo, fruto de amores não correspondidos e desejos de vida feliz.

Então, o tempo passou, eu cresci, fui embora da cidade, mas a força da santa das mulheres sempre me acompanhou. Há alguns anos (2009), num janeiro, passei por São Borja, num átimo. Tinha várias opções. Ver alguns velhos amigos, visitar antigos vizinhos, caminhar pelas veredas da minha infância. O tempo era curto, mas não hesitei. “Quero ir ao túmulo da Maria do Carmo”. Por algum motivo, aquele lugar nunca saiu de mim, espaço de encantos e sortilégios. Surpresa eu constatei que já não havia trilha, nem mato, não era mais um lugar ermo. Havia casas por perto e uma estrada de chão levava até o campo santo, agora cercado, pintado e sinalizado. Pelas placas que ali estão, vê-se que a obra é de 2005.

Maria do Carmo dorme no pequeno túmulo azul, simples, mas bem cuidado, e ao seu redor multiplicam-se os presentes. Flores, perfumes, velas, bijuterias. O tempo passou e a mulher alegre, de longos cabelos continua bailando atrás do quartel. Dizem que os soldados já não lhe têm medo, ao contrário, a veneram e lhe trazem prendas. E, a contar pelos presentes espalhados no chão, a romaria de gente continua. Eu toquei seu nome e lhe fiz um pedido. Saí dali com o coração leve. Na tarde de verão missioneiro, incrivelmente soprava um brisa. Era ela. Eu sabia. Tocou meu rosto, senti seu cheiro. E quando o carro partiu a vi pelo espelho. Voejava envolta em azul. Acenou e sorriu. Então lembrei a última graça que lhe pedira antes de partir da cidade, em 1977. Estava cumprido. Não era à toa que eu estava ali.  

Um comentário:

Jaime Seivald disse...

Sou São Borjense e passo várias vezes em frente ao Túmulo da Maria do Carmo durante meu trabalho e sempre vejo pessoas rezando e pedindo alguma graça para ela. Se ela é santa ou profana não se sabe, mas conheço várias pessoas que conseguiram seus pedidos.