Texto de Maria Agostini Mello
Tarde chuvosa de agosto, daquelas que te convidam a simplesmente enrolar-se num edredom e puxar um bom canal de streaming. Mas não, criei coragem, me paramentei: botas, sombrinha, e lá fui eu para a feira do livro na UFSC, disposta a só olhar, nada de compras, desde que me conheço compulsiva nesse departamento. A séria consequência dessa compulsividade é o acúmulo de títulos ainda virgens na prateleira, todos os dias a me espiar e eu a lhes pedir muita calma.
No entanto, novamente acabei sendo atraída pela exposição da Insular, onde, entre muitos títulos convidativos, meu coração gaúcho optou por Crônicas da Fronteira, da Elaine Tavares, jornalista e escritora que admiro.
Já em casa, comecei a empreender uma viagem através das cento e poucas páginas dessa obra primorosa, e como não dizer “quirida”. A naturalidade e a afetividade que ela traz em cada uma das suas crônicas, fez com que eu fosse me identificando com os mesmos lugares, costumes, rememorando pessoas e situações idênticas, passadas durante nossa infância, adolescência e um pedaço da idade adulta, quando, coincidentemente, nós duas escolhemos a cidade de Florianópolis para morar.
“Remexer nas gavetas do passado, sempre olhando pelas frestas da vida que já havia escorrido pelas mãos”, assim ela esmiúça histórias, abusando das metáforas, alternando sinestesias, escutando o farfalhar no riacho onde a avó lavava roupa, o sabor amargo do chimarrão, o perfume do salame que ela fatiava para o avô, as imagens grudadas nas retinas. Enfim, tudo ali cheira poesia.
E assim eu, leitora atenta de suas memórias, já talvez roubadas, sem pedir permissão a ela, me atrevo a ir em sua carona, visitando as minhas também. Começo lá atrás, desenrolando o carretel do tempo, já bem compridinho, agora.
Eu, Maria, a quinta de uma família de seis irmãos, casa movimentada pela criançada da rua e mais as visitas da parentada que vinha das colônias italianas. Meus avós eram imigrantes italianos e se estabeleceram na região central do Rio Grande do Sul. Nossa casa era amarela, com grandes portaladas de cor verde-escura; ao fundo, quintal com galinheiro, macieiras, limoeiros, abacateiros, um forno de barro e uma trempe que acomodava o tacho de cobre para fazer a chimia com frutas da época. Na rua, brincadeiras de cabra-cega, de sapata, que muitos conhecem por amarelinha, mocinho e bandido, de bandeirinha, esconde-esconde. Raros carros pela rua, e à tarde os adultos sentavam-se chimarreando nas calçadas, numa prosa que só acabava ao escurecer, quando recolhiam suas crianças para jantar e dormir. Ali as grandes amizades aconteciam, e ainda hoje conservo muitas delas.
Lembranças do primeiro amor, quem não as tem? O meu, assim como o da Elaine, também não deu em nada: nem um beijo, nenhum abraço, nada. Meu príncipe encantado, menino moreno, covinhas nos cantos da boca, me substituiu por outra menina bonitinha com jeito de anjo, preferida pelos seus pais. Com o desencanto, ensopei alguns travesseiros, porém, segui a vida e logo me recuperei.
Meu vestido de debutante foi confeccionado pela Tia Altair, amiga de minha mãe, que não cobrou nada por ser muito bem acolhida pela nossa grande família. E foi num longo de tom azul-bebê, losangos contornados por rendas delicadas e muitas miçangas, que eu atravessei o salão nos braços de meu pai, orgulhoso por apresentar a filha à sociedade santamariense. Hoje me emociono ao olhar as fotos em preto e branco no meu álbum antigo.
A leitura flui, e a cada virada de página, uma respirada, uma tomada de fôlego, uma viajada no tempo. Mario Quintana já dizia que viajar é trocar a roupa da alma. Elaine viaja dentro da Maria Fumaça que corta a fronteira até Uruguaiana, deixando para trás uma nuvem espessa no céu estrelado; viaja (sim, porque viajar é trocar de lugar) pelo centro da cidade na carruagem forrada de cetim vermelho que convidava os clientes a se achegarem ao bordel, mais à noitinha. Afeto puro, nada de malícia, de preconceito, de juízo.
Também o corpo de Jango viajou da cidade uruguaia de Mercedes, onde se encontrava exilado, depois de uma morte mal explicada. Seu corpo foi jogado num porta-malas qualquer e enterrado em sua terra, São Borja, assistido por uma multidão que se manifestava por entender tudo o que acontecia. E eu me pego pensando em qual foi o argumento que Seu Tavares e Dona Helena teriam utilizado para explicar à filha pequena, cheia de vida, de amor, doçura e de tantas ilusões, tudo aquilo que é inexplicável: os golpes, as torturas, a ganância, ao extermínio de povos, a corrupção na política.
No mundo moderno, jatos super equipados riscam o céu sobre nuvens espessas, independentemente das condições do tempo. Lá pelos idos 1626, em grandes naus, viajavam os jesuítas, cujo objetivo era “catequizar” os povos indígenas, domesticando-os e convertendo-os, ao mesmo tempo em que faxinavam os campos. Nas viagens, naufrágios aconteciam devido a tempestades e maremotos.
Minha mãe nos despertava cedo nos dias de viagem. O perfume do frango enfarofado já rescendia pela casa inteira, porém este somente seria distribuído após alguns quilômetros percorridos na estrada de chão batido. Nos bancos da Kombi branca de meu pai, nos empilhávamos rumo às colônias italianas, a visitar os parentes. Sempre uma surpresa: ou poeira, ou atoleiro, ou ambos. Deixávamos para trás enormes sesmarias, cercadas por arame farpado, reses espalhadas pela grama, a paisagem bucólica com a morada do patrão rico lá no alto e um pouco mais distante, a casa simples dos agregados. Difícil era entender o porquê de tanto para tão poucos, desde que, em nossa casa, cabíamos mal e mal os oito, e o aluguel caro, muitas vezes, atrasava.
Aos domingos, passávamos pela praça Saldanha Marinho, onde os vendedores de livros ofereciam enciclopédias, coleções e dicionários. Meu pai não resistia e acabava comprando ora um, ora outro, a longuíssimas prestações. Ele adorava livros, e minha mãe, mais ainda. Ela era professora, poeta, e lia para mim os poemas de Guerra Junqueiro, Casemiro de Abreu, Alphonso Guimarães.
E o que falar das nossas pessoas, de quem obtivemos o aprendizado da vida? Elaine traz o avô Dionísio, o Bonetti da padaria, a Dona Noêmia, a Niná, a costureira fumegante (precisei rir neste momento!), a Dona Nezinha, a espiã, e tantos outros a quem dedica crônicas preciosas. E eu trago a Dona Celeste, que fazia pirulitos de mel em pequenos canudos de papel, a minha tia Marina, que era florista e fazia buquês com as rosas que plantava em casa; o Seu Francisco, imigrante italiano que tinha uma vendinha na esquina e fumava um palheiro fedorento; o Seu Gordo, carroceiro que vendia as melhores melancias do mundo.
Das minhas gentes e das dela, a maioria já partiu, embora continuem vivas em nossas lembranças mais queridas.
Deixei minha cidade já aos vinte anos, certa de ter colocado, na hora da saída, dentro do meu embornal, o essencial para começar tudo de novo em um novo lugar: vida nova, terra nova, novos amigos, mudanças estruturais. Hoje penso que não, ao perceber que as lembranças mais intensas permaneceram lá, na minha casa da infância, na escola, nas ruas do centro da cidade, nos amigos que nem sei por onde andam, se é que ainda vagueiam por este mundo. Tempos depois, voltei lá para matar a saudade e conferir se tudo ficou exatamente como deixei. Ironia do desertor em se entristecer ao ver que muita coisa mudou nesse tempo: os espaços, os amigos, tudo. Porque há sempre um hiato nessa história de abandonos e regressos. Elaine diz que “Foi bonito circular por ali, nas paragens da minha infância. Tudo continuava lá, apenas aparecia aos meus olhos com outra força”. Para mim, no entanto, foi difícil revisitar Santa Maria, anos depois. Minha casa amarela virou um prédio; na Pinheiro Machado, minha rua, motores atrapalham os caminhantes das calçadas mal conservadas. No clube em que dancei minha primeira valsa, o telhado desabou. Também não encontrei pedra sobre pedra onde antes havia a Estação Ferroviária: nem a gare, nem os trilhos, e nem sombra da Maria-Fumaça e do Minuano. Acharam mais fácil destruir, a recuperação era cara demais. Empresários de empresas de ônibus e de combustíveis decidiram que os trens não lhes eram vantajosos. Senti um vazio, um gosto amargo, uma impotência, uma dor.
E assim, chego ao final da leitura, pensando ficar devendo muita coisa a contar, inspiradíssima nesta verdadeira “guardiã de lembranças’, que através da sua espontaneidade e do afeto presentes em seus textos, fez com que eu saísse por aí desenrolando carretéis de histórias. E as perguntas: Será que isso tudo aconteceu mesmo? E quando? Quem sabe apenas visagens, utopias, desvarios, sonhos, impressões, apenas, desde que, me disseram que “a mentira é uma verdade que esqueceu de acontecer”. Sim, porque a própria vida é ficção.
Minhas histórias e as da Elaine: histórias que se cruzam, acontecidas numa época em que o tempo parecia não correr tanto como corre agora. Por isso urge escrevê-las, na expectativa de que ainda sejam escutadas, lidas e, até reescritas por algum outro “ladrão de memórias”, com o qual me identifico como sendo um destes.
Obrigada, Elaine, pela carona! Foi uma bela viagem, adorei a empreitada. Sinto que esvaziei minha mochila pelo caminho, nesta tarde chuvosa de outono. Fiz bem em não me enrolar nas cobertas.

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