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quarta-feira, 22 de janeiro de 2020

Já fomos mais valentes na UFSC


Quando o horário especial de verão terminar centenas de trabalhadores da UFSC e milhares de estudantes terão suas vidas transformadas radicalmente, pois a reitoria decidiu voltar atrás em uma decisão que já levava mais de um ano e que fora promessa do ex-reitor Luís Carlos Cancellier: a extensão do horário de atendimento, com a universidade aberta das sete da manhã às 22 horas.  Essa medida permitia que os estudantes pudessem ter acesso aos serviços da universidade tanto no horário do almoço quanto de noite e também garantia os turnos de seis horas seguidas para os trabalhadores. 

A reivindicação por uma UFSC de portas abertas é antiga, pois justamente nos horários do meio dia e à noite é quando os estudantes têm mais tempo para realizar as atividades burocráticas que exigem os serviços da universidade. Só que sem o horário estendido os estudantes dão com a porta na cara. Para os trabalhadores também foi uma vitória importante, pois garantiu os turnos de seis horas, o que melhora o atendimento e também a qualidade de vida de quem trabalha. Não foi coisa fácil de ser conquistada, exigiu muita luta. E quando finalmente essa reivindicação teve acolhida junto a um reitor, foram igualmente necessárias muitas reuniões, estudos e trabalho para comprovar a possibilidade de realizar os turnos, bem como a sua eficácia. 

Todo esse trabalho foi feito e finalmente os setores da universidade começaram a atuar nos turnos de 12 horas seguidas ou mais, se considerarmos os Centros que têm aula à noite. Para os estudantes abriu-se um universo, visto que puderam ter mais tempo para realizar as tarefas, e para os trabalhadores, igualmente, pois conseguiram organizar a vida garantindo mais tempo para a família.

Ocorre que no final do ano passado, pressionado pela Procuradoria Geral da União, o reitor decidiu por suspender as portarias que garantiam a flexibilização do horário dos trabalhadores. O tema foi amplamente discutido pelos trabalhadores que apresentaram ao reitor os seus argumentos para que não houvesse retrocesso no atendimento. Segundo os trabalhadores a decisão representaria um profundo descontrole na vida pessoal de todos os que faziam o turno de seis horas, pois a vida já estava estruturada no novo horário: tais como horários de escola dos filhos, cuidado com os pais, etc... Também foi argumentado que diante de ataques tão violentos por parte do governo federal à universidade, era bastante perigoso ceder diante de uma ameaça. Falou-se da necessidade de chamar os procuradores e o Ministério Público para uma conversa na qual fosse possível mostrar a especificidade da universidade, que não é uma fábrica de salsichas.  Mas, nada comoveu o reitor Ubaldo Balthazar. Conforme confirmou em reunião aberta com os técnico-administrativos, ele não estava disposto a colocar o seu CPF em risco, afinal, uma ação do Ministério Público poderia até criminaliza-lo. 

Ao que parece, os tempos são duros. Não há quem queira enfrentar o estado e o judiciário policialesco que temos no momento. A saída tem sido ajoelhar-se, ceder. E mais, além de acabar com a ampliação do atendimento, a reitoria também vai atender a sugestão do Ministério Público e instalar o relógio-ponto. De novo, cede, sem que se leve em conta o tipo de trabalho realizado na universidade. O desejo do governo federal, de desqualificar os trabalhadores da educação, está sendo fielmente cumprido pela administração. 

Do lado dos técnico-administrativos, os sentimentos são dúbios. Há os que se colocam contra essas medidas por sua completa inadequação histórica. Avançou-se muito no processo de trabalho para que tudo se perca agora. E há os que sentem medo, muito medo. Estão acossados pela campanha sistemática realizada pelo governo federal contra os trabalhadores públicos e temem por seus empregos. A queda de braço com a reitoria ainda não conseguiu sair dos gabinetes e das reuniões.

Quando fevereiro chegar a vida retorna ao normal na universidade e é quando se poderá medir a força real dos trabalhadores, que voltam tendo de cumprir o novo horário. Por enquanto tudo é apatia e a instalação do ponto já está marcada para março quando também chegam os estudantes que voltarão a encontrar a universidade fechada nos horários que mais precisam. 

Tá tudo calmo por agora, mas nós já fomos mais valentes. 



sexta-feira, 4 de outubro de 2019

A universidade e a luta contra o atraso



Quando o reitor da UFSC decidiu chamar a comunidade para informar sobre possível parada do Restaurante Universitário e cortes de bolsas em função da decisão do governo federal em suspender os recursos já orçados, estava ciente de que a resposta, principalmente estudantil, seria radical. Nas duas primeiras reuniões, que foram massivas, os estudantes já indicavam que a única saída para enfrentar os cortes era estabelecer uma luta concreta contra o governo. E foi assim que começou a se articular uma greve, afinal, sem comida e sem bolsa, quem pode sobreviver na universidade? Ao contrário do que quer fazer crer o governo, as universidades públicas não são redutos da classe rica. Pelo contrário, há uma ampla maioria de estudantes que depende das políticas de permanência para seguir estudando. Assim, sem recursos, o índice de evasão cresce, pois não há como garantir a sobrevivência. Só que quem batalhou tanto para entrar na universidade, ultrapassando barreiras já tão desiguais, não quer abrir mão desse direito e por isso os grupos foram se organizando e articulando um movimento de parada. Seguia o velho – mas sempre necessário – bordão: paramos agora para não parar para sempre.

Na UFSC a movimentação estudantil seguiu fora das veredas do Diretório Central dos Estudantes. E os cursos foram fazendo suas assembleias e decidindo por uma parada geral. Em pouco tempo já eram vários cursos com greve decretada e o movimento cresceu. Os professores fizeram uma assembleia virtual discutindo o tema da greve e decidiram por não parar. E os técnico-administrativos, tentando construir um movimento unificado nacionalmente, também não aderiram a greve por enquanto. Os estudantes ficaram sozinhos. Ainda assim, foram resistindo, mesmo com grande refluxo  em várias frentes.

A tentativa de uma resposta nacional aos ataques do governo, que segue cortando verbas e tentando empurrar o projeto Future-se pela goela abaixo, fez com que as três categorias se unissem numa greve de 48 horas nos dias 2 e 3 de outubro. A proposta seria a de mobilizar toda a área da educação, e não apenas as federais, em grandes atos pelo Brasil afora.

Na UFSC a proposta de parada geral nesses dois dias foi aprovada pelas três categorias: estudantes, professores e técnico-administrativos. Assim, na terça-feira, dia 02, a universidade amanheceu com todos os seus centros de ensino fechado. O ato de trancamento das portas foi realizado por estudantes e já provocou as reações que são comuns àqueles que se negam a seguir as orientações das assembleias.

Entre os TAEs, que não estavam dispostos a parar e vieram para o trabalho normalmente, encontrar as portas fechadas causou aborrecimento, mas a maioria deu meia volta e foi para casa. Outros se somaram às atividades promovidas pelo sindicato, que constaram de palestras, cursos, aulas, públicas e oficinas. Uma parte também acompanhou professores e estudantes em uma atividade no Centro da cidade, onde mostraram à comunidade os projetos e as atividades desenvolvidas pela universidade.

Já com os professores, a reação foi diferente. Os que não aceitam a paralisação provocaram algumas confusões, como agressões verbais e empurra empurra. As ações mais truculentas, como sempre, foram registradas no Centro Tecnológico  (CTC), historicamente conservador. A polícia foi chamada para garantir que as portas se abrissem e estudantes e professores pudessem entrar para suas atividades normais. Como sempre, registraram-se os momentos de tensão e conflito. Ainda assim a universidade parou no primeiro dia.

Na quarta-feira, segundo dia da greve, a universidade amanheceu com mais uma ação de força por parte dos grevistas. Desta vez, além de manter as portas fechadas, estudantes e trabalhadores fecharam as entradas do campus, impedindo que também os carros pudessem circular pela universidade. A ação mais importante  do dia seria no centro da cidade, com um grande ato público. De novo, no CTC, a proposta foi a de chamar a polícia para garantir o acesso. E, outra vez, registraram-se os confrontos.

Na parte da tarde, a mobilização se concentrou em frente à catedral onde estudantes e trabalhadores das universidades se juntaram a outras forças da educação pública, sindicalistas e movimentos sociais.

O saldo dos dois dias de luta na UFSC foi bastante positivo, ainda que tenha havido críticas por parte de alguns grupos de que forçar o fechamento dos centros e bloquear as ruas não incentiva o diálogo. Ocorre que o diálogo vem sendo feito há meses, com reuniões, assembleias, encontros de debates, e momentos há em que as medidas precisam ser mais radicais. Afinal, estava definida uma greve de 48 horas, com votação em todas as categorias. Os conflitos com estudantes que querem aula ou trabalhadores que não querem parar são os conflitos necessários num processo de luta. Não há como ser diferente.  E é nessa correlação de forças que as ações vão se definindo. Além do mais, historicamente, na defesa da universidade pública esse embate sempre foi assim, é a ação de força dos grupos organizados que tem garantido a permanência do ensino superior público e gratuito.

Em nível nacional o governo segue sua pregação a favor do Future-se, sem parada. Ao que parece, as mobilizações e os protestos não lhe fazem cócegas, o que significa que novas estratégias precisam ser acionadas. Nas próximas semanas novas rodadas de discussão entre trabalhadores e estudantes serão realizadas, para avaliar os passos dados até agora e definir caminhos novos. Os estudantes deverão avaliar ainda hoje (04.10) se continuam a greve isoladamente na UFSC ou buscam articulações nacionais. No campo dos técnico-administrativos está se desenhando a possibilidade de uma greve por tempo indeterminado, visto que além do Future-se, que atinge a todos sem distinção, há outras propostas na área administrativa que também tocam de maneira bastante profunda essa categoria especificamente. Assim que a batalha está longe de terminar.

A luta travada hoje dentro das universidades é pela manutenção do ensino público, pela garantia da autonomia e da democracia tão duramente conquistadas, pela soberania nacional na construção de um conhecimento crítico, pelo direito à educação. Há, por parte do governo o firme propósito de elitizar as instituições de ensino, de tomar o controle com a nomeação de interventores, sem que a vontade da maioria seja respeitada, privatizar o ensino e manter o país na dependência científica, tecnológica e econômica. O projeto Future-se segue sendo o carro chefe e ainda que várias universidades tenham dito não à proposta, o governo continua trabalhando nessa direção.

Não bastasse isso a crise econômica se aprofunda e deverá abrir novas chagas. O final do ano não deverá ser de paz.

quarta-feira, 25 de outubro de 2017

Aos velhos e aos novos - Vamos discutir a UFSC



Na UFSC, uma das grandes batalhas que sempre travamos foi a da autonomia universitária. Garanti-la durante os momentos mais cruciais sempre foi cimento para unificações – no geral complexas  - entre técnicos, professores e estudantes. Autonomia na sala de aula, autonomia administrativa, autonomia política. Claro que sempre alinhada às grandes políticas traçadas pelo estado, afinal a universidade é uma instituição pública.

Nunca foi fácil caminhar por esse caminho de autonomia. Primeiro porque quase sempre tivemos reitores visceralmente atrelados politicamente às políticas conservadoras dos governos de plantão. Ainda assim, quando do interesse dos gestores, a autonomia era chamada. No geral, assim, obedecendo a esse uso instrumental. Quantas batalhas perdemos nós, trabalhadores e estudantes, porque os administradores não quiseram usar do princípio da autonomia, e quantas outras perdemos porque eles arrogaram autonomia? Os que estão na UFSC por mais tempo sabem disso.

É por isso que seguimos lutando pela tal autonomia. Mas entendemos que ela deva ser praticada para servir aos interesses da maioria da população, que é quem usa e sustenta a universidade. Sabemos também que isso só vamos conseguir quanto tivermos uma administração alinhada com as grandes lutas nacionais por transformação. Infelizmente na UFSC temos tido administrações conservadoras, no mais das vezes alinhada com o mercado capitalista.

Durante a gestão de Roselane/Lucia, vivenciamos um momento estranho. Houve um afã desenfreado de processos contra trabalhadores, mais de 500, muitos deles sem qualquer fundamento, sob a alegação de que a UFSC estava sob a fiscalização cerrada de outros órgãos federais. E houve uma questão em particular que acendeu a luz vermelha dessa relação de submissão da instituição ao Ministério Público.  Foi a imposição do ponto para os técnico-administrativos. Segundo a reitora, o MP estava pressionando e a UFSC iria acatar, sem levar em conta a sua autonomia. Na época, sugerimos à reitora que trouxesse os membros do MP à UFSC para explicar como a instituição funcionava, como ela não era uma fábrica de salsichas e como não podia ter as mesmas regras. Sugerimos também uma proposta autônoma e adequada ao papel da universidade sobre como controlar o ponto dos trabalhadores. Não teve jeito. A reitoria assumiu a reprimenda do MP e impôs a folha-ponto.

O que precisa ficar claro para a sociedade é que ninguém aqui está dizendo que a universidade não deve se submeter a controle. Ela tem sim que estar sob controle da sociedade e existem mecanismos para isso. Mecanismos que são usados o tempo todo. Poucas instituições são tão controladas como a universidade. Se estouram alguns escândalos de desvio de verbas, podem apostar que estão sob o comando das fundações, porque essas sim estão livres e não prestam contas com rigor. As fundações são empresas privadas dentro da universidade, configurando uma excrescência que poucos têm a coragem de discutir. Durante o mandato dos TAEs Livres no Conselho Universitário bem que tentamos trazer um mínimo de transparência para as contas. Esbarramos na sempre subserviente relação entre os professores e as fundações. Avançamos pouco. Nossa proposta sempre foi pelo fim das fundações dentro das universidades, mas o próprio presidente Lula as legalizou.

Voltando a autonomia, a universidade poderia sim evocá-la para discutir com qualquer outro órgão federal. Um reitor ou reitora que realmente conhece e defende a instituição não deve ter medo de dialogar e apresentar os argumentos sobre como está fazendo seu trabalho. Enfrenta MP, enfrenta tribunal de Contas, enfrenta Controladora Geral da União. Chama para conhecer, mostra as diferenças, abre as contas, abre todos os “cofres”. Transparência e firmeza. Com isso pode-se ir conversando e encontrando caminhos.

O que não dá é para temer.

Compreendo que o que aconteceu com o Cancellier possa colocar medo nas pessoas. Se ele, sendo um homem do sistema e um conciliador, passou o que passou, o que não poderia passar àquele ou àquela que decide enfrentar com autonomia esses setores que hoje assomam com tanta empáfia, arrogância e intolerância? Não deve ser fácil arriscar ser preso por um jovenzinho pseudo-calvinista por não cumprir uma determinação imposta pelo desconhecimento.

Mas, apesar de toda essa treva que se abate sobre o país, é preciso resistir. Nossa UFSC precisa de uma administração sem medo, capaz de apontar o caminho da resistência. O Cau foi tomado de surpresa. Ele não teve chance. Não sei se ele enfrentaria, mas o fato é que não teve chance. Foi arrancado de casa e impedido de entrar na universidade. Sofreu humilhações e ficou impedido de fazer contato com seus colegas da UFSC.  Nessa hora faltou mesmo liderança. Ninguém do grupo da administração assomou levantando a bandeira da autonomia. Nem seus correligionários. Ficou um estupor. Nossas entidades sindicais internas estão mortas. Não se moveram. Os estudantes tampouco.
Então o reitor se matou. E isso abriu os olhos de alguns.

Começou uma movida, ainda muito burocrática. Denúncia do estado de exceção, pedido de justiça. Mas nenhuma ação massiva da comunidade. A vida segue nos departamentos, nos centros, como se nada fosse com a gente.

Agora, mais essa. A nova reitora em exercício se rende aos órgãos de fora. Desfaz um ato administrativo que buscava esclarecer denúncias sobre o corregedor. Atropelos, titubeios, medo. Não é disso que a UFSC precisa.

Os técnico-administrativos vão realizar um encontro auto-convocado nessa quinta-feira, dia 26 de outubro, às 9h e 30min, no Hall da reitoria. Chamamos todos e todas. Os velhos, que já se aposentaram, os novos que aí estão, atônitos diante de tudo. É tempo de retomarmos o protagonismo que sempre tivemos sobre os grandes temas da UFSC. Os trabalhadores fazem a UFSC. É hora de encontrar caminhos coletivos que fortaleçam nossa universidade e que permitam assomar propostas de autonomia e bom-governo.


Sem medo, avante! TAEs, vamos dizer nossa palavra.  


terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

Caso Daniel Dambrowski – UFSC tem autonomia para decidir


Quando a luta é proibida - Greve das 30h detonou a perseguição a Daniel

A procuradoria-geral encaminhou resposta à administração da UFSC sobre o caso da exoneração do trabalhador Daniel Dambrowski, que foi determinada por ele ter sido mal avaliado, mesmo estando em licença médica. Na verdade, conforme denúncias de vários colegas, a exoneração, que aconteceu no último dia da gestão de Roselane Neckel, teria sido uma represália por conta da participação de Daniel na greve das 30 horas.

Com a chegada da nova administração, o caso foi levado pelos trabalhadores a uma assembleia geral, na qual estava o reitor, e ele se comprometeu a rever a decisão e dar mais prazo para que o advogado de Daniel pudesse se manifestar. Isso foi feito, mas o gabinete e a PRODEGESP reencaminharam o processo para a procuradoria, informando que a reconsideração era sobre o parecer anterior, não deixando claro que a reconsideração encaminhada pelo advogado de Daniel não era sobre o parecer da procuradoria, mas sobre todo o processo e seus flagrantes vícios. E foi assim que o processo voltou para a procuradoria, com o recurso sendo analisado de forma equivocada, segundo nosso entendimento.  

No documento, datado de 12 de fevereiro, encaminhado pela procuradoria à administração, a procuradora Alessandra Rezende aponta para o caráter meramente consultivo do órgão e afirma o poder de autotutela da UFSC em rever seus procedimentos e avaliações. Ela também argumenta que não é cabível recurso sobre o parecer anterior, porque o mesmo foi dado dentro do limite de um questionamento relativo ao período de estágio probatório e não do recurso impetrado pelo requerente, considerando, dessa forma, que um pedido de reconsideração possuía caráter protelatório.

Apontou, todavia, à autonomia da reitoria da UFSC em julgar o caso, frisando que “caso a Administração Central entenda ser cabível a revisão dos atos deflagrados, com base no poder de autotutela, possui plena autonomia para deliberar e determinar os procedimentos que julgar pertinentes na apuração dos fatos”. 

Sendo assim, agora, caberá ao reitor  rever o processo e garantir que a avaliação de Daniel seja refeita, sem os vícios apresentados. Daniel foi avaliado em quesitos como assiduidade e pontualidade, por exemplo, quando estava de licença médica. Como ser avaliado se não está no setor de trabalho por conta de tratamento de saúde?  

Para o movimento dos trabalhadores, que tem se organizado sob o lema: “Somos todos Daniel”, a procuradoria foi bastante clara em deixar para a administração central a decisão sobre o processo. E como o próprio reitor Luis Carlos Cancellier já se manifestou no sentido de rever o caso, tudo aponta para que o trabalhador TAE Daniel Dambrowski possa ter uma avaliação justa.  As portas estão abertas à essa real possibilidade.
  
Cabe lembrar que a primeira avaliação qualitativa, quando ele ainda não estava envolvido no movimento de luta na UFSC, foi bastante positiva. Foi a partir de sua ação mais política dentro da instituição, quando ele começou a fazer parte do Grupo Reorganiza, que a avaliação passou a não levar em conta o trabalho que ele realizou fora do setor. Frisa-se que ele foi nomeado por portaria para essa função. E a terceira avaliação, já depois da greve das 30h, na qual ele foi um dos protagonistas, bem como com participação expressiva no Conselho Universitário, fugiu a todo o bom senso, sendo uma avaliação carregada de afirmações não comprováveis e contraditórias na relação com suas avaliações descritivas realizadas na mesma data das avaliações objetivas.

Agora, se só cabe ao reitor decidir, que ele não leve adiante a perseguição e os erros anteriores e garanta que a justiça seja feita.


quarta-feira, 21 de setembro de 2016

A democracia ameaçada no CSE




A direção do Centro Socioeconômico chamou uma reunião para discutir a proposta de mudança de regras nas eleições no Centro. Mas, infelizmente não compareceu. Quem coordenou a mesa foi o secretário Roberto Alves, e a reunião já começou um pouco tumultuada, pois o professor Armando, da Economia, insistia que havia sido acordado com a direção de que ele falaria 15 minutos para defender sua proposta de 70/30. Depois de algum debate ficou acertado que seriam abertas as inscrições e cada pessoa falaria 10 minutos.

Ao longo da plenária, apenas o professor Armando Lisboa se manifestou e defendeu os 70/30. Todas as demais falas vieram no sentido de que fosse mantida a forma histórica, que é a paridade. Também foi feito o apelo aos conselheiros presentes – mesmo os que não se manifestaram – que pensassem sobre o tema, observando que mudar as regras nesse momento do processo praticamente se configura um golpe. A discussão do tema no Conselho de Unidade está marcada para essa quinta-feira, dia 22, justamente no dia da Greve Geral, o que reforça ainda mais a ideia de golpismo. Aproveitar um dia de luta externa para decidir sobre as eleições é, no mínimo, desonesto.

Ainda assim, os que mantêm a proposta da paridade estão organizados e deverão atuar em consequência. Da reunião ficou encaminhado que será levado até a direção o pedido de que na reunião de quinta seja decidido apenas o calendário da eleição e não os critérios. 

Ficou claro para a maioria que qualquer diretor ou diretora que se eleja sob o signo do 70/30 não terá legitimidade.

A seguir um resumo das falas das pessoas que se manifestaram no debate.

O primeiro a falar foi Armando Lisboa, da Economia. Ele veio defender a mudança das regras, de paritário para 70/30. Segundo ele, a alma da universidade é o mérito e que por conta disso os professores seriam os mais preparados para decidir os rumos da mesma. Citou Darcy Ribeiro, o qual considera um dos maiores intelectuais da esquerda, e pontuou que ele mesmo considerava que não havia igualdade entre os segmentos na universidade. Também lembrou Adorno e o fato de que esse chegou a chamar a polícia, em 1968, contra os estudantes revolucionários. Apontou ainda que as ideias de Córdoba estão superadas. Ou seja, usou teóricos de esquerda para respaldar a sua teoria de que  os professores são mais iguais que técnicos e estudantes.

A jornalista Elaine Tavares falou em seguida, lembrando que a democracia é uma palavra que precisa de adjetivo. Ela não existe em si mesma.  Apontou que a América Latina tem sido exemplo para  a Europa na construção de uma democracia participativa e protagônica (Venezuela ) ou na democracia direta (zapatistas) e que se precisamos buscar exemplo fora do Brasil para referendar nossas propostas, que esses exemplos sejam os avanços que temos conseguido nos países latino-americanos e não o atraso da Europa envelhecida. Também recordou aos presentes que Darcy Ribeiro teve seus equívocos na vida, ele não é uma religião. Quando da discussão da LDB – na qual ele propôs a lógica do 70/30 – os trabalhadores da educação foram muito críticos a ele. O fato de ele acreditar que os professores são os únicos que podem dirigir a universidade não significa que ele tenha de ser tomado como verdade. Apontou que a universidade ainda divide trabalho manual de intelectual e que isso é algo que já está superado, pois até mesmo para apertar um botão, o trabalhador precisa do intelecto. Falou ainda que o perfil dos trabalhadores técnico-administrativos nos anos 60 era diferente. A universidade não está descolada da mentalidade colonial e escravista. Tanto que os trabalhadores eram contratados por compadrio, e estavam acostumados a beijar a mão dos professores. Hoje não é mais assim. O mundo mudou, a universidade mudou, os trabalhadores mudaram. Ressaltou que historicamente os técnicos tem lutado pelo voto universal, e que aceitam o paritário como um ponto de convergência numa luta que ainda está se fazendo. Logo, caminhar para trás é inaceitável.

O professor Jaime, do Serviço Social, rebateu os argumentos de Armando Lisboa, mostrando que se a eleição no CSE tem de se dar no 70/30 porque os professores estão melhor preparados, então isso deveria valer para a eleição a qualquer cargo. Ou seja, a burguesia poderia dizer que é melhor preparada e dar menor peso ao voto dos trabalhadores numa eleição par a prefeito, por exemplo.  Para Jaime, todo ser social é capaz de exercer uma função na universidade. Também lembrou que em 1968 foram os estudantes que iniciaram as mudanças sociais, e que todos aplaudiram e se aproveitaram ao bel prazer da luta deles. Agora eles não são capazes? Criticou a direção do centro por se ausentar do debate  e insistiu que o CSE não pode restringir a democracia com base em argumentos sem validade.

Armando Lisboa voltou a se inscrever, trazendo novas passagens de Darcy Ribeiro e argumentou que já está na hora de a universidade como um todo fazer uma avaliação dos efeitos danosos do voto paritário. Também citou Cristóvão Buarque, apontando que o mesmo sempre foi contra a paridade.
Ricardo, aluno da Economia, também lamentou a ausência da direção do Centro e criticou Armando por usar Darcy Ribeiro – que sempre defendeu o protagonismo dos estudantes – para tentar defender o atraso. Alegou que o paritário não é suficiente, há que avançar para o universal e ressaltou que nada indica que os professores sejam os melhores preparados para gerir a universidade, basta ver como se comportam no dia a dia, com autoritarismo e arrogância, mandando os alunos calarem a boca.

A professora Vânia, do Serviço Social, apontou que toda a argumentação de Armando era contraditória. Como defender os 70/30 acusando os técnicos e estudantes de corporativismo, se a essência dessa proposta é corporativista. Dar poder somente aos professores. É o quê? Ela ainda lembrou que esse debate já estava superado desde o tempo das freiras no Serviço Social. Os professores não são os mais inteligentes para dirigir a universidade e isso se vê na própria organização dos mesmos. Segundo ela, os professores tem sido incapazes de atuar politicamente no sindicato, sendo que hoje existem dois sindicatos da categoria dentro da UFSC, e um impede o outro de atuar. Que inteligência é essa? Conhecimento técnico não tem nada a ver com conhecimento científico.

O estudante Tiago, da Economia, também se manifestou dizendo que a proposta do 70/30 rebaixa os estudantes e que é de estranhar que os professores  - que formam os estudantes – não tenham confiança na capacidade dos alunos. Sobre Darcy Ribeiro, ele lembrou que a própria UNB já superou essa ideia atrasada e hoje atua na paridade.

O professor Pedro Melo, da Administração, se manifestou argumentando que esse debate sobre a paridade vem desde o tempo em que ele entrou na UFSC, em 1978. E que essa discussão do 70/30 já está superada historicamente. Não há qualquer razão para mudar as regras do que já está estabelecido pela prática histórica.

O técnico-administrativo Maicon apontou que alegar mudança de regras pelo fato de o CSE ter poucos técnicos é absolutamente medíocre e mostra, inclusive, a incapacidade que o centro tem de gerir o próprio local de trabalho. Porque não se mudam as regras na eleição para reitor? Porque aí os técnicos são a maioria e as velhas regras de manutenção do poder podem ser usadas. É tudo casuísmo.  

O professor Irineu, da Administração, considerou lamentável a ausência da direção do centro. Mostrou que o debate do 70/30 apenas expõe uma realidade do CSE que é a de um pequeno grupo que se acha dono do centro. Lembrou que são as mesmas pessoas que na eleição para reitor levantaram o mesmo ponto, chegando a entrar na Justiça contra o voto paritário. E que a própria Justiça negou seus argumentos, considerando legal e legítima a consulta paritária. Apontou que a eleição para direção do centro será no dia 8 de outubro e não tem qualquer cabimento querer mudar as regras a essa altura do processo. A própria criação de uma comissão com número par mostra a incompetência.

A professora Beatriz, do Serviço Social, também desmontou os argumentos de Armando ao mostrar que a desigualdade já existe. O professor é quem detém o poder na hierarquia da universidade. Por que aprofundar ainda mais a desigualdade? O papel do intelectual é criticar as estruturas de dominação e as práticas discriminatórias, e não aprofundá-las. Como mudar as regras em pleno processo? Isso não tem fundamento. Afirmou ainda que se o Conselho de Unidade alterar as regras, sem um debate profundo, estará alterando à revelia da comunidade, de uma forma antidemocrática, impondo uma tirania.

O professor Rafael, da Administração, contou que trabalhou na UDESC como técnico-administrativo e que quando passou no concurso para professor ouviu dos colegas: agora sim tu cresceu. O que significa que para a maioria, ser técnico é não ter valor.  Argumentou que o professor não é neutro e que o que está em jogo são interesses. A universidade não é a-histórica e ninguém é superior a ninguém. Todos são capazes.

O técnico-administrativo Roberto lembrou que esse debate só estava acontecendo por causa do vídeo do Maurício, que, inclusive, está sendo bastante pressionado. Lembrou a todos que a fala do Maurício e a decisão de fazer o vídeo foi resultado de uma reunião dos TAEs do Centro e não uma decisão pessoal. Também deixou claro que a universidade é administrada por grupos de interesses e esse debate não está descolado desses grupos e desses interesses. Apontou que o corporativismo dos professores é grande. Não entende como abrir mão de um avanço democrático. “Como vou dizer ao meu filho que ele é igual a todo mundo na vida se ele chega aqui e vale mesmo?”  


O professor Jaime, do Serviço Social, fez um apelo aso Conselheiros que estavam na reunião (poucos) que mesmo querendo os 70/30 fizessem um esforço para perceber que querer mudar as regras do jogo agora é o mesmo que golpismo. Não há lógica na mudança de uma prática histórica, a menos que seja para dar um golpe. Pediu que recuassem nessa proposta, que mantivessem o paritário e depois, aí sim, se quisessem, chamassem um amplo debate. Mas, agora, é golpe.