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quarta-feira, 29 de novembro de 2017

Transporte coletivo: rebelião já!


Ouvi hoje no rádio a propaganda da prefeitura de um aplicativo que poderemos ter nos celulares, com o qual vamos saber onde o ônibus está. Está bem, sou explosiva e violenta. Mas hoje fui ao auge. Confesso que minha vontade era fazer como aquele personagem do Michel Douglas, no filme “Um dia de fúria”. Tudo pelos ares! Sorte eu estar em casa. Pude me acalmar.

Senhor prefeito, por favor, ande de ônibus. Não queremos saber onde o ônibus está. Nós queremos que o ônibus passe no horário, porque temos de pegar dois ou três carros antes de chegar aonde temos de chegar. E se perdemos o horário num, a vida toda atrasa.

Não queremos saber onde o ônibus está. Nós queremos um corredor de ônibus exclusivo para que o coletivo possa circular rápido e chegar rápido no trabalho, no cinema, na casa do nosso amor, onde for. Nós queremos um transporte verdadeiramente público, que se importe com o usuário e não com o lucro dos empresários. Nós queremos um sistema verdadeiramente integrado que nos permita ir de um bairro a outro sem passar pelo centro, fazendo por vezes, duas vezes o caminho.  

Nós sabemos que os corredores são inviáveis para a prefeitura, porque se forem feitos, vão provocar a ira das pessoas que andam de carro. A classe média motorizada vai chiar. Pois eu digo em alto som: Fodam-se os carros. Foda-se a classe média motorizada. Que fiquem mofando no trânsito enquanto a gente passa ligeirinho pelos corredores exclusivos. Tenho certeza que logo estarão andando de ônibus também, porque será mais rápido.

O nosso sistema na ilha chama SIM, ou Sistema Integrado Municipal. É uma mentira, um tormento, um sofrimento, um terror. É um NÃO. Ele é comandado por meia dúzia de empresários que estão nesse ramos há décadas. Vejam onde eles moram, como vivem, o que comem, como se movimentam na cidade. Não sabem o que é viver esse estresse cotidiano, sistemático, irracional. Hoje, perdemos de três a cinco horas no percurso entre a casa e o trabalho. É uma tortura isso.

Não há qualquer argumento veraz para não fazer o corredor exclusivo. Não há. Eu posso desenhar esse sistema. Imaginem os técnicos.

Essa é uma cidade mansa demais. Apavora-me saber que em pouco tempo todos estarão com seus aplicativos procurando saber onde o ônibus está. Já eu não. Quero uma rebelião. Transporte público/estatal já! E corredores exclusivos.

A parte isso, boas ciclovias e transporte marítimo. Já fica aí a dica para o perfil do novo prefeito ou nova prefeita. E, sinceramente? Podia ser eu!


quarta-feira, 6 de julho de 2016

Como sobreviver aos terminais urbanos depois das seis horas

































Voltar para casa depois de um dia inteiro na loucura do trabalho deveria ser uma bênção. Em Florianópolis, não é. Não para quem mora no interior da ilha, na região mais empobrecida. Enquanto moradores dos bairros mais próximos como Estreito, Coqueiros e Itaguaçu têm ônibus saindo de cinco em cinco minutos, quem vive no sul, por exemplo, amarga longa espera que pode variar de 20 até 50 minutos. Tempo demais para quem perde mais de duas horas num percurso de 23 quilômetros. Nessa hora vale falar mal do capitalismo, o estado, a classe dominante e todo o processo de produção que consome o trabalhador, extrai sua mais-valia e ainda o expulsa para as periferias das cidades. Mas, afinal, há que enfrentar o terrível cotidiano.

Nessa hora de angústia também nos assalta o terrível desejo de entrar no “confortável” mundo das drogas que, de certo, nos alienaria, permitindo que fizéssemos a travessia do inferno em relativa calma. Mas, essa é uma péssima opção, porque pode nos levar a outros infernos, ainda mais quentes. Então. Ao longo desse interminável calvário desenvolvi algumas técnicas que me permitem adentrar à loucura do Terminal Urbano depois das seis horas e chegar, intacta, em casa, sem nenhum surto de violência ou colapso mental.

Dez dicas infalíveis:

1  - Como o  Terminal Urbano Central é a primeira parada  - vindo da UFSC – e a passagem integrada tem validade de uma hora, a melhor coisa a fazer é sair do terminal e dar uma volta rápida pelo centro. Espairecer. Cinco minutos de pernada pela Conselheiro, Felipe e a gente já se anima.

2  - Uma paradinha no quiosque amarelo em frente ao camelódromo para uma cerveja, enquanto observamos a massa de gente fluir para o terminal. É bom ver aquele movimento todo, as pessoas, a correria. Aí, com a breja, tu já fica tontinho e pode atravessar o terminal no meio da multidão. Ants era no Mercado Público, mas agora, lá, virou ponto da burguesia e o bolso não alcança.

3 – Desenvolver técnicas ninja de ultrapassagem de pessoas, evitando amassamentos, cotoveladas e empurrões. Não é bolinho chegar até a fila do Rio Tavares. É preciso muito treinamento Jedi, mas isso pode ser conseguido nos finais de semana.

4 - Ter sempre à mão um mp3, com pelo menos mil músicas da sua preferência, todas em português ou espanhol, para que possas cantar bem alto, enquanto espera na fila pelo ônibus no qual irás sentado. O que significa que passarão quatro ou cinco carros até que chegue a tua vez. Cantar espanta os demônios. Nessa hora também vale balançar o esqueleto.

5 – Ter sempre na bolsa um bom livro para ler porque a jornada é longa. Com os engarrafamentos no elevado e na SC 405, muito tempo passará e certamente um “Crime e Castigo” vai todinho. Tem que ser um bom trabalho de descrição que é para agitar o cérebro. Há quem prefira ficar olhando o celular, mas isso não é legal, perturba demais a mente. Melhor um livro, melhor um livro.

6 – Carregar sempre um casaco na bolsa, mesmo no verão, porque a ventania no Terminal Rio Tavares é pura pankeira e não dá para enfrentar o vento suli de cara.

7 – Já no terminal Rio Tavares comprar um chá de mate para sorver enquanto espera mais trinta minutos pelo terceiro ônibus. Nesse momento, pode-se misturar o chá ao ponto 4, ouvindo música, e cantando enquanto não sorve o líquido energético.

8  - Depois que entrar no Castanheira, último carro da odisseia, basta esperar que chegue, enfim, o ponto perto de casa. No trajeto – de 30 minutos -  vá olhando as casas, os condomínios em construção, as pessoas com suas caras tristes, afinal, é sempre bom manter-se firme na realidade.

9 - Por fim, em casa, abrace os gatos e brinque com os cachorros. Eles te darão a energia necessária para enfrentar as tarefas domésticas que te aguardam e a certeza de que no dia seguinte tudo será como sempre.


10 – Antes de dormir faça um escalda-pés. Ainda é o melhor remédio para o corpo e alma. E claro, se tiver um vinho na reta, tome um pouquinho. Dizem que vale uma vida. Já na cama, abra o velho livro de cabeceira e leia algumas páginas. É tiro e queda para tornar a vida melhor. O capital: Karl Marx.

domingo, 1 de março de 2015

No ônibus


















Na fila do busão começou o furdunço. Já não eram daquele dia as reclamações. Desde que a prefeita Angela Amin introduziu o transporte "desintegrado" que a vida das pessoas havia se transformado num inferno. A vida dos que moram nos bairros mais distantes de Florianópolis, é bom que se diga. Isso porque a dita integração colocou no meio do caminho um outro terminal, no qual todos descem para pegar um segundo ou um terceiro ônibus, dependendo de onde vêm. É um verdadeiro terror porque a integração mesmo não existe, e a pessoa pode esperar até 40 minutos por uma "integração", perdendo tempo demais nas baldeações. Trajetos que duravam 35 minutos no sistema antigo agora chegam a durar duas horas e meia, a considerar os engarrafamentos e as esperas nas trocas de terminal. É o inferno na terra.

Aquele era um desses momentos. As pessoas já estavam na fila a 35 minutos, o ônibus atrasado em quase dez minutos e nada de aparecer um fiscal. Em casos assim, a reclamação começa por um e vai num crescendo. De repente, a fila inteira está falando, trocando farpas e jogando maldições nos políticos, nos trabalhadores, na presidente, é uma catarse.

Na minha frente estava João Claudio, um gaúcho que vive na ilha desde os anos 80. Até já fala com certo sotaque manezês. É quase um local. "O povo é gado", dizia. "Não fazem nada quando a gurizada chama para os protestos no centro, depois ficam assim, nesse rame-rame quando o ônibus atrasa. Só sabem reclamar", repetia, indignado com o ônibus atrasado e com a balbúrdia da fila.

Contou que vendia sorvete na praia e vivia essa reclamação vazia todos os dias. "Eu trabalho de sol  a sol, dô jeito na vida. Mas, sempre tem um que vem e diz: tá caro esse sorvete. Caro? O cara reclama por pagar um real mas não reclama contra os desvios de dinheiro da Petrobras, por exemplo. Eles falam de um sorveteiro, que rala pra ganhar o pão e não falam dos empresários que estão envolvidos com a moeda verde, nem dos vereadores que estão sendo julgados por receber propina. Que porra de cidadão é esse? Reclama só contra o pobre? "

João insistia que a reclamação tem de ser consequente e coletiva. "Essa gente aí que rouba a cidade, são os sem vergonha de carteira assinada. Gente escolada, gente que conhece como fazer a malandragem. É contra esses vagabundos que as pessoas tem de lutar. Não adianta ficar reclamando na fila. Vai lá na prefeitura, entra no protesto, ajuda a gurizada, que aí a coisa muda. Esses caras que tem carteira assinada na roubalheira não tão nem aí. Mas, se o povo se une e vai a luta, eles se mexem. Cambada de mandrião".

O papo de João Cláudio já estava causando um certo desconforto. Uma senhora franzia a cara, outra revirava os olhos. "Tem que cobrar do fiscal, sim", gritava uma guria. "É, cobra do fiscal. Esse aí mesmo deve ser um fodido, tá lá, ó, feito barata tonta, nem sabe o que fazer. Não tem ônibus. Tem é que ir lá na empresa e quebrar tudo", gesticulava João, cada vez mais enfezado.

Nesse ínterim chegou finalmente o carro, já com mais de 10 minutos de atraso. Imediatamente a falação terminou. Todo mundo foi entrando, na correria, no empurra-empurra, tentando encontrar um banco livre para ir sentado. A camaradagem formada pela espera e a reclamação se extinguiram. Cada um voltou ao seu mundo interior. João sentou um pouco mais à frente, mas não desistiu. "Tá vendo, tudo mandrião. Já tá tudo esquecido. O povo é gado mesmo. Me dá uma raiva", disse, olhando pra mim e balançando a cabeça em desconsolo. E fomos, a malta, quietos, olhando o infinito, enquanto o busão seguia seu curso.


quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Transporte coletivo: quem precisa de memória?






Hoje, dia primeiro de outubro, deveriam entrar em vigor todas as promessas contidas no edital de licitação que definiu a empresa operadora do transporte coletivo urbano na cidade de Florianópolis. Alguém ainda se lembra de tudo o que aconteceu? E como foi que se definiu o edital? Ah, a memória... Quem precisa dela? Melhor é esquecer para viver em paz.

Mas, pessoas há que não esquecem. Foi assim. Depois de anos e anos de luta popular para que houvesse, enfim, uma licitação a definir as empresas que operam o transporte, finalmente um prefeito se dispôs a isso. O prefeito em questão é o atual: César Souza Junior. Mas, como não poderia deixar de ser, o processo que construiu a proposta de licitação se fez sem participação daqueles que tanto batalharam para que ela viesse.

O edital foi apresentado numa segunda-feira, às oito horas da manhã, sem divulgação massiva. Poucos usuários puderam participar porque não tinham tido preparação prévia. Foi uma farsa. Naquele dia, o representante da prefeitura, Domingos Bonin, falou por mais de uma hora sobre como seria o novo sistema de transporte pensado pela nova gestão. Segundo ele, Florianópolis teria um sistema moderno, totalmente informatizado, com informações "on line" para usuários, trabalhadores do sistema e operadores. Seria criado um Centro Integrado de Gestão que comandaria todo o sistema, inclusive com os novos modais que se agregariam com o tempo. Todas as informações estariam disponibilizadas via internet e os usuários poderiam acompanhar o ônibus através de aplicativos nos tablets e smartfones. Rotas, horários, tempo de chegadas, atrasos, enfim, tudo estaria disponível "on line". Ainda no reino encantado do novo sistema, o centro de comando poderia se comunicar em tempo real com os motoristas, informando sobre situação do trânsito e outros casos de emergência.

A apresentação, naquela manhã, apontou as maravilhas das inovações tecnológicas do novos sistema, mas frustrou os usuários e representantes de movimentos sociais que estavam na audiência, uma vez que  as novidades não traziam qualquer mudança no que realmente interessa a quem usa o "sistema desintegrado", ou seja, aumento de horários, o traçado das linhas, o trajeto e, fundamentalmente, a lógica de integração, que hoje é totalmente inadequada, aumentando em mais de hora o tempo dos trajetos.

Por conta da omissão sobre os verdadeiros problemas do sistema foram feitas intervenções por parte do público cobrando propostas para esses nós do transporte, que tem causado tantos transtornos à população. Não bastava a apresentação de um incrível sistema informativo que muito mais serve ao empresariado do que aos usuários. Afinal, que interessa saber se o ônibus está aqui ou ali, parado no trânsito? O que se precisa é de mais ônibus circulando e uma integração efetivamente racional.  Também houve a reivindicação de que se avançasse na construção da tarifa zero, uma demanda antiga dos movimentos populares. Mas, a reunião com os tecnocratas da prefeitura ficou nisso. E, sem que nada do que fora dito fosse levado em conta, saiu o edital, bem assim. Sem qualquer alteração nos pontos que são importantes para a população.

O edital foi lançado, e o resultado todos conhecem. As empresas que dominam as rotas em Florianópolis desde há anos formaram um consórcio e foi esse consórcio o único a se apresentar. Logo, os vencedores do edital foram as mesmas empresas que têm tornado a vida das pessoas o inferno que é.

Vencida a estranha licitação de um candidato só, na verdade a medusa das cinco cabeças - Transol, Canasvieiras, Emflotur, Insular e Estrela - o transporte coletivo de Florianópolis seguiu sendo o que sempre foi: um tormento. Em alguns bairros até piorou, como no caso do sul da ilha em que vários horários foram suprimidos sem que ninguém soubesse por quê. Questionada a empresa Insular sobre os motivos, a funcionária mandou falar com a Prefeitura e na Prefeitura mandavam falar com a Insular. "Melhor encaminhar à ouvidoria". Ou seja. Nada acontece e a população fica sem ter a quem recorrer. Hoje, os ônibus que seguem para o Jardim Castanheiras estão cada vez mais lotados e com menos horários.

A única mudança visível no "admirável" sistema é a da cor dos ônibus. Ao que parece todos eles serão pintados de branco e azul. Frota nova? Nem pensar. Apenas 13% dos ônibus foram renovados, dentro da média de atualização. Já o super-mega-power Centro de Comando ainda tem até o ano que vem para ser constituído e, até lá, muita água vai rolar. Então, fica-se assim. Nada de informatização, nem de horários nos tablets, nem frota nova, nem tarifa zero, nem linhas novas, nem aumento de horários, nem integração de verdade.

Tá bom?

Ah, tá, não dá para dizer que não houve nenhuma vantagem para os usuários. A tarifa baixou 0,10 centavos.


quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

O transporte em Florianópolis: mudando para não mudar




Desde que foi implantado, durante a gestão da prefeita Angela Amin, em agosto de 2003, o chamado “transporte integrado”, a vida de grande parte das pessoas que utilizam o transporte público na capital catarinense virou um verdeiro inferno. Aqueles que moram em bairros próximos ao centro raramente reclamam do sistema, uma vez que a fluência de ônibus é boa, com horários regulares entre 10 a 15 minutos no máximo. É assim para quem mora no Estreito, Coqueiros, Abraão e Itaguaçu, que não precisa fazer baldeação.

Já para os que moram nos bairros mais afastados, o cotidiano é um suplício. Os veículos que saem do centro não sãos os mesmos que o usuário usa para chegar ao seu bairro. Em alguma parte do caminho, no geral, bem próximo de casa, a pessoa precisa descer no “terminal de integração” e pegar outro ônibus que, aí sim, vai levá-lo até em casa.  Nesse ínterim, o usuário precisa viver duas grandes batalhas: a de enfrentar as longas filas no terminal do Centro, sofrendo ônibus lotados, sem sistema de ar condicionado (muitos deles sequer têm janelas que abrem), passando por longas horas nos engarrafamentos, e, depois, viver a mesma situação no trajeto do terminal de integração até em casa. No geral, para as pessoas que vivem nos bairros mais distantes, o tempo dentro do sistema de transporte aumentou com a “desintegração” – que é como a população chama. Linhas que faziam o percurso em 40 minutos, como era o caso da do bairro Campeche, agora podem levar até duas horas. Um tempo absurdo se consideramos que é um trajeto de pouco mais de 30 quilômetros. 

Não bastasse tudo isso, o sistema de integração “loteou” a cidade para determinadas empresas. Cada uma detém o monopólio de uma determinada região e, assim, o usuário é refém da empresa que faz o seu bairro. Não há opções. No terminal do Rio Tavares, se a pessoa perde o carro da hora cheia, por exemplo, terá de esperar 30 minutos até que tenha novo horário para o seu bairro. Muitas vezes a pessoa está a cinco minutos de casa e precisa ficar esperando. É um sistema gerador de estresse e doenças. Se formos considerar o período de férias, a situação fica ainda mais caótica. Esse ano, por exemplo,a prefeitura retirou os carros que fazem horários extras no horário de pico durante o ano letivo. O argumento é de que não há fluxo de estudantes. Mas, os tecnocratas não levam em consideração que o fluxo de turistas representa duas ou três vezes mais do que o número de estudantes. Então, os terminais ficam ainda mais insustentáveis. Gente demais, calor demais, preço das tarifas altos demais, estrutura de menos. Sem contar a falta de informação aos turistas que ficam feito barata tonta pelos corredores sem saber qual ônibus tomar. 

As lutas

Por conta de todos esses problemas que os milhares de usuários enfrentam no dia-a- dia muitas foram as lutas protagonizadas pelos estudantes, movimentos sociais e população em geral. A primeira delas, pós-integração, foi a batalha pela CPI dos tranportes, junto à Câmara de Vereadores, comandada pelo Sindicato dos Trabalhadores do Transporte que queria transparência na concessão dos terminais do  sistema integrado. Mesmo com mobilizações e abaixo-assinado, a Câmara se recusou a investigar. Mais tarde, vários dos terminais, que haviam custado milhares de reais aos cofres públicos, tiveram de ser desativados por absoluta falta de sentido.

Depois, em 2004, veio a Revolta da Catraca, quando o povo foi para a rua em luta contra o aumento das tarifas. O protesto foi tão significativo que abriu uma vereda em nível nacional para lutas semelhantes em vários estados do país. Desde aí, consolidou-se na cidade um movimento de luta pelo transporte que veio protagonizando diversas outras batalhas na tentativa de garantir um serviço público de qualidade na área do transporte. Vieram as lutas pelo Passe Livre, com os estudantes à frente, e, mais tarde, tudo isso desembocou na luta pela Tarifa  Zero, reivindicação que foi tomando conta de todos os que começaram a se envolver com o assunto. Se há um direito de ir e vir, garantido na Constituição, e tão caro á sociedade burguesa, então por que não garantir esse direito aos usuários do transporte? Afinal, a maioria dos que utilizam o transporte coletivo são trabalhadores e estudantes. E essa é a bandeira que comanda as lutas hoje em todo o país. 

Mas, em Florianópolis, um dos capítulos dessas grandes batalhas pelo transporte também tem sido pela realização de uma licitação, já que as empresas que hoje atuam no sistema - Insular Transportes Coletivos Ltda. (antiga Empresa Ribeironense Transporte Coletivo Ltda.), Empresa Florianópolis de Transportes Coletivos Ltda. – Emflotur, Transporte Coletivo Estrela Ltda., Transol Transporte Coletivo (antiga Viação Trindadense Ltda., que absorveu a Viação Taner) e Canasvieiras Transportes Ltda – são as mesmas desde a décadas, sem que tenham passado por qualquer sistema de licitação. Muitos protestos com relação a isso foram realizados ainda na gestão da Angela Amim e depois na de Dário Berguer. Nada foi feito. 

Cesar Souza

O atual prefeito, Cesar Souza Junior, se elegeu tendo como proposta fazer a licitação do transporte. E, nos primeiros meses da sua gestão lançou o edital. Mas, para supresa da população, o fez sem qualquer participação das gentes, daquelas que sofrem o sistema todos os dias. A proposta de licitação foi apresentada numa segunda-feira, as oito horas da manhã, com chamamento feito no dia anterior pela televisão. Ou, seja, a prefeitura não queria povo “melando” o que seus tecnocratas haviam desenhado desde o conforto de suas salas, sem qualquer processo de conversa com os usuários. É que, na verdade, o foco estava no interesses das velhas parceiras  - as empresas do transporte – e não na população. 

E assim, os poucos representantes populares que puderam estar na apresentação tiveram de ouvir, estupefatos, um discurso de apresentação de “maravilhas” tecnológicas. Haveria um sistema interligado por computador, as pessoas poderiam ver onde estava o ônibus desde seus tablets, os motoristas teriam contato com a central via internet em tempo real, e outras tantas “modernidades”. Falou-se mais de uma hora disso tudo. E sobre as linhas, os horários, os problema de desintegração? Nenhuma palavra. As pessoas que fossem procurar nos anexos da lei, que sequer estivavam à disposição. Foi preciso muita luta para que a prefeitura divulgasse a lei da licitação. E, apesar de todos os protestos e críticas feitas por especialistas no setor, o prefeito fez-se surdo e não alterou em nada a proposta. Era aquilo e ponto. O estilo “democrático” que depois também foi imposto no debate e aprovação do Plano Diretor.  

Agora, nos primeiros dias de fevereiro, a prefeitura realizou reunião para abrir os envelopes das empresas interessadas em atuar no sistema de transporte da cidade. Ninguém dos movimentos sociais, nem mesmo a representação do sindicato dos trabalhadores foi autorizada a entrar, apesar de ser uma sessão pública. Tudo feito a portas fechadas, sob o argumento de que estava sendo transmitido via internet. Só depois de muita discussão, foi permitida a entrada de 15 pessoas, das que se postavam em frente a prefeitura exigindo participação. Mas, como estava proibido qualquer manifestação, os populares se retiraram em protesto.  

Ao final da sessão de abertura dos envelopes, a “surpresa”: havia um único envelope. E quais eram as empresas que, unidas num consórcio denominado de Fênix, estavam ali representadas? Um doce para quem adivinhar! Nada mais, nada menos, que as mesmas cinco empresas que já atuam na cidade desde sempre. 

A imprensa fez sua parte, divulgando no dia seguinte os fatos, sem qualquer senso crítico, sendo que os dois principais jornais ainda fizeram questão de frisar que a população seria “beneficiada” com a diminuição da tarifa, em 0,10 centavos. Os demais “grandes ganhos” que a população vai ter serão os 447 ônibus convencionais e 60 executivos - todos acessíveis para quem tem deficiência, com GPS e câmera de monitoramento. De novo, nada sobre trajetos, horários, linhas ou o monopólio regional. 

Mudando para não mudar

Então, agora aí está. Como não apareceu mais nenhuma proposta, o único consórcio a concorrer é o Fênix, que poderia até ser nominado como “duro de matar 666”, porque significa que as mesmas empresas que exploram o serviço seguirão vivas e firmes, apesar do aparente “tropeço” causado pela licitação. Nada muda para que se diga que tudo mudou. O prefeito agora garante, com licitação, mais 20 anos para os mesmos “parceiros” de sempre.

É fato que as mudanças tecnológicas serão benéficas para a população. Mas, não há aí nenhum mérito. Adequar-se a realidade é obrigação das empresas. Também é certo que a diminuição de 20 centavos na tarifa é coisa boa. Mas, isso, ao longo do tempo, vai se perdendo no caos que é o sistema. Para os que lutam por um transporte de qualidade, o processo licitatório não toca em nada nas questões cruciais que envolvem os diários transtornos vividos pelos usuários. Seria preciso que o prefeito, num ato de sabedoria, ouvisse aqueles que sofrem o transporte. Cada um e cada uma que usa o transporte sabe como fazer para melhorar. É a forma do pé que ajusta o sapato. Mas, sabedoria seria pedir demais de um jovem prefeito que prefere administrar como um se fosse um rei. É dele que emana toda a decisão. Um rapaz que possivelmente nunca, ou raramente, andou de ônibus.

Agora, aos movimentos sociais, sindicatos e população ativa resta a luta sistemática, como sempre foi. Já se tinha como certo que o edital era uma maquiagem mal feita para uma velha amiga. Há questionamento sendo feito via judicial e existem as ruas. Ah, as ruas… esse espaço libertário que, vez em quando, é palco das mudanças. 

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Viamão: um retrato singular do descaso com as gentes



Nara Regina foi morar no interior de Viamão, comunidade de Águas Claras, há pouco mais de um ano. Espaço rural. Algumas casas, pequeno comércio, mas com os serviços básicos de uma comunidade que já tem mais de sete mil almas: posto da brigada militar, escola e posto de saúde. Uma fábrica da Ambev atraiu muita gente e o povoado cresce a cada dia. Mas, o que pode parecer bucólico revela toda a falta de respeito que uma administração pode ter com o seu povo.

Viamão é o maior município da região metropolitana de Porto Alegre, maior até que a capital. Tem quase 300 mil habitantes, os quais se espalham pelo largo território. Uma grande parte vive nas comunidades rurais ou na periferia. Ainda assim, a prefeitura atua como se cada cidadão de Viamão fosse filho de Porto Alegre. Pouca coisa se consegue fazer no município e  quase tudo aponta para a capital, fazendo com que as pessoas vivam uma espécie de calvário por conta de pequenas coisas.

Um exemplo disso é a saúde. Na comunidade de Águas Claras, desde agosto de 2012 não há médico. Qualquer um que procure o posto de saúde do local vai ser recebido por uma moça solícita que só sabe dizer: não temos médico, não temos condições, não temos nada. Nara tem hipertensão e precisa de acompanhamento sistemático. Cada vez que precisa de uma avaliação precisa pegar um ônibus e se deslocar até a parada 44, quase na entrada de Porto Alegre, onde tem um posto central. Isso significa pelo menos uma hora de pé, em ônibus lotados, que passam em Águas Claras de hora em hora.

Na última quinta-feira ela foi mordida por um cachorro. Com a mão aberta, correu para o posto. A enfermeira nem sequer olhou o ferimento. “Já temos médico, mas ele é pediatra, e não está aqui agora. Também não temos a vacina anti-tetânica nem a anti-rábica. Melhor ir para Viamão”. Com a mão enrolada numa toalha, sangrando, lá se foi ela para a parada de ônibus. Quarenta minutos de espera, mais trinta minutos de viagem até o centro de Viamão.  No posto de saúde central tampouco havia vacina. Mandaram para o hospital, na emergência. Toca esperar mais de duas horas pelo atendimento. Feito o curativo, a médica anunciou que também o hospital não tinha a vacina. “Vai até o posto da 44”. Mais quarenta minutos na parada e uns vinte minutos de viagem. No posto da 44 tampouco tinha a vacina. O único jeito era ir à Porto Alegre. De novo, mais um tanto na parada de ônibus até um centro de referência na capital. Cada viagem no ônibus, três reais e vinte de passagem. Já se iam quase 10 reais.

No Sanatório Partenon, em Porto Alegre, uma única médica se desdobrava entre o atendimento dos mordidos por cachorro – que eram muitos  - e o plantão no hospital. Um desgaste tremendo para a profissional e para os que precisam dela. “Tinha que ter um médico são para o atendimento dos mordidos, mas não tem. Temos de dar jeito”. Toda essa odisseia entre a chegada no posto de Águas Claras e a volta para casa demorou exatas oito horas. A sorte da mulher foi que a mordida não lhe arrancou a mão. Ela pode aguentar.

Mas, a pergunta que fica é: como pode um município que tem uma população rural imensa, logo sujeita a esse tipo de ocorrência (uma mordida de cão ou de cobra) não ter, em nenhum dos seus postos uma vacina? Como pode um município empurrar uma demanda para outro sem qualquer prurido? Como pode abandonar sua população a esse tipo de sacrifício?

Pois esse município assim o faz. O novo prefeito, agora do PSDB, ainda chegou ao cúmulo de retirar ônibus de circulação, deixando a população rural em completo abandono. O que já era ruim, ficou pior. Foram retirados horários e os coletivos que fazem os percursos rurais ficam lotados, colocando em risco a vida das pessoas. A resposta ao caos veio da forma mais perversa possível. A prefeitura autorizou as empresas que fazem o transporte intermunicipal a recolher passageiros. Só que os ônibus que fazem as linhas intermunicipais não são adequados para transportar pessoas em pé. Os corredores são bem menores e não há onde se agarrar. É cruel ver aquelas pessoas idosas – um número bem expressivo – passarem todo o tipo de humilhação e aperto. Uma vergonha!

Nas paradas de ônibus a reclamação é geral, mas, como sempre acontece, os governantes não estão nem aí. Fazem ouvidos moucos. Eles não usam o transporte coletivo. Resta ao povo a humilhante espera nos pontos e todo aquele sofrimento para chegar em casa. Abaixo assinado, protestos, tudo já foi feito e nada. “A gente tem que ir lá e queimar tudo, só assim eles se mexem”, resmunga uma mulher , carregada de sacolas. “Estou aqui desde as quatro horas. Já são cinco e 15 e nada do ônibus”.  Ela conta que não pega o intermunicipal porque a passagem é mais cara. Ou seja. A lógica é clara. A prefeitura tira os horários dos ônibus urbanos e dá vantagem a dois grupos empresariais de uma só tacada. Os locais que circulam menos e levam mais gente, e os intermunicipais que podem lucrar muito mais com os passageiros extras. O povo? Que se arrombe!!!

E assim segue a vida na adorável Viamão... Até que alguém resolva acordar...

    

terça-feira, 10 de setembro de 2013

O novo edital dos transportes foi uma decepção geral






A Prefeitura Municipal de Florianópolis chamou uma audiência pública para essa segunda-feira, oito horas da manhã, na qual discutiria a nova proposta para o transporte coletivo e o projeto de licitação das empresas. A audiência se fez sem maiores chamamentos públicos, sem mobilização das comunidades e, por conta disso, com muito pouca presença de usuários do sistema. Afinal, a maioria dos trabalhadores está no trabalho a essa hora da manhã. Ainda assim, representantes de entidades e alguns usuários se fizeram presente e fizeram suas reivindicações.

O representante da prefeitura, Domingos Bonin, abriu sua fala mostrando tabelas que mostram como o número de passageiros no transporte coletivo diminuiu de 2008 (4 milhões e 700 mil) para cá (4 milhões e 400 mil), observando que essa diminuição começou pouco depois da implantação do sistema integrado de ônibus. O que não é novidade, uma vez que a integração, em vez de melhorar, piorou a vida dos usuários, principalmente daqueles que moram nos bairros mais afastados do centro que agora precisam usar três veículos diferentes para chegar em casa. Além disso, com a integração também o tempo de percurso aumentou significativamente, ocupando muito mais vida das gentes. Trajetos que levavam 40 minutos, hoje são feitos em duas horas e meia, com trânsito bom. Ele também mostrou que apesar da diminuição do número de passageiros, aumentou o quilômetro percorrido bem como a frota de ônibus ( de 359 em 2006 para 436 em 2013). Logo, argumentou que um dos desafios da prefeitura é justamente baixar o preço da tarifa, apenas dos números que revelam o aumento do custo do sistema.

Apresentados os números, Bonin falou cerca de uma hora sobre as novidades do novo sistema de transporte pensado pela prefeitura. Segundo ele, Florianópolis terá uma dos mais modernos do país, totalmente informatizado, com informações on line para usuários, trabalhadores do sistema e operadores. "O foco de tudo é o usuário e nossa intenção é diminuir o tempo nos terminais e o tempo do trajeto". Para isso será criado um Centro Integrado de Gestão que vai comandar todo o sistema, inclusive com os novos modais que forem se agregando. Todas as informações serão disponibilizadas via internet e os usuários poderão acompanhar o ônibus através de aplicativos nos tablets e smartfones. Rotas, horários, tempo de chegadas, atrasos, enfim, tudo estará disponível na tela de quem tiver a sorte de ter um equipamento eletrônico. Os que não tiverem poderão ter as informações nos painéis que ficarão nos terminais e também nos pontos de ônibus. 

Ainda segundo Bonin, o sistema integrado terá como se comunicar com o motorista, informando sobre situação do trânsito e outras situações de emergência e é a prefeitura quem vai comandar toda a operação. Barin salientou que com, essa novidade, a licitação vai ter em conta todo o sistema e não só as linhas. Também deixou claro que o novo edital dá mais poder ao poder concedente, no caso, a prefeitura, de intervir no sistema em caso de paralisação envolvendo os trabalhadores. 

A apresentação que apontou as maravilhas das inovações tecnológicas do novos sistema frustrou os usuários e representantes de movimentos sociais que estavam na audiência, uma vez que  quando a conversa chegou no ponto que realmente interessava, como o traçado das linhas, os trajetos, a lógica da integração, Borin remeteu o tema a alguns anexos da lei, que não forma mostrados, apenas citados. E por aí acabou a fala, sem qualquer menção aos problemas reais vividos pela população.

O representante da UFSC, Werner Kraus, foi o primeiro a se manifestar e alertou à prefeitura sobre o fato de que a população precisa tomar conhecimento do projeto inteiro. Salientou que a modernização do sistema vem em boa hora, mas o que realmente importa é o desenho das linhas e toda a problemática que envolve a integração. Sugeriu que esse debate não ficasse só nessa reunião e que a população tivesse mais tempo para conhecer o edital, para poder opinar sobre ele. Os representantes do movimento Passe Livre, bem como várias outras lideranças políticas da cidade se manifestaram alegando que é chegada a hora de o sistema se municipalizar, afinal, essa é uma luta histórica e os problemas que hoje a cidade vive estão intimamente ligados ao fato de que esse serviço público está na mão da iniciativa privada, e aos empresários o que está em primeiro lugar é o lucro, não o bem estar dos usuários. Também foi sugerido que a prefeitura avance para a lógica da tarifa zero, uma realidade em muitas cidades do Brasil e de outros países.  

Causa muito constrangimento em quem sofre o transporte coletivo todos os dias observar que quem pensa o sistema não sabe como ele é no cotidiano, não vive a realidade das filas quilométricas, da integração ineficiente, do absurdo das demoras de trajeto. São decisões tecnocratas, totalmente desconectadas da realidade das ruas. Foi lembrado que ao usuário não basta saber, pelo tablet, onde está o ônibus e todas as demais maravilhas da tecnologia de informação que foram cantadas na apresentação. O que realmente importa é que o sistema funcione, que não se tenha o monopólio das linhas, que a integração seja eficiente, que o tempo do percurso diminua consideravelmente e que a cidade inteira se modifique para o uso do transporte coletivo em vez do carro. Sem isso, não adiantará de nada um Centro de Gestão ultra moderno. 

Também foi solicitado que a prefeitura disponibilizasse o restante do projeto, os tais anexos que só foram nominados, mas não explicitados, para que se pudesse ter uma visão geral da proposta no que realmente importa ao usuário. De resto, a audiência foi uma grande decepção para os que usam o sistema, porque não foi possível saber o que está reservado à cidade. Ficou acertado uma nova audiência para a semana que vem, na qual, espera-se, sejam apresentados os anexos e todos possam discutir o sistema real.

No que diz respeito à repercussão da audiência na mídia comercial, foi tão superficial como a própria apresentação do edital. A maioria dos comentaristas se limitou a reproduzir as loas sobre a "maravilha tecnológica" que foi apresentada, e também o destaque para  o fato de que a prefeitura será mais dura contra a paralisação de trabalhadores. Nenhuma novidade, é claro. Nos jornais, nada que pudesse realmente informar ao público sobre o sistema real. Seguimos então, reféns das informações não prestadas. 

Agora, é esperar que a prefeitura libere o conteúdo total da proposta para que se possa ter uma análise clara do que muda ou não.  

domingo, 21 de julho de 2013

Os ônibus lotados

Esse desabafo nos chegou por email no correio da Rádio Campeche. Reproduzo aqui porque é bem isso que acontece com a gente que usa o transporte coletivo em Florianópolis.



Por Catarina

O que está por trás de ônibus lotados? São dezenas e dezenas de minutos de espera todos os dias nos terminais e nos pontos (a maioria deles nem sequer são cobertos), falta de informação nos pontos sobre os horários e itinerários, sem contar que os belos telões animados dos terminais servem principalmente como vitrine para propagandas, igualzinhas àquelas da televisão. Esse descaso para com quem necessita do transporte público não acaba contribuindo para que aqueles que podem abrir mão dele, passem a usar diariamente seus carros particulares e a engrossem as longas filas de engarrafamentos? E não são os usuários dos ônibus, apesar de não estarem contribuindo com tais engarrafamentos, que acabam enfrentando da pior maneira esse ônus do transporte? Todos pagam o pato, alguém poderia dizer. Mas com a pequena diferença de que os do busão vão, em sua maioria, em pé, segurando peso, dividindo um espaço tão apertado que às vezes é desconcertante. 

Além disso, passado o ponto crítico do engarrafamento, o motorista com seu carro vai tranquilamente passar na padaria ou na farmácia, fazer uma visita a alguém e voltar para casa rapidinho. Quantos terminais o usuário do ônibus ainda vai enfrentar? Quantas filas? Será mesmo que cada um dos milhares de usuários pagando quase 3 reais para cada viagem (quantas viagens fazemos por dia?) não paga um transporte que deveria ser MUITO MELHOR do que esse que está aí? Será que é demais sonhar com uma cidade em que eu possa ir de ônibus à farmácia, à padaria, ao cinema, à praia e onde eu quiser sem gastar de 3 a 4 horas do dia me locomovendo? É demais sim, pois essas empresas só existem para terem altíssimos lucros. A elas não importa se um pai de família que ganha em torno de um salário mínimo não possa levar seus filhos para passear nos fins de semana porque, somando tudo, fica muito caro. Tampouco se importa se eu vou levar 2 horas e meia para chegar à praia numa bela manhã de sábado. Por que, então, elas tem tanto poder em decidir como será este transporte? Por que o poder público não está à frente disso, já que esse é um serviço essencial para a cidade? Quem está ganhando nisso tudo?

 As cidades foram uma grande invenção, alguém escreveu. Nelas as coisas aconteciam, as pessoas estavam em constante contato, tudo convergia. Por que as grandes e médias cidades brasileiras se tornaram uma aberração? As pessoas vão dizer... é muita gente... Outras vão dizer, é muita favela... Por que o brasileiro não se pergunta então: por que tanta gente nas mesmas cidades? Por que tantos pobres neste país? Alguma coisa está errada conosco e o primeiro passo é compreender as ligações entre as coisas, conhecer um pouco da nossa história, que não passa na novela, pode crer. Você acha mesmo que é normal haver tanta pobreza ou que se trata de mera culpa das pessoas que estão nestas condições? Então será que temos, como nação, algum problema genético que faz as pessoas nascerem incompetentes e preguiçosas? 

Mas pense bem, na ocasião da inauguração do sistema de transportes em Florianópolis há uns bons anos atrás, a Dona Ângela disse que o trabalhador de Florianópolis ia ter que se acostumar a acordar mais cedo... E ele teve que se acostumar né? Vê-se que o cidadão de Floripa nem é tão preguiçoso assim... Por isso, é possível que agora peçam para o trabalhador dormir um pouquinho mais tarde... Será que a Dona Ângela ou os atuais gestores dessa cidade já andaram de ônibus alguma vez em suas vidas? No Brasil, essa pergunta pode parecer esquisita, porque transporte público parece ser sinônimo de transporte de pobre. Em alguns outros países, prefeitos, empresários, médicos, professores e qualquer pessoa compartilham o transporte coletivo diariamente, inclusive é comum ver todo tipo de gente usando também a bicicleta. Existem lugares onde a tarifa de ônibus é baixíssima (centavos) e até cidades onde não se paga! Será que os gestores de Florianópolis convivem com alguém que usa ônibus diariamente? Às vezes, essa estranha pergunta surge na minha mente... Costuma ser dentro de um ônibus, atravessando a cidade que essas ideias me aparecem... Andar de transporte coletivo em Floripa é um incentivo a filosofar sobre certas coisas. Especialmente quando presencio as pessoas se digladiando para subir no ônibus ou porque alguém está atrapalhando a movimentação dentro da lata de sardinha com sua mochila nas costas. 

Inclusive, pregaram um aviso muito gentil nas janelas, pedindo que aqueles que usam mochila, tirem-na das costas ao andar de ônibus, para não atrapalhar os demais. Muito civil este lembrete, só faltou escrever: ...devido ao fato de que os ônibus estão sempre entupidos. Onde colocar a mochila? Será que a gente também pode colocar um bilhetinho nas janelas pedindo gentilmente para BAIXAREM AS TARIFAS, QUINTUPLICAREM OS HORÁRIOS DOS ÔNIBUS (acho que a frota não precisa, porque geralmente ficam estacionados dentro dos terminais), DISPONIBILIZAREM HORÁRIOS E ITINERÁRIOS EM CADA PONTO e, quem sabe, fazerem um compartimento para mochilas e bicicletas nos ônibus? Apesar de tudo isso, é no busão e nos terminais que a gente vê também a solidariedade e a civilidade dessa gente que deveria educar suas elites políticas. Isso aconteceria, certamente, se essa elite passasse a usar o transporte coletivo. Prefiro acreditar que o povo brasileiro é muito é guerreiro e não o culpado pelas mazelas sociais. É guerreiro, mas não é tolo.

terça-feira, 12 de março de 2013

A duplicação das vias do Pantanal e Carvoeira



O jornalismo catarinense televisivo peca pela indigência. Assisti ontem as notícias sobre a reunião do prefeito César Junior e a reitora da UFSC, Roselane Neckel, acerca da velha pauta da duplicação das ruas que dão acesso à UFSC pelo Pantanal e pela Carvoeira. Como sempre, a informação é totalmente desconectada da história. Não há contexto, não há recuperação do tema desde suas origens. O tom das reportagens passa a impressão de que a UFSC se nega a doar parte do terreno e, portanto, é contra o progresso da região e contra as pessoas que vivem em engarrafamentos gigantes.

Ora, a questão da duplicação das ruas de acesso à UFSC é um tema velho e muitos debates já foram feitos sobre isso. Estudos de todo o tipo já foram apresentados e a maioria deles mostra que duplicar as referidas ruas não resolve o problema. Quem circula pelas vias todos os dias sabe que, nos horários de pico, um via de cada ponto (Pantanal e Carvoeira) ficam entupidas. Se duplicarem e inverterem as mãos, duas vêm e duas vão, o resultado é zero a zero. De manhã serão duas vias entupidas e de tarde as outras duas. É uma coisa tão óbvia.     

Também há estudos que propõe toda uma reformulação do entorno do campus, inclusive impedindo que os ônibus urbanos entrem na universidade. Haveria um terminal nas vias fora da UFSC. Outro absurdo completo, uma vez que tornaria a vida dos que não têm carro e precisam usar o transporte coletivo um verdadeiro inferno. Principalmente os alunos da noite que precisariam atravessar o campus nos seus pontos cegos, de escuridão. São coisas super malucas as propostas que já apareceram para "resolver" a situação caótica causada pelo binômio excesso de carros x falta de planejamento.

Durante as dezenas de debates que já aconteceram as soluções também foram apresentadas, principalmente pelas pessoas que sofrem o trânsito. Caso vingue a ideia de duplicação, uma das vias tem de ser só para ônibus, e precisa ter também uma boa ciclovia. É o único argumento válido para essa insanidade. Se uma das vias for exclusiva pode ser que as pessoas optem pelo ônibus e deixem o carro em casa. E numa faixa exclusiva os coletivos terão muito mais mobilidade. Também é loucura tirar os pontos de ônibus que estão espalhados pelo campus. Jogar para um ponto externo só traz benefícios para os que tem quatro rodas como pernas. A maioria dos estudantes terá mais problemas de locomoção, tendo de atravessar o campus inteiro para pegar o ônibus.

O que a UFSC quer, quando se nega a simplesmente entregar o terreno, é garantir que o projeto seja para garantir a efetiva mobilidade. O que não dá é trazer como argumento - como dizia uma repórter aparentemente indignada  - o fato de que se não for assim "vamos perder 11 milhões do PAC".

Ora, as pessoas não podem ser colocadas diante dos 11 milhões com a faca na cabeça dizendo: Ou usa-se agora ou não o teremos. Há que se pensar bem no uso desse dinheiro. Ele pode servir para engordar as empreiteiras e construtoras que estão sempre a mamar as verbas do governo, fazendo obras inúteis, ou a gente pode planejar bem o que realmente vai melhorar a vida de quem precisa circular na região do campus da UFSC. Se o dinheiro for embora, outro virá. Não é para isso que os governantes existem?

Então, por favor, não me venham com chantagens! Que os governantes as façam, isso não é novidade. Mas, ouvir os repórteres comprarem essa balela sem qualquer reflexão crítica é de matar. A função do jornalismo deveria ser a de mostrar toda a trajetória dessa polêmica e os projetos que foram produzidos, para que a população pudesse conhecer e julgar.  

A UFSC nunca negou ceder o terreno.O que se quer é que essa cessão não seja apenas para resolver a vida dos gigantes do cimento. Ou a prefeitura apresenta um projeto realmente bom ou que fique como está. Porque, em Florianópolis, há uma estranha maldição. Toda vez que fazem uma grande obra para "melhorar", assim, no afogadilho, a coisa piora. Vide o transporte "desintegrado".

Que a população não se deixe enganar com as chantagens da mídia e do poder. A melhoria só pode vir se a cidade inteira optar por priorizar o transporte coletivo e o uso da bicicleta. E isso não pode ser feito com obras paliativas aqui e ali. A cidade toda tem de ser preparada isso. O que significa uma mudança radical em toda a engenharia de trânsito.

Mas, pelo que vejo, ninguém fala disso.

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

A cidade das bicicletas









Amsterdam é o sonho de qualquer pessoa que ame a bicicleta. As ciclovias estão por toda a parte, e onde elas não existem as bicicletas encontram espaço nas calçadas. Quem está andando se afasta para que elas passem, soberanas. Mas, são poucos os pedestres. Ao que parece todo mundo tem uma magrela e as ruas são tranquilas, sem muito carro e sem poluição. Mesmo com um frio de seis graus abaixo de zero, a maioria das pessoas se locomove de bicicleta, talvez por isso todos sejam delgados, atléticos e longevos. Mesmo pessoas já bem velhinhas podem ser vistas pedalando em magrelas super estilosas. 

A cidade vem sendo planejada para que as pessoas possam viver (eu disse viver) nela desde 1200. As pessoas, não os carros. Vai daí que é assim!

terça-feira, 26 de junho de 2012

O peão é sempre o culpado


O capitalismo dependente é o “uó do borogodó”. As empresas se dizem “modernas”, cheias de tecnologia, adeptas do livre mercado. Alardeiam a baboseira do sistema capitalista que vende a promessa de vida boa, mas só para poucos. Para a maioria é a superexploração do trabalho, o medo, a pobreza. E, no geral, a tal da “modernidade” das empresas só se faz por conta da desgraça dos que vendem sua força de trabalho para elas.

Dia desses vinha de Porto Alegre. Ônibus normal, nos quais vai a gente sem posses, o famoso convencional. Já é um pé no saco, porque para em tudo que é luzinha. Tudo bem. Lá vínhamos para Florianópolis. Eram três e meia da manhã. O pneu estourou. Até aí, tudo bem, acidentes acontecem. O motorista desce para trocar o dito cujo. Rec-rec-rec-rec. Só barulho e nada. Passam-se os minutos. Os passageiros se inquietam. É noite fechada, cai uma geada fria, tudo deserto. Depois de uns 40 minutos eu mesma não resisto e desço. É tempo demais para um pneu furado.

Lá, na noite escura, está o pobre motorista deitado sob o ônibus tentando fazer funcionar o macaco. Não funciona. Todo mundo a dar palpite e o guri suando. Rec-rec-rec-rec, nada do macaco subir. Os passageiros fazem sinal para os caminhões, os ônibus, ninguém para. Dois da Santo Anjo finalmente param e oferecem o macaco, mas o deles também é incapaz de levantar o ônibus. O fato é que os três veículos ali parados não tinham as condições adequadas para enfrentar uma simples troca de pneu.

O motorista, depois de ter tentado o que podia, inclusive arriscando a vida, decidiu ligar para empresa – Eucatur – e pedir um carro para levar os passageiros. Do lado dele ouvi o trabalhador, no outro lado da linha, dizer: “te vira aí, dá jeito, faz sinal para algum caminhão”. Os pobres motoristas são obrigados a seguir um tipo de protocolo em que fazem das tripas coração antes de propor a vinda de um novo carro. O rapaz estava bem nervoso. De um lado, pressionado pelos passageiros, de outro, sofrendo aquele terrorismo psicológico por parte de um companheiro que deveria zelar pelo seu bem estar e dos passageiros. O tal do Rodolfo, no outro lado da linha, preferiu seguir a regra patronal: sugar o trabalhador ao máximo antes de deslocar um ônibus.

A noite se estendia pelo arrabalde de Laguna, onde estávamos. O tempo passava e nada de o macaco subir. Não havia o que fazer. O motorista ligou outra vez e, de novo, era convidado a tentar mais. O rapaz, ainda jovem, era a própria imagem da culpa. Como se fosse responsabilidade dele o pneu ter furado e ele não ter força suficiente para levantar um ônibus cheio de gente. Pressionado, voltou a ligar dizendo que não havia mais o que fazer. “Então, aguardem que vamos mandar o ônibus”. E nisso tudo se passaram quatro horas. Quatro horas de espera no meio da noite.

Ao chegar fui fazer a reclamação na empresa. Nem bem entrei os funcionários me cercaram. “É sobre o atraso. Aqui o formulário”. Eu disse: “não é o atraso. Quero reclamar do terrorismo psicológico que foi feito contra um trabalhador”. Eles se entreolharam. Uma mulher saiu, acusando: “O Geraldo demorou a chamar ajuda”. Ou seja, o motorista já tinha sido julgado pelos colegas. Fora o culpado, exatamente como ele mesmo já se sentira lá na estrada. Aí alucinei e me parei a dar discurso. “Vocês são todos trabalhadores, iguais a ele. Deviam se proteger, se ajudar. Mas não, ficam aí a defender patrão. Ele cumpriu as regras impostas pela empresa. Fez o que pode e o que não pode. Que ninguém agora vá culpar o cara por isso. Era o que faltava”. E tudo isso aos gritos, enquanto as pessoas paravam para ver. Fui à agência que fiscaliza o transporte: nada podem fazer. Saí dali desolada e impotente.

E assim, seguimos. As empresas de transporte não se preocupam com a segurança de seus trabalhadores. Imaginem se vão cuidar da nossa. Estamos todos entregues ao azar.