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quarta-feira, 27 de março de 2019

A violência de todo o dia será discutida em Audiência Pública




Comunidades da periferia e dos morros de Florianópolis, bem como militantes sociais e juventude estão em processo de luta contra a violência policial que vem recrudescendo dia a dia em Florianópolis. É sabido que a repressão aos pobres não é coisa de hoje, mas nos últimos tempos piorou, com ações extremas no centro da cidade, próximo a bares e espaços de convivência de público jovem, adeptos do Hip Hop e LGBT, marcadamente popular. 

Na segunda-feira (25), moradores do Mocotó, no centro da cidade, bloquearam a rua que dá acesso à Avenida Mauro Ramos, denunciando mortes, surras e até a ordem de toque de recolher na comunidade, o que tem assustado as pessoas e inviabilizado a vida. A Polícia diz que está na luta contra o tráfico e age dentro da lei, mas o relato das famílias é de que a ação violenta é indiscriminada. Nem todo mundo que mora no morro é bandido, dizem. E uma pessoa precisa saber o porquê de estar sendo detida ou surrada. Também questionam que esse tipo de ação fique focado apenas nas comunidades pobres quando é sabido que os traficantes mesmo, os graúdos, os que abastecem as bocas, não vivem nos barracos da periferia. E jamais se soube de uma ação policial violenta em áreas nobres da cidade. Mesmo quando prende algum traficante de peso, tudo é feito dentro dos trâmites, com mandato e tudo. Na comunidade, não. 

Ainda na segunda-feira, enquanto a comunidade do Mocotó se mobilizava numa ação desesperada, já que suas demandas não têm visibilidade, foi feita uma visita ao Batalhão Central da Polícia Militar, onde uma comissão do Movimento Popular, que já vem acompanhando esse aumento da violência policial contra pobres e movimentos sociais,  entregou um documento denunciando as ações da PM e convidando o comando da instituição para participar da Audiência Pública que acontece nessa quarta-feira (27), na Assembleia Legislativa, às 18h e 30min, justamente para debater o abuso policial e a violência. Faixas foram colocadas em frente ao quartel, para informar a sociedade sobre a questão. Logo em seguida o grupo foi até o terminal urbano, para conversar com as pessoas e também convidar para a audiência.

Hoje à noite, na Alesc, os movimentos pretendem discutir em profundidade com todas as autoridades locais e espera-se que representantes da PM e da Prefeitura também participem. A luta social não é crime e as comunidades de periferia não são redutos de ladrões e bandidos. Tanto na luta popular como nos espaços de moradia da periferia da cidade estão os trabalhadores buscando viver com dignidade. À violência do crime não pode se contrapor outra violência, é o que argumentam. 

Os movimentos sociais estão chamando concentração para as 18h e 30 min, em frente à Assembleia. A Audiência Pública começa às 19horas. Esse é um tema que diz respeito a todas as pessoas, pois a continuar o processo indiscriminado da violência, ninguém está protegido. Nem os policiais, nem a população. A proposta do debate é encontrar caminhos de proteção e de paz, afinal, a polícia existe é para proteger os cidadãos. Todos e Todas.  

Moradores do Mocotó fazem barricada

Movimentos Sociais no centro da cidade


terça-feira, 26 de janeiro de 2016

Exposição marca 30 dias do assassinato de Vitor


Ato e exposição de brinquedos marcarão o dia

Desde há 500 anos, quando chegaram nas nossas terras os invasores, que a proposta do mundo branco é exterminar os povos indígenas. Primeiro foi através da escravidão.Não deu certo. Depois houve a tentativa de integrar o índio na cultura branca, entendida como civilização. Tampouco foi possível. O índio que vive no mundo branco nunca é totalmente aceito. A sociedade é racista, preconceituosa e discriminadora.

Assim, não foi sem razão que o assassinato bárbaro do menino de dois anos, Vitor Kainkang - degolado por um jovem de 23 anos em Imbituba, litoral catarinense - passou sem maior alarde nos meios de comunicação. Um pouco mais de atenção e já se poderia notar a culpabilização da vítima. O que fazia a família fora da aldeia? Porque não ficam quietos nos seus lugares de origem? Porque para a sociedade dita branca o lugar do índio é confinado em algum lugar bem distante, que não incomode a vista.

Mas, os povos indígenas são povos livres que como qualquer um de nós têm todo o direito de se movimentar pelo território. Além do mais, como são relegados pelas políticas públicas governamentais e raramente tem suas terras demarcadas, eles precisam batalhar para garantir a comida na mesa. E uma das formas de sobrevivência que encontram é justamente vender seu artesanato na temporada de verão no litoral. Logo, o fato de uma família Kaingang estar no litoral, tão longe de sua terra e em condições precárias de alojamento é muito mais responsabilidade dos governos do que deles.

Daqui a quatro dias se cumprem os trinta dias do assassinato de Vitor, o pequeno guerreiro kaingang. O provável assassino está preso, mas o inquérito deve ser concluído até a próxima semana. Em Florianópolis movimentos sociais e de apoio a questão indígena, bem como representantes das três etnias (Kaingang, Guarani e Xokleng Laklãnõ, preparam uma homenagem para marcar a data do assassinato. Estão sendo organizados pelo Museu do Brinquedo um ato e uma exposição de brinquedos e brincadeiras no hall da Biblioteca da UFSC, no dia 29 de janeiro, para lembrar a meninice perdida de Vitor.

Passe o tempo que passar, nas terras indígenas ninguém vai esquecer. Até porque, outros meninos e meninas estão aí, na dura luta pela sobrevivência não só de si mesmos, mas de toda a sua cultura.

Vitor Pinto, presente!!!

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Chegou a Pobres 29

Escrita a favor da vida

Moradia, cidade, sistema prisional... vida...



Ao chegar na marca de 29 edições, a revista Pobres & Nojentas, que circula a partir desta semana, traz reportagens que, de um modo ou de outro, se relacionam com temas sobre os quais tratamos nas 28 outras edições. São temas que também aparecem nos grandes meios de comunicação, mas que aqui são contados de outra forma, sob outro olhar. E é bom terminar 2012 com mais uma edição, porque a equipe da revista bem que gostaria de garantir a periodicidade da publicação, de dois em dois meses. Mas não dá para prometer isso.

Assunto é o que não falta, mas a Pobres sai quando é possível. E, como escreve a jornalista Elaine Tavares, procuramos oferecer um conteúdo que leve à crítica desta sociedade e à transformação. Está também visceralmente vinculada à nossa proposta editorial a ideia de que a palavra rebelde, criadora, subversiva precisa de espaço para se expressar. Por isso a revista se faz de um jeito aparentemente errático. Não é que a linha editorial seja confusa ou amadora. É porque faz parte do conceito editorial ser um espaço livre das palavras de quem não tem ainda onde clamar.

Em novembro, a revista Veja publicou reportagem racista e preconceituosa sobre o povo Kaiowá e Guarani. A Aty Guasu Guarani e Kaiowá e a Comissão de Professores Guarani e Kaiowá estão exigindo direito de resposta aos Guarani e Kaiowá. Vale conhecer um trecho da carta escrita pela Comissão:

“Os jornalistas precisam estudar mais um pouco. Conhecer o que é índio, o que é cultura, o que é tradição, o que é história, o que é língua, o que é Bem-Viver. A terra, para nós, é o nosso maior bem viver, coisa que ainda a imprensa não entendeu muito bem. Não entendeu que é possível escrever coisa boa sem prejudicar.

O povo pobre não tem acesso à imprensa, quem tem são os latifundiários e os empresários. São eles que comandam. Nós somos brasileiros, somos filhos da terra. É preciso valorizar todas as culturas, o que a imprensa não faz. Mas precisava fazer.

O direito à terra é um direito conquistado pelo povo brasileiro que precisa ser cumprido. E é possível fazer essa luta com solidariedade, com amor, com carinho, que é a competência do ser humano. Não é com maldade, como fez essa reportagem.

A matéria quer colocar um povo contra outro povo. Quer colocar os não-índios contra os índios. Essa matéria não educa e desmotiva. Ao invés de dar vida, ela traz a morte. Porque a escrita, quando você escreve errado, também mata um povo”.

Aqui na Pobres & Nojentas, é isso o que esperamos: que a escrita esteja sempre a favor da vida.

sábado, 10 de novembro de 2012

Florianópolis em luta pelos irmãos Guarani





Florianópolis realizou uma manifestação em apoio à luta dos Guarani-Kaiowá do Mato Grosso do Sul, juntando-se às atividades que aconteceram em vários pontos do país nesse 09 de novembro. Reunidas em frente à catedral, mais de 200 pessoas distribuiram panfletos e dialogaram com a população sobre o drama do povo indígena. O Guarani-Mbya que vivem próximo à Florianópolis também vieram em apoio aos irmãos do Mato Grosso. Vieram ainda os Kaigangs, de Ibirama e até um irmão da etnia Mapuche.
Houve uma caminhada pelo centro da cidade que encerrou no terminal urbano, onde os manifestantes se deitaram no chão enquanto uma faixa vermelha percorria todos os corpos. Cantorias e palavras de ordem exigiam do governo federal a democarcação das terras indígenas.

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Veja como foi o Dia do Saci em Florianópolis


A falta de uma política cultural na cidade de Florianópolis ficou evidente nessa quarta-feira, 31 de outubro. Uma caminhada pelo centro com um grande Saci Pererê já teve o efeito de enfeitiçar e parar um grande número de pessoas, interessadas em simplesmente fruir alguma coisa boa que só a arte e a cultura viva podem dar.

Numa promoção da Revista Pobres e Nojentas e do Sintrajusc (trabalhadores da justiça federal), com o apoio do Sindicato dos Bancários e do Sintraturb (motoristas e cobradores do transporte público), um pequeno grupo celebrou, na Esquina Democrática, o Dia do Saci Pererê, moleque protetor das matas desse imenso Brasil.

Num dia de vento sul, típico de sacis, o centro da cidade, por algum motivo mágico, estava cheio de crianças. Arrastadas pelas mães que tinham pressa, elas batiam pé e insistiam em parar para ver e brincar com o Saci. Profundo encantamento com as histórias do molequinho, deliciosa alegria com o chapeuzinho vermelho na cabeça. Um  menino em particular, encheu de emoção todo mundo. Abraçou-se ao Saci num abraço apertado, como se tivesse encontrado um velho amigo e, encantado, recusava-se a soltar o Saci, enchendo-o de carinho. Seu rostinho enfeitiçado era puro deleite. E essas são as coisas que tornam todos os percalços para um ato dessa natureza totalmente insignificantes.

Durante três horas, os manifestantes contaram histórias, distribuíram panfletos, cantaram, dançaram e fizeram estripulias, bem ao estilo do Saci, tornando a tarde uma alegria só. Como a Felipe Schmidt é uma rua de passagem, de compras, o povo por ali anda apressado, mas nesse 31 de outubro foram as crianças que deram o tom. Seguraram o passo e se deliciaram com o Saci. A brincadeira também contagiou a gente grande que, num primeiro momento, passava desconfiada, olhando de revés, mas, sem poder conter-se diante da alegria, voltava, pegava o panfleto e posava para uma foto com o Saci. "Vocês estão de parabéns. Isso é o que deveria ser feito nas escolas. Levar nossa cultura para as crianças conhecerem", disse uma professora aposentada que se deixou ficar no ato, cantando e brincando com o Saci.

E assim, na tarde emburradinha de vento sul, as gentes de Floripa que corriam apresadas e sérias, não tiveram outro jeito que escancarar o sorriso. Coisas de Saci.   

Veja o vídeo 


quinta-feira, 18 de outubro de 2012

sábado, 8 de setembro de 2012

Via Campesina na Palestina - um olhar desde dentro

É período de colheita das oliveiras, a árvore símbolo da resistência do povo palestino. 13 militantes da Via Campesina Brasil viajam à Cisjordânia. No caminho, esta Brigada internacionalista vive de perto as consequências da colonização israelense, na qual impera a repressão militar. Do outro lado, incorporam o significado da luta de resistência do povo palestino. Muito além das bombas propagandeadas por meios de comunicação pró-sionista, a principal arma utilizada pelos palestinos é inequívoca: existir.


Câmara, montagem e realização: Claudia Jardim e Benjamín Durand



Vía Palestina - Crónicas de una Brigada Internacionalista from Red ALBATV on Vimeo.

domingo, 19 de agosto de 2012

Uma volta anunciada



Os jornais estamparam na sexta-feira: acabou a greve dos técnico-administrativos das universidades. Eles repercutiam a reunião do Comando Nacional de Greve em Brasília, a qual decidira encaminhar a proposta de saída de greve aos sindicatos de suas bases. Até aí, tudo bem. O triste foi ver lideranças dos trabalhadores dando entrevista como se a “Inês” já estivesse morta. “Foi o possível no momento”, disse um colega chamado Ronaldo Ribeiro. Depois, em outra reportagem, o coordenador-geral da Fasubra (federação que congrega os sindicatos de todo o país), Gibran Jordão, repete o mantra: “A proposta ainda ficou inferior ao que estávamos reivindicando, mas foi o possível no momento”.


Ora, quando lideranças importantes da Federação começam a se manifestar dessa forma, antes de os sindicatos de base discutirem e deliberarem, significa que já estão influenciando as decisões. Isso pode até ser legítimo, mas não é ético. O certo seria que as lideranças se limitassem aos fatos: o CNG está indicando o fim da greve, mas são as bases que decidem. Há que esperar.


O CNG dos técnicos-administrativos fez a sua escolha. Numa conjuntura em que tudo apontava para uma negociação na qual os trabalhadores poderiam arrancar bons frutos, as lideranças da Federação, respaldadas pela maioria dos delegados do CNG, decidiram rebaixar a proposta e aceitar a migalha oferecida pelo governo. O governo federal está numa sinuca de bico. Ao mesmo tempo em que libera rios de dinheiro para as grandes empreiteiras e para o pagamento dos juros da dívida – essa chupando mais de 60% do orçamento – enfrenta mais de 30 categorias de trabalhadores públicos dizendo que não há dinheiro para melhorar os salários. A greve no serviço público cresceu, foi tomando corpo e já se configura uma imensa parede de resistência.


É fato que não há uma unificação orgânica das lutas, mas essa união acaba acontecendo na prática, porque cada uma – a seu modo e com suas especificidades – vai pressionando e exigindo do governo algo mais do que sequer a reposição das perdas. Isso fortalece cada categoria e enfraquece o governo. Também há que considerar que o governo petista enfrenta toda a carga do julgamento do “mensalão” em plena época eleitoral, o que faz com que os milhares de candidatos em todo o país se comprometam com as lutas das ruas, visando votos. Tudo isso pesa contra o governo e ajuda a luta dos trabalhadores.


Assim que esse era um momento em que a correlação de forças estava a favor dos trabalhadores e não contra. Havia fôlego para empurrar mais, exigir mais, esticar a corda. Mas não. As várias correntes que compõe a Fasubra, e que de alguma forma apoiam o governo do PT, decidiram dar uma força e topar uma negociação rebaixada. Há os contrários, é claro, mas são minoria. O governo acenou com 15% divididos em três anos, a começar em 2013. Isso sequer repõe as perdas do ano. O CNG decidiu então apresentar uma contraproposta rebaixada, retirando pontos de pauta e incluindo alguns que significariam pouco impacto na folha. Até o histórico step de 5% foi deixado de lado. Rifou-se o reposicionamento dos aposentados, os trabalhadores que estão fora da racionalização dos cargos, os extintos, a luta contra a privatização dos HUs.Fortaleceu-se a proposta da qualificação individual. Os que conseguem fazer mestrado e doutorado terão maiores ganhos. Ou seja, as vantagens são maiores para os mais qualificados. Os mais frágeis seguem frágeis. Nada de novo num mundo onde a solidariedade é só uma palavra.


A proposta do governo Dilma segue a lógica definida ainda no governo Lula, a separação cada vez maior entre os trabalhadores mais qualificados e os menos qualificados. Divisão. Foco na excelência. Lição de poder tão antiga quanto o mundo.


Agora, com a decisão do CNG os sindicatos de base vão realizar assembleias na semana que entra para decidir se acatam ou não a proposta governista. Óbvio que uma grande parte da categoria já está contaminada pela fala das lideranças, pela peremptória realidade colocada pela mídia: acabou a greve! Muitas serão as defesas inflamadas de que essa foi uma luta vitoriosa, que os trabalhadores conseguiram arrancar um bom acordo. Que isso era tudo o que se podia conseguir. “Foi o possível” dirão outros líderes, emocionados. E muita gente boa, trabalhadores dedicados que se entregaram na luta por três meses inteiros se sensibilizarão. E a maioria fatalmente acatará a decisão acreditando piamente que “isso era o possível”, porque essa é a correlação de forças hoje dentro da federação.


Arrisco dizer que lutar pelo “possível” é pouco demais. Imagino Che, Fidel e os outros gatos pingados que aportaram em Cuba no velho barco Gramnna, dizendo um ao outro que haviam feito o possível. Não haveria revolução, não haveria Cuba. Imagino Prestes abandonando sua coluna a dizer aos seus: Fizemos o possível. Ou Lenin, segurando os bolcheviques, a dizer que já haviam feito o possível. Não, esses camaradas foram além do possível. Observaram a realidade e se contrapuseram a ela, captando com inteligência todas as brechas. Porque eram seres de depois de amanhã. Sabiam que tinham de ultrapassar o possível. E eles estavam colocados diante da possibilidade da morte. Nossas perdas seriam bem menores.


Nós, nas universidades, hoje, temos esses líderes. Os que vão só até o possível, e um possível que eles mesmos definem. É nossa realidade atual. Já foi diferente e pode voltar a ser. Mas, para isso, haveremos de renovar as trincheiras, inflá-las com novas almas e novas mentes. Uma longa e cansativa jornada precisa começar. Vamos em frente! O processo da emancipação dos trabalhadores é árduo e demorado. Não há que esmorecer. Podemos perder uma batalha, duas, cem... Mas haveremos de seguir caminhando no rumo do meio dia. Sempre há a possibilidade de uma rebeldia. Quem pode saber?...

domingo, 12 de agosto de 2012

O interminável massacre do povo indígena


Até quando veremos, impávidos, o extermínio, sem fazer nada?

Quando os portugueses chegaram à costa brasileira nada mais queriam do que ouro e riquezas, da mesma forma que os espanhóis na região central de Abya Yala. Dar de cara com outros povos, outra língua e outra maneira de organizar a vida não causou problema. Eles tinham o poder das armas. E, assim, pela força dos arcabuzes, impuseram um deus, escravizaram, dizimaram, destruíram. A invasão de Pindorama nunca foi um “encontro de culturas”. Foi genocídio. Naqueles dias, milhões de pessoas foram mortas por conta da ganância dos estrangeiros. “Não têm alma”, diziam os piedosos padres. Os que resistiram se embrenharam nas matas, fugiram do litoral e conseguiram ficar à margem do extermínio por algum tempo. Mas foi um curto período. Com a colonização, os portugueses abriram caminho para o interior e nesse movimento tampouco pouparam pólvora. Os indígenas eram apagados do mapa. Depois, com a chegada dos imigrantes, novamente os indígenas passaram por violentas levas de extermínio.

O tempo passou e as comunidades indígenas que sobreviveram foram travando suas lutas. Houve páginas memoráveis de resistência. Na região norte, de mais difícil penetração, muitos grupos conseguiram seguir com suas vidas. Mas, no início do século XX, com a nova política de ocupação nacional, os indígenas voltaram a ser contatados, dessa vez com menos violência física, mas com a mesma intenção de negação da sua cultura e do seu modo de vida. A proposta era a de integrá-los à vida nacional, considerada “a civilização”. Apesar das boas intenções de figuras como o Marechal Rondon, a decisão de integração era unilateral. Ninguém perguntara aos indígenas se era esse o seu desejo. Era uma política de estado e estava baseada na ideia de que o modo originário de vida não era bom.

Na verdade, essa proposta de integração forçada também se configurava uma violência contra as comunidades. E, os que não aceitaram “se integrar” ao “mundo civilizado” tiveram de se manter em “reservas”, lugares previamente demarcados para sua “proteção”. Assim, aqueles que eram os donos legítimos dessas terras passaram a viver de favor, confinados e dependentes do governo em praticamente tudo, inclusive a comida. Não bastasse serem tutelados, os indígenas acabaram na linha de fogo de uma batalha contra aqueles que haviam se apropriado das terras: fazendeiros, grileiros, latifundiários. Não foram poucos os conflitos que se seguiram quando o Brasil decidiu ampliar sua fronteira agrícola. As comunidades que estavam em áreas férteis logo passavam a ser acossadas. Na região amazônica, as riquezas em madeira e biodiversidade tornaram a área extremamente cobiçada e também nas profundezas da selva os indígenas tiveram de enfrentar os mesmos inimigos de sempre: missionários, grileiros, ONGs, os “bem-intencionados”.

Todas essas lutas sempre se deram num contexto desigual. Primeiro, os indígenas eram os selvagens que precisavam ser civilizados, depois eram os preguiçosos que não queriam saber de trabalhar no mundo novo que tão bondosamente tinha sido dado a eles. De um jeito ou de outro eram apresentados à nação como seres inúteis, passíveis apenas de se manterem como “coisa exótica”. Quando essas comunidades começaram a lutar, outra vez, pelos seus territórios, toda essa carga de preconceito voltou à tona. E os índios passaram a ser apontados como aqueles que impediam o progresso do país. Garantir grandes extensões de terra a essa gente era vista como um absurdo, afinal, eles não trabalhavam. Tal e qual os portugueses de 1500, as gentes do poder seguiam olhando para os indígenas como seres de segunda categoria, incapazes, atrapalhos, coisa para ser aniquilada.

Ainda assim as lutas prosseguiram. Na Constituição de 1988 as comunidades indígenas lograram conquistar direitos. Seguiam ainda tuteladas, mas consolidavam um espaço de disputa no qual já era impossível negar a importância dessas gestes, de sua cultura e seu modo de vida, tão absolutamente outro, diferente do proposto pelo modo de produção capitalista hegemônico no mundo ocidental.

As lutas do presente

Quando o século XXI alvoreceu, em todo o planeta assomava um movimento gigantesco de recuperação da memória das culturas que foram oprimidas pelo colonialismo europeu do período chamado de “modernidade”. Nos anos 90, ainda no século XX, comunidades do Equador invadiram o centro da capital Quito, ocuparam igrejas e decidiram que tomariam a sua vida nas mãos. Em 1994 os índios chiapanecos, do México, também se insurgiram, em armas, tomaram cidades e decidiram que nunca mais o mundo viveria sem tomar em conta as suas demandas. Depois, foi um espocar de lutas e rebeliões por toda a faixa andina, na América do Sul, e nos cantões da América Central, no Caribe, na América do Norte (Estados Unidos e Canadá). O Brasil não ficou de fora. As comunidades, caladas por 500 anos, assomavam com suas palavras, seu mitos, sua cosmovisão. Queriam gerir suas vidas e proteger seu território, sistematicamente consumido pela voraz ambição do capital. Para esses povos a terra não é objeto de especulação, é espaço sagrado. Terra é mãe da vida, água é morada dos deuses, bichos são parte de um equilibrado sistema de sobrevivência. Essas coisas não tem preço, têm valor.

Para os homens do poder, esse movimento indígena é coisa que precisa ser freada. Não aceitam entregar a eles o domínio sobre suas terras, até porque muitas delas estão repletas de riquezas. Seus argumentos são singelos: os índios não sabem proteger seus territórios, vendem madeira por cachaça, não conhecem os instrumentos do progresso. Ou seja, não teriam condições de gerir com sapiência, as terras que lhe são confiadas. Assim, nada melhor do que eles, os capitalistas, para dirigir e controlar os territórios. Eles são trabalhadores, empreendedores, podem trazer o progresso, como é o caso das barragens que se constroem na Amazônia. Isso é cuidar, isso é proteger, isso é dar função social para a terra. E não essa ideia indígena de deixar a terra sem uso, que segundo eles, é anti-progresso. E assim vai se fazendo a queda de braço, tão desigual. Basta uma espiada na obra de Belo Monte para se ver os estragos causados à mata, à biodiversidade, às famílias ribeirinhas. Os índios resistem e são sufocados por armas e preconceito. E, na derrota dos indígenas vem a miséria de todos os que por ali vivem, porque o “progresso” dos capitalistas significa progresso apenas para alguns.

Não bastasse toda a história de extermínio, preconceito e opressão, agora a Advocacia Geral da União, órgão do governo, decidiu baixar uma portaria que estende para todas as terras indígenas no país, as condicionantes decididas pelo Supremo Tribunal Federal (STF) na Ação Judicial contra a Terra Indígena Raposa Serra do Sol (Petição 3.888-Roraima/STF). E o que isso significa? Mais um golpe na vida dos 800 mil índios que ainda resistem nesse país.

O Brasil na contramão

Concretamente, as tais condicionantes permitem que as terras indígenas possam ser ocupadas por unidades, postos e demais intervenções militares, malhas viárias, empreendimentos hidrelétricos e minerais de cunho estratégico, sem que os indígenas sejam consultados sobre isso, coisa que contraria frontalmente a Constituição e também a Convenção 169, da Organização Internacional do Trabalho (OIT). Da mesma forma permite que haja uma revisão das demarcações em curso ou já efetuadas que não estejam dentro dessas regras, mais uma vez violando a autonomia dos povos sobre os seus territórios. Com isso, o governo tira das comunidades a possibilidade de elas mesmas decidirem sobre as riquezas naturais que existem em suas terras. Ou seja, entrega aos capitalistas o direito de explorar.

Outra forma de pressionar as comunidades indígenas é a transferência, para o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBIO), do controle das terras indígenas, sobre as quais, de maneira indevida e ilegal foram sobrepostas Unidades de Conservação. Ou seja, de maneira perversa buscam colocar os indígenas no papel de destruidores, poluidores e invasores de áreas ambientais.

A portaria 303, da AGU, é a forma moderna de dominação dos mesmos velhos opressores. Se antes eram os arcabuzes, agora é a lei. E o que é mais espantoso, uma lei que viola a Carta Magna. Ora, a decisão do STF só tem validade para a área da Raposa Terra do Sol, e já foi uma grande derrota dos povos indígenas. Por isso mesmo que a luta contra essa decisão específica não acabou. Os indígenas que ali vivem seguem questionando, em luta e na justiça, essa decisão. Ainda existem embargos não julgados. Como então a AGU pode editar uma portaria estendendo as condicionantes ainda não definitivas para as demais áreas? E quem disse que a AGU tem poderes para isso? Só o Congresso Nacional pode legislar sobre terras indígenas. A resposta só pode estar na pressão que vem sendo feita pelos latifundiários e empresários que querem ocupar e explorar as terras ricas em poder dos índios.

O mundo moderno é um mundo em luta pela energia. Esgota-se o petróleo e todo o modo de produção capitalista - que é destruidor na sua essência – está em colapso. Por conta disso, aqueles que detiveram o controle sobre a água e sobre a biodiversidade serão, sem dúvida, os que dominarão o mundo. Não é sem razão que grandes extensões de terras vêm sendo compradas por investidores internacionais em regiões como o Pantanal, a Amazônia, o Aquifero Guarani, justamente onde estão os indígenas “atrapalhando” o processo de dominação dos recursos e das riquezas. O governo brasileiro, seguindo a mesma mentalidade entreguista da maioria dos seus antecessores, se dispõe a conceder direitos aos ditos “empreendedores”, mais uma vez condenado os indígenas ao extermínio, e o povo em geral à dependência.

A se concretizarem os pressupostos da Portaria 303, qualquer terra já demarcada pode ser revista e tirada das comunidades, basta que dentro delas haja algo que seja do interesse dessa gente sempre pronta a sugar as riquezas do país. E, esse tipo de coisa só acirra ainda mais os conflitos existentes, nos quais as comunidades indígenas seguem em franca desvantagem, entregando todos os dias, os seus mortos. Como combater jagunços fortemente armados? Como se defender de milícias de mercenários bem treinados, franco-atiradores, assassinos de aluguel? É a história se repetindo.

Só a união de todos garante a vida

Para a sociedade, o governo faz propaganda e usa dos meios de comunicação mentindo descaradamente sobre diálogo e promoção de direitos indígenas. Mas, na prática, a política segue sendo a do extermínio e do massacre das culturas autóctones. Na contramão de tudo o que acontece na América Latina, aonde os povos originários vão conquistando cada dia mais direitos, o governo brasileiro caminha para o retrocesso, aliado ao agronegócio e aos interesses internacionais, jogando o povo inteiro nas malhas da eterna dependência.

É preciso que as gentes brasileiras conheçam o que está por trás das letras pequenas das leis. Que os sindicatos informem os trabalhadores, que se faça uma aliança entre os trabalhadores da cidade, do campo e as comunidades indígenas. Esses 800 mil índios que ainda resistem ao massacre iniciado em 1500 são a nossa herança histórica, a célula mãe da nossa cultura, legado imortal, parte constitutiva da nossa essência como povo. Defender o seu direito de viver nas terras originalmente ocupadas, de preservarem seu modo de vida, seus deuses, sua cosmovisão, de gerirem suas riquezas dentro dos princípios que lhes são únicos, como o equilíbrio ambiental e a reciprocidade, é garantir a possibilidade da construção de outra sociedade, justa e soberana.

Não é possível que as gentes brasileiras permitam que se entreguem as nossas riquezas aos poderosos de plantão, aos estrangeiros, aos ditos “arautos do progresso” que, na verdade, nada mais são do que os destruidores da vida. As comunidades indígenas nos mostram que há outras formas de vida, outro “progresso”, outro modelo de desenvolvimento. Negar isso é compactuar com um crime, é agir como agiram os invasores, os assassinos, é defender o massacre.

Já basta de sangue indígena em nossas mãos. Todo o repúdio a portaria 303.

domingo, 5 de agosto de 2012

Paulo Wrigth, estrada de liberdade


Sim, tenho esse privilégio. Assim como o guri do “sexto sentido”, eu também vejo gente morta. Mas é porque, como dizem os sandinistas, hay muertos que nunca mueren. E, esses, nada, nem ninguém, conseguem enterrar. Penso que são assim os que caíram nos tristes anos de ditadura militar. Os vejo por aí, nas ruas, cabelos ao vento, voz retumbante, como nos dias em que andavam a lutar por tempos de claridade. Por mais que uns e outros tentem varrer para debaixo do tapete as lembranças e as memórias dos anos de chumbo, elas assomam, impávidas, porque é preciso lembrar, sempre.

Dia desses vi o Paulo, nas ruas do centro. É, o guri de Joaçaba, filho de missionários, cristão rebelde, incapaz de calar diante da dor do outro. Paulo, que trabalhou na construção civil, na fábrica, que viu seu primeiro filho morrer por falta de assistência médica, que estudou, que fundou sindicatos e cooperativas, e se fez deputado estadual nesse estado de Santa Catarina. O Paulo, que ajudou a fundar a federação dos pescadores para que os homens do mar pudessem ter o controle do trabalho que faziam. O Paulo, que foi cassado no regime militar porque tinha a boca grande, não usava gravata e era apontado como “comunista”. O Paulo que amargou a clandestinidade em luta pela liberdade e pelo ideal cristão de amor ao próximo e ao distante. O Paulo, aquele homem bonito de olhos penetrantes e topetinho rebelde, assassinado em algum porão porque decidira lutar contra a violência de um regime de exceção.

Ao reconhecê-lo, sorri, e ele me devolveu o riso. Caminhamos num silêncio cúmplice, lado a lado, até a praça, onde sentamos sob a figueira. “Soubesse da última?”, perguntei. E ele jogou a cabeça para trás numa risada gostosa. “Então, fui cassado outra vez!”. É, um deputado desses dias, Gilmar Knaesel, tentando apagar outra vez a memória do Paulo. Já não bastaram tantos anos de silêncio, de olhares furtivos e murmúrios de “terrorista, terrorista”. Não! Era pouco. Havia que desaparece-lo outra vez. Como se fosse possível.

Paulo Stuart Wrigth sumiu nos primeiros dias de setembro de 1973, sequestrado de um trem pelo II Exército e levado para o malfadado DOI-CODI de São Paulo onde provavelmente foi assassinado e desaparecido. Dele, os colegas de cárcere só viram a blusa, caída no chão. Nunca mais se ouviu seu riso ou sua voz trovejante contra as injustiças do mundo. E desde aquela primavera a família busca seu corpo. Foram anos de lágrimas, de silêncios e de dor. Pouco a pouco, com o fim da ditadura, as histórias dos porões afloraram e os desaparecidos voltaram a gritar. Não havia corpo, mas havia memória. E elas vieram em borbotões. Nos livros, nos filmes, na televisão.

Com a história revisitada, aqueles que eram apontados como terroristas passaram a ser vistos como pessoas que tiveram a coragem de ser quem eram: jovens cheios de amor pela vida, pela liberdade, pela verdade, pela justiça. Gente que ousou enfrentar as armas do estado ilegítimo para que cada um pudesse ter o direito de dizer a sua palavra e clamar pelo mundo que acreditava melhor. Gente que foi torturada, que foi assassinada e escondida, para que suas ideias não voassem. Mas, voaram...

E foi assim que Paulo Stuart Wrigth voltou à vida. E aqueles que o acusavam de terrorista tiveram de olhar a verdade. Não o era. Era um jovem cristão, cheio de indignação: "...Diante de tanta injustiça e miséria que vemos no mundo e da opressão generalizada aos necessitados, proclamar-se inocente é inconcebível para quem buscar servir a Cristo. Querer ser inocente é aceitar as regras da injustiça, é aceitar passivamente a opressão, é não ter feito nada pelos que sofrem. Creio que é impossível ser cristão e não ser subversivo da ordem vigente, de ser fiel a quem trata de derrubar toda a autoridade, como nos fala São Paulo”, era o que dizia a sua esposa Edi, numa carta escrita em 1970.

Em Santa Catarina, há bem pouco tempo Paulo virou nome de estrada. Uma estrada pequena, perdida entre a BR 101 e a cidade de Penha, mas que, assim como ele, seria importante caminho de ligação das gentes do lugar. Talvez por isso – por ser caminho - ainda tenha quem queira escondê-lo, tirá-lo de cena. E, assim, criou-se um projeto de lei trocando o nome da estrada, de Paulo Wrigth para Francisco Fleith, ex-prefeito do lugar. Alguns disseram: “bobagem, deixa isso pra lá. Paulo nem haveria de querer ser nome de estrada”. Mas a questão não é essa! O que está em jogo é a memória. Por todos os lugares se perpetuam os nomes dos opressores, dos vendilhões, dos poderosos. Precisamos ocupar esses espaços de memória com a lembrança dos nossos.

E foi essa a conversa que tivemos Paulo e eu, naquela tarde, na Praça. “Tu tens razão, gosto de saber que alguém vai dizer: venha pela Paulo Wrigth e dobre à esquerda. Ali está o jardim”, ele disse. “Venha pela Paulo Wrigth”, repetiu, baixinho. “Pois, não é? Tu não tens corpo, mas és um caminho!”. Ele assentiu, satisfeito. “E como vai ser?” – Preocupa não, tá assim de gente fazendo abaixo assinado, falando, exigindo que o projeto seja vetado pelo governador. Ele sorriu e se preparou para andar... Devagarinho, se foi, o cabelo desalinhado pelo vento sul. E eu fiquei, sentindo a brisa, certa de que não há morte enquanto exista alguém se lembre. “Nós te lembraremos, Paulo”.

Os desaparecidos da ditadura, os meninos assassinados nas favelas, os arautos do tempo novo, essa legião de companheiros são as veredas por onde passamos nós, os que ainda sonham com um mundo melhor. Eles sempre serão caminhos e ninguém vai conseguir mudar isso...

“Creio que a fé cristã não se identifica com nenhum sistema particular. Ao mesmo tempo o homem pode ser socialista e os fatos dizem que muitos cristãos o são. Entendo que nós, como cristãos, temos a obrigação de reagir precisamente na hora que nos toca viver. No mundo de hoje se vislumbra uma coincidência entre as aspirações dos cristãos e dos socialistas quanto à vida humana, isto é, justiça e bem estar do homem”. (Paulo Wrigth).

 

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Me llaman calle

Mais uma maravilha do Mano Chao. Sensível, poética, dura, bela.


terça-feira, 24 de julho de 2012

A greve nas universidades vai continuar



Já se vai mais de um mês da greve dos trabalhadores técnico-administrativos das universidades, mas, no geral, essa parece ser uma greve invisível, porque, na mídia, quando os jornalistas falam em greve nas universidades, se referem no mais das vezes aos professores. Isso, em verdade, não se configura novidade, pois, desde sempre, a hierarquia nas universidades tende a colocar o trabalho dos técnicos sempre em segundo plano, como se esse contingente de pessoas atuasse apenas numa atividade meio, não fazendo muita diferença no resultado do trabalho educativo.  

Há um filme de produção estadunidense que mostra explicitamente como é usual esta relação complicada entre os técnicos e os professores. É o “Quase deuses”, que conta a história da inusitada parceria entre um faxineiro da Universidade Johns Hopkins e um médico professor/pesquisador, que busca descobrir novas técnicas para a cirurgia do coração. O faxineiro Thomas, um homem simples e negro, é exímio inventor de ferramentas que começa a operar corações junto com o professor, conseguindo criar novas técnicas cirúrgicas e ferramentas que fazem a pesquisa avançar e tornam o professor famoso. Há uma cena paradigmática na qual o fotógrafo/jornalista chama todos os dirigentes da universidade para posar para a foto da matéria que anunciará as novidades científicas descobertas ali. O pesquisador vai, todo vaidoso, e vê, ao longe, o faxineiro, que na verdade é o real inventor da técnica. Ele se cala, segue para a foto e não o chama, não anuncia a sua façanha, não o inclui na vitória que, de fato, é do trabalhador. 

Esta atitude do professor não é isolada num mundo em que as relações de trabalho impostas pelo sistema de produção de mercadorias, como é o capitalista, são vistas de forma separada. Desde Immanuel Kant que o mundo moderno inaugura a separação radical entre o que seja trabalho manual e trabalho intelectual. E essa visão kantiana é a que domina na sociedade capitalista, o que faz com que na divisão de trabalho do mundo universitário apareça como absolutamente natural que um técnico seja considerado inferior ao docente. No contexto ali desenhado, apenas o docente estaria realmente vinculado à atividade fim proposta pela universidade.

A relação trabalho manual x trabalho intelectual

Pois é justamente essa verdade moderna que o economista Alfred Sohn Rethel procura desconstruir ao apresentar uma teoria materialista do conhecimento em contraposição à visão kantiana. Segundo ele, Marx já havia anunciado que na fase mais elevada da sociedade comunista haveria de desaparecer a subordinação servil dos indivíduos a divisão do trabalho e, com ela, a antítese entre o trabalho intelectual e o trabalho manual. Esta antítese, insiste Marx, existe em todas as sociedades baseadas na divisão de classes e na exploração econômica, sendo, inclusive, um dos ingredientes do fenômeno da alienação no qual se baseia a exploração. Daí não ser nenhuma novidade que esta tensão se explicite na universidade, também um espaço de poder, de divisão do trabalho e de exploração.

Mas, Sohn Rethel também observa que na sociedade capitalista os considerados “trabalhadores intelectuais” não são os máximos beneficiários do sistema e sim os servos do domínio,  logo, não deveriam vangloriar-se disso. Para o pensador francês a superação do capitalismo é elemento fundamental para a mudança destas relações, que pode libertar tantos uns como outros. Kant dizia que a divisão entre mãos e mente é uma necessidade transcendental, já Sohn Rethel afirma que ela é apenas fruto da sociedade produtora de mercadoria. Assim, os antagonismos de classe que engendra a produção de mercadorias na sociedade burguesa – e a produção de conhecimento está entre elas – está intimamente ligada as formas de divisão entre mente e mão.

Sohn Rethel discute o tema do ponto de vista formal, assim como Kant, mas numa outra perspectiva. Ele mostra como num ato cotidiano de compra e venda de uma mercadoria existe um momento x em que tanto quem compra como quem vende está envolvido em uma abstração (um ato intelectual). É o momento em que se efetua o intercâmbio propriamente dito, este espaço de tempo em que alguém busca algo para seu uso e outro estabelece um valor de troca, fazendo-se assim a transação. Assim, a abstração não é uma coisa exclusiva da mente – como queria Kant – mas aparece no dia a dia da vida real, tem origem nos atos concretos. Sohn Rethel insiste que assim como os conceitos de ciência natural são abstrações-pensamentos, o conceito econômico do valor é uma abstração real. É certo que ele existe só no pensamento, mas não brota dele. Sua natureza é social. Não são os homens que produzem estas abstrações e sim as suas ações, o que fecha com o conceito de que é o ser social que determina a consciência.

Assim, se para Kant estava certo que existia uma separação radical entre mente e mão, e Hegel conferia ao Espírito a primazia e o domínio sobre o manual, Marx desorganiza tudo isso relacionando com o tempo, compreendendo que isso muda na história. Logo, não há como determinar antecipadamente as formas do manual e do intelectual. Por isso que a sociedade sem classes proposta por Marx só pode existir se houver uma unidade concreta entre o trabalho manual e o intelectual, sem a primazia de um sobre o outro, que é o que, em última instância provoca toda essa lógica de dominação tão bem engendrada dentro da universidade, assim como em qualquer outro setor do mundo capitalista.

Assim, aceitando-se as teses de Sohn Rethel e de Karl Marx, todo esse processo de dominação, servidão, opressão e inferiorização do outro que é o caldo cultural vivido na universidade só poderá ser superado quando os trabalhadores compreenderem a ideologia que está embutida na divisão do trabalho e a superarem. Para isso, os técnicos-adminsitrativos, que hoje são os que estão submetidos a essa opressão, devem enfrentar o debate intelectual com mais preparo, compreendendo que para mudar esse estado de coisas há que mudar também a forma de organizar a vida. Não só na universidade, mas na sociedade. Isso é um pouco o que se faz na greve, mas, no cotidiano da vida, quando tudo volta ao normal, isso volta a se perder.

A luta de sempre

O certo é que tanto os técnicos – desde aquele que abre a porta para o aluno entrar até o pós-doutor que dirige pesquisa – como os professores constroem o saber dentro da universidade. Muitas vezes, não tanto como deveria, mas o fazem juntos, seja nos erros como nos acertos. Daí que falar em greve na universidade é perceber essas duas pernas da estrutura. 

O governo federal, da forma como age em relação aos movimentos, só faz fortalecer a ideia de divisão e inferioridade. Apesar de manter uma atitude dura na negociação com os trabalhadores, tem recebido os professores e até já apresentou uma proposta – ruim, é verdade. Mas, para os técnicos, o que há é o silêncio. Para manter a aura de “companheiros” alguns dirigentes chamam a Fasubra (Federação dos Sindicatos das Universidades Brasileiras) para conversar. Mas é só conversa mesmo. Nada de negociação. Quem manda é o Planejamento e a ministra já falou no bom som do colonialismo mental: “Não podemos ir à contramão da Europa que hoje está cortando salários”. Ou seja, completamente perdida da realidade mundial, ela apenas quer copiar a Europa, sem se importar se a conjuntura de lá é muito diferente daqui. Nos países centrais a crise está rugindo. Aqui ela ainda não chegou com força. O Brasil está em ascendência econômica, crescendo cada dia mais. Dinheiro não é coisa que falta. No orçamento brasileiro, segundo dados do próprio governo, 54,9% está sendo direcionado para pagamento e amortização da dívida pública, enquanto que para o pagamento de trabalhadores públicos são utilizados parcos 9,85%. Ora, os números são luminosos. Toda a prioridade para banqueiros. Ao povo, as batatas.  

Na última semana os trabalhadores públicos foram à Brasília e fizeram um acampamento. Muita mobilização, barulho e incomodação para o governo. Até o Ministério do Planejamento foi ocupado, causando tensão. Mas, ainda não foi o suficiente para fazer cócegas na ministra europeizada. Talvez ela esteja esperando para ver quais as próximas ações da primeira ministra de ferro da Alemanha, para então decidir como copiá-la. 

Enquanto isso, o semestre letivo que deveria iniciar agora no fim de julho já começa a ter problemas. Não há como fazer matrícula, tudo está parado. Esta tem sido uma mobilização muito significativa de professores e técnicos. Mas, ao que parece o governo federal está se lixando para a educação dos jovens brasileiros. Qualidade, criação intelectual, pensamento crítico, é coisa que só atrapalha governos tíbios, daí que quanto menos gente capaz de pensar, melhor. Não é sem razão que as greves nas universidades se arrastam por meses. Não é como uma greve nos transportes que em dois ou três dias se resolve. A educação não é produtiva.  

O governo é pródigo em divulgar números utilizados para pagamento de trabalhadores, falam em alguns bilhões (de 6 a 9) e mostram tabelas que aos olhos das gentes que assistem à televisão soam como absurdas. “Dinheiro demais para os servidores públicos”. Mas a mesma mídia e o mesmo governo não mostram os números e as tabelas dos valores que enviam para os bancos, mais de 500 bilhões todo o ano. 

E assim vão os trabalhadores na árdua luta contra o capital. Pois o patrão estatal é apenas formal. O embate que se trava numa greve da educação, é o velho embate contra o capital, pois é com ele que se disputam as verbas. Enquanto o governo continuar optando por servir ao “diabo” (a dívida), o atendimento ao povo através dos serviços públicos continuará ruim e isso não pode ser imputado a uma massa de trabalhadores que desde os terríveis anos de FHC vem amargando arrocho salarial e falta de perspectivas na carreira. Cada vez mais os governos, desde FHC, Lula e agora Dilma, vêm atuando na lógica de definir algumas carreiras estratégicas no serviço público e essas não tem a ver com educação, saúde, previdência ou outras que digam respeito imediato à população. Não. As carreiras estratégicas são as do judiciário e da receita federal, espaços estratégicos de recolhimento de dinheiro e de respaldo jurídico. 

E é por causa disso que a luta deve continuar! 

quinta-feira, 5 de julho de 2012

Fortalece a greve na UFSC




O movimento de greve na UFSC está diferente e isso se pode notar com uma simples espiada nas assembleias. Os novos trabalhadores, contratados nos últimos anos, aparecem em grandes grupos. Muitos deles foram militantes do movimento estudantil e isso só fortalece a luta. Outros, nunca colocados diante das lutas trabalhistas, percebem que só com a batalha firme podem chegar a garantir direitos. O cenário mudou.

Isso pode ser percebido na última assembleia quando um grupo de trabalhadores propôs o vale-almoço, argumentando que as pessoas ficam aqui o dia inteiro e precisam de um incentivo para permanecer no campus. Foram os trabalhadores mais jovens que se levantaram contra a proposta. Pagar para lutar? Financeirizar a greve? A discussão pegou fogo na assembleia e estabeleceu um divisor de águas. A proposta passou, mas o movimento fortaleceu com os trabalhadores mais novos definindo melhor seu campo de luta. Também é desse sangue novo que nascem as propostas de atividades da greve, coisa que já andava esquecida. Tem cine-pipoca, tem debate sobre carreira, as 30 horas, discussão sobre os espaços de decisão na UFSC. E em todos esses fóruns se percebe a presença maciça da juventude.

Na manhã de quinta-feira a universidade amanheceu fechada. Desde a madrugada o grupo do ato-surpresa fechou todas as entradas do campus e quando o sol apareceu – e com ele os seres-carro – a confusão começou. O entorno da UFSC é um caos cotidiano de trânsito porque boa parte dos professores, alunos e técnicos vêm de carro. E, com o trancamento das rótulas e passagens, não havia onde estacionar. Desde as sete horas os engarrafamentos aumentavam.

Com a ação do movimento também não foram poucos os conflitos. Pessoas há que precisam estacionar os carros na porta do local de trabalho, andar alguns passos, nem pensar... Sobram gritos, xingamentos, ameaças. Tudo como sempre foi. Os trabalhadores resistem com cantos, danças e café quentinho. A polícia chega, fica um pouco, observa, mas não intervêm. O dia promete ser longo.

Os trabalhadores da UFSC, novos e velhos, prometem manter a greve com muito gás, o que já é uma coisa boa demais. Quando tem atividade, debate, ação, as pessoas se sentem mais comprometidas e comparecem. A greve tem como pauta a arrumação do Plano de Cargos e Salários e a luta contra a Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares. É a velha luta do trabalho contra o capital. E, por esses dias, com muito mais beleza por conta da renovação dos trabalhadores. A universidade viveu quase 15 anos sem que entrassem novos trabalhadores para o quadro. Agora, a UFSC vive uma primavera. É coisa muito linda de ver.

terça-feira, 26 de junho de 2012

O peão é sempre o culpado


O capitalismo dependente é o “uó do borogodó”. As empresas se dizem “modernas”, cheias de tecnologia, adeptas do livre mercado. Alardeiam a baboseira do sistema capitalista que vende a promessa de vida boa, mas só para poucos. Para a maioria é a superexploração do trabalho, o medo, a pobreza. E, no geral, a tal da “modernidade” das empresas só se faz por conta da desgraça dos que vendem sua força de trabalho para elas.

Dia desses vinha de Porto Alegre. Ônibus normal, nos quais vai a gente sem posses, o famoso convencional. Já é um pé no saco, porque para em tudo que é luzinha. Tudo bem. Lá vínhamos para Florianópolis. Eram três e meia da manhã. O pneu estourou. Até aí, tudo bem, acidentes acontecem. O motorista desce para trocar o dito cujo. Rec-rec-rec-rec. Só barulho e nada. Passam-se os minutos. Os passageiros se inquietam. É noite fechada, cai uma geada fria, tudo deserto. Depois de uns 40 minutos eu mesma não resisto e desço. É tempo demais para um pneu furado.

Lá, na noite escura, está o pobre motorista deitado sob o ônibus tentando fazer funcionar o macaco. Não funciona. Todo mundo a dar palpite e o guri suando. Rec-rec-rec-rec, nada do macaco subir. Os passageiros fazem sinal para os caminhões, os ônibus, ninguém para. Dois da Santo Anjo finalmente param e oferecem o macaco, mas o deles também é incapaz de levantar o ônibus. O fato é que os três veículos ali parados não tinham as condições adequadas para enfrentar uma simples troca de pneu.

O motorista, depois de ter tentado o que podia, inclusive arriscando a vida, decidiu ligar para empresa – Eucatur – e pedir um carro para levar os passageiros. Do lado dele ouvi o trabalhador, no outro lado da linha, dizer: “te vira aí, dá jeito, faz sinal para algum caminhão”. Os pobres motoristas são obrigados a seguir um tipo de protocolo em que fazem das tripas coração antes de propor a vinda de um novo carro. O rapaz estava bem nervoso. De um lado, pressionado pelos passageiros, de outro, sofrendo aquele terrorismo psicológico por parte de um companheiro que deveria zelar pelo seu bem estar e dos passageiros. O tal do Rodolfo, no outro lado da linha, preferiu seguir a regra patronal: sugar o trabalhador ao máximo antes de deslocar um ônibus.

A noite se estendia pelo arrabalde de Laguna, onde estávamos. O tempo passava e nada de o macaco subir. Não havia o que fazer. O motorista ligou outra vez e, de novo, era convidado a tentar mais. O rapaz, ainda jovem, era a própria imagem da culpa. Como se fosse responsabilidade dele o pneu ter furado e ele não ter força suficiente para levantar um ônibus cheio de gente. Pressionado, voltou a ligar dizendo que não havia mais o que fazer. “Então, aguardem que vamos mandar o ônibus”. E nisso tudo se passaram quatro horas. Quatro horas de espera no meio da noite.

Ao chegar fui fazer a reclamação na empresa. Nem bem entrei os funcionários me cercaram. “É sobre o atraso. Aqui o formulário”. Eu disse: “não é o atraso. Quero reclamar do terrorismo psicológico que foi feito contra um trabalhador”. Eles se entreolharam. Uma mulher saiu, acusando: “O Geraldo demorou a chamar ajuda”. Ou seja, o motorista já tinha sido julgado pelos colegas. Fora o culpado, exatamente como ele mesmo já se sentira lá na estrada. Aí alucinei e me parei a dar discurso. “Vocês são todos trabalhadores, iguais a ele. Deviam se proteger, se ajudar. Mas não, ficam aí a defender patrão. Ele cumpriu as regras impostas pela empresa. Fez o que pode e o que não pode. Que ninguém agora vá culpar o cara por isso. Era o que faltava”. E tudo isso aos gritos, enquanto as pessoas paravam para ver. Fui à agência que fiscaliza o transporte: nada podem fazer. Saí dali desolada e impotente.

E assim, seguimos. As empresas de transporte não se preocupam com a segurança de seus trabalhadores. Imaginem se vão cuidar da nossa. Estamos todos entregues ao azar.

segunda-feira, 25 de junho de 2012

Greve na UFSC



As duas primeiras semanas da greve dos técnico-administrativos da UFSC foram de crescimento das paralisações, afinal, sempre tem muita gente que fica esperando para ver como as coisas vão se comportar. Esse ano já foi possível verificar um bom fortalecimento da mobilização, uma vez que muita gente que estava em cargos da reitoria anterior agora aderiu à greve. Também se observa uma participação massiva dos novos trabalhadores, que entraram nos últimos concursos, uma gente mais jovem e cheia de gás, querendo entender o que acontece com a sua vida laboral. As assembleia são cheias, como há muito não se via.

Na segunda semana a reitoria colocou um bode na sala tentando garantir a abertura do Restaurante Universitário só com os trabalhadores terceirizados. A categoria reagiu e ocupou as instalações do RU. Também alguns grupos organizados de estudantes, ligados a grupos conservadores e de direita, com a parceria de outros estudantes isolados, entraram no RU intimidando os trabalhadores exigindo a abertura do restaurante. Foi um momento tenso, mas que acabou sendo contornado pelos grevistas. Uma vez que eles iam explicando as razões da greve, os estudantes que estavam na onda, compreenderam e saíram, enfraquecendo o grupo organizado.

Dias depois, a reitoria realizou nova reunião com o sindicato e os estudantes e se deparou com o DCE apoiando a luta dos trabalhadores. Teve de dar outra solução para sua promessa de garantir alimentação. Por outro lado, os trabalhadores decidiram dialogar com os estudantes realizando um sopão coletivo nessa segunda-feira. De qualquer forma, os fatos envolvendo os estudantes e o RU deram um gás no movimento, pois serviu para unificar ainda mais os trabalhadores.

Na semana que inicia, além do sopão conjunto, já está marcado um ato unificado com os demais trabalhadores federais públicos para quinta-feira. Amanhã, terça-feira, tem assembleia geral e os trabalhadores vão discutir o documento encaminhado pela Associação dos Trabalhadores de Nível Superior (ATENS) ao governo federal, buscando negociar isoladamente seus salários, desconhecendo a greve dos colegas. Tema que promete.

quinta-feira, 31 de maio de 2012

O povo da Núbia






Estando no Egito, conhecer o povo núbio era uma exigência ontológica. Desde pequena as imagens dos escravos negros guardando as divindades egípcias me enchiam de estupor e curiosidade. Eram sempre mais dignos e belos que os próprios faraós que guardavam. E as mulheres, de pele retinta, destacavam-se como deusas, cortejadas e desejadas pelos filhos de Amon-Rá. Os núbios, mais do que escravos, eram um povo que tinha cultura e língua próprias e além de entregarem seus corpos, também eram sangrados das riquezas de sua terra, como o ouro e o marfim. Mais tarde, já adulta, fui saber que também houve um tempo em que governaram o Egito, não mais escravos, mas faraós, deixando sua marca indelével na cultura daquele esplendoroso país. Assim, quando o pequeno barco que navegava pelo Nilo aportou em Assuã eu me preparei para um encontro desde há muito esperado. Não foi em vão.

Um pouco de história

Cinco mil anos antes da nossa era, quando nas terras de Abya Yala (América Latina) começaram a vicejar povos como os tiahuanaco, collas, mayas e mexicas, no vale do rio Nilo, norte da África, já se organizava – com centenas de anos de história - o povo núbio. Há relatos que contam que essa pode ser a mais antiga civilização negra da África, com origens pré-históricas. Durante o domínio do Egito faraônico a Núbia era a região que separava o Egito da África subsaariana. Seu território era pródigo em riquezas como ouro, pedras preciosas e diorito, e se estendia desde a primeira catarata do Nilo até Khartum (hoje no Sudão). Abrigava, então, o generoso e fértil vale do Nilo assim como o deserto até o Mar Vermelho pelo leste, e até a Líbia pelo oeste.

Durante milênios esta região foi muito importante porque configurava um espaço de encontro entre o mundo Egípcio, que principiava a crescer como um poder regional, e os demais povos da África. Em 3.100 a.C, a Núbia foi conquistada pelo Egito que ora incorporava a nação a seu império, ora concedia que vivesse como um reino independente. Mas, o certo é que por muitas dinastias os faraós utilizaram os núbios como escravos e são eles os que se podem ver nas gravuras do Egito antigo a guardar os palácios e as tumbas.

No ano 2.000 a.C, a Núbia se fortaleceu e formou um reinado forte e coeso sob a dinastia Kush. Criou cidades importantes e sua capital Kerma era um fervilhante centro comercial, onde se negociava o ouro, peles de animais e marfim. O crescimento econômico da nação núbia outra vez acendeu a cobiça e o Egito voltou a dominar. Ainda assim, por volta de 1.700 a.C. a aristocracia núbia seguia com poderes e mandava seus filhos para estudar no Egito, sendo alguns deles funcionários importantes junto aos faraós. No ano 900 a.C, os núbios se independentizam outra vez e fundam outra capital, Nepata, mais ao sul da antiga Kerma. Era próprio da sua cultura fazer túmulos em forma de pirâmides, assim como manter uma escrita própria. Ainda hoje é possível ver essas belezas nas pirâmides de El Kurru, Nuri e Meró, na região do Sudão.

No ano de 730 a.C., o rei Piye, decidiu que era hora de os núbios assumirem o comando do Egito e recuperar os tempos gloriosos de Ramsés e Tutmés, uma vez que o país estava sendo governado por chefes medíocres, e perdido de sua espiritualidade. Assim, Piye partiu do sul com seus exércitos, navegando pelo Nilo até a cidade de Tebas, capital do Alto Egito. Foram muitas batalhas até que veio a vitória e Piye tornou-se o primeiro faraó negro, sob o nome de Tutmés III. Ele inaugurou a XXV dinastia, na qual governaram vários faraós núbios. Os faraós negros unificaram o Egito, fortaleceram o império, e resistiram por anos aos assírios. Foram os núbios que, inclusive, pararam a marcha dos assírios sobre a Judéia, garantindo aos judeus a recuperação da cidade de Jerusalém.

Sob o domínio Núbio, o Egito teve uma nova fase de florescimento e após a morte de Piye em 715 a.C, seu irmão Shabaka consolidou a XXV dinastia estabelecendo a capital egípcia de Menfis. Ele ficou conhecido por sua generosidade e em vez de executar os inimigos, fez com que eles atuassem na construção de diques para proteger as aldeias das inundações do Nilo. Sob o nome de Pepi II, ShabaKa reformou os templos de Luxor e Karnak, acrescentando sua própria estátua.

Outro rei núbio que se tornou figura de vital importância ao Egito foi o filho de Piye, Taharqa, que governou 26 anos. Após a vitória diante dos assírios ele semeou o Egito com maravilhas arquitetônicas ao logo de todo o rio Nilo, num arrojado programa de obras civis que rivalizou em beleza com os antigos faraós. Taharqa repaginou os velhos templos, mas jamais promoveu qualquer destruição, ao contrário de seus inimigos que, depois de sua morte, destroçaram os narizes de suas estátuas, fato que o impediria de retornar da terra dos mortos.

No ano de 671 a. C Taharqa enfrentou outra vez os assírios e perdeu a batalha, recuando até Menfis enquanto Esarhaddon se apropriava de parte do Egito, massacrando os moradores e erguendo montes com suas cabeças. Mais tarde, diante de novos ataques, abandonou Menfis e voltou para Napata, na Núbia. Foi o fim da dinastia dos núbios.

A Núbia hoje

Estando no Egito, conhecer o povo núbio era uma exigência ontológica. Desde pequena as imagens dos escravos negros guardando as divindades egípcias me enchiam de estupor e curiosidade. Eram sempre mais dignos e belos que os próprios faraós que guardavam. E as mulheres, de pele retinta, destacavam-se como deusas, cortejadas e desejadas pelos filhos de Amon-Rá. Os núbios, mais do que escravos, eram um povo que tinha cultura e língua próprias e além de entregarem seus corpos, também eram sangrados das riquezas de sua terra, como o ouro e o marfim. Mais tarde, já adulta, fui saber que também houve um tempo em que governaram o Egito, não mais escravos, mas faraós, deixando sua marca indelével na cultura daquele esplendoroso país. Assim, quando o pequeno barco que navegava pelo Nilo aportou em Assuã eu me preparei para um encontro desde há muito esperado. Não foi em vão.

A região núbia já se difere do restante do Egito pela cor. Não só do povo, que tem a pele negra, mas da cidade em si. Tudo vibra. As casas, as pessoas, as coisas. O artesanato é muito telúrico, com desenhos que imitam peles de bichos como os jacarés e as cobras. Pode-se perceber que os animais tem um valor inestimável. Eles estão em tudo, nas imagens pintadas nas casas, empalhados nas salas, ou mesmo vivos, circulando pelas residências como seres da família. O camelo é quase sagrado, indispensável para o transporte nas regiões de deserto. Já no rio, o que impera é a faluca, um tipo de barco à vela usado desde os tempos mais remotos, sempre navegando ao sabor do vento.

A cidade de Assuã, chamada de “a pérola do Nilo” é grande e cosmopolita. A paisagem é incomparável, bonita demais. Há uma classe média que vive bem e cuida da cidade, mas são as pequenas comunidades já na região do deserto, que mostram a cultura núbia na sua mais completa tradução. Para chegar até lá é preciso andar pelos menos uns 40 minutos no lombo dos camelos, aproveitando a paisagem exuberante e contraditória de rio e deserto, lado a lado. Pelo caminho, a toda hora passa um menino, voando, sobre o camelo que se faz veloz em suas mãos. No povoado, tudo é cor. As casas seguem um modelo bastante típico do povo núbio, arredondadas, com abóbodas e imensos pátios. Cada uma delas é pintada de uma cor diferente, vibrante. Não faltam os murais, espalhados por toda a aldeia. Neles, o retrato do cotidiano, gente trabalhando, sobre os camelos, plantando, cuidando dos animais, mulheres nos afazeres domésticos, paisagens. Uma lindeza.

Uma das práticas mais antigas é o tradicional chá. Nenhum visitante passa por uma comunidade núbia sem entrar e partilhar desse líquido saboroso. Na casa onde fomos recebidos, os cômodos eram grandes, coloridos e arejados, apesar de serem de chão batido. Na sala, muitos animais empalhados. “Eram companheiros muito amados”, diz a mulher. No meio do pátio, um poço com jacarés, animal também muito estimado por ali. Percebe-se uma harmonia entre gente, bicho e espaço geográfico.

O povo é pobre, vive do artesanato, dos passeios de camelo e de uma modesta agricultura de subsistência. Mas, o que impressiona é o cuidado com a cultura. Na escola da comunidade, os professores ensinam o núbio, língua originária, que é uma das formas mais seguras de manter o modo de ser. Também não são poucos os artistas que colorem as casas com as cenas do seu mundo, muito típicas.

A relação com o Egito segue sendo de integração, mas sempre com esse sentimento único de povo autônomo. Na política contemporânea, chegaram a amar muito um egípcio: Gamal Abdel Nasser, o qual inundou 500 quilômetros de suas terras para fazer o maior lago artificial do mundo: o lago Nasser. Desses 500 km, 350 pertencem ao Egito e 150 ao Sudão. Na época, com a promessa de conter as cheias sistemáticas do Nilo, Nasser conseguiu convencer centenas de famílias (10 mil pessoas) a sair de suas terras, garantindo novas casas, novas terras e também a realocação de 16 dos 17 templos que estavam nos espaços a serem alagados. Hoje, ao falar sobre aqueles dias, os núbios que trabalham com artesanato no embarque para a ilha onde está o templo de Filae seguem acreditando que fizeram certo em confiar no político de esquerda. “Ele foi melhor que tivemos”.

O lago nasceu da construção da Alta Represa, um gigante de quatro quilômetros de largura por 11 metros de altura. As pedras de puro granito que foram usadas para a obra poderiam erguer mais de 147 pirâmides. Com a represa, Nasser buscava proteger o Egito da seca e das inundações. Conforme os moradores locais, isso foi conseguido. “Agora podemos fazer três colheitas no ano, mesmo que o barro bom do Nilo não consiga mais passar”. Segundo o egiptólogo Abdel Aziz, como é da cultura núbia cultivar aquelas terras, muitas das famílias que foram embora estão voltando e o governo tem garantido tratores e terras, principalmente aos jovens.

Também são os jovens que dominam os barcos que fazem os passeios no lago e levam turistas para ver os templos. De certa forma, no Egito em geral, o turismo ainda não é dominado por poucas empresas. Há uma grande divisão de tarefas, todas cumpridas por pessoas físicas ou pequenos negócios. O que se nota é que cada um ganha seu quinhão no grande bolo turístico. No ancoradouro que leva a ilha do templo de Filae, são muitos os barcos e apesar da grande movimentação, os trabalhadores se organizam de tal forma que cada um deles sempre tem um freguês. Esse templo, dedicado à deusa Isis, é um dos que foram removidos do seu lugar original, pedra a pedra. Foi o último resgatado da água. Segundo conta Abdel Aziz, o trabalho de remoção dos 16 templos levou oito anos e ocupou a força criativa de representantes de 48 países. Por conta dessa ajuda internacional quatro dos templos foram levados para fora do Egito. Um está na Espanha, um em Nova Iorque, um na Alemanha e outro na Holanda. “o governo egípcio ofereceu como um presente”.

No início desse século a história desse povo ancestral sofreu mais um baque. O governo do Sudão, que tem apoio dos Estados Unidos (Sudão é um espaço estratégico para o império) construiu outra usina hidrelétrica no Nilo, cerca de mil quilômetros acima da barragem de Assuã, criando um lago de 170 quilômetros de comprimento. Esse lago inundou milhares de outros sítios arqueológicos ainda inexplorados, que contam da cultura núbia. Com isso, grande parte das belezas do apogeu do povo núbio seguirá soterrada. Pirâmides, grandes estátuas, enfim, a prova da grandeza de uma nação que aglutinou o comércio na região por séculos. Ainda assim, na grande curva do Nilo, ao sul, podem-se ver as ruinas da antiga capital, Nepata, que, no mundo antigo, foi tão vibrante e cosmopolita como é hoje Assuã.

O fato é que, apesar de ter parte do seu passado destruído ou escondido sob as águas, o povo núbio segue reverenciando sua cultura ancestral, mantendo um jeito peculiar de ser, vivenciando um equilíbrio natural com o ambiente. Deles, trouxe uma bonequinha de madeira, que representa a mulher local, a fertilidade, a fartura. Ela me observa, todas as manhãs, com seu olhar risonho. De mim, ficaram dois brincos de prata, ofertados à pequena anfitriã, Sara. Enternece meu coração saber que naquela margem do Nilo uma garotinha de pouco mais de 10 anos se enfeita no espelho das águas, cantando uma velha canção, com uma belezura que já me enfeitou. A ligação com a sorridente menina núbia é a concretude de um velho desejo, quando eu, debruçada sobre surrados livros de história, sonhava em encontrar seu povo de valentes e belos guerreiros. Encanta-me saber que eles estão lá, de pé, gigantes, tão lindos como nos tempos dos faraós. E livres, fazendo hoje, a nova revolução egípcia!

Que o segundo turno das eleições ponha no poder o que for melhor para o Egito.