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quinta-feira, 8 de junho de 2023

Alberto Aleixo


T
erminei de ler o primeiro volume da Coleção Ponto Final, Editora Insular, de autoria de Nelson Rolim. É impressionante! Um livro que definitivamente precisa ficar entre os primeiros necessários a qualquer jornalista. Não bastasse isso, precisa ser conhecido por toda a gente que queira conhecer a história do nosso país. Com uma escrita segura e simples, Nelsinho vai contando a história da heroica imprensa comunista no Brasil. Uma verdadeira maravilha. 

A gente vai lendo e se emocionando em cada página. O compromisso, a dedicação, a responsabilidade social, a paixão, o amor pelo Brasil, pelo povo brasileiro, tudo isso vai se derramando nas histórias de cada jornal e de cada militante que entregou sua vida para que as pessoas pudessem ter acesso à informação e ao conhecimento. Jornalistas, gráficos, construtores de tipos, motoristas e até pedreiros passeiam pelas páginas, deixando em nós um sentimento oceânico de admiração. 

A proposta do primeiro volume é homenagear o jornalista Alberto Aleixo, morto pela ditadura que assaltou o poder em 1964. Um homem velho, de 73 anos, que foi levado aos calabouços e sofreu as mais tenebrosas torturas, sem fraquejar. Mas, para além desta história singular, que por si só já é arrepiante e pesada, Rolim descortina a incessante luta dos comunistas para manter um jornal onde pudessem fazer suas denúncias e divulgar as ideias de um mundo bom, regido pelo comum. O livro é construído com pequenos textos, que se entrelaçam entre si, num contínuo, e vão carregando a gente para dentro das redações clandestinas, dos porões. 

O tema da ditadura, da morte, da tortura é um tema pesado, mas Rolim consegue tratar disso tudo com determinada leveza. Nos leva ao assombro, ao ódio, mas principalmente nos enche de uma profunda alegria ao realizar esse encontro com colegas de outros tempos, que também tinham essa paixão pelo jornalismo e pela liberdade. Eu mesma terminei de ler o livro e saí porta afora gritando, gritando, feito louca. Gritos da mais estonteante alegria. Por que apesar de tudo o que foi feito, de todas as dores vividas por esses companheiros, apesar de todas as derrotas, eles nos aparecem ali, vivos e vibrantes, nos mostrando que a despeito de tudo, o caminho é a luta. 

Rolim consegue esse feito: trazer, em totalidade, essa monumental história da imprensa comunista e propicia o nececessário encontro amoroso com esses exemplos de jornalista e de ser humano. Vale a pena ler! Eu recomendo vivamente!  Alberto Aleixo – o jornal do PCB. Uma obra extraordinária. 

A coleção terá 38 volumes. Já estou lendo o segundo!

segunda-feira, 14 de junho de 2021

Coliseu Tropical


Quem escreve sabe: narrar é sangrar. Ainda mais nesses tempos de medo e solidão. É impossível não rasgar a carne da vida e deixar que as vísceras apareçam, afinal, é nelas que mora o futuro. E esse é o caminho percorrido pelo escritor blumenauense no seu livro Coliseu Tropical. Já no primeiro texto colocamos o pé na realidade sem retoques, a morte do pobre, a dor, o abandono, as pinceladas de um cenário que beira o mágico, ainda que dolorosamente real. Os textos são curtos, incisivos, diretos. A barbárie de um tempo duro que só parece tocar o outro quando apresentada como ficção. 

Viegas apresenta o Brasil, esse, que vimos nas páginas policiais como se fosse culpa das vítimas, a partir de olhos amantes, comprometido, abigarrado. Um país atravessado pela dependência e o subdesenvolvimento, a outra cara da riqueza dos países de cima. Viegas apresenta Desterro, essa terra que escolheu para viver e evoca os ventos que sopram memórias de baleias e de canoas de pau. Esgrime as palavras como a bailarina no trapézio. Traz em cada frase a delicadeza, a força, o mais profundo amor pela vida.

O livro anatomiza o corpo dilacerado da vida brasileira, mas não é um livro triste. Sim, às vezes faz chorar, mas é por puro assombramento, por tamanha grandeza, por tanta riqueza na construção de cada parágrafo. A palavra constituindo o nosso mundo que é feio sim, mas também cheio de belezas. Viegas não doura a pílula, extravasa angústias e sopra esperanças: “apesar desses tempos tristes, meus olhos acreditam no horizonte. A história ensina que os tempos serão outros. A história ensina que o mar já desaguou em abismos, antes de lamber nossas praias”. Ah, que vontade de seguir! 

No Coliseu do Viegas se digladiam as letras, os contos, aforismas, as vidas, os sonhos, e o eterno desejo humano de ser feliz. Mas, nessa luta titânica ninguém morre. Não. O que essas lutas nos cobram é coragem, como diz o sertanejo de Guimarães. E a gente chega ao fim desse livro intenso com o peito estufado de tanta belezura.  

Vale a pena percorrer esse caminho do coliseu tropical, acompanhando o traçado de Viegas: “Tu eras bonito. Tinhas o sonho balançando nos olhos como um barco de pesca em alto mar”. 

Assim somos. Bonitos e carregados desses sonhos balanceiros. Vamos vencer!

***

Obrigada por esse livro Viegas Fernandes da Costa. Foi lido bem devagar, como quem sorve um chimarrão amigo. Me fez rir, me fez chorar e me deu muita gana. 

Coliseu Tropical também está a venda na Livraria Livros & Livros (localizada no Centro de Eventos da UFSC).

domingo, 6 de maio de 2018

No tempo da magia


A Editora Hemisfério Sul comunica o lançamento do 25º livro da escritora Urda Alice Klueger, intitulado “No tempo da magia”. Com capa de Johnny Kamigashima, usando um quadro de Jean Oriol Sinriel e uma foto de Vanilda Meister Arnold Policarpo, o livro tem orelha da historiadora Onice Sansonowicz e apresentação da psicóloga Katty Adriane de Mattos. Trata-se de um romance que envolve quatro personagens principais: um homem, uma mulher, um menino e um passarinho. Quando se tem tais personagens juntos, tudo pode acontecer – imagine, então, quando tais personagens estão juntos no Tempo da Magia!

Diz, sobre ele, a apresentadora Katty Adriane de Mattos: Em meados do inverno bipolar de 2017, recebi um e-mail com o pedido da Urda se “escreveria a orelha, quiçá a apresentação de um livro meu com aquela foto na contracapa? Haveria que ler o livro...”  Convite aceito. E-mail assim respondido: “Escrevo... o que você achar mais adequado. Faço com alegria!”

Passaram-se poucas semanas e recebo “o livro”. Abro o arquivo com um misto de curiosidade cheia de alegria... e... surpresa: coube a mim a apresentação! A esta altura de construção do livro, e considero importante assinalar, mesmo que sofra alterações, o livro está com o título provisório “No tempo da Magia”. Logo, tomada de curiosidade, dentro de um ônibus, voltando de uma rápida viagem de trabalho e curso, começo a leitura.Penso que gostaria imediatamente de saber do que trata o livro.Que temáticas de vida irei encontrar nele? Para que lugar ele irá transportar-me? Que emoção viverei ao lê-lo? 

Então começo o “mergulho” na leitura e logo nas primeiras páginas me deparo com a reflexão: ”... era bem claro que agora havia uma quarta pessoa fazendo parte da sua vida... mas não esperava que um pequeno menino que não havia nascido fosse amá-lo tanto assim...” Então penso: um livro sobre amor!!! 

Sim! A Urda escreveu um livro sobre o amor! Sobre amor inspirado, esperançoso e eterno. Assim como aborda temáticas intocadas, temidas e, por vezes, inconfessáveis para grande maioria: aborda vida, morte, desejo, sexo, prazer, fé, diferenças entre classes, crenças pessoais, aborda um et cetera de coisas... 

No livro, Urda nos leva a todos os lugares, dos reais, que temos a certeza de que já vimos, aos imaginários, como cavernas surreais, baías calmas, mares abertos e mares revoltos. Urda, neste seu livro, nos leva a fazermos travessias.Convida-nos a fazermos uma viagem para além do nosso olhar, para além do que habitamos e daquilo com o que nos alimentamos. Urda nos expõe a (re)considerarmos nossas ideias, nossas emoções e nossas crenças.

E, ao final de tudo, nos deixa livres, pois ler este livro acaba sendo... ”tão leve e tão denso’’ que você fica quase que “espelhando serenidade”. Fica com a sensação de que, durante todo o tempo do livro, este faz parte de você e que uma parte de você está no livro. Então minha percepção durante a leitura e a minha emoção ao terminá-la é, de que em nós existe uma parte conectada... ”que esteve lá desde o começo”... Para você, leitor, durante sua experiência de leitura, desejo que ela o coloque em um mergulho profundo e, paradoxalmente, ao mesmo tempo, que permita a você voos contemplativos e seguros. E, a você, Urda, agradeço pela confiança, pela convivência e pelo aprendizado.

E diz Onice Sansonowicz: Sendo simplista, poderia dizer que este livro se trata de uma história daquelas telenovelas gostosas de assistir. Mas é muito mais do que isso. É uma ode ao amor e à vida. Uma história de relações marcadas pela cumplicidade, atravessadas pelo erotismo, pelas agruras da vida cotidiana, pela luta pela sobrevivência, pela tristeza, pela saudade, pelo luto, pelas dores, pelas perdas. 

Mas quando a história começa a ficar densa demais, a autora, como num passe de mágica, faz aparecer fadas, libélulas, passarinhos... faz com que os personagens ora sejam reais,ora sejam imaginários, de forma que esses elementos combinados deem leveza à narrativa. Em outras palavras, Urda nos ensina que a dureza cotidiana pode ser mais bem suportada com um cadinho de magia.

Não espere o leitor, a leitora,um texto militante. Não o é. No entanto, o livro todo é uma defesa do amor, da solidariedade, da pureza, da sensibilidade. E pela via da ficção, Urda Alice Klueger desbanca as ausências do mundo contemporâneo. 

Um belo livro de literatura, intenso e vasto o suficiente para qualquer um se encontrar nele. Um livro necessário em tempos de tanta aridez.

***
O livro terá seu lançamento oficial no município de Palhoça/SC, onde reside a autora, na Cordel Livraria, situada no Shopping Center Via Catarina, no dia 12 de maio de 2018. Posteriormente, será lançado em outras cidades. No anexo, a capa do mesmo. 

Nos próximos dias o livro estará à disposição em todas as boas casas do ramo, e também junto à autora e à Editora Hemisfério Sul, e-mail editorahemisferiosul@gmail.com  ou urdaaliceklueger@gmail.com.br. 

Contatos com a autora também no facebook, com seu nome real.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

Recuerdos del mar


Uma das tantas maravilhas de estar no Instituto de Estudos Latino-Americanos é poder conhecer intelectuais, escritores e investigadores de tantos lugares dessa nossa Abya Yala. Nessas férias terminei de ler mais uma obra do escritor guatemalteco Rafael Cuevas Molina, que hoje vive na Costa Rica e que já participou das nossas Jornadas Bolivarianas.

Não fora o IELA como conheceria essa narrativa abissal que toca até a medula? O livro é pequeno, mas o conteúdo é gigantesco. “Recuerdos del mar” é uma história única, mas universal. Trata das lembranças de um jovem, as memórias que tem de um lugar onde foi feliz. Poderia ser qualquer um de nós.

A história é simples, quase prosaica. Um garoto, uma praia, uma menina, garotos, barcos, casas, cheiros. Mas o jeito de contar beira a perfeição. Vai-se passando pelos capítulos, que são curtos, com a sofreguidão de quem foi encantado pela escrita. A descrição da praia, das pessoas, do ambiente, o intimismo das lembranças e dos sentimentos, tudo aparece como uma manhã banhada de sol. É mágico.

A praia na tem lugar, é em algum ponto do Pacífico, com o mar bravio e a areia gris, tão típica dessa margem. Quem já pisou alguma aldeia de pescadores do Pacífico sabe bem o que digo. Esses lugares perdidos no interior da nossa América, onde as gentes se banham no mar por puro gozo e não se vislumbram corpos torrando na patética tentativa de “ficar bronzeado”. O mar é parte da vida, é parte do corpo.

A experiência humana que Rafael conta mostra essa vida imanente na beira do Pacífico, onde os dias ensolarados passam devagar e cheios de beleza. A riqueza dos detalhes, a profundidade da narrativa,  a densidade úmida da América Central, o jeito singular dos moradores, que tudo tem e nada esperam. Palmeiras, sol, mar, areia, brincadeiras, suspiros, amor, abismo de sentires. O olhar ferino de quem observa os forasteiros que buscam a praia no verão, deixado-a cheia de lixo e nada levando. Uma paisagem especulada, nada mais. Enquanto que para os moradores é pura vida.  

A gente termina o texto com lágrimas nos olhos. Pela solidão do homem, pela dureza do progresso que tudo destrói, pela certeza de que o monstro da especulação segue comendo paisagens e vidas. Mas também se sente uma afável ternura. Pela vida que segue, que se amolda, que resiste.


"Recuerdos del mar" é mais um livro incrível desse romancista de honor, Rafael Molina, e está no IELA, na Biblioteca Simón Rodríguez,  para quem quiser ler. Sem sair da cadeira, passeamos por essa risca de terra úmida que é a América Central e vamos conhecendo melhor nossos irmãos e irmãs abyaiálicos...


segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

Al otro lado de la lluvia


Impossível não mergulhar na dura e triste realidade dos povos da América Central lendo esse poderoso livro do escritor guatemalteco Rafael Cuevas Molina, "Al otro lado de la lluvia". A partir da mirada de duas mulheres ele narra o assombro da violência, do medo, da tristeza e do êxodo vividos por milhares de famílias naqueles cantões da fatia estreita do mundo cetro-americano. Acompanhando a intimista saga de Clara e Esperanza a gente vai se embrenhando  naqueles anos de tanta dor que foram os 60 e 70 do século XX.  

Nada está dito, a narrativa traz apenas a vida em imanência. Mas tudo está explícito, tal qual a chuva que nunca para. Quando a vida era boa e se sonhava, e quando vieram os duros anos de armada resistência. Sabe-se dos que arriscavam a vida por um mundo bom, e dos que sempre usaram a carência do outro para crescer. Sabe-se de ausências, de amores, de lágrimas, de fortalezas, de esperas, de mortes e de esquecimentos. A narrativa é leve, quase lírica, se contrapondo a toda dureza da realidade. 

O livro é pequeno, mas suficiente forte para ficar doendo por horas a fio. Deixa o gosto amargo de um tempo que impôs tantas perdas, mas que também fortaleceu os espíritos que sobreviveram. Um fio de esperança escapa pelas páginas quando as personagens decidem seguir seus caminhos, ainda que com a alma em escombros. A vida sempre chamando, desde as profundezas. 

Rafael Cuevas Molina é nascido na Guatemala, mas vive hoje na Costa Rica, onde atua na Universidade Nacional. E esse é apenas um dos seus livros, os quais estou vagarosamente sorvendo nesses dias de estupor.

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

Seres do Bem - retratos de viandantes


Este é um trabalho único. Fala das gentes que caminham pelo país, pela América grande, Latina, pelo mundo. Fala de pessoas que decidiram dizer não a ciranda capitalista, que voltam as costas para o mercado, para a competição, o egoísmo. São homens e mulheres que vivem uma vida próxima da natureza, que escolheram proteger o planeta, amar o próximo e o distante, com-partilhar, com-viver na harmonia e na cooperação. Um povo sobre o qual pesa o preconceito.

Vistos como loucos, hippies, marginais, através das lentes do fotógrafo Ricardo Casarini Muzy adquirem outra forma. Aparecem aqui imortalizados em instantes de perpétua beleza: o da partilha amorosa com todos os seres viventes, em cenas do cotidiano dos encontros que realizam para trocar experiências e saberes. O trabalho de Ricardo, que projeta em preto e branco a vida dos viandantes já é, em si, uma escolha do caminho do próprio fotógrafo. Ele poderia ter preferido retratar a vida que se faz em salas acarpetadas, nas estradas asfaltadas, nas paisagens turísticas. Mas não, ele mesmo um homem de caminhos vicinais, decidiu percorrer a vida que viceja às margens, que anda pelos caminhos de terra, que se mostra nas veias internas do grande Brasil.

O livro Seres do Bem diz dessas escolhas. É um memorial poético que se faz na imagem e nos pequenos textos, retratando a prática de vida de homens e mulheres que decidiram viver já, agora, no presente, a ideia de um tempo solidário e amoroso. Cenas do Encontro Nacional de Comunidades Alternativas, no meio da floresta amazônica. Imagens do Rainbow, encontro de caminhantes de todo o mundo, no interior da Bahia, e do Fórum Social Mundial, em Porto Alegre. Momentos rituais de trocas e de comunhão. Uma vida que muita gente não conhece. Uma opção, uma decisão sem volta. Agora cabe a você, conhecer, saber, respeitar e, quem sabe, partilhar.


Seres do Bem, editado em 2004, é um poema de amor à vida, ao planeta, aos seres viventes. É um presente, uma bênção. Um olhar generoso sobre os viandantes, os que semeiam, a despeito de todos os horrores do mundo capitalista, sementes de paz e de amor. Sentimento tão antigos quanto a própria vida, tão esquecidos, mas que revivem em cada cena cristalizada por Ricardo.

terça-feira, 29 de outubro de 2013

Dia do Saci-Pererê e Lançamento de Livro da jornalista Elaine Tavares



A celebração do Dia Nacional do Saci-Pererê será no dia 31 de outubro, quinta-feira, das 15 às 17 horas, na Esquina Democrática, em frente à igreja São Francisco, na capital, Florianópolis. A promoção é  da Revista Pobres & Nojentas, com apoio do Sindicato dos Trabalhadores no Poder Judiciário Federal do Estado de Santa Catarina (Sintrajusc) e do Sindicato dos Trabalhadores da Universidade Federal de Santa Catarina (Sintufsc). No dia também será lançado o novo livro da jornalista Elaine Tavares, da equipe da Pobres & Nojentas, intitulado "Olímpia Gayo visita o diabo". O trabalho conta a história da freira franciscana Olímpia Gayo, que iniciou um fecundo trabalho de organização das mulheres prostituídas em Lages (veja no final do release). No dia haverá música, contação de histórias, brincadeiras e distribuição de “sacizinhos”.

A lenda é assim! Basta que exista um bambuzal e, de repente, de dentro dos caniços, nascem os sacis. É como eles vêm ao mundo, dispostos a fazer estripulias. Conta a história que esses seres já existiam bem antes do tempo que os portugueses invadiram nossas terras. Ele nasceu índio, moleque das matas, guardião da floresta, a voejar pelos espaços infinitos do mundo Tupi-Guarani. Depois, vieram os brancos, a ocupação, e a memória do ser encantado foi se apagando na medida em que os próprios povos originários foram sendo dizimados.

Quando milhares de negros, caçados na África e trazidos à força como escravos, chegaram no já colonizado Brasil, houve uma redescoberta. Da memória dos índios, os negros escravos recuperaram o moleque libertário, conhecedor dos caminhos, brincalhão e irreverente. Aquele mito originário era como um sopro de alegria na vida sofrida de quem se arrastava com o peso das correntes da escravidão.

Então, o moleque índio ficou preto, perdeu uma perna e ganhou um barrete vermelho, símbolo máximo da liberdade. Ele era tudo o que o escravo queria ser: livre! Desde então, essa figura adorável faz parte do imaginário das gentes nascidas no Brasil.

O Saci-Pererê é a própria rebeldia, a alegria, a liberdade. Com o processo de colonização cultural via Estados Unidos – uma nova escravidão - foi entrando devagar, na vida das crianças brasileiras, um outro mito, alienígena, forasteiro. O mito do Haloween, a hora da bruxa e da abóbora, lanterna de Jack, o homem que fez acordo com o diabo. A história é bonita, mas não é nossa. Tem raízes irlandesas e virou dia de frenéticas compras nos EUA e também no Brasil. Na verdade, a lógica é essa. Ficar cada vez mais escravo do consumo e da cultura alheia. Jeito antigo de colonizar as mentes e dominar. É por isso que a Pobres & Nojentas quer recuperar o Saci, o brasileiro moleque das matas, guardião da liberdade, amante da natureza que hoje está ameaçada de destruição.

Queremos vida digna, um país soberano na política, na economia, na arte e na cultura. Cada região deste Brasil tem seus próprios mitos. Caipora, Boitatá, Curupira, Bruxa, Negrinho do Pastoreio... São os amigos do Saci que estão presentes na atividade do Dia do Saci Pererê, saudando e buscando a liberdade.

Mais informações: Míriam Santini de Abreu - 96207333

SOBRE O LIVRO




Olimpia Gayo visita o diabo é o sexto livro da jornalista Elaine Tavares, que atua no Instituto de Estudos Latino-Americanos/UFSC. O trabalho conta a história da Pastoral da Mulher Marginalizada criada na cidade de Lages pela irmã Olímpia. A teóloga Ivone Gebara é quem apresenta essa preciosa história de uma mulher que nunca se recusou a olhar o diabo de frente. 

"Elaine Tavares tem o dom e a arte de contar histórias de mulheres apaixonadas pela vida. Mulheres que são parte da história oculta da bondade e da beleza e que atuaram intensamente para que esses valores continuassem a se manifestar nas vidas sofridas e silenciadas. "Olímpia Gayo visita o diabo" é mais uma preciosa narrativa que revela o percurso de uma mulher que cresceu vencendo o sofrimento que a vida punha em seu caminho. Desde criança vencia o sofrimento preparando-se e lutando pela dignidade da vida de outras sofredoras e sofredores.

O texto move o coração e convida a abrir os olhos para as vidas ocultas, aparentemente sem valor, para a escória humana que somos e criamos assim como para a salvação e libertação que também podem nascer de nós. Sim, somos salvadoras umas das outras, somos a mão estendida, o abraço apertado, o sentido da solidariedade, a misericórdia vivida. Somos a voz que denúncia, que grita até que os corações de pedra comecem a palpitar de novo e ver e ouvir o mundo ao seu redor.

Conheci Olímpia num encontro de estudos em Julho de 2013 em Lages. Sua congregação religiosa me convidara para uma semana de reflexão sobre espiritualidade ecofeminista. Desde as primeiras palavras que ouvi de Olímpia, a cumplicidade nas ideias, nas visões e, sobretudo, sua forma de "sentir a dor do mundo" ecoaram em mim. Cada uma do nós, de seu jeito, vivia a paixão pela vida manifestada através de muitas formas e expressa através de muitos nomes. Tínhamos muitas coisas em comum. Enfrentamos demônios parecidos, aqueles que atingem os corpos de mulheres e querem silenciar seus gritos de liberdade.

Nas visitas e encontros de Olímpia com os "diabos" da fome, da droga, da prostituição, seu nome, que faz lembrar o Olimpo, moradia dos deuses gregos, espantava os algozes e trazia algo apaziguador, algo ao mesmo tempo celeste e terrestre.  Os diabos fugiam e se descobria sua face oculta, sua beleza, sua momentânea integridade.  No encontro de coração a coração os diabos não ficam. Abrem o espaço para o amor e a justiça. Por isso tantas pessoas marginalizadas encontraram na presença de Olímpia a força para viver, levantar-se e seguir o caminho do resgate da vida.

Ao final da leitura do livro um sentimento de profunda gratidão e beleza tomou conta de mim. Gratidão à Elaine, à querida Olímpia e a tantas pessoas que no anonimato sustentam a vida e anunciam a grandeza do amor, único capaz de curar os corações partidos e renovar a face da terra".

Contato Elaine: 91516066

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Brasília soterrada no Sahara Brasiliae



Li o novo livro de Raimundo Caruso, Sahara Brasiliae, em pequenas doses. Devagar, como a própria narrativa, que avança e recua por uma cidade fantasma. A história fala da capital brasileira que, um belo dia, amanhece tomada pela areia, num calor escaldante. Nela, apenas alguns personagens vagueiam, ligados, mas sem nunca se encontrar. Tudo é silêncio e solidão. Calor, abafamento, angustia, sensação de abandono e caos. E, como a areia se move com o vento, a cidade vai se mostrando e desaparecendo, ao mesmo tempo, num movimento sem fim e vertiginoso. Os personagens, ficantes no inferno amarelo que se tornou Brasília, vão nos instigando. Uma tradutora, um ciclista, o narrador, o arcebispo, os políticos, um bibliófilo, um blogueiro, um arcebispo. São figuras estranhas e, ao mesmo tempo, tão reais e próximas que, por vezes, quase lhe reconhecemos as feições.

As andanças do narrador pela cidade deserta são descritas em narrativa vigorosa e dura. Hora lenta, ora ligeira. O texto nos envolve como se fora uma profusão de pequenas cenas, reais e visíveis. A gente consegue sentir a areia entrando pelos poros, os cheiros e, por vezes, quase desfalecer com o calor que emana da trama. O trecho em que o caminhante entra em um mercado, no qual as comidas todas estão apodrecendo com o calor sufocante, é de arrepiar. Produtos químicos, transgênicos, conservantes e toda a sorte de porcarias que se adicionam aos alimentos parecem adquirir vida e nos mostram todo o terror que, cotidianamente, essas coisas que comemos contêm, sem que nos demos conta. É talvez o momento mais impactante do livro. Uma podridão que nos arrasta, e que está dentro de nós.

Raimundo escreveu o livro antes das jornadas de luta do mês de junho, mas, a problemática política do país está completamente presente no romance, quase como se fosse um texto premonitório. A Brasilia ocupada pela areia ainda é a nossa confusa e desumana capital, com todas as suas belezas e contradições. O centro de uma política que tem uma opção de classe. E que não é a das gentes comuns.  Por isso, na trama, Caruso acrescenta, em relevo, dois escritores que deixaram sua marca na humanidade: Erasmo de Rotterdam e Thomas More. E, assim, entre a loucura do status quo e a utopia que nos move para a transformação, nós também vamos escalando as montanhas de areia, tentando respirar num ambiente que nos oprime para além do físico.

A narrativa de Raimundo Caruso ainda oferece outros subtextos. É também, por vezes, uma espécie de ode à palavra mesma, essa ferramenta de quem escreve. O autor e o narrador estão sempre a buscar uma, duas, três palavras que se dizem, ao mesmo tempo, sinônimas, reforçando sentidos e se mostrando quase autônomas, como de fato são. Outro subtexto é reverente amor de Caruso pelos livros. Um toque de Maupassant, Whitman, Somerset, Poe, Goethe e tantos outros que revelam  os dias e noites de infinitas leituras. Também não fica de fora a América Latina e as  novidadeiras realidades de lugares como a Bolívia, Venezuela, Equador que desvelam um autor ligado nos transformações do nosso continente.

Sahara Brasiliae é sufocante, estridente, instigante, intimista e revelador. De alguma forma condensa também a trajetória desse escritor que iniciou sua trilha de escriba no romance, passando depois pelo jornalismo. Como Caruso, o homem que caminha pela areia da cidade soterrada não está perdido no caos. Apesar do absurdo da realidade ele se move com confiança, seguro, sabendo onde buscar o que precisa ser visto. E, ainda que nenhum dos personagens se encontre ao longo da trama, o narrador consegue ligar essas vidas de tal forma que ao final a impressão que fica é de que ele encarna cada uma daquelas almas. O autor é a totalização de todos os personagens. Talvez seja por isso que quando a areia da cidade se esvai, tudo o que fica é a perplexidade daquele que, sendo muitos, nada mais tem a fazer do que seguir seu caminho, esgrimindo as palavras e construindo novos mundos. Diante do completamente inesperado, sobe no táxi, e recomeça. 

É como uma metáfora de nós mesmos. Dando combate à solidão, à realidade de um país em escombros, ao nosso próprio medo de estar soterrado e perdido no calor. A última página aparece como um vento fresco e, como o autor, não nos resta outra opção que fazer um sinal ao táxi, e seguir adiante, não sem estar com a alma em ebulição. Mas, ao que parece, esse é o destino da gente. Nunca paralisar diante do absurdo.

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Para encomendar o romance de Raimundo Caruso, faça o pedido pelo correio eletrônico: livro.sahara@gmail.com


sexta-feira, 19 de abril de 2013

Uma cidade na memória



Existem livros que ficam entranhados na gente e a eles sempre voltamos porque nos encantam de maneira diferente a cada retorno. Hoje, quando o corpo gritou por descanso e os gatos me impediram de trabalhar, me fiz ficar na rede, balançando e re-lendo coisas boas. Um desses livros é o que foi produzido por um jovem jornalista chamado James Dadam. Na verdade, os textos foram feitos para o seu trabalho de conclusão do curso de jornalismo e eram tão belos, tão belos, que a gente (eu e minha amiga Raquel Moysés) decidiu criar uma editora: a Companhia dos Loucos. E tudo isso só para fazer circular as belezas que os alunos de então criavam todos os semestres.  O livro do James foi o primeiro de uma série que andamos por aí a colocar na roda da vida.

Pois o livro chama-se “Uma cidade na memória” e conta a história da cidade de Balneário Camboriú/SC através de pequenos textos, quase poesias. É uma coisa tão bonita, tão simples, tão singela, que nos leva a mais profunda emoção. James consegue, de maneira magistral, fazer aquilo que Adelmo Genro ensinou: a partir do singular, transitar pelo particular e atingir o universal. Essa é a viagem que fazemos ao sorver as histórias que brotam das páginas. Coisas que fazem parte da vida de Camboriú, mas que poderiam ter acontecido em qualquer outra cidade do mundo. Um desses textos sempre me tira o fôlego, até porque vivo metida na luta contra a especulação imobiliária aqui na ilha de Santa Catarina. É o “paredes de pitanga”. Espia... “Todos os dias, Jorge e sua mãe iam caminhando para o trabalho. Ali pertinho, também na Brasil, entre as ruas 951 e 971, ficava o local preferido da criançada da época. Era um terreno cheio de pitangueiras e goiabeiras”... O restante vocês precisam conhecer, lendo o livro....

E assim vai o James narrando a história a partir de pequenos momentos do cotidiano das gentes. O pescador, o vendedor do mercado, a bruxa, os políticos, os namorados, todos vão passeando pelas páginas e a gente vai se enredando no colorido das imagens que as palavras evocam. Dá uma alegria por ver textos tão bem feitos e uma tristeza por saber de tanta destruição, em nome do progresso. Camboriú já é outra cidade, cheia de prédios altos e baladas barulhentas. Mas, no livro do James vive ainda o velho lugar que era só pura beleza. “A canoa, que outrora dormia no quintal de casa, agora se deita sobre o monte de areia, esperando que seu dono venha de longe para lança-la ao mar”.

Está na hora de uma segunda edição...

terça-feira, 15 de maio de 2012

Conversando com o escritor

Programa Sábado Literário, todos os sábados na Rádio Campeche, `as 17h. Sempre uma boa conversa com algum escritor catarinense ou estudioso de literatura. vale a pena conferir pelo sítio da rádio. Aqui podemos ver a entrevista com o escritor Amílcar Neves. Uma beleza!!!!


terça-feira, 8 de maio de 2012

O racismo eternizado


O feriado me encontrou lânguida, debruçada sobre um livro de contos do escritor britânico William Somerset Maugham, mais conhecido por sua magistral obra “A servidão humana”. O escrito que sorvi nesses dias relata algumas histórias passadas nos mares do sul, mais especificamente em espaços colonizados pelos ingleses, neozelandeses, alemães, franceses e estadunidenses, tais como Samoa, Havaí e outras da região da Polinésia, no Oceano Pacífico. Entre um relato e outro as páginas vão derramando todo o preconceito que alguém pode ter contra outro que não seja seu igual e a gente vai percebendo como o racismo tem suas raízes tão profundamente cravadas nos corações das gentes, ainda mais quando narrados com qualidade.

Cada uma das histórias vai descortinando a beleza das ilhas polinésias, sua natureza, sua exuberância e, ao mesmo tempo, toda a arrogância dos personagens, a maioria estrangeiros, usurpando a vida e a riqueza dos nativos. Os locais aparecem como os devassos, selvagens, feios, incapazes, vagabundos. As mulheres são mostradas quase sempre como prostitutas, incapazes de viver uma vida monogâmica, bem ao gosto do protestantismo burguês.

Ao penetrar nas páginas, capítulo a capítulo, fui sendo tomada pelo ódio. Pois dá para perceber que não apenas os personagens são preconceituosos e racistas, mas também o próprio autor. Mesmo quando ele tenta “dourar” algum nativo, o faz de forma tão ostensivamente racista que causa engulhos. É impressionante como o espírito colonial se impregna nas pessoas. Na narrativa, cada estrangeiro ali naquelas ilhas invadidas, além de tomar as riquezas para si, insistia em menosprezar e aviltar os habitantes originários. Tudo tão igual.

Li três contos e já ia desistir. Mas, o meu amigo Raimundo Caruso me havia indicado um em particular, que ficava mais ao final do livro. Segui. O conto chama-se “A chuva” e narra a história de dois casais de estrangeiros, um deles de missionários estadunidenses, presos em uma das ilhas em tempo de chuva, tendo por companhia uma prostituta, alegre e desbocada. O pastor, indignado com a presença da meretriz, inicia uma caçada psicológica de tamanha crueldade que chega a doer. Nele se vê o ódio aos nativos, às suas crenças, a sua cultura e toda a arrogância do opressor. O “bom” pastor conta como subjugou os “naturalmente depravados” locais. E depravada era a mulher que, apesar de branca, era tão “desigual” como um nativo. Pois ele a degrada, a destrói, a reduz a nada. E tudo em nome da decência e dos bons costumes.

O interessante é que o final do conto é surpreendente e nos deixa entre o estupor e a alegria. Foi bom ter caminhado até o fim. A mulher, ainda que reduzida a quase perda de sua humanidade, vence. E, tal qual ela, também decido ligar a vitrola e fazer tocar, a todo volume, uma canção de regozijo diante da arrogância, do racismo e do desamor.

O livro “Histórias dos mares do sul” se redime diante de mim com a beleza desse conto. E até Maugham, ele mesmo um homem que sofreu discriminação por ser homossexual num tempo em que isso era um grande tabu. E a prostituta, senhorita Thompson, em alguma medida redime todas as personagens femininas/nativas tão aviltadas pelo autor.

Fiquei a matutar sobre como uma boa pena pode perpetuar a visão de um povo. E como faz falta aos oprimidos alguém que também possa contar as histórias desde o ponto de vista da comunidade das vítimas. Urge narrar a vida dos vencidos, e com boa pena, com boa pena...



quinta-feira, 15 de março de 2012