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quarta-feira, 14 de setembro de 2022

A aranha


Na minha casa mora uma aranha. E já vai pra mais de dois anos. Ela fica num canto da parede, dentro de uma espécie de casulo. É bonita, grande e com uma cor delicada. Durante o dia tu olha pra lá e ela está lá, quietinha, como morta... No final da tarde ela desce, devagar e começa a tecer uma teia. Imagino eu que é onde ela prende os bichinhos voadores que lhe servem de alimento. Aquilo me encanta.

Nunca tive coragem de limpar o lugar. Olho para a teia e imagino que aquilo ali deve ser um universo para a aranha. Seu pequeno mundo é aquele espaço entre o casulo e a teia. Não deixo ninguém mexer. A aranha me faz pensar na vida da gente. E sempre que me aperta a angústia dos dias que passam quase sem propósito, na rotina do prosaico, eu vou ali bater um papo com ela. Aconteça o que acontecer ela tece sua teia. Todos os dias ela vai ali e remenda. Por vezes a teia está maior, outras menor, mas está ali, o seu universo. 

Então eu penso que com a gente pode ser assim também. Mesmo quando nada parece fazer sentido, é preciso percorrer os caminhos da nossa teia, remendar, costurar, agrandar. Talvez esse seja o sentido mesmo: simplesmente viver. Sei que não sou uma aranha, mas dias há em que me consola pensar que sou como ela, apenas tecendo, tecendo e tecendo...

sexta-feira, 18 de janeiro de 2019

O pai: querendo ir para casa


Nas últimas semanas assomou no pai um das mais difíceis fases, que é a de querer ir embora. Todos os dias a mesma cantilena. Ele chega à porta da cozinha e faz um sinal com as mãos, dizendo:

- ó, tô xispando.

Ou seja, estou indo. Ele diz que quer ir para casa, mas na verdade não tem muita certeza de onde é essa “casa”. Suspeito eu que seja algum lugar de pura beleza, tamanha a ansiedade para ir. Por vezes sinto um profundo desejo de tomar sua mão e ir com ele, para esse não sabido lugar. Mas, a vida chama.

Geralmente quando a ansiedade é muita eu saio com ele. Vamos até o mercado, compramos algumas coisas, damos a volta na quadra. Ele se distrai e quando volta já esqueceu que queria ir para “casa”. Mas, têm momentos em que não esquece e fica muito nervoso. Vai até o portão e fica mexendo no trinco, tentando abrir para escapar.

É um tempo difícil, pois, de fato, temos de mantê-lo trancado. O portão com cadeado, senão ele sai andando “até o fim do mundo”, como diz. Os médicos chamam de síndrome do pôr-do-sol, porque aparece geralmente no final do dia. Mas, no pai, aparece a qualquer hora.

Ontem me deixou mal na fita com os coletores de lixo. De manhãzinha, lá estava ele no portão, esperando algum milagre, até que apareceram os coletores. Como são bem simpáticos, já foram cumprimentando.

-Bom dia!
E o pai.
- Me faz um favor, abre aqui pra mim. Tô preso.

O moço meio que perdeu a tramontana, olhou pra mim que observava do alpendre e fez uma cara de espanto. Fui até o portão e expliquei que o pai não pode sair sozinho, que tem Alzheimer. Ele ficou meio assim, não sei se acreditando, e se foi. E eu:

- Pai, não faz mais isso. O moço vai pensar que eu tô te maltratando.
Ele fez um muxoxo e redarguiu:

- A tentiada é livre.