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sábado, 23 de maio de 2026

A Venezuela caiu

Aviões estadunidense mostrando força em Caracas

 Lembro-me da dor profunda que senti quando Chávez morreu. E do tanto que chorei. Era o fim de um sonho de ver nossa América baixa soberana. Nunca mais aquela voz de trovão, aquele riso, aquele olhar de águia. Sabia que Maduro o haveria de suceder, mas não seria igual. E não foi. Ainda assim, creio que Maduro, com erros e acerto, ia cumprindo o legado bolivariano, anti-imperialista. Foi estrangulado com o roubo do ouro e das divisas da Venezuela, também com as sanções comerciais, até que acabou sequestrado numa espetaculosa ação estadunidense que, certamente, contou com um traidor. Trinta combatentes cubanos caíram defendendo Maduro, firmes até o fim, leais companheiros da Pátria Grande. Com eles mais outros 70 venezuelanos.

Já andava triste com o caminhar das coisas na Venezuela desde o sequestro criminoso, que foi tratado pelo mundo inteiro como coisa normal. Está bem. Foi sequestrado. Legal! Nenhum protesto, nada. Só o vazio das vozes. E, dias depois a vice-presidente em exercício, Delcy Rodríguez, já recebia enviados estadunidenses para discutir coisas do país. Venezuela estava tomada. Caíra naquela madrugada quando Maduro foi tirado de casa e levado embora para os Estados Unidos. Só o sangue dos 100 soldados cubanos e venezuelanos que tombaram foi testemunha. Depois veio a abertura da embaixada dos EUA e o subsequente roubo do petróleo.

Hoje de manhã voltei a chorar, copiosamente. Porque até então alimentava algumas ilusões. Delcy estava dando tempo ao tempo, mantendo o povo tranquilo, esperando a boa hora para que a Venezuela voltasse a ser autônoma. Mas, hoje, vendo os Estados Unidos realizarem manobras militares bem no centro de Caracas, treinando com aviões de guerra no que chamaram de “capacidade de resposta rápida” vi que não há mais espaço para ilusão. A Venezuela bolivariana caiu. E assim, sem, qualquer resistência popular. Apenas os 30 cubanos e os 70 venezuelanos que deram a vida pelo sonho de Chávez.  

No dia seguinte ao sequestro não estavam nas ruas as milícias, treinadas durante anos. A população, acalmada pela presidente e pelos demais dirigentes, esperou. E o resultado é esse: políticos e empresários estadunidenses tomando conta das riquezas do país e militares ianques fazendo provocações, como essa dos aviões ensaiando uma “resposta rápida” no centro da capital. Acordei do torpor. A Venezuela é hoje mais um país ocupado pelos criminosos da “américa”. Ali está, de joelhos, como jamais poderia supor. Cedendo a cada pequeno capricho do governo invasor. Sem qualquer resistência. Trump ainda tripudia e diz que com o petróleo que tirou da Venezuela está conseguindo pagar a conta da guerra que armou contra o Irã. E o mundo quietinho, quietinho... 

Este é certamente um momento triste para Nuestra América. Venezuela ocupada, Cuba sitiada, Raul ameaçado de sequestro, Colômbia em risco, sanções e chantagens sobre qualquer um que resolva não pactuar com a sanha imperialista, resistência enfraquecida. A impressão que tenho é de que toda a gente está com a cara no celular vendo alguma dancinha enquanto nosso continente queima, a Palestina queima, o Líbano, o Sudão e tantos outro lugares onde alcança a mão criminosa do império. 

É certo que já vivemos momentos assim, e superamos. Com alto custo, é óbvio. Quanto ainda haveremos de pagar, por termos riquezas e por querermos ser livres? Não sei... O que sei é que chove... Na cidade e em mim. E o presente é tão desgarrador quanto a frase do androide no Blade Runner: "Todos esses momentos se perderão no tempo, como lágrimas na chuva. Hora de morrer." 



sábado, 7 de fevereiro de 2026

Quem poderá nos salvar?


 

Li há pouco uma análise sobre a Venezuela na qual o autor do texto encerrava dizendo que não devíamos esperar a ajuda de China ou Rússia porque, na verdade, a Venezuela deveria salvar-se a si mesma. Refleti sobre isso e me permito discordar. Ninguém, no mundo humano, se salva sozinho. Somos seres sociais, de cooperação. Por mais fortes que sejamos precisamos de parcerias. O que acontece é que as grandes potências geralmente pouco se importam com os destinos das gentes dos países menores. No frigir dos ovos, tudo o que defendem são os seus interesses. Se eles estiverem ameaçados, talvez, possam intervir. Se não, que se salvem sozinhos. 


Vejam aí o caso da Palestina. Estamos assistindo há mais de dois anos um povo inteiro ser destruído. Bombardeios em escolas, hospitais, creches. Os maiores horrores já impostos. E o que fazem as grandes potências? Notas de repúdio. Quem sai às ruas em protestos são as pessoas, na sua impotência. Nada, absolutamente nada tem sido feito pelo povo palestino.  Todos os dias explode um lugar, morrem pessoas, crianças vagam sem rumo pelos escombros. E os grandes seguem disputando poder no tabuleiro geopolítico. Somália, Sudão e tantos outros lugares do mundo, onde as populações estão sendo dizimadas, nada acontece. E os governantes quietos. Esperam! Esperam silentes ver o território arrasado e vazio para depois, aí, ver o que sobrou de riqueza para abocanhar. Nessa hora talvez enfrentem os seus iguais.


Tem sido assim na América Latina. Só nos últimos anos, o que presenciamos? O Haiti foi invadido em nome da paz e da democracia. Está destruído, com seu povo passando pelos piores sofrimentos. Nada é feito. Ajudas humanitárias chegam e são desviadas. "Eles que se salvem”. Parece muito difícil que isso aconteça quando são acossados pelo império estadunidense. Não precisam de caridade, precisam de amigos fortes. 

Nem vou falar de outros momentos históricos porque o texto não teria fim. 


Agora estamos vendo a Venezuela ser destruída. O presidente sequestrado, a população e o governo ameaçados, obrigados a ceder aos desmandos estadunidenses. E por quê? Porque estão sozinhos. E com os navios nucleares do comando sul na sua porta que podem fazer senão ceder, esperando que o tempo lhes aponte caminhos. Esperam que os crimes de Donald Trump o derrubem. Mas, sabemos, isso tem pouca chance de acontecer. Assim como Bolsonaro não era um louco, Trump também não é. Ele é o típico representante da classe dominante estadunidense, imperialista. Se, aparentando loucura, ele bombardear a Venezuela e destruir tudo para pegar o petróleo, ninguém vai pará-lo por isso. Quando tudo tiver arrasado, pode até ser. Serviu. Valeu!


O mesmo se dá com Cuba. Trump está decidido a acabar com a vida na ilha. O bloqueio ao petróleo é a pá de cal na sua tática de "espera paciente”, a qual usam desde que começaram a expandir seu território depois da independência. Vão minando, estrangulando economicamente, fomentando rebeliões até que, pimba, tomam para si. Como se salvarão os cubanos de um ataque armado, ou químico ou tecnológico? Sozinhos? Não. Tampouco com as “ajudas humanitárias”. Precisam de parceiros na luta. Parceiros fortes, graúdos, com poder. Mas, ao que parece, os grandes farão o que sempre fazem. Uma dose de caridade, uma ajudinha com arroz, enquanto o cavaleiro da desgraça vai varrendo o território.


Não há espaço para ingenuidades. No capitalismo, a cooperação e a solidariedade não virão das grandes potências, porque é da sua natureza buscar sempre lucros e mais lucros, riquezas e mais riquezas. Não estão interessados em soberania dos pequenos. O que nos resta, então? O caminho já foi apontado por Bolívar: consolidar a Pátria Grande. Unidas, as pátrias chicas de Nuestra América teriam alguma chance nesse mundo de perversidades do capital. Separadas, são terreno fértil para a invasão, a dominação. Infelizmente o que temos visto no caso da Venezuela e de Cuba é a omissão reverente. Um saco de arroz, tudo bem, mas uma posição mais firme contra os ataques, aí já é pedir demais. Restam as notas de repúdio, inócuas e cínicas.


O fato é que, sim, estamos sozinhos e precisamos salvar-nos a nós mesmos. Difícil tarefa, mas, que outra saída? Quem sabe um dia, algo mude… É o que nos mantém na luta, mesmo que, como Martí e Camilo Torres, possamos vir a cair no primeiro combate. Indefectivelmente temos de seguir em frente, fiéis a nossos sonhos de vida boa e bonita para todos. 


Na verdade, somos assim como o herói mexicano, Chapolin Colorado,  que, mesmo apavorado e sem poder, avança sobre o inimigo munido apenas de seu profundo amor pela vida. Assim nós. P'alante!



terça-feira, 5 de fevereiro de 2019

Que viva o povo bolivariano


Eu lembro de 2004 quando o mundo inteiro se manifestou contra a invasão do Iraque. Era óbvio que os Estados Unidos usavam da mentira para respaldar a invasão. Não havia armas químicas, nunca houve. Mas, os EUA sempre usaram da mentira, ao longo de sua história, para justificar seus crimes. E, ainda que houvesse passeatas, marchas, protestos em vários lugares do planeta, os EUA foram lá e promoveram a onda da destruição, que segue até agora. Já tinham feito a mesma coisa no Afeganistão em 2001 para perseguir seu velho amigo e aliado Bin Laden. Julian Assange, com o WikiLeaks foi quem desvendou os crimes e por isso vive trancafiado na Embaixada do Equador em Londres, jurado de morte pelos senhores da guerra. 

Nesse mundo é assim: os heróis de verdade, como Julian Assange e Edward Snowden  são perseguidos, enquanto os assassinos circulam livremente. 

Agora, a mentira da vez é a Venezuela. Os EUA precisam destruí-la, como destruíram o Afeganistão, o Iraque, a Líbia, o Líbano, a Síria. Há que atacar e dominar todos os lugares que têm petróleo. Venezuela desgraçadamente tem e desde a ascensão de Chávez usa os recursos do petróleo para a maioria da população. 

Então, os EUA e os lacaios locais decidiram estrangular o governo. Roubam seus recursos, seu ouro e sua possibilidade de atender a população. Fecham as portas do comércio e  impedem que entre a comida, os produtos de primeira necessidade. Vem a fome, vem o terror. 

O mundo inteiro se levanta contra mais essa ignomínia. Mas, os líderes mundiais que se ajoelham diante do império e também aproveitam para abocanhar algum ganho, não querem nem saber. Aceitam a mentira e respaldam o golpista que se autonominou presidente, sem ter recebido o respaldo das gentes venezuelanas. Aceitam porque querem lucrar com tudo isso. Dane-se o povo que morre de fome. Que morram. Assim poderão gritar aos quatro ventos que foi o bolivarianismo que os matou.

Lá dentro da Venezuela o povo bolivariano está sofrendo a fome, a falta de remédios, o terror. Mas, eles sabem de quem é a culpa. Dos vende-pátria, os mesmos que governaram a Venezuela por séculos, mantendo-os na escravidão. Os mesmos que agora se aliam ao império, aos senhores da guerra, para destruir a generosa proposta de Bolívar. O libertador sendo traído outra vez, num eterno retorno. 

Tenho muita clareza do que é o governo do Maduro e tenho muitas críticas a sua postura e política. Mas, jamais me aliaria aos monstros do terror apenas para tirá-lo do poder. A Venezuela precisa seguir seu caminho autônomo, com as gentes decidindo por onde ir. Se há oposição de esquerda, que se organize, que dispute, que enterneça os corações. Mas, como aceitar uma oposição que se diz de esquerda e que se junta ao deputado golpista, think-tank dos EUA? Nada justifica isso...

Sei que nossa voz se perderá no mar de ódio, de desinformação, de ignorância. Sei que nada podemos na nossa impotência. Mas, não poderia deixar de dizer que repudio a agressão que os EUA empreendem contra a Venezuela desde 1998, quando Chávez assumiu, e que agora assume sua cara mais nefasta. A mesma velha cara do terror que vem matando e destruindo a vida dos trabalhadores, dos lutadores, dos governantes que querem garantir soberania. 

Não há conciliação com o império. Que viva a gente bolivariana e chavista. Que resista e que se mantenha de pé. Mesmo que esteja sendo abandonada pelos oportunistas. 

quarta-feira, 29 de agosto de 2018

Venezuelanos voltam para casa


Enquanto a mídia a mando dos Estados Unidos transforma em “crise humanitária” a migração de venezuelanos para países vizinhos, outros tantos sonham em voltar para seu país, por não suportarem as condições de vida e trabalho nos países para onde migraram em busca de vida melhor. Por conta disso, nessa semana o governo venezuelano disponibilizou um avião para trazer de volta para casa dezenas de venezuelanos que estavam no Peru. 

Como a Venezuela tem sofrido desde 2015 uma guerra econômica, com a ação criminosa de empresários escondendo comida, remédios e provocando escassez, muita gente decide pegar as trouxas e sair do país. Essa migração tem sido bastante incentivada pelas forças oposicionistas do governo Maduro e por conta disso se disseminam propagandas sobre como a vida no estrangeiro pode ser melhor, inclusive dizendo que os governos do Brasil, Peru e Colômbia podem assegurar casa, saúde e crédito para novos empreendimentos.  Algumas pessoas caem nesse conto e cruzam as fronteiras. 

Mas, chegando aos países, não encontram as promessas feitas. No caso do Brasil, há poucas semanas, os venezuelanos foram rechaçados por hordas violentas, também organizadas por políticos e entidades conservadoras brasileiros. O resultado é mais tragédia para uma gente já golpeada pela guerra econômica travada pelos Estados Unidos contra a Venezuela. 

Como resposta a campanha da direita que procura incentivar a migração, o governo da Venezuela tem incentivado a volta. Nessa segunda-feira, um avião lotado partiu de Lima, Peru, para Caracas, com um grupo de cem pessoas. Outras, que moram mais perto da fronteira, estão vindo por terra. Ao chegarem, no encontro emocionado com familiares, contaram que foram enganados com falsas promessas e chegando ao Peru foram explorados por empresários que pagam salários com valores abaixo do prometido. Alguns também foram vítimas de coiotes e traficantes de drogas e pessoas.  
Quem vive na Venezuela sabe o que têm sido esses últimos anos de ataque econômico. Os grandes meios divulgam incessantemente que o país será atacado pelos Estados Unidos, que vai faltar comida, que o terrorismo vai atacar. Tudo isso provoca medo e desespero nas pessoas, que acabam caindo nas armadinhas da migração provocada. 

O governo de Maduro iniciou uma série de medidas para vencer a galopante inflação, também provocada pelo ataque econômico, e espera que isso possa melhorar a situação. Ele insiste que não faltará comida, embora, é claro, a guerra movida contra a Venezuela obrigue a população a alguns sacrifícios, como as já conhecidas filas. 

A migração na Venezuela sempre existiu, como em todos os países latino-americanos. Uma olhada nos números da própria Organização das Nações Unidas mostra que hoje, há muito mais colombianos e brasileiros na Venezuela do que venezuelanos na Colômbia ou no Brasil. Mas, essas informações a mídia não passa porque o que interessa é fazer crer que o país bolivariano é um inferno de onde todos querem sair. 

Os cubanos sabem muito bem o que é isso. Desde 1959 que os Estados Unidos move feroz campanha contra a ilha. Mas, lá, as gentes se mantiveram firmes e de pé. Na Venezuela também. A maioria apoia e confia que, junto com o governo, vai vencer a guerra movida pelos EUA contra o povo.  Não é coisa fácil porque a direita venezuelana segue atuando com desenvoltura no país, tendo como braço armado os grandes meios de comunicação. A pedagogia do terror e do caos tem sido bastante eficaz, minando as possibilidades de soberania do país. É uma batalha, é a luta de classes. A velha elite petroleira que perdeu poder, aliada com os EUA, querendo voltar. E para isso, vai destruindo o país e o povo junto. Para eles, pouco importam essas pessoas que hoje saem da Venezuela aterrorizadas com suas campanhas de ódio. Tudo o que querem é retomar o controle do país.


terça-feira, 25 de julho de 2017

La Constituyente vá!


Essa é uma semana movimentada na Venezuela. No próximo domingo, dia 30, acontecem as eleições para a formação de uma nova Assembleia Constituinte que pretende enfrentar a grave crise que se abate sobre o país e aprofundar o poder popular. A campanha tem sido intensa, muitos são os candidatos que concorrem representando setores da sociedade e também regiões do país. A intenção é garantir a maior representatividade possível.

Os políticos de oposição, que são os responsáveis pela guerra econômica e pelas “guarimbas” (trancamento violento de ruas e incêndios a prédios públicos) decidiram não participar do processo e seguem buscando construir espaços paralelos de poder, sem muito sucesso. Chegaram a organizar até um plebiscito consultando a população sobre a saída de Maduro e conseguiram mobilizar sete milhões de pessoas, o que não avança muito no número de votos que têm garantido na disputa com o chavismo. O resultado, que não tem qualquer valor oficial, não surpreende, afinal, a política na Venezuela sempre foi bastante polarizada e a participação intensa. De qualquer forma, a capacidade de organização da oposição mostra que a disputa continua dura, com tem sido desde sempre na luta de classes vivida pelo país a partir do aparecimento de Hugo Chávez.

Hoje, as guarimbas que chegaram a colocar fogo em um hospital infantil e vários prédios públicos, arriscando a vida de centenas de crianças, já começam a ser rechaçadas com vigor pela própria população. O medo está esgotado. Nas ruas, não são poucas as ações de enfrentamento com a exigência do destrancamento das ruas e as protagonistas são as mulheres. Elas saem dos carros, arregaçam as mangas e retiram as barreiras das ruas além de darem lições de moral nos guarimbeiros. Na última semana uma tentativa de incêndio no prédio da TV pública VTV foi imediatamente rechaçado pelos trabalhadores que colocaram, literalmente, os guarimbeiros para correr. Os grupos seguem com trancamentos surpresa nas ruas do centro da capital, mas ninguém se arrisca fazer uma guarimba nas comunidades de periferia, onde o bolivarianismo é forte. E é justamente nas comunidades onde a campanha para a Constituinte tem sido mais intensa. Ali, as pessoas estão preocupadas em garantir a vida na Venezuela, vida boa para todos, sem marcha atrás.

De qualquer forma o dia 30 não deverá ser tranquilo. A oposição mais violenta, comandada por Leopoldo Lopez, vai agir e esperam-se atos de terror. Desde o dia 20 de julho a MUD, que congrega a maior força de oposição comandada por Henrique Capriles, convocou uma greve geral, incentivando o desaparecimento de produtos das prateleiras e chamando a população para parar o país, impedindo assim que as eleições aconteçam.

Também convocou um “governo de unidade”, que nada mais é do que a proposta de um golpe. Ou seja, eles criam um gabinete de governo paralelo e comandam a greve, visando a derrocada do presidente. A greve foi chamada para a última sexta-feira e conseguiu garantir vários pontos de trancamento de rua. Houve dois mortos nos enfrentamentos, mas o movimento da oposição não chegou a ser massivo. Como já se viu, há certo esgotamento das ações violentas. De qualquer modo é certo que essa semana haverá mais alguma tentativa de barrar a eleição e não será na paz. A MUD segue apostando numa saída não eleitoral, pois sabe que não tem maioria.

No campo do chavismo as coisas também não são um lindo céu azul. Há divergências e grupos em disputa. A diferença é que mesmo aqueles que estão mais à esquerda e criticam o governo de Nicolás Maduro sabem que com a oposição no poder a Venezuela volta na história. Então, preferem o silêncio e fazer a disputa por dentro, tentando ganhar o maior número de cadeiras na Constituinte para fazer avançar as políticas mais radicais.

Segundo a análise do economista Nildo Ouriques, o principal nó na divisão das forças chavistas é a política econômica que tem sido levada pelo presidente Maduro e que, segundo ele, é a que alimenta a oposição. Maduro seguiu apostando na conta de capital aberto, sem tocar nos banqueiros. “A conta de capitais abertos permite que o sistema bancário pegue as divisas petroleiras e coloque tudo fora do país. Isso provoca a inflação e todo esse caos econômico. O governo tinha que ir para cima dos bancos. E não vai”. Nildo insiste que o governo Maduro não tem uma estratégia econômica para fugir do poder dos bancos, prefere manter o acordo com a elite, mantendo-a endinheirada e não consegue dar um uso produtivo para as divisas por causa do rentismo. Então é um círculo que precisa ser rompido.

Outra divergência entre os chavistas reside no fato de que Maduro não chamou um referendo para decidir se ia ou não à Constituinte. É fato que a Constituição atual permite que o presidente, com seus ministros, decida, mas essa nunca foi uma prática do chavismo. A posição mais previsível era de que a população fosse primeiro chamada a decidir sobre isso, como sempre foi no governo de Chávez. Maduro considera que a situação de guerra que o país atravessa foi a que levou a uma decisão assim, mas, de qualquer forma, há quem não concorde. Ainda assim, a aposta agora é garantir que a Constituinte saia e a vida siga, com a população conquistando mais poder.  

O fato é que enquanto a população se organiza para não permitir que retorne ao poder o grupo apoiado e financiado por Washington, a batalha midiática contra a Venezuela segue a todo vapor. Os meios chamam de ditadura um país que mais faz eleição na América Latina, senão no mundo. Pois na Venezuela ainda quem manda é o povo. E se isso é uma ditadura, ela é bem mais democrática que a ditadura do capital na qual quem manda é um pequeno grupo de endinheirados.

Por isso que quem vai dar a direção sobre para onde vai o processo bolivariano é a população. Não tem sido fácil nesses anos todos acossada pelo ataque direto e implacável do imperialismo. Golpes, guerra econômica, violência. Todas as armas contra o poder popular estão sendo testadas por lá. E a população tem resistido. Agora, é mais uma prova. Está mais do que claro, pela análise das falas da oposição, que a tática é derrubar Maduro pela violência. Ninguém quer paz no grupo da elite, até porque não são eles os que estão nas ruas fazendo o combate. Não são eles os que tombam. Seus jatos estão sempre à postos para tomar o rumo de Miami. Já para a gente venezuelana, não há ir e vir para os Estados Unidos. A vida dela é ali mesmo, na Venezuela de Bolívar. E, com ele, assim como com a memória de Chávez, seguirão construindo a liberdade. 

terça-feira, 23 de maio de 2017

O terror na Venezuela vem da oposição


Oposição ao governo Maduro começou trancando ruas, depois, passou a queimar prédios públicos. Chegaram a colocar fogo em um hospital infantil. Agora, queimam na rua pessoas que eles identificam como "chavistas". Uma série de ações coordenadas e financiadas possivelmente pelas instituições dos Estados Unidos. A intenção é provocar uma guerra civil, destruir economicamente a Venezuela e recuperar o poder. Com todos os erros de Maduro, a maioria da população ainda prefere o bolivarianismo e nessa nova fase da luta, certamente haverá de tomar as armas para defender a revolução. A oposição, hoje estrategicamente liderada pela mulher de Leopoldo López não está nem aí para os jovens que se matam nas ruas. O que quer é colocar outra vez a mão no petróleo. Uma tristeza. Todo apoio ao povo venezuelano, soberano e lutador. No pasarán!


sábado, 18 de junho de 2016

Venezuela: avançam as missões


Nicolás Maduro, presidente da Venezuela, anunciou nesse sábado que a partir da semana que vem inicia a entrega de mais 200 bases das Missões Socialista em todo o país. Segundo ele, essas bases são parte do programa Pobreza Zero e visam levar as missões diretamente às famílias necessitadas. Conforme números do próprio governo existem pelo menos umas 1.500 comunidades em extrema pobreza no país e as bases são centros logísticos que deverão garantir os serviços de saúde, alimentação, atenção social e educação.

As bases das missões são formadas por quatro módulos. Um deles serve como moradia para os médicos, que servem à comunidade 24 horas, com atenção permanente. O segundo módulo é usado para os programas de formação e cultura. Nele funcionam os Simoncitos (espaço para educação inicial), a missão de alfabetização, a missão de educação secundária e a missão de educação universitária. 

No terceiro módulo ficam os consultórios de atenção primária, com o funcionamento da Missão Sorriso, que garante tratamento dentário gratuito e no quarto módulo está o Mercado de Alimentos, onde são vendidos alimentos a preço baixo, subsidiados pelo governo bolivariano.

As missões são espaços de organização popular que visam atender toda a população e as bases são os espaços concretos onde essas missões se efetivam. Com essas novas 200 bases o governo avança na consolidação do atendimento às necessidades básicas da população mais empobrecida. Atualmente existem, em funcionamento, 1.059 bases de atendimento e são consideradas pelo presidente como um "milagre da revolução" por seguirem atendendo apesar da guerra econômica travada contra o governo e a população.

sexta-feira, 19 de junho de 2015

A Venezuela e os políticos brasileiros



No mês de janeiro, eu estava na Venezuela. Naqueles dias o país atravessava uma grave crise de abastecimento provocada por um boicote empresarial. Como uma boa parte da cadeia de distribuição ainda está na mão privada, essa fatia do empresariado decidiu segurar alguns produtos, fazendo com que a população se alarmasse. Pelas emissoras de televisão comercial ficava evidente o clima de quase terrorismo que se tentava impor. Por isso, é absolutamente mentirosa qualquer alegação de censura na Venezuela. O empresariado - de maioria golpista - diz o que quer, como quer e quando quer. Nada os impede de provocar o medo, o terror e a incitação ao golpe. Isso é coisa cotidiana. A diferença é que lá existe também uma rede de emissoras estatais, públicas e comunitárias, que disputam as informações. 

Para aproveitar o clima de desespero que se esperava criar, a oposição liderada por Henrique Capriles resolveu promover um seminário sobre "democracia", chamando para debater o tema conhecidos ex-presidentes de países latino-americanos, conhecidos, inclusive, por seu caráter autoritário, como Felipe Calderón, do México, Pastrana, da Colômbia e Piñedo, do Chile. Não bastasse o paradoxo de se discutir democracia com tipos como esses, os ex-presidentes foram levados para visitar Leopoldo López, o ex-alcade de Chacao, que está preso por incitar à violência, provocar mortes e promover golpe. Obviamente que não entraram na penitenciária. Não haviam solicitado visita, não era dia de visita e não entraram. Foi o que bastou para que iniciassem uma algaravia internacional chamando o presidente Maduro de ditador e outras bobagens do tipo. Há muitas críticas que se pode fazer ao presidente venezuelano, mas essa certamente não cabe.

Ora, para quem não sabe, a Venezuela é um país que, desde o ano de 1998, quando Chávez ganhou a eleição presidencial e inaugurou a quinta república, já passou por quase duas dezenas de eleições e referendos. Lá, a democracia é participativa e a população tem poder. Na nova Constituição, o estado bolivariano - ao contrário da maioria dos estados liberais - tem cinco poderes: o legislativo, o executivo, o judiciário, o eleitoral e o popular. O poder popular é o que se sobrepõe a todos. Qualquer lei pode ser revogada se mais de 20% da população chamar um plebiscito ou um referendo.  Que ditadura seria essa se a população organizada, em número tão pequeno, já pode atuar em consequência e definir os rumos do país? 

Assim que se pode falar tudo sobre Maduro e a Venezuela, menos que naquele país exista uma ditadura. Seria de uma ignorância total ou então má fé. Obviamente que nossa mídia comercial "compra" a ideia da ditadura porque é o que diz a polícia do mundo, os Estados Unidos, fazendo o jogo ideológico contra a Venezuela.  

A ida dos políticos da direita brasileira à Venezuela para uma pretensa visita a Leopoldo López está dentro dessa armação ideológica. Existe uma tentativa, por parte da oposição venezuelana, de apresentar ao mundo o jovem ex-prefeito como um preso político. Ele não é. Em 2014, logo depois da derrota de Capriles nas eleições presidenciais, sem aceitar o resultado das urnas, políticos ligados aos partidos que o apoiaram incentivaram uma série de ações violentas que queimaram postos de saúde, escolas, e causaram mais de 40 mortes. Todas essas violências foram comandadas por Maria Corina Machado, que comprovadamente recebeu recursos dos Estados Unidos através de sua organização Súmate, o próprio Henrique Capriles, que governava o estado de Miranda, e o ex-prefeito de Chacao, Leopoldo López. Esse último convocou os partidários para não só praticarem violência, mas para atuarem no sentido de alavancar um golpe contra o governo democraticamente eleito. Foram dias de conflitos nas ruas que ficaram conhecidos como "guarimbas".

A prisão de Leopoldo López está dentro desse contexto. Imaginem se Aécio tivesse ganho as eleições e Lula fosse à televisão pedir que os jovens saíssem às ruas, matassem pessoas e depusessem o presidente eleito. O que aconteceria? Não seria ele preso por incitar a violência e o golpe, dentro das leis brasileiras, num estado democrático? Pois é o que aconteceu na Venezuela. López está cumprindo pena por um crime.  

Se pessoas como Aécio, Caiado e Agripino querem ir à Venezuela prestar solidariedade a um "companheiro", isso lá é problema deles. Poderiam ir com seu dinheiro próprio, agendar visita, e cumprir com os ritos da amizade, se é que são amigos de López. Creio eu que nem o conhecem. Agora, viajar com um avião do estado brasileiro para interferir na política de outro país, me parece algo bem estranho. Como eles mesmos afirmaram, não foram impedidos de entrar no país e nem mesmo impedidos de ver o ex-prefeito, agora um preso comum. O que viveram nas ruas de Caracas foi o mesmo que, em janeiro, viveram os ex-presidentes que tentaram bancar os democráticos: foram rechaçados pelos bolivarianos. Os partidários da revolução bolivariana, que são a maioria da população, sabem muito bem o que significam as ações da oposição venezuelana. Sabem que existe um ação sistemática de tentativa de desestabilização e para isso são criados esses factoides cotidianos.

Fossem realmente amigos de López e quisessem prestar apoio, os senadores poderiam ter ido à Venezuela, sem alarde, fazer a visita, ver as condições do encarcerado e fazer suas considerações depois. Mas, não. O plano é exatamente esse. Criar o espetáculo para que possam repetir o velho mantra de que há censura, que falta liberdade de expressão e que o ex-prefeito é um injustiçado. 

A Venezuela vive granes dilemas e passa por problemas em todos os campos. Mas não há censura e nem falta liberdade de expressão. Se houvesse, os senadores brasileiros não teriam feito o circo que fizeram.

Para além do papelão que cumpriram na Venezuela é importante salientar o também papel ridículo que cumprem os deputados que aprovaram moção de repúdio contra o governo da Venezuela, sendo que quem botou os senadores brasileiros para correr foram as pessoas nas ruas, o povo, as gentes organizadas. O argumento de que os políticos brasileiros estavam defendendo os "direitos humanos" não se sustenta e a população sabe disso muito bem.  López está preso porque feriu a lei, ele não está tendo os direitos violados. Ele foi o que violou direitos e ajudou a promover incêndios e dezenas de mortes. Não é um bom menino. 

A Câmara dos Deputados deveria investigar os fatos e não votar no calor das emoções dos que levaram o corridão. Assim também a imprensa brasileira deveria se debruçar sobre os fatos e não ficar na vergonhosa fabricação sistemática de ideologia.

A Venezuela está fazendo seu caminho numa revolução que não se fez com armas. Ela vai acontecendo no campo democrático, com os inimigos atuantes e falantes. A liberdade de imprensa e a liberdade de expressão são totais na Venezuela. O que não há é arrego com quem não cumpre a lei. E quem está de olho é o povo que pede ao governo que aplique a mão dura, que não incentive a impunidade. 

Na Venezuela o que manda é o poder popular. Talvez os senadores brasileiros tenham aprendido a lição.  

domingo, 29 de março de 2015

A Venezuela e os defensores da democracia



A Venezuela não é um país socialista, embora Chávez tivesse sonhado com um caminho até esse modo de organizar a vida. Não teve tempo. Mas, por outro lado, não se pode negar que a Venezuela é um país que tem um sistema democrático bastante original e avançado. Para começo de conversa, esse país da ponta norte da América do Sul conseguiu desenvolver um sistema de governo bem diferente dos demais países de corte liberal. Lá, não existem apenas os tradicionais três poderes: executivo, legislativo e judiciário. São cinco os poderes que definem a vida do país, acrescentando-se o judiciário e o popular, sendo que o último é o mais importante. Ou seja, o elemento central de governo é a democracia popular. Na Venezuela manda o povo. Até o presidente pode ser retirado do poder por um referendo popular. Leis definidas pelo legislativo também podem ser revogadas se assim a população entender. É a democracia aprofundada. Nada pode ser menos parecido a um ditadura, como querem fazer crer alguns mandatários dos países centrais alinhados à política dos Estados Unidos. Numa ditadura, o povo não tem vez. E não é assim na Venezuela.

No mês de janeiro, a oposição ao governo de Nicolás Maduro - que faz o quer no país, sem que ninguém a constranja - chamou alguns ex-presidentes para discutir o tema democracia. Andrés Pastrana, da Colômbia, Sebastián Pinera, do Chile e Felipe Calderón, do México, todos eles governos títeres, quando no poder. Aliados dos EUA, escravos sem opinião. E, além disso, nenhum deles podendo servir de modelo para a democracia, nem mesmo a liberal-burguesa. Logo, o tal encontro para discorrer sobre democracia nada mais era do que uma farsa. O motivo central era desgastar o governo de Maduro, que passava por um período de crise, com um criminoso boicote de produtos, que esvaziou os mercados e obrigou as pessoas a viverem momentos de profunda tensão. Ações como essa, da oposição venezuelana, são bem conhecidas, e visam criar focos de violência para desestabilizar governos, abrindo passo para golpes ou intervenções econômicas.

Os três ex-presidentes foram visitar o que ele chamaram de "preso político", mas que a população chama de criminoso, por incitar jovens a atos de violência visando derrubar o governo. Pois eles não conseguiram entrar na penitenciária e alardearam pelo mundo inteiro que foram "impedidos" de ver o preso. Outra bobagem midiática. Não entraram porque não marcaram nem avisaram da visita. Mas, isso não evitou que disparassem suas diatribes contra Maduro, chamando-o de ditador, autoritário e ameaça ao mundo livre.

O presidente dos Estados Unidos, possivelmente o mandante de todo o imbróglio, decidiu dar uma de herói mundial - defensor da democracia -  e baixou um decreto considerando o pequeno país do norte da América do Sul, uma ameaça para os EUA. Outra bobagem homérica. Que ameaça pode representar um país como a Venezuela a um império militar e nuclear como os Estados Unidos? Nenhuma.

Mas, os meios de comunicação que dominam o mundo decidiram dar visibilidade a essa estupidez e a Venezuela voltou às manchetes como um lugar obscuro, onde a ditadura vige. Repito: a Venezuela não é uma ditadura, é um país democrático que serve de modelo de estudo a estudiosos de todo mundo pela sua original organização de cinco poderes. Uma democracia mais profunda que a tradicional. É uma novidade boa, mas disso nenhuma televisão fala.

Agora, não bastando toda a campanha desenvolvida pelo presidente Obama contra a Venezuela, outras lideranças políticas começam a engrossar o coro de apoio ao presidente estadunidense, visando dar cores de verdade a mais uma das mentiras inventadas pelo serviço secreto (nem mais tão secreto) dos Estados Unidos.

O tema é a prisão de Leopoldo López, o que incitou os jovens à violência, e a de Antonio Ledezma, outro político que conspirou pela queda do governo no episódios da guerra econômica, em janeiro. Os dois estão sendo pintados como os paladinos da democracia e recebem apoio de figuras como FHC, do Brasil e Felipe Gonzáles, da Espanha. Fernando Henrique, que foi o responsável pela entrega das estatais mais rentáveis do Brasil à empresas estrangeiras, diz que "já basta de abusos" na Venezuela. Mas ora vejam só. Seria de rir, se não fosse trágico.

E Felipe González já foi até expulso de Miraflores por Chávez quando tentou negociar a venda da CanTV a uma empresa telefônica espanhola que ele representava em 2006. A CanTV foi estatizada por Chávez, que ousou definir a comunicação como espaço estratégico na Venezuela.

Pois essa gente do tipo de FHC, González, Piñera  e outros que posam de vestais da democracia jamais tiveram coragem, quando nos seus governos, de aprofundar o processo democrático como fez Chávez. Jamais teriam topado uma reforma constitucional que desse ao povo poder maior. Tudo o que fazer é servir aos interesses das empresas transnacionais e dos governos centrais, dos quais são meros marionetes. Quem pensam ser esses senhores para abrirem a boca sobre a vida da Venezuela? Querem, por acaso, repetir a arrogância de outro refinado títere, o rei Juan Carlos, que ousou dizer à Chávez que se calasse. Ele, um monarca conduzido ao trono por um ditador?

Que se calem esses senhores sobre a Venezuela. Mal ou bem as gentes estão conduzindo seus destinos. Ao longo da quinta república estão realizando eleições, referendos, assembleias democráticas, e refinando sua democracia. Esse é o verdadeiro perigo que Obama não diz ao seu povo e ao mundo. O perigo da democracia mais profunda, popular. Essa é a ameaça que causa insônia ao monarca do "mundo livre" . Porque o "mundo livre" é uma pequena comunidade de ricos empresários, que controla os governantes a base de muito dinheiro, usando as populações a seu bel prazer, produzindo guerras, miséria, violência e medo.

A democracia direta, a democracia que se aprofunda e se aprimora é objeto de terror para esse "mundo livre", porque ela desloca o poder dos pequenos grupos legislativos e executivos, que são fáceis de corromper. Ela coloca o poder na mãos das gentes, muito mais numerosas para serem corrompidas. Esse é o medo, essa é a ameaça.

O doloroso nisso tudo é pensar que a maioria das gentes, a que realmente tem o poder de mudar as coisas, segue dominada pelo brilho ilusório da televisão ou pelas mentiras das redes sociais. Não querem ver a verdade, ou não podem, por várias razões. Essa maioria, que um dia haverá de ver... E, aí sim, provocar a grande transformação. 


sábado, 28 de fevereiro de 2015

Um encontro com Simón Rodríguez



 A casa das primeiras letras, onde Simón Rodríguez deu suas primeiras
aulas.





















A primeira vez que ouvi falar de Simón foi num pequeno texto de Galeano. Nele, o escritor uruguaio contava sobre esse educador venezuelano que era chamado de "el loco", por estar completamente a frente de seu tempo numa Caracas do final do século 18. Era 1791 quando ele redigiu seu primeiro texto de crítica da escola. O jovem de vinte anos queria uma escola na qual os professores fossem valorizados. No seu quase panfleto  “Reflexões sobre os defeitos que viciam a Escola de Primeiras Letras de Caracas e os meios para uma reforma por um novo estabelecimento”, ele arrasa com o sistema vigente, critica o fato de só ser oferecida educação às crianças brancas e aponta a necessidade de educar as crianças pobres, aos agricultores, aos artesãos. “O regime deve ser de igualdade”, diz. 

Mostra também que o sistema não se preocupa com a formação dos professores e insiste que esse deve ser o principal fator de mudança. Como proposta exige o aumento do número de escolas, capaz de atender todas as crianças em idade escolar, a formação de professores profissionais, salários dignos para os educadores, jornada de seis horas, móveis adequados para o ensino e finalizava exigindo que se tomasse a sério a escola de primeiras letras. “Uma escola até pode ser superficial, mas não inútil. O aluno não pode esquecer o que aprendeu. Há que ter cuidado e delicadeza para dar às crianças a primeira ideia de uma coisa”. Dizia isso porque havia a tradição de ensinarem até nas barbearias, enquanto afeitavam os clientes. Simón abominava isso. Defendia que como nessa idade a criança se distrai com qualquer coisa, era necessário um ambiente adequado e que o professor também prestasse atenção nas brincadeiras. “É necessário saber ler em todos os sentidos e dar a cada expressão o seu próprio valor”.

Por conta disso passou a ser olhado de revés pelos colegas e pelos que cuidavam da educação. Mandou tudo às favas e foi ser preceptor de Simón Bolívar, aquele que viria a ser o libertador. Naquela cabeça plantou ideias de liberdade e foi-se pelo mundo, plantando escolas por onde passava. 

A história desse homem passou então a me perseguir depois da leitura do texto de Galeano. E, com o tempo fui descobrindo toda a sua trajetória de vida. Nesse encontro, amando-o. O louco nada tinha de louco. Era um amante do conhecimento, um amante dessa terra nova. "Imitamos demais a Europa. É hora de inventar", dizia, juntando meninos, meninas, negros e índios em sua própria casa, repartindo o saber. E, quando chegou a revolução, ele voltou para a América para formar gente capaz de viver numa democracia. Acolhido por Bolívar ele bem que tentou implantar seus métodos, mas, com a morte prematura do libertador, caiu em desgraça. Ainda assim, escreveu uma vasta obra, hoje recuperada pela revolução bolivariana, a partir de Chávez, que também o amava.

E foi atrás de seus passos que cheguei em Caracas nesse janeiro de 2015. O desejo era conhecera a atmosfera na qual ele viveu, as ruas por onde caminhou, a escola onde ensinou as primeiras letras e onde gestou seu pensamento original. 

No centro histórico da capital venezuelana está o bem cuidado prédio onde o maestro ensinou. Bem no bulevar Panteão. Hoje é um museu que abriga a história do educador. Recuperado, o prédio ainda concentra uma biblioteca com a obra de Simón e outras obras que falam dele, um café e um espaço interativo no qual os jovens podem jogar com aplicativos nos quais os personagens não são mercenários decepando cabeças, mas os heróis da independência.

Na tela grande podemos ver um Bolívar menino - com a idade de nove anos (tempo em que teve Rodríguez como professor) - contando a história do mestre e também outros momentos da vida do educador. Desde um longínquo passado nos sorri aquele que aprendeu pelas mãos de Rodríguez a beleza de semear a originalidade. Não foi sem razão que Bolívar ousou pensar uma Pátria Grande. 
O recorrido pela casa é um turbilhão. Passado, presente e futuro se misturam. A cada minuto entra um jovem para um passeio interativo com as máquinas, ou para sentar-se a mesa do café, folheando as ideias que saltam dos livros. Nas paredes, pequenas frases do educador indicam caminhos e sonhos. Pode-se ficar por ali uma eternidade, porque há muito para aprender.

Na porta, um Simón Rodríguez de papelão dá as boas vindas e é um repetir-se de cliques das pessoas que querem mostrar-se ao seu lado, numa fotografia insólita. Meninos, jovens, gente madura, é uma procissão. O "louco" que foi corrido de Caracas agora descansa bem ali, entre livros e mentes ávidas. Pode-se até sentir a presença  do mestre, espiando pelas frestas. 

Quando saiu de Caracas ele jurou nunca mais retornar, tanto que morreu bem velho, no Peru, sem jamais voltar a pisar no solo pátrio. Mas, certamente, hoje, amado de forma tão intensa pela juventude bolivariana, o sério e compenetrado professor está feliz. Aquelas carinhas risonhas e festivas estão cheias de novos sonhos, de ideias de integração, de liberdade e de originalidade. Bem ao gosto de Simón. E a gente sai dali renovada porque, enfim, o mestre tem o lugar que merece no coração e na mente de toda uma pátria, a grande pátria latino-americana.

quarta-feira, 5 de março de 2014

Um ano sem Chávez


















A vida na Sabana Grande

Fizemos uma volta em torno do sol, sem Chávez. Quando anoiteceu, abri uma cerveja, bem gelada, e fui sorvendo gole a gole. Como se estivesse de novo na Sabana Grande. Foi ali que descansei o corpo nos dias em que vivi a Venezuela de Chávez. Era 2006. Tinha reservado hotel aqui do Brasil, sem saber como era, nem onde se localizava. Tudo que sabia é que era em Caracas. Pois o Hotel Cristal era um desses hotéis de fluxo contínuo, que serve aos amantes do grande bulevar da Sabana Grande. Só por isso já aparecia belo aos meus olhos. Porque abrigava esses amores fortuitos, apressados, de delicado estilo, cheios de urgência. 

Na recepção, nos aguardava um mal-humorado Jesus, anti-chavista, portanto sem qualquer afinidade com seu homônimo, nazareno, que por certo amaria a revolução bolivariana. Achando ruim que chegassem tantos estranhos – e o que é pior, nem eram casais – o tempo todo ficou criando caso. Talvez não conseguisse conceber hóspedes normais, sem a marca do amor que urge se consumar. Os chegantes, alguns já intimidados com a simplicidade do lugar e com sua peculiar especificidade, se olhavam sem saber o que fazer. Mas, com o passar dos dias, tudo foi se acomodando, O hotel Cristal virou casa. O mau humor dos porteiros foi tirado de letra e alguns deles, como o Abrão e o Omar, viraram amigos. 

Saindo do Cristal, assomava toda a beleza do bairro onde ele estava situado: Sabana Grande. O bairro era um amontoado de barracas de lona e um universo caótico de sons de salsa, merengue e música llanera. E, bem ali, no coração da Sabana, estávamos nós, um pequeno grupo de catarinenses. “Cuidado! É muito perigoso! Não se desgrudem das bolsas! O povo aqui ataca com faca! Fiquem longe dos drogados!” Estes eram alguns dos conselhos do povo do hotel e de quem mais a gente encontrasse na cidade. Pois a Sabana Grande era um espaço de pobres, onde vicejavam os hotéis de encontros e as tascas, casas de shows com mulheres de preço bom. Pelas ruas, tão logo levantavam acampamento os trabalhadores informais, chegavam os mendigos, drogados, prostitutas e as gentes sem porvir que buscavam um pouco de amor, ainda que em braços e bocas alugadas. 

Mas, apesar de todos os avisos, ninguém ali teve problemas. Terminadas as funções do Fórum e as visitas a grande Caracas, voltávamos e nos aboletávamos em alguma mesa de um dos bares mais animados. Depois de algumas “polares” geladas, muito bem atendidos pelo simpático Jairo – chavista de coração - a gente vinha saltitando pela calçada suja, sem que ninguém interpelasse. Nenhum roubo, nenhuma agressão. Por conta desses paradoxos da vida, na perigosa Sabana, nosso refúgio era o Cristal. E assim, por tão frágil, não podia quebrar. Os perdidos do bulevar, num átimo de beleza, compreenderam a metáfora e nos deixaram em paz. Garrafadas, assaltos e confusões? Sim, tudo isso aconteceu, mas só depois que os catarinas já estavam seguros nas camas repartidas do Cristal.

Aquela vivência na Sabana Grande nunca mais saiu das retinas. Lembro até hoje o ranger do elevador do Cristal,  pequenino, fatigado de tanto levar os seres do bulevar rumo às camas do amor urgente. Era irascível. Sacudia, balançava, travava, demorava. Parecia triste. Não via mais aqueles olhos oblíquos de quem se esconde, aquele trote no coração de quem escapa da vida certinha, aquele suor assustado de quem sabe que vai viver uma delícia proibida, aquele tremor de mãos que anseiam por toques, aquele cheiro de corpo de fêmea e macho, fremindo de paixão. A velha engrenagem do Cristal estava a ponto de falhar. Na sua caixinha entravam e saiam todos aqueles viajantes estranhos, espantando os hóspedes fortuitos. Morreria o elevador se não pudesse ver florescer o amor, esse, feito de carne, dor e segredos. Ainda bem que os dias passaram rápido e, quando saímos, parece que ele retomou seu ritmo normal, sem paradas e sustos. Mas seu barulho ainda ressoa em mim. Saudade!

Aqueles foram dias de vertigem. A revolução bolivariana estava no seu auge. Por todo lugar a luta de classes se expressava. Anti-chavistas, chavistas, venezuelanos apartidários, sindicalistas. Tudo estava em ebulição. Era o Fórum Social Mundial e também havia gente de todo mundo, doida para ver e sentir as transformações que tinham começado em 1998, com Chávez.  Andávamos pelos bairros conhecendo os “simoncitos”, espaços para a educação infantil, as escolas novas, as estruturas para atendimento médico, os trabalhos das missões. 

Ficou nas retinas o Maracao, populoso bairro da periferia, misto de reduto português com venezuelanos da gema. Com Raul e Daniel, dois moradores locais, circulamos por ali, sentindo a força da transformação e o sentimento de profundo amor que as gentes tinham pelo “comandante”. Chovia forte e os estudantes se amontoavam nas paradas, entrando aos borbotões. Ao saber que ali viajavam brasileiros logo queriam saber de coisas. Faziam perguntas, contavam de suas vidas e confirmavam o que dizem quase todas as gentes mais humildes de Caracas. “Com Chávez, é bom!” 

Depois circulamos pelo “23 de Enero”, o famoso bairro que cerca Miraflores, o palácio presidencial. Dizia Daniel que até poucos anos atrás ninguém poderia andar por ali, assim, como fazíamos. “Era um reduto de violência, de assaltos, de gangues. Agora não, a comunidade assumiu o controle. A gente pode passear, os velhos podem ficar ao sol e as crianças brincam nas praças. Tudo isso só foi possível com o poder popular”. Dos milhares de apartamentos populares que compõe o bairro, assomavam, nas janelas, as cabeças dos mais ferrenhos defensores da revolução bolivariana. Foram eles que, no golpe de 2002, desceram rua afora até o palácio, prontos a defender com armas e com a vida o governo de Hugo Chávez. Aquele era um bairro mítico e não havia como não se arrepiar ao andar pela calle La Silsa , uma rua imensa, cheia de casas e muros pintados com grafites pró-revolução. 

É essa Venezuela, prosaica, que hoje me assalta, enquanto celebro a semeadura desse homem que marcou a vida da América Latina. Sinto o cheiro do Cristal, o barulho do elevador, a alegria da Sabana Grande, o olhar cheio de eternidades daqueles que acreditaram na revolução bolivariana, dos que o amaram e o amarão. Como eu! 

Um trago, comandante!  


sábado, 22 de fevereiro de 2014

Apontamentos sobre Ucrânia, Venezuela e Brasil



O mundo das redes sociais tem provocado reações interessantes. Ora, serve para democratizar a informação, ora para confundir e difundir mentiras. É um terreno fluido, líquido, pantanoso. Navegar por esses mares do éter cibernético requer cuidado e, principalmente, formação. Como os conteúdos são jogados sem qualquer compromisso com a verdade - ou são mentiras propositais para confundir, ou são meras opiniões, o sentir de cada um sobre os fatos - apenas aqueles que se dispõe a investigar, procurar a fonte original, compreender a realidade, podem formar um quadro que verdadeiramente se aproxime do real. Só que isso dá trabalho, exige estudo, leitura, pesquisa sistemática. Então, o que parece ser hegemônico nos espaços como facebook, twitter ou plataformas semelhantes, é um bombardear incessante de informações sem fundamento, opiniões pessoais, preconceitos e muitas vezes até a discriminação criminosa.

Pode-se observar isso em questões bem específicas que envolvem a política mundial: as manifestações populares na Ucrânia, na Venezuela e no Brasil. Tem sido bem comum nas redes sociais, as pessoas compararem os três países como se fossem situações semelhantes. Uma postagem em particular diz assim: Na Ucrânia, o povo luta contra o socialismo, na Venezuela, luta contra o socialismo e, no Brasil, luta pelo socialismo. Nada poderia ser mais mentiroso. É absolutamente impossível comparar a realidade desses três países de forma tão simplista.

Na Ucrânia, a população está em conflito e mobilizada. Uma parte quer que o país estreite laços comerciais com a Rússia e outra parte quer a união com a Comunidade Europeia. Aí estão colocadas a luta de classes e visões distintas de mundo. Os que querem a União Europeia preferem estar na parceria com o centro do mundo capitalista, acreditando que, com isso poderão participar das promessas do sistema. E não é apenas a elite que anseia pelo pleno capitalismo. Ali também estão operários, estudantes, camponeses pobres, trabalhadores informais e ex-soldados que sentem-se à margem do bem-estar nessa nova Ucrânia pós-soviética. Esses, acreditam que essa outra forma de organizar o mundo, representada pela comunidade europeia, pode lhes dar uma chance melhor, afinal, nunca a tiveram.
Os que preferem a aliança com a Rússia não estão a favor do socialismo, até porque essa experiência há muito tempo que não existe mais naquele país. A Rússia aparece como um parceiro desejável porque tem um considerável poder, por conta de sua força nuclear e militar. E, também, por conta de que seus aliados são os que estão hoje no comando da Ucrânia. Mas, do ponto de vista da proposta de desenvolvimento, não há muitas diferenças com o projeto capitalista.

O certo é que a Ucrânia hoje tem uma sociedade dividida e está em conflito, mas os motivos disso não são tão simplistas assim, de ser contra ou a favor do socialismo. Aliás, como já disse, o socialismo nem está em questão. Há toda uma experiência do passado - de ligação com a antiga União Soviética  - que é rechaçada pelas novas gerações, há racismo, há rasgos fascistas, assim como há o medo de mergulhar na ilusão capitalista por conta da já conhecida derrocada de vários países da periferia da comunidade europeia. É complexo. E esse embate já gerou mais de 100 mortos, porque, afinal, é uma batalha de concepção de mundo. Os últimos informes apontam para um acordo entre a oposição (pró-europa) e o governo (pró-rússia) de antecipação das eleições e mais poder para o parlamento. Tudo isso pode significar o levantamento das barricadas, mas não garante que todas essas pessoas  - as bem intencionadas ou não - terão os ganhos que sonharam. A luta pelo poder recomeçará forte na batalha das eleições.

Na Venezuela a situação é radicalmente diferente. Não há um passado de ligação com o dito "socialismo" soviético. É o contrário. Ao longo de toda a sua existência como república, a Venezuela esteve dominada pela elite local, nascida e criada na exploração dos índios, dos camponeses e, agora, da riqueza natural que é o petróleo. Desde sempre a opção dos que comandaram o país foi pela exploração capitalista. A batalha que está dada hoje na Venezuela é sim, contra as propostas de caráter socialista iniciadas por Hugo Chávez. A chegada de Chávez ao poder em 1998 trouxe a possibilidade de repartição da riqueza do petróleo, que até então estivera na mão de muito poucos.  Isso começou a ser feito com uma série de mudanças estruturais que se iniciaram, mas que não se completaram. Logo, não há um regime socialista na Venezuela. O que há é um capitalismo de Estado que tem como proposta ir se socializando. Mas, esse objetivo tem sido algo bem difícil de alcançar.

A Venezuela não conseguiu alavancar o desenvolvimento interno, a indústria, a produção agrícola. A elite que segue fazendo batalha contra as propostas do governo - porque quer voltar a dominar a riqueza petrolífera - nunca pensou em apostar no desenvolvimento do país. Quando tinham a renda do petróleo, exploravam e enriqueciam.  Hoje, sem ela, exploram o setor de importação, que é igualmente rentável e não gera divisas, a não ser para eles. Então, o que está em disputa na Venezuela é um projeto de Estado e de desenvolvimento. É certo que nas fileiras dos "escuálidos", a oposição elitista, também tem gente simples, camponeses, trabalhadores, operários que tem suas próprias demandas, legítimas, mas que somadas ao golpismo, acabam se perdendo. Com certeza, entre esses trabalhadores, não deve haver quem queria a volta da exploração dos velhos oligarcas, mas eles também têm críticas ao governo bolivariano, que muitas vezes não são levadas em conta. Por isso gritam e se manifestam legitimamente, oferecendo outro projeto. Tudo isso torna igualmente complexa - embora não igual a da Ucrânia - a luta que se trava nas ruas. 

A semelhança com a Ucrânia é a da mobilização popular – tanto de facções reacionárias, como progressistas -  a realidade de uma sociedade em crise, mas os motivos que levam uns e outros às ruas são bem diferentes, e devem ser analisados nas suas respectivas conjunturas. Na Venezuela, o que se vê é um governo com ampla base e apoio popular, que não tem medo de chamar o povo às ruas, que convoca a população a defender a proposta bolivariana de desenvolvimento. O governo não se esconde e não escamoteia suas propostas. Tem problemas? Claro que tem! A Venezuela não é um país socialista, o governo - desde Chávez - comete muitos erros, se equivoca de caminho, volta, retoma. Há uma certa burocracia estatal se fortalecendo, há corrupção. Óbvio. É um governo de humanos. Mas, também há esse diálogo direto com as gentes, feito cara-a-cara e sem medo de defender as escolhas de cunho mais socialista ou progressista. Assim, os erros podem ser acertados. Tudo está em ebulição. Essa é uma luta interna, mas não dá para ser ingênuo. Aproveitando-se das divergências internas, o império - incorporado nos EUA - põe a sua mão. É igualmente óbvio que um governo bolivariano não é bom para os Estados Unidos. Eles preferem os amigos da velha elite, seus também velhos aliados. Vai daí que tudo isso se expressa nas ruas. Descontentes de esquerda, a direita renitente e os mercenários ianques.  Realidade explosiva e complexa. 

No caso do Brasil, as similitudes aparecem igualmente no crescimento da mobilização popular que esteve bastante adormecida nos últimos tempos. Como a opção do governo petista, desde Lula e agora com Dilma, foi de aliança com os banqueiros e com a elite dominante, os problemas de poder começam a se acirrar, porque a elite é insaciável. A escolha por seguir pagando religiosamente os serviços da dívida tira do governo brasileiro a possibilidade de realizar mudanças estruturais. Como analisou o economista Nildo Ouriques, no programa Faixa Livre, da Rádio Livre, nessa sexta-feira (dia 21) as políticas sociais do governo brasileiro não passam de "caridade", não conseguem ultrapassar esse limiar. Com isso, foi se formando uma grande bolha de descontentamento. Existem críticas fortes feitas por parte da esquerda, que, de forma clara tem apontado os desvios de curso, os erros estratégicos, as alianças funestas. Uma esquerda que mostra onde estão os limites e que aponta caminhos, sem ser levada em conta.

Pois esses limites e equívocos agora emergem. O desemprego é uma dos menores da história? Correto. Mas os salários são de miséria. Isso vai aprofundando o abismo das desigualdades sociais. O conflito acaba se explicitando, muitas vezes de forma indefinida e esparsa como mostraram as jornadas de junho. Com a completa falência dos partidos políticos, que deixaram de fazer política, "preferindo fazer trabalho eleitoral", como diz o economista e presidente do Iela,  Nildo Ouriques, não restou ao povo senão a revolta, que se mostrou nas mais variadas facetas, inclusive a da reação alienante. "Não sei porque estou na rua, mas se todo mundo está, também vou". Ou seja, era uma apropriação ingênua, mas não irreal, das demandas do movimento social organizado. Essas pessoas, de um jeito ou de outro sabem que o transporte é uma droga, a saúde é uma droga e a educação vive um estado de miséria. As coisas não estão bem! Muitas vezes, como na Venezuela e na Ucrânia, explodem em reações de cunho fascista, justamente porque falta trabalho político junto às massas.

Diante de todos esses conflitos e o acirramento da luta popular - que encontrou ainda mais força no derrame de dinheiro público para obras da Copa - qual foi a atitude do governo petista? De novo, o professor Nildo Ouriques oferece uma interpretação: "O governo não tomou posição diante do povo na rua, preferiu ignorar o conflito, não enfrentou o drama social que gera dependência e subdesenvolvimento. Em vez de convocar as massas para a luta nas ruas, na defesa de um projeto emancipador, abafou o conflito, não explicitou seu projeto de país". Com isso, acabou atiçando a direita que está sempre à espreita de qualquer deslize para se fortalecer.

A conjuntura brasileira, a exemplo da Ucrânia ou Venezuela, também é complexa. Há os jovens que anseiam mudanças, há os revoltados por causas difusas, mas legítima, há uma esquerda crítica que não pode ficar calada sob a pressão de se confundir com a direita, há partidos políticos com interesses coletivos legítimos, mas há também uma direita raivosa que arma e incita à violência, bem como militantes à soldo das políticas estadunidenses, como não poderia deixar de ser. Porque é preciso que se tenha claro que os Estados Unidos atuam, e forte, na tentativa de manter os países da América Latina na sua órbita. Seja com financiamento direto de grupos, seja com a colonização ideológica e cultural. Não são poucas as pessoas "de bem" que acreditam firmemente serem os Estados Unidos os guardiões da liberdade.  Desconhecer todas essas forças, também as externas, é enveredar para a ingenuidade, coisa inconcebível no mundo da político. Mas, se há tudo isso, como diferenciar esses grupos no meio de uma multidão de milhares e milhares de pessoas? Aí está o desafio. Nas manifestações de junho, nos grupos que gritavam “fora partidos”, a organização – com distribuição de camisetas e lanches – estava a cargo de conhecidas figuras de partidos de direita. Então, há que se informar, estudar, compreender. Não é possível ficar no âmbito da consciência ingênua, acreditando que o povo que marcha quer uma coisa só. Como também não dá para agir como um avestruz, dizendo que quem protesta são só os "coxinhas", ou mercenários, ou anti-petistas, ou a esquerda "burra". Há uma fatia muito grande de descontentes que estão se expressando. Há gente séria fazendo a crítica. E também há entre os que respondem a violência do estado com violência, porque em determinadas situações é o único que cabe fazer. Desconhecer a realidade é o primeiro passo para a derrota.

A paz, todos a querem. Mas pessoas há que querem a dos cemitérios e outras que preferem a de um país soberano, livre e com participação popular.