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terça-feira, 5 de fevereiro de 2019

Que viva o povo bolivariano


Eu lembro de 2004 quando o mundo inteiro se manifestou contra a invasão do Iraque. Era óbvio que os Estados Unidos usavam da mentira para respaldar a invasão. Não havia armas químicas, nunca houve. Mas, os EUA sempre usaram da mentira, ao longo de sua história, para justificar seus crimes. E, ainda que houvesse passeatas, marchas, protestos em vários lugares do planeta, os EUA foram lá e promoveram a onda da destruição, que segue até agora. Já tinham feito a mesma coisa no Afeganistão em 2001 para perseguir seu velho amigo e aliado Bin Laden. Julian Assange, com o WikiLeaks foi quem desvendou os crimes e por isso vive trancafiado na Embaixada do Equador em Londres, jurado de morte pelos senhores da guerra. 

Nesse mundo é assim: os heróis de verdade, como Julian Assange e Edward Snowden  são perseguidos, enquanto os assassinos circulam livremente. 

Agora, a mentira da vez é a Venezuela. Os EUA precisam destruí-la, como destruíram o Afeganistão, o Iraque, a Líbia, o Líbano, a Síria. Há que atacar e dominar todos os lugares que têm petróleo. Venezuela desgraçadamente tem e desde a ascensão de Chávez usa os recursos do petróleo para a maioria da população. 

Então, os EUA e os lacaios locais decidiram estrangular o governo. Roubam seus recursos, seu ouro e sua possibilidade de atender a população. Fecham as portas do comércio e  impedem que entre a comida, os produtos de primeira necessidade. Vem a fome, vem o terror. 

O mundo inteiro se levanta contra mais essa ignomínia. Mas, os líderes mundiais que se ajoelham diante do império e também aproveitam para abocanhar algum ganho, não querem nem saber. Aceitam a mentira e respaldam o golpista que se autonominou presidente, sem ter recebido o respaldo das gentes venezuelanas. Aceitam porque querem lucrar com tudo isso. Dane-se o povo que morre de fome. Que morram. Assim poderão gritar aos quatro ventos que foi o bolivarianismo que os matou.

Lá dentro da Venezuela o povo bolivariano está sofrendo a fome, a falta de remédios, o terror. Mas, eles sabem de quem é a culpa. Dos vende-pátria, os mesmos que governaram a Venezuela por séculos, mantendo-os na escravidão. Os mesmos que agora se aliam ao império, aos senhores da guerra, para destruir a generosa proposta de Bolívar. O libertador sendo traído outra vez, num eterno retorno. 

Tenho muita clareza do que é o governo do Maduro e tenho muitas críticas a sua postura e política. Mas, jamais me aliaria aos monstros do terror apenas para tirá-lo do poder. A Venezuela precisa seguir seu caminho autônomo, com as gentes decidindo por onde ir. Se há oposição de esquerda, que se organize, que dispute, que enterneça os corações. Mas, como aceitar uma oposição que se diz de esquerda e que se junta ao deputado golpista, think-tank dos EUA? Nada justifica isso...

Sei que nossa voz se perderá no mar de ódio, de desinformação, de ignorância. Sei que nada podemos na nossa impotência. Mas, não poderia deixar de dizer que repudio a agressão que os EUA empreendem contra a Venezuela desde 1998, quando Chávez assumiu, e que agora assume sua cara mais nefasta. A mesma velha cara do terror que vem matando e destruindo a vida dos trabalhadores, dos lutadores, dos governantes que querem garantir soberania. 

Não há conciliação com o império. Que viva a gente bolivariana e chavista. Que resista e que se mantenha de pé. Mesmo que esteja sendo abandonada pelos oportunistas. 

quarta-feira, 29 de agosto de 2018

Venezuelanos voltam para casa


Enquanto a mídia a mando dos Estados Unidos transforma em “crise humanitária” a migração de venezuelanos para países vizinhos, outros tantos sonham em voltar para seu país, por não suportarem as condições de vida e trabalho nos países para onde migraram em busca de vida melhor. Por conta disso, nessa semana o governo venezuelano disponibilizou um avião para trazer de volta para casa dezenas de venezuelanos que estavam no Peru. 

Como a Venezuela tem sofrido desde 2015 uma guerra econômica, com a ação criminosa de empresários escondendo comida, remédios e provocando escassez, muita gente decide pegar as trouxas e sair do país. Essa migração tem sido bastante incentivada pelas forças oposicionistas do governo Maduro e por conta disso se disseminam propagandas sobre como a vida no estrangeiro pode ser melhor, inclusive dizendo que os governos do Brasil, Peru e Colômbia podem assegurar casa, saúde e crédito para novos empreendimentos.  Algumas pessoas caem nesse conto e cruzam as fronteiras. 

Mas, chegando aos países, não encontram as promessas feitas. No caso do Brasil, há poucas semanas, os venezuelanos foram rechaçados por hordas violentas, também organizadas por políticos e entidades conservadoras brasileiros. O resultado é mais tragédia para uma gente já golpeada pela guerra econômica travada pelos Estados Unidos contra a Venezuela. 

Como resposta a campanha da direita que procura incentivar a migração, o governo da Venezuela tem incentivado a volta. Nessa segunda-feira, um avião lotado partiu de Lima, Peru, para Caracas, com um grupo de cem pessoas. Outras, que moram mais perto da fronteira, estão vindo por terra. Ao chegarem, no encontro emocionado com familiares, contaram que foram enganados com falsas promessas e chegando ao Peru foram explorados por empresários que pagam salários com valores abaixo do prometido. Alguns também foram vítimas de coiotes e traficantes de drogas e pessoas.  
Quem vive na Venezuela sabe o que têm sido esses últimos anos de ataque econômico. Os grandes meios divulgam incessantemente que o país será atacado pelos Estados Unidos, que vai faltar comida, que o terrorismo vai atacar. Tudo isso provoca medo e desespero nas pessoas, que acabam caindo nas armadinhas da migração provocada. 

O governo de Maduro iniciou uma série de medidas para vencer a galopante inflação, também provocada pelo ataque econômico, e espera que isso possa melhorar a situação. Ele insiste que não faltará comida, embora, é claro, a guerra movida contra a Venezuela obrigue a população a alguns sacrifícios, como as já conhecidas filas. 

A migração na Venezuela sempre existiu, como em todos os países latino-americanos. Uma olhada nos números da própria Organização das Nações Unidas mostra que hoje, há muito mais colombianos e brasileiros na Venezuela do que venezuelanos na Colômbia ou no Brasil. Mas, essas informações a mídia não passa porque o que interessa é fazer crer que o país bolivariano é um inferno de onde todos querem sair. 

Os cubanos sabem muito bem o que é isso. Desde 1959 que os Estados Unidos move feroz campanha contra a ilha. Mas, lá, as gentes se mantiveram firmes e de pé. Na Venezuela também. A maioria apoia e confia que, junto com o governo, vai vencer a guerra movida pelos EUA contra o povo.  Não é coisa fácil porque a direita venezuelana segue atuando com desenvoltura no país, tendo como braço armado os grandes meios de comunicação. A pedagogia do terror e do caos tem sido bastante eficaz, minando as possibilidades de soberania do país. É uma batalha, é a luta de classes. A velha elite petroleira que perdeu poder, aliada com os EUA, querendo voltar. E para isso, vai destruindo o país e o povo junto. Para eles, pouco importam essas pessoas que hoje saem da Venezuela aterrorizadas com suas campanhas de ódio. Tudo o que querem é retomar o controle do país.


terça-feira, 25 de julho de 2017

La Constituyente vá!


Essa é uma semana movimentada na Venezuela. No próximo domingo, dia 30, acontecem as eleições para a formação de uma nova Assembleia Constituinte que pretende enfrentar a grave crise que se abate sobre o país e aprofundar o poder popular. A campanha tem sido intensa, muitos são os candidatos que concorrem representando setores da sociedade e também regiões do país. A intenção é garantir a maior representatividade possível.

Os políticos de oposição, que são os responsáveis pela guerra econômica e pelas “guarimbas” (trancamento violento de ruas e incêndios a prédios públicos) decidiram não participar do processo e seguem buscando construir espaços paralelos de poder, sem muito sucesso. Chegaram a organizar até um plebiscito consultando a população sobre a saída de Maduro e conseguiram mobilizar sete milhões de pessoas, o que não avança muito no número de votos que têm garantido na disputa com o chavismo. O resultado, que não tem qualquer valor oficial, não surpreende, afinal, a política na Venezuela sempre foi bastante polarizada e a participação intensa. De qualquer forma, a capacidade de organização da oposição mostra que a disputa continua dura, com tem sido desde sempre na luta de classes vivida pelo país a partir do aparecimento de Hugo Chávez.

Hoje, as guarimbas que chegaram a colocar fogo em um hospital infantil e vários prédios públicos, arriscando a vida de centenas de crianças, já começam a ser rechaçadas com vigor pela própria população. O medo está esgotado. Nas ruas, não são poucas as ações de enfrentamento com a exigência do destrancamento das ruas e as protagonistas são as mulheres. Elas saem dos carros, arregaçam as mangas e retiram as barreiras das ruas além de darem lições de moral nos guarimbeiros. Na última semana uma tentativa de incêndio no prédio da TV pública VTV foi imediatamente rechaçado pelos trabalhadores que colocaram, literalmente, os guarimbeiros para correr. Os grupos seguem com trancamentos surpresa nas ruas do centro da capital, mas ninguém se arrisca fazer uma guarimba nas comunidades de periferia, onde o bolivarianismo é forte. E é justamente nas comunidades onde a campanha para a Constituinte tem sido mais intensa. Ali, as pessoas estão preocupadas em garantir a vida na Venezuela, vida boa para todos, sem marcha atrás.

De qualquer forma o dia 30 não deverá ser tranquilo. A oposição mais violenta, comandada por Leopoldo Lopez, vai agir e esperam-se atos de terror. Desde o dia 20 de julho a MUD, que congrega a maior força de oposição comandada por Henrique Capriles, convocou uma greve geral, incentivando o desaparecimento de produtos das prateleiras e chamando a população para parar o país, impedindo assim que as eleições aconteçam.

Também convocou um “governo de unidade”, que nada mais é do que a proposta de um golpe. Ou seja, eles criam um gabinete de governo paralelo e comandam a greve, visando a derrocada do presidente. A greve foi chamada para a última sexta-feira e conseguiu garantir vários pontos de trancamento de rua. Houve dois mortos nos enfrentamentos, mas o movimento da oposição não chegou a ser massivo. Como já se viu, há certo esgotamento das ações violentas. De qualquer modo é certo que essa semana haverá mais alguma tentativa de barrar a eleição e não será na paz. A MUD segue apostando numa saída não eleitoral, pois sabe que não tem maioria.

No campo do chavismo as coisas também não são um lindo céu azul. Há divergências e grupos em disputa. A diferença é que mesmo aqueles que estão mais à esquerda e criticam o governo de Nicolás Maduro sabem que com a oposição no poder a Venezuela volta na história. Então, preferem o silêncio e fazer a disputa por dentro, tentando ganhar o maior número de cadeiras na Constituinte para fazer avançar as políticas mais radicais.

Segundo a análise do economista Nildo Ouriques, o principal nó na divisão das forças chavistas é a política econômica que tem sido levada pelo presidente Maduro e que, segundo ele, é a que alimenta a oposição. Maduro seguiu apostando na conta de capital aberto, sem tocar nos banqueiros. “A conta de capitais abertos permite que o sistema bancário pegue as divisas petroleiras e coloque tudo fora do país. Isso provoca a inflação e todo esse caos econômico. O governo tinha que ir para cima dos bancos. E não vai”. Nildo insiste que o governo Maduro não tem uma estratégia econômica para fugir do poder dos bancos, prefere manter o acordo com a elite, mantendo-a endinheirada e não consegue dar um uso produtivo para as divisas por causa do rentismo. Então é um círculo que precisa ser rompido.

Outra divergência entre os chavistas reside no fato de que Maduro não chamou um referendo para decidir se ia ou não à Constituinte. É fato que a Constituição atual permite que o presidente, com seus ministros, decida, mas essa nunca foi uma prática do chavismo. A posição mais previsível era de que a população fosse primeiro chamada a decidir sobre isso, como sempre foi no governo de Chávez. Maduro considera que a situação de guerra que o país atravessa foi a que levou a uma decisão assim, mas, de qualquer forma, há quem não concorde. Ainda assim, a aposta agora é garantir que a Constituinte saia e a vida siga, com a população conquistando mais poder.  

O fato é que enquanto a população se organiza para não permitir que retorne ao poder o grupo apoiado e financiado por Washington, a batalha midiática contra a Venezuela segue a todo vapor. Os meios chamam de ditadura um país que mais faz eleição na América Latina, senão no mundo. Pois na Venezuela ainda quem manda é o povo. E se isso é uma ditadura, ela é bem mais democrática que a ditadura do capital na qual quem manda é um pequeno grupo de endinheirados.

Por isso que quem vai dar a direção sobre para onde vai o processo bolivariano é a população. Não tem sido fácil nesses anos todos acossada pelo ataque direto e implacável do imperialismo. Golpes, guerra econômica, violência. Todas as armas contra o poder popular estão sendo testadas por lá. E a população tem resistido. Agora, é mais uma prova. Está mais do que claro, pela análise das falas da oposição, que a tática é derrubar Maduro pela violência. Ninguém quer paz no grupo da elite, até porque não são eles os que estão nas ruas fazendo o combate. Não são eles os que tombam. Seus jatos estão sempre à postos para tomar o rumo de Miami. Já para a gente venezuelana, não há ir e vir para os Estados Unidos. A vida dela é ali mesmo, na Venezuela de Bolívar. E, com ele, assim como com a memória de Chávez, seguirão construindo a liberdade. 

terça-feira, 23 de maio de 2017

O terror na Venezuela vem da oposição


Oposição ao governo Maduro começou trancando ruas, depois, passou a queimar prédios públicos. Chegaram a colocar fogo em um hospital infantil. Agora, queimam na rua pessoas que eles identificam como "chavistas". Uma série de ações coordenadas e financiadas possivelmente pelas instituições dos Estados Unidos. A intenção é provocar uma guerra civil, destruir economicamente a Venezuela e recuperar o poder. Com todos os erros de Maduro, a maioria da população ainda prefere o bolivarianismo e nessa nova fase da luta, certamente haverá de tomar as armas para defender a revolução. A oposição, hoje estrategicamente liderada pela mulher de Leopoldo López não está nem aí para os jovens que se matam nas ruas. O que quer é colocar outra vez a mão no petróleo. Uma tristeza. Todo apoio ao povo venezuelano, soberano e lutador. No pasarán!


sábado, 18 de junho de 2016

Venezuela: avançam as missões


Nicolás Maduro, presidente da Venezuela, anunciou nesse sábado que a partir da semana que vem inicia a entrega de mais 200 bases das Missões Socialista em todo o país. Segundo ele, essas bases são parte do programa Pobreza Zero e visam levar as missões diretamente às famílias necessitadas. Conforme números do próprio governo existem pelo menos umas 1.500 comunidades em extrema pobreza no país e as bases são centros logísticos que deverão garantir os serviços de saúde, alimentação, atenção social e educação.

As bases das missões são formadas por quatro módulos. Um deles serve como moradia para os médicos, que servem à comunidade 24 horas, com atenção permanente. O segundo módulo é usado para os programas de formação e cultura. Nele funcionam os Simoncitos (espaço para educação inicial), a missão de alfabetização, a missão de educação secundária e a missão de educação universitária. 

No terceiro módulo ficam os consultórios de atenção primária, com o funcionamento da Missão Sorriso, que garante tratamento dentário gratuito e no quarto módulo está o Mercado de Alimentos, onde são vendidos alimentos a preço baixo, subsidiados pelo governo bolivariano.

As missões são espaços de organização popular que visam atender toda a população e as bases são os espaços concretos onde essas missões se efetivam. Com essas novas 200 bases o governo avança na consolidação do atendimento às necessidades básicas da população mais empobrecida. Atualmente existem, em funcionamento, 1.059 bases de atendimento e são consideradas pelo presidente como um "milagre da revolução" por seguirem atendendo apesar da guerra econômica travada contra o governo e a população.

sexta-feira, 19 de junho de 2015

A Venezuela e os políticos brasileiros



No mês de janeiro, eu estava na Venezuela. Naqueles dias o país atravessava uma grave crise de abastecimento provocada por um boicote empresarial. Como uma boa parte da cadeia de distribuição ainda está na mão privada, essa fatia do empresariado decidiu segurar alguns produtos, fazendo com que a população se alarmasse. Pelas emissoras de televisão comercial ficava evidente o clima de quase terrorismo que se tentava impor. Por isso, é absolutamente mentirosa qualquer alegação de censura na Venezuela. O empresariado - de maioria golpista - diz o que quer, como quer e quando quer. Nada os impede de provocar o medo, o terror e a incitação ao golpe. Isso é coisa cotidiana. A diferença é que lá existe também uma rede de emissoras estatais, públicas e comunitárias, que disputam as informações. 

Para aproveitar o clima de desespero que se esperava criar, a oposição liderada por Henrique Capriles resolveu promover um seminário sobre "democracia", chamando para debater o tema conhecidos ex-presidentes de países latino-americanos, conhecidos, inclusive, por seu caráter autoritário, como Felipe Calderón, do México, Pastrana, da Colômbia e Piñedo, do Chile. Não bastasse o paradoxo de se discutir democracia com tipos como esses, os ex-presidentes foram levados para visitar Leopoldo López, o ex-alcade de Chacao, que está preso por incitar à violência, provocar mortes e promover golpe. Obviamente que não entraram na penitenciária. Não haviam solicitado visita, não era dia de visita e não entraram. Foi o que bastou para que iniciassem uma algaravia internacional chamando o presidente Maduro de ditador e outras bobagens do tipo. Há muitas críticas que se pode fazer ao presidente venezuelano, mas essa certamente não cabe.

Ora, para quem não sabe, a Venezuela é um país que, desde o ano de 1998, quando Chávez ganhou a eleição presidencial e inaugurou a quinta república, já passou por quase duas dezenas de eleições e referendos. Lá, a democracia é participativa e a população tem poder. Na nova Constituição, o estado bolivariano - ao contrário da maioria dos estados liberais - tem cinco poderes: o legislativo, o executivo, o judiciário, o eleitoral e o popular. O poder popular é o que se sobrepõe a todos. Qualquer lei pode ser revogada se mais de 20% da população chamar um plebiscito ou um referendo.  Que ditadura seria essa se a população organizada, em número tão pequeno, já pode atuar em consequência e definir os rumos do país? 

Assim que se pode falar tudo sobre Maduro e a Venezuela, menos que naquele país exista uma ditadura. Seria de uma ignorância total ou então má fé. Obviamente que nossa mídia comercial "compra" a ideia da ditadura porque é o que diz a polícia do mundo, os Estados Unidos, fazendo o jogo ideológico contra a Venezuela.  

A ida dos políticos da direita brasileira à Venezuela para uma pretensa visita a Leopoldo López está dentro dessa armação ideológica. Existe uma tentativa, por parte da oposição venezuelana, de apresentar ao mundo o jovem ex-prefeito como um preso político. Ele não é. Em 2014, logo depois da derrota de Capriles nas eleições presidenciais, sem aceitar o resultado das urnas, políticos ligados aos partidos que o apoiaram incentivaram uma série de ações violentas que queimaram postos de saúde, escolas, e causaram mais de 40 mortes. Todas essas violências foram comandadas por Maria Corina Machado, que comprovadamente recebeu recursos dos Estados Unidos através de sua organização Súmate, o próprio Henrique Capriles, que governava o estado de Miranda, e o ex-prefeito de Chacao, Leopoldo López. Esse último convocou os partidários para não só praticarem violência, mas para atuarem no sentido de alavancar um golpe contra o governo democraticamente eleito. Foram dias de conflitos nas ruas que ficaram conhecidos como "guarimbas".

A prisão de Leopoldo López está dentro desse contexto. Imaginem se Aécio tivesse ganho as eleições e Lula fosse à televisão pedir que os jovens saíssem às ruas, matassem pessoas e depusessem o presidente eleito. O que aconteceria? Não seria ele preso por incitar a violência e o golpe, dentro das leis brasileiras, num estado democrático? Pois é o que aconteceu na Venezuela. López está cumprindo pena por um crime.  

Se pessoas como Aécio, Caiado e Agripino querem ir à Venezuela prestar solidariedade a um "companheiro", isso lá é problema deles. Poderiam ir com seu dinheiro próprio, agendar visita, e cumprir com os ritos da amizade, se é que são amigos de López. Creio eu que nem o conhecem. Agora, viajar com um avião do estado brasileiro para interferir na política de outro país, me parece algo bem estranho. Como eles mesmos afirmaram, não foram impedidos de entrar no país e nem mesmo impedidos de ver o ex-prefeito, agora um preso comum. O que viveram nas ruas de Caracas foi o mesmo que, em janeiro, viveram os ex-presidentes que tentaram bancar os democráticos: foram rechaçados pelos bolivarianos. Os partidários da revolução bolivariana, que são a maioria da população, sabem muito bem o que significam as ações da oposição venezuelana. Sabem que existe um ação sistemática de tentativa de desestabilização e para isso são criados esses factoides cotidianos.

Fossem realmente amigos de López e quisessem prestar apoio, os senadores poderiam ter ido à Venezuela, sem alarde, fazer a visita, ver as condições do encarcerado e fazer suas considerações depois. Mas, não. O plano é exatamente esse. Criar o espetáculo para que possam repetir o velho mantra de que há censura, que falta liberdade de expressão e que o ex-prefeito é um injustiçado. 

A Venezuela vive granes dilemas e passa por problemas em todos os campos. Mas não há censura e nem falta liberdade de expressão. Se houvesse, os senadores brasileiros não teriam feito o circo que fizeram.

Para além do papelão que cumpriram na Venezuela é importante salientar o também papel ridículo que cumprem os deputados que aprovaram moção de repúdio contra o governo da Venezuela, sendo que quem botou os senadores brasileiros para correr foram as pessoas nas ruas, o povo, as gentes organizadas. O argumento de que os políticos brasileiros estavam defendendo os "direitos humanos" não se sustenta e a população sabe disso muito bem.  López está preso porque feriu a lei, ele não está tendo os direitos violados. Ele foi o que violou direitos e ajudou a promover incêndios e dezenas de mortes. Não é um bom menino. 

A Câmara dos Deputados deveria investigar os fatos e não votar no calor das emoções dos que levaram o corridão. Assim também a imprensa brasileira deveria se debruçar sobre os fatos e não ficar na vergonhosa fabricação sistemática de ideologia.

A Venezuela está fazendo seu caminho numa revolução que não se fez com armas. Ela vai acontecendo no campo democrático, com os inimigos atuantes e falantes. A liberdade de imprensa e a liberdade de expressão são totais na Venezuela. O que não há é arrego com quem não cumpre a lei. E quem está de olho é o povo que pede ao governo que aplique a mão dura, que não incentive a impunidade. 

Na Venezuela o que manda é o poder popular. Talvez os senadores brasileiros tenham aprendido a lição.  

domingo, 29 de março de 2015

A Venezuela e os defensores da democracia



A Venezuela não é um país socialista, embora Chávez tivesse sonhado com um caminho até esse modo de organizar a vida. Não teve tempo. Mas, por outro lado, não se pode negar que a Venezuela é um país que tem um sistema democrático bastante original e avançado. Para começo de conversa, esse país da ponta norte da América do Sul conseguiu desenvolver um sistema de governo bem diferente dos demais países de corte liberal. Lá, não existem apenas os tradicionais três poderes: executivo, legislativo e judiciário. São cinco os poderes que definem a vida do país, acrescentando-se o judiciário e o popular, sendo que o último é o mais importante. Ou seja, o elemento central de governo é a democracia popular. Na Venezuela manda o povo. Até o presidente pode ser retirado do poder por um referendo popular. Leis definidas pelo legislativo também podem ser revogadas se assim a população entender. É a democracia aprofundada. Nada pode ser menos parecido a um ditadura, como querem fazer crer alguns mandatários dos países centrais alinhados à política dos Estados Unidos. Numa ditadura, o povo não tem vez. E não é assim na Venezuela.

No mês de janeiro, a oposição ao governo de Nicolás Maduro - que faz o quer no país, sem que ninguém a constranja - chamou alguns ex-presidentes para discutir o tema democracia. Andrés Pastrana, da Colômbia, Sebastián Pinera, do Chile e Felipe Calderón, do México, todos eles governos títeres, quando no poder. Aliados dos EUA, escravos sem opinião. E, além disso, nenhum deles podendo servir de modelo para a democracia, nem mesmo a liberal-burguesa. Logo, o tal encontro para discorrer sobre democracia nada mais era do que uma farsa. O motivo central era desgastar o governo de Maduro, que passava por um período de crise, com um criminoso boicote de produtos, que esvaziou os mercados e obrigou as pessoas a viverem momentos de profunda tensão. Ações como essa, da oposição venezuelana, são bem conhecidas, e visam criar focos de violência para desestabilizar governos, abrindo passo para golpes ou intervenções econômicas.

Os três ex-presidentes foram visitar o que ele chamaram de "preso político", mas que a população chama de criminoso, por incitar jovens a atos de violência visando derrubar o governo. Pois eles não conseguiram entrar na penitenciária e alardearam pelo mundo inteiro que foram "impedidos" de ver o preso. Outra bobagem midiática. Não entraram porque não marcaram nem avisaram da visita. Mas, isso não evitou que disparassem suas diatribes contra Maduro, chamando-o de ditador, autoritário e ameaça ao mundo livre.

O presidente dos Estados Unidos, possivelmente o mandante de todo o imbróglio, decidiu dar uma de herói mundial - defensor da democracia -  e baixou um decreto considerando o pequeno país do norte da América do Sul, uma ameaça para os EUA. Outra bobagem homérica. Que ameaça pode representar um país como a Venezuela a um império militar e nuclear como os Estados Unidos? Nenhuma.

Mas, os meios de comunicação que dominam o mundo decidiram dar visibilidade a essa estupidez e a Venezuela voltou às manchetes como um lugar obscuro, onde a ditadura vige. Repito: a Venezuela não é uma ditadura, é um país democrático que serve de modelo de estudo a estudiosos de todo mundo pela sua original organização de cinco poderes. Uma democracia mais profunda que a tradicional. É uma novidade boa, mas disso nenhuma televisão fala.

Agora, não bastando toda a campanha desenvolvida pelo presidente Obama contra a Venezuela, outras lideranças políticas começam a engrossar o coro de apoio ao presidente estadunidense, visando dar cores de verdade a mais uma das mentiras inventadas pelo serviço secreto (nem mais tão secreto) dos Estados Unidos.

O tema é a prisão de Leopoldo López, o que incitou os jovens à violência, e a de Antonio Ledezma, outro político que conspirou pela queda do governo no episódios da guerra econômica, em janeiro. Os dois estão sendo pintados como os paladinos da democracia e recebem apoio de figuras como FHC, do Brasil e Felipe Gonzáles, da Espanha. Fernando Henrique, que foi o responsável pela entrega das estatais mais rentáveis do Brasil à empresas estrangeiras, diz que "já basta de abusos" na Venezuela. Mas ora vejam só. Seria de rir, se não fosse trágico.

E Felipe González já foi até expulso de Miraflores por Chávez quando tentou negociar a venda da CanTV a uma empresa telefônica espanhola que ele representava em 2006. A CanTV foi estatizada por Chávez, que ousou definir a comunicação como espaço estratégico na Venezuela.

Pois essa gente do tipo de FHC, González, Piñera  e outros que posam de vestais da democracia jamais tiveram coragem, quando nos seus governos, de aprofundar o processo democrático como fez Chávez. Jamais teriam topado uma reforma constitucional que desse ao povo poder maior. Tudo o que fazer é servir aos interesses das empresas transnacionais e dos governos centrais, dos quais são meros marionetes. Quem pensam ser esses senhores para abrirem a boca sobre a vida da Venezuela? Querem, por acaso, repetir a arrogância de outro refinado títere, o rei Juan Carlos, que ousou dizer à Chávez que se calasse. Ele, um monarca conduzido ao trono por um ditador?

Que se calem esses senhores sobre a Venezuela. Mal ou bem as gentes estão conduzindo seus destinos. Ao longo da quinta república estão realizando eleições, referendos, assembleias democráticas, e refinando sua democracia. Esse é o verdadeiro perigo que Obama não diz ao seu povo e ao mundo. O perigo da democracia mais profunda, popular. Essa é a ameaça que causa insônia ao monarca do "mundo livre" . Porque o "mundo livre" é uma pequena comunidade de ricos empresários, que controla os governantes a base de muito dinheiro, usando as populações a seu bel prazer, produzindo guerras, miséria, violência e medo.

A democracia direta, a democracia que se aprofunda e se aprimora é objeto de terror para esse "mundo livre", porque ela desloca o poder dos pequenos grupos legislativos e executivos, que são fáceis de corromper. Ela coloca o poder na mãos das gentes, muito mais numerosas para serem corrompidas. Esse é o medo, essa é a ameaça.

O doloroso nisso tudo é pensar que a maioria das gentes, a que realmente tem o poder de mudar as coisas, segue dominada pelo brilho ilusório da televisão ou pelas mentiras das redes sociais. Não querem ver a verdade, ou não podem, por várias razões. Essa maioria, que um dia haverá de ver... E, aí sim, provocar a grande transformação. 


sábado, 28 de fevereiro de 2015

Um encontro com Simón Rodríguez



 A casa das primeiras letras, onde Simón Rodríguez deu suas primeiras
aulas.





















A primeira vez que ouvi falar de Simón foi num pequeno texto de Galeano. Nele, o escritor uruguaio contava sobre esse educador venezuelano que era chamado de "el loco", por estar completamente a frente de seu tempo numa Caracas do final do século 18. Era 1791 quando ele redigiu seu primeiro texto de crítica da escola. O jovem de vinte anos queria uma escola na qual os professores fossem valorizados. No seu quase panfleto  “Reflexões sobre os defeitos que viciam a Escola de Primeiras Letras de Caracas e os meios para uma reforma por um novo estabelecimento”, ele arrasa com o sistema vigente, critica o fato de só ser oferecida educação às crianças brancas e aponta a necessidade de educar as crianças pobres, aos agricultores, aos artesãos. “O regime deve ser de igualdade”, diz. 

Mostra também que o sistema não se preocupa com a formação dos professores e insiste que esse deve ser o principal fator de mudança. Como proposta exige o aumento do número de escolas, capaz de atender todas as crianças em idade escolar, a formação de professores profissionais, salários dignos para os educadores, jornada de seis horas, móveis adequados para o ensino e finalizava exigindo que se tomasse a sério a escola de primeiras letras. “Uma escola até pode ser superficial, mas não inútil. O aluno não pode esquecer o que aprendeu. Há que ter cuidado e delicadeza para dar às crianças a primeira ideia de uma coisa”. Dizia isso porque havia a tradição de ensinarem até nas barbearias, enquanto afeitavam os clientes. Simón abominava isso. Defendia que como nessa idade a criança se distrai com qualquer coisa, era necessário um ambiente adequado e que o professor também prestasse atenção nas brincadeiras. “É necessário saber ler em todos os sentidos e dar a cada expressão o seu próprio valor”.

Por conta disso passou a ser olhado de revés pelos colegas e pelos que cuidavam da educação. Mandou tudo às favas e foi ser preceptor de Simón Bolívar, aquele que viria a ser o libertador. Naquela cabeça plantou ideias de liberdade e foi-se pelo mundo, plantando escolas por onde passava. 

A história desse homem passou então a me perseguir depois da leitura do texto de Galeano. E, com o tempo fui descobrindo toda a sua trajetória de vida. Nesse encontro, amando-o. O louco nada tinha de louco. Era um amante do conhecimento, um amante dessa terra nova. "Imitamos demais a Europa. É hora de inventar", dizia, juntando meninos, meninas, negros e índios em sua própria casa, repartindo o saber. E, quando chegou a revolução, ele voltou para a América para formar gente capaz de viver numa democracia. Acolhido por Bolívar ele bem que tentou implantar seus métodos, mas, com a morte prematura do libertador, caiu em desgraça. Ainda assim, escreveu uma vasta obra, hoje recuperada pela revolução bolivariana, a partir de Chávez, que também o amava.

E foi atrás de seus passos que cheguei em Caracas nesse janeiro de 2015. O desejo era conhecera a atmosfera na qual ele viveu, as ruas por onde caminhou, a escola onde ensinou as primeiras letras e onde gestou seu pensamento original. 

No centro histórico da capital venezuelana está o bem cuidado prédio onde o maestro ensinou. Bem no bulevar Panteão. Hoje é um museu que abriga a história do educador. Recuperado, o prédio ainda concentra uma biblioteca com a obra de Simón e outras obras que falam dele, um café e um espaço interativo no qual os jovens podem jogar com aplicativos nos quais os personagens não são mercenários decepando cabeças, mas os heróis da independência.

Na tela grande podemos ver um Bolívar menino - com a idade de nove anos (tempo em que teve Rodríguez como professor) - contando a história do mestre e também outros momentos da vida do educador. Desde um longínquo passado nos sorri aquele que aprendeu pelas mãos de Rodríguez a beleza de semear a originalidade. Não foi sem razão que Bolívar ousou pensar uma Pátria Grande. 
O recorrido pela casa é um turbilhão. Passado, presente e futuro se misturam. A cada minuto entra um jovem para um passeio interativo com as máquinas, ou para sentar-se a mesa do café, folheando as ideias que saltam dos livros. Nas paredes, pequenas frases do educador indicam caminhos e sonhos. Pode-se ficar por ali uma eternidade, porque há muito para aprender.

Na porta, um Simón Rodríguez de papelão dá as boas vindas e é um repetir-se de cliques das pessoas que querem mostrar-se ao seu lado, numa fotografia insólita. Meninos, jovens, gente madura, é uma procissão. O "louco" que foi corrido de Caracas agora descansa bem ali, entre livros e mentes ávidas. Pode-se até sentir a presença  do mestre, espiando pelas frestas. 

Quando saiu de Caracas ele jurou nunca mais retornar, tanto que morreu bem velho, no Peru, sem jamais voltar a pisar no solo pátrio. Mas, certamente, hoje, amado de forma tão intensa pela juventude bolivariana, o sério e compenetrado professor está feliz. Aquelas carinhas risonhas e festivas estão cheias de novos sonhos, de ideias de integração, de liberdade e de originalidade. Bem ao gosto de Simón. E a gente sai dali renovada porque, enfim, o mestre tem o lugar que merece no coração e na mente de toda uma pátria, a grande pátria latino-americana.

quarta-feira, 5 de março de 2014

Um ano sem Chávez


















A vida na Sabana Grande

Fizemos uma volta em torno do sol, sem Chávez. Quando anoiteceu, abri uma cerveja, bem gelada, e fui sorvendo gole a gole. Como se estivesse de novo na Sabana Grande. Foi ali que descansei o corpo nos dias em que vivi a Venezuela de Chávez. Era 2006. Tinha reservado hotel aqui do Brasil, sem saber como era, nem onde se localizava. Tudo que sabia é que era em Caracas. Pois o Hotel Cristal era um desses hotéis de fluxo contínuo, que serve aos amantes do grande bulevar da Sabana Grande. Só por isso já aparecia belo aos meus olhos. Porque abrigava esses amores fortuitos, apressados, de delicado estilo, cheios de urgência. 

Na recepção, nos aguardava um mal-humorado Jesus, anti-chavista, portanto sem qualquer afinidade com seu homônimo, nazareno, que por certo amaria a revolução bolivariana. Achando ruim que chegassem tantos estranhos – e o que é pior, nem eram casais – o tempo todo ficou criando caso. Talvez não conseguisse conceber hóspedes normais, sem a marca do amor que urge se consumar. Os chegantes, alguns já intimidados com a simplicidade do lugar e com sua peculiar especificidade, se olhavam sem saber o que fazer. Mas, com o passar dos dias, tudo foi se acomodando, O hotel Cristal virou casa. O mau humor dos porteiros foi tirado de letra e alguns deles, como o Abrão e o Omar, viraram amigos. 

Saindo do Cristal, assomava toda a beleza do bairro onde ele estava situado: Sabana Grande. O bairro era um amontoado de barracas de lona e um universo caótico de sons de salsa, merengue e música llanera. E, bem ali, no coração da Sabana, estávamos nós, um pequeno grupo de catarinenses. “Cuidado! É muito perigoso! Não se desgrudem das bolsas! O povo aqui ataca com faca! Fiquem longe dos drogados!” Estes eram alguns dos conselhos do povo do hotel e de quem mais a gente encontrasse na cidade. Pois a Sabana Grande era um espaço de pobres, onde vicejavam os hotéis de encontros e as tascas, casas de shows com mulheres de preço bom. Pelas ruas, tão logo levantavam acampamento os trabalhadores informais, chegavam os mendigos, drogados, prostitutas e as gentes sem porvir que buscavam um pouco de amor, ainda que em braços e bocas alugadas. 

Mas, apesar de todos os avisos, ninguém ali teve problemas. Terminadas as funções do Fórum e as visitas a grande Caracas, voltávamos e nos aboletávamos em alguma mesa de um dos bares mais animados. Depois de algumas “polares” geladas, muito bem atendidos pelo simpático Jairo – chavista de coração - a gente vinha saltitando pela calçada suja, sem que ninguém interpelasse. Nenhum roubo, nenhuma agressão. Por conta desses paradoxos da vida, na perigosa Sabana, nosso refúgio era o Cristal. E assim, por tão frágil, não podia quebrar. Os perdidos do bulevar, num átimo de beleza, compreenderam a metáfora e nos deixaram em paz. Garrafadas, assaltos e confusões? Sim, tudo isso aconteceu, mas só depois que os catarinas já estavam seguros nas camas repartidas do Cristal.

Aquela vivência na Sabana Grande nunca mais saiu das retinas. Lembro até hoje o ranger do elevador do Cristal,  pequenino, fatigado de tanto levar os seres do bulevar rumo às camas do amor urgente. Era irascível. Sacudia, balançava, travava, demorava. Parecia triste. Não via mais aqueles olhos oblíquos de quem se esconde, aquele trote no coração de quem escapa da vida certinha, aquele suor assustado de quem sabe que vai viver uma delícia proibida, aquele tremor de mãos que anseiam por toques, aquele cheiro de corpo de fêmea e macho, fremindo de paixão. A velha engrenagem do Cristal estava a ponto de falhar. Na sua caixinha entravam e saiam todos aqueles viajantes estranhos, espantando os hóspedes fortuitos. Morreria o elevador se não pudesse ver florescer o amor, esse, feito de carne, dor e segredos. Ainda bem que os dias passaram rápido e, quando saímos, parece que ele retomou seu ritmo normal, sem paradas e sustos. Mas seu barulho ainda ressoa em mim. Saudade!

Aqueles foram dias de vertigem. A revolução bolivariana estava no seu auge. Por todo lugar a luta de classes se expressava. Anti-chavistas, chavistas, venezuelanos apartidários, sindicalistas. Tudo estava em ebulição. Era o Fórum Social Mundial e também havia gente de todo mundo, doida para ver e sentir as transformações que tinham começado em 1998, com Chávez.  Andávamos pelos bairros conhecendo os “simoncitos”, espaços para a educação infantil, as escolas novas, as estruturas para atendimento médico, os trabalhos das missões. 

Ficou nas retinas o Maracao, populoso bairro da periferia, misto de reduto português com venezuelanos da gema. Com Raul e Daniel, dois moradores locais, circulamos por ali, sentindo a força da transformação e o sentimento de profundo amor que as gentes tinham pelo “comandante”. Chovia forte e os estudantes se amontoavam nas paradas, entrando aos borbotões. Ao saber que ali viajavam brasileiros logo queriam saber de coisas. Faziam perguntas, contavam de suas vidas e confirmavam o que dizem quase todas as gentes mais humildes de Caracas. “Com Chávez, é bom!” 

Depois circulamos pelo “23 de Enero”, o famoso bairro que cerca Miraflores, o palácio presidencial. Dizia Daniel que até poucos anos atrás ninguém poderia andar por ali, assim, como fazíamos. “Era um reduto de violência, de assaltos, de gangues. Agora não, a comunidade assumiu o controle. A gente pode passear, os velhos podem ficar ao sol e as crianças brincam nas praças. Tudo isso só foi possível com o poder popular”. Dos milhares de apartamentos populares que compõe o bairro, assomavam, nas janelas, as cabeças dos mais ferrenhos defensores da revolução bolivariana. Foram eles que, no golpe de 2002, desceram rua afora até o palácio, prontos a defender com armas e com a vida o governo de Hugo Chávez. Aquele era um bairro mítico e não havia como não se arrepiar ao andar pela calle La Silsa , uma rua imensa, cheia de casas e muros pintados com grafites pró-revolução. 

É essa Venezuela, prosaica, que hoje me assalta, enquanto celebro a semeadura desse homem que marcou a vida da América Latina. Sinto o cheiro do Cristal, o barulho do elevador, a alegria da Sabana Grande, o olhar cheio de eternidades daqueles que acreditaram na revolução bolivariana, dos que o amaram e o amarão. Como eu! 

Um trago, comandante!  


sábado, 22 de fevereiro de 2014

Apontamentos sobre Ucrânia, Venezuela e Brasil



O mundo das redes sociais tem provocado reações interessantes. Ora, serve para democratizar a informação, ora para confundir e difundir mentiras. É um terreno fluido, líquido, pantanoso. Navegar por esses mares do éter cibernético requer cuidado e, principalmente, formação. Como os conteúdos são jogados sem qualquer compromisso com a verdade - ou são mentiras propositais para confundir, ou são meras opiniões, o sentir de cada um sobre os fatos - apenas aqueles que se dispõe a investigar, procurar a fonte original, compreender a realidade, podem formar um quadro que verdadeiramente se aproxime do real. Só que isso dá trabalho, exige estudo, leitura, pesquisa sistemática. Então, o que parece ser hegemônico nos espaços como facebook, twitter ou plataformas semelhantes, é um bombardear incessante de informações sem fundamento, opiniões pessoais, preconceitos e muitas vezes até a discriminação criminosa.

Pode-se observar isso em questões bem específicas que envolvem a política mundial: as manifestações populares na Ucrânia, na Venezuela e no Brasil. Tem sido bem comum nas redes sociais, as pessoas compararem os três países como se fossem situações semelhantes. Uma postagem em particular diz assim: Na Ucrânia, o povo luta contra o socialismo, na Venezuela, luta contra o socialismo e, no Brasil, luta pelo socialismo. Nada poderia ser mais mentiroso. É absolutamente impossível comparar a realidade desses três países de forma tão simplista.

Na Ucrânia, a população está em conflito e mobilizada. Uma parte quer que o país estreite laços comerciais com a Rússia e outra parte quer a união com a Comunidade Europeia. Aí estão colocadas a luta de classes e visões distintas de mundo. Os que querem a União Europeia preferem estar na parceria com o centro do mundo capitalista, acreditando que, com isso poderão participar das promessas do sistema. E não é apenas a elite que anseia pelo pleno capitalismo. Ali também estão operários, estudantes, camponeses pobres, trabalhadores informais e ex-soldados que sentem-se à margem do bem-estar nessa nova Ucrânia pós-soviética. Esses, acreditam que essa outra forma de organizar o mundo, representada pela comunidade europeia, pode lhes dar uma chance melhor, afinal, nunca a tiveram.
Os que preferem a aliança com a Rússia não estão a favor do socialismo, até porque essa experiência há muito tempo que não existe mais naquele país. A Rússia aparece como um parceiro desejável porque tem um considerável poder, por conta de sua força nuclear e militar. E, também, por conta de que seus aliados são os que estão hoje no comando da Ucrânia. Mas, do ponto de vista da proposta de desenvolvimento, não há muitas diferenças com o projeto capitalista.

O certo é que a Ucrânia hoje tem uma sociedade dividida e está em conflito, mas os motivos disso não são tão simplistas assim, de ser contra ou a favor do socialismo. Aliás, como já disse, o socialismo nem está em questão. Há toda uma experiência do passado - de ligação com a antiga União Soviética  - que é rechaçada pelas novas gerações, há racismo, há rasgos fascistas, assim como há o medo de mergulhar na ilusão capitalista por conta da já conhecida derrocada de vários países da periferia da comunidade europeia. É complexo. E esse embate já gerou mais de 100 mortos, porque, afinal, é uma batalha de concepção de mundo. Os últimos informes apontam para um acordo entre a oposição (pró-europa) e o governo (pró-rússia) de antecipação das eleições e mais poder para o parlamento. Tudo isso pode significar o levantamento das barricadas, mas não garante que todas essas pessoas  - as bem intencionadas ou não - terão os ganhos que sonharam. A luta pelo poder recomeçará forte na batalha das eleições.

Na Venezuela a situação é radicalmente diferente. Não há um passado de ligação com o dito "socialismo" soviético. É o contrário. Ao longo de toda a sua existência como república, a Venezuela esteve dominada pela elite local, nascida e criada na exploração dos índios, dos camponeses e, agora, da riqueza natural que é o petróleo. Desde sempre a opção dos que comandaram o país foi pela exploração capitalista. A batalha que está dada hoje na Venezuela é sim, contra as propostas de caráter socialista iniciadas por Hugo Chávez. A chegada de Chávez ao poder em 1998 trouxe a possibilidade de repartição da riqueza do petróleo, que até então estivera na mão de muito poucos.  Isso começou a ser feito com uma série de mudanças estruturais que se iniciaram, mas que não se completaram. Logo, não há um regime socialista na Venezuela. O que há é um capitalismo de Estado que tem como proposta ir se socializando. Mas, esse objetivo tem sido algo bem difícil de alcançar.

A Venezuela não conseguiu alavancar o desenvolvimento interno, a indústria, a produção agrícola. A elite que segue fazendo batalha contra as propostas do governo - porque quer voltar a dominar a riqueza petrolífera - nunca pensou em apostar no desenvolvimento do país. Quando tinham a renda do petróleo, exploravam e enriqueciam.  Hoje, sem ela, exploram o setor de importação, que é igualmente rentável e não gera divisas, a não ser para eles. Então, o que está em disputa na Venezuela é um projeto de Estado e de desenvolvimento. É certo que nas fileiras dos "escuálidos", a oposição elitista, também tem gente simples, camponeses, trabalhadores, operários que tem suas próprias demandas, legítimas, mas que somadas ao golpismo, acabam se perdendo. Com certeza, entre esses trabalhadores, não deve haver quem queria a volta da exploração dos velhos oligarcas, mas eles também têm críticas ao governo bolivariano, que muitas vezes não são levadas em conta. Por isso gritam e se manifestam legitimamente, oferecendo outro projeto. Tudo isso torna igualmente complexa - embora não igual a da Ucrânia - a luta que se trava nas ruas. 

A semelhança com a Ucrânia é a da mobilização popular – tanto de facções reacionárias, como progressistas -  a realidade de uma sociedade em crise, mas os motivos que levam uns e outros às ruas são bem diferentes, e devem ser analisados nas suas respectivas conjunturas. Na Venezuela, o que se vê é um governo com ampla base e apoio popular, que não tem medo de chamar o povo às ruas, que convoca a população a defender a proposta bolivariana de desenvolvimento. O governo não se esconde e não escamoteia suas propostas. Tem problemas? Claro que tem! A Venezuela não é um país socialista, o governo - desde Chávez - comete muitos erros, se equivoca de caminho, volta, retoma. Há uma certa burocracia estatal se fortalecendo, há corrupção. Óbvio. É um governo de humanos. Mas, também há esse diálogo direto com as gentes, feito cara-a-cara e sem medo de defender as escolhas de cunho mais socialista ou progressista. Assim, os erros podem ser acertados. Tudo está em ebulição. Essa é uma luta interna, mas não dá para ser ingênuo. Aproveitando-se das divergências internas, o império - incorporado nos EUA - põe a sua mão. É igualmente óbvio que um governo bolivariano não é bom para os Estados Unidos. Eles preferem os amigos da velha elite, seus também velhos aliados. Vai daí que tudo isso se expressa nas ruas. Descontentes de esquerda, a direita renitente e os mercenários ianques.  Realidade explosiva e complexa. 

No caso do Brasil, as similitudes aparecem igualmente no crescimento da mobilização popular que esteve bastante adormecida nos últimos tempos. Como a opção do governo petista, desde Lula e agora com Dilma, foi de aliança com os banqueiros e com a elite dominante, os problemas de poder começam a se acirrar, porque a elite é insaciável. A escolha por seguir pagando religiosamente os serviços da dívida tira do governo brasileiro a possibilidade de realizar mudanças estruturais. Como analisou o economista Nildo Ouriques, no programa Faixa Livre, da Rádio Livre, nessa sexta-feira (dia 21) as políticas sociais do governo brasileiro não passam de "caridade", não conseguem ultrapassar esse limiar. Com isso, foi se formando uma grande bolha de descontentamento. Existem críticas fortes feitas por parte da esquerda, que, de forma clara tem apontado os desvios de curso, os erros estratégicos, as alianças funestas. Uma esquerda que mostra onde estão os limites e que aponta caminhos, sem ser levada em conta.

Pois esses limites e equívocos agora emergem. O desemprego é uma dos menores da história? Correto. Mas os salários são de miséria. Isso vai aprofundando o abismo das desigualdades sociais. O conflito acaba se explicitando, muitas vezes de forma indefinida e esparsa como mostraram as jornadas de junho. Com a completa falência dos partidos políticos, que deixaram de fazer política, "preferindo fazer trabalho eleitoral", como diz o economista e presidente do Iela,  Nildo Ouriques, não restou ao povo senão a revolta, que se mostrou nas mais variadas facetas, inclusive a da reação alienante. "Não sei porque estou na rua, mas se todo mundo está, também vou". Ou seja, era uma apropriação ingênua, mas não irreal, das demandas do movimento social organizado. Essas pessoas, de um jeito ou de outro sabem que o transporte é uma droga, a saúde é uma droga e a educação vive um estado de miséria. As coisas não estão bem! Muitas vezes, como na Venezuela e na Ucrânia, explodem em reações de cunho fascista, justamente porque falta trabalho político junto às massas.

Diante de todos esses conflitos e o acirramento da luta popular - que encontrou ainda mais força no derrame de dinheiro público para obras da Copa - qual foi a atitude do governo petista? De novo, o professor Nildo Ouriques oferece uma interpretação: "O governo não tomou posição diante do povo na rua, preferiu ignorar o conflito, não enfrentou o drama social que gera dependência e subdesenvolvimento. Em vez de convocar as massas para a luta nas ruas, na defesa de um projeto emancipador, abafou o conflito, não explicitou seu projeto de país". Com isso, acabou atiçando a direita que está sempre à espreita de qualquer deslize para se fortalecer.

A conjuntura brasileira, a exemplo da Ucrânia ou Venezuela, também é complexa. Há os jovens que anseiam mudanças, há os revoltados por causas difusas, mas legítima, há uma esquerda crítica que não pode ficar calada sob a pressão de se confundir com a direita, há partidos políticos com interesses coletivos legítimos, mas há também uma direita raivosa que arma e incita à violência, bem como militantes à soldo das políticas estadunidenses, como não poderia deixar de ser. Porque é preciso que se tenha claro que os Estados Unidos atuam, e forte, na tentativa de manter os países da América Latina na sua órbita. Seja com financiamento direto de grupos, seja com a colonização ideológica e cultural. Não são poucas as pessoas "de bem" que acreditam firmemente serem os Estados Unidos os guardiões da liberdade.  Desconhecer todas essas forças, também as externas, é enveredar para a ingenuidade, coisa inconcebível no mundo da político. Mas, se há tudo isso, como diferenciar esses grupos no meio de uma multidão de milhares e milhares de pessoas? Aí está o desafio. Nas manifestações de junho, nos grupos que gritavam “fora partidos”, a organização – com distribuição de camisetas e lanches – estava a cargo de conhecidas figuras de partidos de direita. Então, há que se informar, estudar, compreender. Não é possível ficar no âmbito da consciência ingênua, acreditando que o povo que marcha quer uma coisa só. Como também não dá para agir como um avestruz, dizendo que quem protesta são só os "coxinhas", ou mercenários, ou anti-petistas, ou a esquerda "burra". Há uma fatia muito grande de descontentes que estão se expressando. Há gente séria fazendo a crítica. E também há entre os que respondem a violência do estado com violência, porque em determinadas situações é o único que cabe fazer. Desconhecer a realidade é o primeiro passo para a derrota.

A paz, todos a querem. Mas pessoas há que querem a dos cemitérios e outras que preferem a de um país soberano, livre e com participação popular.

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

A Venezuela e a luta de classe



Janeiro de 2006. É final de tarde na turbulenta Caracas. O bar próximo ao imponente teatro Tereza Carreño fervilha de gente atrás das famosas "arepas", um sanduíche típico do país feito com milho moído. Ali encontramos Rosália, prostituta, mãe de três filhos já grandes. Espera a hora para entrar no teatro, coisa que iria fazer pela primeira vez, junto com mais duas amigas. Iam ver uma exposição de fotos sobre mulheres caraquenhas, promovida pelo governo venezuelano. “Nós nunca tivemos acesso à nada por aqui. Agora, com Chávez, temos. Podemos ir ao teatro, ler - os livros são distribuídos de graça - e nós mesmos criar cultura. Imagina quando que uma mulher como eu, antes, iria entrar no Tereza Carreño?” Rosália, assim como as amigas que bebericam uma cerveja, morreriam por Chávez. Fazem parte daquele grupo de pessoas que sempre foi invisível na grande cidade, e que, naqueles dias, no auge da revolução bolivariana, se sentiam protagonistas da sua história. “A gente trabalha na missão Barrio Adentro, temos de trabalhar para ajudar o país. Chávez convocou e a gente vai”. As missões são a forma de organização com a qual a população Venezuela conseguiu ir se encarnando na vida das gentes.

Do outro lado da cidade, no bairro de Altamira, a realidade parece ser completamente outra. É o centro da vida da elite caraquenha, reduto da riqueza. Ali as ruas são vazias, não há o burburinho das zonas populares, proliferam os prédios e os esterilizados centros de compras. As mulheres que circulam bem vestidas e maquiadas são bem diferentes de Rosália. Nunca foram barradas no teatro mais importante da capital e tampouco, hoje, participam das missões para melhorar o país. Fazem parte do grupo dos “esquálidos”, oposição ao governo. Em alguns lugares até é possível ver a bandeira dos Estados Unidos tremulando, numa mensagem bem clara sobre quem eles admiram. Não querem saber de Chávez e de seus planos de tornar a Venezuela soberana.

Três estações do metrô adiante, surge o bairro Sabana Grande e, ali, tudo fica "patas arriba". Como num passe de mágica, outra Caracas surge. Não mais as ruas  clinicamente limpas, os enormes outdoors, os prédios clarinhos, os carros importados, os centros comerciais, as gentes bem vestidas. O que se vê são calçadas tomadas por uma infinidade de barracas de lona do mercado informal. As ruas estão sujas, há lixo nas esquinas e as pessoas comuns estão envolvidas em outra marcha: a da sobrevivência. O grande bulevar da Sabana Grande é o retrato da vida real. Nele vicejam os hotéis de encontros fortuitos, os mendigos, alguns garotos e garotas drogados e mais e mais barracas onde se vende tudo o que há. Mais adiante, na direção da periferia, desaparecem os toldos de lona e surgem as imensas comunidades de tom marrom, que se espalham pelos morros, cheias de barracos de tijolo ou lata. É gritante a divisão das duas Caracas, o que torna mais compreensível a guerra ideológica e utópica travada nas ruas. Nos bairros ricos e limpinhos as pessoas lutam para manter a vida pequeno burguesa, aparentemente protegida, que o dinheiro pode comprar. Nos bairros degradados e na periferia as gentes lutam por mudanças concretas que as levem para uma vida digna, de riquezas repartidas. Essa dicotomia de projetos é tão visível e densa que quase se pode tocar com as mãos.

A batalha para consolidar o bolivarianismo 

Passados oito anos da viagem à Venezuela, muitas são as mudanças na vida dos dois grupos que se enfrentam cotidianamente por um projeto de país. Naqueles dias, a promessa de transformação era soberana. Chávez vencia, eleição após eleição, os golpes que a direita entreguista perpetrava. As missões floresciam e as gentes construíam um novo país. Hoje, a Venezuela está golpeada. A morte de Chávez, no ano passado, pouco antes de assumir mais um mandato, foi um baque duro demais. Ainda que a organização popular tenha crescido e se fortalecido, sempre foi inegável o impacto de Chávez na vida de toda aquela gente que assomou em 1998 como protagonista da nova Venezuela. Ele era a alavanca que provocava o empuxo  para a frente, sempre para a frente.

Muitos foram os avanços populares no país durante os anos de governo bolivariano. A educação, a saúde, a moradia, tudo melhorou para os que eram os mais empobrecidos. Mas, havia um grande desafio a ser vencido: sair da armadilha da dependência do petróleo. Desde sempre, por sua riqueza petrolífera, a Venezuela baseava toda sua economia nesse setor. A revolução bolivariana tinha, então, que recuperar o país para a produção. Havia que incentivar a indústria nacional, a produção de alimentos. O país estava refém das importações. Tudo o que se consumia vinha de fora. E esse foi o caminho que começou a ser palmilhado. Desenvolvimento endógeno. Uma tentativa de substituição de importação.

Mas, o processo venezuelano não foi um processo revolucionário aos moldes ortodoxos, de vitória armada, com o aplastamento do "inimigo". A proposta bolivariana se deu nos marcos da democracia, com eleição, plebiscitos, referendos. Isso significa que, ao longo do tempo, a oposição esteve sempre organizada e atuante, disputando no mesmo terreno. E tanto atuava em liberdade que chegou a tramar e levar a cabo um golpe de estado em 2002, sequestrando o presidente Chávez, e mentindo para o povo que ele havia renunciado. Só que a população organizada ocupou as ruas e recuperou o presidente, bem como a retomada do processo democrático. O golpe foi debelado, mas os golpistas continuaram agindo, livremente, para derrubar a proposta bolivariana, que nada mais é do que distribuir a riqueza, garantir soberania e construir a integração da pátria grande .

Assim, esse embate se manteve nos 13 anos de governo de Chávez. Quando algumas coisas começavam a andar, lá vinham os golpistas com alguma armadilha e tudo tinha de parar. Ao longo desse tempo várias eleições foram realizadas, uma nova Constituinte foi promulgada, tudo com muito debate e envolvimento popular. Eventos políticos de abissal importância que mobilizavam as gentes, mas que, de alguma forma, paravam a máquina das mudanças prosaicas, essas que precisam se dar no dia a dia. Assim, com o passar do tempo e com tantos entraves para as mudanças, o projeto de um desenvolvimento endógeno não conseguiu decolar com a força necessária. O petróleo seguiu dando as cartas e a mesma elite que antes enriquecia com a importação de bens e alimentos, seguiu atuando no mesmo setor.

Na luta cotidiana, Chávez conseguiu uma certa composição com os empobrecidos - historicamente fora de qualquer processo na Venezuela - e a classe média, contando ainda com algum apoio empresarial. Uma tênue composição de classe que nunca perdeu sua tensão. 

A crise e os desafios para o futuro

Desde a última eleição para a presidência, quando Chávez já estava doente, a direita venezuelana colocou em campo todos os seus trunfos. Apostando em lideranças jovens e agressivas, fortaleceu o discurso de que a Venezuela estava indo para o abismo e que era hora de retomar as rédeas do país. É claro que esse abismo estava sendo fortalecido por essa mesma elite que hoje sonha em retomar o controle das riquezas do petróleo. Uma elite que não aceitou a proposta do desenvolvimento, que seguiu apostando na dependência dos Estados Unidos  - financeira e política - e prefere manter a Venezuela como no passado: com uma massa gigantesca de pobres e um pequeno oásis onde só ela possa usufruir das riquezas. 

E, já naqueles dias, quando Chávez ainda administrava o país, se podia perceber algumas rupturas na aliança de classe que ele lograra formar. Economicamente, o governo teve de continuar emitindo dólares para realizar as importações necessárias ao consumo interno e isso só fez fortalecer uma camada empresarial que comanda esse setor. Hoje, é essa força que assume a dianteira na tentativa de retomada de controle por parte da direita. Mas, a grande batalha segue sendo pelo controle do petróleo. Não há, nos planos da elite que chama para a rua as forças contrárias ao governo bolivariano, qualquer intenção de melhorar a vida da maioria da população, hoje acossada com uma grave crise econômica e desabastecimento.  

Por outro lado, o governo, comandado por Nicolás Maduro, não está conseguindo tomar as medidas econômicas que poderiam dar outro rumo à Venezuela. O economista Heinz Dieterich, que tem sido um duro crítico do governo bolivariano - desde os últimos anos de Chávez - diz que os dois atos de Maduro para conter a crise, a lei orgânica do preço justo e o plano de paz e convivência, são medidas paliativas que mais tarde se verão inúteis diante do colapso. Para ele, há que tomar os rumos da economia, sob pena de perder o controle do estado.

Agora que a direita mostra os dentes de novo, com força redobrada, o governo bolivariano está numa encruzilhada. Mais uma vez se coloca o problema da composição de classe. Parte da burguesia que estava apoiando o processo bolivariano vai sendo cooptada pelo grupo que busca retomar o controle do país. Não se tem muito claro qual a posição das Forças Armadas nesse momento da crise. Em 2002, quando do golpe de estado por parte da elite predadora, a escolha das Forças Armadas em proteger o processo bolivariano e seguir apoiando a proposta de soberania, foi decisiva para que, apoiadas no povo reunido nas ruas do país a gritar pelo cumprimento da Constituição, ajudassem a garantir a volta de Chávez.

Ainda segundo Heinz Dieterich, as Forças Armadas venezuelanas são hoje a força fundamental para garantir a continuidade do bolivarianismo e do poder popular. Para ele, essa aliança entre militares, vanguardas e povo é a única que pode constituir um consenso capaz de recuperar o tecido social e ultrapassar a crise. Mas, para além dessa  união necessária, são urgentes medidas econômicas que recoloquem a economia nos eixos e permitam a Venezuela retomar seu processo de desenvolvimento endógeno. Uma batalha difícil, mas que pode ser travada com a ajuda também dos países parceiros, unidos na própria ideia bolivariana de integração.

A luta de classes recrudesceu outra vez na Venezuela. As alianças estão rotas e precisam ser reforçadas para que sobreviva o grande legado da Quinta República: poder ao povo, democracia participativa e soberania. A batalha recomeça. Para pessoas como Rosália, vencer essa luta é decisivo para garantir a sobrevivência de milhares de pessoas que, tal qual ela, conquistaram um espaço real de decisão dentro da revolução bolivariana. Já para o pequeno grupo de moradores de Altamira, vencer é retomar o controle das riquezas para ficarem ainda mais ricos do que já são. Projetos radicalmente diferentes.

terça-feira, 16 de abril de 2013

Madrugada violenta na Venezuela

Manifestantes da MUD 

O candidato derrotado nas eleições venezuelanas Henrique Capriles convocou seus aliados para se manifestarem,  o que gerou uma série de manifestações de violência e morte na noite de ontem. Vários espaços bolivarianos foram atacados, sedes de governo, carros oficiais, inclusive as casas de parentes de dirigentes governamentais. Também foram atacados os Centros de Diagnóstico Integral, onde atuam os médicos cubanos, com alguns deles sendo incendiados. Muitos dirigentes do PSUV foram agredidos, dois morreram. Algumas sedes do PSUV foram queimadas, tudo desencadeado pelo apelo do candidato derrotado e a mídia de tradição golpista.

 Por outro lado, a MUD, apesar de vociferar nas redes de televisão que não aceita o resultado,  sequer solicitou formalmente ao CNE o pedido de auditoria dos votos. Segundo a jornalista Eva Golinder a auditoria dos 54% dos votos foi feita sob as vistas de todos os observadores, e isso é praxe. Para auditar os 46% restantes, é necessário que se formalize o pedido, coisa que a MUD ainda não fez. Por outro lado, incita à violência, prenunciando golpes.

Os moradores do bairro 23 de janeiro cercaram o Palácio Miraflores, protegendo o presidente. 

A direita golpista não vai dar trégua. 

quinta-feira, 7 de março de 2013

Nuestra América seguirá...



Ele poderia ser tudo de ruim nessa América baixa: milico, nacionalista, populista. Exemplos já vivenciados, com grotescos resultados. O corpo grandalhão, a voz tonitruante, o enfrentamento sem papas na língua com o império. Típico de um bravateiro. Mais um dos tantos que já passaram por "Nuestra América". Assim, melhor era colocar as barbas de molho. Mas, o tempo foi passando e o milico, outrora golpista, foi se constituindo um dirigente capaz. O exército, que poderia existir para massacrar o povo, começou a atuar no trabalho comunitário. Criaram-se as missões, para as quais as pessoas foram chamadas a participar. E a Venezuela, que desde a derrota de Bolívar vinha sendo governada por predadores das riquezas do povo, começou a se levantar.  Aos poucos, aqueles que sempre tinham vivido como párias, foram se enchendo de dignidade. Dirigiam o que começou a ser chamada de "revolução bolivariana", porque Chávez chamara para si o discurso do velho libertador, Simón. A Pátria Grande começava a andar através da Venezuela, outra vez soberana.

Foram 14 anos com Chávez. Um tempo bom. Chamado de ditador, ele foi talvez o dirigente que mais passou pelo crivo do voto popular. Nenhum outro no mundo. Eleito presidente, ele prometeu uma nova Constituição. Chamou o povo para escrevê-la, depois a colocou em plebiscito. Venceu. Com a nova Constituição colocou-se então à disposição de outra eleição, já submetido à nova carta. venceu. E assim foi. A oposição tentou um golpe. O povo foi às ruas e o resgatou. Depois, a oposição chegou a conseguir as assinaturas pedindo a revocatória, a destituição do presidente. E isso é possível num país que agora tem como poder máximo o poder popular. Chávez submeteu-se outra vez à eleição. Venceu. Eleito três vezes presidente pelo voto da maioria das gentes. E ainda assim, os inimigos insistindo em chamá-lo de "totalitário".

Pois o "totalitário" governou com transparência, com liberdade, respeitando as leis burguesas. Não fez uma revolução armada, não aplastou os inimigos. Pelo contrário. Eles lá estão, na Venezuela, tramando dia e noite, na claridão do dia. Nunca foram molestados. Contra eles apenas a lei, a mesma lei que eles próprios fizeram. Só que para a direita que sempre comandou a Venezuela, a lei só valia quando fosse para seu bem. Quando uma empresa de comunicação perdeu a outorga por não cumprir a lei, andou por aí a denunciar: "censura, censura". Mais uma vez a má-fé. Mas, o povo atravessou tudo com força e participação. E o milico serviu às gentes, o nacionalismo caminhou para a soberania e o populismo foi hegemonizado pelos trabalhadores.

A Venezuela nova, popular, nacional, soberana ensinou sobre generosidade e integração. Derrotou a Alca, proposta estadunidense de nova colonização, criou a Petro Caribe, com a qual começou a distribuir equitativamente o petróleo, ajudando as pequenas nações da América Central e do Caribe, criou a Telesur, uma televisão latino-americana, o Banco do Sul, outra proposta de crédito às nações que ainda amargam a dependência. O país era como uma locomotiva novidadeira, derrotando o império, abrindo novos caminhos, espalhando a solidariedade de classe. E, devagar, porque afinal foram séculos de exploração e miséria, foi reconduzindo as gentes para a vida digna, na qual a participação era a pedra de toque.

Na Venezuela de agora são as pessoas que decidem as coisas. Na luta de classes diária. No enfrentamento cotidiano com a oposição. Vencendo dia-a-dia um leão. Chávez era o condutor. nem herói, nem pai, nem mito, nem nada. Um homem, nada mais, um companheiro. Um homem que caminhava com sua gente em busca de um esperado "meio-dia". Agora o condutor desse novo "trem" latino-americano morreu. para alguns, tão esperada morte. E chorar por ele não é, como dizem alguns, mitificá-lo de forma personalista. Chorar por Chávez é chorar pela ausência desse homem que, com tanta valentia, empreendeu a virada latino-americana. Um momento único na história desse continente. Nunca jamais vivido, a não ser nos sonhos de Martí, Sandino ou Bolívar. Ele merece essa reverência, com todas as suas contradições.

A vaga vermelha que ocupa as ruas da Venezuela nesses dias de dor é a prova de que Chávez era muito mais do que um homem amado. É a constatação da riqueza desses 14 anos com ele à frente do país. Não de forma solitária ou ditatorial, mas com as gentes, através das dezenas de missões que estão encarnadas na vida de cada venezuelano. Alfabetização,saúde, moradia, comida, segurança, tudo avançando, devagar, mas de forma segura. A Venezuela não rompeu com o capital, é fato. Ninguém jamais vai apontar o governo de Chávez como um governo socialista. Não o era. Tinha rasgos socialistas, estava pavimentando o caminho, e isso não é coisa para dez anos. Ainda mais quando é assim, sem revolução radical.

A morte de Chávez agora já não importa. Foi-se o homem, frágil, sua casca corporal. Ficam as ideias, os sonhos, as esperanças e, sobretudo, as concretudes, as coisas feitas, definidas, assentadas. O comandante tinha suas contradições, seus arroubos mas, ninguém pode negar, fez pela América Latina o que ninguém jamais fez ao recuperar esse sentido de união, de integração, de fortaleza e soberania. Só isso já valeria sua passagem breve por esse mundo. Mas, ele fez mais. Educador, amigo, dirigente seguro, articulador, generoso, ardente, apaixonado. Tudo isso fazia dele uma figura de destaque no processo dessa nova América Latina que se conforma lentamente.
Agora é seguir o caminho, colocar à prova se o que havia era apenas Chávez ou se esses 14 anos conseguiram realmente formar um povo capaz de caminhar com as próprias pernas. Tudo está para ser escrito. Um novo capítulo da história da Venezuela e da América Latina. Vem aí uma nova eleição e o poder popular dará seu veredito. Não será uma coisa simples, pois as forças reacionárias estarão agindo com todas as armas: Intrigas, poder econômico, armas, tumultos.  Recuperar a riqueza da Venezuela, tirá-la da mão do povo, é ponto de honra para a elite predadora, sempre à espreita com seus parceiros de fala inglesa.

Para mim, desde o sul do Brasil, resta a torcida para que todo o sonho bolivariano que foi constituído nesses 14 anos siga adiante, com força, com a participação concreta das gentes. E hoje, irmanada ao povo da Venezuelana que toma as ruas do seu país para honrar o amado presidente, igualmente me rendo à dor pela perda de um homem que, desde sua singularidade, ajudou a dar outra cara para essa nossa Pátria Grande. Mas, fundamentalmente, rendo graças por ter vivido esses tempos, por ter pisado na Venezuela bolivariana e ter experimentado a força de um poder verdadeiramente popular.

Aos inimigos que celebram sua morte fica o recado da história. O que morre é o homem. O caminho semeado de ideias e sonhos haverá de florescer, porque, afinal, os semeadores somos todos nós. E seguiremos! Porque a luta de classes está mais do que viva nesta Abya Yala.