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segunda-feira, 23 de maio de 2022

Sábado Santo



Sábado é um dia que eu tiro pra mim. Os cuidados com o pai me exigem demais e a gente precisa de uma janela para oxigenar a existência. A minha é no sábado. Eu acordo bem cedo, como sempre, e enquanto a casa toda dorme eu ajeito o cantinho do pai que fica na sala. Arrumo as mantas, passo um pano com cheirinho bom, tiro o pó, deixo tudo ajeitadinho. Depois, tomo café e leio um pouco até umas oito e meia. Tenho de aproveitar o silêncio. Aí é hora de começar a me preparar para ir para a rádio, onde tenho um programa das onze ao meio dia. Sempre vou cedo para arrumar a rádio, preparar tudo. 

Geralmente o pai dorme até às 10 horas, mas ontem ele acordou antes de eu sair. Aí não tem escapatória. Tenho de ajudar ele a levantar. Arrumo as roupas, dou banho de gato – que é que é possível nesse frio -  e trago para tomar café. Nesse ínterim o resto do povo já levantou então entrego o pai para eles e vou para a rádio. Pedro e Renato ficam no comando. Eu pego a bicicleta e saio na pernada. A rua resplandece ao sol. Os vizinhos estão sentados nas calçadas, uns tomando mate, outros só lagarteando. Bom dia. Bom dia. Bom dia. Vou passando e deixando sorrisos.  

Na rádio a manhã passa voando. O programa tem uma hora, mas conseguimos trazer sempre um bom conteúdo. Terminada a função é hora de ir para o Bar do Zeca, tradição desses 16 anos de Rádio Campeche. Na beira da praia, com os amigos queridos. Rola solta a cerveja e sempre beliscamos um peixinho. Tenho amigos especiais. Eles se importam comigo e com a  minha vida, então é nessa hora que abre-se a assembleia para buscar soluções para os meus problemas cotidianos. Surgem as ideias mais mirabolantes. Rimos muito. É bom demais. Eu os amo.

Lá pelas três horas tomo o rumo de casa depois destas horas estelares regadas à cerveja. Chego e já me espera o pai. Pedro e Renato saem e eu fico. Tudo recomeça. É hora de ver os calouro do Raul Gil e depois preparar a janta. Então, vem a hora de dormir e todo o ritual de arrumação do seu Tavares. Feito isso, ele se embola nas cobertinhas e eu fico ao seu lado, velando até ele dormir. Quando ele ressona é minha hora de embolar na quenturinha... 

E assim termina mais um sábado santo, um dia ordinário, como diz Adélia Prado, mas bunitu dimaisdaconta, e eu agradeço!


sábado, 9 de abril de 2022

Homenagem aos vivos/ Ângela Dalri


Quando eu entrei na UFSC como trabalhadora, logo no primeiro mês já estava metida nas assembleias do sindicato. Imediatamente percebi que o grupo de esquerda ali era o Movimento Alternativa Independente (MAI), liderado por Helena Dalri, uma gigante, no tamanho e na força política. Passei a acompanhar as reuniões e discussões do grupo. Foi quando conheci a outra Dalri, uma pequenininha, mais preciosa que um diamante: Angela Dalri. Ela tinha aquele olhar de passarinho que bateu na janela que era arrasador. Impossível dizer não para a Ângela. Quando íamos fazer campanha para a eleição do sindicato, ela me ligava para acompanhar nas passagens de setor. Íamos de salinha em salinha, nos lugares mais recônditos da UFSC. Nunca vi alguém tão persistente. 

Depois, quando ganhamos as eleições, ela tinha por prática fazer essas visitas cotidianas e tirava sempre um tempinho do dia para andar pela UFSC, falando sobre as lutas, colhendo demandas. Aparecia lá na Agecom com aquele olharzinho de passarinho e lá ia eu atrás dela. Com Ângela aprendi que um sindicalista é como o artista, tem de estar onde estão os trabalhadores, não só no tempo da eleição, mas todo dia e sempre. Nas atividades do sindicato ela era a primeira a chegar, última a sair, e como uma formiguinha andava pra lá e pra cá colando cartazes, enchendo balões e passando nos setores. Imparável e incansável, sempre arranjando alguma coisa pra gente fazer. 

Ela também acreditava que conversando com o povo pessoalmente, a galera iria para a greve. E dava certo. Ela chegava, com aquele seu jeitinho, e falava, e falava e falava. E se encontrava alguém furando a greve lá ia convencer o vivente, numa paciência de Jó. Os furões fugiam dela como o diabo da cruz. Também se achegava nos pelegos e nos adversários que se obrigavam a ouvir a pequenina, mesmo a contragosto. Estando ou não estando na direção do sindicato a Ângela fazia esse trabalho de contato pessoal, cotidiano. E só parou quando uma dor tão grande a sufocou. Mas, se deixou o trabalho na UFSC, ela mesma não parou. Passou a se ocupar dos famintos, dos sem casa, dos da rua, levando sopa, pão, carinho. E a sua carinha de passarinho passou a ser esperança para os sem-nada. 

Até há pouco tempo ali estava ela acolhendo os haitianos, africanos e os venezuelanos migrantes, garantindo casa e alimentação. Está sempre fazendo algo por alguém. Acolher é o verbo que a identifica. Ângela foi sempre meu sul, minha direção segura. É minha “ídala”, meu amor.  Hoje, na celebração dos 30 anos do Sintufsc eu tive a alegria de vê-la de novo na UFSC, apesar de toda a dor que eu sei que significa estar ali. Foi porque é o nosso passarinho, porque suas pegadas estão cravadas nos caminhos da universidade, em cada salinha, em cada jardim. Foi porque sabe que é parte imensa dessa construção que é o sindicato dos trabalhadores. Foi porque ama cada um de nós. 

Nesse abraço registrado por Rubens Lopes, eu deixo registrada essa homenagem à mulher mais linda, mais querida, mais comprometida, mais persistente, mais tudo que eu já conheci. Te amo a perder de vista Angela Dalri, obrigada por tanto que me ensinou pequenininha, meu passarinho, minha amiga, meu amor....

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

Jorge Luís encantou



O Jorginho era assim: amoroso ao extremo, perfeccionista total. O conheci em 1985, em Uruguaiana, quando fora fazer uma matéria com o André e o Pauletti. Eu trabalhava na TV local. Logo simpatizamos e ele disse: “tu vai trabalhar com a gente em Passo Fundo”. E foi dito e feito. Pauletti me convidou para trabalhar em Passo Fundo e eu fui.

Jorge Luís era repórter fotográfico. Dos bons. Era perfeito. Tirava leite de pedra e quando ia gravar uma simples entrevista, levava dois pontos de luz, usava contraluz, rebatedor, o escambau. Muitos repórteres e motoristas não gostavam de sair com ele porque demorava demais, carregava tralha demais. E tinha de montar tudo, sem as mínimas condições materiais. Inventava, criava materiais do nada.

Comecei a trabalhar com ele em Passo Fundo, também em 1985. Cada pauta era uma aventura. Aos contrários dos demais, eu adorava sair com ele, justamente por conta de sua mania de inventar e fazer o melhor possível. Éramos um grande trio: eu, ele e o Kapa, que na época trabalhava de motorista. Ele era o rei das imagens, fazia chover. E cada ângulo tinha de ser perfeito. Pasmem, ele usava o tripé para as matérias do dia-a-dia. “Deuzulivre” uma imagem tremida. Jorge era a perfeição.

Foi com ele que descobri Annoni, o primeiro acampamento do MST no Brasil. Uma cidade de 1.500 famílias. E foi ele que me apresentou cada uma daquelas pessoas que mudaram para sempre a minha vida. Era como uma alma-gêmea. Irmão. Quantas noites vividas no bar do Osvaldir, enchendo a cara e falando de imagens, de ângulos, de luz.

De tão bom que era foi chamado pela Globo do Rio de Janeiro. E para lá se foi, deixando a gente a ver navios. Mas, todos torcíamos por ele. Era o mago das imagens. Iria se dar bem na platinada.

Só que a vida no Rio foi dura demais pra ele. Não suportou ver a miséria nos morros, a fome, a violência. Viveu dores profundas, pessoais, espirituais. Um belo dia bateu na porta da minha casa, eu já em Florianópolis. Tinha abandonado a Globo, o Rio, a loucura da competição, a pressão pela imagem da dor. Ele não era pessoa para inventar, ou criar mentiras. Era um garoto com um coração gigante, capaz das ternuras mais profundas. Jamais poderia vingar num sistema de moer carne como a Globo. Uma máquina de mentiras. Não ele. Não ele.  Foram algumas semanas de lágrimas, dores e abraços, muitos abraços. Viera buscar esse carinho que só os verdadeiros amigos podem dar.

Quando partiu já estava bem melhor, acompanhado que fora pela querida Catarina, minha amiga psicóloga. Mas, de fato, nunca superou os profundos buracos que foram causados na sua alma. Viveu por muito tempo atormentado. Deixou de trabalhar. Já não aparecia mais como o mago das imagens. O tempo passou e nunca nos perdemos. Sempre falando, trocando cartas, confidências. Meu braço amigo sempre pronto para acolhê-lo. Depois de algum tempo voltou a produzir vídeos, poemas, textos. Semeava sua doce loucura em palavras e imagens, capturando outra vez a beleza das coisas e das gentes.

Cuca, cuquinha... assim me chamava.

Ontem, se foi. Encantou, chocando sua moto num caminhão. Andava pela estrada, vento na cara. Pensando sabe-se lá o que. Talvez nada. Só fruindo essa maravilha que é estar vivo, o sangue pulsando, quando tudo nos diz que essa vida é uma grande merda. Um átimo e já não estava mais. Se foi. Foi-se a turbulência, o medo, a dor. Foi-se tudo.

E o que fica, pelo menos para mim é sua imagem de menino sapeca, os olhos esbugalhados de alegria ou prazer diante de uma cena bem feita. O riso alegre e orgulhoso quando via a reportagem prontinha, editada, “perfeita”. O que fica é o seu abraço apertado, o aconchego, a amizade sincera, capaz de sobreviver a tantas turbulências.

Longe e perto, caminhamos juntos por essas veredas do jornalismo. Ele era um dos melhores, capaz de capturar numa imagem, o mundo.

Ontem encantou. Hoje está na paz! E seguirá eterno, no meu coração... valeu Jorginho, Jorge Luís, meu querido... 


segunda-feira, 25 de março de 2013

Quando um amigo chamar, vá!


Ela tinha muitos amigos no facebook e inumeráveis seguidores no twitter. Por ali sempre rolavam conversas, risadas, compartilhamentos de textos e sentimentos. Mas havia a frieza de um espaço sem olhares quentes, sem abraços apertados, sem beijos, sem toques de mãos. E ela precisava disso. Talvez porque fosse de uma outra geração, de um outro mundo, desses nos quais as pessoas se olham e se afagam e se beijam e se encantam uma com a outra. Ela, então, tinha sede e fome de presenças, era o seu alimento e, sem isso, definhava. Achava até que se não tivesse, vez em quando, o contato real com aqueles a quem amava, morreria.
Então inventou um encontro. Precisava dele para não sucumbir de vazios humanos. Comprou frutas, sucos, vinhos, pãezinhos e patês. Tal qual Babette planejando a festa, preparou delícias para dividir com aqueles os quais chama de amigos. Comer junto é comunhão, coisa sagrada, desperta o que há de melhor em cada ser. Também, feito a raposa, desde a manhã seu coração batia ligeiro esperando a hora do abraço que lhe devolveria a vida. Era o primeiro dia do outono, a mais bonita das estações, e chovia uma chuva forte, lavando a cidade e preparando a terra para a colheita. O universo conspirava para que a noite fosse de profundas alegrias.
Quando a hora chegou, tudo estava pronto. A mesa posta, a música escolhida, o vinho aberto. Ela sentou-se na varanda, a esperar. A chuva seguia, renitente, mas, pensou: “ninguém é de açúcar”. E quem ousaria não dar ouvidos ao chamado de um amigo? Sorriu e ficou a imaginar cada um dos rostinhos amados que chegariam, afogueados, guarda-chuvas abertos, fugindo do aguaceiro, também ansiosos pelo encontro, o abraço, o toque.
O tempo foi fugindo do relógio, a chuva seguindo seu curso, as frutas murchando e ninguém apareceu. A mulher deixou-se ficar à varanda, com todos os copos de vinho no chão. Na cidade molhada nenhum amigo atendeu ao chamado. Não haveria abraços, nem beijos, nem toques de mãos. Então, dos olhos, começaram a escorrer pequenas gotas de lágrimas, que foram crescendo, crescendo, crescendo, até formarem uma imensa poça de água. No dia seguinte, quando a procuraram, tudo o que puderam encontrar foi aquela estranha poça ao lado da cadeira que balançava sozinha no alpendre. A mulher nunca mais foi vista. Seu último post no facebook foi um insistente chamado para a festa.
Sua caixa de emails, aberta no dia seguinte, estava cheia de mensagens dos amigos, dizendo que tinham coisas importantes a fazer. Não seria possível o encontro. E a vida seguiu no facebook, com milhares de pessoas “compartilhando” coisas.