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quarta-feira, 24 de janeiro de 2018

"O Rio ainda é o tambor do Brasil"




O pré-candidato à presidência da República pelo PSOL, Nildo Ouriques, esteve por vários dias no Rio de Janeiro, onde cumpriu intensa agenda partidária, visitando cidades do interior e também a capital. Sua proposta foi ouvir os filiados e dirigentes locais sobre os rumos do partido e também conhecer os principais desafios da população fluminense. Entre as atividades esteve a visita à Rocinha, uma das maiores comunidades da cidade do Rio, com mais de 100 mil habitantes, e lá, reforçou sua ideia de que a população realmente quer uma mudança radical na vida e na política. E essa mudança é a Revolução Brasileira.

Nildo tem especial carinho pelo Rio de Janeiro. Foi lá que viveu seu primeiro emprego, em 1985, atuando na Fundação Escola do Serviço Público, durante o primeiro mandato de Leonel Brizola como governador. Desde então tem observado que a capital fluminense, apesar de ter perdido o posto de capital do Brasil, seguiu sendo uma espécie de “tambor” do país, sem nunca ter renunciado o posto de vanguarda intelectual e política. Até hoje, o Rio mantém um grau de heresia e vitalidade com uma imensa capacidade de pensar o país.

Na visita à Rocinha ficou claro de que essa vocação de ser o tambor do Brasil segue viva e atuante. E está na vida mesma das comunidades, nas pessoas simples que vivem seus dramas cotidianos e que os driblam com valentia, sempre procurando as saídas que garantam o bem viver. “É impressionante a satanização que a mídia faz dessas comunidades. É fato que existe a ação forte do narcotráfico, que há uma militarização tremenda, um combate aberto, letal, uma tensão permanente, mas as pessoas têm uma imensa sabedoria e uma astúcia sobre as causas e as soluções”.

Nildo conversou com lideranças, pequenos comerciantes, agentes comunitários de justiça, trabalhadores e observou que se há alguém responsável por todo o drama que vivem as pessoas empobrecidas nas favelas do Rio ou de qualquer lugar, são os governantes. Eles são responsáveis e cúmplices porque se recusam a convocar a população para, junto com ela, encontrar as saídas para cada problema. “O que falta nas comunidades é nada mais nada menos do que o poder público. Falta acreditar no povo, falta fé nas gentes, falta chamar as pessoas para participar efetivamente”.

Caminhando pelas vielas labirínticas da Rocinha Nildo percebeu que se os burocratas partidários torcem o nariz para o tema da Revolução Brasileira, as gentes simples não. Elas abrem os olhos e os ouvidos e encontram nessa proposta a melhor alternativa. “Ali a violência é cotidiana, eles sofrem o racismo, a desigualdade de classe, a miséria, o caráter letal da polícia. Eles querem uma transformação radical. Sabem que nessa ordem nada vai mudar”.

Um exemplo disso é a expressão do programa “Minha casa, minha vida” que encravou na comunidade de mais de 100 mil habitantes um total de 400 casas. Isso é uma gota de água no oceano. Pensar a questão urbana no Rio ou em qualquer metrópole passa por um projeto que seja verdadeiramente transformador. “Ali deve se começar com 15 ou 20 mil casas. Menos que isso é ilusão. E a comunidade que olha como funcionam essas políticas, sabe disso, quer outra coisa”.

Nildo aponta que existe uma guerra de classe contra o povo e a saída é a revolução brasileira. No caso da questão urbana, como na agrária, na economia ou na cultura, o que precisa é uma articulação concreta entre as reformas necessárias e as políticas públicas. Programas paliativos que comovem as pessoas de boa fé são incapazes de resolver os dramas urbanos ou rurais. Há que se pensar programas massivos, que garantam moradia. “Para isso, no programa da Revolução Brasileira será necessário mexer no estrutural: tirar dos grandes proprietários do espaço urbano a capacidade que eles têm de tomar a renda da terra e ficar especulando com o aluguel”.


Já com relação ao tráfico, igualmente letal nas comunidades, a solução não deverá passar pelos marcos da política punitiva atual que usa uma polícia violenta, que mata o povo, que prende apenas os pobres e pretos. Bem como são também pobres e pretos os policiais que igualmente tombam nessa guerra sem fim, mostrando que é apenas a classe trabalhadora que coloca as vítimas. “Os resultados disso tanto nós como as comunidades já sabem: morrem os pobres, os trabalhadores, e os ricos passam as férias na Europa. Não vamos defender as ilusões do sistema. Temos um programa de grandes transformações, mudanças reais, construções produzidas pelas próprias pessoas que vivem os dramas cotidianos. Com elas vamos realizar a Revolução Brasileira”.


sexta-feira, 24 de março de 2017

Egito: Mubarak, o assassino, está livre

A praça Tahrir, em 2011, ardendo em rebeldia...

Estive no Cairo quando se celebrou um ano da revolução que derrubou Hosni Mubarak. Pude compartilhar da alegria de milhares de jovens, que celebravam o começo de um novo tempo para o país e se animavam com a prisão do tirano que foi o responsável pela morte de centenas de pessoas durante os conflitos, bem como a de seus asseclas. Mubarak havia assumido o controle da vida dos egípcios havia 30 anos, depois de assassinar Anuar Sadat. Governava com mão de ferro e exterminava todos os seus adversários.

Naqueles dias de celebração da luta só havia esperança. Na Praça Tahrir, a população dançava e cantava, comemorando. Por todos os espaços do Egito mobilizavam-se, principalmente, os jovens, construindo novas formas de organização, até então impensáveis. Estavam para chegar as eleições gerais, há tanto tempo esperadas e mesmo que viesse um governo ligado à Irmandade Muçulmana, a população acreditava que as coisas poderiam ser diferentes.

Não foi assim. O que fora chamado de “primavera” começou a dar sinais de inverno. As eleições deram vitória à Irmandade Muçulmana, como já era esperado. Mas, o governo de Mohamed Mursi não foi capaz de dar sequência às demandas da revolução. Endureceu, e sua condição de religioso também levantou várias forças contrárias. A tensão cresceu e o comandante do exército, Abdel Fattah al-Sisi, deu um golpe, derrubando Mursi. Era o começo do fim de qualquer possibilidade de mudança. O Egito mergulharia outra vez na corrente do autoritarismo. Mesmo com eleições em 2014, que deram a vitória a al-Sisi, a sonhada democracia não vingou.

Agora, passados seis anos da revolução, o Egito segue vivendo a tirania, uma ditadura militar das mais ferozes, que começa a recuperar todos os “caídos” do antigo regime. A começar pelo “cabeça”, Mubarak.

Condenado a prisão perpétua em 2012, responsabilizado pelo assassinato de quase 300 pessoas durante os conflitos revolucionários, ele agora foi colocado em liberdade, inocentado de todo o terror que provocou. Também já estão livres seus dois filhos, igualmente considerados sanguinários. Tudo volta a ser como antes no belo e acolhedor Egito.

O fato é que uma revolução precisa derrubar todo o sistema antigo, destruir, não deixar pedra sobre pedra. Sem isso, os velhos poderes se rearticulam e assomam outra vez, travestidos ou não. No caso do Egito, a situação é bastante complexa. Quando a revolução terminou e Mubarak foi preso, o drama não tinha acabado. Estava apenas começando. Quando vieram as eleições, o único partido que tinha condições de vencer era mesmo o da Irmandade Muçulmana. Afinal, os partidos que surgiram, com as novas lideranças, com a juventude, não tinham base material alguma para fazer a disputa. No Egito não há propagando política gratuita. Cada partido tem de se organizar com suas próprias pernas e buscar os votos em todo o país com recursos arrecadados dos militantes.

Já a Irmandade Muçulmana, além de contar com um partido sólido, articulado em todo o país, tinha ainda todas as mesquitas a seu favor. A competição era desigual. Não foi à toa que Mursi ganhou a eleição. Contra esse poder, só a força das armas, e foi o que Sisi usou. O exército, eivado de gente ligada ao antigo regime, de Mubarak, não estava cooptado pela revolução. Então, tudo voltou a ser como antes.

Agora, aquela juventude que vibrou e cantou na Tahrir terá de conviver com os velhos sanguinários de volta às ruas e aos espaços de poder. Tudo terá de recomeçar.

Meu coração sangra ao lembrar o rosto e o sorriso de tantos egípcios que encontrei no caminho, cada um deles repleto de esperanças de vida melhor. Sequer sei se ainda estão vivos, ou se já foram tombados pela ditadura. Ou pior, se sobreviventes, seguem agora na amargura de vivenciar um governo ainda pior do que o de Mubarak.

Quando aqui no Brasil assistimos a derrocada de grande parte das conquistas dos trabalhadores, percebemos entristecidos que esse avanço do conservadorismo e das práticas de direita não é uma coisa local, mas sim o capitalismo avançando para mais uma fase de acumulação. E, nela, o que jorrará com mais força é o sangue dos trabalhadores. Não que não seja assim o tempo todo, mas é a conta-gotas. Nesses momentos de arranque, a violência é maior.

Que meus irmãos egípcios encontrem as formas para resistir, assim como nós aqui. Estamos no mesmo barco do capitalismo, mas não frequentamos a primeira classe. Estamos nas galés. Há que tomar o barco! Há que tomar...


sábado, 12 de janeiro de 2013

O mensalão e a política- reflexões desde a esquerda




A lembrança é vívida. Quando aconteceu a Reforma da Previdência, em 2003, nos primeiros meses do governo Lula, eu dirigia o Sindicato dos Trabalhadores da Universidade Federal de Santa Catarina (Sintufsc). E, naqueles dias, fomos implacáveis na crítica. Era a primeira grande ação do chamado “governo popular”, e era um golpe mortal na aposentadoria dos trabalhadores públicos, além de introduzir o malfadado fundo de pensão, uma espécie de “roleta russa” com a velhice das gentes . Em Florianópolis, o Sintufsc foi linha de frente na discussão e na luta contra a tal reforma. Fazíamos debates, reuniões, atos públicos, passeatas, tudo em parceria com outros sindicatos de trabalhadores públicos, alguns ainda tímidos, sem querer bater no governo que iniciava sua trajetória.

Como parte da estratégia de luta, fazíamos o cerco aos deputados federais do PT que eram da bancada catarinense. Foi um momento triste e tenso, porque eram nossos companheiros de muitas lutas, alguns, amigos. Daqueles atos assomaram muitas dores. Amizades perdidas, mágoas, tristezas, desilusões. Mas, o que estava em questão não eram as dores pessoais e sim o destino de quase 200 mil trabalhadores. Assim, não havia como não criticar a reforma e lutar contra ela. Os velhos companheiros, naquele então deputados federais, se recusavam ao debate e nos apontavam o dedo com o argumento de que estávamos tentando desestabilizar o governo, que fazíamos o “jogo da direita” ao criticar Lula. Não foi fácil enfrentar e seguir denunciando aqueles que até pouco tempo eram nossos aliados nas lutas.

Pois no processo de votação da reforma já tinha surgido a acusação de que o governo estava “comprando” votos para formar a maioria e passar a reforma. E tudo isso era denunciado, a despeito das caras amarradas dos que confiavam no governo como um governo de trabalhadores. Para nós, que estávamos à frente do sindicato, nosso papel era claro: defender os trabalhadores, ainda que para isso tivéssemos que enfrentar velhos amigos e mostrar que o “rei estava nu”. Era a prática real daquilo que sempre tivemos como princípio: independência de qualquer governo.

Nunca tive problema em ser “governista”, afinal, se um governo que ajudamos a eleger está no caminho certo, há que se apoiar e defender. Mas, no caso em questão não era o que acontecia. A Reforma da Previdência proposta por Lula era ruim e só traria prejuízos aos trabalhadores. Não havia qualquer avanço naquela proposta, pelo contrário: era uma exigência do ideário neoliberal. Ou seja, a reforma colocava a aposentadoria dos trabalhadores lá em baixo e ainda obrigava àqueles que ganhavam um salário melhor a entrarem no fundo de pensão. Ou isso, o rebaixamento dos salários em 40, 50 e até 70%. Assim, os trabalhadores públicos que futuramente se aposentassem deveriam colocar sua vida nas mãos da especulação financeira.

Aqueles dias de luta foram duros e intensos. Como a Central Única dos Trabalhadores apoiava a reforma, os sindicatos de trabalhadores públicos ficaram sozinhos. Foi assim que nasceu a Coordenação Nacional de Lutas, a Conlutas. Havia que se constituir uma organização nacional que articulasse a luta das mais diversas categorias. Começava, por parte do governo, um longo processo de cooptação de lideranças, desmantelamento dos movimentos, dos sindicatos e da mais importante central de trabalhadores, a CUT. Os trabalhadores públicos ficaram isolados, acusados de atrapalhar o processo de mudança que o governo de Lula queria impulsionar.

O tempo passou, a reforma foi aprovada, o fundo de pensão foi criado e tudo aquilo que os sindicatos de trabalhadores públicos haviam anunciado se fez. A história nos faz justiça. Ninguém queria desestabilizar governo, muito menos atuar na linha da crítica praticada pela velha direita. O que queríamos era mostrar que aquela reforma, assim como as outras que vieram depois, não era boa para os trabalhadores e, por isso, tínhamos de apontar seus defeitos e criticar suas proposições. Havia, como ainda hoje há, muitos sindicalistas que se sentiam constrangidos em fazer a crítica, em se colocar contra, pois não queriam ser colocados no mesmo balaio que velhos inimigos. Mas, outros sabiam que não havia jeito: ou se defendia os trabalhadores ou prestariam contas à história.

O mensalão

É essa história que se descortina sob nossos olhos nos dias em que o Supremo Tribunal Federal começou o julgamento dos envolvidos no chamado mensalão, que surge da reforma da previdência. O dinheiro das sobras de campanha do PT que foram parar nas contas de aliados e outros nem tanto, servira para “sensibilizar” os deputados na votação da dita (ou mal-dita) reforma da previdência. Isso já fora denunciado e era sabido que essa era uma prática corrente no Congresso Nacional durante os governos anteriores. O que não se esperava era que o PT também a colocasse na ordem do dia, afinal, essa prática é o que conhecemos como corrupção. E aí, nesse universo, todos são corruptos. Os que distribuíram o dinheiro e os que o aceitaram, afinal, um deputado é eleito – como representante do povo – para atuar em consequência com os interesses da população. Não deveriam ter de receber um “incentivo” a mais para fazer sua obrigação já tão suntuosamente remunerada. Mas, é assim que é.

A história do mensalão é toda recheada de absurdos, como se fora um desses alucinantes folhetins da tarde nos canais de TV. O detonador da denúncia foi nada mais, nada menos do que um dos corruptos: o deputado Roberto Jeferson que, não satisfeito com seu quinhão, decidiu melar a vida de todo mundo. Para a elite brasileira – que nunca realmente engoliu Lula, apesar de o mesmo ter atuado, no mais das vezes, em consonância com seus desejos - aquilo foi a cereja do bolo. Era o seu momento de colocar no chão aquele que se alçava como o mais popular dos presidentes brasileiros contemporâneos. Ainda que sem mexer com absolutamente nada da estrutura de poder da classe dominante, Lula sempre foi uma pedra no sapato, por atuar, inclusive, na lógica do assistencialismo visando permanecer - ou o seu grupo – no comando da política brasileira. Aquilo aparecia como inaceitável aos poderosos. O escândalo do mensalão foi o orgasmo tardio da elite brasileira. Agora, o PT já não poderia mais se colocar como a vestal da moral e da ética. Estava conspurcado, colocava-se no mesmo saco da farinha política nacional.

Por conta disso, a cruzada moral conduzida pelo STF no caso mensalão não poderia ter sido diferente. Haveria que se condenar um a um dos envolvidos, com absoluto destaque aos petistas. Qualquer pessoa que viva na política sabia que assim seria. Todos haveriam de ser condenados por formação de quadrilha, por terem movimentado milhões de reais na compra de consciências. Não estaria em questão o fato de que isso sempre fora assim, que outros governos também tivessem usado do mesmo expediente, ano após ano no Brasil. Também não estariam em foco outros escândalos de corrupção graúda, como por exemplo as privatizações de FHC, que expropriaram a nação brasileira em milhares de milhões. Ou ainda a agiotagem oficial praticada cotidianamente pelo sistema financeiro junto aos cidadãos e cidadãs comuns, os mesmos que se esganiçam gritando: “crucifiquem, crucifiquem” aos réus petistas.  O grupo de poder que sempre dominou o país tinha nas mãos a chance de derrotar, não o PT, ou os inimigos pessoais, ou o próprio presidente Lula. Com isso, essa gente poderia derrotar uma linda ideia que foi cultivada durante anos e anos no processo conhecido como abertura democrática: a ética da esquerda nacional. Era uma oportunidade de ouro e não seria desperdiçada.

Nesse importante processo de descrédito da “esquerda” (onde colocavam o PT) também não haveria de faltar a ação sempre oportunista da chamada “grande mídia”, outra fatia da sociedade brasileira que nunca conseguiu suportar a ideia de conviver com, ou festejar, figuras que até bem pouco tempo abominavam . Assim, a cruzada moral do STF encontrou a aliada perfeita e o mensalão foi se tornando notícia frequente, tanto mais frequente quando mais se aproximavam as eleições de 2012. Com a derrocada do “santo do pau oco” que era o PT e sua turma, os conservadores poderiam assomar novamente como os guardiões da moral e da ética.

Mas, apesar de toda exposição e o espetáculo diário das sessões do STF demonizando principalmente as lideranças petistas, os resultados eleitorais foram pífios aos conservadores. O governo de Dilma Roussef segue popular e com elevadíssima aprovação nacional. Lula recebe prêmios pelo mundo afora e mesmo os condenados como José Dirceu, Genuíno e outros seguem com suas vidas, apoiados pelos correligionários e militantes petistas.

O rescaldo da pataquada

De tudo o que houve, desde 2003 até agora, o que significa dizer desde a reforma da previdência e todo o processo de conformação de uma maioria disposta a sustentar os projetos governistas no Congresso Nacional, o que fica, então, de resultado? É inegável que a exposição de figuras importante do Partido dos Trabalhadores como corruptos de grande monta consolida a proposta central da elite brasileira que era a de desmoralizar a esquerda. E que fique claro que o PT desde há muito tempo não representa mais uma força verdadeiramente de esquerda. Principalmente quando se fez governo e atuou em consonância com o ideário neoliberal. Mas, para a maioria da população, principalmente aquela que é informada basicamente pela televisão, o PT é sim sinônimo de esquerda. É como esquerda que gente como Miriam Leitão, Arnaldo Jabor, Reinaldo Azevedo, entre outros, tratam o PT. Então, a mácula está consolidada. A esquerda também é corrupta. Nada se salva. Essa é a mensagem do espetáculo do mensalão.

De nada adiante a defesa dos militantes petistas a clamar pelas corrupções passadas de FHC, de Collor, de Sarney que, em volume de dinheiro, são muito mais escabrosas que a do mensalão. Ao que parece, corrupção é sinônimo dessa gente. Mas, não o era no caso do PT que sempre denunciou as maracutaias desses velhos adversários. E aí, ao assumir o governo esse partido teria de valer da máxima do comandante Che Guevara: “no governo, na escola, em casa, com a namorada, em tudo, temos de ser perfeitos”. Não foi o que aconteceu. Independentemente de muitos dos envolvidos terem um lindo passado de luta, o fato é que participaram do esquema, ou fizeram vistas grossas, o que dá na mesma. Isso é inegável. Por isso foram julgados e condenados. Assim como seriam condenados FHC, Sarney e Collor caso a oposição, na época, tivesse tido chance de levá-los a julgamento. Os fatos são os fatos e, se postos num tribunal, não têm como ser contestados. O que passa é que a oposição nunca teve poder e a corrupção dessa gente passou e passará incólume.

Igual destino não foi possível ao PT, os adversários tinham e têm o poder. Fato importante da conjuntura que deveria ser melhor analisado pelas forças petistas. Ainda que o partido governe o país desde 2003, o poder ainda está firme nas mãos da mesma velha oligarquia/burguesia industrial que sempre comandou os destinos da nação.

As lições do mensalão estão aí, às claras, para serem digeridas. O PT embarcou na canoa furada da busca de uma “governabilidade à força” e por cima. Não buscou se valer da governabilidade real, que se conquista com as forças sociais organizadas, com os trabalhadores. E tinha tudo para isso. Quando Lula chega ao poder tem uma força popular gigantesca ao seu lado. Mas, em vez de forçar a mão para a esquerda, buscando amparo nas gentes, o governo foi se rendendo às reformas neoliberais e políticas assistenciais. Em vez de focar nas demandas populares, preferiu uma aliança com a classe dominante. Perdeu. E os lobos, tão logo tiveram chance, abocanharam o cordeiro. Outra lição para ser digerida. Pode até ser que a figura de Lula não tenha sido abalada no processo, mas, no frigir dos ovos, o resultado do mensalão acabou sendo bem ruim para uma força que nada tem a ver com ele: a esquerda brasileira. Não bastasse vir sendo fragmentada e diminuída com a política de cooptação implementada pelo petismo, ainda acabou sendo colocada no mesmo patamar que os velhos e históricos corruptos nacionais. “É o fim dos partidos”, “são todos iguais”, “vamos votar em pessoas não em projetos”... Esses são os novos mantras da despolitização que já se fortaleceram nas últimas eleições.

Mas, se num primeiro momento isso pode parecer um grande estrago, também pode vir a ser uma mola de subida. Se efetivamente a esquerda brasileira quiser, pode tirar boas lições desses processos e avançar. Para isso, haveria que se dar um bom espaço ao estudo sistemático desse período, para a autocrítica e para construção de novas liras e novas canções. Há um longo caminho a percorrer para constituir outro tecido político que venha disputar a vida nacional, uma coisa nova, bonita, capaz de tornar real a “moral guevariana” de “ser perfeito”, verdadeiramente ético e voltado aos interesses reais da nação brasileira. Tarefa árdua e difícil, mas não impossível. E, nesse processo, os petistas históricos, os que participaram do início daquele projeto, quando ainda havia proposta de socialismo, de caminho pela esquerda, também deveriam ser capazes de olhar para toda essa história com seriedade, autocrítica, realidade e optar por novos rumos. Afinal, na política concreta, na vida real, a história avança e exige mudanças.