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domingo, 24 de março de 2024

Memória do Carnaval

O livro de Alzemi Machado "O carnaval das grandes sociedades em Desterro/Florianópolis 1858 - 2011" recebeu o Prêmio Patrimônio Cultural do Carnaval, organizado pela Oficina Crítica do Carnaval. O autor fala sobre o prêmio, o livro e a importância da leitura. A entrega será no dia 26 de abril, às 17h, no Museu Histórico de Santa Catarina.

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2020

Atrás do Berbigão vai até quem já morreu



O carnaval de 2020 em Florianópolis terá um grande vazio. Pela primeira vez em 33 anos não estará à frente dos festejos o alegre e querido Ernani Hulk, histórico Rei Momo da corte da alegria, que encantou em setembro do ano passado depois de uma longa luta contra o câncer. Nascido em Blumenau, ele assumiu o amor pela cidade abraçando o carnaval e por mais de três décadas arrastou a multidão pelas ruas, clubes e sambódromo. Quem vive o carnaval sabe o quanto sua figura era estimada e é justamente por isso que ele será o mais novo boneco da corte do Berbigão do Boca.

O Berbigão é o mais popular bloco de carnaval de Florianópolis, nascido em 1993 e que com o passar do tempo se transformou na festa popular mais importante da cidade, carregando pelas ruas, com alegres marchinhas, para lá de 40 mil pessoas na abertura dos festejos de Momo que acontece uma semana antes da festa oficial. 

Florianópolis já teve um dos melhores carnavais de rua do Brasil, num tempo em que tudo acontecia ao redor da Praça XV. Por ali passavam os blocos, as grandes Sociedades com seus carros de mutações (únicos no país) e as escolas de samba. Para a população a alegria era gratuita, pois não tinha que pagar nada para ver as maravilhas que se construíam ao longo do ano para apresentação no Carnaval. Com a inauguração da Passarela do Samba Nego Quiridu em 1989 as escolas foram deslocadas para lá e os desfiles passaram a ser comercializados. A rua esvaziou, mantendo-se apenas os blocos de sujos. 

E foi a nostalgia dos velhos carnavais da Praça XV que levou um grupo de rapazes a criar o Berbigão. Era o carnaval de 1992. Eles curtiam a ressaca, quarta-feira de cinzas, em frente ao mar de Coqueiros, cheios de saudade de um tempo em que a festa era na rua. Queriam também aumentar os dias de folia, agora tão protocolar. Começaram a lembrar do bloco Bacalhau do Batata, de Olinda, que sai depois que tudo acaba. Pois aqui haveria de sair antes. Logo veio à mente o berbigão, fruto do mar típico da ilha, para dar nome ao bloco e como a ideia tinha sido do Boca (Paulo Bastos Abraham), ficou “Berbigão do Boca”. O bloco sairia uma semana antes do carnaval, circulando pelas ruas do centro, sem nenhum custo para a população. 

Quando 1993 chegou lá estava o Berbigão pronto para a festa.  No começo era só um bloco, que já nos primeiros anos ia arrastando muita gente. Mas, quando em 1995 inventou de incorporar grandes bonecos no cortejo, com a construção da figura gigante do primeiro Rei Momo, o Lagartixa, pelas mãos do artista Alan Cardoso, o bloco foi ficando com cara de um Boi-de-Mamão carnavalesco e a cidade foi se apaixonando. Seguir atrás do Berbigão do Boca começou a ser de lei. Ano após ano, outros grandes bonecos foram sendo criados, de figuras importantes da cultura local que já tivessem partido para o outro plano, e hoje já são 40 deles que seguem junto à multidão, imortalizando o povo do carnaval e da cultura.  

É de alegre lembrança a eterna rainha do samba, a Nega Tide, que sempre dizia: “valhamideuzi, eu não quero virar boneco”. Pois ainda assim, virou, pois era figura imprescindível no carnaval. Claro que o que ela não queria era morrer, pois só vira boneco quem parte. E, conforme conta o Alan da Pandorga, o artista dos bonecos, só depois de cinco anos da passagem é que ele começa a confeccionar. Isso porque quando morreu o Aldírio Simões, um nome importante da cultura local, eles decidiram fazer logo o boneco para homenagear o amigo. Só que enquanto construía a figura, o boneco, do nada, se mexeu. Alan decidiu, por isso, esperar o morto esfriar bastante. Mas, esse ano, ele abriu exceção, pois não poderia sair o Berbigão sem o Hulk. E por isso mesmo já está pronto o 40º boneco, lembrando o mais querido Rei Momo da cidade. 

A farra do Berbigão do Boca, no dia 14 de fevereiro, começa ao meio dia no Mercado Público. Tem festival gastronômico, com receitas de berbigão, tem shows de todo tipo de música de carnaval e quando chega às 19 horas, a banda, formada por músicos locais, com muito sopro, sai pelas ruas arrastando o povo. A cidade se enche de alegria e as gentes de todas as idades podem curtir as velhas marchinhas e o carnaval na rua, seguindo o cortejo dos bonecos. É festa pra rachar, é uma coisa louca, todo mundo botando pra quebrar, no Berbigão do Boca, uma festa genuinamente popular.  

A folia do Berbigão do Boca foi declarada em 2008 como uma festa de utilidade pública, e em 2011 definida como Patrimônio Imaterial da cidade. 

sexta-feira, 31 de janeiro de 2020

Do que me emociona



Não sou muito fã de carnaval. Muita gente. Me dá zica. Mas, aqui em Florianópolis se tem uma coisa que me dá imensa alegria é ver o Berbigão do Boca, o bloco que abre o carnaval uma semana antes dos festejos. Muito menos o desfile pelas ruas, com aquela multidão, e muito mais os bonecos. Sou louca com os bonecos. principalmente aqueles que representam mesmo a vida popular do carnaval dessa terra. O Lagartixa, a Nega Tide, Zininho, Carlinhos da Tuba, Cascaes, Negão Tenente, Maestro Mendes. Eu gosto de ir ver a saída do bloco no Mercado, só para ver os bonecos. Aquilo me emociona demais. Ontem passei no mercado, depois de ir ver a ponte com meu amigo Maicon Cláudio Da Silva e lá estavam eles fazendo o chamariz. Jazinho o carnaval vem aí... e lá estará o Berbigão com seus bonecos gigantes arrastando a multidão. Coisa mais linda do mundo... Eu amo essa cidade...

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

A praça e o carnaval


Passei pela Praça XV hoje e pasmei. A praça está toda cercada com tapumes. Como assim, o que é isso? Perguntei pra toda gente que por ali fica. É pra proteger do carnaval. Oi? Proteger do carnaval? Como assim? Pasmei, pasmei total. Houve um tempo em que a praça era das gentes. A praça era espaço de brincadeiras, de folia. A praça iluminada. A praça com seus banquinhos onde a gente podia dar um malho nos gatinhos. 

Agora, o carnaval virou o que? Festa de vândalos? Cada dia que passa a rua vai sendo tirada da gente. Não há espaço de parada, de conversa, de nada. É só um corredor por onde passamos apressados para a próxima compra. E a praça dos namorados, agora é das empresas, que, em nome de proteger vão tirando ela de nós. A praça clinicamente limpa. Pra quem? Ah, mas fica toda suja no carnaval. Ah, mas tem gente que destrói. Bom , essa é a vida... Tem gente de todo tipo. E as coisas sujam. 

Agora, por conta disso tiram a praça de nós? Caralho. Não podemos aceitar. Tiraram da praça o carnaval, tiraram os blocos de sujo, tiraram a beleza e agora nos dão tapumes? Vão para o inferno todos esses que nos privam da vida da cidade. Vão para o inferno. Embora o melhor mesmo fosse que a gente mesmo, em rebelião, os mandasse para lá.