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segunda-feira, 9 de janeiro de 2023

Memórias


O ano é provavelmente 1972 ou 73 e aqui estão o Claudemir, Zé Newton (meu mano) e Elton, três amigos inseparáveis naqueles dias. E a foto me traz um mundo. Foi tirada na parte de trás da casa na rua dos Andradas, em São Borja, onde o pai colocava o fusca, entrando pelo terreno da casa do pai do Claudemir. Nosso velho fusquinha amarelo com o qual empreendíamos a deliciosa viagem à Uruguaiana todos os verões. 

Nossa casa fazia divisa com a casa da Dona Cira, mãe do Elton, e com a da dona Alda, mãe do Claudemir. Apenas uma cerca, como era comum, a qual era ultrapassada sem pedir licença no vai-e-vem da criançada. Nossa casa estava sempre em construção, como ocorrem ser as casas de quem não tem muito dinheiro. Essa parte de tijolo sem reboco que aparece era onde ficava o tanque e a sala do radioamador do pai. Sim, ele tinha um desses rádios que nos trazia o feitiço do mundo depois da janta, quando ele se instalava ali e ficava conversando com gente de todo o planeta. "QSL? QSL?" Talvez venha daí essa minha curiosidade pelo mundo e seus mistérios geográficos e humanos. 

O quintal era o espaço da fantasia de todos nós. Ali armávamos grandes batalhas com bonequinhos de plástico, inventávamos selvas, florestas, ou construíamos enormes cidades, onde circulava essa fulgurante frota que aparece na frente dos guris, orgulhosos. A casa de São Borja era como um útero, quentinho, protetor, e tanto que até hoje, sempre que eu sonho que estou em casa, é nesta casa que estou, com seus quartos grandes, cozinha vasta e pátio repleto de frutas e mistérios. 

É por isso que agora, olhando esses gurizinhos, que hoje já são homens, eu mais uma vez volto pra lá, buscando também a magricelinha que fui, de cabelo grande e cheia de sonhos. É sempre bom voltar pra casa...

terça-feira, 14 de junho de 2022

40 anos no jornalismo






Foi num dia 14 de junho de 1982 que tive registrado meu primeiro emprego formal no jornalismo. A anotação era locutora-entrevistadora, mas a função cumprida era de repórter. Hoje, celebro então 40 anos nessa profissão. Uma vida inteira correndo atrás da notícia, da informação de qualidade, da análise do dia. Desde bem pequena eu tive esse sonho de ser jornalista, imagino que por conta do exemplo do meu pai. Minha brincadeira favorita era andar com um gravador e microfones feitos de papelão, fazendo entrevistas. O rádio me fascinava, e ver meu pai nas coberturas noticiosas,  ou de futebol e carnaval era minha alegria. “Vou ser como ele”. Eu morava em São Borja e o caminho natural seria terminar o ensino médio e fazer faculdade em Santa Maria. Era o planejado. 

Mas, a vida dispôs. Meu pai perdeu tudo, teve de migrar para Minas Gerais e a família toda precisou se mover para lá em 1977. Um novo estado, nova cidade no interior das Geraes, pobreza, sem condições de pensar em faculdade.  O caminho agora era arrumar um trabalho e ajudar o pai a sustentar a casa. Guardei o sonho no fundo do coração. O tempo passou e meu tio se ofereceu para me pagar um cursinho em Belo Horizonte. Mas, ele esperava que eu cursasse engenharia. Nóóó... muito longe do meu querer. Fiquei lá por um ano, não fiz o vestibular de engenharia e voltei para Pirapora, disposta a fazer um concurso para o Banco do Brasil. Fiz a inscrição e, no dia da prova, cheguei até a porta do colégio e não entrei. Eu pensei comigo: vou passar nessa porra, e aí? Nunca mais saio do banco. Foi uma surpresa na família eu não ter passado, afinal eu sempre fora “a estudiosa”, caxias em nível máximo. Não contei que não tinha feito a prova.  

Finalmente em 1982, quando minha mãe já estava boa da tuberculose, eu decidi sair atrás do meu sonho e fui morar em Caxias do Sul, com minha tia Dalva. Não sabia como ou o que fazer para ser jornalista. Então, fui preencher uma ficha para vaga de telefonista na TV Caxias. Coloquei ali minha experiência com comunicação e o diretor resolveu me chamar. O motorista foi até me buscar em casa. Uma surpresa e tanto. Eu não tinha noção do que ia acontecer. Lá, na sala do seu Ênio, ele me perguntou: “tu já fizeste tudo isso mesmo que colocaste na ficha?”  E eu respondi que sim, embora houvesse ali muito exagero. E ele então disparou: “Acreditas que pode trabalhar aqui como repórter?” Meu coração deu um salto, mas ele não notou. “Pode apostar”, eu respondi, segura. Ele apostou.  Estava contratada. De quase telefonista a repórter, assim, do nada. Não tive medo. Já tinha uma estrada na comunicação. Daria conta.

E foi assim que eu desci para o salão onde ficava o setor de jornalismo e me apresentei ao Otaviano Fonseca, que era o chefe de jornalismo. No outro dia já estava jogada aos leões, fazendo entrevistas. Tive a sorte de ter grandes parcerias, colegas incríveis que me ajudaram e me ensinaram. Passei depois pela TV Globo de Bauru, a TV Globo de Marília, TV Uruguaiana, TV Umbú de Passo Fundo, RCE TV em Florianópolis, Jornal O Estado, Rádio Guarujá, Jornal A Notícia, dei aulas na Univali, atuei na comunicação popular e por fim a UFSC. 

Toda essa caminhada eu fiz com profunda alegria e com imenso amor por essa profissão que escolhi desde menina . O jornalismo que se compromete, que toma partido, que olha o mundo desde o lado da classe trabalhadora. Foi assim desde as primeiras greves de gráficos que eu cobri em Caxias. Naqueles dias era intuitivo, mas com o passar do tempo a consciência ingênua se fez crítica. Onde quer que eu trabalhasse estava sempre a serviço das lutas. Sempre atuei no sindicato dos radialistas e depois de formada em Jornalismo, no sindicato dos jornalistas. 

Como jornalista, trabalhando dentro da RBS, usei todos os recursos da rede para divulgar as lutas sociais e tive a alegria de cobrir por um ano inteiro a grande batalha dos trabalhadores sem-terra na Fazenda Anonni, um marco na luta pela terra no Brasil. Pauteira atilada, sempre procurei abordar as notícias de maneira a mostrar a injustiça e a exploração. Quando por fim fui fazer a faculdade, lá por 1987, encontrei Adelmo Genro Filho, pela mão do mestre Sérgio Weigert. Então, tudo o que era intuição ganhou corpo e se fez compreensão. Entendi que fazer jornalismo é garantir a visão da totalidade do fato. Que fazer jornalismo é estar comprometida com verdade dos tempos, sendo capaz de capturar o singular, sem perder a conexão com o todo, o universal. Que fazer jornalismo é estar sempre atenta ao que nos salta aos olhos e ser capaz de ver o que quase ninguém vê.   

Hoje, assombrada com o andar do tempo, vejo que quatro décadas se passaram e eu ainda não perdi o encantamento pela rua e pelas pessoas. Que exatamente como aquela menina aprendiz da TV Caxias eu ainda caminho pelo mundo com olhos de lâmpada, sedenta de desvelar o que se esconde, de gritar o que tentam calar. O jornalismo é minha espada Jedi, meu carrossel encantado, meu espaço de ser. 

Hoje é um dia cheio de significado para mim. Vou tomar uma gelada e lembrar cada criatura que passou por esse meu caminho: os que me ajudaram a ser quem sou, os que eu narrei, os que caminharam comigo, os que eu amei, os que me feriram, todos... 

Quarenta anos de jornalismo não é bolinho...  É uma vida, uma doce, linda e generosa vida...

quinta-feira, 12 de agosto de 2021

O trabalho e os dias


Eu tinha 19 anos quando consegui meu primeiro trabalho de carteira assinada. Foi em Pirapora, Minas Gerais. E eu tinha essa carinha aí. Naqueles dias minha mãe vivia a dor de ter desenvolvido a doença da tristeza: a tuberculose. E, não havia SUS. A parada era sinistra. O tratamento muito caro. Era preciso agir. Eu não tinha muita qualificação e fui atrás do que fosse. Padaria, lanchonete, hotel, qualquer coisa que assegurasse uma ajuda para o pai, que era o único que tinha salário. 

Depois de muita procura consegui uma vaga numa distribuidora de bebidas, de um amigo/vizinho da minha amiga Fathiô, que ficava quase na saída da cidade, bem longe. Minha função lá era anotar os pedidos que chegavam por telefone ou ao vivo e fazer as notas. Era um escritório pequeno e trabalhávamos eu e outra menina, a doce e querida Lúcia, que pacientemente me introduziu naquele mundo de números, quase incognoscível para mim. Já no pátio, onde ficava a carga e descarga de bebidas, tinha bem mais gente, todos rapazes bem encorpados, pois era um trabalho de força. Ali, era sempre uma festa, apesar do trabalho pesado.

Em pouco tempo já percebi que o trabalho no pátio, apesar de alegre, era bem perigoso. Volta e meia alguém se machucava, garrafas quebravam e pronto, ali estava o acidente. Pedi ao chefe uma caixa de primeiros socorros, pois às vezes, era necessário um curativo. Claro que não me deram bola. Insisti, enchi o saco, mas nada. Sempre que alguém se machucava eu tentava dar um jeito e foi assim que fui montando uma caixinha com gaze, iodo, bandeide, pomada para ferimentos, comprimido para dor de cabeça, o básico. Acabei virando uma referência para a gurizada. Sempre que alguém se machucava me gritavam e lá ia eu com minha caixinha. Ainda assim continuava reivindicando que era a empresa quem tinha de garantir. Todo dia um embate.

A gota d´água foi o dia em que um dos guris enterrou alguma coisa na cabeça, acho que foi um prego. Como sempre acontecia, me chamaram. Eu fui lá com a minha caixinha e quando vi o ferimento, saia uma coisa branca da cabeça do guri. Apavorei, pensei que podia ser coisa grave. Nunca tinha visto assim. Corri para o gerente pedindo que o levassem para o hospital. Não tinha sangue, só aquela coisa branca. Ele não levou em conta. O guri lá, pálido e trêmulo. Ah, bom... Aí virei o Jiraya!

Peguei o guri pela mão e fui para a estrada, fazendo sinal de socorro.

Ao primeiro carro que parou pedi que o levassem ao hospital. Voltei para o escritório, peguei minhas coisas, abracei a Lúcia, agradeci por todo o seu cuidado comigo, já que me ensinara todo o trabalho, e saí. Bati o pó das sandálias e me fui, a pé, até em casa, tremendo de ódio. Eu precisava daquele emprego, mas não deu de segurar. Desde então, sempre foi assim. Em cada lugar que trabalhei virei a “encrenqueira”, sempre com alguma demanda. Hoje tenho 60 anos e sigo igual. Valamideuzi.



terça-feira, 25 de maio de 2021

A rua dos Andradas em São Borja







Mudamos para a rua dos Andradas, em São Borja, no ano de 1970. Em 1969 ainda vivíamos numa casa alugada, bem em frente à casa do filho do Getúlio Vargas, ao lado da Dona Dília e do Dr. Hildebrando. Lembro que nessa casa era bem comum brincarmos no carramanchão do dr. Hildebrando, com a filha da empregada dele, a Dona Tereza, e por vezes também circulávamos na casa do Viriato, entrando pelo portão dos fundos. Mas, foi na rua dos Andradas que vivemos os melhores dias porque ali estava a nossa casa própria, construída durante quase um ano inteiro. Quando nos mudamos acreditávamos que seria para sempre. Não foi assim.

A casa era ladeada por duas vizinhanças maravilhosas. De um lado a família Savian e do outro a Rodrigues. Cada uma delas acabou se transformando em família também porque a vida ali era vivida em comunhão. Na frente tinha a casa do Miro, da Dona Gersey e da dona Nezinha. Mais à esquerda o seu Ciro e na parte de trás do terreno divisámos com a dona Alda. Havia muita criança. Era um mundaréu. E também era comum andarmos todos circulando e correndo por dentro das casas como se nossas fossem. Não havia barreiras. Brincávamos de mocinho e bandido nas cascas de arroz, de pique-esconde pelas casas todas, de Tarzan, pendurados nos cinamomos da casa do Miro e nas noites ocupávamos a rua inteira em brincadeiras de todo o tipo, enquanto as famílias sentavam em frente às casas, enfeitando as calçadas. Nas noites de invernos íamos ouvir casos de assombração na casa do seu Ciro, com sessões comandadas pela Gorda, apelido da Fátima. Ficava a turma toda espremida na sala e depois, saíamos em algaravia, tudo abraçado, com medo de ver os espíritos. 

Era comum a minha irmã pular a janela para sair à noite com as gurias do seu Savian e apesar de acharem que estavam saindo às escondidas, a dona Nezinha sempre estava à espreita na sua janela, atrás das cortinas de crochê, e sabia de todas as escapulidas, fossem a hora que fossem. Era incrível. Sabia de todos os acontecimentos, de todas as casas, embora pouco fosse  vista. 

Entre a gurizada havia, na verdade, três gerações. Os jovens, da idade de minha irmã, os menores, como eu, e os mais criança ainda, como meu irmão. Mas, no geral, nossas atividades se misturavam porque em cada família tinha gente pertencente aos três grupos. E ainda tinha gente que vinha de mais longe como era o caso do Tiririca, que passava por ali sempre puxando sua vaca leiteira. Tinha-lhe tanto apreço que pintou seu nome na vaca, para evitar roubo. Não lhe conhecíamos a família, mas ele era um dos nossos, participando de todas as brincadeiras. Também tinha o Timóteo, que vinha pedir comida, e acabava ficando para brincar e o Juarez, que morava na rua transversal. Fazia parte do cenário também o Newton, um cara a quem chamavam de “louco” porque ele vinha xingar o seu Ciro todos os dias, gritando-lhe impropérios, indo depois pedir comida nas casas. Todos o amavam. 

Nas noites de verão, a rua de terra vermelha se alegrava inteira, com a multidão de gente, crianças e bichos nas rodas de chimarrão e de traquinagens. Brincávamos de Diabo-Rengo, Batatinha Frita, Sapata (amarelinha), Pique-Esconde, Passa o anel, Escolher Fita. Lembro que havia um homem, que morava quase no final da rua, numa casa bem simples, a quem atribuíam o fato de ser lobisomem. Ele era magrinho e sempre usava chapéu, com um bigode estilo Fernando Pessoa. Quando ele apontava na esquina do Bar da Zezé, a gente saía tudo correndo, se escondendo em casa. Estar ali fora era como possuir o mundo. 

Na esquina tinha o armazém da Dona Zezé, onde se comprava de tudo. Não havia isso de supermercado. Ela era uma mulher adorável, penteava o cabelo à moda antiga, armado de laquê. E ficava furiosa quando batíamos na janela, no horário do meio-dia, querendo comprar picolé. Ainda assim ela abria e trazia os picolés, não sem xingar à larga. E caso se precisasse de qualquer coisa, mesmo à noite, era só bater, que lá vinha ela no passo manso. O marido dela, um argentino chamado Pepino, era uma figuraça e estava sempre de bom humor, contrabandeando balas junto com o troco. 

Minha irmã, quatro anos mais velha que eu andava com a turma das gurias do seu Savian. Eu, com as gurias do seu Jesus e da dona Cira, sendo que a Liziane era minha melhor amiga. Com ela compartilhava os segredos e os dias. E ali A Negra e a Gordinha eram menores, mas acabavam sempre com a gente. A nossa casa se dividia com uma cerca, sem muro, praticamente compartilhávamos o mesmo terreno, então para estarmos juntas nem precisávamos sair de casa. Eu sentava na janela do quarto, do meu lado da cerca, e ela na da sala, do outro lado. O seu Jesus era uma figura incrível, grande e engraçada, sempre inventando coisas para a gente brincar. Lembro-me dele às vezes nos levando para a escola em um desses carros antigos, estilo alemão, uma preciosidade que comprou por puro gosto. Minha irmã tinha vergonha de ir, porque achava o carro velho, mas eu sabia que estava andando em uma joia e não via a hora de entrar naquela beleza. 

Vivemos ali apenas sete anos, mas com certeza é de onde me vêm as melhores lembranças, o sentido de comunidade, de solidariedade, de família estendida. Ali vivenciamos as amizades mais puras, as brincadeiras mais sadias, e aprendi o sentido da partilha e a beleza do comum. 

Saímos de São Borja no começo de 1978 em circunstâncias bem tristes, mas aquele lugar nunca saiu de mim. Tanto que sempre que eu sonho que estou em casa, é na casa da rua dos Andradas que estou. Voltei lá em 2009, mais de 30 anos depois, quando fui levar as cinzas da mãe e a rua estava lá igualzinha, com todas as casas, apenas agora calçada de paralelepípedo. Até mesmo o bar da Zezé estava aberto e tomamos uma cerveja lá. Também fizemos uma foto em frente a nossa velha casa, sem coragem de pedir pra entrar. 

Lembro que enquanto estávamos fazendo as fotos, num carro da casa ao lado, avistei uma carinha familiar. Era o Fernando, filho do seu Jesus, que eu conhecera bebê. Foi fácil reconhecer na hora os olhos clarinhos e a carinha redonda, muito parecido com minha amiga Liziane. 

Foi lindo circular outra vez naquela velha rua, reencontrando a minha criança interior. Agradeço e peço a bênção a todos os que me ensinaram tanto. Tia Tida, dona Mira, Preta, Sabiá, Gucha, Negrinha, Mimo, Tiano, Neco, Artur, Alemão, César, Serginho, Rosângela, Regina, Seu Artur, seu Donini e tantos outros que vivem em mim.


segunda-feira, 20 de novembro de 2017

Derlei



Eu não a conhecia, mas já tinha escutado sobre ela. Então, ela me ligou, pedindo ajuda para divulgar um livro que havia escrito. Pedi que me mandasse 20 exemplares que tentaria vender também. Ela mandou. O livro chegou . “No corpo e na alma” era a narrativa de sua militância contra o golpe de 64. A luta no movimento estudantil, iniciada na UFSC, depois na Ação Católica, a clandestinidade, a prisão, a tortura e o exílio. Li de um único fôlego, entre lágrimas. Um relato sem véus de um tempo cruel, no qual jovens apaixonados pela vida e pela liberdade, deram seus melhores anos para defender o bem-viver. No relato de “Leila” ficava bem claro o compromisso que foi assumido para defender o Brasil e toda a gente da barbárie que representa um golpe militar.

Pouco tempo depois, no universo das lutas da cidade, eu a conheci pessoalmente. Parecia difícil crer que Leila era ela. Baixinha, risonha, amorosa e delicada. Mas, ao passar dos dias, ficava cada vez mais fácil ver a Leila na Derlei de Luca. Na luta para garantir a Verdade e a Memória era gigante e implacável. E foi assim que todos nós fomos conhecendo e convivendo com Derlei, acompanhando e compartilhando da luta para abertura de arquivos, na busca dos desaparecidos, na manutenção da lembrança dos que caíram, na perseguição da verdade.

O Coletivo Catarinense Memória, Verdade e Justiça, cujo nascedouro foi ainda no início dos anos 80, teve Derlei como sua primeira coordenadora e durante todo esse tempo foi impulsionado por ela. Estar com ela era caminhar com a história da resistência, era aprender, na prática, o conceito de não se entregar.

A Derlei agora não estará mais nas marchas, nem nas audiências, nem nos gabinetes, iluminando os caminhos e clamando por Justiça. Ela não estará. Encantou. Mas aquela força inquebrantável que a levou, jovenzinha ainda, para a luta contra a ditadura, permanece naqueles que com ela conviveram em todos esses  anos. Continuar a luta por Memória e Verdade, trincheira onde travou suas últimas batalhas, é o que temos de fazer, para honrar sua vida.

Memória, Verdade e Justiça, tanto ainda por conquistar. Mas, essa vereda construída e trilhada por Derlei seguirá aberta, para que todos nós caminhemos.

Foi uma linda vida, Derlei. E nós te agradecemos por tudo! Que bom que tivemos tempo para estar contigo, te abraçar e te dizer tudo isso. 

Caminhada pela Verdade - 2014