segunda-feira, 25 de junho de 2018

As novas tecnologias, as notícias falsas e o jornalismo

O problema não é a internet, mas o sistema que a toma como locus da espionagem e da ideologia


As novas tecnologias e a criação das redes sociais colocaram uma novidade na vida cotidiana de bilhões de pessoas: o acesso rápido às informações e também a possibilidade de produzi-las e distribuí-las. Assim, o que era até bem pouco tempo quase que exclusividade dos jornalistas ou formadores de opinião ligados aos meios de comunicação, passou a ser comum para qualquer pessoa no planeta que tenha acesso à rede mundial de computadores. Mas, o que parecia ser uma vitória da democracia tem mostrado que, no sistema capitalista de produção, nada mais é do que mais do mesmo. Isso porque nos últimos tempos o que se percebeu foi que as informações  que circulam na internet também estão dentro da forma-mercadoria geradora de mais-valia ideológica. A enxurrada de notícias falsas, fabricadas por empresas especializadas nesse fazer, tem servido para produzir “verdades” que servem aos interesses do capital e das forças que conformam o poder político e econômico do sistema.

Conforme dados divulgados pelas Nações Unidas, nos países desenvolvidos 81% da população já tem acesso à internet, conformando 2,5 bilhões de usuários. Os países considerados em desenvolvimento têm 40% de conectados e nos empobrecidos 15%, somando juntos apenas um bilhão.  Já os que estão fora da bolha internética somam 3,7 bilhões, sendo que a maioria dos “desconectados” se encontra na África.

Mas, apesar de tantos ainda estarem fora da rede, a possibilidade de entrarem está dada visto que a cobertura de celular já está disponível para 95% da população global. E também avançam os planos de internet para pobres no celular, que inclui apenas a possibilidade de acesso ao facebook e uatizapi, o que significa uma única empresa no controle do que as pessoas recebem de informação. Mesmo assim, ainda conforme as Nações Unidas, houve uma desaceleração do uso da internet, possivelmente provocada pelos altos preços do serviço.

Já o acesso da internet nos domicílios tem outra geografia. No momento existem um bilhão de lares conectados, sendo que desse total 230 milhões estão na China, 60 milhões na Índia e 20 milhões nos 48 países menos desenvolvidos do mundo. Ou seja, a desigualdade é visível. Enquanto 84% das casas europeias têm internet, no continente africano apenas 15,4% possuem acesso em casa.

Mas, apesar de a rede estar distribuída de maneira desigual, claramente conforme as possibilidades econômicas de cada país, a repercussão do que circula nas famosas “redes sociais” acaba chegando também nas pessoas que não tem acesso, visto que os meios de comunicação massivos tais como o rádio e a televisão estão tendo de subordinar-se ao que “bomba” na rede, reproduzindo assim os conteúdos mais compartilhados. Basta uma tarde de domingo na frente da TV aberta brasileira, por exemplo, e isso fica patente. Os programas de auditório das principais redes trazem as figuras e os temas que mais tiveram repercussão nas redes sociais.

Esse é um dado importante porque tanto para a mídia eletrônica aberta, que é a que chega nos “desconectados”, quanto nas redes internéticas, o que vale é o que “bomba”, o que tem mais curtidas e comentários, mesmo que a informação ali contida não seja verdadeira ou não passem de bobagens. E é justamente nesse nicho que estão concentradas as notícias falsas, geralmente fabricadas por empresas especializadas a serviço de políticos ou de redes de poder.

No Brasil, recentemente, a Câmara de Deputados promoveu um debate sobre esse tema visto que já existem na casa mais de vinte projetos de lei buscando regular ou coibir as notícias falsas na internet.  Para os representantes das entidades populares que participaram da reunião, esse é um tema que não pode ficar relegado a um parlamentar. Seria necessário um amplo debate público para que a sociedade pudesse participar e sugerir coisas. Isso porque a maioria dos projetos em tramitação trata de criminalizar os usuários ou as plataformas pela prática de compartilhamento das notícias falsas. Ora, isso não tem sentido algum. É preciso controlar aquelas empresas ou mesmo entidades que são as geradoras das mentiras.

O fantasma da censura também aparece em muitas das falas dos representantes de entidades civis que discutem o tema porque muitos projetos apontam para saídas bastante complicadas como, por exemplo, tipificar criminalmente informações sem aprofundamento, sem deixar claro quem julgaria o que é sem aprofundamento ou qual nível de aprofundamento seria necessário para que fosse uma notícia veraz. Igualmente criminalizar as plataformas poderia gerar uma censura prévia, algo também muito complicado de se aceitar.

Bia Barbosa, do Intervozes, acredita que a única lei em tramitação no Congresso que pode trazer contribuição de fato para o debate é a lei de proteção de dados pessoais, pois, segundo ela, é justamente a partir da coleta e do tratamento massivo de dados que se promove a construção de perfis individualizados de cidadãos na rede e é para esses perfis que as chamadas notícias falsas são disseminadas. Esse é, inclusive, o debate que acontece em nível mundial, tendo sido desatado pelas revelações de Edward Snowden, ao tornar público os programas de vigilância global efetuado por agências estadunidenses. Não por acaso ele está ameaçado de morte. Ele tocou no centro da questão: o controle dos dados pessoais.

O mais sério de tudo isso é que a maior das redes sociais, o facebook, deixa bastante claro nas regras que apresenta para o usuário que todos os dados sobre ele estarão coletados e já se sabe que essas informações são usadas para oferecer produtos e ideias políticas. Tanto que o famoso “algoritmo” que define como a informação é distribuída na rede, cada dia mais se aperfeiçoa no sentido de criar guetos nos quais a pessoa é colocada, sem condições de receber outras informações divergentes. E a pessoa aceita isso.

O tema é largo e ainda vai provocar muitos debates no campo da cidadania. Afinal, como já foi dito, qualquer pessoa pode produzir conteúdo. Mas, algo precisa ficar bem claro. Produção de conteúdo pessoal, feita por qualquer criatura no mundo, não é a mesma coisa que notícia. A notícia é um fazer específico do jornalista que deve estar ancorada nas regras já historicamente determinadas. E para usar a teoria do jornalismo de Adelmo Genro Filho, a notícia é uma forma de conhecimento que se faz a partir da singularidade dos fatos, transitando para o particular e chegando ao universal. Ou seja, no conteúdo noticioso o jornalista precisa oferecer a quem o ouve/vê ou lê toda a atmosfera universalizante do fato narrado para que a pessoa possa entender as causas e consequências que envolvem a notícia singular. Só isso já mostra que 99,9% dos conteúdos jornalísticos produzidos nos meios de comunicação por aí estão fora dessa regra. No geral, as “notícias falsas” não são uma novidade do mundo das redes sociais. Elas sempre estiveram aí, cotidianamente nos jornais, rádios e revistas, servindo de ideologia para sustentar o modo de vida classe dominante. Claro que, agora, passaram a ser uma mercadoria exclusiva de determinadas empresas, especializadas em produzi-las para quem pagar mais. Isso é que é novo.

Um dos pontos importantes nesse processo deveria ser o de identificar e coibir essas empresas, entidades e pessoas que vivem (são pagas para isso) de produzir e disseminar notícias falsas com o intuito de provocar atitudes, reações e até induzir o voto num determinado candidato, ou provocar o ódio contra pessoas e instituições. Mas, como tudo isso já virou um rentável negócio, no mais das vezes, essas empresas, entidades e pessoas que já são bastante conhecidas, acabam ficando intocáveis sob o manto do empreendedorismo ou do “empresário bem sucedido”.

Assim, o tema das redes e das notícias falsas na verdade é só mais uma cortina de fumaça para não atacar o verdadeiro problema que é justamente o capitalismo realmente existente, que para se manter como modo de produção precisa manter a ideologia que o sustenta em constante movimento. No caso, agora potencializada pela velocidade e pelo alcance das redes sociais, que ao contrário dos tempos da mais-valia ideológica promovida pela televisão, permite a interação e a formação de grupos coesos em todo mundo, movidos pela mesma ideia, pelos mesmos preconceitos e capazes de atuar também de forma coesa na vida real. É só mais um potente e eficiente mecanismo do capital.

Nesse sentido, todas as medidas inibitivas ou punitivas de “excessos” que surgirem nada mais serão do que paliativos para a manutenção da vida do mesmo monstro que vem assombrando a vida dos trabalhadores desde há 300 anos. As redes sociais não são democráticas nem espaços de liberdade. Na verdade são cada vez mais espaços de aprisionamento das mentes e dos corações em nichos preparados com maestria pelos “sacerdotes” dessa esmagadora religião que é o culto ao capital.

Por isso que o debate sobre as notícias falsas, ou a apropriação dos dados pessoais pelas empresas oligopólicas que comandam as grandes plataformas internéticas não pode ser feito descolado do contexto no qual elas existem. É o sistema capitalista e nele vale tudo para que seja mantido o estado de coisas. Isso tanto é verdade que a solução que tem aparecido em nível mundial é a da formação de agências que irão vigiar as informações e sua veracidade. Agências que pertencem aos oligopólios empresariais e que ganharão rios de dinheiro para fazer esse trabalho. Ora, como a raposa pode vigiar o galinheiro? O capitalismo é sabido mesmo.




domingo, 24 de junho de 2018

Avança a luta por moradia em Florianópolis


Fonte: Desacato


A região de Florianópolis vive um momento de profundas mudanças. A crise econômica que chegou com força tem obrigado dezenas de famílias a ações extremas para garantir a vida. Com salários cada vez mais baixos ou então sem trabalho, morar passa a ser uma impossibilidade. Os aluguéis são altíssimos, por conta da sempre crescente especulação e, mesmo nas periferias já não está sendo possível sustentar. A única saída que as famílias encontram é a de ocupar espaços urbanos vazios e levantar barracos onde possam  abrigar-se e aos seus filhos. No geral são terrenos públicos, que o estado não utiliza ou de sonegadores. Logo, nada mais justo do que virar espaço de moradia para quem não tem como pagar os aluguéis cada vez mais abusivos. Na semana que passou, uma dessas ocupações, a “Marielle Franco”, no alto da Caieira do Saco dos Limões, viveu o drama da violência do estado. A Polícia Militar foi usada para despejar as famílias e destruir os barracos. No texto abaixo, da arquiteta Elisa Jorge, que acompanhou a luta das famílias, o relato da sistemática injustiça do capital. As famílias resistem e a cidade dorme.

Foto: Luzia Cabreira


Está sob nossos narizes toda a fragilidade humana promovida pelo capital. 

Tenho estado muito emocionada, às vezes com dificuldade de voltar ao nível racional, porque nos últimos dias tenho estado junto às companheiras/os do Alto Caieira aqui em Florianópolis, que têm sofrido despejo truculento. Testemunhei, durante a ação de despejo na Ocupação Marielle, situações bastante tocantes. Vi trabalhador de uma empresa terceirizada , contratada pela prefeitura, demolindo barracos e dizendo : "eu moro num barraco como este”. Outro carregando morro acima madeira nas costas, com cabeça baixa e desabafando : "está pesado subir a ladeira, não pelo tamanho da carga, mas pelo trabalho horrível que estou sendo obrigado a fazer. " 

Agachada na rampa, fotografando as cenas deprimentes, pude ver o olhar de choro desse trabalhador humilhado pela sua função. Nesses dias de despejo por parte do prefeito,  tivemos a verdadeira visão do inferno. Coagidos pelos agentes do Estado, trabalhador agindo contra trabalhador. Estado que deveria ser guardião de seus cidadãos. Estado que deveria garantir, já preconizado em lei, a função social da Cidade e da propriedade. Estado que deveria ser responsável por promover o bem estar.

Mas não, este Estado resolveu que em nome de uma " dita " lei, o certo é agredir , pisar, punir com a mais baixa humilhação pessoas frágeis, despossuídas de bens materiais , destroçando seus pequenos e humildes barracos na frente de suas filhas e filhos. É um estado desagregador, destruidor, irresponsável, criminoso, que usa de força paga com nosso dinheiro, para descumprir leis, impor o terror e reduzir cidadãos à indigentes abandonados. Um Estado que inclusive derruba casas em terreno de um dos maiores devedores de impostos, para garantir a propriedade privada deste. Derruba barracos em área pública definida para Habitação, de interesse social, na lei do Plano Diretor de janeiro de 2014. 

Sim, é isso mesmo. A prefeitura não faz sua obrigação na construção de uma política habitacional, não se inscreve no único programa do governo golpista do Temer de Reforma para Habitação de baixa renda, não fiscaliza áreas inadequadas à habitação, mas conspira uma operação de guerra, mobilizando grande contingente da Polícia Militar, de choque, servidores da prefeitura, empresa terceirizada, para, em poucas horas, destruir aquilo que essas famílias levaram muito tempo e a duras penas para acumular. 

E, após transformar tudo em caquinhos, bateram em retirada, sem olhar para trás. Desceram a rua sem perguntar como os despejados passarão a noite fria? Como cozinharão sem seus pertences de cozinha? Como levarão seus filhos para escola já que as roupas estavam misturadas aos destroços ou haviam sido levadas. Como levantarão as cabeças e reunirão forças para continuar a viver? 

Desceram a rua e só deixaram no local a polícia de choque fazendo uma barreira, para garantir que os manifestantes não avançassem em passeata com suas faixas e " perigosas " palavras de ordem. Onde está a secretária de Assistência Social, o superintendente de Habitação, o prefeito, neste momento? Eu sei : estão assistindo o crescimento da população em situação de rua, da evasão escolar, de jovens negras e negros sendo criminalizados nas suas comunidades , das filas nos postos de saúde, da violência. Não somente assistem como também promovem essa barbárie e se escondem atrás da falácia da falta de verba. 

Grande mentira, dinheiro tem!

Por que a prefeitura continua atolada nos quase 400 comissionados de todos os 15 partidos , que compuseram a coligação durante a eleição, somando um gasto de quase 30 milhões ao ano? Por que a prefeitura não cobrou os 460 milhões dos maiores devedores? Por que o prefeito convoca a PM que gasta milhares de reais em cada operação de despejo com armas de "baixo efeito letal" (cada bala de borracha custa 25 reais, projéteis de gás 250 reais, aerosol de spray de pimenta, 500 reais)? E por aí vai ....

Eu , Elisa Jorge, com base no artigo 301 do Código Penal, ciente de meus direitos e deveres, dou ordem de prisão ao prefeito, secretários, superintendes, procuradores, que cometem abuso de autoridade, desviando impostos pagos por mim, para cometer uso excessivo e violento de poder. Estão impondo a dinâmica desmobilizadora do medo. Conhecemos muito bem esta estratégia, especialmente porque a ditadura militar ainda sopra em nosso pescoço. 

Não nos deixaremos abater. Juntos, somos fortes. É importante que todas /os se engajem nas lutas por justiça social. Não vamos sucumbir ao medo. 

Elisa Jorge - arquiteta e urbanista, militante do BR Cidades, Movimento Ponta do Coral 100% Pública, Fórum da Cidade. 

sexta-feira, 22 de junho de 2018

Julian Assange, um herói mundial


Na medida em que o governo do Equador vai dobrado à direita, aumentam as preocupação com relação ao futuro de Julian Assange, asilado na embaixada daquele país em Londres. Nos últimos meses o presidente Lenín Moreno tentou impor censura ao criador do WikiLeaks e pouco depois retirou da embaixada a segurança extra que ali atuava justamente para a proteção de Julian. Essas atitudes apontam para uma possível articulação com o governo dos EUA para a prisão e extradição de Assange para os Estados Unidos. 

O jornalista estadunidense Dennis Bernstein, da Pacifica Radio Network, conversou com o também jornalista, John Pilger, amigo de Assange, e este se mostrou bastante incomodado com o silêncio da esquerda mundial em relação a situação do homem que ousou mostrar os podres dos  Estados Unidos na guerra contra o Afeganistão e o Iraque.  “Só o silêncio das pessoas boas permitirá que vençam aqueles que mentem e enganam o povo”, afirmou Pilger, dizendo que Julian Assange nunca esteve tão isolado e tão em risco. Segundo ele, todas as acusações de assédio sexual as quais pesam sobre Assange são falsas, fruto do trabalho sujo dos inimigos políticos, que encontraram nessa invenção uma via para punir o fato de ele ter trazido à tona a verdade sobre o império. 

Bernstein também comenta sobre como o mundo tem tratado Julian, praticamente abandonando-o a própria sorte, e principalmente os jornalistas que tanto usaram as informações do WikiLeaks no passado e que agora não apenas silenciam sobre essa guinada do governo do Equador como buscam envolvê-lo em novas acusações, como o caso do suposto envolvimento da Rússia nas eleições estadunidenses, alegando que isso teria sido possível através de Assange. Pilger vê nisso um absurdo: “A WikiLeaks publicou cerca de 800 mil grandes revelações acerca da Rússia, algumas delas extremamente críticas do governo russo. Se você for um governo e fizer algo inconveniente ou mentir ao seu povo e a WikiLeaks obtiver os documentos para mostrá-lo, eles publicarão, não importa quem seja você, seja dos Estados Unidos ou da Rússia”. 

John Pilger também tece críticas ao governo britânico que se mantém pairando sobre o caso enquanto deveria dar condições a Assange de sair da embaixada já que reconhece que ele é um refugiado político. Ao que parece tudo está sendo tramado para que Julian seja mesmo preso e mandado para os Estados Unidos, onde pode “apodrecer num buraco”. 

Hoje, mesmo aprisionado, Julian Assenge segue liderando o trabalho da WikiLeaks e faz o que todo bom jornalista deveria fazer: divulga aquilo que o poder quer ver escondido. Ele entende que a população tem o direito de saber o que os governos estão fazendo em seu nome. Foi por isso que divulgou os documentos e imagens sobre as atrocidades dos EUA nas guerras do Oriente Médio e também a trama para derrubar Hugo Chávez, no fracassado golpe de 2002 e depois, com a ajuda financeira e logística para grupos de direita.  Assange dá às pessoas a informação que elas têm direito e é por isso que está confinado na embaixada, sem poder sair, há mais de seis anos. “Penso que a WikiLeaks abriu um mundo de transparência e deu substância à expressão ´direito a conhecer´. Isto deve explicar porque ele é tão atacado, porque está tão ameaçado. Para a grande potência o inimigo não são tipos do Taliban, somos nós, os bons jornalistas”, diz Pilger. 

Também fez questão de lembrar a coragem de Chelsea Manning, que igualmente amargou sete anos de prisão, nas condições mais vis, por ter ajudado na divulgação dessas informações que circularam pela WikeLeaks. Pilger não tem dúvidas de que o governo dos Estados Unidos quer processar Assange e “talvez enforcá-lo nas vigas do Congresso”. Por isso conclama os jornalistas em particular a não abandonar Assange na sua luta contra a censura e contra as atrocidades praticadas pelos governos. 

Julian Assange, que segue confinado na embaixada do Equador em Londres não pode ser esquecido e muito menos se pode deixar que, baseados em acusações ridículas e falsas, os Estados Unidos ponha as mãos sobre ele.  Toda a pressão sobre o presidente do Equador e sobre o governo britânico, que precisa garantir a liberdade do jornalista. 

Afinal, como pode viver como um prisioneiro a pessoa que deu a verdade ao mundo? 


Com informações da resistir.info

terça-feira, 19 de junho de 2018

Direito à data base em debate no STF


Em plena Copa do Mundo, nessa quarta-feira, dia 20, o Supremo Tribunal Federal, do qual nada de bom se pode esperar para os trabalhadores, está prometendo realizar, finalmente, o julgamento da ação que analisa o direito de revisão anual de Salários dos Servidores Públicos Federais, a famosa data-base, que os trabalhadores federais, ao contrário dos trabalhadores da iniciativa privada, não têm. Isso significa que, sem data-base, esses trabalhadores precisam realizar lutas a cada ano para poder garantir aumento salarial ou reposição. Tem sido assim desde muito tempo e essa tem sido também a causa de muitas greves que são realizadas ano após ano. 

A luta por data-se sempre esteve incorporada às pautas de reivindicação dos trabalhadores públicos, porque se isso fosse legalizado, seria automático o governo pensar a questão salarial a cada ano, evitando tanto desgaste. Mas, para o estado isso nunca foi prioridade. Pelo contrário. É muito melhor deixar que os trabalhadores fiquem mal vistos pela sociedade como se fossem “malandros”, “vagabundos”, “grevistas”, criando assim a ideologia de que o pessoal que trabalha no setor público reclama muito por nada. 

A data-base para os trabalhadores público foi reconhecida na Emenda Constitucional 19, da Reforma Administrativa de 1998, a qual diz que os trabalhadores têm direito a uma revisão anual de salários. Mas, essa norma nunca foi respeitada pelos governos, ou então foi interpretada de forma ritualística, como quando o governo oferecia 1% de reajuste no primeiro mês do ano, considerando assim o acatamento da lei. Ora, isso não é negociação e muito menos respeita a lógica de revisão salarial.

Agora, o STF deverá deliberar sobre a ação que discute o direito de servidores públicos do Estado de São Paulo a indenização por não terem sido beneficiados por revisões gerais anuais em seus vencimentos. Caso os trabalhadores vençam essa batalha, abre a possibilidade para que todos os trabalhadores públicos tenham reconhecida a data-base. Isso porque, caso for reconhecida a indenização aos  trabalhadores paulistas, cada servidor público poderá ajuizar ações indenizatórias em face de seus “empregadores”, no caso os governos, podendo pedir tal indenização relativamente aos últimos 5 anos (ou 3, dependendo da tese a ser adotada em relação à prescrição). Terão que provar, no entanto, que os reajustes concedidos foram inferiores à inflação do período.

A discussão desse tema corre no STF há anos e em 2014 foi interrompida por um pedido de vista do ministro Dias Toffoli. Já havia um resultado parcial de 3 votos favoráveis e 4 contrários. Marco Aurélio (relator), Cármen Lúcia e Luiz Fux se posicionaram favoravelmente ao Recurso. Já os ministros Gilmar Mendes, Rosa Weber, Roberto Barroso e Teori Zavascki eram contra. 

Amanhã, no julgamento da ação, Zavascki não estará mais, faleceu, e no seu lugar votará Alexandre Morais, do qual não se sabe o voto, embora se possa intuir que seja contra, visto que uma decisão favorável aos trabalhadores fará com que o governo federal defina uma data-base para todos. 

Essa é uma luta que deveria estar sendo acompanhada de maneira muito próxima pelas entidades sindicais de trabalhadores públicos, mas pouco se vê movimentação. O Sintufsc, na UFSC, praticamente não informou nem mobilizou a categoria, embora tenha chamado, de maneira ritualística, uma vigília para o Hall da Reitoria para essa quarta-feira a partir das oito horas da manhã.  

Já o STF, que tem se lixado para as grandes manifestações populares, certamente não fará caso das manifestações dos trabalhadores. E assim, enquanto alguma desconhecida seleção joga lá na Rússia, a sorte de milhares de pessoas será lançada por um grupo de juízes que não têm qualquer empatia com os trabalhadores. 

Ainda assim, estaremos de olho. Às vezes, coisas acontecem!  

sexta-feira, 8 de junho de 2018

A UFSC, os trabalhadores e a batalha do estágio probatório




Caso Juliane expõe as vísceras da arbitrariedade que envolve estágio probatório

O Brasil vive um momento conjuntural convulsionado, saindo a poucos dias de uma paralisação geral provocada pelos caminhoneiros e que, infelizmente, não contou com a adesão das centrais sindicais. Caso os trabalhadores tivessem subido nesse bonde as coisas poderiam passar diferente. Não passaram. A greve dos caminhoneiros acabou, o diesel não vai baixar, a gasolina subiu e tudo segue na paz.

E, se no Brasil o negócio está assim, imaginem na universidade. A vida segue entre teses, dissertações, trabalhos finais, burocracias e gestão de projetos. E no campo das relações de poder, a vida é ainda mais complicada, pois o coronelismo é um fantasma cujo ectoplasma segue visível e forte.

Nessa sexta-feira esperava-se que uma batalha travada por um grupo de técnicos-administrativos, bem como pelo sindicato, referente a anulação de uma decisão de exoneração de trabalhadora pública em estágio probatório pudesse ser resolvida no âmbito das negociações internas. Já há algum tempo que a decisão vem sendo questionada e nas idas e vindas da administração e a esperança era de que agora as coisas se resolvessem. Não foi assim.

Tal qual aconteceu no caso do trabalhador Daniel Dambrowski, a argumentação dos TAEs e do sindicato era de que a comissão que definiu pela avaliação insuficiente cometeu equívocos graves e foi arbitrária. A trabalhadora em questão, Juliane de Oliveira, que exerceu seus primeiros meses de trabalho no Hospital Universitário, ao que parece foi mal avaliada porque reclamou de estar em um espaço insalubre e pediu para ser removida. Vale ressaltar que quando pediu para sair do HU Juliane estava grávida e, depois, lactante, portanto, em pleno direito de querer um espaço que não causasse dano ao bebê. O mais grave é que o período no qual Juliane trabalhou depois de sair do HU não foi levado em conta na avaliação. O sindicato e os TAEs denunciam perseguição, ilegalidades e a negação do direito ao contraditório.

Ocorre que no âmbito do trabalhadores técnico-administrativos não há instâncias as quais recorrer em casos assim. A comissão de avaliação é soberana e inquestionável. Diferentemente dos trabalhadores docentes, que podem apelar para mais quatro instâncias antes de ver uma exoneração por desempenho insuficiente acontecer.  

E diante dessa flagrante injustiça, qual a posição da reitoria? "A coisa é assim, nada podemos fazer". Ora, a universidade tem todas as condições de gerir autonomamente sua política de pessoal e pode sim definir instâncias de recurso. Não é possível que uma comissão, que não leva em conta toda a trajetória de um trabalhador, decida, e não possa ser questionada.

A reivindicação dos colegas de Juliane e do sindicato era de que a avaliação fosse revista, com a inclusão do período no qual ela atuou no Departamento de Compras - onde está agora  - e que também fosse levado em consideração a sua condição de grávida e depois, de lactante, no período em que discutiu o ambiente onde estava.

Mas, depois de reuniões e reuniões, o reitor Ubaldo Balthazar decidiu que não iria decidir. E a proposta apresentada foi a de levar o caso ao Conselho Universitário. Uma decisão de Pilates, visto que o CUn, predominante formado por professores, não tem sido sequer imparcial nas suas análises, inclusive nos casos que envolvem sua própria categoria. Basta lembrar o triste episódio de uma professora do Curso de Enfermagem que foi exonerada também por perseguição, por ser “boa demais” com os alunos. Ela entrou na Justiça e venceu, não sem pagar um preço elevado demais pelo sofrimento todo que passou, vindo depois a tirar a própria vida.

O caso envolvendo a trabalhadora Juliane não é exceção. É regra. A vida das pessoas é rasgada e cortada sem dó nem piedade. Se for alguém que questiona, que luta, que atua politicamente, bom, aí a coisa é bem pior. A lógica da “fazendinha” é simples: assuma seu cargo, não abra a boca, não olhe para os lados, não gema, não vá às assembleias, não se mova, obedeça toda as ordens, senão... O chicote canta. E a demissão vem. Juliane reivindicou. Errou aí.

O século XXI já vai chegar à segunda década, mas os trabalhadores públicos da educação, que não são docentes, seguem sendo tratados como joãos e marias-ninguém. Tudo para eles é menos.

Agora, o caso da Juliane vai para o Conselho Universitário. Nova batalha. Não há paz. Mudam as administrações e a UFSC segue como sempre foi. “É assim, não há o que fazer”, diz o reitor. Não. Não é verdade. Vontade política e coragem mudam as coisas. Mas, pelo visto, isso não é para agora.

A luta por Daniel deu um grande ânimo nos trabalhadores, porque foi vitoriosa. Aprendeu-se muito. Agora, a batalha pela permanência da Juliane mostra que a questão do estágio probatório é muito mais complexa do que se supunha. Há coisas tantas para mudar. O caminho é longo. Mas, enquanto houver luta, a vida vai apontando rumos.  



quinta-feira, 7 de junho de 2018

Doval, o futebol e o esquadrão imortal

Doval

o esquadrão imortal

Sempre tive certa síndrome de Madre Tereza, ficando ao lado do mais fracos em todas as situações, inclusive no futebol. Lembro que quando era pequena (ou criança, porque pequena ainda sou) achava muito estranho a garotada da rua ser Flamengo. Todos eram Flamengo, aquilo não me parecia justo. Eu brigava porque achava que tinham de ser dos times locais, no caso ou Internacional, ou Cruzeiro, que eram os times de São Borja. Mas, bastava ter jogo do Flamengo que a galera deixava o jogo de bolita para ouvir a contenda.

Foi por conta disso que me fiz Fluminense lá pelos anos 70. Achava triste que ninguém torcia para o tricolor. No jogo de botão, esse sempre era meu time. Cafuringa, Mickey (o artilheiro do paz e amor), Félix, Gerson. E, em 1975 o “esquadrão imortal” era imbatível, com figuras míticas como Carlos Alberto, Edinho, Dirceu, Rivelino e o absoluto Doval. Esse era meu ídolo, tinha milhares de fotos recortadas do “diabo loiro” argentino. E o dono da banca de revista já sabia, quando chegavam as revistas do esporte eu era a única menina a comprar. Também tinha todos os álbuns de figurinha.

Naqueles anos o futebol era uma beleza. A gente conhecia os jogadores, amava cada um deles pela magia que conseguiam fazer com a bola nos pés. Eu, de fato, sempre gostei do jogo, não importando muito quem jogava. E a torcida era sempre definida em função de quem estava com menos apoio.

Ao longo dos anos amei Nelinho, Eder, Paulo Cesar Carpeggiani, Renato, Figueroa, Paulo César Caju, Manga, Zico, Falcão, Marinho, Sócrates, Wladimir, Palhinha, Fio, Biro-Biro, Toninho Cerezzo, Roberto Dinamite, Leão, Valdo, e tantos outros. Hoje ainda me deixo ficar em frente à TV quando o jogo é bom, mas já não conheço ninguém. Desses, da seleção brasileira, praticamente nenhum. Eles não são nossos ídolos aqui, não dançam nos nossos gramados, estão fora.

Mesmo assim, quando chega o tempo da Copa eu me animo. Mesmo no meio do futebol técnica assoma algum guri brincalhão, desses que dança e faz misérias. Isso me emociona e me transporta para os anos 70 e 80 quando a gente vivia com força essa paixão. Mas, é triste não ter o nome dos guris na ponta da língua e não saber sequer de onde eles estão saindo. No geral, as gentes de outros lugares sabem deles mais do que nós. Nossos garotos, quando em algum momento se destacam, já são capturados por algum olheiros e viram mercadoria, levados para longe de nós.

Nesses dias que antecedem a Copa me veio assim, profundo, um oceânico sentimento de saudade e me vi debruçada sobre o álbum que enchi só com fotos do Doval. Ele ainda deve existir em alguma caixa na casa de meu pai. O Doval já se foi, “hace tempo” jogar no céu. Morreu cedo, com 47 anos, deixando a doce lembrança do riso, dos cabelos lisos e compridos e do braço em riste na hora do gol. Doval é a memória de um tempo em que o futebol era capaz de nos encantar.

Hoje, não mais... Ainda que nos dias de Copa eu me perca, outra vez...Esperando.


Messi e as crianças palestinas


Foi assim, tão logo souberam que a seleção argentina iria jogar um amistosos com a seleção de Israel, um grupo de crianças palestinas decidiu escrever uma carta ao jogador Messi, que é um ídolo mundial, e também muito amado pela gurizada palestina. Uma gurizada que vive diuturnamente acossada pela violência, pela morte, pela dor, tudo provocado pelo estado sionista de Israel. Hoje, são mais de 300 crianças presas nas cadeias israelenses, pelo simples fato de existirem, quererem viver no seu território e lutarem por isso. 

Na carta, entregue a representação diplomática da Argentina na Cisjordânia pelo presidente da Associação Palestina de Futebol, Jibril Rajoub, as crianças falam com Messi: “ Disseram que você vem jogar com os seus amigos em Al Malha, num estádio construído sobre a nossa aldeia. Você é uma figura lendária do futebol com a qual todos sonhamos em ser iguais. Somos filhos de refugiados palestinos dos campos de refugiados de Qalandia, al Amari, Yalazón e Aida. Nossas famílias são originárias de Al Malha. É lógico que Messi, o herói, venha a jogar em um estádio construído sobre os túmulos dos nossos antepassados? Nós, em nome de nossos amigos, oramos a Deus para que atenda nosso desejo, e que Messi não parta nossos corações."

Essa comunidade, que existia na parte ocidental de Jerusalém, foi  uma das 418 vilas palestinas destruídas por Israel desde a invasão, e ali hoje está o estádio Teddy Kollec, onde seria a partida, que serviria justamente para celebrar os 70 anos de criação do estado de Israel. Os 34 mil ingressos já estavam vendidos e o governo preparava uma grande festa, completamente alheio ao sofrimento e ao terror que vem provocando desde a invasão das terras palestinas.

Na última terça-feira a Argentina confirmou o cancelamento da partida, aparentemente acolhendo o pedido das crianças, numa vitória diplomática importante para o povo palestino, justo nesse momento em que os Estados Unidos acirram a violência com a transferência da sua embaixada para Jerusalém, alegando que ela é a capital de Israel. Os últimos dias tem sido de barbárie com dezenas de pessoas sendo assassinadas por franco-atiradores durante os protestos na fronteira, como o caso da enfermeira de 21 anos, Razan al-Najar, atingida enquanto prestava ajuda a um ferido.

A vitória é também do Movimento BDS (Boicote, Desenvestimento, Sanções)argentino, que potencializou a campanha. Esse movimento existe em todo o mundo conclamando o boicote a Israel.

O governo israelense já confirmou o cancelamento argumentando que o jogo não será realizado em função de “ameaças de morte” ao jogador Messi. O presidente da Associação de Futebol Argentina, Claudio Tapia, também confirma a versão: "O acorrido nas últimas 72 horas, as ações, as ameaças que aconteceram, nos levaram a tomar a decisão de não viajar. A minha responsabilidade, como presidente, é a de lutar pela saúde e a integridade física de toda a delegação".

Essa jogada de colocar a culpa do cancelamento nas “ameaças”, que na verdade não existiram, é uma tentativa polida de escorregar pela tangente. 

De qualquer forma, a Argentina não indo a Israel é um gol de placa, não de Messi, mas das crianças palestinas que ousaram chutar forte e, mais uma vez, enfrentar o gigante.

Que vivam as crianças palestinas. Que vivam!  Elas enchem meu coração de alegria em meio a toda essa dor. 




sexta-feira, 1 de junho de 2018

Pantera Negra e Fahrenheit 451


Assisti essa semana o filme Pantera Negra e a despeito da belíssima estética envolvendo os cenários e o figurino, não gostei. Porque, para mim, o filme tem de dizer algo e o que o filme me diz não me agradou. Gosto de filmes de super-heróis, porque eles nos remetem aos sonhos de justiça que temos e que não podemos realizar. São metáforas dos nossos desejos de um mundo bom. Mas, os super-heróis que temos visto no cinema desde algum tempo na nova leva de renascimento dos personagens da Marvel não tem nada de bom. No geral, quando os vejo, acabo assumindo o lado dos “bandidos”, que me parecem mais justos que o tal do herói.

Vejam o Homem-de-Ferro, feito lindamente pelo adorável Robert Downey Jr. Fala sério, mano, o cara é comerciante de armas que adora matar árabes. Ele é o “bad gay”. Aí não dá, né?

E no Pantera Negra, o gurizinho vê o pai ser assassinado porque queria levar a liberdade a todos os negros da terra, segue no rumo do sonho do pai e ele é o que é bandido? Ah, aí é demais pra mim. Ver o rei de Wakanda voltar ao poder por conta da providencial ajuda de um agente da CIA, que é salvo em nome da “bondade” , foi muito uó. E por que a bondade do rei não se expressou no acolhimento ao primo, revoltado? Gostei não! Gostei não mesmo. E no final, o rei da fantástica Wakanda decidindo abrir um centro de ajuda a menininhos do bairro onde o primo viveu não me comoveu. É fato que nessa hora eu chorei. Mas, chorei de raiva. Filantropia a essa hora do dia. Foda-se!

Aí, como eu torci o tempo todo pelo primo do rei bundão, o bandido, fui atrás de saber quem era aquele garoto lindo. Michael B. Jornan, sublime! Então vi que ele protagonizou a nova versão do clássico de Ray Bradbury “Fahrenheit 451”. E aí sim vi a representatividade negra necessária. Ele faz o papel de Montag, o herói da trama. Heróis sem ser super. Herói na sua humanidade desesperada. Herói porque se entrega para salvar o sonho de um mundo bom.

A ficção de Bradbury fala de um mundo sem livros. E onde as pessoas que os possuem são presas. E Montag é um bombeiro que vive de atear fogo nos livros, até que se encontra com as palavras. É uma história fantástica. A nova versão para o cinema foge um pouco do livro, mas mostra o nosso tempo de internet, telas gigantes e esquecimento do sentido de comunidade. Ficou bom. Gostei. Também gostei de Montag ser representado por um negro. Creio que é por aí que se valoriza de fato a representatividade do povo negro. Um negro valoroso, um homem do bem, que entrega sua vida por uma comunidade que quer pensar livremente. Ah, que belezura. Esse sim me comoveu, bem mais do que o tecnológico e caridoso rei de Wakanda.

Recomendo fortemente essa bela nova versão do “Fahrenheit 451”, protagonizada por esse garoto espetacular, Michael B. Jordan. Ele é maravilhoso, e a história melhor ainda. É desses heróis que precisamos. Aqueles que a despeito de não terem nada a lhes proteger, se atiram no abismo em nome da justiça.


quinta-feira, 31 de maio de 2018

Audálio encantou

Texto com a reportagem sobre o pistoleiro do caso Sacopã/1959



Eu nem tinha nascido ainda e o Audálio Dantas já era um jovem repórter na revista Cruzeiro, a primeira revista de reportagens do Brasil com circulação nacional. Tempos depois, eu já conseguia ler seus textos nas revistas que ficavam na casa de minha avó Tila, na beira do rio Uruguai. Lembro que eu gostava de ler deitada na frente da porta da rua, que dava para o rio. Lá fora, os balseiros passavam devagar e ali dentro da pequena casa de madeira escura eu me aventurava pelas letras, barriga no chão, cotovelos fincados e a cabeça nas nuvens. Aprendi da beleza do texto na Cruzeiro. E muito aprendi com Audálio, o qual segui por toda a vida. Um texto fantástico.

Essa semana ele encantou e eu fui buscar a primeira revista na qual vi um texto seu, fazendo uma parte da reportagem que contava de um famoso crime acontecido no Rio de Janeiro: o crime de Sacopã. O texto ainda não tinha todo o brilhantismo que iria adquirir mais tarde, mas já era denso e carregado de impressões. 

Foi ele também, como repórter, que descobriu os cadernos de Carolina de Jesus, ao fazer uma matéria na favela do Canindé. O trabalho da escritora virou o clássico "Quarto de Despejo".

Tive a graça de conhecê-lo. Fica a saudade, sem dor, porque ele é eterno. Valeu Audálio... 


Da desinformação, dos desejos e da história



A crise do desabastecimento por conta da greve dos caminhoneiros vai passando devagar, deixando marcas indeléveis. E as redes sociais seguem no interminável frisson de notícias falsas e de fabricação de realidades que vão se incorporando na mente de muita gente que não tem outra fonte de informação. E assim, a televisão – cujo comando está nas mãos de quatro famílias e uma igreja – e o facebook, vão moldando pensamentos e ações. Nessa ciranda, tanto as gentes da direita como as da esquerda vão gestando um caldo grosso de mentiras e desinformação. As redes viraram pântanos onde no mais das vezes só é possível se afogar.

Acordo cedo e espio as notícias, um hábito que tenho bem antes da existência das redes sociais. Vejo que os bloqueios dos caminhoneiros vão sendo levantados e o debate que encontro é de que venceram os empresários. Afinal, o governo acabou isentando impostos das empresas ao propor a redução do preço do diesel. Eles terão um bom respiro enquanto o restante da população sofrerá com mais um aumento na gasolina, que por sua vez provocará aumento no gás e em outras mercadorias. Ou seja: ganham os caminhoneiros a sua pauta específica e perdem todos os demais mortais. E a culpa é de quem? Dos caminhoneiros reacionários que pararam o Brasil por 10 dias com o apoio dos empresários e das “forças ocultas”. Também se divulga a exaustão que os caminhoneiros todos querem a volta do regime militar e vai se tecendo uma opinião sobre eles que não é das melhores.

Há que pensar sobre isso. 

As pessoas se movem por interesses e desejos. O preço do diesel está alto demais, assim como o da gasolina, do gás, da luz. Mas, quem se moveu foram os caminhoneiros, principalmente os autônomos, donos de um, dois ou três caminhões. Tinham uma pauta bem específica: baixar o preço do combustível para poder dar conta de pagar as contas. A eles se somaram, é claro, as transportadoras, afinal, não seriam bobas de ficar de fora de uma movimentação como essa. E espertamente foram negociar com o governo, procurando tirar suas vantagens. Na política não há vácuo. Tanto que chegaram a fechar dois acordos, não reconhecidos pela massa que fechava as estradas. Tiveram de aguentar as pontas e esperar até que a maioria que bloqueava as estradas fosse decidindo voltar ou fosse retirada pela força. 

E enquanto os caminhoneiros provocavam uma convulsão nacional os partidos políticos de esquerda, sindicatos, centrais sindicais, movimentos sociais, relutavam em apoiar, entendendo que não era uma greve, mas um locaute, ou seja, algo provocado pelos empresários. Acabou que o tempo revelou ser o movimento as duas coisas ao mesmo tempo, com todas as contradições. Ali estavam os empresários e ali estavam trabalhadores, contapropistas (por conta própria), mas trabalhadores. E por fim, em meio a luta pela queda do preço do diesel, viu-se de tudo. Desde pedidos de volta dos milicos até o Lula Livre. Ou seja: o movimento envolvia todas as frações ideológicas e partidárias, pois, como sempre foi nas greves de qualquer categoria, nem todo mundo que para e luta é de esquerda. Sempre se trava um longo debate quando se inclui pautas mais abrangentes na pauta específica e corporativa. Quem vive o mundo sindical sabe disso muito bem. É sempre uma disputa. No caso da greve dos caminhoneiros, como não havia uma direção específica e a categoria estava espalhada pelo país, as pautas assomaram sem controle. 

Creio que se deu demais importância para o conservadorismo. No geral, uma boa conversa, com argumentos claros, convencem aqueles que estão abertos para o diálogo. E não são poucos. Óbvio que há gente conservadora e reacionária por convicção. Mas, muita gente é por não ter informação. 

Nessa quarta-feira, em Florianópolis, as centrais chamaram um ato em defesa da Petrobras. Quase nenhuma menção aos caminhoneiros. A impressão que dá é que venceu a ideia de que são todos “pelegos reaças”. Mas, cá no meu cantinho, penso que poderia ser diferente. Uma ação sistemática junto aos piquetes, com conversas e muita, mas muita escutatória, poderia ajudar as lideranças sindicais e partidária a compreender o fenômeno. As coisas estão mudando no mundo da política já faz algum tempo, mas as práticas seguem sendo as de um passado que não cabe mais. Há coisas novas no ar, e não estamos sabendo lidar com isso. 

Fiquei pensando sobre as grandes batalhas populares que tivemos no Brasil e em Santa Catarina: Canudos e Contestado. Tanto numa como na outra o mote político abrangente que movia as gentes era a defesa da monarquia. Uma pauta reacionária para a época, visto que assomava a República. Fiquei curiosa para saber como as forças de esquerda se comportaram. Teriam apoiado os camponeses que perdiam suas terras para latifundiários gananciosos? Ou será que se deixaram levar pelo discurso de aquela era uma gente atrasada, que não entendia a importância da República, que estava atravancando o progresso? 

E porque os camponeses maltrapilhos apoiavam a monarquia? Porque ela os havia deixado lá nos seus cantos, com suas terrinhas. E, para eles, o “progresso” da República representava o desalojo, a perda do espaço da vida. Estavam errados? Queriam vida boa e bonita, e enquanto a monarquia não mexia com eles, acreditavam que podiam seguir buscando. Praticavam a consciência ingênua e, pela lógica, só podiam apoiar a monarquia. Óbvio.

Foi assim com os Mapuche – única etnia sul-americana que não foi conquistada pelos espanhóis e portugueses – que só caíram depois que houve a independência. Eles então eram contra as guerras de libertação da colônia porque na monarquia eram capazes de manter sua soberania. Foram vistos como traidores da causa independentista e massacrados pelos vencedores.

Essas são contradições que precisam ser pensadas. A história está aí para ensinar, mas ao que parece, nem mesmo o povo que vive dizendo para os reacionários estudarem história, tem feito o dever de casa. Tampouco estudam história. 

A luta de classes é um espaço de contradição. E a consciência de classe não brota só do desejo da gente. Ela exige trabalho e construção. Ela exige estudo, autocrítica, novos estudos. Ela exige a delicadeza da escutatória. Ouvir o outro em profundidade. Compreender o que move os desejos das gentes. Não é coisa fácil. Mas, pode-se lograr. 

Temos visto as pautas neofascistas crescerem assustadoramente, muitas vezes impulsionadas por nós mesmos, na louca ilusão de que praticando julgamentos morais sobre as decisões dos outros poderemos mudar as coisas. 

Penso que a história nos ajuda a compreender. Revisá-la, escutá-la no mais profundo, pode fazer com que mudemos o rumo das coisas. E, para isso, precisamos de ferramentas como os partidos, os sindicatos e os movimentos. Mas, entendendo que mesmo ali há que haver mudanças para o tempo novo. Vinhos novos exigem odres novos. 

É tempo de estudar...  

terça-feira, 29 de maio de 2018

O Brasil, os caminhoneiros e a política



Quando em 2013 a direita foi às ruas houve uma surpresa geral. Havia muito tempo que esse campo não travava batalhas no campo aberto. Sua tática, desde o golpe de 1964, era a das salas acarpetadas, dos acordinhos espúrios, da pressão via dinheiro. Mas, tampouco o país tivera na direção alguém identificado  com os trabalhadores. Lula e depois Dilma vinham de um partido de trabalhadores e ainda que seguissem a cartilha liberal, o nome “trabalhadores” na sigla que os representava parecia perigoso demais. O período de vacas gordas na economia passara e a realidade de país dependente assomava outra vez. À classe dominante já não interessava mais o PT no governo e ela decidia que queria de volta o poder político.

Naqueles dias de 2013 a faísca que se acendera com a batalha contra o aumento da tarifa de ônibus deu vazão a uma série de outras demandas. E, de repente, as ruas, que eram território da esquerda e dos trabalhadores, passaram a se vestir de um verde-amarelo reacionário, com a classe média e até algumas socialites realizando passeatas e manifestações. O grito de Fora PT começou a aparecer e no meio da luta pelo transporte público surgiu a pauta da PEC-37 que tomou conta do país, com as pessoas defendendo seu arquivamento sem sequer saber o que ela significava. E nas ruas travou-se a batalha contra os partidos políticos, os sindicatos e os movimentos sociais. Ali já se pronunciava a semente do que estaria por vir. O arquivamento da PEC 37 deixava o Ministério Público com poderes de investigação tal qual a polícia e a operação Lava-Jato que nasceria mais tarde mostraria o quanto servira aquele arquivamento.

Naqueles dias as forças de esquerda também ficaram em estado de perplexidade, mas resistiram e enfrentaram os raivosos verde-amarelinhos em todos os campos. E quando tudo acabou, acreditava-se que aquele episódio não se repetiria. Mas, não foi assim. O nascimento de uma série de movimentos de direita e sua ação nas redes sociais deu volume aos gritos de “fora PT” e a situação econômica foi abrindo brechas na sociedade que não queria mais perder o que pensava que havia conquistado: a segurança financeira. O segundo mandato de Dilma que começava com promessas de manutenção dos programas sociais e de vida boa para todos fez água e ela decidiu aplicar um ajuste que cortava na carne da maioria. Virou inimiga, e com razão. 

A operação Lava-Jato e o jogo das delações premiadas começaram a mostrar um quadro de corrupção dentro da Petrobras, a maior estatal brasileira. Políticos do PT foram caindo um a um, até que chegou à presidenta. Como um rastilho de pólvora a pauta do combate à corrupção foi se espalhando capilarmente, com o engajamento ferrenho das mídias comerciais. Dilma estava com a cabeça à prêmio e, de novo, as forças da direita conseguiram empurrar para as ruas milhões de pessoas pedindo o impedimento da presidenta. Não havia crime, não havia provas, mas havia um frisson alucinante que exigia a punição, a queda, o desaparecimento do PT. E Dilma foi derrubada por conta das pedaladas fiscais, coisa que todo governante praticava. Tanto que logo depois da assunção de Temer, as pedaladas foram legalizadas pelo Congresso.

Com Dilma fora do caminho, o vice, Temer, assumiu e a próxima jogada no tabuleiro da política brasileira era derrubar Lula, apagá-lo da história, tirá-lo de cena como um reles ladrão, capaz de vender-se por um apartamentinho furreca. E tudo foi feito conforme o script. Lula foi envolvido nos esquemas de corrupção e hoje está preso em Curitiba por conta de uma acusação que envolve o recebimento de um apartamento como propina.

Enquanto essa novela palaciana se desenrolava, os movimentos sociais, sindicatos e partidos políticos seguiam com suas mesmas velhas práticas, sem perceber que algo havia mudado radicalmente nas entranhas do país. As redes sociais, misturadas de forma capilar na vida das gentes, viraram tanques de guerra a disparar notícias falsas e a constituir um consenso generalizado sobre a esquerda brasileira. Qualquer luta de trabalhadores virava coisa de “comunista” e até mesmo o PT foi acusado como tal. “Minha bandeira jamais será vermelha”, gritavam os verde-amarelos, possuídos pela sanha anti-comunista. E as ruas iam se mesclando de gente que misturava esse ódio ao comunismo a própria perda de vantagens econômicas, visto que a economia ia se desmilinguindo, sempre contra a maioria. Com Temer no comando o país foi sendo entregue em todas as áreas: riquezas naturais, estatais, soberania.

Um campo dos trabalhadores abraçou a batalha pela defesa do Lula. E, em todo o processo, que foi da acusação até a prisão, a vida se desenrolou por ali. Mesmo depois da prisão, que já leva quase 50 dias, esse grupo seguiu atuando no sentido de batalhar pela liberdade do líder. As demais pautas ficaram em segundo plano e mesmo a Reforma Trabalhista, que tirou direitos fundamentais dos trabalhadores não encontrou combate. Poucas foram as ações contra a reforma e ela passou no Congresso sem maiores atropelos. As centrais outrora combativas chegaram a suspender greves gerais marcadas, desmobilizando e enfraquecendo a luta dos trabalhadores.

A direita, que vinha se reorganizando desde 2013, com a construção de novos mecanismos de batalha, não deixou que o vácuo na política demorasse. Atuou com competência e venceu a batalha das ideias, tendo nas mãos os meios de comunicação e as redes sociais. Assim, a luta contra os “comunistas” continuou ganhando fôlego e incitando muitos grupos a exigirem até a intervenção militar. Assim, enquanto o país ia sendo entregue e a economia despencava, ia se criando o caldo de descontentamento totalmente vinculado ao campo da esquerda. Tudo de ruim que Temer provocava era culpa do PT. E ainda que houvesse sim responsabilidades do PT, o negócio não era tão simples assim.

Na última semana um movimento de caminhoneiros contra o preço do diesel surpreendeu outra vez o campo da esquerda. Das entranhas do país, pelas estradas carcomidas e perigosas que constituem a malha rodoviária do gigante brasileiro, homens e mulheres decidiram parar a circulação das mercadorias. E tudo parou. Sem gasolina os carros ficaram nas garagens, a comida sumiu das prateleiras, o gás desapareceu. Houve correria e as pessoas começaram a estocar coisas. Nas estradas, os caminhoneiros exigiam a queda do preço do diesel e agregavam outras pautas, como a intervenção militar, de cunho reacionário.

Identificados com o grupo de “paneleiros” como ficaram conhecidas as pessoas que bateram panela pelo impedimento da presidenta Dilma, foram vistos com ódio e rancor pelas forças de esquerda, que demoraram dias para perceber que ali, naquele grupo heterogêneo expressava-se todo o tipo de vozes, inclusive as de “Lula Livre”. Mas, os empresários e políticos da direita logo se somaram ao movimento, apresentando-se como lideranças e apoiadores, deixando a esquerda de fora. Somente passados alguns dias começaram a aparecer as notas de apoio por parte de centrais, sindicatos e movimentos.

Nas redes sociais as páginas de notícias falsas seguem a todo vapor e reproduzem à exaustão a desinformação, dificultando ainda mais a compreensão sobre o que de fato acontece. Enquanto a esquerda busca, lentamente, potencializar o movimento com a chamada de “Fora Temer” os empresários tentam encerrar a paralisação que já causou grandes problemas na economia. Os caminhoneiros, animados com o apoio popular, agora não querem aceitar o acordo feito por cima, entre empresários e governo, e exigem mais do que a queda do preço do diesel. Querem que baixe a gasolina e o preço do gás, atendendo assim a maioria e não apenas a categoria. Isso provoca mais apoio ainda por parte da população que vive o arrocho provocado pelo ajuste.

Nas ruas é o sanatório geral. Há quem queria que caia o preço da gasolina, que venha a intervenção militar, os que são contra a democracia, os que pedem o Fora Parente (presidente da Petrobras), o que pedem foram Temer, eleições já. É uma algaravia. O governo agora endurece contra as entidades que assinaram o acordo, porque não há cumprimento, e ameaça cobrar multa das associações. Também exige que a Polícia Federal prenda os líderes das manifestações. É uma confusão generalizada. E, na semana mais quente do país, com tudo parado, o Congresso Nacional vota regras para eleição indireta em caso de vacância de presidente, o que aponta articulação já amarrada caso Temer despenque do poder. Não há vácuo, as peças se movem e têm comando certo.

Infelizmente para os trabalhadores, as entidades sindicais e populares ainda não conseguiram definir o que fazer no contexto do movimento dos caminhoneiros e diante do aprofundamento do descontentamento popular. Domesticados por tantos anos de governo petista, poucos são os que conseguem atuar com consequência. No geral, estão descolados das demandas populares e, enfrentados com elas, acabam sendo rechaçados pela população que não os reconhece como parceiros no diálogo. Resta o choro nas redes sociais e a ausência nas ruas. 

Nessa quarta-feira (30) começa a greve dos petroleiros que procurará debater a questão da Petrobras, do petróleo brasileiro, das refinarias e a política entreguista que vem sendo praticada pelo governo Temer. O caldo pode engrossar, ou não. Se os caminhoneiros levantarem a greve, os petroleiros ficam sozinhos e podem não ter o mesmo apoio popular, até porque suas fileiras não comportam pautas reacionárias como intervenção militar, por exemplo.

Esse é o cenário. A considerar como as forças caminham é provável que a greve dos caminhoneiros vá enfraquecendo e a vida volte ao “normal”, com os partidos políticos preocupados com os candidatos das próximas eleições. Em Curitiba segue o acampamento que saúda Lula todos os dias, sem qualquer chance de ver a sua mais importante liderança fora da prisão. Esse assunto inclusive sumiu da pauta nacional em função da paralisação dos caminhoneiros.

Mas, caso a greve nas estradas não terminar e os caminhoneiros se unirem ao movimento dos petroleiros, novos cenários poderão se abrir, com o aprofundamento da crise e a possibilidade de uma saída comandada pelos trabalhadores. Resta acompanhar.


domingo, 20 de maio de 2018

Que viva o Dragão do Mar



Foi do Ceará que saiu o grande Francisco José do Nascimento, uma dessas criaturas que precisam sempre ser lembradas, Nascido em canoa Quebrada no ano de 1839 ele foi um dos mais importantes abolicionistas no Ceará, estado que foi o primeiro no Brasil a acabar com essa vilania em 1884. Lá, o movimento abolicionista surgiu em 1879 e a luta foi sistemática e intensa. 

Dentre os lutadores pelo fim da escravidão assomou um jangadeiro humilde, negro, naqueles dias conhecido como Chico da Matilde. Ele, bem como seus colegas, se recusava a transportar de e para os navios negreiros, os escravos que eram vendidos para o sul do país. Com esse movimento que acabou encerrando o tráfico no estado ele causou o maior rebuliço no Ceará, chegando a estampar as capas dos jornais da época. 

Por conta de sua valentia no enfrentamento com os escravistas ele acabou virando um símbolo da luta contra a escravidão e chegou a ser levado para a corte, com sua jangada, desfilando pelas ruas e sendo saudado pelas gentes. Ficou então conhecido como o “dragão do mar”. 

Em 18 de julho de 2017, o nome de Francisco José do Nascimento foi inscrito no Livro dos Heróis da Pátria, que se encontra no Panteão da Pátria e da Liberdade Tancredo Neves, em Brasília, em virtude da Lei Nº 13.468/2017.

É a ele que a música de João Bosco e Aldir Blanc se refere, quando conta a história de outro negro do mar: João Cândido, o líder da revolta da Chibata. Ele seria o dragão do mar reaparecido. 

Viva Francisco José do Nascimento, o dragão do mar!

quinta-feira, 17 de maio de 2018

Da bondade


Meu avô era um italiano de quase dois metros de altura e de uma ternura infinita. Sempre que me vêm as imagens da infância é o seu rosto alegre que assoma, sua risada, suas piadas. Mesmo vivendo na mais dura miséria nunca perdia a capacidade de nos fazer rir.

Meu avô era um homem bom. Viveu pobre por isso. Lembro como se fosse hoje os tempos em que ele tinha um bar na rua 28, em frente ao bebedouro, em Uruguaiana. Do lado do bar tinha uma casa de prostitutas, a mais famosa da cidade e a casa do vô tinha um portão que dava direto no pátio das mulheres. Elas circulavam por ali com desenvoltura, vindo buscar cigarros no bar, os quais levavam de fiado. No geral nunca pagavam e o vô tinha pena de cobrar. Achava que elas tinha uma vida dura demais.

Como reciprocidade ele pedia que elas nos levassem – eu e minha irmã – para passear na carruagem que a "casa" tinha e com a qual circulavam pelo centro para chamar a clientela. Era uma carruagem preta, dessas tipo diligência, toda forrada de cetim vermelho, um deslumbre. E a gente ia com a cabeça para fora da janela, bem serelepe, no maior orgulho.

Nos dia de verão, que em Uruguaiana sabem ser quentes, ele chamava a gurizada da rua para distribuir picolés. Tudo de graça. O nosso preferido era o de abacate, de um sabor espetacular. Não era um nem dois, eram muitos. Não tinha como lucrar.

E quando, já tarde da noite, os borrachos renitentes insistiam em tomar mais uma, ele, compadecido, dava junto com a pinga pedaços de pão com salame, para que eles não ficassem tão ruins. Igualmente não cobrava.

Eu ficava junto com ele, cotovelos no balcão de pedra, até a hora de fechar, acompanhando a romaria dos borrachos. Minha função era cortar os salames em rodelas, as quais ele pedia “bem grossas” para forrar bem o estômago. Tem base? Era como um anjo.

Não foi sem razão que em pouco tempo estava falido e de volta ao campo, plantando arroz, que era o que ele mais sabia fazer.

Meu vô Dionísio sempre foi meu exemplo. Nessa foto sou a que está a esquerda dele, de olhos graúdos e alertas, agarrada ao meu sumo-bem. Ainda tenho longas conversas com ele, cheias de risos...


domingo, 13 de maio de 2018

Orlando Caputo: lição de vida

Eu, com Orlando Caputo, na porta da UFSC

Estávamos na mesa do restaurante, durante as Jornadas Bolivarianas. E, por sorte a compartilhávamos com Orlando Caputo, um dos criadores da Teoria Marxista da Dependência. Para lá dos seus 70 anos, ele comia devagar, olhado ao redor com olhos curiosos. Conversa vai, conversa vem, o compa argentino, Facundo Cardella,  comenta o quanto deve ter sido difícil para ele amargar um exílio de tantos anos longe do Chile depois do golpe militar. 

Caputo, que viveu a utopia da Unidade Popular no Chile, a que levou Allende a presidência, foi viver no México depois do golpe dado por Pinochet, que resultou no assassinato de Allende e no de milhares de outros chilenos. 

Caputo demorou a responder, mastigando a comida lentamente, os olhos meio que perdidos em lembranças. Então, passados alguns minutos, quando até já tínhamos pulado para outro assunto ele falou, como se fora um oráculo: “Não foi fácil, mas tratei de fazer que fosse feliz”. A frase, lapidar, e o olhar sereno nos tocaram profundamente. E ficamos ali, quietos. Ele continuou. “Tinha dois filhos pequenos na época e o que pude fazer foi dizer a eles: estudem, viajem, conheçam e respeitem a cultura local. Foi o que eles fizeram, o que nós fizemos. E foi bom. Foi feliz”.

Eia aí a beleza de saber viver. Ser de onde se está, e buscar viver feliz, apesar de tanta dor. 
O que nos restou foi abraçar bem forte aquele homem gigante, que nos dias que passou aqui, absorveu tudo de maneira muito intensa. Seus olhos, vivaces, estavam sempre brilhando, como se tivessem presenciando maravilhas. 

Caputo é estelar.