quinta-feira, 18 de outubro de 2018

A vida e seus ciclos

Cíntia Cruz, da Revolução dos Baldinhos


Ali estava eu, na sala escura do Centro de Eventos da UFSC, esperando minha vez de falar no Planeta.Doc, uma proposta generosa que envolve muita gente disposta a fazer algo para que todos possam viver bem. Então, ela entrou em cena, falando de um projeto que ajudou a criar na região do Monte Cristo e na Chico Mendes. Seu nome:  Cintia Aldaci da Cruz. Mulher negra, nascida e criada na comunidade do Monte Cristo que, com outros companheiros e companheiras, deu vida a revolução dos baldinhos, um projeto de gestão de resíduos urbanos que tem transformado vidas na comunidade. 

De repente, na escuridão do auditório, vendo aquela mulher falar com tanto amor de sua comunidade que é conhecida como o "espaço da violência", meu coração foi enternecendo e as lágrimas vieram aos borbotões. 

Ela ainda era poeira cósmica quando um grupo de pessoas, sob a direção do Caprom, coordenado pelo Padre Vilson e Ivone Perassa, preparou aquele terreno para as famílias entrarem. Era final dos anos 80 e a cidade de Florianópolis vivia um grande processo de migração. Havia muita terra sem uso, e muita família sem um lugar para morar. Então, essas famílias se organizaram, tiveram apoio do Caprom,  e ocuparam áreas públicas, onde fincaram os barracos e começaram a resistência na luta por moradia. 

Estive ali, com Elisa, Loureci, Celso, Jaques, Geraldo, e tantos outros companheiros e companheiras, que atuaram juntos naqueles dias de tanta beleza, luta e transformação. Nas noites escuras do continente, mediam-se os terrenos, fincavam-se estacas e erguiam-se os barracos. Então, fruto da luta coletiva, foram brotando as comunidades que hoje estão aí, firmes, se reinventando a cada dia. Chico Mendes, Vila Aparecida, Nova Esperança e o próprio Monte Cristo que surgiu ao lado da Chico Mendes. 

Ver aquela jovem, guerreira, que, emocionada, falava da profunda transformação que via acontecer na sua comunidade, da esperança que despontava nos jovens, nas crianças, me emocionou por duas razões. A primeira por ver que a resistência popular segue, cotidiana e sistemática, diante da voragem do capital, que tudo destrói. E a segunda por saber a mim mesma ainda do lado certo da história. Vejo tanta gente descambando, se endireitando, perdendo o contato com a luta das gentes. 

Eu estive ali, na noite escura,  naquele descampado que hoje abriga várias comunidades e, na força do coletivo, fiz parte do processo que constituiu vida para tantas famílias. O lugar onde germinou uma mulher como a Cíntia. E, agora estava ali, naquele auditório, também escuro, ainda dividindo palavras e esperanças sobre a luta histórica dos trabalhadores e trabalhadoras desta cidade que eu amo tanto. Comigo, também estava o padre Vilson, velho amigo e companheiro, e surpreendentemente aquele mulher, nascida e criada no espaço urbano que um dia ajudamos a transformar. Naquela hora, naquele lugar, todos juntos, seguindo na luta por um país soberano e livre, no qual as pessoas possam viver com dignidade e felicidade. 

Foi uma linda sensação!  Foi uma profunda emoção. E fortaleceu a certeza de estar no caminho certo, apesar de tudo. 

Viva a luta dos trabalhadores e trabalhadoras. 


sexta-feira, 12 de outubro de 2018

Dia da Criança



Eu me lembro dessa menina. Era quieta e introspectiva. Gostava de ficar pelos cantos, escondida com algum livro na mão, viajando sem sair do lugar e descobrindo maravilhas: os etíopes, os astecas, os guarani, os mitos gregos, os árabes. Era fascinada com José de Alencar e Simões Lopes Neto. Amava Simbad, o marujo, e talvez venha daí seu eterno desejo de viajar. Tinha poucas bonecas e gostava de subir em árvores. Podia ficar uma manhã inteira observando algum bichinho do quintal. Também se distraia brincando na selva criada pelo seu irmão menor, cheia de bonequinhos do Tarzan e seus amigos. Acreditava piamente em seres de outro planeta (ainda crê) e, nas noites, os buscava no céu, entre apreensiva e esperançosa.

Amava passar as férias na casa do vô Dionísio, no interior de João Arreghi, e enchia os dias com ele, no silêncio da lavoura de arroz, entre taipas e chamichungas. Pouco falavam, só sentiam e compartilhavam, trocando sorrisos quando os quero-queros passavam em gritaria. E nas madrugadas, na beira do rio Ibicuí, pescavam, silentes e reverentes diante da grandiosidade da noite estrelada. Naqueles dias essa menina sonhava com nada, apenas vivia a imanência da vida, sempre de maneira profunda e comprometida.

Tinha por companheiro o irmão menor, parceiro de brincadeiras e de aventuras. Com ele aprendeu a arte da gargalhada e o segredo da cumplicidade. Sempre teve os olhos de lâmpada, admirada diante de cada pequeno detalhe da existência. E, por viver mais para dentro que para fora, entendeu a força da ternura e a capacidade que ela tem de quebrar as mais duras carapaças. Essa menina ainda vive em mim, para minha profunda alegria, e assoma nos dias tormenta, para me lembrar que por mais violenta que seja a tempestade, o dia volta, e com ele o sol.

Nesse dia da criança, que os erês (tudo o que existe de bem, puro e belo) dancem e nós com eles...

quarta-feira, 10 de outubro de 2018

As pequenas ternuras do pai



Os dias tem sido tristes, de muita amargura e solidão. Cuidando do pai, acabo entrando ainda mais para dentro de mim. A vida se move entre o trabalho e depois o cuidado com o pai e com tudo o mais: a casa, os cachorros, os gatos, as flores, a horta, a compostagem. Tudo tem de estar limpo e seguro pra que o pai possa transitar tranquilo. A carga de trabalho triplicou e depois da UFSC o tempo é todo pra ele. Cuidar de um velhinho exige não apenas o trabalho braçal, mas toda uma carga de esforço emocional que esgota. Por exemplo: não posso demonstrar tristeza. Porque se ele sente que estou triste, se preocupa e fica sem chão. Então, entrando no portão, o espírito precisa ficar leve. E como é duro encontrar leveza nesses dias tristes. Mas, seguimos em frente, tentando tornar, pelo menos a vida dele, feliz.

Ontem, surpreendentemente, cheguei a casa e ele já estava no banho. Bem alegre sob o chuveiro. Estranhei, já que o banho é sempre uma grande e penosa tarefa. Mas, tudo bem. Beleza. Segui a rotina, limpando banheiro, casa, comida para os animais, roupa no varal, pano no chão. Seis horas fui preparar a janta. Rotineiramente enquanto estou no fogão, dou a ele um copo de vinho, para “abrir o apetite”. Fiz como sempre. Ele estava vendo televisão.

Mexia nas panelas, bem concentrada, quando ouvi sua voz cantarolando: tan tan tan lalalala... Ora, que surpresa! Virei-me para acompanhar sua cantoria e pasmei: ele não apenas estava cantando como dançava, erguendo os pezinhos e mexendo os braços. Minha alma se abriu numa torrente de alegria e todo aquele peso que andava carregando desde o domingo sumiu. Larguei as panelas e fui abraçá-lo, apertando-o por longos instantes. Coração a coração. Talvez, lá no fundo, ele soubesse o quanto eu precisava daquela ternura. Depois, comecei a dançar e cantarolar com ele. Rimos muito.

A vida e sua imanência....


sexta-feira, 5 de outubro de 2018

O Brasil, subindo a ladeira

Foto: Rubens Lopes


O povo brasileiro vai às urnas nesse domingo, numa de suas maiores eleições. É que não apenas elege o presidente ou presidenta da nação, mas também todo o Congresso Nacional, senado e deputados federais, bem como as câmaras legislativas, nos estados. Gente demais, e uma gente que definirá os rumos do país por mais cinco anos. 

Os últimos anos foram marcados pelo turbilhão. Um governo se elege com 54 milhões de votos, o derrotado (Aécio Neves) não aceita o resultado e começa um processo de desestabilização que vai desembocar no golpe de 2016, quando Dilma é retirada do cargo numa armação jurídico/legislativa, fartamente amparada pela mídia comercial. Mas, a jogada do PSDB encontra uma pedra no caminho: a figura de Jair Bolsonaro, um deputado federal que ao longo de mais de 20 anos de vida pública passou por nove partidos diferentes, feito uma biruta de aeroporto, para lá e para cá, embora todos dentro do mesmo espectro da direita brasileira.

Ancorado na falta do radicalismo político que a população pedia, assoberbada por tantas denúncias de corrupção, ele passou a nadar de braçada, tomando para si o papel da crítica. Uma crítica sem fundamento, mas espetaculosa, expressa em declarações rasas e polêmicas, que foram aparecendo como uma alternativa para boa parcela da população que não queria mais do mesmo. Mão dura, ditadura militar, armamento para todos, moralismo. Começou a parecer “o cara” que iria botar ordem na bagunça. 

Para uma população que vive cotidianamente acossada pelo discurso do medo imposto pela mídia comercial, o personagem durão e violento caiu como uma luta. Seria o salvador da pátria, o que acabaria com o comunismo do PT (?) e com a corrupção. Mas que, na verdade, em seu programa, aponta para a submissão completa à política dos Estados Unidos, aos latifundiários locais e aos banqueiros.  Uma mesma farsa já vivida pelo Brasil em 1989 pela triste figura do “caçador de marajás”, Collor de Melo. 

Agora, já no século XXI, chegamos às eleições premidos por outras formas de comunicação, as quais tornam qualquer pessoa capaz de produzir conteúdo. As redes sociais públicas, como o facebook e as privadas, como as do uatizapi, se transformaram num espaço de mentiras e invenções grotescas, com conteúdos grotescos e violentos. O uso de robôs para reproduzir todo esse chorume também é impressionante, o que faz com que a realidade criada dentro das bolhas seja magnificada.

Um exemplo concreto é a montanha russa causada pelas pesquisas realizadas por institutos de conhecida parcialidade. Cada resultado diário gera um estardalhaço nas redes, e as pessoas se movimentam como baratas enlouquecidas, deixando de lado seus princípios e ideais, buscando respaldar um pragmatismo sem cabeça. 

O enfrentamento à candidatura proto-fascista e ultraliberal de Bolsonaro vai se fazendo nas redes, quando a vida real nos aponta que há uma multidão de indecisos que precisam unicamente de uma boa conversa cara-a-cara para pensar seu voto. Uma gente que vaga pelos terminais urbanos, pelas padarias, pelos mercadinhos dos bairros, pela vizinhança e que acaba não encontrando ninguém para dividir suas angústias. 

No facebook pós último debate a gritaria generalizada é contra a barbárie que pode chegar caso vença Bolsonaro, e em alguns casos parece até que muitos já jogaram a toalha. 

Não é o caso. O povo brasileiro tem a sua racionalidade e sabe fazer seu cálculo. Mas, é preciso que haja gente capaz de fazer a conversa olho-no-olho, que é a única que pode fazer com que a pessoa se sinta realmente tocada. O bom e velho trabalho de base, do casa a casa, do pessoa a pessoa, o encontro humano, tão poderoso. 

Não é hora de largar a toalha ou enlouquecer no facebook. É hora de sair para a rua, encontrar o vizinho, o amigo, o companheiro, os parentes. É hora de fazer o embate real, amoroso e sincero. 

O Brasil não está ladeira abaixo. Mas, pode ir. Cabe a nós, os que historicamente têm feito a luta por um Brasil livre e soberano, impedir essa queda. É tempo de subir a ladeira. Como sempre fizemos.

Bora lá, pessoal. 


segunda-feira, 1 de outubro de 2018

As eleições presidenciais e o coiso

foto: rubens lopes

Nunca consegui encarar a figura do "coiso" como irrelevante e já faz bastante tempo que venho falando do risco que é para todos nós tê-lo como presidente. Alguns compas me diziam que ele não chegaria a 4%, mas, como eu previa, ele foi crescendo e avançando, a ponto de ser o primeiro colocado nas pesquisas. 

Continuo pensando que tanto a estratégia como a tática de ataque a ele tem sido errada, o que pode ser a nossa desgraça. Por mais que sejam importantes os temas relativamente às questões identitárias de gênero e de raça, penso que isso não toca o coração das pessoas em geral. As pessoas que estão com o "coiso" não estão nem aí para esses temas. Elas querem saber da corrupção, que acreditam será encerrada com ele. Elas querem saber se terão posto de saúde quando ficarem doentes, e acreditam que terão, pois se ele acabar com a corrupção o dinheiro vai chegar. Elas querem saber se os filhos terão educação, e pensam que terão porque sem a corrupção a grana vai chegar. Elas querem uma mudança radical, mesmo que essa mudança signifique uma mão dura, que elas acreditam jamais lhes tocará porque são pessoas "decentes". 

Eu vejo as campanhas e vejo os debates. Praticamente não se fala nos temas que as pessoas querem que se fale. Que fique claro: não estou diminuindo as pautas que estão aí nas ruas, na boca dos movimentos e pessoas que saíram às ruas com o grito de "ele não". Penso que foi poderoso e bonito. Mas, creio que numa estratégia eleitoral isso é muito insuficiente. Tem uma massa gigantesca de gente que não se sente dentro dessas pautas - mesmo que estejam (é o caso de mulheres, negros e gays que votam no coiso, mesmo com o coiso dizendo os horrores que diz sobre eles). Esse povo está noutra onda e penso que os partidos de centro-esquerda (que é o que nos resta) não estão sabendo compreender. 

Por isso que ando assim, meio Regina Duarte, porque parece que estamos cometendo os mesmos erros dos que tripudiavam dos eleitores de Trump nos EUA. Sendo assim, e vendo chegar ao fim a campanha sem uma estratégia real para convencer essa gente, só me resta apelar para os deuses. Valamideuzi....


O voto para deputada estadual


Todas as minhas referências são do campo. Minha infância, com meus avós maternos, vivida no interior de Uruguaiana entre cavalos, vacas, ovelhas, sangas, rios caudalosos, passarinhos, porcos, galinhas e a imensidão do arroz, sempre foi vereda para minhas escolhas. Mais tarde, o encontro com o MST fortaleceu todos esses sentimentos e realidades da vida no campo. Por isso, ao longo da vida, nas eleições, sempre votei em candidatos que representam os trabalhadores rurais, os pequenos camponeses, essa gente feita de ferro, doçuras, trabalho e ternura pela vida. O campo não sai de mim.

Em Santa Catarina já tivemos a presença do Vilson Santin como deputado estadual, um homem extraordinário, que honrou nosso voto todos os dias em que esteve ali na casa legislativa. Teve o Furlanetto, outra figura querida e batalhadora. Agora, temos o Padre Pedro Baldissera, que faz um trabalho maravilhoso por esse interior, organizando as gentes, investindo na comunicação popular. Orgulho-me de, por tantas vezes, caminhar com ele na construção de algumas dessas ideias. Penso que o voto nele é uma decisão das mais acertadas para toda a gente que vive nesse grande estado de Santa Catarina.

Mas, apesar de amar o Padre Pedro e tudo o que ele representa, esse ano, vou votar numa pessoa da cidade. Uma guerreira urbana que sempre me emocionou por sua fortaleza e compromisso com os trabalhadores. Conheço-a há anos e não me lembro de qualquer luta nessa cidade na qual ela não estivesse com sua presença gigante e poderosa. O trabalho que ela tem realizado como sindicalista da área da saúde, a batalha que sempre deu na luta dos praças catarinenses, a luta pelo SUS, pelo HU público, pela universidade, pela educação, seu compromisso com os trabalhadores, tudo isso a habilita para um mandato extraordinário.

Assim que aos meus amigos do campo peço o voto no Padre Pedro Baldissera (PT), e aos da cidade peço o voto para Edileuza Fortuna (PSOL). Tenho a mais plena confiança de que se eleito, o Padre Pedro seguirá cumprindo essa jornada bonita no interior, e nós, da região de Florianópolis, que quase nunca elegemos um representante, teremos em Edileuza um pilar seguro de luta e resistência, de presença concreta na luta dos trabalhadores.

Que tenhamos sorte...

O Lino e a cidade



Eleição não muda o mundo, o que muda o mundo é a gente em luta, luta real, na vida mesma. Mas, ainda assim, eleição faz parte da grande luta, por isso não podemos negligenciar. Temos acompanhado o Congresso Nacional, um espaço no qual os deputados e senadores eleitos não representam os trabalhadores, a maioria da população. Ali se formam grupos, bancadas, que representam interesses bem específicos: os do capital. Sejam a da bala, do boi ou da bíblia, todas afinadas com o sistema capitalista de produção, com os ricos, com os patrões.

Vivemos em 2016 um golpe parlamentar, com um congresso cuja cara é feia demais. E para essa eleição, grande parte dessa cara quer se reeleger. Por isso, o voto para deputado federal tem um peso grande. Temos de ampliar a bancada dos trabalhadores, dos que defendem os interesses da maioria da população e não de grupos econômicos,

Em Santa Catarina muitos são os nomes bons para enfrentar a luta em Brasília. Pessoas de valor, que respeito demais. Mas, o voto é só um e temos de escolher. Decidi então colocar minha esperança numa pessoa a qual conheço desde há décadas e com quem caminho nas principais lutas que travamos aqui: Lino Peres.

Lino tem sido vereador em Florianópolis, realizando um trabalho extraordinário, abrindo as portas do gabinete e da vida para temas que dizem respeito à maioria das gentes da cidade. A moradia, o negro, as religiões de matriz africana, o transporte, a saúde, a comunicação, a educação, tantas coisas... Ele é um homem da cidade. Ele ama e entende a cidade, nas suas belezas e seus conflitos.

E, quando falamos cidade, não queremos dizer apenas essa, a cidade onde ele vive, Florianópolis. Ele conhece em profundidade a lógica do urbano, esse espaço gigante de diversidade, de pessoas, paisagens, naturezas e organizações comunitárias.

Professor da UFSC, no curso de Arquitetura, durante uma vida inteira tem discutido apaixonadamente o modo de vida urbano, circulando pelas veias da cidade como um peixe no mar, apontando os equívocos, encontrando espaços de beleza e transformação. Sua principal proposta é a organização das gentes e é nisso que tem depositado sua força e sua confiança. Com ele em Brasília, debatendo a cidade em nível nacional, esse é o bonde que vai andar, e vai andar bem.

Imaginem um cara como o Lino na Câmara Federal fomentando a organização comunitária e popular o tempo todo, em nível nacional? Atuando na estrutura, girando a máquina do cimento que segura e consolida o processo de participação comunitária na vida das cidades. O Lino em Brasília é espaço de articulação de um poder verdadeiramente popular. Eu acredito piamente nisso. E já o vejo, célere e risonho pelos corredores, sempre apressado, sempre apressado, porque a felicidade é pra hoje.

Quem já andou por aí com o Lino Peres sabe da sua infinita paixão pela cidade, pelas gentes, pela alegria, pela participação, pela comunidade. O Lino é um homem de aldeia, só sabe viver em comunhão. E, para ele, a cidade é o mistério revelado. Por isso, com ele, eu vou.

Para federal, 1333


quarta-feira, 26 de setembro de 2018

As mulheres na frente



Nesse sábado, 29, as mulheres brasileiras mostrarão sua força, manifestando-se em todo o país contra a fascistização da vida representada pela figura do Bolsonaro. Uma mobilização única, original e poderosa, que unifica os contrários e coloca as gentes em luta contra a violência e o ódio ao outro.

Lembro como se fosse hoje a passeata, em Florianópolis, em 20 de junho de 2013. Era o auge dos protestos contra a corrupção - início da batalha contra o governo petista -  e a capital viu saírem às ruas pessoas que sempre jogaram pedra nos manifestantes tradicionais. O protesto juntou mais de 30 mil almas, coisa nunca vista. A RBS, rede catarinense filiada a Globo, transmitia ao vivo. Estranhamente não chamava ninguém de “baderneiro”. Naqueles dias, a classe dominante dava sua bênção para a ocupação das ruas, a Globo chamava ao civismo e  as pessoas acorreram aos borbotões.  

Eu lá estava com os companheiros de sempre. E, aturdida, via as pessoas manifestarem seu ódio contra os militantes de partidos políticos e movimentos sociais. Ou seja, nós. A passeata virou uma batalha, na qual jovens vestindo camiseta – doada por partidos de direita – com inscrições contra a corrupção berravam: “sem partido, sem partido”, e enfrentavam os militantes que se agrupavam com suas bandeiras. Exigiam, de forma violenta, que fossem baixadas as bandeiras partidárias e que a passeata seguisse como uma gosma informe. Uma falsa gosma, pois como disse, os partidos de direita estavam ali, distribuindo camisetas e insuflando a massa contra os partidários da esquerda. Apenas não carregavam bandeiras, porque nunca o fizeram. Eles agem nas sombras.

Aproximei-me de umas jovens “encamisetadas”, que gritavam alucinadas, com olhos em brasa, contra as bandeiras de partidos de esquerda. E perguntei:

- Por que vocês são contra os partidos?

- Hã? É, porque é sem partido, ora!

- Sim, mas por quê?

- É sem partido e pronto. Não fazemos política. Tu tem partido? – inquiriram e me encararam, agressivamente.

Naquele dia, uma massa furiosa nos atacou e obrigou que os grupos embandeirados se descolassem da passeata, seguindo na frente. Escancarava-se a luta de classes e o ovo do fascismo que tomou conta do país estava posto. 

Lembro que comentei com vários companheiros sobre o que estava começando ali. No dizer de Adorno, o fascismo é um vírus que existe latente, em cada um. Diz ele que dadas as condições, ele brota, forte, e se espalha incontrolavelmente. Eu via aquilo na passeata. Um ódio irracional na massa, mas extremamente racionalizado nas direções políticas da direita. Um processo de construção de um consenso que foi crescendo, se consolidando e acabou no impedimento da presidenta Dilma. Jogada de mestre.

As atitudes fascistas também se consolidaram e seguiram a todo vapor. Ações truculentas de membros da justiça, total abandono das leis burguesas, agressões a gays, lésbicas, mulheres, estudantes, professores. Qualquer pessoa identificada como “petista” ou “comunista” passou a ser apontada como um mal. E as ameaças de consolidação de um regime de força foram se fazendo sem freio. Eu que vivi a ditadura militar, como criança e adolescente, lembro muito bem o terror vivido pelas famílias que tinham qualquer posição crítica ao regime. Os vizinhos vigiavam e acusavam anonimamente, muitas vezes se aproveitando da denúncia de “comunista” para vinganças pessoais. Era um tempo de vigilância e de medo. Não se podia pensar. Só dizer sim, sim, sim, ao regime. 

O crescimento das atitudes fascistas praticadas por pessoas comuns, gente “de bem” me preocuparam e provoquei amigos, partidos, movimentos, sem resposta. Estaríamos caminhando para um tempo de fascismo? O que poderia acontecer caso tudo isso se fortalecesse e crescesse sem parar?  Pensava que havia que botar freio a essa fascistização da vida ou ela se espalharia como rastilho de pólvora, no fundamentalismo do terror. Acreditava que era preciso juntar forças com as mulheres, os negros, índios, trans, trabalhadores formais, informais, homossexuais, enfim, todos os oprimidos pelo capital e pelo patriarcado. Uma luta de todos nós. 

Mas, naqueles dias era arar no deserto. Nada vingou e a onda foi crescendo.

Agora, às vésperas da eleição, quando essa ameaça iniciada lá em 2013 se concretiza numa candidatura específica, a de Bolsonaro, pronta para assumir o comando do país, fortalecendo ainda mais as práticas fascistas, foram as mulheres que, entendendo a gravidade das coisas, decidiram agir. Uma ação que começou pelas redes sociais, com as brincadeiras de sempre, mas foi crescendo e se fazendo real na vida mesma. A mulherada passou por cima das diferenças partidárias, dos pequenos poderes, de tudo. E, uma a uma, foram dando-se as mãos contra o “coiso” numa demonstração inequívoca de inteligência e numa estratégia perfeita que, sistematicamente, tem conscientizado pessoas e derrubado os índices do candidato.

Agora, nesse sábado, dia 29, toda essa intensa mobilização internética se expressará nas ruas, na luta concreta contra a fascistização da vida que é o que representa a candidatura Bolsonaro. Em Florianópolis, o encontro será em frente a Catedral, às 15 horas. E as mulheres se juntarão para dizer que “ele, não”. Cada uma terá lá no seu coração o seu candidato, de centro, de esquerda, e talvez até de direita, mas cada uma sabe que algumas coisas precisam ser banidas da face da terra. Tais como o racismo, o preconceito e ódio pelo diferente. 

Nesse sábado, em todo o Brasil as mulheres marcharão. Estarão juntas, e mostrarão sua força. Tenho esperanças que nas eleições essa proposta seja derrotada. E creio que será. Mas, ainda assim será necessário seguir juntas, no mesmo movimento, porque o fim do pleito não colocará fim nessa serpente insidiosa que já vive entre nós. Um grande estrago foi feito e há ainda um longo trabalho por fazer. Trabalho real, para além das eleições. Que a unidade feminina permaneça, porque está sendo uma bela lição. 




quinta-feira, 20 de setembro de 2018

O sangue negro de todos os dias

Todos os dias tomba um negro, vítima do racismo

O Brasil já foi saudado como uma “democracia racial”, conceito que coloca um véu sobre as relações étnicas no país e que foi fortalecido por um clássico da sociologia brasileira, o "Casa Grande e Senzala", de Gilberto Freyre. O famoso autor criou o mito do “bom senhor” ao caracterizar a escravidão brasileira como sendo composta por senhores maleáveis e escravos conformados. Aquele que é negro sabe muito bem o quanto essa ideia é falsa e ideológica. 

A escravidão no Brasil foi selvagem e violenta, como qualquer outra escravidão. E os “senhores” eram canalhas como qualquer senhor. Tiveram a cara de pau de, ao verem se esgotar o tempo da escravidão, lançarem mão da chamada “Leis de Terras”, em 1850,  impedindo assim que os negros libertos pudessem garantir um espaço para viver. 

Nesse mesmo ano havia sido aprovada uma lei que obrigava ao fim do tráfico de gente e os “bons” senhores trataram de se adiantar , assegurando assim a propriedade. A lei de terras definia que só poderia ter terra quem pagasse por elas. Não se legalizaria posse. E os negros que já começavam a ser libertos saiam das casas-grandes com uma mão na frente e outra atrás. Como poderiam comprar terras? Quando finalmente veio a abolição, em 1888, milhões deles foram jogados nas ruas, para que "se virassem" com sua liberdade.Desde aí o destino dos negros tem sido as periferias e os morros. 

A escravidão é uma chaga aberta ainda no Brasil, e o sequestro de milhões de pessoas nunca foi reparado. Passados séculos o povo negro segue marcado por uma realidade que não buscou. Foi o capitalismo dependente que, precisando de braços para dar força ao processo de produção na América dependente, que inventou essa vilania. Mas os negros pagam por isso até hoje.

No Brasil o negro é visto como bandido. Seja onde for. Pode estar vestido de ouro, mas sempre será apontado como marginal, sujo, vagabundo. A cor é desculpa para as mais absurdas violências e para assegurar o sistemático terrorismo de estado contra esse povo. O Rio de Janeiro tem sido a janela mais visível desse drama, hoje inclusive vivendo uma ocupação militar, justamente para “conter” o povo negro das favelas. 

As histórias envolvendo o assassinato metódico da juventude negra são intermináveis. Até crianças indo para a escola são abatidas a tiros, porque “poderiam” ter uma arma na bolsa. A mais recente, também no Rio de Janeiro, envolveu o jovem trabalhador Rodrigo Serrano, que foi morto pela PM por estar levando um guarda-chuva, que os policiais pensaram ser um fuzil. Do moço negro, que trabalhava como garçom em  um restaurante no bairro de Ipanema, restou apenas a carteira de trabalho ensanguentada, que ele levava consigo, justamente porque o negro tem de provar em cada esquina que é trabalhador. 

O caso de Rodrigo não é uma exceção. É a regra. A cada minuto tomba um negro. E falar disso nos coloca na mira dos racistas que já começam a gritar: “leva pra casa”. Para essa gente todo negro é bandido. E todo o bandido negro só é bandido porque é negro. Não se quer saber as causas que levam um guri da favela, negro, ao crime. “É preto, e pronto”. Os brancos, quando são bandidos, aparecem nos jornais e na TV de maneira bem mais suave. E se são da classe alta então, nem seus nomes são escritos. São citados como “jovem estudante”, “motorista do Audi”, “condutor da Ferrari”. Saem ilesos, sequer são presos. Mas se um guri negro roubar um pão, aí é o demônio, o irrecuperável. 

Na periferia das grandes cidades os negros morrem como moscas, e o seu sangue derramado incomoda pouca gente. A carteira ensanguentada de Rodrigo pode causar uma comoção momentânea, mas logo passa, superada por outra sensação. 

A carne preta é a mais barata no mercado capitalista. É sim. E que não se fale em democracia racial, por favor. 


quarta-feira, 19 de setembro de 2018

Quem se importa com a cultura?

Jana Gularte, representante do Coletivo Ética na Cultura, fala na Assembleia Legislativa


Estamos aí a poucos dias de uma eleição gigantesca, na qual elegeremos presidente, governador, senador, deputado federal e deputado estadual. Uma eleição que define praticamente todos os rumos da nação, dependendo do projeto que passar, garantindo àqueles que farão as leis e os que a executarão mudar ou manter tudo o que aí está. 

Depois de dois anos sob golpe e o país estraçalhado, com a aprovação de uma PEC que congela os investimentos públicos em 20 anos, o que podemos esperar dos novos eleitos? No geral, os candidatos não representam a maioria da população. Boa parte deles, financiados por grupos poderosos, estarão a serviço de interesses muito particulares e quando chegarem no poder, a esse gente servirão. 

Nas propagandas eleitorais o que vimos? As mesmas velhas caras que se revezam no poder desde há anos. Os mesmos programas enganadores. “Vamos investir na saúde, na educação, no transporte, na segurança”. As mesmas velhas promessas que seguem sem se cumprir. 

Em Santa Catarina a impressão que se tem é que vivemos num paraíso, isolado do resto do Brasil. Aqui, os candidatos, que estavam ontem no poder dizem que fizeram isso e aquilo, que o estado é o melhor colocado, que ganhou isso e aquilo. Mas, a realidade mesma não aparece assim. Nos hospitais sem leitos, nas escolas que estão sendo fechadas sem dó nem piedade, na universidade que propõe diminuir o salário dos professores, na criminalidade crescente, na violência, no enxame de drogas, no atraso cultural, na exploração dos trabalhadores do campo e da cidade aparece a verdadeira cara do poder estadual. E ela não é bonita. 

Mas, mesmo assim, vemos os mesmos velhos políticos, com suas caras de pau, aparecer na televisão prometendo maravilhas. Elas não virão. Pelo menos não para nós, os simples mortais. As maravilhas são guardadas para pequenos grupos, os de sempre, que enchem os bolsos enquanto a maioria agoniza.
Hoje, em Santa Catarina, em meio a todas essas faltas no campo da saúde, educação, segurança e moradia, um pequeno grupo de artistas trava uma luta renhida pela justiça na distribuição de verbas da cultura. Alguém poderia dizer: mas, que tolice! Falta-nos tanta coisa e esse povo preocupado com cultura. 

Pois é! Falta-nos tanto, e principalmente cultura. É o acesso à cultura que nos permitiria desvelar a cara de pau de toda essa gente que hoje se apresenta como salvador do estado tendo estado o tempo nele, destruindo o que é nosso. Mas, em Santa Catarina, quando se fala em cultura, o que aparece são os “big” eventos: a Oktoberfest, o Festival de Dança de Joinville, as demais grandes festas gastronômicas, as grandes orquestras. Esses conseguem grandes financiamentos e seguem cada vez maiores. Já os pequenos grupos de teatro, os músicos, os projetos culturais de regiões menos turísticas, esses precisam mendigar, com o copo na mão, entre empresários surdos e governo desinteressado. 

Um exemplo é o edital Elisabete Anderle, nascido para financiar projetos culturais no estado, depois de longas lutas da classe artística. Pois esse ano o edital não foi lançado, ainda que exista uma lei que obriga o Estado a apresentá-lo. A resposta do presidente da Fundação Catarinense de Cultural a um pedido de explicações da deputada Luciane Carminatti (PT), foi de que o fundo para o edital não teria verba suficiente, e que a FCC estaria com apenas a metade do valor correspondente ao que fora disponibilizado no ano passado, o que seria algo em torno de cinco milhões de reais.  Essa mesma explicação foi dada no Conselho Estadual de Cultura. Assim, já que não havia a verba total para o edital, a FCC decidiu liberar, sem licitação, um milhão e 500 mil reais para a Orquestra Filarmônica Camerata de Florianópolis, e mais um milhão de reais para o Festival de Dança de Joinville.  

Essa decisão levou os artistas catarinenses a questionar de maneira veemente os motivos que levam a Fundação de Cultura a privilegiar dois grandes projetos em detrimento de centenas de outros artistas do Estado. O movimento cresceu e agora formou-se o Coletivo Ética na Cultura, que já realizou um importante ato público denunciando o governo do estado, por liberar verbas da cultura sem licitação, e exigindo que, pelo menos o edital mais importante do campo da cultura, seja viabilizado. 

No ano passado, o Elisabete Anderle teve 1.803 inscritos, com artistas de todas as regiões do Estado, mostrando o quanto existe de proposta e projetos culturais em Santa Catarina, para além dos grandes eventos. Destes, 175 foram premiados e puderam levar adiante suas propostas, espalhando a cultura pelo Estado, inclusive em pequenas cidades.   Isso, por si só já mostra a importância desse edital. Segundo Jana Gularte, cantora e uma das articuladoras do Coletivo, o orçamento para a cultura em Santa Catarina tem sido de 0,06% nos últimos anos. Vejam bem o número. É uma miséria. E ainda assim, as relações seguem clientelistas, privilegiando pouquíssimos grupos. 

O coletivo Ética na Cultura não discute o mérito e a importância dos grandes projetos e dos eventos já consagrados, mas insiste que a cultura catarinense é muito mais do que os “big shows”. E, por isso, insistem que o edital seja lançado. 

Tem sido uma batalha gigante a que travam os artistas catarinenses, porque a cultura não é vista como prioridade. No mundo capitalista, o que vale é o mega negócio, o que gera lucros estrondosos. Nada a ver com cultura mesmo, visto que a maioria das gentes tampouco consegue chegar a esses eventos. Por isso que os pequenos projetos culturais, que se fazem nas cidades, nos bairros, com projetos modestos, são tão importantes. Porque eles chegam na maioria, eles se fazem nas praças, nos pequenos teatros, nas ruas da cidade, nos bares.  

Agora, no dia 22 de setembro, o Coletivo Ética na Cultura realiza mais um ato público, um ato-festa, ato-cultura, ato-protesto. Será na Travessa Ratcliff, em Florianópolis, importante espaço de resistência cultural no centro da cidade. 

Apesar de parecer algo “inútil” a cultura é base de uma nação. Isso é algo que todos deveriam entender. É pela via da cultura que tem se imposto uma forma de viver, é através da cultura que se fortalecem valores. E, no Brasil, desde há muito tempo temos uma cultura colonizada, que dá mais valor e visibilidade ao que vem de fora, da Europa ou dos Estados Unidos, escondendo o que temos de belo e forte, que são nossas raízes, nossa própria cultura. Por isso que fortalecer os artistas locais que trabalham com a cultura popular, brasileira, garantir sua multidiversidade, fazer chegar aos trabalhadores e trabalhadores, é coisa muito importante. Porque é através da arte que podemos compreender as dores da vida material e, a partir daí encontrar os caminhos para superá-la.

Que a luta dos artistas não se limite a esse momento da conjuntura, que ela siga firme e forte, garantindo que a arte e a cultura chegue a todos os cantos do estado, cultura brasileira, cultura local. E que possa desvelar a dura luta de classes que vivemos, na qual para que um viva outro tenha de morrer. 


segunda-feira, 17 de setembro de 2018

As aventuras com o pai


Todas as manhãs são sempre iguais. Sair para o trabalho é uma odisséia. Meu pai acorda às cinco e meia, seis horas, depende, mas não passa disso. Sempre procuro despertar antes dele, para tomar banho antes de começar os cuidados, senão o atraso é certo. Sempre há algo para acertar. Ou ele põe o sapato trocado, ou a blusa do avesso, ou o casaco virado, ou o cabelo fica molhado. E não dá para dizer que está errado. Tem de acertar inventando outra história para ele não ficar brabo. Então, depois de ajeitado o figurino, começa o rolo do café. Até aí já tomei banho e vou fazendo uma coisa pra ele, e outra pra mim.

Café pronto e preciso ficar atenta, senão ele joga tudo fora, ou enche de pão, ou amassa o remédio. Então as coisas precisam ser realizadas uma de cada vez. Antes de servir a xícara, corto o pão em cubinhos pequenos, passo manteiga e mel. Depois encho a xícara e só então dou o remédio. Se descuidar ele joga o remédio fora, então tem de ficar olhando se ele põe na boca mesmo. Remédio na boca é hora de engolir. Outra novela. Ele faz a maior enrolação e gira o remédio na boca, ou tira e põe no pão. Esse momento precisa de atenção total.

Quando o remédio já foi para dentro dá pra deixá-lo tomando café sozinho, enquanto me arrumo. Mas é tudo muito rápido. Ele termina e já vai para a pia lavar a xícara. Ali ele arruma novo salseiro, jorrando água pra todo lado. Deixo que ele “trabalhe” senão fica brabo e mal humorado o dia todo. Ele lava a xícara e em vez de guardá-la começa a tirar todas as outras do armário ordenando-as em cima da mesa, enchendo-as de água, cada uma com sua respectiva colherinha. É um ritual. Vamos tentando tomar café, enquanto ele nos olha com ares de repreensão. É um tumulto na mesa, mas tudo bem. Seguimos.

Passado o café já estou exausta, mas é hora de colocar os cachorros pra dentro, porque senão eles saem e correm atrás das pessoas na rua. É sempre a mesma novela. Bota os cachorros pra dentro e o pai vai lá e abre a porta. Gritaria geral. Nããããããoooooo! E corre pra lá e pra cá atrás dos cachorros. 

Ufa. Cachorros dentro de casa, pai no lado de fora e lá vamos nós. Fechado o portão, cachorros pra fora, pai pra dentro e passo o bastão para o Renato, que seguirá com os cuidados até as oito horas quando chega a moça que fica com o pai enquanto eu trabalho e ele vai para a faculdade.

Tudo isso leva pouco mais de uma hora, mas quando sento no carro, parece que já se passaram horas e horas. Não são nem sete horas da manhã e a sensação é de profundo esgotamento. Sem contar que ainda precisarei viver o engarrafamento do Rio Tavares.

Suspiro e olho pela janela. Ele está no alpendre e acena. Tão frágil e bonitinho. É uma daquelas cenas de doce encantamento. A gente ri e acena de volta. E vamos embora com aquela sensação ambígua de preocupação e ternura.


sexta-feira, 14 de setembro de 2018

Um bilhão de famintos no mundo


Betinho entendeu que a fome é um crime ético, e mobilizou o Brasil contra isso. Betinho queria matar a fome e mudar o mundo. Reforma e revolução.

Na última terça-feira, dia 11, a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO) divulgou os números da fome no mundo. Quase um bilhão de famintos (821 milhões). E isso considerando os países que dispõem de dados, o que significa que o número pode ser maior. Só no continente africano estão 256 milhões de pessoas passando fome.  Na América Latina, aonde os números haviam diminuído, a fome voltou a crescer, afetando 32 milhões de pessoas. 

Fazendo as contas é possível perceber que uma em cada nove pessoas no planeta está nesse momento passando fome. E não é aquela fome que dá quando ficamos um período sem comer. É a fome estrutural, a que mata horrivelmente, e mata mais do que qualquer outra enfermidade no mundo.

A FAO reconhece que as guerras, os conflitos armados (60% dos famintos estão em zona de guerra) são causas importantes para o drama da fome, assim como também as mudanças climáticas que acabam afetando bem mais os empobrecidos. Mas, também aponta que essas emergências bélicas e climáticas, apesar de influírem no mapa da fome, não são as causas principais. 

A fome da maioria dessas pessoas é estrutural, ou seja, são gerações e gerações vivendo sem alimentação adequada ou se alimentando muito pouco. Porque faz parte da organização do modo de produção capitalista que para que poucos tenham muito, a maioria seja despojada de tudo. 

Parece irracional que quase um bilhão de pessoas estejam vivenciando o horror da fome, num mundo que produz tanta comida, cujas cifras poderiam alimentar quase 13 bilhões de seres humanos tranquilamente (o dobro do número de pessoas que existe). Num mundo onde o desperdício de comida é imenso.  Mas, o que acontece é que como bem apontava Marx, a lógica do capital é manter os trabalhadores num estado limite entre a possibilidade de produzir valor e a morte. Nem ganhando tanto que possam achar que não precisam trabalhar, nem tão pouco que não sobrevivam. É da natureza do capital manter os trabalhadores nesse estado de letargia, típico da fome. 

Uma olhada sobre o nosso território brasileiro e vamos ver que a produção maior de grãos não é para comer. Serão 232 milhões de toneladas esse ano, a segunda maior produção de toda a história. Mas, é uma produção que serve para exportação e vai alimentar vacas e porcos em outros países. 

O jornalista argentino Martín Caparros, autor do livro "A Fome", escrevendo sobre os números da fome lembra que no seu país, Argentina, a produção atual de alimentos poderia sustentar 300 milhões de pessoas, mas mesmo lá existem dois milhões de famintos, com tendência a aumentar esse número. Ele mostra uma conta muito simples: para produzir um quilo de carne são necessários dez quilos de cereal. Então, o produtor de grãos tem duas opções. Ou vende um quilo de cereal para dez famílias, ou vendo os dez quilos, a um preço bem melhor, para um fazendeiro criador de gado. No geral, a escolha é pelo gado e não pelas gentes. 

Ele lembra também do caso de Níger, um país africano considerado um dos mais pobres do mundo e com séculos de fome estrutural. Lá, os campos são secos e tudo é pobre, o que pode parecer que não há saída. Mas, esse mesmo país é o segundo produtor mundial de urânio, mineral estratégico e caro. Imaginem o que não seria possível fazer com os recursos do urânio? Mas, se a riqueza entra no país, ela não chega às pessoas em geral. Fica em algum bolso. 

Assim que a fome não tem nada a ver com falta de comida, mas sim como o sistema capitalista se organiza. No Brasil, por exemplo, ainda são contabilizadas 7 milhões de pessoas no mapa da fome (IBGE), o mesmo país que desperdiça 14 mil toneladas de alimentos por ano, estando entre os dez mais em desperdício no mundo.

Mas, esses terríveis números, divulgados todos os anos pela FAO, caem no vazio. Porque a notícia é dada nos telejornais como uma nota ritualística. Um bilhão de pessoas passam fome no mundo. E ponto. Não dizem por quê. E quem ouve, se impressiona naquele momento, mas logo já esquece, envolvida com outra notícia bombástica, como a separação de uma celebridade, ou outra coisa qualquer.

Esse um bilhão de pessoas famintas não tem rosto, não tem nome, não tem CPF nem endereço, não provoca qualquer empatia. Quando muito uma lágrima rápida diante de uma foto impactante de um menino morrendo, e sendo velado por um urubu. Mas, poucos são aqueles que procuram saber os por quês. O que afinal se passa no mundo, se há tanta comida sendo produzida? Que sistema é esse no qual para que poucos vivam à larga, milhões tenham de morrer?

A fome no mundo é a falência de nossa espécie. Uma pessoa em cada nove está morrendo agora, essa morte lenta, dolorosa, marcada pelo horror. E para essa gente não basta que doemos o nosso quilo de arroz, em musculação de consciência. Ajudá-las é mudar o sistema. Mudar o modo de organização da vida. Destruir o capitalismo. 

Sem isso, seremos sempre cúmplices dessa dor. 


quinta-feira, 13 de setembro de 2018

Lula e a política brasileira



Lula está preso em Curitiba. E o caso de pagamento de propina pelo qual está sendo processado ainda não teve julgamento de mérito. Ele foi condenado em segunda instância e, conforme uma infinidade de advogados, não precisaria estar preso. Vários outros casos de pessoas julgadas em segunda instância foram resolvidos com Habeas Corpus até julgamento do mérito. Lula não. Ele é a cabeça da hidra petista que precisa ficar exposta como a dizer: o jogo acabou, não se aventurem, já era. Não haverá mais conciliação de classe e nem concessão de poder a alguém minimamente identificada com os trabalhadores. Mesmo que ele não represente mais propostas de transformação radical.

Fatalmente, salvo alguma mudança "cósmica", ele deverá cumprir todos os anos de prisão imputados. E, possivelmente só depois disso os eminentes juízes julgarão o mérito. Talvez decidam que não há mesmo nenhuma prova que determine a posse do imóvel. Mas, isso não importa. O que importa é que ele fique preso. E durante muito tempo. Isso será exemplar.

E, para isso, tampouco basta a prisão. O judiciário brasileiro quer muito mais. Precisa ver o cidadão Lula no chão, aplastado.

O juiz de Curitiba, na primeira instância, havia condenado Lula a nove anos e seis meses de prisão e ao pagamento de multa no valor de 669 mil reais. Já ao passar pelo TRF da 4ª região, em segunda instância, Lula teve a pena aumentada para 12 anos. E a multa também dobrou. Passou dos 669 mil para um milhão e 14 mil reais. O TRF decidiu aplicar o valor máximo permitido. Já outros réus na mesma ação, como Léo Pinheiro, ex-presidente da OAS e Agenor Franklin, também diretor da OAS, na segunda instância tiveram as penas e as multas bastante diminuídas.

Agora, no mês de agosto, depois de já estar amargando a prisão, uma outra juíza de Curitiba, Carolina Lebbos, decidiu que Lula deverá pagar uma multa por reparação de danos e custos processuais no mesmo processo do tríplex, de 31 milhões de reais.

Sendo assim, ao todo, o ex-presidente terá de pagar 32 milhões de reais pelo processo referente a um crime que, até prova em contrário, ele não cometeu. Uma situação jurídica que, no entender de muitos estudiosos do Direito, é absolutamente surreal.

Mas, apesar de toda essa circunstância esdrúxula, o ex-presidente, bem como seu partido, o PT, tem insistido em recorrer a esse mesmo judiciário que o enterra. Reiteradas vezes novas apelações são feitas buscando na lei as mesmas condições que são dadas a outros réus. Segundo os dirigentes do partido a lógica é mostrar para a população que a prisão de Lula é mesmo política. Outros políticos, como Aécio Neves - que disse em gravação de própria voz que poderia matar quem pudesse delatá-lo – ou Geddel – pego com malas de dinheiro de propina - estão inocentados porque não há provas contundentes, por que então Lula está encarcerado? Se todas as provas contra ele no processo do tríplex são circunstanciais, o que poderia levar a uma presunção de inocência, como mantê-lo preso? Esses questionamentos são jogados para a população, que então, faz o seu julgamento.

Enquanto todo esse cenário kafkiano vai se descortinando, a estratégia petista é de manter a militância aquecida com a cotidiana saudação ao ex-presidente em Curitiba. Todas as manhãs e todo final de tarde, um grupo se aproxima da sede da Polícia Federal e dá o bom-dia e o boa-noite a Lula. Essa rotina deixa o PT em evidência na mídia e nas redes sociais, mantém o nome de Lula no imaginário e busca fortalecer o nome do indicado de Lula para disputar as eleições presidenciais.

Tanto que a decisão de desistência de Lula aconteceu só agora, pouco mais de 20 dias antes das eleições. Até então, a tática era manter o nome de Lula na cabeça, para mobilizar ainda mais a militância. Quando todos os recursos fossem esgotados, sempre apontando para a parcialidade política do judiciário, o nome de Haddad já estaria bem colado ao de Lula. Esse era o plano.

Agora, a partir dessa semana, o partido vai conhecer o resultado da estratégia montada. A expectativa é de que Lula consiga, com a força de sua personalidade carismática, transferir os votos para Haddad. Mas, a conjuntura, com o ataque ao candidato do ultraliberalismo, Jair Bolsonaro, pode alterar o caminho petista.

Com o atentado, Bolsonaro cresceu. Os partidários do candidato da direita fazem barbaridades nas redes sociais, divulgando notícias falsas, ligando o atentado ao PT ou à esquerda. Um senador da república, Magno Malta, ligado à igreja evangélica, divulgou no seu perfil do facebook uma foto adulterada, com a cara do agressor do Bolsonaro num comício do Lula. A manipulação da foto é grosseira, mas mesmo assim o senador a disseminou pela rede, dando ao PT a autoria do ataque. Outro pastor, de fama nacional, divulgou no seu Twiter que a ex-presidenta Dilma havia mandado matar Bolsonaro. E pasmem, nada aconteceu com eles.

A subida de Bolsonaro agitou as águas da eleição. Nas pesquisas ele está em primeiro lugar e a proposta do voto pragmático já aparece com força. Os brasileiros fazem cálculos para ver quem poderia ter mais chance de vencer o candidato reacionário. Com isso, crescem os eleitores de Ciro Gomes, que não faz parte da dobradinha petucana (PT/PSDB). Seria uma terceira via. Pesa contra ele o fato de ter como vice uma latifundiária que apesar de articulada e poderosa no debate, está ligada ao agronegócio de maneira visceral, tendo já recebido dos indígenas brasileiros o título de rainha da motosserra, em alusão ao desmatamento provocado pelo latifúndio. Guilherme Boulos, escolhido pelo PSOL para ser uma força de esquerda, não empolgou, tendo ficado muito tempo mais no apoio à estratégia petista do que na campanha própria e o PSTU, apesar de ter uma proposta de governos bastante radical, é avaliado na esquerda também pela sua prática cotidiana e pelas posições tomadas com relação à Venezuela e à Síria, que foram totalmente equivocadas. Por fora corre Geraldo Alkmin, candidato do PSBD, insosso e inexpressivo, mas que pode receber o apoio da classe dominante se a situação com Bolsonaro complicar e ele escorregar do primeiro lugar.

Assim que os rumos da eleição ainda estão incertos. Nesses 20 dias que faltam para o pleito muita água vai rolar. A política brasileira é uma montanha russa, resta saber se está desgovernada ou se vai se manter nos trilhos, ainda que com sustos controlados.


Visitando Zininho


Um dos nossos poetas maiores, Cláudio Alvim Barbosa, Zininho, está te esperando para um encontro de belezas, na exposição que lembra os 20 anos de saudade, desde o seu encantamento em 1998. A mostra está no Mercado Público, na parte de cima, na entrada que dá para a Alfandega. E não poderia ser outro lugar, visto que o mercado sempre foi o guardião da alma boêmia da cidade. E mesmo que agora esteja gourmetizado, ainda restam as memórias, que perduram nas velhas paredes.

Assim, que subir os dois lances de escadas vermelhas já vai nos preparando para o encontro. De cara a gente vê, na entrada, o imenso boneco, que sai no Berbigão do Boca. E a gente se enche de alegria. Depois, lá dentro, a simplicidade da mostra se abre em saudade e pequenas maravilhas. Os óculos do poeta, os microfones que usava, os enormes gravadores, as placas e homenagens, os discos, os livros escritos sobre ele, os quadros que o retratam, os vídeos com o Aldírio Simões falando das coisas da ilha, tudo isso forma uma atmosfera de encantamento. Nossa querida Desterro, as dores de amor, tudo de bonito que foi retratado nas músicas de Zininho, que é muito mais do que o compositor do “Rancho de Amor à ilha”, nosso hino.

No meio da sala está Zininho, com seu riso estampado, um copo de cerveja na mão, esperando por cada um de nós, para um papo, uma trova, um poema. A cadeira ao seu lado chama e a gente senta e conversa, e ri com ele. Eu mesma não o conheci pessoalmente. Mas, o conheço da obra. Das músicas que tocamos cotidianamente na nossa Rádio Campeche. Gosto de sua poesia, de sua simplicidade, da sua carinha tão litorânea. 
Hoje, na sala vazia de gente, e cheia de memórias, me apresentei. E falamos sobre a música brasileira e sobre nossa amada cidade. Foi bom.

A exposição é uma belezura e a obra em fibra de vidro, que imortaliza Zininho, feita por outro maravilhoso artista catarinense, o Plínio Verani, simplesmente nos transporta para o encontro amoroso com esse grande compositor brasileiro que nossa cidade teve a alegria e a honra de ter como morador desde que era bem gurizinho. Um homem do continente, do estreito, do Abrãao, que tão bem soube cantar a vida.

Vai lá, fica até o dia 22 de setembro. Temos de conhecer os nossos!


sexta-feira, 7 de setembro de 2018

O capitalismo, a banalização da vida e o Netflix



Foi na televisão que comecei minha vida profissional. Era 1982 e eu era repórter da Tv Caxias, em Caxias do Sul. Antes disso não era muito ligada em TV. Mas, depois que fui descobrindo suas entranhas, me apaixonei. Sou fascinada por tudo o que se produz na telinha. Espectadora voraz. Desde as primeiras matérias que produzi já percebi o poder desse veículo. Produtor da  ideologia poderosa da classe dominante, por vezes escapa, e pode até produzir conhecimento. É raro, depende muito das pessoas, mas acontece. Eu mesma, ao longo da vida televisiva, muitas vezes consegui fazer passar a luta dos sem-terra, as greves dos trabalhadores, enfim, outra informação. Gotas, mas, enfim... Há que resistir em qualquer lugar. 

Agora, nessa nossa brutal contemporaneidade capitalista, a televisão ainda é poderosa demais. Apesar do avanço da internet, é desde os estúdios dos grandes conglomerados televisivos que se produzem as coisas que as pessoas veem na rede.  Mesmo que o meio seja um computador ou o celular, a ideologia televisa segue seu curso, firme e forte. 

Um dos exemplos mais contundentes é o Netflix. Por 20 reais as pessoas podem ter acesso às produções televisivas e cinematográficas que o sistema capitalista cria. No geral, são os mesmos conglomerados de sempre que se fundem e se agigantam. E, obnubilados pela ilusão de que estão livremente fazendo suas escolhas, os consumidores só conseguem formar “listas” com o que o sistema oferece. Procure um filme do Win Wenders no Netflix e vê se acha. Não tem. Não tem no Netflix e tampouco tinha na televisão, a não ser em algum horário da madrugada, em algum canal de pouca audiência. O que tem é o lixo ideológico de sempre, o mesmo que povoava nossas sessões corujas, super tela, tela quente e tudo mais. Só muda o meio, a mensagem segue igual.

Eu, como uma espectadora compulsiva, vejo tudo que há. Por vezes, claro, encontro algumas pérolas, mas tem que saber muito bem o que procurar. O bom está sempre escondido.Quem não sabe, não acha.  A informação crítica é sempre necessária, para a interação com qualquer meio. Mas, o que me apavora mesmo são os chamados block buster , os filmes e seriados arrasa-quarteirão, os que são sucessos virais. 

Outro dia, passeando pelas opções da Netflix, querendo curtir uma daqueles comédias idiotas, para fugir do doloroso cotidiano, me deparei com uma série que está fazendo bastante sucesso nos EUA. Chama-se Santa Clarita Diet. A história é de uma mulher que, do nada, se transforma num zumbi, uma morta-viva e que necessita comer carne humana para seguir vivendo. Mas, não é como os zumbis que conhecemos, troncha e caindo aos pedaços. Não. Ela é normal. O marido a vê matando sua primeira vítima e, pasmem, não se surpreende. Parece a ele uma coisa quase natural. Logo, ele começa a ajudar a esposa a fazer as vítimas. Mais tarde, a filha também descobre e, pasmem, não se apavora. Também passa a ajudar. 

A família, que é “gente de bem”, moradora do subúrbio - aquelas casinhas sem cerca bem típicas da famílias de classe média alta - decide então caçar pessoas “do mal”. Ou seja, são bonzinhos e vão limpar o mundo. Então, a partir de seus pressupostos do que seja “gente do mal” eles vão matando. Convertem-se assim em juízes da sociedade. Tudo tratado com muita graça. É uma comédia. 

Assisti as duas temporadas, horrorizada com a capacidade que esse sistema tem de banalizar a vida mesma. Posso entender porque os Estados Unidos é o país onde mais acontecem esses casos de massacres aparentemente absurdos e inexplicáveis. Não são inexplicáveis. Essa sociedade investe pesadamente na ideologia do justiçamento, no moralismo de cueca, o qual a pessoa se acha no direito de julgar e praticar ela mesma a sentença. Com base em nada, apensa no seu “gosto pessoal”. Ou seja, se o vizinho é chato, mata ele. Se o chefe cobra demais, mata ele. Se a professora exige muito, mata ela. E sabe o que mais? Não acontece nada. A pessoa ainda pode virar herói ou heroína. 

Aqui no Brasil, estamos consumindo de maneira acrítica todo esse lixo desde há tempos. Estamos aí vivendo 15 anos de Big Brother , a Fazenda e outros programas de realidade que ensinam a eliminar o outro, simplesmente por uma malquerença. E se elimina sem dó, pagando pela ligação. Toda essa ideologia de violência, banalização da vida e justiçamentos com base no gosto pessoal segue firme e forte nos novos meios de comunicação. O modelo de geração de medo “a la Datena” e afins adentrou também as redes sociais e estão a formar pessoas capazes de virar zumbi e não se importar. Aceitam tranquilamente o “fardo” e tratam de aproveitar para vingar suas pequenas e grandes maldades. Metralhar os inimigos, furar o olho do outro, comer o fígado, arrancar as vísceras, esmagar o coração. Junte a isso um fundamentalismo religioso também criado pela religião eletrônica e pronto: estamos bem arranjados. 

Outro dia um menino de 10 anos atirou numa professora e se matou. Aqui, no Brasil. Isso está bem perto. O brasileiro cordial, que já era um mito, vai se esfumaçando. Estamos sendo doutrinados, dia após dia, a sermos monstros competitivos. E isso vale inclusive para aqueles “bons cristão” que disseminam imagens de Nossa Senhora, falam de amor, mas que arreganham os dentes em explosões de ódio contra o que não gostam ou não entendem. 

A parada é dura, companheirada. Há que mudar isso. E não será com “democratização da mídia”. Só uma mudança radical, de todo o sistema. Sem isso, seguiremos zumbis... 



sexta-feira, 31 de agosto de 2018

Um triste brasil para os trabalhadores



O jogo do toma-lá-dá-cá entre o governo de Temer e o Judiciário garantiu mais um gol de placa para a classe dominante: a terceirização irrestrita. Com isso, o Brasil volta ainda mais no tempo, alcançando a era em que os trabalhadores não tinham qualquer direito garantido e podiam ser movidos ao bel prazer dos patrões. A decisão do Superior Tribunal Federal, pouco depois de garantir aumento salarial de 16% para seus membros, permite que a partir de agora mesmo as atividades-fim possam ser terceirizadas. Até então apenas as atividades-meio como limpeza, transporte e segurança eram permitidas. Mas, agora, vale para qualquer função. Ou seja, uma empresa pode funcionar sem nenhum empregado contratado, com cada tipo de trabalhador vindo de uma empresa diferente.

Essa decisão abre-se também uma porta gigantesca para o fim do serviço público tal como o conhecemos, com concurso para os trabalhadores e com estabilidade, evitando assim, os bota-fora a cada governo de plantão. Afinal, ali também a terceirização já vem sendo implantada, com empresas gerindo hospitais, creches e instituições de assistência. Logo, logo, a máquina pública também poderá terceirizar todos os trabalhadores.

Importante lembrar que a terceirização não diminui custos, pelo menos não no serviço público. A empresa leva uma bolada de dinheiro enquanto paga uma mixaria para os trabalhadores, como é hoje com as empresas de limpeza. O resultado é sempre o mesmo: os donos cheios de grana e os empregados na maior precariedade.

A votação no STF foi de sete votos a favor e apenas quatro contra. Os argumentos dos que votaram a favor seguem o mesmo padrão dos do governo: "com a terceirização aumentarão os empregos". O que eles não dizem é que os empregos que existirão serão quase uma escravidão, já que não contarão mais com qualquer amparo. A reforma trabalhista, aprovada pelo Congresso, já tratou de eliminar todos os possíveis “gastos” que a classe patronal possa ter com trabalhadores. Sobra então, o emprego precário, sem direitos, sem férias, sem 13º, sem nada. A pessoa pega ou larga, e pronto. Salários baixos, nenhuma garantia, é o salvem-se quem puder. Carteira assinada, nem pensar.

A terceirização está apta também a entrar no serviço público. Professores poderão ser contratados por hora, médicos, enfermeiros, dentistas, qualquer um. Não precisará mais de concurso, apenas contrato temporário. Viveremos a mais brutal exploração do trabalho humano, comparada talvez aos primórdios do capitalismo, quando as pessoas, apesar de trabalharem 15 ou 18 horas por dia, morriam de fome. 

O cinismo dos togados, que recebem mais de 30 mil de salário e ainda gozam de imunidade sob todos os aspectos, inclusive de crítica, não tem mais limites. O ministro Celso Mello declarou que: “Pode a terceirização constituir uma estratégia sofisticada e eventualmente imprescindível para aumentar a eficiência econômica, promover a competitividade das empresas brasileiras e , portanto, para manter e ampliar postos de trabalho”. Tudo às claras. O que importa é garantir mais e mais lucros para os empresários. Os trabalhadores são mero detalhe. Como se não fossem eles, e somente eles, os que podem geral valor. 

A vida vai ficar ainda bem pior para os trabalhadores, sejam eles qualificados pelo ensino formal ou não. O mundo “mad-max” ao vivo e a cores. Os “jogos vorazes” estarão abertos, com as pessoas que têm apenas sua força de trabalho para vender se digladiando entre si, enquanto o 1% que detém a riqueza assiste, inebriado pelo champanhe e pelo sadismo, em nome do lucro e da competitividade. 

O capitalismo na sua fase mais perversa, da superexploração exacerbada. O paraíso do empresariado predador e especulador. 

Todos os dias cai um direito. Todos os dias a classe dominante avança mais sobre os trabalhadores, sugando feito vampiro até a última gota. 

E as ruas estão quietas. E alguns esperam as eleições.  



quarta-feira, 29 de agosto de 2018

Venezuelanos voltam para casa


Enquanto a mídia a mando dos Estados Unidos transforma em “crise humanitária” a migração de venezuelanos para países vizinhos, outros tantos sonham em voltar para seu país, por não suportarem as condições de vida e trabalho nos países para onde migraram em busca de vida melhor. Por conta disso, nessa semana o governo venezuelano disponibilizou um avião para trazer de volta para casa dezenas de venezuelanos que estavam no Peru. 

Como a Venezuela tem sofrido desde 2015 uma guerra econômica, com a ação criminosa de empresários escondendo comida, remédios e provocando escassez, muita gente decide pegar as trouxas e sair do país. Essa migração tem sido bastante incentivada pelas forças oposicionistas do governo Maduro e por conta disso se disseminam propagandas sobre como a vida no estrangeiro pode ser melhor, inclusive dizendo que os governos do Brasil, Peru e Colômbia podem assegurar casa, saúde e crédito para novos empreendimentos.  Algumas pessoas caem nesse conto e cruzam as fronteiras. 

Mas, chegando aos países, não encontram as promessas feitas. No caso do Brasil, há poucas semanas, os venezuelanos foram rechaçados por hordas violentas, também organizadas por políticos e entidades conservadoras brasileiros. O resultado é mais tragédia para uma gente já golpeada pela guerra econômica travada pelos Estados Unidos contra a Venezuela. 

Como resposta a campanha da direita que procura incentivar a migração, o governo da Venezuela tem incentivado a volta. Nessa segunda-feira, um avião lotado partiu de Lima, Peru, para Caracas, com um grupo de cem pessoas. Outras, que moram mais perto da fronteira, estão vindo por terra. Ao chegarem, no encontro emocionado com familiares, contaram que foram enganados com falsas promessas e chegando ao Peru foram explorados por empresários que pagam salários com valores abaixo do prometido. Alguns também foram vítimas de coiotes e traficantes de drogas e pessoas.  
Quem vive na Venezuela sabe o que têm sido esses últimos anos de ataque econômico. Os grandes meios divulgam incessantemente que o país será atacado pelos Estados Unidos, que vai faltar comida, que o terrorismo vai atacar. Tudo isso provoca medo e desespero nas pessoas, que acabam caindo nas armadinhas da migração provocada. 

O governo de Maduro iniciou uma série de medidas para vencer a galopante inflação, também provocada pelo ataque econômico, e espera que isso possa melhorar a situação. Ele insiste que não faltará comida, embora, é claro, a guerra movida contra a Venezuela obrigue a população a alguns sacrifícios, como as já conhecidas filas. 

A migração na Venezuela sempre existiu, como em todos os países latino-americanos. Uma olhada nos números da própria Organização das Nações Unidas mostra que hoje, há muito mais colombianos e brasileiros na Venezuela do que venezuelanos na Colômbia ou no Brasil. Mas, essas informações a mídia não passa porque o que interessa é fazer crer que o país bolivariano é um inferno de onde todos querem sair. 

Os cubanos sabem muito bem o que é isso. Desde 1959 que os Estados Unidos move feroz campanha contra a ilha. Mas, lá, as gentes se mantiveram firmes e de pé. Na Venezuela também. A maioria apoia e confia que, junto com o governo, vai vencer a guerra movida pelos EUA contra o povo.  Não é coisa fácil porque a direita venezuelana segue atuando com desenvoltura no país, tendo como braço armado os grandes meios de comunicação. A pedagogia do terror e do caos tem sido bastante eficaz, minando as possibilidades de soberania do país. É uma batalha, é a luta de classes. A velha elite petroleira que perdeu poder, aliada com os EUA, querendo voltar. E para isso, vai destruindo o país e o povo junto. Para eles, pouco importam essas pessoas que hoje saem da Venezuela aterrorizadas com suas campanhas de ódio. Tudo o que querem é retomar o controle do país.


terça-feira, 28 de agosto de 2018

Paixão encantou


Ele atravessou quase um século e foi o responsável pela criação da chamada "tradição gaúcha". Sua figura sempre foi bastante controvertida. Criticado por ser de direita e legitimador de uma ideologia gauchesca ligada ao latifúndio, Paixão amealhou bons adversários ao longo da vida. Mas, mesmo esses reconhecem que, antes dele, o gaúcho não tinha uma identidade tão consolidada como a que foi sendo fortalecida pelo movimento tradicionalista iniciado por Paixão e Barbosa Lessa nos tempos do colégio. Com eles nasceu o CTG (Centro de Tradição Gaúcha) e deles derivou tudo o que hoje se conhece como tradição.

Sou nascida na fronteira, marcada pela cultura missioneira. Tenho em mim agarrada essa herança telúrica, oriental e desde bem guria vivencio a tal da "tradição". Aprendi, estudando, que a ideologia do latifúndio, do gaúcho ideal, é cotidianamente apreendida e reinventada pelos trabalhadores nas canhadas e na imensidão dos campos. A bombacha, o mate, o cavalo, as longas noites de invernada, o churrasco, as danças, o modo de ser no mundo. Tudo isso está incorporado de maneira indelével, e do nosso jeito, do jeito daqueles que realmente vivem a realidade de ser um "peão", um trabalhador, um paysano, na solidão do latifúndio.

Nunca fui a fundo saber das intenções de Paixão Cortes ou de Barbosa Lessa. Sei que nos tempos da ditadura, no Rio Grande, se utilizou muito esse movimento para consolidar a obediência e a disciplina. Mas, o que guardo nas retinas é a alegria das festas da campanha, das carreiradas, nas quais os trabalhadores se reuniam para dançar e comer churrasco, cantando as músicas que falavam do seu fazer cotidiano, da sua vida real, ainda que muitas vezes idealizada pelos poetas. O que posso dizer é que do Rio Grande trago essas lembranças à flor da pele. Criada que fui no CTG Tropilha Criola, onde dançavam os pobres e os ricos, e fiel parceira do meu avô, camponês sem terra, jamais me desvencilhei dessa herança que o campo me legou.

Digo adeus a Paixão Cortes com certa gratidão. Porque reconheço que aquilo que ele criou como pesquisador e comunicador transcendeu ao que pudesse ter em mente como alguém ligado à classe dominante ou às tradições conservadoras. O nativismo está para além, eternamente se reinventando desde baixo, e ele, mesmo sem querer, é responsável por isso. Valeu, Paixão. E que vivam os gaúchos e gaúchas de todas as querências...