sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Porque é primavera...

E sempre temos de agradecer! Os dias lindos, a cor do céu, o cheiro das flores e essa gana insaciável de viver... Então, Bob Marley, louvando Jah, é tudo de bom... "Ei, Bob Marley, sing something good to me... The world is so crazy...""


quinta-feira, 23 de setembro de 2010

É hoje a festa!!


Dia 23 chega a primavera. Com chuva, com frio. Então, nada melhor que comer uma pizza e sorver um bom vinho. Nós te convidamos para o lançamento do livro “A Páscoa dos Descontentes”, de Rubens Lunge, atual presidente do Sindicato dos Jornalistas.

Junto com a Páscoa dos Descontentes, a Editora da UFSC lança o Guia de Fontes para jornalistas. Um trabalho importantíssimo da Agecom, levantando temas e fontes para os profissionais da imprensa. Um trabalho indispensável a todos os jornalistas. O guia será um presente da UFSC para os colegas da imprensa.

A festa de lançamento começa às 20h, do dia 23, quinta-feira, na pizzaria San Francesco (Endereço certo: Avenida Hercílio Luz, 1.131, fone 3222-7400), em Florianópolis. Esperamos vocês para partilhar esse momento bonito de Eko Porã (vida boa e bonita para todos, como dizem os Guarani).

A pizza, o vinho e o Guia de Fontes são cortesia da San Francesco e Agecom.

¿Qué pasa en Cuba?

Cuba é mesmo uma gigantesca pedra no sapato do sistema capitalista. Tanto que qualquer coisa que por lá acontece, vira logo manchete da CNN, braço propagandístico do governo estadunidense. Agora, a bola da vez são as demissões que foram anunciadas por Raul Castro. Histericamente, as jornalistas bem apessoadas da Venus de Atlanta, falam em derrocada do sistema cubano. É o fim do socialismo, guincham, aliviadas. É, porque o tal do regime cubano é uma excrescência que sobrevive há mais de 50 anos a todos os ataques do sistema capitalista e do governo mais armado do mundo. Não é sem razão que os suspiros aliviados sejam uma constante na mídia mundial, que reproduz acriticamente as histerias “ceeneanas”. Mas, para quem consegue enxergar além da ideologia, a questão cubana pode ser explicada de forma menos simplista.

Em primeiro lugar, como bem lembra o professor Nildo Ouriques, do IELA, em entrevista à CNN, Cuba nunca foi um país congelado. A cada aperto da conjuntura o país se analisa e inventa saídas econômicas e políticas para suas crises. Foi assim quando ruiu o sistema soviético. Todo mundo capitalista apostava na derrocada das conquistas da revolução. Não haveria saída para Cuba. Mas, num esforço descomunal a ilha se refez e seguiu em frente. Naqueles dias, a abertura para o turismo acabou sendo uma resposta eficaz para garantir ingressos ao país. Muitas foram as críticas e boa parte do mundo apostava que esta abertura iria levar o país para a órbita do sistema capitalista. É certo que vieram muitos problemas com esta medida, mas as conquistas básicas da revolução seguiram existindo. Saúde, educação, cultura, moradia, comida e, fundamentalmente, soberania nacional. Depois, com a doença de Fidel, nova gritaria geral. “Agora acabou”, vaticinavam as harpias (aves de rapina das mais ferozes).


Hoje Cuba enfrenta novos problemas conjunturais. Há uma grande parcela da população que não viveu a revolução e que, de certa forma, vive apática diante das conquistas. Isso é um problema e tanto para o governo. Há que imprimir horizontes na rota da juventude. Além disso, há um crescimento e congelamento da burocracia estatal, o que dá mais imobilidade o sistema. Um pouco é isso que Raul Castro quer desfazer com essa proposta de demissão de 12% dos funcionários públicos. Segundo o presidente cubano, essas demissões não afetarão os serviços estratégicos que se configuram as conquistas da revolução. Existem critérios muito claros para as demissões e elas serão feitas em setores onde a máquina está definitivamente inchada e inerte.

A proposta do governo é permitir e incentivar que os trabalhadores cubanos possam investir em outros tipos de negócios que vão desde propostas de trabalho privado a cooperativas. No geral, os cubanos estão gostando desta iniciativa, uma vez que sempre houve reclamações com relação aos salários, considerados baixos, apesar de todos terem garantidos os serviços de educação, saúde e moradia. “Eu estive em Cuba há pouco tempo e pude ver e ouvir das pessoas o apoio a estas medidas. Há uma discussão pesada sobre a questão moral que é central neste momento: há gente roubando do estado e isso não pode acontecer. Porque roubar o estado é roubar toda a gente. E também há um desejo das pessoas por mudanças na economia. A maioria apóia essa proposta de se criar pequenos negócios”, diz Nildo Ouriques, professor e economista.


Agora, o governo quer descongelar a máquina estatal e isso também é saudado por uma parcela do povo que sempre se ressentiu dos burocratas encravados na máquina governamental. Os trabalhadores, há tempos, buscavam abertura no governo para trabalharem fora do Estado e isso aparece agora como uma boa oportunidade. E, na verdade, já se formava em Cuba uma espécie de mundo paralelo, no qual os trabalhadores usavam seu tempo vago para arranjar alguma coisa “por fora”. E esse “por fora”, além de envolver trabalho privado, também funcionava como um mercado igualmente paralelo, formado por coisas roubadas do estado, como já relatou e analisou em seus textos semanais o próprio Fidel Castro. Esse trabalho ilegal agora não mais o será. Assim como tende a desaparecer o mercado paralelo. Pelo menos é o que pretende o governo com essas medidas.

Por outro lado, na camada de trabalhadores que sempre esteve nos quadros do Estado, há um grande medo com relação ao futuro. Muitos deles não saberiam o que fazer longe da máquina estatal. Mas, o próprio governo cubano já deixou claro que vai ajudar aos trabalhadores a encontrarem um caminho nesta nova conjuntura, inclusive garantindo o crédito. A maioria, que segue acreditando no processo revolucionário, sabe que muito do que hoje têm de conquistas devem à revolução e estes seguirão fazendo aquilo que é melhor para Cuba. Raul Castro tem dito que o regime cubano haverá de encontrar os caminhos para resolver seus problemas como sempre fez. Mais de 100 novas atividades, antes só permitidas no âmbito estatal, poderão ser realizadas por pessoas fora da máquina. Será necessário criar toda uma nova infraestrutura para esta gente, mas o grupo governante acredita que, coletivamente, o povo cubano pode encontrar as respostas.

A Central de Trabalhadores Cubanos fez um pronunciamento a todos os cubanos onde conclama para a unidade e para manter em marcha os ideais da revolução: “A unidade dos trabalhadores cubanos e de nosso povo tem sido chave para materializar a gigantesca obra edificada pela Revolução e, nas transformações que agora empreendemos, ela continuará sendo nossa mais importante arma estratégica”. Segundo a CTC, o Estado não pode mais continuar com o mesmo modelo de empresas ineficazes, com quadros inflados. Assim, respalda a proposta governamental de ampliar e diversificar as opções que resultam em novas formas de relação trabalhista. A Central acredita que tudo isso vai ser bom para Cuba e para os cubanos.


Fidel Castro sempre disse e continua afirmando isso: as saídas encontradas por Cuba ao longo destes anos todos são as saídas cubanas. Não adianta a esquerda mundial se escabelar querendo que a ilha permaneça imutável diante das mudanças do mundo. São os cubanos que sabem de seus problemas e são eles os que encontrarão as formas de superá-los. Como lembra Raul, Cuba está frequentemente mudando para tentar seguir sempre a mesma: aquela que garante ao seu povo as conquistas da revolução.

Analistas do mau agouro insistem em dizer que o regime faliu, que está se entregando ao capitalismo, que o povo cubano não quer mais viver à margem do sistema capitalista, que as gentes querem poder comprar coisas bonitas e viverem em liberdade. Mas, para os dirigentes cubanos há uma grande distância entre o sistema privado capitalista (no qual um empresário é dono da força de trabalho e da mais-valia de milhares) e o chamado “trabalho por conta própria”, o que está sendo agora incentivado. Este é o pequeno negócio, em nada parecido ao sistema de exploração capitalista. Nos seus discursos e nas conversas com a população Raul Castro tem dito que o estado cubano precisa melhorar sua produtividade, inclusive, para seguir garantindo os serviços públicos de qualidade ao povo. Nas vozes que se podem escutar em outras fontes que não as da CNN há uma boa expectativa. Os trabalhadores sabem que o número soa alto demais quando se fala em 500 mil despedidos, mas por outro lado, dizem que boa parte destes trabalhadores já tinha trabalhos paralelos. O governo cubano vai amparar quem tiver dificuldade. Assim diz Raul, em diversos comunicados divulgados pela televisão, pelos jornais e pelo rádio.

As mudanças em Cuba apontam para cenários múltiplos, é certo. Pode acabar o socialismo, pode crescer a iniciativa privada, pode mudar a mentalidade do povo, pode crescer a idéia do consumo, podem ruir as conquistas da revolução, pode fortalecer ainda mais o sistema, pode avançar no socialismo. Sim, tudo está aberto. Na verdade, sempre foi assim. O horizonte, desde a heróica conquista em janeiro de 1959, tem se apresentado como um quadro a ser pintado, permanentemente, porque a revolução não é uma coisa cristalizada. Ela é um processo. Para os velhos militantes, a esperança é que estes 50 anos de educação, cultura e luta pela soberania nacional façam valer o que já foi conquistado. Eles fazem questão de lembrar que nestes mais de 50 anos houve um bloqueio feroz e, por vezes, desumano, contra o país e contra o povo cubano. E Cuba sempre conseguiu se reinventar. Agora, a ilha passa por nova onda de mudanças. Haverá de encontrar seus caminhos. A diferença, crêem, é que o governo e o povo fazem isso juntos e de forma soberana.

Enfim, Cuba segue seu caminho, com todas as suas limitações, seus erros, mas também seus acertos. O povo cubano responderá à história.


terça-feira, 21 de setembro de 2010

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

20 de setembro – o começo da saga dos farrapos

No Rio Grande era assim. Todos os dias, na escola, antes de iniciarem as aulas, havia o ritual de hastear a bandeira. Primeiro era a do Brasil, com o hino nacional. Depois, a do Rio Grande, também acompanhada do hino gaúcho, uma espécie de ode aos farrapos (guerreiros da revolução farroupilha iniciada em 1835). E, naquela hora, a gente sempre era tomada de emoção, lembrando dos heróis. A revolução farroupilha é coisa viva em nós. Desde pequenos ouvimos as histórias, sentados na beira do fogo, em noites de inverno. Os feitos das gentes em lutas, do avô do avô e assim por diante. Para quem vive na fronteira com a Argentina e Uruguai, a coisa é ainda mais forte, e a guerra dos farrapos quase que nos determina. Nas pequenas cidades fronteiriças todos sabem quem foi maragato (farrapo), quem foi chimango (monarquista). E as divisões políticas iniciadas lá atrás persistem e ainda cindem famílias e amigos. Lá em casa éramos maragatos, do lenço colorado, farrapos. Por isso esse dia ainda tem poder sobre mim. E, quando ele chega, assomam as almas farrapas, a exigir que a luta continue, sempre e sempre, até que chegue, realmente, a liberdade.

20 de setembro – o começo da saga dos farrapos
“Sirvam nossas façanhas de modelo a toda terra”.

O 20 de setembro marca um momento único na história do Brasil. Foi neste dia, em 1835, que um grupo de cavaleiros entrou em Porto Alegre, na então província de São Pedro, dando início a um dos mais longos conflitos já vividos em terras brasileiras: a guerra dos farrapos. Os cavaleiros vinham em busca de mercado para o charque e acabaram por embandeirar uma luta sem trégua por liberdade, fraternidade e justiça. A saga dos farrapos durou 10 anos e transformou a cara do Rio Grande.

Corria o ano de 1835, e a vida no sul do Brasil não era coisa fácil. Dez anos antes as gentes da fronteira haviam vivido a guerra da cisplatina, quando o Brasil enviara seus soldados para anexar as terras da Banda Oriental (hoje Uruguai). A guerra, como sempre, acabou semeando fome, miséria e trouxe grandes dificuldades para as famílias da região. Os fazendeiros, donos das terras também amargavam prejuízos. O governo central, que acabara entregando o Uruguai, exigia tributos demais, incitando a rebelião, e a proximidade daquela parte do país com as recém formadas repúblicas latino-americanas fazia nascerem idéias nas cabeças dos jovens soldados rio-grandenses, recém saídos do conflito contra os castelhanos. Muitos destes soldados eram também estancieiros e com a concorrência da Argentina e o Uruguai no mercado de carnes, queriam que o império garantisse o monopólio do charque para os gaúchos.

Essa conversa com as autoridades imperiais já se estendia por meses. Cartas, encontros, tentativas de negociação, debates da assembléia provincial. Como nada era feito, os fazendeiros começaram a conspirar nas casas de uns e de outros. Bento Gonçalves era o mais atrevido dos liberais. Soldado, havia lutado na guerra da Cisplatina e conhecia muito bem os ideais de Lavalleja e do Padre Caldas, dois gigantes na consolidação da república do Uruguai, que havia sido perdida pelo Brasil. Por conta disso Bento foi acusado pelo presidente da província de querer a separação do Rio Grande para ir se aquerenciar com o bando dos orientais. Todos estes ataques foram sedimentando a revolta.

Assim, por todo o Rio Grande foi-se preparando o início da guerra. A idéia era estourar revoltas em todas as regiões e, no dia 20 de setembro, invadir militarmente Porto Alegre, destituindo o presidente da província. As tropas seriam comandadas por Bento Gonçalves, Gomes Jardim, Onofre Pires e Manoel Viera da Rocha. E assim foi. Na noite de 19 de setembro, alguns guardas imperiais perceberam uma guarnição e houve troca de tiros. O presidente da província, Fernandes Braga, ainda tentou juntar gente para defender Porto Alegre, mas na tarde do dia 20 de setembro, apenas 19 homens haviam se apresentado. Boa parte da tropa se declarara em armas com os revolucionários. Não restou outra saída a não ser a fuga. Assim, quando Bento Gonçalves entrou na capital, não houve qualquer resistência.

Naquele dia, Bento Gonçalves e os demais estancieiros que planejaram a revolta, nada mais queriam que a nomeação de um novo presidente que atendesse aos seus apelos sobre a questão do charque e é esse o conteúdo da mensagem que mandam ao regente Diogo Antônio Feijó. Mas, o império contra ataca enviando o novo presidente acompanhado de um colossal aparato de guerra. E é aí que o conflito começa de verdade. Bento Gonçalves é destituído de seu cargo de comandante da Guarda Nacional e passa a ser perseguido como um criminoso. Meses depois ele protagoniza um novo cerco a Porto Alegre que dura 1.283. Sem conseguir vencer, Bento centraliza o comando na cidade de Piratini. Por todo o Rio Grande também acontecem levantes, e aí já não é mais uma peleia de estancieiros pelo monopólio do charque. Os gaúchos de todas as partes começam a lutar por um país, um espaço autônomo, soberano, tal qual seus irmãos do Uruguai e da Argentina. Sonham com a abolição da escravatura, com a democracia, a república. A revolução farroupilha se reveste de desejos de liberdade.

E são estes sonhos e desejos nascidos das sangrentas batalhas que eram vencidas por gente comum, gaúchos tocados pela idéia de uma mudança radical, que provocam a proclamação da república rio-grandense, feita pelo valente general Antônio de Souza Neto, após a eletrizante vitória da batalha de Seival, em 11 de setembro de 1836. Horas depois do triunfo, chega tremulando a bandeira tricolor, feita às pressas na cidade de Bagé, e que passaria a representar a mais nova república das terras do sul. Este é um momento de viragem na história do Rio Grande. É quando morre o ideal farroupilha (nascido das cabeças dos fazendeiros) e nasce a saga dos Farrapos, idéia forjada nos campos de batalha pelo povo em luta.

Depois disso, muitos são os combates pelo Rio Grande, afinal, o império não estava disposto a ceder. Numa das batalhas, Bento Gonçalves é preso e mandado para o Rio de Janeiro. Mas, nem isso esmorece a luta dos farrapos. Tanto que Bento é, inclusive, eleito presidente da nova república, mesmo estando longe. Os farrapos convocam uma Constituinte e começam a escrever a constituição. Em Porto Alegre eles têm dificuldades, mas pela pampa o lenço maragato impera. A luta avança para Santa Catarina, na cidade de Lages, onde encontram armas e apoio. Também encontram apoio efetivo do Uruguai, que garante a compra do charque.

Em setembro de 37, Bento Gonçalves escapa da prisão – já estava na Bahia - e volta para o Rio Grande, onde assume o seu posto de presidente. Naqueles dias praticamente todo o estado já estava na mão dos revolucionários. No ano seguinte, os farrapos conseguem entrar em Rio Pardo e abrem caminho para Porto Alegre, onde ainda estavam acantonados os imperiais. As batalhas eram constantes, e representavam o espírito de luta da gente do sul que entregava sua vida pela república rio-grandense.

Em 1838 os farrapos decidiram a abrir uma vereda para o mar, pois os imperiais mantinham o porto de Rio Grande. É aí que eles avançam para Laguna, em Santa Catarina, onde Garibaldi iria conhecer a jovem Anita e, com ela protagonizar uma das mais belas páginas da história catarina. A saga de Garibaldi no rumo do mar também é coisa de folhetim. Seu grupo decide construir dois barcos em plena fazenda da irmã de Bento Gonçalves. Depois, os barcos são levados por terra, puxado por mais de 100 bois, até Tramandaí, numa odisséia que não encontra par na história. Dalí eles seguem por mar, também enfrentando tempestades e naufrágios até Laguna, aonde chegam, finalmente, em 22 de julho de 1839. A cidade é tomada pelos farroupilhas com o completo apoio da população, já contaminada pelos ideais de liberdade que emanavam do estado vizinho, agora república. E, ali, os revolucionários proclamam o nascimento da República Juliana, outro estado livre e soberano, irmão do Rio Grande na busca de novos rumos. Mas, a república catarinense não demora a ruir sob a reação das tropas imperiais. E, em novembro, a cidade de Laguna é retomada.

Acossados pelos imperiais, os farrapos seguem no rumo de Lages, que já estava desde março sob o comando revolucionário. Mas, a derrota em Laguna abria um flanco para o avanço do exército imperial que, de combate em combate, foi ganhando terreno. Sem uma saída para o mar, o governo republicano ficava capenga. Além do mais, começaram a surgir desavenças entre as lideranças dos farrapos, enfraquecendo a unidade da luta. Ainda assim, os combates seguiam e sacudiam todo o Rio Grande. Em 1842 finalmente é proclamada a nova Constituição da República, fato que dá novo ânimo às tropas farrapas. Havia agora uma certeza de que nada poderia barrar a liberdade da nova república. Também se aliam à causa rio-grandense líderes revolucionários que vinham de outras regiões, como os da Bahia, que tinham vivido a Sabinada e, os de São Paulo, saídos da revolução liberal.

Mas, a república rio-grandense, apesar de toda a bravura do povo gaúcho, não ficou imune às intrigas e brigas internas pelo poder. Quando veio o ano de 1843, com a constituição já em vigor, as rixas entre Bento Gonçalves e Antônio Vicente da Fontoura selam a derrocada de Bento e da própria república. No ano seguinte, em 1844, instigado por Fontoura – para quem não bastava que Bento Gonçalves já não estivesse mais na presidência - Onofre Pires, um dos grandes generais farroupilha, acusa Bento de ter assassinado um de seus companheiros. Bento o convoca para um duelo e, no confronto, Onofre é ferido, morrendo dias depois. Desde aí, algo se quebrava na jovem república e estava aberto o caminho para o fim.

Naqueles dias, comandava o exército imperial o conhecido general Lima e Silva, mais tarde chamado de Duque de Caxias. Disposto a enfraquecer os farrapos ele foi tomando pequenas cidades na fronteira com o Uruguai, para assim impedir a negociação com o charque, o que estrangulava quase que totalmente a economia gaúcha. Além disso, buscou para suas fileiras, um antigo aliado de Bento Gonçalves, o general Bento Manuel. Circulava pela região com mais de 12 mil homens, enquanto os farrapos dispunham de pouco mais de três mil. Todos esses fatores levaram o governo da república rio-grandense a negociar um acordo de paz. Mas, para o governo imperial havia uma questão da qual não abria mão: os escravos. E, na jovem república, estes já não mais existiam, pois, ao se alistarem no exército farrapo, os negros ganhavam automaticamente a liberdade. Isso retardou em mais de ano o armistício.

Foi só em março de 1845 que o tratado se fez. No acordo estava a garantia da anistia aos revoltosos, a libertação dos escravos e a escolha do novo presidente pelos farroupilhas. Ainda assim, muitos guerreiros farrapos se recusaram a aceitar a rendição. Um deles foi o heróico general Antônio Neto, que preferiu o exílio no Uruguai, junto com muitos de seus comandados.

A guerra que durou 10 anos e custou a vida de mais de 50 mil gaúchos terminou assim, de maneira melancólica, com uma triste rendição. Os estancieiros voltaram para suas terras, prisioneiros foram libertados, e a liderança de Lima e Silva – o Duque de Caxias – acabou por colocá-lo na presidência da novamente Província de São Pedro. Dali ele partiria logo depois para comandar as tropas brasileiras na Guerra do Prata, contra Oribe e Rosas, e, depois, a covarde guerra contra o Paraguai.

Ainda assim, a gente do Rio Grande não esquece seus heróis. As pessoas comuns, das cidades, dos cantões, até hoje relembram em canto e verso os dias de batalha, quando o povo inteiro empunhou a lança em nome da liberdade. A bandeira tricolor segue tremulando em cada cidade e o hino do Rio Grande, cantado em reverência, presentifica a valentia dos homens e mulheres que, com o lenço colorado no pescoço, ousaram viver livres. Foram apenas 10 anos, mas valeram para marcar o espírito de todo um povo. E é por isso que todos os anos, no 20 de setembro, o Rio Grande pára e reverencia os bravos farrapos. Porque eles vivem, nos descampados, nos rios, nas lagoas, nos caminhos. Porque eles sopraram as brasas da liberdade num tempo distante e ainda agora apontam os caminhos para que os de hoje também possam sentar-se à mesa com essa velha e esquiva dama.