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quarta-feira, 28 de abril de 2021

Os migrantes e os EUA


A notícia aparece no portal Democracy Now como uma nota pequena. Mas, seu alcance é significativo para toda a América Latina. O governo dos Estados Unidos fez um acordo com o da Guatemala para treinar agentes da polícia da fronteira, garantindo assim uma ação mais dura contra os migrantes que partem de vários cantos da América Central em direção aos Estados Unidos. É bom lembrar que a Guatemala não faz fronteira com os EUA, mas com O México, ainda assim o governo de Joe Biden tem como objetivo militarizar os espaços fronteiriços  buscando evitar que as colunas de gente consigam passar.

A informação é de que os Estados Unidos enviará agentes de segurança nacional para a Guatemala e estes irão treinar os guardas da fronteira. O acordo foi pactado pelo presidente Alejandro Giammattei com a vice-presidente Kamala Harris em uma reunião virtual na semana passada. Esta não é a primeira vez que os EUA realizam treinamento das forças de repressão do país, mas é digno de nota que desta vez seja um curso especial para os guardas de fronteira, fazendo com que a repressão seja mais dura com os próprios guatemaltecos.

Kamala Harris declarou que quer trabalhar com o governo da Guatemala para tratar das causas da migração dando ao povo da Guatemala a possibilidade de manter-se no país. Ora, todos sabem porque as pessoas fogem da América Central: justamente por conta da política imperialista e neo-colonial dos Estados Unidos que empobrece o país, mantendo-o na dependência e na subserviência. 

Os ativistas que atuam na luta por justiça para os imigrantes dentro dos Estados Unidos estão condenando amplamente essas crescente intervenção dos EUA na região e denunciam que são estas sistemáticas intervenções políticas e econômicas que agravam a pobreza e a violência na América Central, o que obriga milhares de pessoas a saírem de suas casas e de suas cidades em busca de vida melhor. 

Ao contrário de Trump que militarizou as fronteiras dos EUA e atuou no sentido de prender e devolver aos seus países os imigrantes, Biden pretende terceirizar essa função treinando os guardas dos países, fazendo com que a responsabilidade de parar os imigrantes fique a cargo de cada governo específico. Isso significa que além de terem de amargar as políticas de destruição que os Estados Unidos mantêm contra seus países, as populações da América Central também serão impedidas de se movimentar no espaço geográfico, com seus próprios conterrâneos garantindo mais violência e repressão. 

A violenta política democrata dos EUA sendo a violenta política democrata dos EUA. 



quinta-feira, 18 de fevereiro de 2021

Os fugitivos do capital


Fronteira do Brasil com o Peru - polícia peruana impede passagem dos que fogem do Brasil por medo da pandemia que está incontrolável

A cena de um grupo de haitianos/venezuelanos/brasileiros tentando cruzar a fronteira do Peru, desde o Acre, é de partir o coração. Dezenas deles, que não encontrando formas de sobreviver no Brasil, decidem partir para outro ponto do globo, sendo impedidos, barrados, escorraçados. Seu destino parece ser a fuga permanente. Os haitianos, maioria no grupo, saíram do Haiti, onde desde há décadas o império estadunidense estende seus tentáculos, seja nas ditaduras sanguinárias, seja nos golpes disfarçados - como a tal ajuda humanitária com os cascos azuis – seja em mais uma tentativa de perpetuação no poder, como é o caso agora do último presidente, Jovenel Moïse. O Haiti é uma ferida aberta de tormentos e dores. E por isso os jovens fogem de lá, buscando um espaço para viver em paz. Mas, ao que parece, por mais que se desloquem, não encontram guarida.  

Aqui na capital catarinense também podemos vê-los, nas suas correrias no centro da cidade, com enormes sacos nas costas, tentando vender produtos nas ruas, sempre acossados e humilhados  pelos fiscais da prefeitura. São rechaçados pelos comerciantes que não lhes dão emprego e também lhes impedem de sobreviver com as vendas informais. Podemos vê-los nas comunidades empobrecidas, sendo enganados, sofrendo agressões e até morrendo. É um sofrer sem fim. Poucos conseguem escapar deste destino. 

Migrantes pobres são sempre vistos como um atrapalho, como uma concorrência para os parcos empregos locais, como uma sujeira, um encosto. Se são negros, é pior. Porque aí se embute também o racismo estrutural típico das nossas sociedades escravagistas e dependentes. Os haitianos padecem, assim como padecem os migrantes dos mais diversos países da África, que atravessam oceanos fugindo das guerras, da miséria, da morte.  

Mas não são apenas os negros que vivem esse drama da fuga permanente. Na América Central, desde o ano de 2019, as famílias e principalmente os jovens, inauguraram uma nova forma de migrar. Não mais individualmente, enfrentando sozinhos os coyotes (personagens que cobram para atravessa-los na fronteira), mas em gigantescas colunas que chegam a juntar mais de quatro mil pessoas. Milhares de corpos em fuga, da violência explícita, da fome, de governos tiranos. Atravessam a pé os países do braço que divide as Américas, no rumo do sonhado paraíso, representado pelos Estados Unidos. E, como os haitianos e africanos de todas as nações, são barrados pela polícia, agredidos, mortos. Muitas mães perdem seus filhos, homens perdem esposas, pais se desencontram. Os que conseguem furar os bloqueios vão enfrentar lá dentro do pseudo-paraíso o racismo, a miséria, a violência, tudo igual.  

Olhando bem, vê-se que o capitalismo é mesmo um estado de guerra permanente, em alguns lugares com os tanques e as bombas, em outros com o manejo da economia e o roubo das riquezas autóctones. Tudo o que esse sistema de produção toca fica imediatamente sujo de sangue. Para que 1% da população mundial siga acumulando riqueza sem fim, a maioria precisa viver nesse estado de fuga perpétua, seja migrando para outros países, seja migrando dentro do próprio país. Vagar de um lado para outro em busca de trabalho é a sina. E toca sucumbir no forno da exploração. 

O Brasil sempre foi mais um espaço de chegada, mas com a ascensão do governo ultraconservador – com rasgos fascistas  - de Jair Bolsonaro começa a ser também um espaço de fuga. Os que têm condições de garantir a vida em outro país pegam suas trouxas e se mandam. Os que não têm, sonham com a migração. Não tem sido fácil viver nesse país/continente, onde o governo central aposta na morte, liberando armas para os ricos, abandonando os empobrecidos à própria sorte em plena pandemia e destruindo tudo o que é público, para que os trabalhadores fiquem à mercê do privado. É a hora do cidadão-cliente, figura criada pelo economista Bresser Pereira, do nada saudoso governo de Fernando Henrique Cardoso. Cidadão/cliente, aquele que para ter acesso ao que deveria ser um bem público - como água, luz, saúde, educação - tem de pagar caro, muito caro.  

Não bastasse isso, os brasileiros precisam enfrentar seus irmãos de até ontem, que hoje se juntam às hostes do nefasto e começam a construir a estrada que levará a uma inevitável guerra. Os anjos (eles) contra os demônios (nós). Só que não. Nem eles são anjos, nem nós os demônios. Mas o discurso formatado desde os grupos de uatizapi - alimentados por grandes empresas disparadoras - insuflam pautas fascistas que reforçam preconceitos e discriminações. Um recente decreto do presidente permite que os brasileiros possam ter em casa até seis armas, num claro incentivo a formação de um exército pronto para garantir novas atrocidades do governo. Óbvio que a massa trabalhadora não terá a opção de se armar também, pois sua prioridade será comer e não comprar armas, deixando assim esse “privilégio” para os mais abastados. Isso significa que num possível golpe ou confronto, mais uma vez os trabalhadores ficarão em desvantagem.   

O abandono dos empobrecidos no caso da pandemia já provoca fugas. Cidades em colapso, hospitais sem condições de prover atendimento, mortes desnecessárias. Moradores das fronteiras, por exemplo, procuram os países vizinhos para, pelo menos garantirem vacina, já que aqui o governo cria barreiras para que elas demorem e não cheguem. E, sendo pobres, são também rechaçados como acontece com os demais migrantes. É um quadro de horror.  

E assim, em todo o planeta, os trabalhadores se movem em desespero tentando manter a vida, enquanto que os que detêm o capital ficam cada dia mais ricos, criminosamente acumulando muito mais riqueza nesses tempos de terror.  

E ainda há quem tenha a cara de pau de dizer que o capitalismo é bom e que a ideia de comunismo precisa ser varrida do mundo. Pois para quem não sabe, no comunismo, as riquezas seriam comuns e repartidas conforme a necessidade. Um vislumbre desse mundo pode ser visto em Cuba, que ainda nem é comunista embora tente chegar lá. Agora, na pandemia, seu povo está protegido e é o único país do mundo – dos que não estão entre os mais ricos - que desenvolveu uma vacina própria. Lá, apesar da pobreza – causada por um criminoso bloqueio dos Estados Unidos – existe a melhor educação, a melhor saúde, moradia para todos, segurança e ninguém morre de fome. Sim, há quem queira fugir dali em busca do sonho do consumo insuflado pelo capitalismo. Mas, são poucos. Se olharem bem, verão que os fugitivos, na sua mais absoluta maioria, são fugitivos do capital.   

Logo, é contra ele que temos de travar longa e feroz batalha. 

segunda-feira, 10 de junho de 2019

O mundo livre



Nos Estados Unidos um professor universitário está sendo processado pelo estado por ter oferecido água, comida, roupa limpa e uma cama a alguns migrantes na cidade de Ajo, estado do Arizona. Para o governo, Scott Warren cometeu crime ao ajudar as pessoas e pode pegar até 20 anos de prisão. Segundo a organização "No more Deaths" (Não mais mortes), que dá apoio aos migrantes na região, nos últimos 15 anos mais de três mil pessoas encontraram a morte no deserto do Arizona, tentando chegar aos Estados Unidos, atraídas pela promessa de "oportunidades". Warren, que é professor na Universidade do Arizona e ativista dos Direitos Humanos, foi preso em janeiro de 2017, quando a polícia fez um arrastão nos acampamentos das organizações humanitárias e o encontrou, ajudando a dois migrantes. Em todo o país, organizações de direitos humanos se movem para impedir a condenação de Scott, coisa que pode abrir um precedente gravíssimo no país. No chamado mundo livre, solidariedade humana é crime.

quinta-feira, 29 de novembro de 2018

Onde nossa humanidade?








Milhares de pessoas caminham em direção aos Estados Unidos. Fogem em direção ao seu verdugo. Saem de seus países destruídos pelos Estados Unidos, em guerras de tiros, guerras culturais, guerras econômicas e seguem para esse mesmo país que os destruiu. Parece um paradoxo, mas não é. Na guerra cultural a mensagem que fica é que é lá a terra das oportunidades.

Os pobres e sua infinita fragilidade. Nada têm além de seus corpos nus, como dizia o grande repórter Marcos Faerman.

A carava na migrante passa pelo México e vai encontrando no caminho o ódio, o rechaço, o preconceito. Agora está em Tijuana, uma das fronteiras mais violentas. As gentes já enfrentaram os milicos estadunidenses e o governo mexicano fala em deportar todos os que lá estão. Mas eles não querem voltar para o terror de seus países. Quanta dor pode caber num só corpo? Quantas lágrimas ainda serão derramadas até que venha a morte, sempre próxima? E nós, como podemos dormir?

No rosto dessa menina, todo o sentimento do mundo. Ah..os empobrecidos da terra, os deserdados, os desgraçados. Se um dia soubessem a força que podem ser...

quarta-feira, 29 de agosto de 2018

Venezuelanos voltam para casa


Enquanto a mídia a mando dos Estados Unidos transforma em “crise humanitária” a migração de venezuelanos para países vizinhos, outros tantos sonham em voltar para seu país, por não suportarem as condições de vida e trabalho nos países para onde migraram em busca de vida melhor. Por conta disso, nessa semana o governo venezuelano disponibilizou um avião para trazer de volta para casa dezenas de venezuelanos que estavam no Peru. 

Como a Venezuela tem sofrido desde 2015 uma guerra econômica, com a ação criminosa de empresários escondendo comida, remédios e provocando escassez, muita gente decide pegar as trouxas e sair do país. Essa migração tem sido bastante incentivada pelas forças oposicionistas do governo Maduro e por conta disso se disseminam propagandas sobre como a vida no estrangeiro pode ser melhor, inclusive dizendo que os governos do Brasil, Peru e Colômbia podem assegurar casa, saúde e crédito para novos empreendimentos.  Algumas pessoas caem nesse conto e cruzam as fronteiras. 

Mas, chegando aos países, não encontram as promessas feitas. No caso do Brasil, há poucas semanas, os venezuelanos foram rechaçados por hordas violentas, também organizadas por políticos e entidades conservadoras brasileiros. O resultado é mais tragédia para uma gente já golpeada pela guerra econômica travada pelos Estados Unidos contra a Venezuela. 

Como resposta a campanha da direita que procura incentivar a migração, o governo da Venezuela tem incentivado a volta. Nessa segunda-feira, um avião lotado partiu de Lima, Peru, para Caracas, com um grupo de cem pessoas. Outras, que moram mais perto da fronteira, estão vindo por terra. Ao chegarem, no encontro emocionado com familiares, contaram que foram enganados com falsas promessas e chegando ao Peru foram explorados por empresários que pagam salários com valores abaixo do prometido. Alguns também foram vítimas de coiotes e traficantes de drogas e pessoas.  
Quem vive na Venezuela sabe o que têm sido esses últimos anos de ataque econômico. Os grandes meios divulgam incessantemente que o país será atacado pelos Estados Unidos, que vai faltar comida, que o terrorismo vai atacar. Tudo isso provoca medo e desespero nas pessoas, que acabam caindo nas armadinhas da migração provocada. 

O governo de Maduro iniciou uma série de medidas para vencer a galopante inflação, também provocada pelo ataque econômico, e espera que isso possa melhorar a situação. Ele insiste que não faltará comida, embora, é claro, a guerra movida contra a Venezuela obrigue a população a alguns sacrifícios, como as já conhecidas filas. 

A migração na Venezuela sempre existiu, como em todos os países latino-americanos. Uma olhada nos números da própria Organização das Nações Unidas mostra que hoje, há muito mais colombianos e brasileiros na Venezuela do que venezuelanos na Colômbia ou no Brasil. Mas, essas informações a mídia não passa porque o que interessa é fazer crer que o país bolivariano é um inferno de onde todos querem sair. 

Os cubanos sabem muito bem o que é isso. Desde 1959 que os Estados Unidos move feroz campanha contra a ilha. Mas, lá, as gentes se mantiveram firmes e de pé. Na Venezuela também. A maioria apoia e confia que, junto com o governo, vai vencer a guerra movida pelos EUA contra o povo.  Não é coisa fácil porque a direita venezuelana segue atuando com desenvoltura no país, tendo como braço armado os grandes meios de comunicação. A pedagogia do terror e do caos tem sido bastante eficaz, minando as possibilidades de soberania do país. É uma batalha, é a luta de classes. A velha elite petroleira que perdeu poder, aliada com os EUA, querendo voltar. E para isso, vai destruindo o país e o povo junto. Para eles, pouco importam essas pessoas que hoje saem da Venezuela aterrorizadas com suas campanhas de ódio. Tudo o que querem é retomar o controle do país.


segunda-feira, 25 de maio de 2015

Novos migrantes em Florianópolis


















O Haiti, hoje

O grande jornalista Marcos Faerman contava uma história engraçada, mas que lembra bem o que quero ilustrar aqui. Ele dizia que, naqueles anos de chumbo da ditadura militar, quando ele via entrar na redação um guri cabeludo ou uma guria descolada, com sandálias e bolsa de couro, já vaticinava:  vai dar bom! E não dava outra. Era os "hippies", por seu compromisso com a vida e com o amor os que se constituíam os melhores contadores de história.

Uso esse exemplo para falar dos migrantes que chegaram do Haiti. Se são haitianos, são bons. Não pode haver dúvidas. Afinal, foi nessa pequena ilha no meio do Caribe que aconteceu a primeira revolução feita totalmente por negros escravizados nessa nossa grande Abya Yala. E foi esse povo que gestou a liberdade que, depois, incendiou todo o continente. 

Depois de amargar mais de 200 anos de escravidão, os negros do Haiti se levantaram em rebelião, numa luta que durou 12 longos anos e na qual conseguiram derrotar os brancos locais e até uma expedição francesa. Jacobinos negros. Homens e mulheres que, animados pela revolução que acontecia na França, decidiram que era hora de balançar bem alto o pavilhão da liberdade. E foram esses valentes os responsáveis pela única revolta vitoriosa de escravos em toda a história da humanidade.

Os primeiros negros chegaram ao Haiti em 1517, 17 mil almas roubadas de vários pontos do continente africano. Vinham servir de mão de obra para o colonizador europeu. Ali passaram pelas maiores atrocidades e tanto que, aos poucos, reunidos no culto vudu, juravam destruir os brancos e tudo o que possuíssem. 

No 700, com a revolução assomando pelas ruas de Paris, o Haiti, que era uma possessão francesa, também ensaiava os passos de liberdade. Em 1791 começaram as primeiras rebeliões. No 22 de agosto, na noite da tempestade, os negros começaram a agir. Num levante de massas incendiaram as fazendas e tomaram as cidades. Foram 12 anos de lutas encarniçadas até que em 1802 o Haiti foi declarado independente.

O preço dessa avassaladora vitória contra os brancos continua sendo cobrado até hoje. Mas, ainda assim, nunca ninguém poderá apagar esse fato da história. É por isso que a um povo que foi capaz dessa saga heroica só se pode fazer reverência. Cada haitiano é marcado por essa gesta que influenciou a luta pela liberdade em toda a América Latina. Nunca é bom esquecer que foi do Haiti que Simón Bolívar recebeu as condições para voltar à Venezuela e retomar a luta que acabou tirando dos espanhóis todas as colônias. Também temos nossas dívidas com esses irmãos e irmãs.

Assim, quando o ônibus chegado do Acre, repleto de haitianos e alguns senegaleses chegou à Florianópolis, o sentimento que aflorou foi o da alegria. Agora, passados tantos anos, poderemos, como povo latino-americano, retribuir tudo o que a gente haitiana aportou de bom para que nossos países também pudessem desfrutar da sonhada liberdade. E, aos senegaleses expressar nosso respeito pela história de resistência durante o longo tempo da escravidão. 

É por conhecer essas histórias e ter muito claro a importância do Haiti para a libertação de toda a América que provoca profundo pesar as palavras eivadas de preconceito que se expressam - em liberdade - pelas redes sociais. 

O migrante negro e pobre é ruim

A cena é dramática. Um ônibus inteiro de gente sem rumo, olhar assustado, boca seca, coração aos saltos. Pessoas que saíram de seus lugares de nascimento, não porque estivessem a fim de conhecer o mundo ou fazer aventuras. Criaturas impelidas a caminhar, porque onde nasceram ou está devastado pela guerra, ou tomado pela miséria extrema. Gente que não tem outra escolha a não ser andar. Pessoas tomadas pelo desespero e pela pulsão da vida. Hoje, aqui, em Florianópolis, são os haitianos e os senegaleses que chegam, acuados, mas podem ser quaisquer outros povos acossados pela cobiça de uns poucos, como acontece nos países da África, do oriente médio ou da Ásia. São os fugitivos da fome, da morte, do medo.

Como esses homens e mulheres que hoje aportam na capital catarinense, séculos atrás vieram os italianos, os alemães, os japoneses. Gente que fugia da fome na Europa e embarcava animada pela promessa de boas terras e vida abundante. Vinham povoar o grande Brasil,alavancar o progresso da antiga colônia portuguesa. Quando aqui chegaram encontraram não a terra boa que esperavam, mas o lugar de outros: os índios, os quais tiveram de enfrentar e matar para poderem conquistar o sonho da boa vida.  E assim, muito da prosperidade dos imigrantes se fez em cima da morte do povo originário.
Nos dias de hoje, os migrantes empobrecidos chegam sem promessas e sabedores de que aqui a terra já tem dono. Já aportam em desvantagem. Não poderão matar ninguém para tomar suas terras e muito menos contar com as benesses governamentais. Tudo o que podem ter é um colchão para dormir até que encontrem algum emprego, se conseguirem. 

Na madrugada dessa segunda-feira foi assim. O grupo assustado encontrou repórteres, fotógrafos e toda uma sorte de pessoas para ajudar ou não. Haitianos e senegaleses vieram do Acre, por onde entram no Brasil, muitas vezes com o apoio dos traficantes de gente. Alguns deles deixam com os coiotes todas as economias de uma vida, porque acreditam que qualquer coisa pode ser melhor do que a guerra e a fome. Partem sem olhar para trás. São pessoas comuns, mas sem posses. E, por isso, sua migração é acompanhada com medo e preconceito. Bem diferente dos migrantes endinheirados, cuja chegada é saudada com o espocar do  champanhe, já que esses compram terras, casas e podem investir no lugar.

Os empobrecidos não compram nada. Eles só querem achar um modo de ganhar a vida. "Vai roubar nosso emprego", diz um. "Serão os marginais de amanhã", diz outro, e por aí vai um rosário de maldades típico do medo que o outro, diferente, provoca em quem não consegue ligar os pontos da realidade. E há aí um outros componente que não pode passar desapercebido. Os migrantes em questão são além de pobres, negros. 

E é a cor da pele que parece provocar tanta fúria. A mentalidade escravista do brasileiro comum segue intocável. Negro é sinônimo de ladrão, vagabundo, marginal. Como se isso fizesse parte do DNA. De maneira cômoda, os brasileiros, grupo constituído basicamente de migrantes, colam no negro tudo o que há de ruim. Perdeu-se na noite da história as origens do racismo, tão forte e tão cruel. Não é de bom tom lembrar que os negros foram sequestrados, vendidos como bichos, tendo seus filhos arrancados dos ventres e usados como instrumento de trabalho. Aquilo foi no passado e ninguém lembra mais. Os que sobreviveram ao massacre tiveram sua chance de "se virar". Se não conseguiram é porque não quiseram. Assim pensa o senso comum. 

E quem não é migrante?

Quando nos anos 80 do século passado um jovem padre criava em Florianópolis um centro de acolhimento ao migrante, a classe dominante olhava com desconfiança. Padre vermelho, comunista. Mas, naqueles dias, Wilson Groh não se intimidou com os rótulos que lhe colavam na cara. Junto com Ivone Perassa e outros companheiros, ele acolheu, ajudou a organizar, promoveu lutas. As gentes que vinham do interior do estado, na grande onda de migração, queriam uma vida melhor. 

Foi assim que nasceram muitas das comunidades que hoje fazem nossa grande Florianópolis. E aqueles que, naqueles dias apontavam o dedo para o padre, hoje reconhecem o seu trabalho e lhe reverenciam por ter tido a coragem de enfrentar com generosidade a chegada daquela maré de gente. Como agora, os que aqui já estavam olhavam com medo e nojo. Era uma gente pobre, aparentemente sem nada para dar. E não foram poucos os acampamentos, os despejos, as prisões. Porque as gentes ocupavam terras vazias e construíam barracos. 

Foram anos e anos de luta. Hoje, esses migrantes estão integrados à cidade. Tem suas casas, são trabalhadores, empresários, profissionais liberais. São os que fazem a capital andar. 

E antes deles vieram os portugueses, os bandeirantes, os açorianos. Cada um com suas razões. Todos buscando vida plena. Ironicamente, os reais donos das terras foram expulsos, muitos mortos, e hoje precisam novamente brigar para ocuparem seu próprio território.

Então, como a história vai assim, dando voltas, é preciso parar e pensar. Somos um pequeno gênero humano, dizia Bolívar. Que mal nos fará acolher o que chega, perdido de amor? Se cada um de nós um dia já foi um migrante, aqui ou acolá. Antes do olhar de ódio e discriminação, antes do medo de ter o emprego roubado ou coisa assim, aposte na generosidade da acolhida. Essa gente que chega de lugares tão distante, com outra língua, outros costumes, venceu uma grande batalha, que é a de continuar vivo, a despeito de tudo. Que não venham encontrar a morte no olhar de um de nós. 

Uma chance, apenas uma chance. É tudo que eles querem.