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segunda-feira, 31 de outubro de 2022

O brasil avermelhou


Mapa: O Estadão

Depois de uma semana tensa, na qual um apoiador de Jair Bolsonaro feriu policiais com tiros e granada e uma deputada bolsonarista perseguiu um homem negro pela rua fora, armada de pistola, a população brasileira deu sua resposta. Era chegada a hora de colocar fim a um dos governos mais destrutivos da história do país. Derrotar Bolsonaro e sua política de morte passou a ser ponto de honra, inclusive com a formação de alianças jamais vistas. Foi uma campanha bastante despolitizada, sem o debate dos grandes temas nacionais, justamente porque Bolsonaro conseguiu impor uma agenda recheada de mentiras. Assim, era preciso um grande esforço para tentar desfazer a trama toda. Nisso, a pauta econômica e política ia ficando de lado. O clima de guerra religiosa e moral deu o tom em todo o processo e a violência generalizada se espalhou. O último ato foi o do ex-deputado Roberto Jefferson, que tentou se transformar num mártir, buscando reconstituir o clima da famosa "facada" criada pelo candidato Bolsonaro na eleição de 2018. Ao atacar a Polícia Federal esperava um revide, que não veio. O balão murchou e fez estragos na campanha bolsonarista. No campo da oposição ao governo as comportas iam se fechando e velhos adversários se uniram para derrotar Bolsonaro. 

E a derrota veio. Apertada, mas veio. 

É importante salientar que o governo usou de toda a máquina para impedir a vitória de Lula. O Nordeste, região brasileira com mais votos para o petista, foi o campo de batalha. A Polícia Rodoviária Federal foi acionada para impedir as pessoas de chegarem aos locais de votação. Ônibus, carros, motos, tudo era parado e os passageiros sofriam humilhações. Ainda assim, não foi suficiente. A resposta do Nordeste foi a esperada: vitória acachapante de Lula. Minas Gerais, um estado que sempre é baliza, também surpreendeu e Lula ficou com mais de 50% dos votos. E na região Norte, os estados do Amazonas e Pará igualmente responderam bem contra Bolsonaro. Restou ao Sul, Centro-Oeste e parte do Sudeste manter a preferência com Bolsonaro, com o Rio Grande do Sul também surpreendendo e impedindo a vitória do candidato a governador bolsonarista, apesar de ainda dar vitória a Bolsonaro na eleição principal.  

Por fim, depois de uma apuração bastante sofrida o resultado veio: 50,90% para Lula e 49,10% para Bolsonaro, uma diferença de pouco mais de dois milhões de votos. 

Olhando para o mapa do Brasil é fácil ver que foi a população mais sofrida quem decidiu aplicar a derrota a Bolsonaro. Afinal, foram quatro anos nos quais os trabalhadores perderam direitos e ainda sofreram de maneira visceral os efeitos da ação governamental durante a pandemia. Bolsonaro não atuou no combate à doença, fez campanha contra o uso de máscaras e pelo uso de medicações ineficazes. Além disso, fez campanha contra a vacina e só comprou o imunizante depois de muita batalha por parte da população. O resultado foram quase 700 mil mortos. Não bastasse isso abriu caminho para as empresas de armamento, fez vistas grossas para fazendeiros e mineradores invasores de terra indígena, não atuou nas queimadas da Amazônia e do Pantanal, deixou a gasolina chegar a sete reais o litro e provocou a disparada dos preços dos alimentos. 

No campo da moral Bolsonaro, sua mulher e filhos abriram caminho para uma série de mentiras: que o comunismo estava chegando, que o PT iria fechar igrejas, que Lula era um satanista, que iria obrigar as crianças nas escolas a usar o mesmo banheiro, que iria ensinar as crianças a serem gays e mais um sem número de absurdos que foram cimentando um exército de fanáticos. Diante de uma economia em colapso, avanço da fome e da miséria, esses temas criaram cortinas de fumaça que inebriaram muita gente. Por isso, não é de estranhar que Bolsonaro tenha conseguido 58 milhões de almas para seu projeto. O medo foi decisivo para uma camada grande da população. 

Mas, apesar disso, Bolsonaro foi derrotado nas urnas. E agora, espera-se que venha um novo tempo. Não há ilusões sobre o governo de Lula. Será um governo socialdemocrata, com muitas concessões aos aliados de última hora. Mas, sem lugar a dúvidas, haverá uma retomada da racionalidade visto que a pauta do mandatário da nação não será mais dominada por mentiras e absurdos moralistas.  Aos trabalhadores restará ficar atentos e organizados, porque muitas lutas ainda deverão ser travadas. 


quinta-feira, 20 de outubro de 2022

As lições das eleições


Observei que o inominado cresceu nas pesquisas depois das denúncias sobre ter assediado meninas. Não me surpreendi. Vivemos em Floripa uma situação parecida. O candidato a prefeito, filmado com a bunda de fora, transando com uma secretária dentro da prefeitura, também aumentou o número de votos depois da denúncia. Venceu em primeiro turno. Algo assim como se a pessoas respaldassem o "mau passo", "coisa de macho" que pareceu irrelevante diante das promessas concretas que ele fazia. Pode transar na prefeitura desde que calce a minha rua.

Estamos agora vivendo a campanha mais idiotizada de todos os tempos. Com acusações no campo moral e religioso que não levam a nada. Para os apoiadores do inominado, a desculpa dele, ao lado da mulher, com cara de santa, valeu demais. Tá tudo certo. Ele se arrependeu. Tá perdoado. Para os eleitores indecisos - que são os votos que interessam -  isso não tem importância. Eles querem saber se vão ter emprego e como vão ter. Eles querem saber se vão ter comida, se os filhos terão escola e posto de saúde. Eles querem propostas, concretas e viáveis. Pouco se lixam se o cara é evangélico ou católico ou discípulo de satanás. Querem respostas para seus problemas urgentes e materiais. 

Não é por acaso que nas cidades onde mais morreu gente na Covid, o inominado vence. A memória é curta e para quem perdeu parentes o erro foi do médico, ou do hospital, ou do vírus comunista chinês. Não associam a falta de política de enfrentamento ou de proteção. Nada cola no cara. 

Fosse eu a candidata à presidência me preocuparia com isso: ter um programa de fácil compreensão, de entendimento imediato, voltado aos problemas materiais e prosaicos. Farei isso e será assim. Não me preocuparia em rebater bobagens do oponente. Essa batalha moral já foi vencida pelo bolsonarismo e tanto que vamos ter de conviver com essas bizarrices por muito tempo ainda, mesmo que o Lula vença.  

Mas, enfim, sou apenas uma guria que quer destruir o sistema capitalista e que sabe - por conta da experiência histórica da humanidade - que não é com discursinho paz e amor e conciliação de classe que a gente muda o mundo. É quebrando os ovos, é dizendo a verdade sobre as coisas e é propondo coisas que realmente são possíveis de se fazer nesse momento da luta. 

Essa campanha me frustra. Por conta da incapacidade de uma ação mais radical contra o sistema - que hoje aparece mais na direita e a faz referência - podemos mergulhar em mais quatro anos de desastre para os trabalhadores e para a nação. Arre, égua, como diria Petruchio.

quinta-feira, 23 de agosto de 2018

24 dias de greve de fome


Hoje completam 24 dias que militantes ligados a diversos movimentos sociais brasileiros realizam uma greve de fome em frente ao Superior Tribunal Federal, reivindicando que sejam colocadas em votação as ações que questionam a legalidade da prisão do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, após julgamento de segunda instância, etapa em que o acusado ainda poderia apresentar recursos sobre sua inocência. Tudo o que querem é que o STF decida de uma vez se a prisão é ou não é constitucional. Eles entendem que se os tribunais são céleres para prender o ex-mandatário, porque não podem ser céleres para decidir essa questão? 

Sete pessoas se mantém firmes na greve, apesar de uma delas ter passado mal durante um ato em frente ao STF há dois dias. Ainda assim, depois de medicada Zonália Neres dos Santos, militante do MST do Mato Grosso do Sul, voltou ao movimento. Com ela estão Frei Sérgio Gorgen, Rafaela Alves, Vilmar Pacífico, Jaime Amorim, Luiz Gonzaga (Gegê) e Leonardo Soares. Todos já apresentam visíveis consequências no aspecto físico, mas a presidente do STF em nenhum momento se mostrou inclinada a discutir o mérito da prisão de Lula. 

Roberto Malvezzi, da Comissão Pastoral da Terra, que acompanha o sacrifício dos trabalhadores, lembra que a greve de fome sempre foi arma de pessoas de extrema grandeza humana. “Recorreram a ela Gandhi, pela libertação da Índia, Martin Luther King, pelos direitos civis dos negros nos Estados Unidos, Mandela, pelo fim do apartheid na África do Sul, índios Mapuche dentro da prisão, pela liberdade de seus prisioneiros e pela defesa de suas terras, assim por diante. Aqui no Brasil, Frei Luiz Cappio fez duas longas greves de fome em favor da distribuição da água no Nordeste por adutoras simples e captação da água de chuva, contra o projeto faraônico dos imensos canais que favorecem mais às empreiteiras que ao povo necessitado de água”.

Malvezzi entende que uma greve de fome é também um ato violento e amoroso. Primeiro porque coloca a vida mesmo em risco, e segundo porque a vida em questão nunca é a do outro, mas a de quem se propõe a esse ato de grandeza. “Essas sete pessoas em greve de fome dizem que o Supremo Tribunal Federal não cumpre com suas prerrogativas, joga pessoas na prisão antes que possam esgotar todos os recursos da defesa e jogam o país na instabilidade jurídica e política. Enfim, sujeitam qualquer brasileiro aos arbítrios da vontade individual de algum juiz, ou mesmo de um coletivo de instância menor”.

A greve de fome iniciada há 24 dias é parte da mobilização de petistas e militantes do movimento social pela libertação de Lula. Enquanto a vigília segue em frente ao STF em Brasília, em Curitiba mantem-se também a rotina do acampamento que diariamente saúde o ex-presidente de manhã e à noite. 

Os militantes entendem que o judiciário brasileiro se utiliza de dois pesos e duas medidas, na medida em que faz vistas grossas às acusações contra políticos de outros partidos, como o PSDB, MDB, e insiste na perseguição ao PT. Há poucas semanas o deputado federal João Rodrigues (PSD), que estava preso também por suposto crime numa lei de licitação, foi colocado em liberdade pelo STF, atendendo a uma liminar. Com isso, o deputado está apto para disputar sua reeleição, direito que tem sido negado a Lula.

A greve de fome em frente ao STF busca pressionar os ministros para que definam de maneira igual a situação de Lula, para que ele possa concorrer à presidência. Mas, ao que parece, o sacrifício dos militantes não será levado em consideração. Não há indícios de que a presidenta do tribunal, ministra Carmem Lúcia, decida por realizar a discussão sobre a legalidade da prisão de Lula, pelo menos não até outubro. 

Enquanto isso, os trabalhadores, que tem apenas seus corpos para oferecer, estão definhando a olhos vistos. Será necessário que alguém perca a vida para que todos possam entender que o judiciário é uma instituição de classe? E, é claro, uma instituição da classe dominante, que,  atuando como avalista dessa nova modalidade de golpe que avança pela América Latina, não terá qualquer compaixão pelas vidas que estão sendo colocadas em risco. 

Um simples ato para o colégio de ministros pode definir vida ou morte. Mas, pela forma como o judiciário vem atuando ao longo de todo o processo é pouco provável que ceda. A proposta da classe dominante é não permitir que Lula concorra. Depois das eleições, tudo pode mudar. Mas, agora, não. 

Temo pela vida dos trabalhadores, particularmente pela de um que me é caro – porque o conheço pessoalmente desde anos   – Frei Sérgio Gorgen. Um homem dedicado à vida dos caídos, um guerreiro na luta pela terra, pelos direitos humanos, pela vida. E, assim como ele, cada um e cada uma: Rafaela, Zonália, Vilmar, Jaime, Gegê e Leonardo, que certamente tem amigos, filhos, pais, seres que os amam, e que agora passam pelo drama de verem os seus amados em risco, por conta de que um tribunal não quer discutir uma ação. Uma única ação. 

No triste cenário do golpe brasileiro, é pena que nem mesmo a vil democracia burguesa possa se fazer. 

quarta-feira, 21 de março de 2018

Sobre caravanas e ódios de classe

Possivelmente dois trabalhadores

Num desses filmes de roliude chamado “Django Livre” há um personagem que espelha claramente a cara feia desse nosso mundo eivado da herança colonial e escravocrata. É o velho negro, mordomo do senhor de escravos, que tripudia dos negros da senzala e goza de prazer quando os vê passar pelas terríveis dores da tortura. Ele, como negro, e convencido da sua “inferioridade”, não suporta ver um negro livre ou um negro que se rebele contra o horror. Então, de livre vontade assume a postura do opressor. É um servo voluntário, arrastando-se atrás do patrão, tentando abocanhar as migalhas que caem da mesa colonial. Pode-se compreender que aquela seja a estratégia que ele desenvolveu para permanecer vivo, mas não é possível deixar de odiá-lo. E o final do filme representa bem isso. Ou estamos com os nossos, com nossa classe, ou não estamos. 

O mesmo sentimento me invadiu ontem ao ver centenas de comentários sobre a ação de alguns latifundiários, acompanhados de populares, no Rio Grande do Sul, contra os apoiadores da caravana do Lula. Uma cena em particular atraiu mais ferozmente os comentários dos servos voluntários de plantão: a de um jovem agricultor dando de relho em um sem-terra. Imediatamente me veio a cena do filme, quando Jango está sendo torturado e o velho mordomo vem tripudiar dele.  Um horror. Digo isso porque tenho plena certeza de que mais de noventa por cento das pessoas que divulgaram a  foto com comentários de ódio contra os sem-terra ou contra os apoiadores de Lula certamente não são donos de terra, nem donos de meios de produção. São os mordomos. Ou seja, tal qual aquele sem-terra são obrigados a vender sua força de trabalho para viver. São da mesma classe.

Não, eu não gosto do Lula. Penso que o governo petista, ao longo dos anos que esteve no poder, foi bastante responsável pela classe trabalhadora não ter avançado politicamente. Nesses anos todos os sindicatos se domesticaram e os movimentos sociais esperaram muito do governo. Um muito que não veio. Reconheço que o governo petista foi diferente dos demais governos de “casa-grande”, afinal, as tais políticas públicas conseguiram chegar a milhões de pessoas que sempre estiveram fora dos planos governamentais. Não foram as melhores políticas e ainda foram muito tímidas, mas os empobrecidos diminuíram e gente que passava fome, passou a comer. Isso foi real.

Mas, o fato concreto é que os governos petistas serviram muito mais à casa-grande que aos trabalhadores. O agronegócio cresceu, os bancos tiveram lucros astronômicos, os ricos ficaram mais ricos, a dívida não foi auditada e ainda foram aprovadas leis que penalizam os trabalhadores que lutam, como a lei antiterrorismo. 

Então porque tanto ódio contra Lula? Se ele serviu muito bem aos interesses da classe dominante? O ódio dos ricos eu entendo. Eles usam os que os servem até quando querem. E quando não querem mais, ou não precisam deles, descartam. Simples. Sempre haverá outro e outro pronto a servir. Então que um latifundiário cuspa no Lula, posso compreender. Lula não vem de sua classe. O que não compreendo é o estranho mecanismo que leva o brasileiro médio, subalterno, da classe trabalhadora, a odiar tanto esse homem, a ponto de realizar passeatas de mãos dadas com a classe que o oprime. Sim, porque entre os que disseminam horrores contra Lula e Dilma não vejo um que o odeie por ele ter governando mais para os ricos do que para os pobres. Não. É a compra cega do discursinho televisivo da “corrupção”. No geral, essas pessoas que cospem ódio sequer sabem bem como foi que os governo petistas se comportaram, para o bem ou para o mal. A impressão que dá é que o ódio ao Lula se dá porque ele tem aparência de pobre, fala como pobre, age como pobre. E aí aparece aquele sentimento do mordomo lá do filme do Tarantino. Entre os serviçais não há quem suporte ver um dos seus comendo à mesa dos patrões. O ódio não é nem pelo fato de um dos seus ter se aliado com os patrões (o que seria interessante e pedagógico), é só pelo fato e ele estar na posição de patrão sem ter cara ou jeito de patrão. A coisa é louca, mano.

As manifestações contra a caravana do Lula no Rio Grande não foram organizadas de maneira espontânea por agricultores e populares, como quer fazer crer a mídia. São manifestações organizadas por partidos políticos como o DEM, o PSDB ou o PMDB, partidos que congregam os latifundiários e a classe dominante do estado. Foram organizados por movimentos do tipo do MBL que são financiados por pessoas e entidades ligadas a esses partidos ou a organismos internacionais de direita. Portanto, são manifestações político-partidárias sim, realizadas dentro do contexto do cenário das eleições. Nenhum desses dirigentes que organizam atos contra o Lula pelo Brasil promove as manifestações porque o Lula é ladrão ou corrupto. Não. É porque eles querem pegar o lugar do Lula para serem os ladrões e os corruptos. Esse é o jogo no mundo capitalista de produção. Esse é o jogo eleitoral.

E, nesse festival de manipulação, aparecem aqueles que como o mordomo da casa-grande, acreditam firmemente que o país estará melhor na mão dos senhores de terra, dos senhores de fábricas e nos senhores de escravos. Esses precisam ser conquistados para sua própria classe. Um trabalho quase inglório, mas que precisa ser feito.  

As cenas provocadas no Rio Grande e outras que deverão vir no Brasil todo a continuar a caravana de Lula, são, quer a gente queira ou não, cenas explícitas da luta de classes. Porque os que estão do lado de Lula são conhecidos lutadores sociais, gente que também firmemente crê que, com Lula, a vida dos trabalhadores vai melhorar. São aqueles que acreditam que as transformações podem vir a conta gotas, uma melhoradinha aqui, outra ali, mesmo que as políticas públicas sejam raquíticas e insuficientes. E são tantos os que dão a cara para bater nessa luta por tão pouco. Há que respeitá-los e dialogar com eles, porque, no geral, são nossos companheiros de muitas lutas. Não são eles os inimigos.

Não creio que Lula seja a solução para o Brasil. Minhas expectativas são mais altas. Sonho e luto por transformações estruturais, radicais, que mudem verdadeiramente a face do país. Luto pela emancipação real dos trabalhadores, pelo fim da propriedade privada, pela socialização da riqueza, pelo fim da exploração. Isso não é coisa que se faz com política pública. É coisa que se faz com revolução. Por isso, caminho por outros caminhos. Mas, respeito profundamente cada companheiro ou companheira que está na estrada da defesa do petismo. Espero firmemente que, no embate cotidiano com a classe dominante, cada um e cada uma possa avançar nas expectativas. Não apenas um país “mais” justo. Não apenas um país com “mais” oportunidades para os pobres. Mas um país justo, sem pobres. Alguém pode argumentar que isso se faz passo a passo, por etapas, com calma, devagar. Mas eu acredito na possibilidade do salto, o salto abissal, que rasga a história e muda o mundo. 

Nunca estarei do lado da classe dominante. Isso é seguro. Mas, precisamos querer mais do que “um pouquinho mais”. Que as caravanas e os conflitos sirvam para essa reflexão. Que os embates sejam pedagógicos. Sabemos que é o inimigo e vamos enfrentá-lo. E há que ser juntos!



sexta-feira, 26 de janeiro de 2018

O julgamento do Lula e o futuro

Mais de 80 mil pessoas em Porto Alegre

O julgamento do ex-presidente Lula em segunda instância, realizado em Porto Alegre no último dia 24, não apenas confirmou o veredito dado na primeira instância como aumentou a pena de nove para 12 anos de reclusão. As acusações dizem respeito ao esquema de corrupção passiva e lavagem de dinheiro,  tanto no caso da Petrobrás como de empreiteiras. Segundo o Ministério Público, que apresentou a denúncia, Lula teria recebido imóveis e outras benesses, fruto de corrupção. Também é considerado o chefe de todo o processo de corrupção envolvendo o chamado “petrolão”, que investiga desvio de fundos da Petrobras. O recurso apresentado pela defesa de Lula foi negado pelos três desembargadores que conformam o Tribunal Regional Federal da 4ª Região. 

A movimentação de militantes do PT e apoiadores de Lula durante o julgamento foi precedida de muita tensão. Enquanto o partido de Lula indicava que iria “invadir” Porto Alegre, a cidade se preparava para uma batalha. O prefeito da capital gaúcha chegou a entrar com um projeto de lei na Câmara de Vereadores, buscando impedir a aproximação dos manifestantes da sede do TRF4. A lei foi aprovada e no dia do julgamento quase quatro mil policiais faziam o patrulhamento da cidade, com a ajuda, inclusive da Guarda Nacional. Nas semanas que antecederam o julgamento as redes sociais ferveram. A rede de ódio ao PT cresceu e se manifestou sem trégua, bem como os militantes petistas também provocavam. A forma como a repressão se preparou para o dia 24 antevia uma batalha campal na cidade.

Não foi o que aconteceu.

Já no dia 23 os militantes em apoio a Lula chegavam ordenadamente à Porto Alegra. Montaram um acampamento na região do Anfiteatro do Por do Sol, na beira do rio Guaíba, e ali foram recebendo os visitantes que vinham de outros estados. O MST veio em grande número, como sempre organizado. Chegaram caravanas de vários lugares do país, dos estados mais distantes. E, ao final do dia, um ato com a presença de Lula contabilizou entre 80 a 100 mil pessoas. Um número considerado baixo pelo tamanho da campanha realizada. Ainda assim foi um dos maiores atos realizados em Porto Alegre nos últimos tempos. A caminhada que seguiu pelas ruas da cidade foi tranquila e festiva. Não houve confrontos e tudo se deu na mais absoluta calma. 

Quando o dia 24 amanheceu tudo seguia dentro da ordem. Os manifestantes se postaram nos limites impostos pela polícia e o prédio do Tribunal permaneceu totalmente isolado, com barreiras por terra, pela água e pelo ar. A polícia seguia esperando um estouro popular. Os três desembargadores responsáveis pela decisão do recurso se mantiveram discretos, sem aparições na mídia, mas pelo perfil de cada um, exposto em todos os jornais do país, já era dado como certo o resultado de 3 x 0 contra Lula. Tanto que uma das maiores redes de televisão do país, a Bandeirantes, divulgou por volta das 10 horas da manhã, ainda durante a fala do advogado de defesa do ex-presidente, o resultado final, expondo na tela: por maioria absoluta Lula é condenado. As manchetes já estavam prontas.  Não haveria novidade. A única incógnita era o povo reunido na capital gaúcha.

O julgamento de Lula foi só mais um espetáculo com final conhecido. As frágeis convicções da acusação, que nunca apresentou provas concretas, seguiam fortalecidas e as argumentações da defesa permaneceram rituais. Nenhum dos desembargadores estava ali para ser convencido. Eles faziam parte do tal pacto proposto por Romero Jucá, quando tramou, com o então vice Temer, a destituição de Dilma e o acerto de um acordo, “com o Supremo, com tudo”.

Assim, os votos dos desembargadores foram, um a um, aceitando a tese do juiz Sérgio Moro sobre o tal tríplex do Guarujá e sobre um suposto envolvimento no desvio de recursos da Petrobras. A falta de provas materiais – tudo foi baseado em delações de pessoas que buscavam se safar da Justiça – não impediu que a acusação fosse mantida e a pena aumentada. Uma página verdadeiramente histórica para o judiciário brasileiro. Enfim, uma figura pública era tratada como são tratados, todos os dias, no chamado estado de direito burguês, os pobres e negros que abarrotam as cadeias. Basta uma única suspeita de culpa para encarcerar e tirar do meio social. Provas são irrelevantes. Logo, não houve novidade na ação do judiciário. O novo mesmo era o tipo de réu. Nesse caso, um réu incômodo demais para a classe dominante, que precisa ser tirado de circulação.

Dada a sentença, o que se viu em Porto Alegre foi uma espécie de anticlímax. As lideranças do ato público que se seguiu, conclamaram as gentes a calma, evitando qualquer tipo de manifestação mais raivosa. E confirmou-se o que já se previa. A aceitação ordeira da decisão. Alguns discursos inflamados, a informação de que o ex-presidente Lula seguirá utilizando os canais institucionais de recursos, apelando ao judiciário até onde for possível, e, por fim, a indicação de que todos voltassem para suas casas, esperando os próximos julgamentos. As pessoas voltaram para seus ônibus e retornaram para suas cidades.

No campo da oposição não petista ao governo golpista toda a ação envolvendo o julgamento de Lula foi igualmente protocolar. Os partidos de esquerda se limitaram a divulgar notas defendendo o direito de Lula concorrer à presidência e defendendo o que chamam de estado de direito, considerando assim o julgamento farsesco, visto que não há provas contra o ex-presidente e claramente tudo isso configura uma perseguição com a única finalidade de tirar Lula do páreo presidencial. Mas, apesar de todos saberem que o julgamento é uma farsa, ninguém quer se comprometer na defesa da pessoa de Lula, pois igualmente sabem que o ex-presidente, quando no poder, aliou-se à classe dominante, e tanto, que o próprio Lula diz em alta voz que nunca os ricos ganharam tanto quanto no seu governo. E é verdade.  Por outro lado, o apelo à manutenção do “estado de direito” também é complicado, visto que o tal estado de direito é esse que conhecemos, o que enche as cadeias com pobres e pretos, desrespeitando cotidianamente o direito das gentes, utilizando uma polícia feroz e letal.

Assim que o Brasil segue vivendo um drama de complicada resolução. O país está sendo desmantelado, vendido a preço de banana, sem reação popular massiva. Os direitos trabalhistas foram destruídos. A previdência seguirá pelo mesmo caminho e os gastos públicos estão congelados. As lutas que acontecem são pontuais e corporativas. Não há qualquer organização de trabalhadores que esteja organizando uma reação unificada e nacional. Lula ainda é o nome de maior apelo popular, e insiste em apostar suas fichas na eleição do ano que vem. Para tanto seguirá interpondo recursos na Justiça. Ele contava com a lentidão tradicional do judiciário, mas no seu caso, isso não tem acontecido. De qualquer forma, pelo que se viu no pós-julgamento do dia 24, esse seguirá sendo o caminho. Dentro da ordem, sem rugosidades para o sistema. 

Nas demais organizações e partidos de esquerda o que se observa é também a preparação do caminho para a disputa eleitoral. Tudo segue conforme o ritual “democrático” do estado burguês. 

Enquanto isso, na vida mesma, as gentes vão se defrontando com a realidade cada vez mais precária. Doenças endêmicas crescendo, hospitais sem condições de atendimento, escolas fechadas, ensino precarizado, destruição de postos de trabalho, desemprego crescente, trabalho intermitente, fim do amparo legal na luta contra a exploração. A vida ladeira abaixo, num salve-se quem puder. Boa parte espera um “salvador” e possivelmente a classe dominante haverá de criar um, com o auxílio sempre oportuno da mídia comercial.

Aos lutadores resta o mesmo velho trabalho de sempre que se baseia no sistemático processo de organização popular, com informações sobre a realidade e com a construção coletiva de outra forma de organizar a vida. Uma forma fincada não nesse “estado de direito” que tão bem serve aos grupos de poder, mas num “estado de justiça”, controlado pela maioria, capaz de dar as respostas radicais transformadoras que as gentes querem e esperam. 

segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

A democracia e o julgamento do Lula



A democracia liberal já mostrou sua verdadeira face na América Latina de várias maneiras. E essa face não é democrática, pelo contrário, é autoritária e absolutamente vinculada aos interesses da classe dominante. Em nome dessa forma de governo o império estadunidense faz guerra, destrói países, promove massacres. Assim, na mídia, o império atuando aparece como liberdade e democracia, e onde a democracia é participativa, real e popular, como em Cuba e na Venezuela, o braço armado midiático do capital aponta como ditadura, totalitarismo, autocracia. Tudo fica de pernas para o ar. E, na cabeça das gentes, a confusão é formada. 

Na Venezuela, em 2002, foi planejado e dado um golpe no governo bolivariano, democrático e popular. Mas, lá, a população agiu em consequência e não permitiu que a coisa seguisse. Não é à toa que desde então, o imperialismo estadunidense tenha tentado de todas as formas destruir o processo iniciado por Chávez. A resistência tem sido grande, ainda que na mídia o governo apareça como mais uma ditadura bananeira. Não é. Lá, o poder está com o povo e isso tem sido reiterado a cada nova eleição. Apesar da guerra econômica, das sanções e da ação criminosa da elite local que tem levado a fome e o desespero para o interior do país, as gentes seguem resistindo.

Mas, ao longo do início do século XXI, a “democracia” alardeada pelo sistema capitalista de produção, concretizada na ação do império, com a participação das elites nacionais, tem servido para provocar o terror. Foi assim no oriente médio com a mal chamada primavera árabe. Foi em 2004 no Haiti, quando um presidente eleito foi deposto, o país ocupado e destruído. Foi em 2009 em Honduras, com um golpe judiciário/parlamentar que tirou o presidente cujo crime foi o de querer fazer um plebiscito para que o povo decidisse sobre as grandes questões nacionais. Foi em 2012, no Paraguai, quando o presidente também foi deposto nesse novo modelo de golpe judiciário/parlamentar, acusado de ser o responsável por um massacre de camponeses, justamente os que ele tentava organizar para a realização da reforma agrária. 

Essa “democracia” acabou chegando ao Brasil em 2016, quando a presidenta foi deposta acusada de um “crime” que sempre foi prática corrente em todos os governos: as pedaladas fiscais. Num julgamento digno do realismo fantástico, um congresso mergulhado em corrupção decidiu pela saída de Dilma, no mesmo modelo de golpe judiciário/parlamentar. Poucos meses depois, o mesmo congresso legalizava as pedaladas fiscais para que o então presidente Michel Temer pudesse pratica-las sem atropelos. Um cinismo sem fim.  

Com Dilma e o PT fora do poder a “democracia” começou a agir. Direitos trabalhistas foram tirados, aplicou-se o arrocho aos trabalhadores e as riquezas do país começaram a ser entregues a preço de banana para empresas multinacionais. Claramente, a democracia de Temer e do grupo que ele representa, é a que defende e amplia os interesses dos ricos. São eles os que têm as dívidas perdoadas e os créditos aumentados, enquanto tudo é tirado dos trabalhadores.

Agora, no dia 24 de janeiro, a turma do golpe pretende dar sua jogada de mestre. Tirar da disputa eleitoral o líder petista Luís Inácio Lula da Silva, que a despeito de toda a campanha de ódio e difamação praticada pela mídia, em conluio com o judiciário, tem se mantido no topo das pesquisas para as eleições presidenciais. Acusado pela operação Lava-Jato, que “misteriosamente” só enxerga as tramoias dos petistas, de ganhar como propina um apartamento tríplex, Lula já foi condenado e nesse 24 deverá ser julgado o seu recurso. Não há qualquer prova de que o apartamento seja dele, mas, mesmo assim, contra a própria lógica do direito liberal de considerar inocente até que se tenham as provas da culpa, o ex-presidente foi condenado. Os próprios juízes fazem declarações e campanhas na internet. Ou seja, o julgamento do recurso será só uma cena a mais nessa grotesca dança das cadeiras do poder, da qual o judiciário tem sido a estrela, comodamente aliado à classe dominante. 

A classe dominante brasileira que, por um tempo, se manteve domesticada no pacto de classe feito com o petismo, decidiu que ela mesma pode comandar a vida por aqui. Não precisa do Lula e muito menos de afagos na classe trabalhadora. Foram apertados todos os garrotes e a massa se manteve quieta. Pelo menos uma grande parte dela. Os que espernearam foram poucos. Todas as maldades liberais foram praticadas, sem levantes ou rebeliões. Tudo está tranquilo. Então, já pode ser sacrificado o líder popular. Ele não é mais necessário. 

O mais terrível nesse conto burlesco é que aqueles que foram golpeados, tanto Dilma, quanto Lula e todo o espectro petista, jamais convocaram a população para a resistência. Todo o processo de impedimento da ex-presidenta, bem como a cruzada judiciária contra Lula, foram tratados dentro da ordem, como se aqui fosse mesmo uma democracia e a população tivesse todos os mecanismos de informação a sua disposição.  Protestos aconteceram, mas foram insuficientes para criar um caldo verdadeiramente rebelde.  Possivelmente porque o próprio petismo já estivesse mesmo bem longe da maioria da população, sem vinculação visceral e orgânica com as massas. 

Agora aí está o dia 24. Um julgamento com seu veredito já conhecido. A cidade de Porto Alegre, onde se dará a cena, já está devidamente preparada para impedir a ação dos partidários de Lula. Uma lei, aprovada pela Câmara de Vereadores, impede a aglomeração de pessoas num enorme raio em torno do local do julgamento e até a Força Nacional foi convocada pelo prefeito. Tudo para criar o clima contra os manifestantes que prometem lotar a capital gaúcha. Policiais se manifestam nas redes sociais dizendo que vão pegar os “petralhas”, é um festival de absurdos para o qual a democracia não é invocada. Ou seja, contra o PT tudo pode. 

E assim, enquanto a mídia prepara o terreno para a retirada de Lula da cena política, os desdobramentos do golpe seguem a passos céleres. É praticamente seguro que quando as eleições chegarem já não haverá mais nada para salvar. O país já terá sido entregue. A cada dia uma ação governamental ou uma nova votação no Congresso são portas escancaradas para os interesses do capital, contra os trabalhadores que são a maioria da população. Já não há mais direitos trabalhistas, o salário mínimo baixou, o custo de vida sobe, os serviços públicos estão com investimentos congelados por 20 anos, as empresas públicas estão sendo vendidas, os setores estratégicos entregues às multinacionais. 

Ao fim e ao cabo o resumo da ópera é bem triste. A vida está girando em torno das eleições, o que mantém completamente livre o caminho para os vende-pátria, que atuam em passo acelerado, fechando os mais absurdos acordos. Há por parte da militância petista uma ilusão de que com Lula no páreo, as eleições resolverão o problema do golpe e tudo voltará ao normal com a vitória do ex-presidente. Como já mostramos, não será assim tão fácil. O trabalho sujo em favor dos mais ricos está sendo feito e seguirá até que o novo presidente assuma, coisa que vai demorar. Nada garante que Lula vencendo desfará tudo o que foi feito. Os acordos que o PT vem amarrando com a mesma classe política que se voltou contra ele são públicos e notórios. Outra vez a lógica de conciliação. E já vimos onde isso deu. 

E, caso Lula seja inviabilizado pelo judiciário no dia 24, há poucas chances de uma chamada geral à rebelião. Possivelmente o PT se manterá dentro da ordem buscando um novo nome para a eleição. De qualquer forma, se o caminho for eleitoral, todo o quadro terá de se reconfigurar. Poucos nomes novos assomam no horizonte. No geral, os possíveis candidatos são os mesmos velhos conhecidos da direita, do centro e da centro-esquerda. Há uma tentativa de fazer crescer o nome de Guilherme Boulos, uma importante liderança do movimento por moradia de São Paulo, mas, ele é muito próximo da política lulo/petista, o que não configura novidade. Tanto que ainda não decidiu se vai entrar no páreo ou não porque está esperando o dia 24. Se Lula for o candidato possivelmente ele o apoiará. 

No espectro da esquerda, o Partido da Causa Operária (PCO) deverá repetir o nome de sempre, assim como o Partido Socialista dos Trabalhadores Unificados (PSTU). O Partido Comunista Brasileiro ainda não definiu candidatura. O Partido do Socialismo e da Liberdade (PSOL) balança entre seguir com a política mais de centro-esquerda e apostar num discurso mais radical. Tanto que ainda não decidiu a candidatura porque está esperando por Boulos. Enquanto isso, nas suas fileiras o pré-candidato Nildo Ouriques esquenta a chapa apontando para a Revolução Brasileira, exigindo que o PSOL sacuda de vez seus resquícios petistas. Uma queda de braço que deverá durar até março, quando enfim o partido decidirá qual projeto vai disputar o voto dos brasileiros. 

Esse é o cenário atual da vida brasileira no qual a dita democracia segue sendo apenas uma palavra e não uma prática real. Nela está embutida apenas a ideia de eleição, como se isso fosse o centro do sistema. No mundo capitalista nem mesmo a eleição garante a democracia, visto que é o capital quem comanda a ação, comprando votos e definindo as tendências. Democracia de verdade, participativa, é o modo de governo no qual a maioria da população tem nas mãos a decisão sobre a vida nacional. Não só de quatro em quatro anos, votando para presidente, mas a toda hora, coisa que ainda não vivenciamos por aqui. 

O julgamento de Lula acontece dentro do formato da democracia liberal. Um juiz, comprovadamente parcial, um processo, comprovadamente falho e manipulado, uma mídia comprovadamente atuando a favor da fraude. Tudo é uma farsa, grotescamente montada, como se apenas Lula e o PT fossem os demônios pervertidos que se lambuzaram com a corrupção. Eles são parte do sistema, é fato, mas não são só eles, o que para a mídia e para boa parte da população não interessa para nada. Já foram declarados como inimigos públicos. O script é esse e o final já é conhecido. Os bandidos – no caso, os “petralhas” – morrem no final. 

Só que não.

Se a farsa do Lava-Jato excluir Lula da eleição, a corrupção não vai acabar por mágica. Pelo contrário. Sacrificado o cordeiro, tudo seguirá como sempre foi. E o cordeiro, como é parte do sistema, logo encontrará uma forma de renascer. Assim, tudo mudará para que nada mude. 

Esse é o nosso drama. 

quarta-feira, 11 de outubro de 2017

Sobre Lula e o espetáculo judiciário



Sempre é bom frisar. Não sou petista, nem lulista. Faço minhas críticas ao governo do PT desde que Lula, no primeiro mandato, fez a reforma da previdência dos trabalhadores públicos. Nunca me abstive de apontar os erros e os equívocos e considero que os quatro mandatos petistas causaram muito mal aos trabalhadores, em vários aspectos. Desde a cooptação de lideranças até a responsabilidade pela domesticação e desarmamento político de sindicatos e movimentos. Isso sem falar na política econômica, na conciliação de classe e muito mais. Mas, também nunca me furtei a aplaudir o que sempre considerei importantes pontos, como a eliminação da fome e a criação de vários programas sociais que ajudaram milhões de famílias a sair da pobreza extrema.

Também já me manifestei várias vezes sobre o que considero um tremendo absurdo: o fato de o judiciário burguês, que é o realmente existente, não cumprir suas próprias regras no trato com os cidadãos e cidadãs. Sejam eles pobres, negros, favelados ou figuras em queda da classe dominante. A lei burguesa, que dizem valer para todos, é clara no quesito presunção de inocência e certas coisas só podem passar a alguém depois que foi julgado e condenado.

Bom, isso nunca foi respeitado no trato com as gentes empobrecidas. Desde minhas primeiras reportagens nas delegacias por onde andei, sempre foi comum delegado mandar filmar cara de “vagabundo”, mesmo que só pairasse sobre o dito cujo a mera suspeita. Fosse pobre ou preto, tudo era permitido. No geral, figuras ilustres ou filhos da classe dominante nunca passavam por esses constrangimentos. Caso fossem presos eram preservados, suas imagens não eram permitidas em nome do direito do cidadão em não querer ser filmado, ainda mais numa situação vexatória.

A queda da presidenta Dilma, a partir de um golpe, tendo como pano de fundo uma histeria anticorrupção por parte da população que, sempre foi muito bem dirigida ao PT em particular, virou essa prática de cabeça para baixo.  Na ânsia de derrubar os políticos petistas naquilo que eles tinham como patrimônio (a ética), todos os holofotes passaram a ser dirigidos a eles, e uma pequena suspeita já era suficiente para espetáculos midiáticos, repetidos à exaustão nos meios de comunicação. Assim, o que era uma prática para os empobrecidos passou a ser usada também com importantes figuras da política. Detenção escandalosa acompanhada pela mídia, algemas, prisões preventivas, raspagem de cabeça, toda a sorte de humilhações, comuns aos comuns, e que agora eram usadas também com os políticos, “essa raça ruim”.

Na malta enfurecida pouco importava que se dissesse que eram ações ilegais, que estavam ao arrepio da lei, que não respeitava a presunção da inocência. Não. Danem-se! A regra era a mesma já tão familiar às famílias de bem, a pedagogia do Big Brother: elimina, elimina, elimina.  E assim foram caindo figuras como José Dirceu, José Genoíno e tantos outros em julgamentos estranhos, nos quais não apareciam provas, mas apenas convicções.

O alvo sempre mirado era Lula. Havia que encarcerá-lo também, fazê-lo passar por toda a humilhação reservada aos párias. E começaram os ataques. De novo, ações espetaculares, atos de mídia, teatro romano, detenção coercitiva, colheita de documentos, intimações, tudo para seguir incentivando a histeria anti-PT. Pelo que se sabe nada de provas contra Lula. Nenhum ilícito. Ainda assim ele já foi condenado pela compra de um apartamento que, como já foi provado, nunca foi efetuada. Um processo digno de Kafka. Uma aberração. E a cada novo documento apresentado, novas convicções: os documentos são falsos, as alegações não são verdadeiras. Tudo baseado no desejo dos juízes. O direito do desejo. Essa é a cruz dos petistas.

Mas, como tudo escapa, a sanha contra os petistas foi tocando outros nichos e outros personagens foram sendo igualmente enredados na rede dos abusos. Corruptos confessos, por conta de delações espetaculosas, iam agregando “provas” (feita do disse-me-disse) e saindo ilesos. Novas prisões de “inimigos menores” como Cabral e Garotinho seguiam a cartilha irresponsável da ação conjunta polícia/mídia. Até o milionário Eike Batista passou pela dolorosa exposição vexatória, de cabeça raspada, adentrando o presídio. E os juízes começaram a ganhar as redes como novos heróis da malta. Como se tudo isso estivesse barrando a corrupção. Não está. pelo contrária, ela avança, e está nas entranhas do poder.

Em Santa Catarina o modelo espetacular da trinca judiciário/polícia/mídia levou um homem à morte. Acusado de tentar obstruir uma investigação sobre corrupção no interior da universidade, o reitor da UFSC foi preso de forma espalhafatosa e submetido ao escracho público. Nenhum documento, nenhuma prova, nada que pudesse transformá-lo em um risco para a sociedade. Ainda assim foi levado ao presídio de segurança máxima. O reitor não suportou ver toda a sua vida escapar das mãos por um ato tão insano. Matou-se. Ainda assim, as gentes que atuam nessas áreas não arrefecem. Lançam notas dizendo que estão certas. E que é assim mesmo, e é porque é.

Essa semana, outra vez o denuncismo anônimo levou a polícia, sempre junto com a mídia, à casa do filho de Lula. Acusação: ele estaria fumando maconha. Opa! Teria dentro da casa a carga do helicóptero encontrado na fazenda de Parrela? Não. Ele estaria fumando. Ah, tá, então é crime grave. Invade! E lá foi a polícia com um mandato fazer revista na casa para achar um baseado. Não achou. A tática é boa. Já que não dá para pegar o Lula, vamos destruindo pelas beiradas. Pega um filho aqui, uma sobrinha ali, uma tia, um primo, um cunhado e tudo isso pode formar um mosaico que diga o quanto Lula é ladrão. E dê-lhe a alimentar a histeria, para que os julgamentos se façam nas redes sociais e nas ruas, e a condenação aconteça sem passar pelos tribunais. Está abolido o direito. Agora é a malta ensandecida que decide e abaixa o polegar como nos espetáculos romanos, exigindo a morte do gladiador.

Tenho gravada na mente a frase do desembargador, amigo do reitor Cancellier, na sessão fúnebre da UFSC: “Eu não conheço esses juízes, esses delegados. Não conheço e não quero conhecê-los. Porque tenho medo deles”. Eis o drama. Quando aqueles que deveriam ser os guardiões do direito nos provocam medo, que fazer? É a treva.

O clássico do cinema “O advogado do diabo” é uma boa reflexão para esses tempos. Quando a vaidade assoma tomando conta de tudo, nada mais pode ser parado. O ovo da serpente choca serpentes. A justiça não é uma ação espetacular. Ela é, ou deveria ser, espaço do cuidado e da dignidade. E os crimes deveriam ser investigados no silêncio das sombras, para não espantar o criminoso, para preservar as provas e tudo mais. Os agentes da lei deviam ser alguma coisa assim como o Batman, necessários às gentes, mas anônimos, para que pudessem atuar melhor, garantindo a justiça e não alimentando o ego. Os holofotes acendem a vaidade e a vaidade é a porta do inferno. Para o vaidoso, e para os que ele ataca. 

Não sei se Lula é ladrão, nada foi provado. E mesmo que fosse. Nem ele, nem o Eike, nem o reitor, nem o Garotinho, nem o Rafael Braga ou a qualquer outra pessoa precisa passar pelo aviltamento de ser julgado antes de ser condenado, antes que tenham sido respeitados todos os ritos da Justiça. 

Isso é o mínimo que podemos querer, apesar de saber que ainda assim pode haver injustiça.

Mas o linchamento público, feito com base na histeria descabeçada, fatalmente leva a tragédia, como a que vivemos agora, aqui em Florianópolis, com a triste decisão do reitor da UFSC. 

Há que estancar esse surto sob penas de perdermos o controle sobre a Caixa de Pandora. Uma vez aberta, ninguém mais consegue controlar.