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quinta-feira, 2 de abril de 2020

A canalha ataca os trabalhadores


Diante da providencial crise “do coronavírus” aparece, no dia 24 de março, a proposta de Emenda Constitucional apresentada por um empresário, dublê de deputado federal, Ricardo Izar, do Partido Progressista (PP), que prevê redução de salários dos trabalhadores públicos em até 20% “enquanto durar o estado de calamidade pública. Diz ele, na sua justificativa, que os recursos serão todos usados em ação de combate a evolução do Covid-19. 

Para o empresário, é óbvio que o “sacrifício” precise vir dos trabalhadores. Afinal, sua categoria precisa seguir garantindo lucros. Já a elite brasileira, que segundo os últimos números chega a pouco mais de 200 famílias  e amealha mais de um trilhão de reais, é intocável. Nada de taxar a riqueza. Os trabalhadores que paguem a conta. 

Mas, a proposta de Izar ainda era insuficiente, e o governo decidiu dar uma “melhorada”, partindo do que aventara o Ministro da Economia Paulo Guedes, que já vinha ameaçando os trabalhadores com medidas dessa natureza bem antes do coronavírus. 

As informações sobre a nova PEC dão conta de que a redução dos salários deverá ser de 25% e não 20, como propunha o deputado do PP. E mais, em vez de durar só enquanto houver a “crise do coronavírus”, deve se estender até o fim de 2024. E os jornalistas boca-alugada festejam que a medida vai pegar “apenas” os que ganharem mais de três salários mínimos. Rodrigo Maia, presidente da Câmara já apelidou a PEC de “orçamento de Guerra”. Uma guerra na qual a bucha dos canhões serão os trabalhadores. 

Mas não é só isso. A PEC que deverá ser discutida na próxima semana no Congresso ainda prevê congelamento dos salários - já reduzidos  - até dezembro de 2022, alteração nos planos de salários que impliquem em aumento, e o congelamento das contratações. 

A canalha é insaciável.

Se isso passar, vai se somar a outras medidas que já atingem os trabalhadores da iniciativa privada os quais também poderão ter seus salários reduzidos. O governo diz que vai pagar até 80% deles e mais uma vez os jornalista boca-alugadas festejam como se fosse uma grande coisa. 

Assim que a tal “crise do coronavírus” servirá para, mais uma vez os representantes da classe dominante, que comandam o Congresso, tirarem o couro dos trabalhadores. 

Resta saber como será a organização dos trabalhadores nesse momento. As sessões poderão ser virtuais e muita gente está em casa. Não se vêem lideranças de esquerda ou sindicais tomando à frente nesse debate. Cada um está sozinho. 

O que é certo é que tirar o pão da boca dos trabalhadores provavelmente renderá bem menos do que taxar em apenas 1% os mais ricos do país. A escolha do governo é absolutamente esperada. Salvar os ricos e escalpelar os trabalhadores. Não há novidades. Esperamos que a novidade venha da luta. Porque se algo essa pandemia deixou bem á mostra foi a verdade que muitos ainda não conseguiam ver: só os trabalhadores geram riqueza. Sem eles, não há economia e não há vida.


quinta-feira, 23 de janeiro de 2020

Novo ataque à UFSC - Entenda o caso



A Corregedoria-Geral da União publicou uma portaria na qual pune o reitor da UFSC, Ubaldo Balthazar, com suspensão do cargo, e ainda aplica uma advertência à vice-reitora Alacoque Lorenzini Erdman e ao Diretor do CSE, Irineu Manoel de Souza. Segundo a portaria a punição diz respeito ao fato de o reitor ter nomeado Ronaldo Davi Viana Barbosa como Corregedor-Geral da UFSC, depois de discussão e aprovação no Conselho Universitário.

Para compreender esse episódio é necessário voltar a outro, que acabou causando, inclusive, a morte do reitor Luiz Carlos Cancellier, em dois de outubro de 2017, quando ele se atirou do sétimo andar do Centro de Compras Beira-Mar. Cancellier tinha sido denunciado por obstrução de justiça, justamente pelo então corregedor da UFSC, Rodolfo Hickel do Prado. A denúncia levou a uma operação policial na UFSC que prendeu o reitor e o submeteu a uma série de constrangimentos e humilhações, culminando com a decisão de afastá-lo da universidade. Cancellier se viu envolvido em um escândalo de desvio de 80 milhões de reais, conforme divulgava a mídia da época e que, depois, com o andar da carruagem caiu para 300 mil. Notícias enviesadas e mal apuradas levaram a manifestações bastante fortes da comunidade universitária contra Cancellier, a tal ponto de até no velório do reitor haver pessoas, aos gritos, desrespeitando sua memória.

Cancellier, que havia sonhado uma vida inteira com a reitoria, viu sua reputação ser destruída em poucos dias. Não podia falar com os colegas, não podia sequer entrar na UFSC. Seu gesto desesperado chocou a instituição que tinha sido muito lenta na defesa do reitor. Nos dias que sucederam a denúncia e a prisão, poucos se manifestaram em apoio e o nome de Cancellier ficou manchado como aquele que havia roubado os 80 milhões. Na verdade, a denúncia fora por obstrução e não por roubo. O que o corregedor alegava era que Cancellier sabia do uso indevido do dinheiro e não investigou o caso, apesar de ter sido alertado. Mas, para a mídia e para a opinião pública isso não estava claro. O reitor aparecia como um ladrão. Cancelier não suportou.

Os dias que se seguiram a morte de Cancellier foram pesados na UFSC. A investigação policial não apresentava qualquer prova sobre a suposta obstrução realizada por Cancellier e a instituição foi percebendo que todo o espetáculo montado durante a prisão tinha sido uma exagerada ação que beirava o desmando e o abuso.

Internamente, o corregedor-geral Rodolfo Prado passou a ser visto como o responsável pela morte do reitor, visto que partira dele a denúncia. Ele bancou a denúncia que fez e seguiu trabalhando normalmente, mas logo pediu afastamento por licença médica e depois mais 30 dias de férias. A reitoria decidiu por exonerá-lo do cargo em fevereiro de 2018, alegando a necessidade da manutenção da harmonia após o tumulto causado pela Operação Ouvidos Moucos. A UFSC ficaria então sem um corregedor-geral. Assim, depois da exoneração de Rodolfo, o reitor decidiu nomear Ronaldo Davi, que já era corregedor auxiliar, para assumir como corregedor-geral. A CGU foi consultada e declarou não haver nada desabonador contra ele. Por conta disso, quando encerrou o mandato tampão, Ronaldo foi reiterado como corregedor-geral, para novo mandato.

Nesse ínterim as disputas envolvendo o cargo seguiam se fazendo e Ronaldo chegou a ser denunciado em um Processo Administrativo Disciplinar (PAD), por não cumprimento de horário e retirada de documentos sem autorização quando ainda era corregedor auxiliar. Esse PAD foi aberto na CGU com alegações de que o clima era instável na UFSC por conta da operação que levara o reitor à morte. A reitoria da UFSC alega que não sabia desse PAD aberto em maio de 2018, quando Ronaldo já era o corregedor-geral, e só foi informada numa segunda nota técnica encaminhada em 2019, a qual solicitava que Ronaldo não fosse reconduzido como corregedor-geral.

Um parecer sobre as notas da CGU foi solicitado pelo Conselho Universitário e escolhido o relator: o diretor do CCJ, professor José Isaac Pilati, que coloca por terra as alegações da CGU considerando as notas técnicas equivocadas e sem sustentação jurídica. Assim expressa o documento: “com muita habilidade, o texto (no caso, da segunda nota técnica) inseriu ocorrência posterior, para vincular a nomeação perfeita a um processo administrativo disciplinar movido a poster/or/ contra ele, Ronaldo; a misturar as coisas de modo a extrair consequência jurídica estranha ao caso, ou seja, para pleitear a anulação ab ovo da nomeação válida e perfeita ao seu tempo”. E, com base na argumentação do relator, o Conselho decidiu por manter a decisão de nomeação de Ronaldo como corregedor-geral para mais um mandato de dois anos.

Ocorre que a CGU não aceitou a decisão do CUn e decidiu por afastar o corregedor nomeado das funções de técnico-administrativo por 60 dias, tentando impedi-lo também de entrar na UFSC . O reitor e o Conselho Universitário consideraram a decisão da CGU como um ataque à autonomia e decidiram mantê-lo no cargo. E foi isso que acabou gerando o Processo Administrativo contra o reitor e todos os que participaram na sessão do CUn, que agora culmina com essa punição.

Na época, a maioria dos conselheiros, ao ser notificada do PAD, que é uma investigação interna, decidiu entrar na Justiça contra a decisão, pois, afinal, tinham votado num parecer apresentado pelo relator do tema, um jurista, e que garantia ser completamente legal a indicação de Ronaldo. O processo se extinguiu, mas a CGU conseguiu desmembrá-lo e reabriu novo PAD contra aqueles que não haviam ingressado na justiça, no caso, os três agora punidos. Lendo os documentos, que estão disponíveis na plataforma Solar, parece claro que a UFSC tomou a decisão acertada, sem qualquer dolo para a instituição.

Na imprensa, como sempre, o caso aparece como uma coisa isolada e as pessoas envolvidas são apresentadas como criminosas. A verdade é que o tema tem suas implicações políticas e o pano de fundo é a luta pela autonomia da universidade, que está na Constituição, no artigo 207, mas que mesmo assim encontra dificuldades para ser reconhecida ou respaldada. É na verdade mais uma batalha na guerra deflagrada contra as instituições federais de educação. Por isso que dizer meias-verdades, ou não contextualizar a notícia, pode provocar ainda mais desinformação.

A imprensa segue sendo irresponsável.

O diretor do CSE, Irineu Manoel de Souza, que na época da abertura do PAD decidiu não entrar na Justiça, acabou penalizado justamente por ter confiado no processo interno. Ele afirma que o conselheiro tem por obrigação votar em qualquer processo, contra ou a favor, e seu voto é balizado pela decisão apresentada pelo relator. Na época, nada havia no parecer do relator que significasse irregularidade, daí o seu voto favorável. Agora, com essa punição, que considera injusta, ele deverá recorrer na justiça comum.

Nessa sexta-feira, o Conselho Universitário se reúne para discutir o tema.

quarta-feira, 22 de janeiro de 2020

Já fomos mais valentes na UFSC


Quando o horário especial de verão terminar centenas de trabalhadores da UFSC e milhares de estudantes terão suas vidas transformadas radicalmente, pois a reitoria decidiu voltar atrás em uma decisão que já levava mais de um ano e que fora promessa do ex-reitor Luís Carlos Cancellier: a extensão do horário de atendimento, com a universidade aberta das sete da manhã às 22 horas.  Essa medida permitia que os estudantes pudessem ter acesso aos serviços da universidade tanto no horário do almoço quanto de noite e também garantia os turnos de seis horas seguidas para os trabalhadores. 

A reivindicação por uma UFSC de portas abertas é antiga, pois justamente nos horários do meio dia e à noite é quando os estudantes têm mais tempo para realizar as atividades burocráticas que exigem os serviços da universidade. Só que sem o horário estendido os estudantes dão com a porta na cara. Para os trabalhadores também foi uma vitória importante, pois garantiu os turnos de seis horas, o que melhora o atendimento e também a qualidade de vida de quem trabalha. Não foi coisa fácil de ser conquistada, exigiu muita luta. E quando finalmente essa reivindicação teve acolhida junto a um reitor, foram igualmente necessárias muitas reuniões, estudos e trabalho para comprovar a possibilidade de realizar os turnos, bem como a sua eficácia. 

Todo esse trabalho foi feito e finalmente os setores da universidade começaram a atuar nos turnos de 12 horas seguidas ou mais, se considerarmos os Centros que têm aula à noite. Para os estudantes abriu-se um universo, visto que puderam ter mais tempo para realizar as tarefas, e para os trabalhadores, igualmente, pois conseguiram organizar a vida garantindo mais tempo para a família.

Ocorre que no final do ano passado, pressionado pela Procuradoria Geral da União, o reitor decidiu por suspender as portarias que garantiam a flexibilização do horário dos trabalhadores. O tema foi amplamente discutido pelos trabalhadores que apresentaram ao reitor os seus argumentos para que não houvesse retrocesso no atendimento. Segundo os trabalhadores a decisão representaria um profundo descontrole na vida pessoal de todos os que faziam o turno de seis horas, pois a vida já estava estruturada no novo horário: tais como horários de escola dos filhos, cuidado com os pais, etc... Também foi argumentado que diante de ataques tão violentos por parte do governo federal à universidade, era bastante perigoso ceder diante de uma ameaça. Falou-se da necessidade de chamar os procuradores e o Ministério Público para uma conversa na qual fosse possível mostrar a especificidade da universidade, que não é uma fábrica de salsichas.  Mas, nada comoveu o reitor Ubaldo Balthazar. Conforme confirmou em reunião aberta com os técnico-administrativos, ele não estava disposto a colocar o seu CPF em risco, afinal, uma ação do Ministério Público poderia até criminaliza-lo. 

Ao que parece, os tempos são duros. Não há quem queira enfrentar o estado e o judiciário policialesco que temos no momento. A saída tem sido ajoelhar-se, ceder. E mais, além de acabar com a ampliação do atendimento, a reitoria também vai atender a sugestão do Ministério Público e instalar o relógio-ponto. De novo, cede, sem que se leve em conta o tipo de trabalho realizado na universidade. O desejo do governo federal, de desqualificar os trabalhadores da educação, está sendo fielmente cumprido pela administração. 

Do lado dos técnico-administrativos, os sentimentos são dúbios. Há os que se colocam contra essas medidas por sua completa inadequação histórica. Avançou-se muito no processo de trabalho para que tudo se perca agora. E há os que sentem medo, muito medo. Estão acossados pela campanha sistemática realizada pelo governo federal contra os trabalhadores públicos e temem por seus empregos. A queda de braço com a reitoria ainda não conseguiu sair dos gabinetes e das reuniões.

Quando fevereiro chegar a vida retorna ao normal na universidade e é quando se poderá medir a força real dos trabalhadores, que voltam tendo de cumprir o novo horário. Por enquanto tudo é apatia e a instalação do ponto já está marcada para março quando também chegam os estudantes que voltarão a encontrar a universidade fechada nos horários que mais precisam. 

Tá tudo calmo por agora, mas nós já fomos mais valentes. 



quarta-feira, 18 de dezembro de 2019

Helena

Foto: Helena, com Brenda Piazza. Aqui, de novo, no apoio concreto às novas lideranças, durante uma das campanhas eleitorais.


Hoje vou falar de uma pessoa muito especial que é uma referência para mim: Helena Dalri. A conheci quando cheguei à UFSC em 1994. Funcionária nova, na primeira assembleia da categoria tratei de ir para saber a quantas ia a luta dos trabalhadores públicos, categoria a qual eu me integrava. Naqueles dias as assembleias eram realizada no Restaurante Universitário, porque eram sempre gigantescas. Já nas primeiras falas, de análise da conjuntura e nas proposições, vi que a direção não era de esquerda e que havia um grupo bem articulado fazendo oposição. A Helena era uma das pessoas que faziam parte do grupo. Alta, forte, firme na fala, ela logo chamou minha atenção. Ali estava uma liderança, pensei. E era.

Poucas assembleias depois eu já decidira me integrar ao Movimento Alternativa Independente, grupo do qual Helena fazia parte, junto com outras figuras importantes da luta na UFSC tais como Silva, Maneca, Valcionir, Moisés, Ângela, Aldo, Silvana. Em pouco tempo já estávamos articulando chapa e em 1997 vencemos as eleições para o Sindicato. Pegamos uma bucha. Havia uma dívida de 500 mil reais. Helena era a presidente. Poucas vezes na vida pude trabalhar junto com uma pessoa tão íntegra e tão firme nas suas convicções. Aparentemente dura no trato, ela é de uma doçura e generosidade incomensuráveis. Os reitores a temiam e ela era mesmo implacável na defesa dos direitos dos trabalhadores. Sob a sua batuta entramos no Sintufs e, em um ano, já tínhamos quitado todas as dívidas deixadas pela gestão anterior. Trabalho sério, honesto, comprometido.

Durante todo o tempo em que atuamos juntas no sindicato e mesmo depois que ela saiu da direção, todos nós que chegamos nos anos 1990 pudemos aprender sobre como atuar na luta sindical e como administrar um sindicato sem perder a noção de que aquilo ali é um espaço de toda a categoria, coletivo, único. E que, cuidá-lo, é como cuidar de cada um e cada uma. Com ela enfrentamos as feras cotidianas da UFSC, as batalhas na Fasubra, as negociações com a Fapeu, as quedas de braço com os reitores. A liderança que Helena exercia sobre os trabalhadores era tão forte que a uma palavra dela as gentes seguiam sem pestanejar. Quantas ocupações da reitoria fizemos a partir de seu sinal. Um braço levantado, seu corpo gigante na frente, e lá íamos todos nós, na certeza de que ela nos conduziria bem.

Quando veio o governo Lula ela já não estava mais no sindicato. Tinha deixado o espaço aberto para as novas lideranças que surgiram durante a década dos 90. Mas, não faltava uma assembleia sequer, sempre de olho e pronta a puxar as orelhas de quem não atuava como tinha de ser. Muitas batalhas travamos também, inúmeras vezes na divergência. Só que Helena nunca permitiu que a política interferisse nas relações pessoais. Podíamos bater boca nas assembleias , mas não faltava o abraço, o sorriso e o companheirismo. E mesmo quando muitos companheiros nos abandonaram por conta da nossa crítica ao Lula, ela continuou nos acolhendo no seu abraço caloroso. Nunca se perdeu de nós, seus aprendizes. E eu sempre serei grata por isso. Afinal, esse foi mais um ensinamento.

Hoje a Helena está aposentada e já não atua mais diretamente nas lutas sindicais da UFSC. Mas, isso não significa que ela está fora do mundo. Não. Segue atenta, apoiando sempre as lutas que são travadas. E continua igualmente atenta às novas lideranças que vão surgindo, no suporte, e ensinando.

Sempre que eu penso em sindicato e em como viver essa passagem de atuação coletiva, a imagem que me vem é definitivamente a da Helena. Seu exemplo, seu cuidado, sua vontade férrea, sua capacidade de trabalho. Não consigo imaginar a vida dos trabalhadores da UFSC sem sua figura altaneira. Com ela nasceu o sindicato, com ela realizamos as mudanças mais significativas da entidade, com ela aprendemos sobre companheirismo, dignidade, força e humildade.

Eu a reverencio como uma das mais importantes pessoas que já passaram pela UFSC, deixando sua marca indelével. E eu a amo profundamente. Gracias Helena, por tudo que és e representas! Inesquecível. Eterna!


quarta-feira, 11 de setembro de 2019

"Vão estudar".

Foto: CSE com o bloco de aulas fechado pelos estudantes.

Os estudantes da UFSC realizaram assembleia e definiram por realizar uma greve contra os cortes nas universidades e a proposta de privatização do governo federal. A notícia saiu na mídia comercial, como sempre toda retorcida e sem a devida contextualização. Nos comentários, o horror. Toda a sorte de lugares comuns e preconceitos historicamente plasmados contra os estudantes e a universidade. Para uma boa massa de pessoas comuns o povo que frequenta universidade é tudo maconheiro, vagabundo e vive fazendo greve porque gosta de fazer bagunça em vez de estudar.

A verdade é o seu contrário. O povo que faz greve é justamente aquele que quer estudar e não pode. O corte efetuado pelo governo federal inviabiliza o ensino e todo o trabalho de pesquisa e extensão da universidade. E o governo ainda está ameaçando com mais cortes. Esse ano já cortou 30% do orçamento e ano que vem vai cortar mais, chegando a quase 50%. Ou seja, Com isso, não há universidade e ninguém poderá estudar. Ou melhor, só os mais endinheirados, que podem pagar por uma escola privada. Então, a maioria estará fora. É por isso que os estudantes estão em greve. Porque querem estudar.

Uma greve não acontece porque as pessoas são vagabundas. É o contrário também. Trabalhador que faz greve quer trabalhar e ganhar um salário que permita viver. Estudante que faz greve quer uma escola melhor para poder ser melhor.

Fico pensando se essas pessoas que falam mal dos estudantes conseguem perceber que quando vão a um médico, a um dentista, quando precisam de um engenheiro, um arquiteto, um enfermeiro, um professor ou quando usam alguma máquina ou eletrodoméstico, estão diante de algum “vagabundo” que um dia estudou para garantir saúde, educação, segurança, moradia, conforto?

Será que não conseguem ligar os fios e entender que a universidade é o lugar onde se formam profissionais que vão atuar no cotidiano de cada um, onde se fazem as pesquisas que vão impactar a vida de cada um? Sem a universidade não tem gente capacitada para exercer determinadas funções que são importantes para a toda a sociedade.

Portanto, em vez de xingar os estudantes, as pessoas deveriam cobrar do governo federal o cumprimento da Constituição. Porque descumprir a lei magna sim é que vagabundagem e vilania. E a Constituição determina que todos os brasileiros têm direito a educação superior com garantia de permanência. Se é assim, como o governo corta os valores que garantem a manutenção das federais?

Então, em vez de ofender quem está lutando por um país melhor, procure se informar e apoiar a luta por uma universidade pública, gratuita e de qualidade. Ela é um direito, inclusive, teu.


quinta-feira, 23 de maio de 2019

Por um sindicato de luta, outra vez!


Essa foto mostra um momento de grande alegria. Foi em 1997, na posse como diretora do Sintufsc. Nosso sindicato andava mal das pernas e o grupo do Movimento Alternativa Independente (MAI) se mobilizou para recuperá-lo. Foi um trabalho bonito de visitas nos setores, discussão e construção de propostas. Eu tinha chegado à UFSC em 1994, tinha apenas três anos de casa, mas logo já fui percebendo quem realmente queria lutar pelos trabalhadores, sem outros interesses por trás. E, já nas primeiras assembleias vi que o caminho era o MAI.

Fui acolhida com muito carinho pelo grupo que contava com figuras importantes no processo de construção do sindicato dos trabalhadores desde os anos 1980: Silva, Maneca, Helena, Ângela, Moisés, Valcionir, Parú, Silvana, Aldo, Sebastião, enfim, um grupo de gente guerreira, capaz de comandar as lutas que precisavam ser feitas naqueles tempos do privatista e neoliberal Fernando Henrique Cardoso. Tivemos uma eleição bem disputada, contra toda a máquina da reitoria, que sabe muito bem como “atrair” os eleitores. Vencemos.

Pegamos o sindicato com uma dívida de 500 mil reais e, em um ano, com muito trabalho e criatividade, zeramos a dívida, conduzindo o sindicato para o caminho da luta. Foram lindos anos. Lembro-me desses momentos sempre com muita ternura, porque ali, no Sintufsc, encontrei aqueles e aquelas que iriam tornar-se grandes amigos, amigos da vida, para sempre. E aprendi preciosas lições sobre solidariedade, humildade, justiça e capacidade de luta.

Depois de alguns anos, e já no governo petista, perdemos o sindicato. Foi um período muito turbulento, pois a esquerda dividiu-se entre os que apoiavam incondicionalmente o governo e os que acreditavam que precisavam seguir independentes e em luta. Nesse processo, nos dividimos. Foi ruim porque o grupo que assumiu o sindicato iria seguir o caminho da acomodação, como a maioria. E nesses anos todos, poucas lutas reais foram encaminhadas. Chegamos ao cúmulo de ver uma greve histórica, a greve interna das 30 horas, ser derrubada pelo próprio sindicato numa assembleia dramática, na qual os colegas aposentados foram recrutados e terminaram a greve por nós. Impossível esquecer isso.

Agora, estamos de novo com um bom grupo de trabalhadores querendo trabalhar e lutar. Gente nova misturada com gente mais experiente nas lutas. Todos querendo um sindicato de luta, outra vez. A sorte está lançada. Disputarão duas chapas: a Chapa 1, que é a nossa, chama-se TAEs Unidos – Juntos somos mais fortes. E a chapa 2, que é a que representa o continuísmo.

Os trabalhadores sabem muito bem que esse é um tempo de grandes batalhas. Tudo está ameaçado, inclusive a universidade. Por isso não é hora de vacilar. Peço a todos o voto na Chapa 1, a qual tenho a honra de integrar. Porque eu acredito nessa rapaziada, nessa gente cheia de vida e de vontade de construir um sindicato capaz de encaminhar as peleias que virão.

É hora de mudar. Chapa 1 – TAEs Unidos.







domingo, 26 de agosto de 2018

Sobre o direito de se manifestar na UFSC


Entrei na UFSC no ano de 1994. Fui trabalhar na Agecom sob as vistas do Moacir Loth e Raquel Moysés, dois jornalistas extraordinários. Ali aprendi a amar a UFSC. Não com esse amor bobo, de trabalhador acrítico, que veste a camisa pra agradar patrão. Mas com o amor compromisso, de quem sabe a importância que pode ter uma casa de saber quando for verdadeiramente popular. Um amor crítico também, capaz de enxergar as coisas erradas e denunciar. Como quando quase perdi o emprego por denunciar em nível internacional o assassinato de cachorros no HU, que eram usados pelos estudantes e jogados no lixo, ainda vivos. Aquilo foi um furdunço, minha cabeça quase rolou.

Mas, foi justamente esse episódio que colocou em questão a tal da liberdade de expressão. Como jornalista na UFSC eu deveria fazer vistas grossas ao crime? Ou, de maneira responsável, denunciar e provocar a mudança? Creio que fiz o que era certo. Mas, não faltaram os censores, os apontadores de dedo, os críticos do jornalismo. Acreditavam esses que, proteger e amar a UFSC era ficar calado diante do horror. Não eu. E, com o apoio do chefe e dos colegas, venci essa parada. 

Depois, ainda na Agecom, mas sob outra chefia, vivi a dor da censura. Matérias feitas que iam para o lixo, trabalhos que não me permitiam fazer, a voz calada, a impossibilidade da expressão. Foi um tempo ruim, duro e triste. Mas, superei. Encontrei em meio a toda essa dor, o caminho para a construção do IELA, onde hoje atuo. E da voz sufocada, da censura e da impossibilidade, voltei a escrever e dizer das coisas da UFSC e da América Latina. Porque é a alma do jornalismo ser crítico. Ou isso, ou não é jornalismo. 

A UFSC sempre foi esse espaço contraditório. Em alguns lugares impera o conservadorismo, o reacionarismo, o desrespeito. Em outros aflora a liberdade, a beleza, a comunhão. É uma instituição pública e, como tal, abriga a pluralidade que existe na sociedade mesma. E, cada um de nós, professores ou técnicos, temos a liberdade de expressar o que quisermos. Em alguns cantos é mais difícil que outros, mas é a batalha normal da vida. A gente enfrenta e avança. 

Foi por se saberem numa instituição pública e afeita a democracia que trabalhadores, estudantes e membros da comunidade expressaram sua dor e sua inconformidade com a tragédia que se abateu sobre o reitor Luiz Carlos Cancellier, preso de maneira violenta, levado ao presídio e impedido de entrar na UFSC por conta de uma denúncia de “obstrução de justiça”.  

Era o dia da celebração do aniversário da UFSC. E era para ser uma data festiva. Mas, não foi. O Cao havia se matado. Jogara-se do alto do xopingue por não suportar a dor de ser banido da universidade, espaço que amava a mais não poder. A dor, para os amigos, a perplexidade para os conhecidos, o estupor até para os inimigos. Ele sequer completara metade da gestão. Sua figura galhofeira, sempre com o cigarro entre os dedos, não mais circularia pelo Hall da reitoria em busca de espaço para “fumaçar”.  Fora levado à morte por uma ação truculenta e desnecessária. 

Naquele dia, que deveria ser de festa, as gentes ainda estavam de luto. Mas, a UFSC tinha de seguir em frente, então se decidiu que o que era para ser festa, seria celebração da vida e protesto. Foi assim que as gentes da comunidade construíram faixas, cartazes e palavras de ordem. E foram para o Hall onde estavam as autoridades. Aquele dia de aniversário seria diferente e inauguraria a foto do Cao na galeria dos ex-reitores. E os amigos, colegas e companheiros se manifestariam contra os abusos que tinham sido praticados pelos agentes do poder público, da polícia e da justiça. Colocaram seus nomes e rostos em relevo, para lembrar que a ação fora praticada por pessoas, com nome e sobrenome. Porque o Estado não é um ente, ele é feito de gente. 

Aquele foi um dia triste. Para todos. 

Pois agora, passados meses daquele momento, o atual reitor, Ubaldo Balthazar,  e seu chefe de gabinete, Áureo Moraes, foram denunciados por um procurador do Ministério Público, Marco Aurélio Dutra Aydos, por, segundo ele, ofender a honra da delegada que conduziu a prisão de Cancellier, Érika Marena. Isso porque ela era um dos rostos estampados nas faixas das pessoas que protestaram. O procurador quer que os dois paguem uma multa de 15 mil reais por danos morais, quantia estipulada pela própria delegada. Alega ainda que os dois, reitor e chefe de gabinete, deveriam ter impedido a manifestação. 

Ora, desde que a UFSC foi inaugurada, nos anos 60 do século passado, as pessoas protestam por aqui. E nem mesmo na ditadura militar algum reitor impediu a livre manifestação. É fato que sempre foi comum o chamamento da polícia para conter as manifestações. Mas elas nunca foram de fato impedidas. As pessoas ficam ali, enfrentam a polícia, gritam, levantam seus cartazes. 

Agora imaginem num dia de luto e tristeza, quando as pessoas precisavam expressar sua indignação e quando todos ali estavam irmanados no mesmo sentimento de impotência diante da morte trágica? Quem haveria de impedir que ação se fizesse? Cada um e cada uma que se somou naquele hall estava ainda vivendo a perplexidade. E os rostos dos algozes do reitor morto era uma necessidade do luto. 
Nem o reitor, nem o chefe de gabinete teriam podido impedir a manifestação. Não o fizeram nem no próprio velório do reitor, quando uma estudante se manifestou em protesto contra o reitor morto. Porque a expressão ainda é livre nesse país, o qual muitos ainda chamam de democracia. Porque as pessoas ainda podem gritar, protestar, denunciar. E, a considerar a “normalidade” da UFSC, se a manifestação não estava colocando em risco ninguém, que motivos haveria para impedi-la?

Não posso entender o que moveu esse procurador público a tornar “crime contra a honra” um grito de dor, um protesto legítimo.  Penso que numa democracia – como dizem os juízes do Lava-Jato – ninguém é intocável. Sendo assim, os agentes públicos estão todos submetidos à mesma assertiva. Também podem cobrados, criticados e denunciados. 

Assim, nesses dias de imobilidade e medo, quando tudo nos convida ao silêncio assustado, venho manifestar esse velho amor pela UFSC, que extrapola os dirigentes se plantão. E nesse amor, manifestar também minha solidariedade aos colegas Áureo e Balthazar. E dizer que nessa específica batalha, pelo direito de garantir a livre expressão da dor, estamos juntos. 

quinta-feira, 26 de julho de 2018

A injustiça, minha mãe, Juliane e ódio são

Uma impotência tão grande

Hoje, durante a reunião com a trabalhadora Juliane de Oliveira, na sala da diretora da Prodegesp/UFSC, onde ela foi chamada para assinar sua exoneração, depois de um processo totalmente irregular, só tive olhos para duas pessoas: seus filhos. O maior, talvez de uns treze anos, ficou atrás da mãe, encostado à parede, com olhos de espanto. A menina, pequena, ficou no colo, e, talvez, sentindo o bater acelerado do coração de Juliane, não parava de chamar por ela: mamãe, mamãe, como se ali, naquele nome, encerrasse todo o medo que parecia sentir. Uma cena de cortar o coração.

Num átimo, aquela imagem de impotência da pequena família acossada pela injustiça, me remeteu a um passado bem distante, na velha São Borja, quando minha mãe foi até a casa de um falso amigo de meu pai que tinha nos tirado tudo. Naqueles dias, o homem cobrava umas promissórias que meu pai, inadvertidamente, tinha assinado para ele, em confiança, sem saber que na verdade estava entregando a casa e tudo o que havia dentro.

Meu pai estava longe, em Minas, e o homem chegou à nossa casa com os oficiais de justiça para tirar os móveis e tudo o que lá havia. Foi um terror ver cada pequena coisa carregada de história sair para nunca mais. Deu-nos, então, 30 dias para abandonarmos a casa que tomara para si, basicamente roubando. Eram minha mãe e os três filhos, ela, sozinha, contra a raposa. Quando já estourava o prazo para deixarmos a casa ela foi até o apartamento dele pedir mais tempo. Não tínhamos para onde ir e já não tínhamos sequer o que comer. Todas as coisas tinham sido levadas e nós sobrevivêramos vendendo nossas roupas. Tínhamos então cada um apenas duas mudas de roupa. Dos móveis só sobrara a máquina de costura da mãe, que uma vizinha escondera. Dormíamos no chão nu.

Aquela foi uma noite violenta e inesquecível. Minha mãe implorando ao homem que nos roubara. Não havia sentido. Eu, que deveria ter uns 13 anos, e meu irmão, com nove, estávamos ao seu lado, tentando dar a força que necessitava, mas tão assustados quanto ela. A família do homem nos rodeara, e as crianças, que antes eram nossas amigas e brincavam conosco, agora nos humilhavam dizendo: “acaba com eles, pai, acaba com eles”. Foi talvez a coisa mais dolorosa que nos aconteceu, e tanto, que durante anos eu planejei vingança.

O fato é que o homem não teve misericórdia e nós tivemos de abandonar nossa casa, construída anos a fio, com tanto sacrifício. Saímos dali com a roupa do corpo e a máquina de costura no rumo do desconhecido. Meu avô tinha acabado de morrer. Era um momento terrível. E nós fomos embora com num pau-de-arara ao contrário, para Minas Gerais. Nunca esqueci. O ônibus saindo de São Borja e as lágrimas caindo diante da injustiça e do medo. E eu jurando vingança ao melhor estilo de novela mexicana.

Minha mãe era uma leoa. Mesmo longe ela não se abateu e continuou lutando para provar que a casa era nossa e que o homem tinha enganado meu pai. Ela moveu céus e terra, nunca esmoreceu e anos depois, conseguiu a casa de volta. Já tínhamos comido o pão que o diabo amassou e ela desenvolvera uma tuberculose, já tinha vindo a fome, o abandono, tudo de ruim. Mas, ela, enfim, venceu. No dia em que recebeu o dinheiro da casa, saiu conosco, os três filhos, e disse: comprem o que quiserem. Voltamos para casa com um aparelho de som último tipo e os discos da Maria Bethânia e do Zé Ramalho, além de um jogo de sofá. Foi apoteótico.

Mas, apesar da vitória com relação à casa, aquela noite de profundo medo e humilhação no apartamento do bacana nunca saiu de mim. Assomava, vez em quando, nas noites cálidas de Minas e a vingança chamava. Armei planos mirabolantes e voltei para São Borja. Meu plano era matá-lo e me preparei.

Passados tantos anos cheguei a São Borja pronta para cumprir meu destino e quis a providência que no primeiro dia eu já soubesse sobre ele. Algumas desgraças tinham se abatido sobre a família e eu já comecei a fraquejar. Mas, o que me derrubou mesmo foi encontrar a garota, que era minha amiga, e que gritara naquela noite: “acaba com ela, pai”, num supermercado. Ela era uma sombra, um escombro. Saí dali, bati o pó das sandálias e nunca mais voltei. Não necessitava vingança. A vida havia se encarregado.

Ainda assim, nos meus sonhos, em noites frias de inverno, quando bate o vento norte, eu acordo sobressaltada ouvindo aquelas vozes, vendo aquele esgar de ódio, e sentindo outra vez o desejo da vingança. Aquilo nunca saiu de mim. Minha mãe, ali, tão frágil, diante da tragédia.

E foi essa mesma fragilidade que vi naquela sala, na Prodegesp. Juliane, acossada diante da injustiça, com seus verdugos marcando o ponto onde deveria assinar sua exoneração com um sorriso na boca. E os filhos com aquele olhar de medo, de não-sei-quê. Como podem? Como podem infligir tamanha dor? Foi assim que me veio de novo esse ódio, esse desejo de vingança, como naquela longínqua noite em São Borja. Porque sei que esse será um momento indelével para aquelas crianças. E isso é imperdoável.

O bom é que ao contrário da solidão da minha mãe, Juliane estava amparada por vários colegas, trabalhadores da UFSC, que estão lutando lado a lado com ela. E quando saiu dali, saiu em comunhão. Isso pode mudar tudo. E talvez a marca daquele momento se esboroe. Não sei...

O que sei é que, tal qual minha mãe, Juliane é leoa, e vai vencer.

Já eu, não sei, estou aqui, espumado...

sexta-feira, 8 de junho de 2018

A UFSC, os trabalhadores e a batalha do estágio probatório




Caso Juliane expõe as vísceras da arbitrariedade que envolve estágio probatório

O Brasil vive um momento conjuntural convulsionado, saindo a poucos dias de uma paralisação geral provocada pelos caminhoneiros e que, infelizmente, não contou com a adesão das centrais sindicais. Caso os trabalhadores tivessem subido nesse bonde as coisas poderiam passar diferente. Não passaram. A greve dos caminhoneiros acabou, o diesel não vai baixar, a gasolina subiu e tudo segue na paz.

E, se no Brasil o negócio está assim, imaginem na universidade. A vida segue entre teses, dissertações, trabalhos finais, burocracias e gestão de projetos. E no campo das relações de poder, a vida é ainda mais complicada, pois o coronelismo é um fantasma cujo ectoplasma segue visível e forte.

Nessa sexta-feira esperava-se que uma batalha travada por um grupo de técnicos-administrativos, bem como pelo sindicato, referente a anulação de uma decisão de exoneração de trabalhadora pública em estágio probatório pudesse ser resolvida no âmbito das negociações internas. Já há algum tempo que a decisão vem sendo questionada e nas idas e vindas da administração e a esperança era de que agora as coisas se resolvessem. Não foi assim.

Tal qual aconteceu no caso do trabalhador Daniel Dambrowski, a argumentação dos TAEs e do sindicato era de que a comissão que definiu pela avaliação insuficiente cometeu equívocos graves e foi arbitrária. A trabalhadora em questão, Juliane de Oliveira, que exerceu seus primeiros meses de trabalho no Hospital Universitário, ao que parece foi mal avaliada porque reclamou de estar em um espaço insalubre e pediu para ser removida. Vale ressaltar que quando pediu para sair do HU Juliane estava grávida e, depois, lactante, portanto, em pleno direito de querer um espaço que não causasse dano ao bebê. O mais grave é que o período no qual Juliane trabalhou depois de sair do HU não foi levado em conta na avaliação. O sindicato e os TAEs denunciam perseguição, ilegalidades e a negação do direito ao contraditório.

Ocorre que no âmbito do trabalhadores técnico-administrativos não há instâncias as quais recorrer em casos assim. A comissão de avaliação é soberana e inquestionável. Diferentemente dos trabalhadores docentes, que podem apelar para mais quatro instâncias antes de ver uma exoneração por desempenho insuficiente acontecer.  

E diante dessa flagrante injustiça, qual a posição da reitoria? "A coisa é assim, nada podemos fazer". Ora, a universidade tem todas as condições de gerir autonomamente sua política de pessoal e pode sim definir instâncias de recurso. Não é possível que uma comissão, que não leva em conta toda a trajetória de um trabalhador, decida, e não possa ser questionada.

A reivindicação dos colegas de Juliane e do sindicato era de que a avaliação fosse revista, com a inclusão do período no qual ela atuou no Departamento de Compras - onde está agora  - e que também fosse levado em consideração a sua condição de grávida e depois, de lactante, no período em que discutiu o ambiente onde estava.

Mas, depois de reuniões e reuniões, o reitor Ubaldo Balthazar decidiu que não iria decidir. E a proposta apresentada foi a de levar o caso ao Conselho Universitário. Uma decisão de Pilates, visto que o CUn, predominante formado por professores, não tem sido sequer imparcial nas suas análises, inclusive nos casos que envolvem sua própria categoria. Basta lembrar o triste episódio de uma professora do Curso de Enfermagem que foi exonerada também por perseguição, por ser “boa demais” com os alunos. Ela entrou na Justiça e venceu, não sem pagar um preço elevado demais pelo sofrimento todo que passou, vindo depois a tirar a própria vida.

O caso envolvendo a trabalhadora Juliane não é exceção. É regra. A vida das pessoas é rasgada e cortada sem dó nem piedade. Se for alguém que questiona, que luta, que atua politicamente, bom, aí a coisa é bem pior. A lógica da “fazendinha” é simples: assuma seu cargo, não abra a boca, não olhe para os lados, não gema, não vá às assembleias, não se mova, obedeça toda as ordens, senão... O chicote canta. E a demissão vem. Juliane reivindicou. Errou aí.

O século XXI já vai chegar à segunda década, mas os trabalhadores públicos da educação, que não são docentes, seguem sendo tratados como joãos e marias-ninguém. Tudo para eles é menos.

Agora, o caso da Juliane vai para o Conselho Universitário. Nova batalha. Não há paz. Mudam as administrações e a UFSC segue como sempre foi. “É assim, não há o que fazer”, diz o reitor. Não. Não é verdade. Vontade política e coragem mudam as coisas. Mas, pelo visto, isso não é para agora.

A luta por Daniel deu um grande ânimo nos trabalhadores, porque foi vitoriosa. Aprendeu-se muito. Agora, a batalha pela permanência da Juliane mostra que a questão do estágio probatório é muito mais complexa do que se supunha. Há coisas tantas para mudar. O caminho é longo. Mas, enquanto houver luta, a vida vai apontando rumos.  



terça-feira, 27 de fevereiro de 2018

UFSC - primeiro dia de aula

Corredor do CSE

Trabalho na UFSC há 24 anos e sempre, a cada início de ano, vivo a mesma emoção: a chegada dos calouros. Nesse dia eu passeio pelo campus olhando as carinhas novas que vêm viver essa rica experiência de estar na universidade. Sempre encontro alguém que se parece comigo, no meu primeiro dia aqui, quando cheguei, aluna, em 1987. Algo perdida, algo feliz, algo curiosa e cheia de esperanças. 

Eu tinha então 27 anos (já era velhinha) e já tentara cursar Jornalismo em universidades privadas. Não conseguira. Trabalhava na área desde há tempos e podia ser considerada uma “macaca-velha”. Mas, queria fazer a faculdade. Só que não tinha dinheiro para bancar uma privada. Sempre tive que desistir pois, na escolha entre comer e estudar, acabava ficando com a primeira, óbvio.  

Foi então que passei na federal e o sonho acalentado por tanto tempo se fez real. Cheguei aqui num fevereiro calorento, munida de tudo o que tinha de meu: uma pequena mochila de lona verde, com algumas roupas e livros. Sem lugar para morar, sem emprego e sem conhecer ninguém. Chegar à UFSC foi uma aventura. Já não era uma guriazinha, mas tinha em mim todos os sonhos. 

E entrar na UFSC mudou minha vida. Aqui conheci aquelas que viriam a ser as amigas do resto da vida. Aqui encontrei o Sérgio Weigert, professor único e inspirador, que me jogou na estrada da filosofia e me apresentou a teoria do Adelmo. Ele virou minhas certezas de pernas para o ar. Ele provocou a revolução. É meu mestre eterno e inquebrantável. Sem ele eu não seria eu.

Entre trancos e barrancos consegui terminar o curso. Não foi fácil. Tinha de estudar e trabalhar. Nunca pude ficar fruindo o campus, a biblioteca e todas essas coisas que os estudantes fazem. Não, precisava andar correndo, saindo da aula para o trabalho, pegando dois ônibus, fugindo ora do estudo, ora do serviço. Mas, valeu. Foi a melhor coisa que me aconteceu.

Por isso, quando vejo essas carinhas sorridentes, algo assustadas, meio ripongas, lembro-me de mim, e me enterneço. Quantos ali não estarão em pânico, como eu, sem saber se chegarão ao fim. Quantos não terão de saracotear desesperados no transporte coletivo, na difícil tarefa se equilibrar estudo e trabalho. Quão dura é a vida da classe trabalhadora. 

Então, ofereço pagos aos deuses e deusas para que encham de força aqueles corpinhos, para vençam todos os obstáculos, para que descubram aqui belezas infinitas, para que se transformem. E que encontrem, nesse lugar, a porta encantada do conhecimento. Não o conhecimento ritualístico, que garante o exercício de uma profissão, mas aquele que lhes permitirá mudar o mundo.  

Então, volto para meu cantinho, deixando que corram algumas lágrimas. Que são de alegria, de pura alegria, por saber que tudo flui e a vida segue. E que os filhos e as filhas da classe trabalhadora seguem desbravando caminhos, a despeito de tudo. 

quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

Irineu: uma história de amor pela UFSC


Irineu nasceu na pequena localidade de Santa Tereza, em São Pedro de Alcântara, o quarto filho de uma lista de oito. Desde pequenino já era determinado. Quando todos saiam para a roça, junto com o pai, ele ia, mas levava o livro e, se dava uma folga, lá estava ele, agarrado às letras. Queria estudar. No primário foi dedicado, e quando chegou a hora de ir para o ginásio, o sonho se desfez. Não havia escola em Santa Tereza. Teria de ir para São Pedro, era longe, não tinha ônibus. Mas, o pequeno Irineu não iria deixar que um detalhe do destino atrapalhasse o caminho. Pediu um porco ao pai, fez uma rifa e com o dinheiro comprou uma bicicleta, com a qual realizava a longa e exaustiva travessia da sua casa até o ginásio. Foi o primeiro dos filhos a se formar.
Terminado o ginásio, os olhos de Irineu voltaram-se para a capital. Haveria de fazer o segundo grau, mas ainda não sabia como. O pai ganhava a vida arando uma terrinha, trabalhando na horta da Colônia Santa Tereza e fazendo bicos de pedreiro, não tinha como sustentar o guri em Florianópolis. Mas, o acaso deu as cartas. Numa dessas festas de igreja, quando lá estava o pequenino a tocar violão, conheceu uma senhora que era dona de uma pensão na capital, bem atrás da Escola Técnica. Fizeram um acordo. Ele morava na pensão e o pai abasteceria a casa com verduras e legumes. Estava feito. Poucas semanas depois Irineu fazia o exame de admissão e entrava na Escola Técnica. Tinha 14 anos e já assumia a dura tarefa de sustentar-se a si mesmo. Durante semanas ele percorreu os escritórios da Felipe Schmidt, até que conseguiu um emprego de contínuo. Tinha 18 anos e a cabeça cheia de sonhos quando viu o anúncio do concurso para a UFSC. Era o que ia fazer. Inscreveu-se, prestou a prova e foi classificado em quinto lugar. Desde aí nasceu esse caso de amor com a Universidade Federal. Era o ano de 1974, a universidade começava a crescer e Irineu foi crescendo com ela. Já no primeiro ano assumiu a chefia da seção de matrícula e foi tomando gosto pela administração. Mais tarde passou pelo cargo de Diretor de Registro Escolar no DAE/UFSC até chegar a Diretor de Administração Escolar, cargo no qual ficou até 1996. Depois, foi assessor de Administração Acadêmica da Pró-Reitoria de Ensino de Graduação e Diretor de Recursos Humanos da UFSC de 1997 a 2004. Na área acadêmica coordenou o Curso de Especialização em Gestão Universitária da Universidade Federal de Santa Catarina. Como Integrante da Comissão de Políticas de Recursos Humanos da Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior, aprofundou ainda mais o seu saber sobre o funcionamento da máquina universidade. Irineu também atuou de forma muito significativa na Estatuinte da UFSC e foi ali que assomou a ideia de um dia ser reitor da universidade. “Eu pude conhecer cada problema, entender cada detalhe, ver a universidade como uma totalidade. Então eu soube que poderia também ser capaz de, com a comunidade universitária, propor soluções para os problemas que tínhamos”. Naqueles dias ele já havia se formado em Administração, carreira que escolheu por ter se apaixonado pelo trabalho que realizava. “Lembro que no começo eu sonhava em ser engenheiro, mas depois que entrei para a UFSC, fui gostando do meu trabalho e Administração foi o caminho natural”. Dedicação e seriedade sempre foram as marcas de Irineu. E justamente por isso que foi eleito, com a maior votação, pelos dirigentes das Instituições Federais de Ensino para a Comissão Nacional de Recursos Humanos de todas as IFES, sendo ainda reeleito e assumindo a vice-presidência da comissão. Ninguém nunca duvidou que ele fosse quem mais tinha conhecimento sobre esse tema. Ao longo de sua trajetória como técnico-administrativo Irineu recebeu várias distinções honrosas, com destaque para o Prêmio Hélio Beltrão - Inovações na Gestão Pública, promovido pela Escola Nacional de Administração Pública, em 2001. O prêmio foi pela criação do Programa de Pós-graduação em Gestão Universitária - PROGEU, lato sensu, dirigido aos servidores técnico-administrativos e docentes da UFSC, que formou 148 especialistas em gestão universitária. Essa ideia foi o marco inicial para criação do mestrado em administração universitária, hoje consolidado. Irineu fez uma linda carreira como técnico-administrativo da UFSC, mas aquele gurizinho que levava os livros para a roça lá em Santa Tereza ainda tinha mais sonhos na manga. Queria ser professor e também reitor da UFSC. Tratou de ir em frente. Fez concurso para docente em Administração e passou. Nem bem chegou e foi eleito para o Colegiado do Curso. Já atuando como docente publicou diversos artigos científicos, bem como colaborou com capítulos de livros em obras organizadas nas áreas de gestão universitária, gestão de pessoas, gestão pública e gestão do conhecimento. Publicou em co-autoria os seguintes livros: Gestão do conhecimento para a tomada de decisão; Prospecção de Cenários; e Processo Decisório. Tudo girando em torno da administração da universidade. Esse é seu chão e seu céu. O garoto mirradinho, que andava pela vila de Santa Tereza agarrado no seu violão, cresceu e hoje é Doutor em Gestão do Conhecimento pela Universidade Federal de Santa Catarina. Já disputou duas vezes o cargo de reitor e conquistou expressiva votação, sempre mantendo firme seu rumo na defesa de uma universidade que ultrapasse os limites dessa instituição que aí está. Uma universidade que avance na democracia, na transparência e na garantia de permanência dos estudantes. Foi com esses desafios que ele disputou o cargo de Diretor de Centro no Centro Socioeconômico, e venceu. Tão logo iniciou a caminhada, junto com a professora Denise como vice, já mostrou a que veio, inaugurando novas dinâmicas. Liberou a transmissão das reuniões do Colegiado do Centro, aumentou o número de técnicos-administrativos, mantém aberto o seu gabinete, circula pelos setores do Centro, torna transparente sua administração. Pois, agora, as reviravoltas da vida colocam Irineu outra vez diante da possibilidade de chegar à reitoria. Trabalhadores (técnicos e professores) e estudantes, em reuniões abertas, o convocaram para que assuma a candidatura. Ele aceitou. Irineu está pronto para mais essa batalha. Dos nomes que se apresentam ele é, sem dúvida, o mais preparado, o cara necessário para atravessar a tormenta que vive a UFSC. Competente, humano, observador, seguro, simples, democrático, Irineu é meu candidato. Ele acompanha a vida da UFSC, ele está nas lutas, ele defende o HU, ele tem amor pela UFSC, ele está pronto para assumir os destinos da universidade. Eu o felicito por essa bela trajetória de vida e deposito nele minha confiança. Convoco cada colega e cada estudante a se juntar à campanha. Essa é nossa hora histórica. Estamos perto de chegar à construção da universidade necessária, como dizia Darcy Ribeiro. Aquela universidade vinculada aos interesses nacionais, transparente, com participação real das categorias em todas as instâncias. Dessa vez não podemos falhar.

quinta-feira, 21 de dezembro de 2017

O controle social de frequência na UFSC



A reunião realizada entre a comissão dos trabalhadores técnico-administrativos e a reitoria para discutir o controle de frequência acabou com algumas boas notícias. Temporárias, mas inegavelmente boas. A primeira delas é que o relógio ponto não será instalado esse ano. E a segunda é que a administração concordou em testar a proposta do controle social, defendida pelos TAEs.

A reunião terminou bem, mas não foi fácil. Afinal, a reitoria permanecia com a intenção de instalar os equipamentos de controle biométrico (com a digital), pelo menos dois, para testar e para atender a ordem judicial. A comissão insistiu sobre que não havia a obrigatoriedade de ser o ponto biométrico. A última decisão judicial é bem clara: a universidade pode decidir a modalidade de controle eletrônico que melhor atenda às suas especificidades. Não há imposição de nenhum tipo específico, sob pena, como bem diz a juíza de “ferir a autonomia”.

O fato é que a leitura do processo, de três mil páginas, por parte dos membros da comissão, deixou bastante claro que houve um completo abandono por parte da UFSC, sendo inclusive, perdidos prazos. A gestão Roselane/Lúcia estava imbuída da vontade política de aplicar o controle leonino sobre os técnico-administrativos, aceitando a sugestão do Ministério Público, que apontava não apenas o ponto biométrico, mas também catraca e câmera. Quando a gestão Cancellier/Alacoque assumiu, tampouco foi revisto todo o processo. Seguiu-se aos encaminhamentos já determinados. Foi a insistência dos TAEs no debate sobre o tema que levou a essa pequena vitória, alcançada agora no final do ano.

A gestão do reitor pró-tempore, Ubaldo Balthazar, estava dando sequência à instalação do ponto, acreditando que era mesmo uma exigência da justiça. Não é. Isso ficou claro no processo. E mesmo a compra dos equipamentos, que já foi efetuada, e com dinheiro do Reuni, pode ser revista, visto que o modo de licitação foi o pregão, que permite a não consolidação da compra caso os equipamentos não sejam instalados.

A mobilização dos TAEs e o trabalho da comissão que negociou com a administração foi fundamental para que o ponto – que já estava para ser instalado na BU, no Setic e na Secretaria de Ensino à Distância – fosse suspenso. Nessa quinta-feira, o reitor encaminhou ao Ministério Público e ao judiciário um documento, no qual explica todo o processo de tentativa de implantação do ponto biométrico, alegando que as coisas tardaram em função da falta de orçamento e também pelo drama vivido pela universidade com a prisão e posterior morte do reitor Luiz Carlos Cancellier. Informa também que o controle eletrônico será instalado até o final do ano, em outra modalidade, mas agrega ao documento um cronograma de implantação dos pontos biométricos para o ano que vem.

Isso significa para os TAEs uma meia-vitória, visto que agora eles terão os meses de janeiro e fevereiro para apresentar uma proposta concreta de controle social. Esse é um trabalho que, de certa forma, já está bem adiantado, pois há muito tempo que se discute essa forma de controle de frequência, que deverá seguir os moldes da que hoje é usada para os professores.

O controle social de frequência desloca o foco de poder que, com o ponto biométrico  ficaria na mão do chefe de plantão, para a sociedade. E como é isso? No ponto biométrico, apenas os chefes e os órgãos de controle interno teriam acesso ao sistema. No controle social a sociedade toda pode ter acesso e conhecer as especificidades do trabalho dos técnicos. Hoje, na UFSC, existem mais de 30 profissões sendo exercidas entre os TAEs e, cada uma delas, tem uma peculiaridade. São engenheiros, médicos, enfermeiros, administradores, jornalistas, jardineiros, assistentes de administração, zeladores prediais, psicólogos, assistentes sociais, etc... São atividades muito distintas que não podem ser submetidas a um sistema padrão de controle de frequência. Além disso, existem TAEs que atuam também na pesquisa e na extensão.

Com o controle social não apenas os horários de trabalho, mas também as atribuições dos trabalhadores estarão disponíveis para a sociedade, tornando muito mais transparente o processo de trabalho, impedindo que o controle vire moeda de troca para as artimanhas políticas, ainda muito comuns na universidade.

Os professores, por exemplo, tem um sistema de controle que é o Planejamento das Atividades Docentes, o PAD, efetuado eletronicamente todos os anos. Nele, os docentes precisam relatar os horários de aula, o tempo de pesquisa, os projetos que estão trabalhando, o tempo de extensão e os trabalhos que desenvolvem nessa área. Assim, qualquer pessoa pode saber como as horas daqueles professores estão sendo distribuídas. É bastante transparente. A proposta para os TAEs é bem parecida e deverá ser viabilizada por uma comissão formada pelos TAEs e pela administração.

É fato que as relações coronelistas ainda bem vivas na universidade fazem com que muitos trabalhadores não confiem muito nessa ideia de controle social. Muitos ainda preferem a relação visceral com as chefias, porque permite negociações. O que mostra o quanto esse sistema em que o chefe tem o poder sobre o trabalhador é nefasto e passível de manipulação. Por isso, é fundamental que o sindicato realize uma boa campanha de divulgação sobre o que é o controle social para que os trabalhadores e a sociedade possam perceber o quanto é mais democrático e eficaz. A modernidade e as novas tecnologias de informação já permitem que o tempo dos coronéis fique no passado. É a sociedade que precisa saber e fiscalizar o serviço público. Daí que o controle social é a ferramenta mais adequada.

Com esse respiro de dois meses, os TAEs terão de sacrificar os meses de verão e possíveis férias para realizar esse importante trabalho. Mas, a comissão está animada. Há muito a fazer e as ideias já pipocam. A proposta agora é criar um canal direto de comunicação entre a comissão e os trabalhadores para que todos possam acompanhar o andamento da construção do modelo.

O ano termina e ainda que tenha sido bastante sombrio, com todas as tristezas que se abateram sobre a instituição, os trabalhadores conseguiram realizar um grane trabalho. Mostraram que o controle social é possível e desvelaram todas as inverdades que estavam sendo vendidas como certas. Os trabalhadores entendem que como servidores públicos têm de prestar contas à sociedade sobre seu trabalho, e não apenas aos chefes imediatos. E é nesse caminho que deverão construir o modelo de controle social.

Os representantes dos técnicos na comissão serão Veridiana Oliveira, Gabriel Martins, Luciano Agnes, Ivandro Valdameri, André Ruas, Dilton Rufino e Celso Martins.  

É importante lembrar: o ponto biométrico ainda é uma ameaça. Só a luta concreta muda a vida. Também ficou decidido que os TAEs lutarão para incluir o HU - que já tem ponto biométrico - no sistema de controle social. 


segunda-feira, 18 de dezembro de 2017

UFSC cumpre 57 anos de vida







Em 1960, a união das faculdades existentes em Florianópolis - Direito, Ciências Econômicas, Odontologia, Farmácia e Bioquímica, Medicina, Filosofia e Serviço Social, deu origem à Universidade Federal de Santa Catarina, cuja lei de criação foi sancionada por Jucelino Kubitschek, em 18 de dezembro. Pouco tempo depois começavam as obras do que viria a ser o campus da UFSC, já na Fazenda Assis Brasil, depois de muita disputa sobre onde deveria ser fincada a universidade, já que a fazenda era considerada muito distante do centro. Mas, apesar disso, venceu a ideia de David Ferreira Lima, e o campus foi crescendo na Trindade, ajudando a dar nova vida ao bairro.

Hoje, dia 18 de dezembro de 2017, a UFSC comemorou seu aniversário de maneira sóbria, ainda vivendo a perplexidade da morte do reitor Luiz Carlos Cancellier, decidida por ele depois de vivenciar profunda humilhação ao ser preso de maneira arbitrária e posteriormente impedido de entrar na UFSC. Acusado de obstruir a justiça numa investigação de desvio de recursos, ele viu seu nome jogado na lama, pela polícia, pelo judiciário, pela mídia e pela opinião pública. Todos julgando e condenando antes de qualquer evidência. Não suportou.

Nesse dia de aniversário a administração decidiu inaugurar o retrato de Cancellier na galeria dos reitores. Foi a maneira de juntar a celebração dos 57 anos com a lembrança, ainda doída, da tragédia vivida no último outubro. A Orquestra de Câmara e o Madrigal da UFSC trouxeram a beleza da música, e o retrato foi descortinado. 

O grupo “Floripa contra o Estado de Exceção” realizou seu protesto, com faixas e cartazes lembrando a forma abusiva com a qual a polícia, o judiciário e a mídia trataram do caso que levou o reitor ao suicídio. “Não vamos permitir o esquecimento”. Faixas com as fotografias daqueles que protagonizaram as denúncias e as prisões circularam pelo saguão da UFSC, cartazes com dizeres diversos lembrando o abuso, em defesa da universidade pública e gratuita também proliferaram. Ao final das homenagens o grito: Justiça! Justiça! Até hoje – desde o dia da prisão, que foi no começo de setembro – não há comprovação sobre qualquer crime que tenha cometido o reitor. 

Do lado de fora da reitoria a manhã corria cinzenta, com uma neblina fininha caindo. Pelo campus, o silêncio. Já não há mais aulas e os estudantes se foram. Em volta da música e da homenagem pelos 57 anos reuniram-se os trabalhadores, poucos. Alguns, mais próximos do reitor Cancellier, enxugavam lágrimas furtivas. Ficou a saudade do professor cumprido, que descia incontáveis vezes para o lado de fora da reitoria, para fumar e conversar com quem passasse. “Parecia que o gabinete era ali embaixo”, lembrou um jardineiro.

Outros, como eu, também se emocionavam com o aniversário em si. Afinal, apesar de saberem que essa que aí está ainda não é a universidade necessária, nutrem por ela um profundo amor. Um amor que está ancorado na potencialidade desse lugar, que tem como missão formar pessoas para o mundo do trabalho, para a criação do novo, da ciência, do conhecimento. Uma universidade que ainda não deu as mãos à maioria do povo, nem conseguiu apresentar soluções para os problemas locais e nacionais, mas que, apesar disso, tem em si a possibilidade. 

E é em busca dessa possibilidade que caminhamos, no cotidiano, fazendo coisas fora da ordem, lutando para que permaneça pública, gratuita, de qualidade e que se faça comprometida com a sociedade, com a maioria da população. 

A UFSC é um lindo lugar, espaço onde travamos nossas batalhas de classe. É abrigo, é casa, é madrasta e mãe. Depende sempre de cada um e do que se espera dela.

Eu, que aqui cheguei, primeiro como aluna, em 1987, depois como trabalhadora em 1994, a tenho como território de potência e de belezas. Gosto de andar por suas veredas, seus lugares lúgubres, suas alamedas verdes, seus corredores silenciosos. Gosto de suas gentes, amo os meses de aula com a balbúrdia dos estudantes, as lutas dos trabalhadores, o latir dos UFSCães, o trinar dos passarinhos, o coloridos dos ipês. Sinto-me em casa. Por isso, não me furto à luta para que ela saia de seu conservadorismo, seu atraso, sua intolerância. Dentro desse pequeno mundo, vamos fazendo o que podemos para tornar a UFSC a universidade sonhada, que ainda não vingou. Mas, vingará. 


Orquestra de Câmara e Madrigal da UFSC





quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

Suicídio nunca mais



Na tarde calorenta do verão florianopolitano, em meio ao frisson das compras de natal, um grupo de pessoas se destacava na multidão. Vestidas de preto, carregavam cartazes, rememorando o drama vivido pelo reitor da UFSC, Luiz Carlos Cancellier. Em setembro ele foi preso, humilhado e exposto a execração pública. Acusado de obstruir a Justiça num caso de investigação de desvio recursos num projeto específico dentro do Curso de Administração, ele foi proibido de dar aulas, entrar na UFSC e até de se comunicar com os colegas de universidade. Premido pela dor de ver seu nome jogado na lama, ele se matou um mês depois da prisão.

O grupo que se manifestava foi criado em função desse drama, em protesto contra a forma como tudo aconteceu. Ninguém é contra investigar possíveis crimes, mas todos são unânimes em denunciar o abuso que foi a prisão não apenas do reitor, mas de todos os envolvidos. Na Justiça brasileira a presunção é sempre de inocência, até que se prove o contrário. Não foi o que passou. Presos, os professores foram levados para o presídio na ala de segurança máxima. Foram despidos, revistados intimamente e acorrentados como perigosos facínoras.

Não bastasse a invasão à UFSC, a Polícia Federal em nível nacional também passou a invadir outras universidades, sob alegação de investigação de desvios. Até aí, nada contra. Se há crime, há que se investigar. Mas, a motivação parece não ser apenas essa. Em Minas Gerais, o reitor e outros professores foram levados coercitivamente por conta de uma obra que celebrava a anistia, coisa marcadamente política. Vai daí que o que aparece por trás do fenômeno parece ser a exposição da universidade pública como um “covil de ladrões”, coisa que vem bem a calhar quando o governo quer impor o receituário do banco Mundial, que propõe privatizar as universidades. Há algo nebuloso aí.

Esse debate foi levado nessa quinta-feira para a rua. Com os cartazes expondo o abuso do judiciário e a cumplicidade da mídia, o grupo “Floripa contra o Estado de exceção” constituiu uma rugosidade no centro da cidade, turvando a alegria do consumo. As pessoas que passavam reagiam da mais variadas maneiras. Um senhor, exaltado, apontava para o cartaz com a figura dos algozes do reitor e dizia: “Esses são meus heróis. Quem não deve, não teme”, jogando para a vítima a culpa já incitada pela mídia. Outros paravam, curiosos, lendo os cartazes e as grandes faixas colocadas no chão. Poucos paravam para conversar.  Os que o faziam realmente queriam saber, e se solidarizavam ao se inteirar dos detalhes de tudo.

O protesto silencioso e contundente do grupo “Floripa contra o Estado de exceção” não foi a vivência de um luto pessoal. Foi a recusa veemente da lógica de acusações sem provas, de execração pública antes de julgamentos, do método já bem conhecido de exceção, tal qual nos tristes tempos da ditadura civil/militar. O jeito “república de Curitiba” não é o modo paladino da justiça. Ao contrário. É a maneira autoritária do uso da lei apenas para aqueles que são considerados “inimigos”. E isso não pode ser permitido. A ingênua expressão do senhor indignado: “quem não deve, não teme” não representa a realidade. Quando os poderosos elegem um inimigo, mesmo que sejam os mais honestos do mundo, há que temer. Por que o braço da opressão de quem tem o controle da lei e da repressão é longo e cruel.

Por isso não dá para ficar calado. O modo “sem lei” que ataca hoje alguém é o mesmo que pode levar amanhã até mesmo aqueles que consideram heróis os agentes da opressão. Há que protestar contra o demando, contra o terror e contra o abuso. É um imperativo ético. Não apenas com o que se expressa na universidade, é fato, mas também contra o que atua sobre os pobres, os negros, e toda a sorte de excluídos. E cada um e cada uma que carregou seu cartaz nessa tarde de calor tem isso bem claro. Não foi só pelo reitor. Foi por todo mundo. Foi pelas universidades públicas, foi pela Justiça de verdade. 

A luta não para.