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quinta-feira, 21 de maio de 2026

Os destinos do HU da UFSC




 A audiência pública realizada hoje na UFSC sobre os destinos da Ebserh, empresa que administra o Hospital Universitário desde há dez anos, e que está com seu contrato vencido, mostrou que esse não é um tema pacificado na comunidade. Há os que defendem a não renovação do contrato, ancorados no descumprimento sistemático do que foi acordado no contrato anterior. Há os que defendem um novo contrato que incorpore garantias de campo de estágio e de formação para os estudantes do campo da Saúde, na lógica da universidade pública e não de uma empresa privada como é hoje. E há os que defendem a renovação do contrato por mais 20 anos, segundo o modelo que a empresa tem para todos os HUs do país. Embutidos aí, nestas três propostas, estão claramente três projetos diferentes de universidade. 

Defender a não renovação do contrato implica em travar uma luta larga e dura com o governo federal. Desde que o governo Lula criou a Ebserh, lá no final do seu segundo mandato, ele simplesmente tirou os HUs da mão das universidades. Seria a partir de uma empresa de direito privado que o hospital passaria a ser gerido. Todo o sentido de ser de um HU começou a ser destruído. E os recursos, que antes eram repassados diretamente à universidade, passaram a ser jogados na Ebserh, que precisaria cumprir determinadas “metas”. Então, o que era um hospital-escola público, que formava médicos numa perspectiva de saúde pública, com os estágios e residências sendo coordenados por professores da universidade, passou para a mão privada. A formação dos médicos começou a ser priorizada na lógica da saúde privada, e a universidade foi perdendo o controle dessa formação. 

É importante lembrar que os HUs foram criados, não para atender à comunidade nos casos gerais, mas para ser um centro de formação capaz de produzir ciência. Ou seja, um espaço de formação no qual estudantes e residentes poderiam avançar na pesquisa de atendimentos complexos. O Hu não deveria atender casos comuns, que poderiam ser tratados em qualquer hospital público. Mas, com parcas opções de hospital público de qualidade na capital, com o tempo, a comunidade foi encontrando no HU o espaço para consultas, tratamento e procedimentos não-complexos. Aí já foi uma grande derrota da universidade. Porque, envolvidos nos atendimentos que deveriam ser prestados pelo Estado, os estudantes perdem espaço para pesquisa e construção de novos conhecimentos. O estado, ao não criar novos hospitais de referência públicos, jogou para o HU essa carga e, hoje, é ali que chegam pacientes de toda Santa Catarina. Porque não há hospital de referência nas regiões, a sobrecarga é no HU.  

A chegada da Ebserh só aprofunda o problema, porque agora o hospital é gerido apenas na lógica do lucro. Qualquer série estadunidense de hospital, destas que são famosas na TV, mostra bem como a banda toca. É o dinheiro que comanda. E o médico formado dentro dos princípios do lucro é diferente do médico formado com os princípios da saúde pública, como bem comum e direito de todos. Só por isso a Ebserh deveria ser rejeitada. Mas, não foi. Quando a comunidade da UFSC teve a chance de decidir, ela disse não. Só que a reitora da época, Roselane Neckel, levou a reunião do Conselho para dentro do quartel da Polícia Militar e os conselheiros votaram pela aprovação da Ebserh. Segundo tombo para o HU.

Desde aí, nestes 10 anos de administração, muitas lutas foram travadas para que houvesse fiscalização do contrato. O Sintufsc batalhou bravamente. Muita coisa acordada não foi cumprida, o que por si só já deveria garantir a quebra do contrato. Ninguém teve coragem. E a Ebserh fincou raízes. 

Agora, a empresa quer empurrar goela abaixo um contrato de mais vinte anos, que mantém as coisas como estão, aprofundando cada dia mais o processo de mercantilização da saúde. Qualquer pessoa que defenda a saúde pública rejeita essa proposta. Não é possível.

Como o governo federal não está nem aí para o problema, não há qualquer ação que aponte para a retomada dos HUs pelas universidades. A Ebserh não é questionada pelo governo brasileiro, apesar de todas as denúncias de não cumprimento do contrato acordado em vários HUs espalhados por todo o país. O governo lava as mãos. Daí o segundo grupo entender que, sem financiamento garantido pelo governo, não é possível abrir mão da Ebserh, por isso a tentativa de construir um contrato menos leonino, como esse apresentado pela comissão que trabalhou por três anos seguidos. A proposta é melhorar algumas coisas, como garantir o controle da universidade na formação de médicos e outros profissionais da saúde, medidas administrativas colegiadas ou cooperadas, enfim, dar algumas rédeas para a universidade manejar. É uma decisão pragmática, mas nada garante que na mesa de negociação a Ebserh aceite a proposta. 

O argumento de que o governo não financiaria é furado. Se há dinheiro para ser colocado na Ebserh, que esse mesmo recurso venha para a universidade. A universidade saberia gerir.  Ou não? Eu aposto que sim. Saberia, e melhor. Mas seria preciso um movimento forte a sustentar essa decisão. Luta, camaradas, luta!

O terceiro grupo que topa o contrato da Ebserh como está é o que lucra com ele ou que compactua com a lógica privada. Há gordos salários em disputa, há muitos negócios envolvendo toda a maquinaria de um hospital. É a privatização em estado puro, mantendo um atendimento público pelo SUS, mas controlando a formação de profissionais na lógica privada. Tudo de boa com o capital. 

Aí está o imbróglio. E é nestes cenários que vamos decidir. Ou melhor, o Conselho Universitário vai decidir, dentro do nada democrático 70/30, no qual trabalhadores TAEs e estudantes, serão minoria. 

Nestes cenários nem falei dos dramas dos trabalhadores que precisam conviver, parte públicos, parte privados. Que muitas vezes se encaram como adversários. Porque uma eventual partida da Ebserh colocaria muitos trabalhadores CLT na rua. São as questões mais intestinas que precisam de outro texto. Procurei dar uma visão de macro para que as pessoas que não são da UFSC possa entender melhor o que está em jogo. 

domingo, 22 de março de 2026

A eleição na UFSC



Dia primeiro de abril é dia de votar para escolher quem vai ser reitor da UFSC. De minha parte, sigo com Irineu e explico o porquê da minha escolha. Demoramos muito para escolher um reitor que, além das questões gerais da universidade, realmente enxergasse os TAEs. Foram muitas gestões mais à direita ou conservadoras. Tivemos esperanças com Roselane, mas sua gestão foi um fracasso. Basta lembrar o triste episódio da aprovação da EBSERH dentro da Polícia Militar. Cancelier tinha bastante entrada ente os TAEs, mas, infelizmente, por conta do horror da Lava Jato, não conseguiu terminar o mandato. Por fim, veio o Irineu e, com ele, tivemos muitos avanços.

A primeira mudança foi no quesito participação. Esta foi uma gestão que primou pelo processo participativo, com os TAEs assumindo espaços importantes nos Conselhos e nas instâncias da UFSC. Acolheu as demandas históricas dos trabalhadores e fez com elas se tornassem reais, como o Controle Social, por exemplo, além de outras pautas como a flexibilização e o tele trabalho. Na grande greve realizada em 2024, abriu as portas da reitoria, para que os TAEs discutissem com todo o grupo dirigente as demandas internas e muito se caminhou em estradas até então estéreis. Aprimorou o combate ao assédio moral e valorizou os trabalhadores com a distinção de TAE Emérito, momento inédito. Num tempo em que a saúde virou mercadoria e os Planos privados comem os salários buscou viabilizar a volta do atendimento gratuito à saúde dos trabalhadores nos moldes do antigo SASC, que deve começar em pouco tempo.


Administrou a UFSC num de seus piores momentos. Saíamos de uma pandemia com a estrutura da universidade bastante prejudicada, dávamos início a um novo tempo marcado pela vida online e pelo esvaziamento do campus, além de enfrentar mais cortes no orçamento. E mesmo que ainda tenhamos problemas estruturais, muito foi feito, com reformas em todos os espaços e o planejamento de obras há muito reivindicadas, como a do Centro de Convivência, que deverá ressurgir. Diante do aperto orçamentário foi à luta, buscando as emendas parlamentares para garantir o funcionamento da UFSC. 


Para os estudantes esta também foi uma administração atenta. Aumentaram os valores das bolsas – reivindicação antiga -, teve política de permanência para mães, a construção da casa para os estudantes indígenas, mudanças significativas no sistema de ingresso, aumento das políticas de ação afirmativa e até café da manhã, que incluiu também os trabalhadores terceirizados. 


Esta foi uma gestão que não se furtou ao debate. Os grandes temas sempre tiveram as reuniões do Conselho Universitário abertas, sem qualquer confronto com estudantes ou TAEs. O caminho da conversa e do respeito foi o mais trilhado. E, através da popularização da Editora, a UFSC levou o livro para a praça e tem aberto veredas nacionais no campo editorial. 


É claro que a UFSC não virou um paraíso. Os problemas existem, novos e velhos, e vão sendo resolvidos da melhor forma. É fato que a brutal terceirização iniciada com o governo FHC segue causando estragos e não é fácil administrar mais de 300 contratos com empresas privadas que, muitas vezes, deixam a universidade na mão. Mas, gerir uma universidade é isso mesmo. Desafios de toda ordem que precisam ser desenrolados e vencidos no dia-a-dia. 


Agora, com Moretti como vice, novas dinâmicas se anunciam. Ele é um colega vibrante e resolutivo, e está disposto a colocar sua energia para que a UFSC possa passar por estes tempos de mudança de temperatura do mundo, garantindo sua importância social e fomentando a capacidade de ser uma referência para o desenvolvimento regional e nacional. 


A Ufsc Unida é nossa melhor opção.

terça-feira, 17 de março de 2026

O HU e a armadilha da EBSERH





Vivemos tempos difíceis, nos quais os argumentos já não são mais suficientes. Há um clima de torcida organizada, e cada um, ao ter escolhido o lado, fecha os ouvidos para qualquer coisa que venha do outro lado, mesmo que seja algo bom pra a comunidade. É o caso do HU, o Hospital Universitário, cujas obras foram finalizadas em 1980, servindo desde ai como hospital escola, formando os profissionais da saúde que se espalham pelo estado. De lá até hoje é o único hospital público federal do Estado. 

De 1980 até 2016, o HU foi custeado pelo governo federal. Sofria dificuldades como sofrem todos os órgãos públicos e muitas vezes precisou apelar para uma fundação privada, principalmente para contratar funcionários. Estes problemas, igualmente vividos por outros HUs do país, em vez de serem resolvidos com mais investimento – já que saúde é um direito de todos  - acabaram encontrando uma “solução” mais fácil, mas também mais perigosa. E foi o próprio presidente Lula, em seu segundo mandato, quem empurrou esse explosivo para dentro dos hospitais. Criou uma fundação privada para gerir os HUs, a malfadada EBSERH.

Na época houve uma gritaria geral. Em todas as universidades, reitores e comunidades se levantaram contra a proposta, pois já sabiam que privatizar a administração não daria bons resultados. O governo insistia com o sofisma de que era uma fundação pública, de direito privada. Mas, na prática, a lógica instaurada era de uma gestão privada: metas, produtividade, redução de custos. Ora, como reduzir custos em saúde? A catástrofe era óbvia.

Apesar de toda gritaria contra, o governo de Lula criou a Fundação e foi obrigando cada Hospital a migrar para o novo sistema. Dizia que cada universidade poderia decidir, mas, na prática, quem ficasse de fora, não teria de onde buscar dinheiro. Na UFSC, a comunidade se mobilizou, discutiu e decidiu em uma votação pública e aberta por não aderir a EBSERH. Cerca de 70% dos votantes disseram “não”. Apesar desta decisão, a reitora da época, Roselane Neckel decidiu que aderir era o melhor a fazer e, evitando protestos e mobilizações, acabou levando a sessão do Conselho Universitário para dentro da Polícia Militar. Uma decisão inédita e inaceitável que já dava mostra de que o CUn poderia decidir contrariamente a decisão da comunidade. E foi o que aconteceu. A UFSC então aderiu à EBSERH.

De lá pra cá, o que todos já denunciavam se cumpriu. E, em vez de melhorar o atendimento, tudo piorou. Não bastasse o atendimento ao público ter piorado, o hospital foi, aos poucos perdendo a sua característica principal, que é o de ser hospital escola. Isso aconteceu em todos os HUs, as denúncias são frequentes e bem fundamentadas. Lá, já não há vastos espaços de estágio e mesmo os poucos que ainda existem são supervisionados sob outra ótica de serviço, que é a lógica do privado. Assim, os alunos dos cursos ligados à Saúde, que podiam fazer formação no HU, acompanhados por professores da UFSC, foram minguando. O relatório a comissão criada em 2023 para avaliar os serviços deixou isso bem claro. 

Agora, a EBSERH, que imperou nos últimos 10 anos, quer renovar o contrato com os HUs por mais 20 anos. E, como é óbvio, a comunidade universitária precisa decidir sobre isso. Afinal, é tempo demais, e principalmente porque a lógica privatista se aprofunda. Vejam, o HU é 100% SUS, mas a forma como é administrado responde a interesses privados, portanto elementos como produtividade e redução de custos estão acima do interesses público. O que pode ser produtivo num hospital? E que custos podem ser reduzidos num tratamento? Isso não tem qualquer sentido. 

Vai daí que o atual reitor, o professor Irineu, não quer fazer como fez a Roselane. Levar a discussão e a decisão de um contrato deste tipo para dentro da PM. Esse contrato tem de ser conhecido pela comunidade, debatido e decidido pela comunidade. Por isso, como o primeiro contrato terminou, a proposta foi fazer uma prorrogação do contrato por 120 dias. Neste prazo, os debates vão acontecer e a comunidade vai decidir. Logo, não há perigo de a população perder o atendimento, como anunciam alguns veículos, de maneira sensacionalista. ´Há um parte substancial da comunidade que não quer mais a EBSERH dentro do HU. Afinal, com ela, todo o sentido do HU se perdeu e quem mais perdeu foi a universidade que não conta mais com o vasto campo de estágio proporcionado pelo hospital. Perde também a sociedade que recebe profissionais formados mais pela lógica do lucro que do público.  

A questão de fundo que praticamente ninguém debate é: por que Lula criou a EBSERH? Que interesses estão em jogo? Como justificar a entrega de grande volume de dinheiro para uma fundação gerir os HUs, se as próprias universidades poderiam fazer isso, como sempre fizeram? Pesquisas realizadas dão conta de que se esse volume de dinheiro que escorre para a EBSERH fosse investido na universidade, os HUs estariam bem melhor arranjados que agora, servindo muito mais à comunidade e sem perder seu papel crucial de hospital-escola. Ocorre que há pouco embate por parte dos reitores. A maioria prefere entregar o HU para o privado. Algumas universidade até já renovaram o contrato leonino de mais 20 anos.  Isso enfraquece a luta, porque se a maioria adere, os que não aderirem terão de enfrentar grandes dificuldades para manter o HU, visto que o governo se desobrigou.

O que se sabe é que o Ministério da Saúde não quer os HUs, bem como o Ministério da Educação. Estão se lixando. Logo, há que ter uma luta nacional contra a EBSERH. Há que responsabilizar o governo federal por esse erro. Há que fazer o governo federal se responsabilizar pelo financiamento público de uma gestão pública do HU. A batalha é gigante, mas precisa ser travada. Esperamos que a comunidade UFSC entenda isso, bem como a sociedade em geral. Saúde não é despesa. Saúde é investimento. 

Ontem, o reitor da UFSC mostrou que é possível dizer não a um contrato leonino e, coletivamente, construir outra saída. 


sexta-feira, 13 de março de 2026

A Universidade e os TAEs


Houve um tempo na “fazendinha” em que havia medo. Os trabalhadores técnico-administrativos (TAEs) eram massacrados pelos professores. O que imperava era a política do favor. Tu me ajudas e eu te ajudo. Não era uma relação profissional, era um jogo de troca no qual estava implícito a submissão dos TAEs. Sabe-se de histórias de professores que mandavam TAEs buscar os seus filhos na escola, ou fazer compra no supermercado ou pagar contas no banco. Essas eram histórias que rolavam a boca pequena no sindicato, porque praticamente ninguém ousava verbalizar publicamente.


O tempo passou e as coisas foram mudando, mas eu lembro bem das grandes greves nos anos 1990, quando nos comando locais unificados eram necessárias grandes batalhas com os professores para que respeitassem os TAEs. Nós, TAEs, ainda brincávamos que para fazer o debate tinha muitos, mas para carregar faixas nas passeatas só a Doroti Martins e o Osvaldo Maciel, companheiros docentes de valor. A velha diferenciação entre trabalho intelectual e trabalho braçal se explicitando na prática da luta. Pedagogicamente tínhamos de retomar esse debate em cada greve ou luta pontual que nos unificava. Não há separação entre trabalho braçal e intelectual como já mostrou teoricamente Alfred Sohn-Rethel. Até mesmo o ato singelo de digitar uma nota no sistema exige intelecto, logo, ninguém é melhor que ninguém. Foram anos nessa discussão.

Hoje, não existe mais a fazendinha, não impera a política do favor, mas ainda temos remanescentes dos velhos tempos que consideram os TAEs como trabalhadores braçais, sem intelecto para dirigir os destinos da universidade. E ainda há quem os trate como “empregadinhos”. Mas, ocorre que os tempos mudaram mais ainda e temos outro perfil de trabalhador. A maneira de reagir ao assédio e ao desrespeito também mudou. Os TAEs atualmente estão lado a lado com os professores na formação, por exemplo. Grande parte tem mestrado e doutorado. E os mais antigos, que não lograram garantir a pós-graduação, conhecem com tanta profundidade a máquina administrativa que, muitas vezes, até superam os professores nesse quesito. Isso significa que o que nos diferencia não é a capacidade intelectual. Não era assim antes, embora muitos docentes acreditassem nisso, e não é assim agora.

Ocorre que também a universidade mudou. O trabalho do TAE ficou tão desvalorizado, tão degradado, tão mal pago, que poucos são os que querem continuar por aqui. Na primeira oportunidade, pulam fora em busca de vida melhor. Coisa absolutamente justa. Também mudou a relação do trabalhador com a universidade. Se antes éramos movidos por um robusto espírito de corpo, alavancado na defesa do serviço público de qualidade, na garantia de uma universidade pública e gratuita, hoje temos uma geração mais focada em si mesmo. É o sinal dos tempos. As pessoas escolhem o que é melhor para si, muitas vezes não levando em conta o que é melhor para a instituição. Eu vejo isso todos os dias no contato com colegas. E é difícil mudar esse pensar. Afinal, o cálculo que fazem é: por que lutar por um lugar que nos adoece? Por que defender um lugar que paga mal e que não apresenta possibilidade alguma de ascensão na carreira? Por que entregar a vida por um espaço que está sendo sucateado e destruído lentamente? E a saída muitas vezes é: vou cuidar de mim.

Esta situação me entristece, mas não podemos demonizar o trabalhador por isso. Ele é fruto do tempo em que a política deixou de ser um espaço frutífero de debate, em que o coletivo perdeu força diante das necessidades individuais e a realidade o sugou para dentro das redes, que mais geram solidão que belezas. Vejam o que é luta pelo trabalho remoto. Ficar em casa, ficar sozinho, ficar sem a presença incômoda do outro, do conflito, do assedio, da intolerância, do preconceito. Ficar em paz, mediado apenas pela máquina. Esse é o sonho moderno.

E qual tem sido o papel dos intelectuais da universidade nesse debate? Como têm se colocado diante do drama da vida material do trabalhador, acossado pelo baixo salário, pelo transporte ruim, pela expulsão da cidade que cobra aluguéis estratosféricos? Quem se importa? Mais fácil apontar o dedo, chamar de incompetente, relapso e outros quetais.

Enfim, a realidade da universidade não muda sozinha, nem por obra e graça de uma administração. Ela é também retrato do tempo. O que muda a universidade é a mudança da sociedade inteira. Ela não é um gueto, é um espaço onde se expressam os dramas gerais. O que nos resta é seguir, discutindo, debatendo e avançando, não só na direção da universidade necessária, mas na sociedade necessária.

Estrada longa...

terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

A Ufsc, a renúncia e as eleições



Este é um ano eleitoral na UFSC. Encerra-se o mandato do reitor e novas eleições acontecerão no dia primeiro de abril. E, como é de praxe, as forças políticas vão se mostrar e se acomodar. No geral tudo acontece num cenário de tranquilidade, mas sempre há eventos mirabolantes. Neste ano, foi a renúncia da vice-reitora aos 44 minutos do segundo tempo. Não podemos dizer que foi uma surpresa, pois o grupo que ela liderava na gestão já tinha pulado fora em outubro do ano passado. Na época o grupo apresentou uma carta fazendo críticas à gestão, como se ela não fizesse parte, mas apontava que gostaria de continuar nas cargas. O que obviamente não foi aceito. Se você estava tão ruim, por que seguir? E ainda sem se comprometer com a gestão?

Encerrado esse capítulo, a UFSC avançou. Agora, a poucos dias da eleição a vice-reitora entrega uma carta de renúncia acusando violência de gênero e ações antidemocráticas. Paradoxalmente, aponta, na mesma carta, uma série de ações que ela e seu grupo relataram e que foram acatadas pela gestão. Onde está a falta de democracia e a violência? Onde o desrespeito? Carta estranha! 

Diz ainda que o reitor tem sido passivo diante da crise orçamentária, como se não tivesse acontecido ao longo deste mandato reuniões, encontros em Brasília e todo o ritual de pressão junto ao governo federal. Ser ativo e buscar novas conexões seria o quê? Buscar dinheiro privado com empresas em parcerias nas quais as pesquisas públicas seriam privadas? Ou quem sabe recursos via Embaixada dos Estados Unidos? Vale lembrar que o governo Lula reduziu significativamente os orçamentos das IFES e mesmo a recomposição do Congresso veio todas para as universidades. Sendo a vice ligada ao partido do presidente cabe perguntar: o que fez ela para iniciar o governo e garantir verbalmente? Pois é!

Para quem vive na UFSC e aqui milita desde 1994 cabe dizer que poucas gestões conseguiram garantir um nível de participação nas instâncias como esta comandada pelo professor Irineu. Essa é uma marca da sua ação, desde que era a direção técnico-administrativa do departamento pessoal. Uma marca indelével. No CSE, onde foi diretor, instituiu um regimento que ampliou e garantiu instâncias de participação como jamais se tinha visto. Sua competência se revela justamente na capacidade de não fazer alarde das dificuldades e enfrentá-las de frente, com seu jeitinho de garoto do interior. Silencioso e diligente, mas nunca choramingas. Humilde e firme. 

Humanidade? No que diz respeito ao Irineu posso atestar que nas últimas três décadas nenhuma gestão foi tão amorosa e cuidadosa com os trabalhadores docentes e técnicos, bem como com os estudantes. O Irineu é um líder que não se impõe pelo grito. É pelo trabalho. Sendo o primeiro a chegar e o último a sair, atento a tudo que diz respeito à UFSC. Não é dado a arroubos, nem discursos eloquentes, mas pode ser um ouvido atento, como poucos. E sendo atento, avançamos para a resolução dos problemas.

Entendeu-se a saída da vice-reitora, mas se a discordância era tão grande, parece que demorou demais. Estaria ela esperando a primeira notificação do convite para uma carga no governo Lula, conforme ofício enviado ao reitor pelo Ministério das Mulheres datado de dia 13 de fevereiro? Definido o cargo no governo em Brasília, decidiu renunciar. Posição confortável, e não muito leal. Tudo bem. Faz parte do jogo político, ainda que no campo da pequena política.

Encerrada essa fase, cabe a nós seguirmos a batalha na UFSC e no dia primeiro de abril votar por mais um mandato encabeçado por Irineu porque ele mostrou, sim, que é possível avançar, mesmo na dificuldade. Não sem tropeços, mas sempre buscando o melhor. 

Esperamos que, desta vez, os aliados sejam aliados e estejam juntos pelo bem da UFSC e não por interesses particularistas.

Vamu que vamu... Irineu, melhor pessoa...

quarta-feira, 26 de novembro de 2025

Vitória dos TAEs da UFSC






 “Cada vez que eu dou um passo, o mundo sai do lugar”... A frase do compositor pernambucano Siba expressa muito bem a luta social: no mundo dos trabalhadores nada se conquista sozinho. Tudo é um longo processo de construção que implica muita gente, cada um dando um passo e movendo o mundo. Ontem, na UFSC, os TAEs garantiram uma importante vitória depois de décadas de batalhas, com avanços e retrocessos. Foi finalmente aprovado o Controle Social e a flexibilização dos horários. A decisão do Conselho Universitário amalgamou uma longa caminhada de luta que só a organização coletiva dos trabalhadores foi capaz de dar conta. 

Quando os órgãos de controle iniciaram uma campanha para obrigar a instalação de relógio ponto na universidade os trabalhadores começaram todo um processo de construção de alternativa visando mostrar que uma universidade não é uma fábrica de salsicha. Ela se move em terreno imaterial, o trabalho envolve inúmeras funções que exigem processos diferenciados. Não se tratava de fugir do ponto, mas de deixar claro que o ponto não era a melhor opção para o controle público do trabalhador público. 

Como sempre acontece, buscando o mais fácil, os dirigentes da época preferiram atender a indicação da CGU e do Ministério Público e chegaram até a comprar os relógios. Mas, a força da luta dos trabalhadores e, principalmente, o extraordinário trabalho da categoria na proposição de alternativa, mudou o curso do rio. Depois de muito debate coletivo os TAEs conseguiram aprovar a criação de um grupo de estudo, o “Reorganiza”, que iria levantar a situação dos setores e apontar outro jeito de prestar contas à sociedade sobre horário de trabalho. Foram longos meses de trabalho, debates, conflitos, até que tudo ficou pronto. Consolidava ali a proposta das 30 horas e do Controle Social, uma maneira de ampliar o atendimento na UFSC e de garantir qualidade de vida aos trabalhadores. Mas, quando chegou a hora de aprovar o relatório, a então reitora Roselane Neckel decidiu não levar adiante a proposta.

Os TAEs realizaram até uma greve local específica que, desgraçadamente acabou por conta da direção do sindicato que trouxe os aposentados para uma assembleia de desmobilização.  

Apesar desta triste derrota a luta não parou e nos anos seguintes os trabalhadores continuaram suas mobilizações. A universidade foi mudando e as propostas do Reorganiza também precisaram ser revistas. A luta pelas 30 horas seguiu, mas também apareceram novas formulações, como o teletrabalho e a flexibilização, que seguiam as novas tendências pós-pandêmicas. Alguns projetos pilotos foram criados e ali também foram dados importantes passos de transformação. Quando o reitor Irineu Manuel de Souza se elegeu, levava junto também a promessa de oficializar estas práticas que já se expressavam em vários espaços da UFSC.  

A discussão ontem no Conselho Universitário foi mais um passo nesta longa batalha dos trabalhadores técnico-administrativos que, desde sempre, entendem serem eles os mais qualificados para apresentar propostas sobre suas vidas laborais. Apesar de haver uma “tradição” de que são os professores os sábios, na UFSC os TAEs já mostraram que são capazes de atuar ombro a ombro na construção da universidade. 

Assim que, mais uma vez, com a força da luta coletiva, com um sindicato forte, com capacidade de convocatória, os trabalhadores acorreram em grande número à reunião do CUn, dispostos a arrancar a vitória com a força de seus argumentos e sua mobilização. Desta vez, as conquistas vieram. Foi bonito! 

É certo que as batalhas não acabam aqui nesta vitória que é dos TAEs e que é também da administração do Irineu, que cumpriu sua promessa. Com mudanças estruturais na forma-trabalho outros novos desafios certamente aparecerão e, mais uma vez, os trabalhadores terão de encontrar caminhos. Novos passos, novas mudanças de mundo. 

Para a nova geração que ontem lotou o auditório da reitoria fica essa deliciosa sensação de vitória. Mas, sempre é bom deixar registrado que ela não veio por conta do hoje. Ela é fruto de uma fieira de gente que lutou, que quase foi demitido (como o Daniel), que foi perseguido (como a Juliane), que ficou doente, que precisou se afastar, enfim, companheiros e companheiras, com nome e sobrenome, que pavimentaram essa conquista. 

O sindicato foi gigante. E mostra que ainda é por esta via que a organização se faz. E os trabalhadores de hoje fizeram sua parte, garantindo essa importante vitória para todos nós.

Um viva aos os trabalhadores e trabalhadoras!  Ontem o mundo saiu do lugar...

sexta-feira, 28 de junho de 2024

Universidades perderam seus HUs

Dr. Wladimir Tadeu / UFF

Quem vive em Florianópolis sabe a importância que o Hospital Universitário tem. Inaugurado em 1980 foi se tornando uma referência de saúde pública em todo o estado, por conta da qualidade de seu pessoal. Os mais importantes professores da UFSC, das mais variadas especialidades da saúde, ali atuavam, e o corpo técnico, formado por trabalhadores públicos, sempre foi considerado de primeira qualidade. Não é sem razão que todas as manhãs podiam ser vistas as ambulâncias de inúmeros municípios de Santa Catarina trazendo pessoas para tratamento ou emergências. Além disso, o HU era um hospital escola. Ali eram formados trabalhadores da saúde em várias especialidades, com milhares de atendimentos por dia. Por isso, dizer HU era dizer qualidade. 

Mas, com o sistemático desmonte do serviço público e o rebaixamento de verbas para a universidade federal, aos poucos o HU também foi sofrendo as consequências. Dificuldades crônicas foram se agravando e começou a se consolidar o discurso de que o grande problema era estar vinculado às verbas da UFSC. A gritaria privatista que vinha crescendo desde o primeiro mandato de Fernando Henrique, encontrou abrigo no coração do primeiro governo de Luís Inácio. A partir daí começou a se gestar a ideia de desvincular os HUs das Universidades, para dar aos hospitais “mais capacidade de gestão”. E foi assim que, no último dia do segundo mandato, Lula encaminhou a proposta da criação da Empresa Brasileira Serviços Hospitalares (EBSERH), um fundação pública, mas de direito privado. Ou seja, toda a lógica de gestão obedece ao privado. A palavra pública é só para garantir que recursos do estado fluam para lá. A mesma velha lógica de assalto ao estado e da entrega do patrimônio público a uma meia dúzia de mercadores.

Para o médico e professor da Faculdade de Medicina da Universidade Federal Fluminense, Wladimir Tadeu Baptista Soares, trazido pelo Sintufsc em atividade de greve na UFSC, a Ebserh é verdadeiramente uma aberração administrativa. Não há argumento plausível que justifique sua existência a não ser a completa rendição ao Banco Mundial e à iniciativa privada. Sua criação, em 2010, foi um experimento do braço neoliberal do capital no Brasil. “Se desse certo, poderia ser aplicado em outras áreas”, denuncia. 

Wladimir aponta que no contrato firmado entre a Ebserh e o governo está bem claro, no artigo primeiro, qual a sua função: ser exploradora de atividade econômica. Ora, saúde é atividade econômica? Parece que agora sim. A empresa tem sede em Brasília, ocupando um prédio imenso. “Lá, parecemos estar em Dubai”, diz Wladimir. A Ebserh é uma empresa unipessoal, ou seja, não têm acionistas, não tem assembleias para discutir seu fazer e é totalmente dependente da União. Portanto, é o dinheiro público que viabiliza sua rica existência com uma imensidão de cargos, de salários altíssimos. O professor fluminense afirma que se todos esses recursos fossem para os hospitais, como antes, hoje eles seriam umas joias. Mas, o que se vê é o contrário. Onde a Ebserh tomou os HUs os serviços à população só pioraram, bem como também piorou o ensino. A ideia de público se perde.

Para Wladimir a autonomia universitária foi quebrada com o aceite da Ebserh, pois a universidade perdeu completamente o controle dos hospitais. Inclusive não tem nem mais o controle do ensino visto que é a Ebserh quem contrata os médicos e enfermeiros. Não estão mais lá dentro os professores da UFSC, por exemplo, só os contratados pela empresa.  “Existe uma prova nacional da Ebserh com questões de múltipla escolha. Como avaliar um profissional médico assim? E é esse médico que vai ensinar os estudantes residentes. Perdeu-se também a qualidade do ensino dentro do hospital porque ao fechar enfermarias ou setores como emergências, a Ebserh tira do estudante a possibilidade de aprender o cotidiano da medicina. Quem está ensinando nos hospitais da Ebserh são preceptores escolhidos pela empresa, não são mais professores das universidades”. 

Outro problema gravíssimo é que a Ebserh não sofre o controle social do SUS, portanto pode fazer o que bem entender. E, como uma empresa privada, sua função é gerar lucro, logo, sua meta é não gastar com paciente, daí a lógica de acelerar a alta dos internados para que não gerem prejuízo. “Essa empresa não tem patrimônio algum, tudo é público, ela se apropriou dos HUs, nenhum recurso ali é posto pela Ebserh, tudo vem do estado através do REUF e das verbas do programa Mais Médicos”, diz Wladimir. Ele explica que antes desta aberração, os recursos ficavam vinculados ao MEC que os distribuía às universidades. Agora vai tudo para a Ebserh. 

Outro drama que se expressa nos antigos HUs diz respeito aos trabalhadores. Com a chegada da Ebserh há dois tipos de contratos: os trabalhadores públicos, que já atuavam no HU, e os trabalhadores celetistas, que vivem a lógica privada. E o mais grave. Como são geridos pela CLT estes trabalhadores têm data base e recebem reajuste todos os anos, enquanto que os trabalhadores públicos ficam até 10 anos sem qualquer ganho nos salários. “E o cofre público de onde sai o aumento para o trabalhador Ebserh é o mesmo de onde deveria sair para o trabalhador público. Só que não sai,  e isso gera muito conflito dentro dos hospitais  porque há casos de trabalhadores públicos ganharem menos do que o privado, na mesma função”. 

Wladimir também denuncia que os antigos HUs, agora da Ebserh, também não tem porta aberta para os trabalhadores nem para os estudantes. Ou seja, se um trabalhador ou um médico residente enfartar dentro do HU, será encaminhado para outro hospital. “Vários casos assim já foram levantados. É algo inadmissível”.

O que parece ser um absurdo completo tem uma lógica bastante clara: a proposta embutida nessa forma de gestão dos hospitais é a de destruir o SUS (Sistema Único de Saúde). O governo criou uma empresa para fazer o que as universidades já faziam, e bem, que era administrar os hospitais escola. Agora, a universidade não interfere em mais nada e os reitores que permitiram essa barbaridade são cúmplices do crime. É sabido que o SUS é um dos sistemas de atendimento à saúde mais reconhecidos no mundo. Nele, o atendimento é universal. Pobre, rico, brasileiro ou estrangeiro, qualquer um é atendido sem pagar um centavo. Para o capital isso é aberração. Para a população é vida. 

Wladimir aponta que a proposta do Banco Mundial é ir sufocando o SUS até acabar com ele, criando o que chamam de CUS (Cobertura Universal de Saúde), cuja sigla já diz tudo: fazer merda. Os mercadores da doença querem que o atendimento gratuito fique só para os miseráveis, e que o restante da população pague pelo atendimento. O que fica óbvio é que se o CUS passar, o atendimento aos empobrecidos será de péssima qualidade. Hoje, por atender a todas as faixas econômicas, o SUS é de primeira. 

Enfim, no caso da UFSC, onde a comunidade universitária se expressou em mais de 70% contra a aceitação da Ebserh, a entrada da empresa foi aprovada pelo Conselho Universitário em 2014, numa polêmica reunião levada para dentro das dependências da Polícia Militar pela então reitora Roselane Neckel. Todos os envolvidos, a seu modo, são responsáveis pela decadência do HU, que só piorou depois de ser entregue a Ebserh. Hoje, os trabalhadores do regime RJU (públicos) são considerados intrusos dentro do hospital. 

Segundo Wladimir, ainda há tempo de reverter a situação. Em 2026 as universidades poderão rever os contratos e provar que nada do que foi prometido foi cumprido. Isso dá base para a rescisão do acordo. Mas, claro, isso não pode ser uma decisão isolada de um reitor particular. Tem de ser uma articulação nacional, que envolva também as comunidades. Hoje, o contrato da Ebserh é de adesão, a empresa decide tudo, logo, os HUs estão mortos. O que existem são filiais da Ebserh. O nome "universitário" é só uma grife, para pegar trouxa. Recuperar os HUs exigirá uma luta gigante, mas que precisa ser travada em nome da saúde pública. 

Uma grande tarefa para todos nós. Ou fazemos isso, ou estaremos sendo igualmente cúmplices da morte do SUS. 


segunda-feira, 10 de junho de 2024

A universidade, o governo e a greve dos TAEs



Greve nas universidades nunca foi fácil. Até porque uma universidade não é uma fábrica de salsichas. Quando os trabalhadores param não há um patrão específico perdendo seus lucros. É uma batalha contra um governo de plantão. No geral, os motivos são salariais e isso não é um acaso. Ocorre que os trabalhadores públicos, ao contrário dos que atuam no mundo privado, não têm uma data-base, que é aquele momento obrigatório no qual são recompostas as perdas do ano. Por conta disso o governo vai se fazendo de morto, não recompõe os salários, não repõe a inflação e vai deixando os trabalhadores na lona. Sem a recomposição da inflação o salário vai minguando, perdendo poder de compra. Quando fica insustentável, a única saída é a greve. 

Outro motivo que obriga os trabalhadores a parar o trabalho é a destruição sistemática da universidade, quando o governo - seguindo receitas externas - vai diminuindo as verbas, sucateando, arruinando, arrasando a estrutura e minguando as políticas de permanência. Chega uma hora que fica impossível trabalhar e estudar. Então, os trabalhadores precisam agir em consequência, parando, para que o governo seja provocado a recompor também o orçamento das instituições federais, melhorando assim o ambiente de trabalho e permitindo que mais estudantes possam se manter na universidade. Esse é, portanto, o cenário no qual se movem os trabalhadores e os governos. É como um interminável jogo de força. 

Nesse ano os trabalhadores técnico-administrativos, amargando perdas de 76% desde 2015, tiveram de parar. Iniciaram uma greve para recompor os salários e também para exigir o aumento das verbas de custeio para a universidade, que diminuíram mais de 50% desde 2015 até aqui. São perdas muito significativas na vida do trabalhador e na da universidade. É uma derrocada que impacta muito mais do que os mais de 200 mil TAEs (entre ativos e aposentados), afinal, a universidade caindo aos pedaços interfere também na vida de mais de um milhão e 200 mil alunos que ainda estudam no modo presencial. Pois é esta pauta que move a greve iniciada em março deste ano. 

Agora o movimento chega aos três meses tendo apenas duas mesas de negociação com o governo, nas quais a proposta tem sido a mesma: zero% de reajuste para este ano, mudanças insignificantes no plano de cargos e nenhum aceno para o aumento de verbas para as universidades.  O governo de Luis Inácio já negociou com outras categorias e concedeu aumentos graúdos para algumas delas, mas para os trabalhadores das universidades a regra tem sido: endurecer e não ceder. 

Diante disso há que se compreender duas questões importantes. 

As mudanças ocorridas no desenvolvimento do sistema capitalista têm colocado os países periféricos como o Brasil na condição - cada vez mais fortalecida  - de meros exportadores de matérias primas: grãos, petróleo, carne. Por isso os governos fortalecem tanto o setor do agronegócio bem como o da extração mineral. Os incentivos para esses setores crescem de maneira vertiginosa, enquanto a educação vai perdendo na mesma medida. Para um país que exporta commodities (mercadorias de origem primária) e importa tecnologias, não se faz necessário investir em escolas ou universidades. Por isso um ensino médio voltado ao “empreendedorismo”, e uma universidade cada dia mais sucateada. Oferece-se uma educação meia-boca para capacitar minimamente o trabalhador e deixam-se essas coisas de ciência e pesquisa para os países centrais. Não é sem razão que hoje, no Brasil, o número de estudantes fazendo faculdade no modo on-line, pagando 50 reais de mensalidade, cresce sem parar. Já são mais de três milhões de alunos nessa modalidade, enquanto nas universidades públicas, no ensino regular e presencial são pouco mais de um milhão. Como bem avalia o economista Nildo Ouriques, isso resolve o problema da formação de profissionais e gente minimamente capacitada. A universidade pública, tal como a conhecemos, está ficando desnecessária. 

Com essa decisão política de enxugar as universidades públicas ao máximo, o governo federal vai estrangulando os atuais trabalhadores, visando justamente extinguir a carreira de técnico-administrativo, ideia que vem desde o governo Fernando Henrique. Os sucessivos governos foram extinguindo cargos, terceirizando e tornando esta carreira cada vez menos atrativa. A tal ponto que hoje o que mais se ouve entre os trabalhadores das universidades é a vontade de passar em outro concurso, para uma carreira mais vantajosa. A condição material real tem afugentado os trabalhadores. Só na UFSC há um déficit de mais de 300 que ou se aposentaram ou abandonaram a carreira. E não há reposição destes cargos, o que sobrecarrega os que ficam. 

Agora na greve essa política de extinção dos TAEs fica bem clara. Pela primeira vez não se vê movimentação da base de apoio do governo no sentido de cavar reuniões ou influenciar o presidente para que atenda as demandas dos trabalhadores. Há apoios ritualísticos, mas nenhuma ação concreta por parte de deputados federais e senadores. É certo que alguns têm gritado no deserto, mas são exceções e acabam não tendo muita força. Audiências sobre educação são feitas, mas não há pressão sobre o executivo, que é quem tem a caneta. Por parte do governo de Luís Inácio a intenção é de oferecer o mínimo possível e ainda dividido em dois anos, com zero ajuste nesse ano. Com o agravante de manter o movimento em greve, prejudicando ainda mais a universidade. Nem mesmo os professores, que sempre são os que aparecem para a sociedade como “os trabalhadores” das universidades estão sendo ouvidos. A negociação tem sido dura. 

Neste diapasão o governo vai mantendo a ideia de que a universidade é desnecessária, que os trabalhadores técnico-administrativos precisam ser privatizados e que os professores precisam aceitar os novos tempos. A sociedade, como sempre mal informada pelos sacerdotes do capital (mídia comercial), começa a acreditar que fazer dancinha no tik tok pode ser mais rentável para seus filhos do que queimar pestanas na universidade, e assim, a educação vai perdendo força e importância. 

O mais dramático é que esta universidade que aí está nem chegou a ser a universidade que sonhamos, aquela, necessária, rebelde, que se debruça sobre os problemas nacionais, que avance nas pesquisas estratégicas para o país, que abre caminhos para o fim da dependência. E, mesmo assim, caminha-se para sua destruição.  

O cenário é esse. Para os trabalhadores só resta o caminho da luta. 


sexta-feira, 22 de março de 2024

Os dramas do Restaurante Universitário


O restaurante universitário da UFSC serve cerca de 10 mil refeições por dia. Sua capacidade foi planejada – em 2011 – para cinco mil, o que já complica. Além disso, a manutenção das instalações, que deveria ser frequente e sistemática, foi abandonada nos últimos anos em função da vertiginosa diminuição dos recursos do governo para as universidades. Tudo isso acaba desembocando em relações muito precárias de trabalho. Não é de hoje que os trabalhadores vêm reivindicando melhorias nas instalações, pois além de se preocuparam com suas próprias condições sabem que o usuário também acaba sofrendo. É fato que as coisas no serviço público são mais lentas. Tudo precisa ser licitado e há que ter recursos. Mas, se há planejamento, a coisa flui. Também é fato que a pandemia complicou demais as coisas e que a última gestão perdeu a mão. Só que agora é preciso dar respostas aos problemas ou então o RU vai fechar. 

Nesta quinta-feira os trabalhadores em greve ocuparam o RU justamente para colocar às claras os dramas que se desenrolam para além da aparência. Enquanto as refeições seguem sendo servidas, lá dentro, os trabalhadores vivenciam situações limite, pois, como já foi dito a cozinha foi projetada para cinco mil refeições e prepara dez mil. Todos os dias são manejados e distribuídos mais de uma tonelada de carnes, 400kg de feijão, 500kg de arroz, além das outras preparações do cardápio. O que ninguém sabe é que para amaciar um bife há que ter equipamento em quantidade suficiente e operando bem, assim como a comida quente no balcão precisa de maquinário adequado. 

Para que a comida esteja saudável as condições higiênico-sanitárias precisam estar em dia. Não estão. Há sobrecarga das instalações causando frequentes entupimento das tubulações. Isso gera sujeira no chão e faz com que o esgoto brote, atingindo as áreas de manipulação de alimentos. Vem o mau cheiro e o risco para a saúde dos trabalhadores. Como trabalhar assim? 

Uma boa olhada na cozinha e já se vê que o piso está se desfazendo, porque a manutenção não acontece. A área de carga e descarga amiúde está invadida pelo esgoto porque as tubulações estão entupidas, o que ajuda na proliferação de insetos e roedores. Risco para os trabalhadores e para os usuários. 

Atualmente o RU tem um número bastante grande de trabalhadores terceirizados (mais de 100), visto que alguns cargos importantes para a manutenção da cozinha foram extintos. Ainda assim, restam cargos que são chaves na cadeia de produção do alimento, como é o caso das nutricionistas, só para dar um exemplo. Isso significa que só com terceirizados o RU não pode funcionar. Daí a importância de se pensar o RU como um todo, focando sempre na qualidade do ambiente onde todos esses trabalhadores atuam.

Agora, aproveitando a greve, os trabalhadores do RU paralisaram por um dia para tornar visíveis suas reivindicações, tais como o redimensionamento das redes de esgoto e elétrica, reparos no telhado da área de produção, almoxarifado e vestiários dos funcionários. Reparos para resolver goteiras e infiltrações nos banheiros, vestiários e na área de produção e estoque de alimentos. Manutenção do ar condicionado do refeitório que não tem dado conta nesses dias de intenso calor. Climatização da cozinha, que é extremamente quente por conta dos equipamentos de cocção, e que torna exaustivo ao extremo o trabalho. Climatização do almoxarifado para evitar proliferação de insetos. Manutenção preventiva dos equipamentos. Criação de novos espaços para o preparo e distribuição de alimentos no campus, visando diminuir as imensas filas. Contratação de mais trabalhadores, pois se aumenta o número de refeições o quadro não acompanha gerando sobrecarga.  

Estas são algumas questões que estão na pauta. A principal delas é a garantia de um alimento saudável e de qualidade que está em risco nas atuais condições. Os trabalhadores sabem que o governo federal diminuiu ainda mais os recursos para as universidades e por isso estão em luta. Querem recuperar os salários, melhorar o plano de cargos, mas fundamentalmente lutam pela valorização das universidades, abandonadas nos últimos governos e também no atual. 

Sabem que é duro fechar as portas, mas também sabem que se não forem resolvidos esses problemas estruturais não demorará muito para que o RU seja obrigado a parar por absoluta falta de condições. Por isso apontam que toda a energia dispendida para “xingar” os trabalhadores seja voltada para o governo, exigindo uma proposta séria na mesa de negociação e mais recursos para as universidades. 



terça-feira, 19 de março de 2024

A greve e o HU



A universidade tem sofrido muito ao longo dos anos com o descaso dos governos, um após o outro diminuindo orçamento, extinguindo cargos importantes, enxugando a máquina pública para dar espaço ao privado dentro das IFES. Quando vem a greve isso fica muito mais claro. Passando de setor em setor, conversando com os trabalhadores, o que se observa é a precarização sempre crescente nas condições de trabalho. Estrutura decadente, falta de pessoal, um drama cotidiano que, no mais das vezes, adoece o trabalhador. Dezenas estão solitários nos setores, fazendo o trabalho de duas ou três pessoas, ou cercados de bolsistas que, de maneira irregular, acabam fazendo serviço de técnico. Tudo isso impacta negativamente no processo de trabalho e no atendimento, mas na aparência, a universidade está de pé. 

Mas, se há algo que realmente impressiona é a situação do Hospital Universitário. Os relatos dos trabalhadores sobre a degradação dos serviços são assustadores. E, claro, tudo isso se aprofundou com a entrada da EBSERH, certamente a decisão mais perversa do governo do PT que cresceu no segundo mandato de Lula e foi efetivada no governo de Dilma Roussef em 2011. Uma fundação privada para administrar hospitais. Ora, o que quer uma fundação privada? Lucro! E como lucrar com a saúde? Essa pergunta nós, que fizemos a luta contra a Ebserh, respondemos muito claramente: serviços precários, foco na doença, salários baixos para os trabalhadores e muito, mas muito risco para os pacientes. 

Quem lutou contra a Ebserh sabe. A UFSC realizou um plebiscito e mais de 70% votaram contra a entrada da Fundação no HU. A comunidade sabia que seria o fim do serviço de excelência que sempre fora prestado pelo Hospital. Mas, na época, a reitora Roselane Neckel, decidiu ir contra a decisão da comunidade e chegou a levar a votação do Conselho Universitário para dentro da Polícia Militar. Foi um dia triste. Não tivemos acesso à votação e ficamos no portão da PM enquanto lá dentro os conselheiros que entraram decidiram por aderir à Ebserh. 

Hoje, ouvindo os relatos dos trabalhadores sobre a precariedade do trabalho o assombro vem, não por não saber, mas justamente porque sabíamos e não conseguimos vencer essa batalha. Setores sendo sustentados por uma única pessoa, que adoece e não consegue nem se tratar dentro do próprio hospital. Que precisa pagar para cuidar da saúde que foi destruída pelo excesso de trabalho. Espaços que deveriam ter enfermeiros funcionando só com técnicos de enfermagem, relatos desesperados de trabalhadores veteranos que assistem o hospital desmoronar, relatos emocionados de jovens trabalhadores que percebem os absurdos e não conseguem mudar. Um drama que ultrapassa o limite do absurdo.

E aí está a greve e muitos trabalhadores do HU querem parar. Porque precisam viver e porque querem que o HU volte a ser o que era: um hospital referência no atendimento. É uma batalha de vida ou morte, tanto dos trabalhadores quanto do povo da cidade que precisa de cuidados. O HU tal como está é uma sombra do que foi. A Ebserh propõe metas, busca lucro. Não é essa missão de um hospital vinculado a uma universidade pública. A greve da UFSC coloca à nu as chagas abertas do nosso hospital. É grave e à beira do terminal. Os gestores dizem: os trabalhadores não podem parar. 

E o que se pode dizer é: eles devem parar, em nome da vida.

Para além da mobilização que acontece hoje por conta do movimento, uma coisa fica absolutamente clara: é preciso reverter essa perversidade que se chama Ebserh. O HU precisa voltar a ser público. Uma batalha que não é a da greve, mas que deve ser a do resto de nossas vidas. Em nome das vidas de toda gente. 

terça-feira, 5 de dezembro de 2023

UFSC faz 63 anos


Foto: Ricardo Casarini, num Eko Porã


 Quando o Irineu Manoel de Souza assumiu a reitoria em julho de 2022, sabia que não seria fácil. A universidade vinha de dois anos de pandemia, quando praticamente houve uma viragem, uma mudança na temperatura da realidade. No campus a vida tinha murchado. Os estudantes voltavam lentamente ao presencial. Outros nem voltaram, desistiram. Os prédios estavam degradados por tanto tempo em abandono, e o ambiente do campus estava feio, o mato alto, faltavam as flores, a imagem era de um mundo em ruínas. Afinal, além da Covid também foram quatro longos anos de estrangulamento por parte do governo de Jair Bolsonaro. Era um caos.  

Agora, ao final de 2023, depois de um ano e meio de gestão, muitas coisas ainda estão por fazer. O dinheiro vem pingadinho e o governo Lula ainda anuncia cortes. O campus segue feio, com mato alto, porque os contratos com as empresas acabaram e tudo é muito demorado no serviço público. A maioria dos trabalhadores dos jardins, que era TAE, se aposentou e não há quem cuide das flores. A estrutura da UFSC que foi deteriorada tampouco pode ser rearranjada sem recursos federais. Um exemplo é a Biblioteca Central que com qualquer chuva, alaga. 

A UFSC que chega aos 63 anos é uma universidade vazia de gente. Não existe mais a concha acústica com shows ao meio dia, não há pessoas sentadas nos bancos, embaixo das árvores, e só se vê mesmo gente na fila do RU, que segue longa, longa, longa, porque os restaurantes mais baratos que existiam no entorno fecharam. A estudantada que a gente encontra do ponto de ônibus vive com a cabeça enterrada no celular, faltam risadas e a vida parece assomar, por algumas horas, apenas às quartas-feiras, quando tem a feirinha. O centro de convivência que era para ser um espaço de encontro se desfaz à vista do boi-tatá do Laércio Luiz. 

Sinto certa tristeza de andar por aí, bem como me surpreende ver que tudo o que o nosso reitor faz pela UFSC sequer aparece nas tais das redes sociais da universidade. Seguramente há falta de gente. Os trabalhadores andam sobrecarregados e muitos apostaram no trabalho remoto. Ainda assim, para saber sobre a Ufsc só no Instagram do Irineu, que sempre foi célere nas redes. Mas, é estranho. Que passa com a comunicação? Está escondendo o reitor?

É fato que a universidade mudou. Os tempos são de redes, conexões internéticas, solidões. Não gosto desse tempo. Preferia os tempos de vida mesma, real, no chão da existência, como quando as assembleias dos trabalhadores eram no RU e saia gente pelo ladrão, todo mundo querendo lutar pela universidade pública. Agora, tudo é virtual, as lutas são intestinas, não há abraços, nem beijos e poucas são as batalhas contra o capital. 

É o mês e aniversário da UFSC. Que tenha um feliz cumpleaños e que em 2024 algo possa mudar.

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sexta-feira, 4 de agosto de 2023

A burocracia e a UFSC


A burocracia é um poder. Isso é um fato. Os que se aferram a ela a usam para justificar uma forma de agir que não encontra amparo numa visão mais humana e empática de mundo. No serviço público isso tem sido uma arma. Lembro de uma vez, eu sentada numa sala de espera do INSS, e uma trabalhadora mandou embora um senhor bem velhinho, dedos calejados, chinelo havaiana, que tinha vindo resolver um problema de sua aposentadoria, porque ele não tinha em mãos uma conta de luz ou algo que atestasse residência. Ora, era absolutamente visível que aquele senhor não era um fraudador da previdência. Era alguém desinformado. Ela poderia ter liberado sua aposentadoria, de pouco menos de seiscentos reais na época, e pedido para ele trazer a conta no dia seguinte. Não, o mandou embora. E ele saiu, perplexo e perdido. 

Na UFSC pós-pandemia temos observado um avanço grande dessa burocracia imobilizadora. Tudo é feito por formulários na internet e há que obedecer a fila. A fila. Uma coisa que inviabiliza cuidar de urgências e emergências. Imaginem um setor de informática, com uma fila de pedidos para reparação num computador. O que deveria ser levado em conta? A fila ou a necessidade real do reparo? Um computador em meio a vários outros para o serviço administrativo é mais ou menos urgente que um computador que é único – por conta dos programas que carrega – para a realização de determinado serviço? Obvio que é o segundo. Mas se ele estiver lá para trás na fila não será reparado até que chegue a sua vez. Isso, para mim, não é qualidade de atendimento. 

Muitos colegas defendem a fila e até se negam a falar por telefone ou pessoalmente com as pessoas porque é “preciso respeitar a fila” e se houver uma conversa a fila pode ser desrespeitada. Penso eu que essa é uma posição equivocada. Há que contextualizar a fila. Não sou contra formulários. Penso que pode ser uma boa estratégia, mas nele deveria constar um espaço para a explicação da emergência ou da urgência. “Ah, mas tudo é urgente para quem está precisando”. Sim e não. O trabalhador responsável pode muito bem avaliar e decidir. Como aquela moça do INSS. Poderia ter liberado o dinheiro e recebido a comprovação de residência depois. E se o velho fosse um marginal, fraudador, bueno, é o risco. Mas pelo menos ele não teria saído dessuleado. Naquele dia eu fui atrás e ajudei o homem. Mas e os outros tantos? 

Penso que a fila deveria seguir o critério da fila no hospital. Quem tá em pior situação, é atendido primeiro. Tratar de maneira desigual os desiguais. A burocracia dura desumaniza, emperra os caminhos em vez de abrir. O trabalho no serviço público envolve relações humanas, fundamentalmente. Lidar com gente. Eu estou na UFSC desde 1994. Sei exatamente quem está tentando ludibriar a fila e quem realmente está na urgência, porque conheço a instituição, conheço o trabalho que cada setor desenvolve. E conheço porque me importo. Já me ferrei algumas vezes, com gente enganadora, é verdade, mas muito poucas. Na maioria das vezes as pessoas falam a verdade. 

A burocracia é boa porque organiza. Mas quem a maneja somos nós, humanos. E os humanos no serviço público precisam agir na força de Exu, abrindo caminhos, abrindo caminhos... Essa deveria ser a nossa primeira preocupação! 


quarta-feira, 14 de junho de 2023

Roberto Carlos Alves, um trabalhador



Trabalhar no serviço público não é bolinho. Além do preconceito expresso na máxima: servidor público é tudo vagabundo, ainda há todo peso da máquina que mais atrapalha do que ajuda o serviço a andar. Por isso, quando encontramos um trabalhador que sabe driblar as dificuldades e faz as coisas aconteceram há que iluminar. Porque, sim, é possível ser um bom trabalhador no serviço público. Roberto Carlos Alves é um exemplo vivo em ação na UFSC. Sua especialidade é resolver as coisas. Nada fica sem resposta e mesmo quando tudo parece impossível, ele encontra uma brecha e aparece com a solução. Ele definitivamente é um exemplo de trabalhador público.

Roberto entrou na UFSC quando tinha 19 anos. Fez concurso para o HU num tempo em que ser um trabalhador público era sinônimo de segurança e bom salário. Naqueles dias, em 1985, os reajustes eram iguais, tanto para professores quanto para trabalhadores. Sua primeira função foi de oficce boy e ele a cumpriu com bastante competência. Logo em seguida surgiu uma vaga para atendente de enfermagem. Como a irmã trabalhava em hospital ela ajudou no treinamento, e foi por conta da prova prática que ele se deu bem. “No dia do resultado, o hall da reitoria cheio de gente, eu fui olhar a lista e vi lá o meu nome em 24º lugar. Eram 30 vagas”. 

No HU Roberto trabalhou no setor de esterilização, na parte do expurgo de materiais sujos. Não gostava muito da coisa, mas, com seu bom humor característico sempre levou na maciota. Pouco tempo depois passou para o centro cirúrgico, lidando com as roupas limpas. Melhorou. Naquela época ele tratou de fazer um curso de datilografia, pois se surgisse alguma vaga de escriturário ele queria pegar. Mais uma vez buscou amparo na ascensão interna e em novo concurso passou para assistente de administração. Foi parar no balcão da clínica médica. Lá conheceu a Delvina, colega que mais tarde foi trabalhar no Gabinete do Reitor. 

E foi justamente a Delvina que o convidou para trabalhar no gabinete. Naquele tempo havia muito trabalho de datilografia e o Roberto era fera na coisa. Podia copiar um documento rapidamente, datilografando sem olhar para as teclas. Também era responsável pela digitação nas máquinas de telex. Era um fenômeno. E foi por conta dessa habilidade que acabou saindo do HU e indo para o gabinete. Mas, os dedos que corriam céleres pelas teclas da máquina também dedilhavam violão e a música era uma paixão na vida de Roberto. Daí que seu sonho era fazer o Curso de Música na Udesc. Dedicado como sempre, ele fez o vestibular e passou. Mas, tinha um problema, o curso era de manhã. A saída foi passar a fazer os plantões da noite. Ele ficava todas as noites e os colegas não precisavam mais fazer plantão. Foi um acordo feliz e assim conseguiu terminar o curso. 

Em 2003 foi convidado pela professora Elisabete Flausino para trabalhar no Departamento de Economia, no CSE. Os tempos já estavam mudando e sua habilidade como datilógrafo começava a migrar para o computador. Mas, ao longo do tempo no gabinete ele também havia secretariado a Estatuinte e aprendido as manhas sobre como administrar as coisas na UFSC. Por isso, em pouco tempo já estava envolvido com o trabalho de manutenção na relação com a Fepese. Foi quando começou uma grande reforma no Centro Socioeconômico e o professor Zapelline não teve dúvidas: chamou o Roberto. E lá foi ele coordenar a obra, resolvendo todos os problemas com a habitual alegria e bom humor. Nunca teve tempo ruim para o Roberto. 

Foi por conta disso que quando o professor Ricardo assumiu o CSE, logo chamou o Roberto para secretariar o Centro. Não haveria melhor pessoa. Para qualquer problema a frase mais ouvida era: fale com o Roberto. Fosse como fosse ele resolveria. E sempre foi assim. Ricardo saiu, entrou Eliseth e depois Irineu como diretor, a torcida de todo mundo era para que Roberto continuasse. E ele continuou, para alegria geral. Sua mesa era sempre um amontoado de papéis, com os mais variados pedidos, e sua sala um espaço de lamentações, as quais ele transformava em alegria, sistematicamente. Ninguém saía dali sem uma resposta. “Fica tranquilo, vamos resolver”, ele dizia, e resolvia.

Ele lembra que apesar de amar o trabalho na UFSC chegou a tentar uma chance na música. Montou um conjunto e estavam até indo bem, sempre com muitos bailes e apresentações. Chegaram a ser a banda base do CTG Figueira Velha. Mas, aí, ele teve um acidente de moto e precisou ficar seis meses em recuperação. A coisa esfriou. Nesse ínterim o tecladista morreu e o gaiteiro não quis mais tocar. Era o fim de “os Travessos”.  Mais tarde houve uma chance de ir para Portugal, mas Roberto se apaixonou e decidiu ficar. Quem ganhou foi a UFSC. 

Agora, aos 57 anos, ele foi nomeado pelo reitor Irineu como Diretor do Departamento de Manutenção Externa e ao andar pela UFSC já se pode notar concretamente a mão do Roberto na organização da vida da UFSC. O campus está bem cuidado, foram retomados os viveiros de flores, os problemas prosaicos vão sendo resolvidos silenciosamente, como é do seu feitio. Roberto é de uma geração de trabalhadores que tem muito claro o seu papel como trabalhador público. Sabe que para a missão da universidade se cumprir, a máquina precisa andar. E ele sabe muito bem como fazer isso acontecer. 

Roberto Carlos Alves é um exemplo de trabalhador público. Sabe fazer e sabe comandar. Sempre com muito riso, muitas histórias e muita competência. Eu o reverencio e o honro. 


quarta-feira, 8 de março de 2023

Recuperar a qualidade dos cursos de Graduação da UFSC: o grande desafio para 2023

 


Foto: Henrique Almeida

Carta aberta do professor Lauro Mattei sobre a necessidade de uma profunda análise da situação da graduação na UFSC depois de todo o drama da pandemia que esvaziou os cursos e gerou outra série de grande problemas para os estudantes. 


Texto do professor Lauro Mattei

O início do ano de 2020 demarcou uma nova era na história da humanidade, uma vez que a pandemia provocada pelo novo coronavírus atingiu todos os países e povos do mundo, causando milhões de mortes, além de deixar um número expressivo de sequelados e de milhares de crianças órfãs. No Brasil o primeiro caso da doença (Covid-19) foi oficialmente registrado em 26.02.2020, sendo que a virose logo se espalhou por todas as cidades e regiões do país. Já em Santa Catarina (SC), o primeiro registro oficial da doença foi documentado em 12.03.2020.

Como naquele momento (ano de 2020) não havia um antídoto eficaz para combater a doença, os mecanismos de proteção das pessoas foram o isolamento social e o uso de máscaras para evitar o contágio, uma vez que a transmissão ocorria via micropartículas virais expelidas pelo sistema respiratório.

Neste cenário, a UFSC decretou, em 15.03.2020, a suspensão de todas as atividades acadêmicas e administrativas presenciais. Todavia, somente após cinco meses – e diante da continuidade e avanço da pandemia – foi instituído o ensino remoto, o qual perdurou até o mês de março/22, período que compreendeu os dois semestres letivos dos anos de 2020 e de 2021. Obviamente que esse foi um período extremamente complexo, dada a gravidade com que a pandemia se alastrou no país e também em SC, afetando as diversas esferas da vida de todos.

Infelizmente, até hoje a UFSC não fez uma avaliação rigorosa e adequada sobre o significado desse processo sobre os resultados do ensino remoto, especialmente na aprendizagem do corpo discente. Ou seja, no dia 15.03.2020 tiramos o plug da tomada e no dia 18.04.2022 o recolocamos, seguindo as rotinas acadêmicas e administrativas como se nada tivesse ocorrido. Mas o retorno às aulas presenciais revelou – pelo menos para aqueles que querem ver e analisar um conjunto enorme de problemas, inclusive que se avolumaram após um ano de ensino presencial. O mais evidente desses problemas é o enorme número de vagas ociosas nos cursos de todas as unidades de ensino da universidade. Mas há, ainda, uma quantidade enorme de problemas bem menos visíveis, quase sempre ligados aos aspectos comportamentais e existenciais dos integrantes da comunidade universitária.

Neste caso, gostaria de registrar o feede back que obtive de um número considerável de estudantes ao longo do ano de 2022. Assim, problemas de ansiedade, desânimo, falta de concentração, desistência, depressão, etc., são bem mais comuns do que se possa imaginar. E o resultado da combinação dessas diversas mazelas afetou e ainda está afetando a qualidade do processo ensino-aprendizagem, caso nada seja feito para o enfrentamento das mesmas.

Exatamente neste ponto, gostaria de externar duas ordens de preocupação. A primeira delas diz respeito ao comportamento de parte expressiva do corpo docente que, de maneira confortável e até mesmo descompromissada, faz de conta que esses problemas não existem e seguem como se a vida acadêmica-profissional continuasse como era antes do início da pandemia, porém com um agravante: tornou-se comum para uma parte importante da categoria docente a narrativa de que fazer reuniões presenciais para discutir os problemas anteriormente mencionados é “perda de tempo”. Registre-se que há relatos de que muitas atividades acadêmicas da graduação em diversas unidades continuam remotamente, apesar da decisão da instância máxima da universidade (CUn) de que essas atividades devem ser 100% presenciais. Assim, cada qual continua em seu “quintalzinho” enquanto “la nave va”.

A segunda diz respeito à postura das administrações da UFSC. A gestão anterior – encerrada em junho de 2022 – foi marcada por uma inércia monumental desde o início da pandemia, destacando-se a lentidão para implementar o ensino remoto quando este já era um ponto pacífico na maioria dos países igualmente afetados pela pandemia. Além disso, entre março de 2020 e junho/22 a UFSC viveu um período de completo abandono, cujo cenário era mostrado cotidianamente pelos meios de comunicação, uma vez que o mato tomou conta das diversas edificações, especialmente no campus de Florianópolis. Já a gestão atual – empossada no início de julho/22, portanto há oito meses – ainda não foi capaz de tomar iniciativas robustas voltadas a atacar os problemas anteriormente mencionados, particularmente em termos da elaboração de um diagnóstico preciso sobre os impactos da Covid-19 na esfera da graduação, apesar de ter sido eleita com o discurso de que sua prioridade seria o ensino de graduação.

Em meados de janeiro/23 mantive uma reunião reservada com o atual Reitor, momento em que explicitei todos os problemas acadêmicos que observei a partir do retorno do ensino presencial após dois anos de ensino remoto, ao mesmo tempo em que fiz uma sugestão geral que se desdobrava em duas dimensões para se pensar o início das atividades do ano letivo de 2023: a primeira dizia respeito à organização de uma força tarefa por parte dos integrantes da gestão atual para, no período entre 15.01 a 28.02.23, fazer um diagnóstico mínimo sobre a situação de cada curso de todas as unidades acadêmicas segundo os principais indicadores (índice de aproveitamentos, índice de reprovação, índice de represamento, abandonos, desistências, etc.) que ajudam a compreender a realidade atual; a segunda, partindo desse primeiro passo, seria organizar nas primeiras três semanas do calendário de atividades (mês de março) ações conjuntas em cada curso envolvendo todos os segmentos com o objetivo de discutir minimamente a realidade e os desafios a serem enfrentados visando melhorar a qualidade dos cursos de graduação em cada área de conhecimento.

Minha surpresa for ver no dia 03.03.23 a página principal da UFSC divulgar a programação de retorno às atividades acadêmicas para praticamente todo o mês de março/23, da qual faz parte um conjunto de atividades que vão desde oficinas diversas, cursos de cálculo e estatística, recepção aos calouros de alguns cursos, além de diversas atividades específicas correlacionadas aos assuntos identitários e de gênero. Diante disso, minha reação foi enviar, as 11:15h do mesmo dia, uma mensagem ao Reitor, cujo teor segue: “estou aqui vendo a programação de início das aulas do ano de 2023. De fato, a programação é extensa e variada. Todavia, passa longe de enfrentar os reais problemas da graduação conforme comentei contigo em nossa conversa no início de janeiro/23”.

Minha segunda surpresa veio no mesmo dia: ao acessar novamente a mesma página da UFSC percebi que tal programação não estava mais disponível. Continuo crendo que a atual administração tem feito poucos esforços para enfrentar as questões centrais da graduação, apesar de reconhecer a importância de outras pautas também relevantes que serão desenvolvidas.