quarta-feira, 11 de julho de 2018

Generosidade seletiva



Tenho lido nas redes sociais alguns comentários sobre a questão dos meninos da Tailândia que ficaram presos numa caverna. Durante semanas o mundo esteve com os olhos lá naquele longínquo lugar. Uma corrente de bons pensamentos e desejos de salvação. Pessoas de mais de 40 países, profissionais de mergulho e de salvamento, para lá foram, no intuito de tirar com vida todos os meninos e o professor. Foi uma corrente do bem mundial. Duvido que alguém tenha ficado imune. E ontem, quando finalmente todos saíram vivos da cova, o planeta inteiro respirou aliviado. É certo que um mergulhador morreu na batalha. E ficará na memória de todos como um herói. Saman Kunan é seu nome, inscrito para sempre no coração daquele grupo que vivenciou o terrível drama. 

Terminado o resgate surgem as perguntas: e por que o mundo não se comove com a situação dos meninos e meninas presas nos Estados Unidos? Por que não se comove com a tragédia das crianças palestinas, presas e assassinadas todos os dias? Por que não se comove com os jovens negros que caem nas comunidades de periferia do Brasil, sob o fogo do estado? Por que não se comove com as crianças que vivem em zona de guerra? 

Também me pergunto sobre isso. Por quê? 

Arrisco um palpite. As crianças na Tailândia sofreram um revés da sorte. Uma tragédia provocada por ninguém. Entraram na caverna e veio a chuva, e o inesperado aconteceu. Não havia quem culpar. Nem mesmo o professor. As cavernas são visitadas cotidianamente, poderia ter acontecido com qualquer um.  

Já as demais crianças sobre as quais clamamos, não. Essas tem sua história construída pela mídia e pela ideologia. Os palestinos não são crianças, são terroristas. As crianças latinas presas nos EUA não são crianças, são filhas de criminosos, logo, criminosas também. Os meninos negros nas periferias são ladrões e bandidos em potencial. E as crianças nas guerras estão tão distantes, são estatísticas. Não têm nome nem sobrenome. 

Essas crianças todas pelas quais nosso coração e nossa razão clamam, estão obscurecidas pela construção ideológica que os poderosos fazem delas. E assim, as pessoas que ocupam apenas sua consciência ingênua não se compadecem. Na verdade, as temem. E, por isso, acabam aceitando a ideia de que é preciso prendê-las ou matá-las.
É uma realidade cruel. Mas, é a realidade construída pelo capitalismo, na qual aquele que não se rende aos encantos da mercadoria ou não se curva diante do pequeno grupo de poder, acaba sendo transformado em vilão.

As crianças pelas quais nós também choramos e clamamos são inimigas do capital: migrantes empobrecidos, comunidades oprimidas, moradores de lugares que o capital quer pegar para si. Por isso sobre eles se constitui um véu.  Para o capital, as inocentes vítimas da Tailândia não representam qualquer perigo. Por elas pode-se chorar e se desesperar. Por elas pode-se regozijar na hora da salvação. Já os demais, não. Esses são perigosos.

E assim, as pessoas que são inoculadas com essas construções ideológicas acabam se recusando à generosidade. Para clamar pelos migrantes, há que se comprometer contra o poder. Para clamar pelas crianças das guerras, há que comprometer contra as nações centrais que fazem a guerra, para clamar pelas crianças presas no México, na Palestina, nos Estados Unidos, há que se comprometer contra o poder desses governos. Para clamar pelos negros que tombam na periferia há que se comprometer contra o governo que promove o massacre. 

Clamar pelos meninos da Tailândia não exige nada. Só a piedade individual. Isso é fácil.

Cá no meu cantinho, no sul de uma pequena ilha do sul do mundo acompanhei com apreensão o drama dos meninos tailandeses. Chorei com a morte do mergulhador e vibrei com o final vitorioso. Mas, como um animal político que sou, eu me comprometo com a luta contra o capital e assim, sigo clamando e denunciando todas as violências e crimes que se cometem contra crianças, jovens e adultos em todo mundo. Como dizia el Chê: enquanto houver um injustiçado, com ele estarei. 

E, mais que clamar, vamos construindo, o novo mundo, que virá. 

Posso entender essa generosidade seletiva das gentes, porque estão obnubiladas pela ideologia. Muitos sequer se dão conta disso. Mas, sei que mudar isso exige trabalho e luta. E é por aí que vamos! Há um mundo para transformar. E a grande caverna do capitalismo para derrubar. Haveremos de sair... 

P´alante. 


sexta-feira, 6 de julho de 2018

Trabalhadores: é tempo de lutar

Retomar as ruas, fortalecer as lutas.

Tarde de quinta-feira. O posto da Caixa Econômica Federal, um dos bancos públicos brasileiros, está lotado. São quase 100 pessoas sentadas nos bancos azuis, com olhar perdido no vazio, esperando. Antes de entrar, precisam passar pelo constrangimento de esvaziar suas bolsas ou coloca-las num escaninho que, mesmo na agência central, parece coisa do século passado. Leva-se pelos menos uns 10 minutos no trâmite de pegar a chave com um garoto que distribui senhas, abrir o cadeado que fecha uma corrente na porta do armário. Coisa bárbara. Lá dentro o ambiente é tóxico. Rostos ansiosos e tristes. Por ter de estar ali pagando contas, e por passar pela absurda espera. Como sempre, há poucos caixas, fruto do sistemático desmonte das empresas estatais brasileiras. Também os trabalhadores tem o rosto pesado, superexplorados que são. A tensão ali dentro é concreta, quase se pode pegar com a mão. 

Naquela tarde, no meio das cadeiras, um gurizinho de uns três anos, corria, brincando entre as cadeiras. Então, no meio do corredor, decidiu parar, abriu os bracinhos, apertou os punhos e fez cara de Hulk, rugindo, brabo. Sua manifestação espontânea de raiva por estar ali há tanto tempo, levou todo mundo ao riso. Foi um átimo de descontração. Poderia ter sido o catalizador para que toda aquela gente esse levantasse e quebrasse tudo, dando vazão ao ódio por estar sempre sendo espezinhado nesse mundo no qual o capital dita as regras e mantém as pessoas escravizadas. Mas, não. Houve o riso, o balançar de cabeça e os olhos voltaram ao vazio. Há que pagar as contas. Há que esperar. 

Esse tem sido o comportamento de boa parte dos brasileiros nos últimos tempos. Um resignado cumprir das tarefas cotidianas, enquanto o Brasil vai se esfacelando, com as riquezas sendo entregues e os direitos trabalhistas exterminados. Um processo de destruição tamanho que exigiria uma violenta reação. Mas, ainda não aconteceu. Há resistências pontuais, uma greve por salário aqui, outra ali. Reações particulares, algumas muito fortes, mas sem conexão com o todo. 

A reforma trabalhista aprovada pelo Congresso Nacional destruiu 60 anos de luta, pois praticamente todos os direitos conquistados a duras penas foram para o ralo. Ter a carteira assinada e, com isso, uma série de garantias trabalhistas já é coisa do passado. O tempo agora é do trabalhador por hora, por projeto, o famoso “self-made man”, aquele que se faz a si mesmo, o empreendedor individual. O empresário de si mesmo. Parece coisa bonita e o nome em inglês deixa ainda mais atrativo. “Só não se dá bem quem não se esforça”, dizem os patrões, agora livres de encargos e deveres, prontos para acumularem mais e mais. Viva o trabalho intermitente, no qual o trabalhador terá mais tempo para si trabalhando por períodos curtos. Como se o trabalhador pudesse existir sem o trabalho. Não no mundo capitalista. Nesse mundo o trabalhador só tem a força de trabalho para vender e se não a vende, não come, não mora, não tem saúde nem educação. Ainda assim, há quem aplauda a reforma. 

Os números, ah os números, dizem que o emprego aumentou. Mas não dizem que são precarizados, que são por prazo curto, que são por salários mais baixos. O desemprego estrutural se aprofunda e logo, logo, seus efeitos se farão sentir com mais força. 

Não bastasse isso a Câmara dos Deputados segue atuando rápida e livremente a favor de seus patrões: os latifundiários, as transnacionais, os bancos. Dia após dia aprovam novas leis que garantem mais lucros aos seus chefes e aumentam o abismo entre pobres e ricos no Brasil. Dane-se a pátria. Está a um passo de ser aprovada a desregulamentação dos agrotóxicos, que envenenarão ainda mais a comida da maioria do povo. Poderão ser vendidos sem fiscalização e, inclusive, marcas que estão proibidas em praticamente todo o mundo. 

Também aprovaram a privatização da Embraer, empresa brasileira que não apenas fabrica aviões de qualidade como é também responsável pela segurança aérea do país. Ou seja, os dados referentes à segurança do espaço aéreo brasileiro agora pertencerão aos Estados Unidos, através da Boing, empresa que comprou a Embraer. Há quem ache muito legal ser colônia dos EUA, mas seria bom dar uma espiada na situação do Afeganistão, Iraque, Somália, Porto Rico, Colômbia, para ver quem realmente ganha com o “protetorado estadunidense”. Não são os trabalhadores. Não são mesmo.  

Na semana passada os deputados aprovaram também a privatização da distribuição de energia, mais uma fatia da Eletrobras. Com isso, entregam para os estrangeiros ou para a elite nacional esse importante filão que é a energia elétrica. Hoje, com a distribuição sendo pública, mesmo as comunidades mais longínquas tem garantia de luz, pois ela é um direito e o estado provêm. Mas, privatizada a distribuição, estender linhas não será mais direito e sim espaço de consumo. Ou paga, ou não tem. E, da mesma forma, a conta da luz deverá ter uma alta significativa, pois as empresas cobrarão pelos caminhos por onde a energia vai fluir. 

No âmbito do executivo também se avolumam as decisões contra os trabalhadores, a maioria da população. Enxuga-se tudo o que é público, desmontam-se as empresas estatais, arrojam-se os trabalhadores. No campo da educação a destruição já vem de um bom tempo. A reforma do ensino médio, que levou os secundaristas às ruas, passou, e hoje as coisas já estão acomodadas. As escolas se apequenam, física e culturalmente. E o espectro da perseguição e da delação ronda, destruindo professores críticos e constituindo uma massa facistificada. O professor virou vilão e apanha na cara. A boa educação ficou para os que tem dinheiro para pagar. Aos pobres, as batatas. 

Na saúde o terror segue seu curso, cada vez mais forte, com o desmonte sistemático do SUS e com as propostas de sua destruição. Acabou a Farmácia Popular, diminuíram-se os recursos e o povo que arque com o custo dos remédios, para engordar a conta da farmacêuticas, tratando das doenças que são criadas pelos venenos das transnacionais de alimentação. Tudo articuladinho para manter os trabalhadores no limite entre a vida e a morte, para que não encontrem forças para rebelarem-se. Crescem os Planos de Saúde privados, atirando-se sobre as angústias das gentes e surgem como capim os chamados “espaços populares de medicina”, nos quais as consultas variam de 80 a cem reais, ficando “acessíveis” para a população. E as pessoas se agarram a isso porque os espaços públicos vão sendo destruídos, justamente para jogá-los aos tubarões privados. Saúde é mercadoria. 

Na segurança, segue o caveirão da morte, passando pelas comunidades de periferia, ceifando as vidas dos trabalhadores, particularmente a das crianças e jovens negros. Não há limites. Meninos que seguem para a escola são mortos preventivamente, porque “um dia poderão se tornar criminosos”. Meninos negros. Meninas são baleadas na porta de casa, na padaria, na frente da escola. E tudo bem. São meninas negras. “Que poderão fazer depois que crescerem?” A elite, a classe média justificam tudo. “Algo de mal irão fazer”. Matam porque temem a revolta dos desvalidos. E condenam os trabalhadores, a maioria, a eterna guerra entre si. 

E assim vamos indo, ladeira abaixo, perdendo cada dia um direito, esfacelando o tecido social, vendo o cotidiano se transformar num aterrorizante “Mad Max”, o mundo distópico da violência, do individualismo, do terror.

Na televisão das massas, um jornalista global teve a cara de pau de dizer que em Cuba “só” o que funciona é a saúde, educação e segurança, querendo tripudiar da forma de governo que ali existe desde a revolução de 1959, constituída pelo povo livre e em armas. O “só” dele é o tudo que uma população pode querer de dignidade. Educação de qualidade para toda a gente, saúde garantida para toda a gente, e o direito de andar pelas cidades, pelos campos, pelos caminhos, em paz, sem o terror de ser roubado, assassinado, violentado. 

O “só” de Cuba deveria ser nossa bússola. E para lá deveríamos caminhar. Em luta. Porque se são os trabalhadores que tudo produzem, se são eles os responsáveis pelas riquezas geradas, a tudo devem ter direito. 



quinta-feira, 28 de junho de 2018

A dor no futebol



Fui setorista de futebol durante uns bons anos da minha vida de jornalista. Cobri o Caxias, O Juventude, o Passo Fundo e o Figueirense. Para quem não sabe, isso significa acompanhar diariamente a rotina dos jogadores e dos times. Desde os treinamentos em campo como toda a preparação extracampo, as tramoias e negociatas dos cartolas, enfim, tudo. Claro, minha experiência foi com times médios, sem grandes estrelas como as da seleção. Mas, independentemente do salário do atleta, a lógica de quem é jogador de futebol é a do esporte de rendimento. Isso significa que a pessoa é obrigada a forçar o seu corpo ao máximo, para que renda o máximo. 

A rotina de um jogador de futebol é duríssima. Imaginem treinar duro por seis horas inteiras ou mais, diariamente, dando o máximo de si, só na malhação do corpo. Isso sem contar os treinamentos na academia onde os músculos são forçados até o último grau. E ainda tem toda a tensão psicológica de cada jogo, no qual estão colocadas inúmeras expectativas. Imaginem agora isso colocado numa estrela, de seleção, na qual estão apostadas muitas fichas: dos patrocinadores, dos cartolas, dos empresários, da família. É uma barra pesada. Um jogador de futebol, levado a exigir do seu corpo sempre o máximo, quando sofre um estiramento ou uma contratura, o bagulho é louco. A dor é porrada, o dano é grande, tanto corporal como psicológico. 

Lembrem que um jogador vive única e exclusivamente do seu corpo. A mercadoria que produz se mistura com o corpo. É fruto da fortaleza do seu corpo, do ritmo e da potência do seu corpo. Sem o corpo no ponto, ele está perdido. Não tem time, não tem salário, está morto. E cada jogador sabe que ao forçar o corpo ao máximo está sempre na corda bamba. Mas, não há como escapar. Essa é a regra. O corpo é uma máquina perfeita, é verdade. Mas quando forçado ao extremo, qualquer girada da cabeça em mau jeito pode colocar um cara no chão. Pense que seus músculos são todos como uma corda de violino esticada.

O futebol profissional de hoje é um trabalho, um duro trabalho para aqueles que estão no campo exigindo o máximo de seus corpos para a alegria da malta. Ainda que seja um esporte revestido de toda uma aura de glamour, corpos sarados, festa, alegria e fortunas, tem uma pessoa ali que está ultrapassado todos os limites do suportável. 

Eu respeito essa gurizada, seja de time pequeno ou seleção. Porque eles não estão ali brincando, numa pelada de domingo. Estão forçando a máquina, e ganhando o pão. Ainda que uns ganhem mais do que outros. Por isso, expresso todo meu apoio ao Marcelo Vieira. Posso imaginar a dor. Posso imaginar.  Não tripudio. 



Uruguaiana e o pai



Quando fico em casa de manhã com o pai tenho por costume colocar o computador com vídeos de músicas gaúchas, para ele ficar vendo enquanto eu cozinho. Preparo um vinho pra ele, que vai tomando de goladas, os olhos percorrendo a tela, o ouvido atento, o pezinho balançando. Mas, se por ventura alguém na música fala “Uruguaiana” ele abre um sorriso e aponta: “olha, olha, Uruguaiana”. É como se o nome de sua cidade natal trouxesse pra ele toda a memória perdida. 

E se eu puxar ele vai contando estórias dos tempos passados, bem longe no tempo. Chega a lembrar com detalhes aspectos da natureza dos lugares. É verdadeiramente uma coisa incrível. Como agora a gente pode gravar lista de músicas, eu tenho procurado colocar entre cada três ou quatro, alguma que fale de Uruguaiana. Assim tenho seu riso garantido por toda a manhã. É um aprendizado isso aí, de cuidar de quem esquece...

segunda-feira, 25 de junho de 2018

As novas tecnologias, as notícias falsas e o jornalismo

O problema não é a internet, mas o sistema que a toma como locus da espionagem e da ideologia


As novas tecnologias e a criação das redes sociais colocaram uma novidade na vida cotidiana de bilhões de pessoas: o acesso rápido às informações e também a possibilidade de produzi-las e distribuí-las. Assim, o que era até bem pouco tempo quase que exclusividade dos jornalistas ou formadores de opinião ligados aos meios de comunicação, passou a ser comum para qualquer pessoa no planeta que tenha acesso à rede mundial de computadores. Mas, o que parecia ser uma vitória da democracia tem mostrado que, no sistema capitalista de produção, nada mais é do que mais do mesmo. Isso porque nos últimos tempos o que se percebeu foi que as informações  que circulam na internet também estão dentro da forma-mercadoria geradora de mais-valia ideológica. A enxurrada de notícias falsas, fabricadas por empresas especializadas nesse fazer, tem servido para produzir “verdades” que servem aos interesses do capital e das forças que conformam o poder político e econômico do sistema.

Conforme dados divulgados pelas Nações Unidas, nos países desenvolvidos 81% da população já tem acesso à internet, conformando 2,5 bilhões de usuários. Os países considerados em desenvolvimento têm 40% de conectados e nos empobrecidos 15%, somando juntos apenas um bilhão.  Já os que estão fora da bolha internética somam 3,7 bilhões, sendo que a maioria dos “desconectados” se encontra na África.

Mas, apesar de tantos ainda estarem fora da rede, a possibilidade de entrarem está dada visto que a cobertura de celular já está disponível para 95% da população global. E também avançam os planos de internet para pobres no celular, que inclui apenas a possibilidade de acesso ao facebook e uatizapi, o que significa uma única empresa no controle do que as pessoas recebem de informação. Mesmo assim, ainda conforme as Nações Unidas, houve uma desaceleração do uso da internet, possivelmente provocada pelos altos preços do serviço.

Já o acesso da internet nos domicílios tem outra geografia. No momento existem um bilhão de lares conectados, sendo que desse total 230 milhões estão na China, 60 milhões na Índia e 20 milhões nos 48 países menos desenvolvidos do mundo. Ou seja, a desigualdade é visível. Enquanto 84% das casas europeias têm internet, no continente africano apenas 15,4% possuem acesso em casa.

Mas, apesar de a rede estar distribuída de maneira desigual, claramente conforme as possibilidades econômicas de cada país, a repercussão do que circula nas famosas “redes sociais” acaba chegando também nas pessoas que não tem acesso, visto que os meios de comunicação massivos tais como o rádio e a televisão estão tendo de subordinar-se ao que “bomba” na rede, reproduzindo assim os conteúdos mais compartilhados. Basta uma tarde de domingo na frente da TV aberta brasileira, por exemplo, e isso fica patente. Os programas de auditório das principais redes trazem as figuras e os temas que mais tiveram repercussão nas redes sociais.

Esse é um dado importante porque tanto para a mídia eletrônica aberta, que é a que chega nos “desconectados”, quanto nas redes internéticas, o que vale é o que “bomba”, o que tem mais curtidas e comentários, mesmo que a informação ali contida não seja verdadeira ou não passem de bobagens. E é justamente nesse nicho que estão concentradas as notícias falsas, geralmente fabricadas por empresas especializadas a serviço de políticos ou de redes de poder.

No Brasil, recentemente, a Câmara de Deputados promoveu um debate sobre esse tema visto que já existem na casa mais de vinte projetos de lei buscando regular ou coibir as notícias falsas na internet.  Para os representantes das entidades populares que participaram da reunião, esse é um tema que não pode ficar relegado a um parlamentar. Seria necessário um amplo debate público para que a sociedade pudesse participar e sugerir coisas. Isso porque a maioria dos projetos em tramitação trata de criminalizar os usuários ou as plataformas pela prática de compartilhamento das notícias falsas. Ora, isso não tem sentido algum. É preciso controlar aquelas empresas ou mesmo entidades que são as geradoras das mentiras.

O fantasma da censura também aparece em muitas das falas dos representantes de entidades civis que discutem o tema porque muitos projetos apontam para saídas bastante complicadas como, por exemplo, tipificar criminalmente informações sem aprofundamento, sem deixar claro quem julgaria o que é sem aprofundamento ou qual nível de aprofundamento seria necessário para que fosse uma notícia veraz. Igualmente criminalizar as plataformas poderia gerar uma censura prévia, algo também muito complicado de se aceitar.

Bia Barbosa, do Intervozes, acredita que a única lei em tramitação no Congresso que pode trazer contribuição de fato para o debate é a lei de proteção de dados pessoais, pois, segundo ela, é justamente a partir da coleta e do tratamento massivo de dados que se promove a construção de perfis individualizados de cidadãos na rede e é para esses perfis que as chamadas notícias falsas são disseminadas. Esse é, inclusive, o debate que acontece em nível mundial, tendo sido desatado pelas revelações de Edward Snowden, ao tornar público os programas de vigilância global efetuado por agências estadunidenses. Não por acaso ele está ameaçado de morte. Ele tocou no centro da questão: o controle dos dados pessoais.

O mais sério de tudo isso é que a maior das redes sociais, o facebook, deixa bastante claro nas regras que apresenta para o usuário que todos os dados sobre ele estarão coletados e já se sabe que essas informações são usadas para oferecer produtos e ideias políticas. Tanto que o famoso “algoritmo” que define como a informação é distribuída na rede, cada dia mais se aperfeiçoa no sentido de criar guetos nos quais a pessoa é colocada, sem condições de receber outras informações divergentes. E a pessoa aceita isso.

O tema é largo e ainda vai provocar muitos debates no campo da cidadania. Afinal, como já foi dito, qualquer pessoa pode produzir conteúdo. Mas, algo precisa ficar bem claro. Produção de conteúdo pessoal, feita por qualquer criatura no mundo, não é a mesma coisa que notícia. A notícia é um fazer específico do jornalista que deve estar ancorada nas regras já historicamente determinadas. E para usar a teoria do jornalismo de Adelmo Genro Filho, a notícia é uma forma de conhecimento que se faz a partir da singularidade dos fatos, transitando para o particular e chegando ao universal. Ou seja, no conteúdo noticioso o jornalista precisa oferecer a quem o ouve/vê ou lê toda a atmosfera universalizante do fato narrado para que a pessoa possa entender as causas e consequências que envolvem a notícia singular. Só isso já mostra que 99,9% dos conteúdos jornalísticos produzidos nos meios de comunicação por aí estão fora dessa regra. No geral, as “notícias falsas” não são uma novidade do mundo das redes sociais. Elas sempre estiveram aí, cotidianamente nos jornais, rádios e revistas, servindo de ideologia para sustentar o modo de vida classe dominante. Claro que, agora, passaram a ser uma mercadoria exclusiva de determinadas empresas, especializadas em produzi-las para quem pagar mais. Isso é que é novo.

Um dos pontos importantes nesse processo deveria ser o de identificar e coibir essas empresas, entidades e pessoas que vivem (são pagas para isso) de produzir e disseminar notícias falsas com o intuito de provocar atitudes, reações e até induzir o voto num determinado candidato, ou provocar o ódio contra pessoas e instituições. Mas, como tudo isso já virou um rentável negócio, no mais das vezes, essas empresas, entidades e pessoas que já são bastante conhecidas, acabam ficando intocáveis sob o manto do empreendedorismo ou do “empresário bem sucedido”.

Assim, o tema das redes e das notícias falsas na verdade é só mais uma cortina de fumaça para não atacar o verdadeiro problema que é justamente o capitalismo realmente existente, que para se manter como modo de produção precisa manter a ideologia que o sustenta em constante movimento. No caso, agora potencializada pela velocidade e pelo alcance das redes sociais, que ao contrário dos tempos da mais-valia ideológica promovida pela televisão, permite a interação e a formação de grupos coesos em todo mundo, movidos pela mesma ideia, pelos mesmos preconceitos e capazes de atuar também de forma coesa na vida real. É só mais um potente e eficiente mecanismo do capital.

Nesse sentido, todas as medidas inibitivas ou punitivas de “excessos” que surgirem nada mais serão do que paliativos para a manutenção da vida do mesmo monstro que vem assombrando a vida dos trabalhadores desde há 300 anos. As redes sociais não são democráticas nem espaços de liberdade. Na verdade são cada vez mais espaços de aprisionamento das mentes e dos corações em nichos preparados com maestria pelos “sacerdotes” dessa esmagadora religião que é o culto ao capital.

Por isso que o debate sobre as notícias falsas, ou a apropriação dos dados pessoais pelas empresas oligopólicas que comandam as grandes plataformas internéticas não pode ser feito descolado do contexto no qual elas existem. É o sistema capitalista e nele vale tudo para que seja mantido o estado de coisas. Isso tanto é verdade que a solução que tem aparecido em nível mundial é a da formação de agências que irão vigiar as informações e sua veracidade. Agências que pertencem aos oligopólios empresariais e que ganharão rios de dinheiro para fazer esse trabalho. Ora, como a raposa pode vigiar o galinheiro? O capitalismo é sabido mesmo.




domingo, 24 de junho de 2018

Avança a luta por moradia em Florianópolis


Fonte: Desacato


A região de Florianópolis vive um momento de profundas mudanças. A crise econômica que chegou com força tem obrigado dezenas de famílias a ações extremas para garantir a vida. Com salários cada vez mais baixos ou então sem trabalho, morar passa a ser uma impossibilidade. Os aluguéis são altíssimos, por conta da sempre crescente especulação e, mesmo nas periferias já não está sendo possível sustentar. A única saída que as famílias encontram é a de ocupar espaços urbanos vazios e levantar barracos onde possam  abrigar-se e aos seus filhos. No geral são terrenos públicos, que o estado não utiliza ou de sonegadores. Logo, nada mais justo do que virar espaço de moradia para quem não tem como pagar os aluguéis cada vez mais abusivos. Na semana que passou, uma dessas ocupações, a “Marielle Franco”, no alto da Caieira do Saco dos Limões, viveu o drama da violência do estado. A Polícia Militar foi usada para despejar as famílias e destruir os barracos. No texto abaixo, da arquiteta Elisa Jorge, que acompanhou a luta das famílias, o relato da sistemática injustiça do capital. As famílias resistem e a cidade dorme.

Foto: Luzia Cabreira


Está sob nossos narizes toda a fragilidade humana promovida pelo capital. 

Tenho estado muito emocionada, às vezes com dificuldade de voltar ao nível racional, porque nos últimos dias tenho estado junto às companheiras/os do Alto Caieira aqui em Florianópolis, que têm sofrido despejo truculento. Testemunhei, durante a ação de despejo na Ocupação Marielle, situações bastante tocantes. Vi trabalhador de uma empresa terceirizada , contratada pela prefeitura, demolindo barracos e dizendo : "eu moro num barraco como este”. Outro carregando morro acima madeira nas costas, com cabeça baixa e desabafando : "está pesado subir a ladeira, não pelo tamanho da carga, mas pelo trabalho horrível que estou sendo obrigado a fazer. " 

Agachada na rampa, fotografando as cenas deprimentes, pude ver o olhar de choro desse trabalhador humilhado pela sua função. Nesses dias de despejo por parte do prefeito,  tivemos a verdadeira visão do inferno. Coagidos pelos agentes do Estado, trabalhador agindo contra trabalhador. Estado que deveria ser guardião de seus cidadãos. Estado que deveria garantir, já preconizado em lei, a função social da Cidade e da propriedade. Estado que deveria ser responsável por promover o bem estar.

Mas não, este Estado resolveu que em nome de uma " dita " lei, o certo é agredir , pisar, punir com a mais baixa humilhação pessoas frágeis, despossuídas de bens materiais , destroçando seus pequenos e humildes barracos na frente de suas filhas e filhos. É um estado desagregador, destruidor, irresponsável, criminoso, que usa de força paga com nosso dinheiro, para descumprir leis, impor o terror e reduzir cidadãos à indigentes abandonados. Um Estado que inclusive derruba casas em terreno de um dos maiores devedores de impostos, para garantir a propriedade privada deste. Derruba barracos em área pública definida para Habitação, de interesse social, na lei do Plano Diretor de janeiro de 2014. 

Sim, é isso mesmo. A prefeitura não faz sua obrigação na construção de uma política habitacional, não se inscreve no único programa do governo golpista do Temer de Reforma para Habitação de baixa renda, não fiscaliza áreas inadequadas à habitação, mas conspira uma operação de guerra, mobilizando grande contingente da Polícia Militar, de choque, servidores da prefeitura, empresa terceirizada, para, em poucas horas, destruir aquilo que essas famílias levaram muito tempo e a duras penas para acumular. 

E, após transformar tudo em caquinhos, bateram em retirada, sem olhar para trás. Desceram a rua sem perguntar como os despejados passarão a noite fria? Como cozinharão sem seus pertences de cozinha? Como levarão seus filhos para escola já que as roupas estavam misturadas aos destroços ou haviam sido levadas. Como levantarão as cabeças e reunirão forças para continuar a viver? 

Desceram a rua e só deixaram no local a polícia de choque fazendo uma barreira, para garantir que os manifestantes não avançassem em passeata com suas faixas e " perigosas " palavras de ordem. Onde está a secretária de Assistência Social, o superintendente de Habitação, o prefeito, neste momento? Eu sei : estão assistindo o crescimento da população em situação de rua, da evasão escolar, de jovens negras e negros sendo criminalizados nas suas comunidades , das filas nos postos de saúde, da violência. Não somente assistem como também promovem essa barbárie e se escondem atrás da falácia da falta de verba. 

Grande mentira, dinheiro tem!

Por que a prefeitura continua atolada nos quase 400 comissionados de todos os 15 partidos , que compuseram a coligação durante a eleição, somando um gasto de quase 30 milhões ao ano? Por que a prefeitura não cobrou os 460 milhões dos maiores devedores? Por que o prefeito convoca a PM que gasta milhares de reais em cada operação de despejo com armas de "baixo efeito letal" (cada bala de borracha custa 25 reais, projéteis de gás 250 reais, aerosol de spray de pimenta, 500 reais)? E por aí vai ....

Eu , Elisa Jorge, com base no artigo 301 do Código Penal, ciente de meus direitos e deveres, dou ordem de prisão ao prefeito, secretários, superintendes, procuradores, que cometem abuso de autoridade, desviando impostos pagos por mim, para cometer uso excessivo e violento de poder. Estão impondo a dinâmica desmobilizadora do medo. Conhecemos muito bem esta estratégia, especialmente porque a ditadura militar ainda sopra em nosso pescoço. 

Não nos deixaremos abater. Juntos, somos fortes. É importante que todas /os se engajem nas lutas por justiça social. Não vamos sucumbir ao medo. 

Elisa Jorge - arquiteta e urbanista, militante do BR Cidades, Movimento Ponta do Coral 100% Pública, Fórum da Cidade. 

sexta-feira, 22 de junho de 2018

Julian Assange, um herói mundial


Na medida em que o governo do Equador vai dobrado à direita, aumentam as preocupação com relação ao futuro de Julian Assange, asilado na embaixada daquele país em Londres. Nos últimos meses o presidente Lenín Moreno tentou impor censura ao criador do WikiLeaks e pouco depois retirou da embaixada a segurança extra que ali atuava justamente para a proteção de Julian. Essas atitudes apontam para uma possível articulação com o governo dos EUA para a prisão e extradição de Assange para os Estados Unidos. 

O jornalista estadunidense Dennis Bernstein, da Pacifica Radio Network, conversou com o também jornalista, John Pilger, amigo de Assange, e este se mostrou bastante incomodado com o silêncio da esquerda mundial em relação a situação do homem que ousou mostrar os podres dos  Estados Unidos na guerra contra o Afeganistão e o Iraque.  “Só o silêncio das pessoas boas permitirá que vençam aqueles que mentem e enganam o povo”, afirmou Pilger, dizendo que Julian Assange nunca esteve tão isolado e tão em risco. Segundo ele, todas as acusações de assédio sexual as quais pesam sobre Assange são falsas, fruto do trabalho sujo dos inimigos políticos, que encontraram nessa invenção uma via para punir o fato de ele ter trazido à tona a verdade sobre o império. 

Bernstein também comenta sobre como o mundo tem tratado Julian, praticamente abandonando-o a própria sorte, e principalmente os jornalistas que tanto usaram as informações do WikiLeaks no passado e que agora não apenas silenciam sobre essa guinada do governo do Equador como buscam envolvê-lo em novas acusações, como o caso do suposto envolvimento da Rússia nas eleições estadunidenses, alegando que isso teria sido possível através de Assange. Pilger vê nisso um absurdo: “A WikiLeaks publicou cerca de 800 mil grandes revelações acerca da Rússia, algumas delas extremamente críticas do governo russo. Se você for um governo e fizer algo inconveniente ou mentir ao seu povo e a WikiLeaks obtiver os documentos para mostrá-lo, eles publicarão, não importa quem seja você, seja dos Estados Unidos ou da Rússia”. 

John Pilger também tece críticas ao governo britânico que se mantém pairando sobre o caso enquanto deveria dar condições a Assange de sair da embaixada já que reconhece que ele é um refugiado político. Ao que parece tudo está sendo tramado para que Julian seja mesmo preso e mandado para os Estados Unidos, onde pode “apodrecer num buraco”. 

Hoje, mesmo aprisionado, Julian Assenge segue liderando o trabalho da WikiLeaks e faz o que todo bom jornalista deveria fazer: divulga aquilo que o poder quer ver escondido. Ele entende que a população tem o direito de saber o que os governos estão fazendo em seu nome. Foi por isso que divulgou os documentos e imagens sobre as atrocidades dos EUA nas guerras do Oriente Médio e também a trama para derrubar Hugo Chávez, no fracassado golpe de 2002 e depois, com a ajuda financeira e logística para grupos de direita.  Assange dá às pessoas a informação que elas têm direito e é por isso que está confinado na embaixada, sem poder sair, há mais de seis anos. “Penso que a WikiLeaks abriu um mundo de transparência e deu substância à expressão ´direito a conhecer´. Isto deve explicar porque ele é tão atacado, porque está tão ameaçado. Para a grande potência o inimigo não são tipos do Taliban, somos nós, os bons jornalistas”, diz Pilger. 

Também fez questão de lembrar a coragem de Chelsea Manning, que igualmente amargou sete anos de prisão, nas condições mais vis, por ter ajudado na divulgação dessas informações que circularam pela WikeLeaks. Pilger não tem dúvidas de que o governo dos Estados Unidos quer processar Assange e “talvez enforcá-lo nas vigas do Congresso”. Por isso conclama os jornalistas em particular a não abandonar Assange na sua luta contra a censura e contra as atrocidades praticadas pelos governos. 

Julian Assange, que segue confinado na embaixada do Equador em Londres não pode ser esquecido e muito menos se pode deixar que, baseados em acusações ridículas e falsas, os Estados Unidos ponha as mãos sobre ele.  Toda a pressão sobre o presidente do Equador e sobre o governo britânico, que precisa garantir a liberdade do jornalista. 

Afinal, como pode viver como um prisioneiro a pessoa que deu a verdade ao mundo? 


Com informações da resistir.info