quinta-feira, 14 de novembro de 2019

Ataque aos trabalhadores públicos



A proposta do ministro Paulo Guedes para o serviço público é a volta aos tempos dos coronéis. Ou seja: para ser um servidor público haverá de ter QI, o famoso “quem indica”. Todo o processo de luta que os trabalhadores travaram para garantir um serviço público livre das ingerências dos governantes de plantão irá para o ralo com a reforma que está em curso.

Segundo a proposta do ministro não haverá mais servidores públicos com estabilidade. E a estabilidade é justamente o único mecanismo que o Estado tem para não sucumbir aos humores dos governos. Ou seja, um trabalhar estável não pode ser demitido simplesmente porque o governo que está de plantão não gosta de sua cara ou de sua posição política. A estabilidade é uma garantia de que, independentemente de quem está no governo, o trabalho público segue visando apenas o bom atendimento à sociedade.

Pois a ideia do governo de Bolsonaro é colocar na máquina pública apenas os amigos e os amigos dos amigos. A estabilidade estará reservada apenas para um grupo muito seleto de trabalhadores como os auditores fiscais, diplomatas, policiais federais e fiscais do trabalho. Mas, mesmo esses terão de viver um período de “treinamento” de três anos, podendo ser demitidos se não houver vaga ou se não for bem avaliado. Caso passe por esse funil, que significa passar três anos fazendo as vontades das chefias para poder ser bem avaliado, o trabalhador ainda terá pela frente sete anos de estágio probatório, provavelmente o estágio mais longo já criado no universo. Assim, se a pessoa conseguir ficar 10 anos servindo aos seus chefes de maneira cordata e servil, sem meter-se com greves e reivindicações - aí sim terá o direito à estabilidade.
As demais carreiras não terão possibilidade de pleitear a estabilidade. Tudo ficará ao sabor do chefe de plantão. E, caso o governo decida, pode acontecer demissão. Também poderão ser contratados servidores temporários, ou seja, o trabalho precário e sem direitos.

Não bastasse isso quando o governo decidir que vive uma emergência fiscal, poderá passar a mão no salário dos trabalhadores, reduzindo-o em até 25%. Tirar dos ricos nem pensar, os empresários estão cada vez mais recebendo as benesses da desoneração de impostos. Vão tirar mesmos é dos trabalhadores.

Aí está. O plano “Mais Brasil” é na verdade um plano de “mais amigos meus mamando no estado”. Provavelmente só sobreviverão no serviço público os que fizerem a “aliança” pelo brazil e servirem ao senhor deus de Israel. Quando à sociedade? Que se dane!

E os trabalhadores? Esperarão a Justiça?


quarta-feira, 30 de outubro de 2019

Passeando com o pai



Toda a tarde, quando chego a casa, o pai já me espera no portão. Eu nem entro e ele já começa com o mantra: quero ir embora. Eu vou enrolando. Primeiro cumpro a rotina da limpeza. Limpar banheiro, trocar a roupa do dia, fazer a higiene. Tudo isso leva tempo, porque é preciso inventar mil e uma estratégias.

Depois, saímos, porque o ritual de abrir o portão e sair de casa já serve como um escape. Como não dirijo nem tenho carro, o jeito é caminhar. E agradeço aos deuses e deusas pelo fato de ele ser um homem forte, com o corpo ainda firme e as pernas rijas. Adora andar. Sempre foi assim. Aqui onde eu moro não tem aonde ir. Nenhuma praça, nenhum parque, a praia fica longe para ir andando. Então, o único lugar possível é o mercado. São mais ou menos uns 600 metros da casa até lá, trecho que cumprimos em uns 40 minutos para ir e outros tantos para voltar.

Andando com ele, no passinho lento, tudo é motivo de parada. Um passarinho no muro, um gato, um cachorro, um avião que passa baixinho, um carro em alta velocidade, uma criança brincando, alguém que passa. Mas sua alegria mesmo é chutar coisas. Não pode ver uma pedrinha, um papel, uma tampinha de garrafa, uma bituca de cigarro, vai logo aplicando o bicudo. E ri às gargalhadas, como se fosse um grande feito.

Chegando ao pequeno centro comercial passa pelo barbeiro e fica olhando lá pra dentro até o Luiz acenar. Ele acena também, alegre. Ali é aonde vai a cada 15 dias para o ritual da barba. É bom, porque interage com outras pessoas. Depois entramos no mercado e compramos alguma coisinha. No geral é o cigarro, receita médica, que não pode faltar. As meninas já o conhecem e logo pegam o Hollywood vermelho e entregam direto na sua mão. “Guarda no bolso”, elas dizem. E ele fica bem faceiro.

Cumprido o roteiro, voltamos. E lá vem ele, tapado de meninice feito o Armandinho do Alexandre Beck, chutando tudo que vê pela frente. Não sem razão o bico do sapato é todo esfolado. Nesse passeio levamos mais de uma hora e quando voltamos para casa a ansiedade já diminuiu. Ele acende o cigarro e fica no alpendre, acarinhado os cachorros. A tarde cai, a barra da noite vai subindo e nós passamos por mais um dia.

quarta-feira, 23 de outubro de 2019

Os brasileiros por conta própria


As cenas no nordeste são de arrepiar. O óleo vazado dos navios da Shell chegando a mais de 180 pontos de praia. E nenhuma ação do governo brasileiro para conter o desastre. O presidente chegou a dizer que o país não tem responsabilidade alguma, logo, nada fará. Está brincando de rei no Japão. E, como o governo acabou com o Comitê que trabalhava na contenção de desastres, não há qualquer política de ação. Cada cidade está tendo de agir por si.

Enquanto isso, as gentes que vivem nas cidades afetadas estão tirando o óleo da praia do jeito que dá, com apenas sua intuição e desejo de vencer o drama. Quando o dejeto chega à praia, eles enrolam com as próprias mãos e colocam dentro de sacos plásticos, que são levados sabe-se lá para onde.O importante para os moradores é tirar o óleo da praia, já que o mar é o espaço de sustento de grande parte das pessoas.  

O abandono do governo tem a ver com o imenso ódio que o grupo de poder têm dos nordestinos. Primeiro, porque acreditam que lá, todo mundo é do Lula e do PT. E segundo, pelo racismo explícito, sempre alardeado pelo agora presidente da nação. A impressão que se tem é de que essa gente que está no poder agora fica vendo o desastre, rindo e comemorando o fato de os “petralhas nordestinos” estarem sofrendo. Há quem diga que o desastre foi provocado em represália contra os nordestinos. Não sei se chegariam a tanto. Mas, dado o desastre, a inação é deliberada, com certeza.  

Nos grupos de apoiadores do governo os comentários são os mais abjetos: “ que se virem”, “peçam ajuda ao Lula”, “ vão se ferrar”, ou seja, representam e expressam justamente o mesmo sentimento do governo.  Já os liberais aplaudem a ação dos moradores dizendo que é isso mesmo, que se organizem sozinhos e não fiquem pedindo ajuda ao “papai” Estado. Segundo eles, o Estado não tem de dar respostas para tudo.Cada um que se vire.   Ora, se o papai estado não deve ser chamado num desastre dessa natureza, talvez os brasileiros atingidos também não devessem ficar sustentando o “papai” estado, já que são as pessoas que sustentam essa máquina com seus impostos. Logo, não existe um papai estado. O que existe é uma nação sustentada pelo povo que ali vive. O governo não é pai. O governo deveria ser o organizador do espaço, gerindo os recursos que são criados pela população em benefício dessa população. 

Mas, claro, isso seria o ideal. Na verdade, o estado é “papai”sim, mas não da maioria da população. Ele sente-se pai de apenas uma fatia bem pequena da população, que é a dos empresários e grandes proprietários. Para essa parcela ínfima tudo está reservado. Se os bancos, por exemplo, sofrem algum colapso, lá vai o Estados salvá-los. Se alguma grande empresa tem problemas, lá vai o Estado salvá-la, se algum empresário bem rico precisa de ajuda para ampliar os negócios, lá está o Estado para ajudá-lo. Mas, se a floresta pega fogo, que se virem as gentes. E se o óleo de uma empresa multinacional é jogado no mar, que as pessoas encontrem formas de limpar as praias. Nada de esperar pelo “papai” Estado. Porque o estado não é pai dessa gente mesmo. 

O estado é balcão de negócio da classe dominante. Só a ela serve.

Por isso, no nordeste, são as pessoas que estão se virando por conta própria. 

O estado brasileiro está se desobrigando de sua gente, todos os dias, um pouco mais. Além de abandonar o nordeste de maneira perversa, hoje também celebra o fato de jogar na sarjeta todos os seus velhos. O senado aprovou a reforma da previdência que define o fim da aposentadoria dos brasileiros. Raríssimos trabalhadores conseguirão chegar a essa situação visto que terão de trabalhar mais de 40 anos para requerer o benefício. E se chegaram a isso, terão ainda um benefício bem encolhido, que não será suficiente para sobreviver, que dirá viver.  

A reforma passou sem que as grandes centrais sindicais dessem sequer um suspiro. As lideranças burocratizadas preferiram negociar com o Congresso alguns destaques, tentando evitar o pior. Obviamente também não conseguiram porque esse Congresso que aí está não representa a população e sim os grupos de interesses e poder.  

Assim, o Estado brasileiro vai mostrando sua cara real,eliminando qualquer ilusão que alguém possa ter sobre ser o pai das gentes. Não há absolutamente nada que se possa esperar do Estado. Muito menos do sistema que o sustenta e que alguns chamam de “democracia”.  O quanto antes a população entender que nem o Estado a representa, nem a democracia existe, mais rápido será possível mudaras coisas.

Vejam que o sistema de poder é muito eficaz na sua batalha discursiva. Tanto que chama de ditadura sistemas de governo como os de Cuba, da Venezuela e agora da Bolívia. E chama de democracia países como os Estados Unidos, Iraque, Brasil. Ora, Cuba exerce muito mais a dita democracia que qualquer lugar do mundo. Lá, a população sabe o que acontece e decide os rumos do país em cada rua, cada bairro. Na Venezuela, a maioria da população é chamada para decidir sobre os rumos do país. Isso é apresentado como ditadura e ponto final.

Já um país como os Estados Unidos que nem eleição direta para presidente tem– o que seria um pilar básico da tal democracia – é visto como modelo de liberdade no mundo. E só são reconhecidos como “democracia” os governos que se aliam aos Estados Unidos.Ou seja, tudo está “de patas para o ar”. Aquilo que dizem ser democracia é na verdade ditadura, e o que chamam de ditadura são governos de liberdade. E é incrível que as pessoas não consigam perceber isso, tão ofuscadas que estão pela comunicação massiva e ideológica. 

Por isso que o governo brasileiro e a mídia local mentem dizendo que o óleo chegado ao nordeste veio da Venezuela. Ligam assim o desastre à “ditadura” e ficam isentos da responsabilidade. Ora, mesmo que o óleo fosse da Venezuela – e não é  - o governo tinha de ter um plano de contenção de desastres. E se vier um furacão? Ou uma tormenta? Ou um tsunami? O Estado não vai agir? Ao que parece, não.  

Estamos por nossa conta e, inclusive, sem direito a ficar velho. Bueno, isso pode ser bom, se estamos por nossa conta, e estamos dando conta, isso significa que esse Estado aí não é necessário. Logo... um mais um são dois. 

quinta-feira, 17 de outubro de 2019

Não matem o jornalismo, façam-no viver



Amanheci impactada com a notícia sobre a demissão de tantos jornalistas, mais de 20, de uma só vez, em Santa Catarina, em uma única empresa. Alguns dos companheiros e companheiras com mais de 20 anos de casa, vindos da antiga RBS e incorporados pela agora NSC, que os demite. Perder o emprego nesses tempos sombrios parece adquirir uma carga mais pesada. Com meus colegas me solidarizo e os abraço.

As demissões acompanham toda uma mudança de estratégia da empresa que abocanhou o monopólio dos jornais impressos de Santa Catarina que é a de migrar toda a produção de informação apenas para a rede mundial de computadores. Assim, acabam com os três jornais impressos que cobriam praticamente todo o estado. Não haverá mais papel diário, apenas a produção de uma espécie de revista semanal. 

Bom, é importante pensar sobre o papel desses jornais no estado. O Jornal de Santa Catarina, da região de Blumenau, já teve uma linda história, antes de ser comprado pela RBS. Grandes jornalistas se forjaram ali, produzindo reportagens magistrais. Era um jornal regional de muita qualidade e tinha muita influência na formação da opinião pública. Depois, no processo de monopolização da mídia pela RBS, foi comprado pela empresa gaúcha e virou uma pálida lembrança, segurando-se apenas no nome, ainda vivo na memória das gentes. Com alguns anos de “rbscização”, parteurizou, ficou aquela gosma sem vida e sem jornalismo real.

Em Joinville, maior cidade do estado, o jornal A Notícia igualmente teve seus tempos de glória, com jornalismo de qualidade, grandes reportagens, debates culturais, opinião. Jornalão tradicional, gostoso de ler. Comprado pela RBS virou um pastiche. Perdeu sua força narrativa. E mesmo que ainda por lá resistissem bons e bravos repórteres, no geral ficou como o Santa: uma gosma. Pouco produzia de jornalismo, seguindo a lógica de produção de ideologia pura, com raríssimas concessões, muitas vezes cavadas à força pelos jornalistas.

O Diário Catarinense, proposta da RBS para a capital, era, então, o pior deles. Desde que nasceu  trouxe a ideia de um jornalismo “mais informativo”, como se o que fosse praticado aqui no tradicional jornal O Estado, por exemplo, não o fosse. Era, na verdade, um projeto de márquetim, e que foi comprado pela classe dominante catarinense justamente para melhor desinformar a sociedade.

Sendo assim, o fim desses três jornais, que já agonizavam desde algum tempo, sendo praticamente impossível lê-los, não significa a morte do jornalismo no estado. Nada havia ali. E se pontuava alguma gota de jornalismo era só para manter as aparências. Então, o que morre agora não é o jornalismo em si. O que morre são três veículos inúteis, que durante seu tempo de monopólio só produziram exploração dos trabalhadores e, nas suas páginas, apenas ideologia.

Reitero, de novo, a qualidade de grandes repórteres - de texto e de imagem - que sempre fizeram das tripas coração para fazer jornalismo, conseguindo aos trancos e barrancos, oferecer pílulas de conhecimento sobre a realidade catarinense. Uma luta diária contra as pautas tolas. Esses profissionais, contrabandeando jornalismo para dentro dos jornais, deram uma contribuição importante já que os três impressos cobriam o estado inteiro. 

Mas, enquanto projeto de jornal mesmo, a proposta dos periódicos era um lixo só. E, depois que a NSC assumiu, a coisa piorou vertiginosamente. Uma vergonha. 

Agora, dizem os “empresários”, o jornalismo diário vai ser feito apenas nos portais. Ora. Não haverá jornalismo. Eles estão demitindo os jornalistas. Demitiram. Jogaram fora. Porque seres humanos não contam. São números numa planilha do financeiro. Vinte anos de dedicação, fins de semana perdidos, noites sem dormir. Nada disso é levado em conta. Adeus. Passe no financeiro. Vá empreender. Certamente os portais de notícias serão nutridos por pessoas que serão contratadas como “produtoras de conteúdo”, com um salário abaixo do piso de jornalista e uma carga de trabalho imensa. 

Ainda assim, a estratégia da NCS não mata o jornalismo. Porque o jornalismo é um fazer do jornalista, e não do empresário da comunicação. 

Então, minha gente. O que morre não é o jornalismo. Ele segue aí, pronto para ser esgrimido como uma forma de conhecimento e não apenas como informação vazia, ritualística e desconstrutora. 
As empesas apostam na internet porque querem reduzir custos. Não estão preocupadas com formar um público qualificado e discutir os grandes temas do Estado. Não estavam quando tinham o impresso e não estarão nas redes ou na revista gosma que virá. Não é sua intenção ampliar o pensamento crítico. Pelo contrário. Emburrecer e alienar. Esse é o padrão. 

Mas, se há um desejo de alienação das gentes por parte do empresariado comunicacional, há também um desejo nas gentes. E a informação, hoje, é uma necessidade social. Qualquer um sabe disso, mesmo os que creem nas mentiras formuladas todos os dias pelos jornais e televisões. E mais, as pessoas, levadas e interagir com o mundo, querem saber também do que acontece na sua aldeia.
Então, está aberto o campo para a produção de jornalismo mesmo. Eu sinto essa vibração no ar. É chegada a hora de colocarmos o jornalismo nas ruas, em pequenos jornais, panfletos, qualquer coisa de papel que possa ser lido no ônibus, no caminho para casa, no alpendre ao anoitecer. É tempo dos jornalistas de verdade produzirem jornalismo. Sem os três lixos que infestavam a vida dos catarinenses, descortina-se um horizonte. Pode ser difícil, e será. Mas, é hora de começar. 

Quem sabe não acontece de novo, as flores vencendo o canhão. O pequeno jornal, contando histórias, desvelando a realidade, contextualizando os acontecimentos, formando, criando conhecimento? 
Não sei, mas sinto que algo muito lindo pode começar. O jornalismo, outra vez, nas ruas, fazendo o que tem de fazer: formando uma audiência crítica e capaz de compreender o que acontece por trás das cortinas do poder. 

Avante, jornalista, de pé!  Em Blumenau, em Joinville, em Florianópolis e em toda Santa Catarina.



quarta-feira, 16 de outubro de 2019

O rescaldo das lutas no Equador

Foto: Conaie


O Equador voltou a viver certa normalidade depois das jornadas de luta protagonizadas pelos povos originários, com a participação também da Frente Unitária de Trabalhadores, estudantes e outros movimentos sociais, contra o que chamaram de pacotaço, uma medida do governo que cortava o subsídio à gasolina (que já existe há 40 anos), elevando o preço do galão de 1,85 dólares para 2,39. Além disso, o decreto também atingia direitos já conquistados pelos trabalhadores e implicaria em novas medidas de ajustes com incidência na vida geral. Definia ainda uma redução de salários de até 20% para os trabalhadores contratados temporariamente pelo setor público, reduzia as férias dos trabalhadores públicos de 30 para 15 dias e exigia deles o valor de um dia de salário por mês para o fisco. Por outro lado dava vantagens aos empresários para compra de maquinaria e eliminava impostos da importação de tecnologia. 

O argumento do governo para a assinatura do tal decreto é de que o Equador se encontra numa tremenda crise fiscal, com o acúmulo de déficit de 39 bilhões de dólares desde 2007. Só com o corte dos subsídios, Moreno esperava economizar dois bilhões e 273 mil dólares, e com as demais medidas pretendia chegar a cobrir 57% do total. E, com esse decreto, cumpria ordens do FMI, que prometia novo empréstimo de pouco mais de quatro (04) bilhões de dólares. Ou seja, nem resolveria o problema, e ainda projetava mais dívida e mais ajuste para chegar aos 100% do suposto rombo. Como os movimentos sociais sabem muito bem fazer contas, também souberam o que fazer: levantar os protestos. 

Foram 11 dias de mobilização intensa nos quais os indígenas promoveram cortes de estradas, protestos nas comunidades, declararam estado de exceção e realizaram uma marcha até a capital, Quito, a qual foi tomada por mais de 20 mil originários vindos de diversas partes do país. Nesse dia, conclamado como greve geral, ao se unirem também trabalhadores urbanos e estudantes, a população em luta colocou o presidente Lenín Moreno em fuga, e ele instalou o governo na cidade de Guayaquil, bem como desatou uma violenta repressão contra os manifestantes. O saldo da jornada é de sete vidas perdidas, centenas de feridos e mais de 1.500 presos. 

Mas, como já é tradição na luta indígena equatoriana, a repressão brutal não esmoreceu a luta e a saída do presidente foi convocar uma mesa de diálogo, finalmente aceita pelos movimentos, ainda que com o firme propósito de só avançar na conversa se houvesse a anulação do decreto 883. Do ponto de vista dos povos originários, a intenção não era derrubar o governo, tal como anunciara Lenín, inclusive acusando a Venezuela de estar ajudando nos conflitos, o que é uma total bobagem, pois a Venezuela está ela mesma vivendo um ataque sistemático por parte do império estadunidense. Os conflitos e o levante originário só aconteceram porque o decreto imposto pelo FMI e aceito por Lenín Moreno colocaria o Equador num atoleiro bem maior do que já está. 

A batalha com as comunidades indígenas vem de longe. Mesmo durante o governo de Rafael Correa, que foi apoiado pelo movimento, os conflitos foram intensos, pois os originários não aceitam a lógica extrativista predatória implementada pelo governo. Quando Moreno se colocou como candidato fez muitas promessas às comunidades e chegou a chamar lideranças importantes do movimento indígena para seus ministérios. Só que apesar da aparente cooptação, a relação dos povos originários com o poder do estado sempre esteve relacionada com a forma como o estado responde às suas demandas. 

Já houve o caso de esse mesmo movimento indígena ter colocado um presidente para correr, definitivamente, como aconteceu no ano de 2005 com a derrubada de Lúcio Gutiérrez, dirigente de direita, de ascendência indígena, que também defraudou o movimento, não cumprindo com os acordos e aprofundando medidas de corte neoliberal. Naquele ano, com mais de 50 mil pessoas (com protagonismo indígena) ocupando a capital, Quito, a população logrou garantir a renúncia de Gutiérrez e tão logo ela foi anunciada, o “paro” foi levantado e os comunheiros retornaram para suas vidas, deixando suas demandas com os novos dirigentes. Até então nunca fora cogitado tomar o palácio e instituir um governo indígena.

Durante o governo de Rafael Correa as relações estiveram bem por algum tempo e logo que os conflitos começaram principalmente por conta da defesa da água, contaminadas pela mineração, o próprio governo começou a atacar movimentos, em especial os reunidos na CONAIE (Confederação das Nacionalidades Indígenas no Equador), acusando-os de estarem aliados com a direita e com a proposta de retorno de Gutiérrez. Outra bobagem imensa. Os dirigentes indígenas são claros: não estão colados a esses conceitos de direita e esquerda. Querem respaldo para suas demandas, proteção ao território, à água, condições de existirem dentro dos seus supostos culturais, econômicos e políticos. Isso não significa que não compreendam estar mergulhados dentro do sistema capitalista, no qual esses conceitos de direita e esquerda tem mais sentido. Ocorre que trabalham numa outra sincronia. Isso também não significa romantizar o movimento indígena como um espaço de pureza, até porque existem algumas nacionalidades muito bem integradas no sistema capitalista de produção e bastante interessadas em que tudo fique como está. O que se tem de compreender é que são as condições materiais da vida da maioria que determinam os levantes. 

Agora, com a instalação da mesa e o fechamento de mais um acordo, de novo surgem as críticas ao movimento, alegando de que está se aliando a Moreno outra vez. E de novo, os indígenas observam essas acusações com sua atávica paciência.  Sabem que foi a força originária que derrotou esse decreto. Conhecem sua capacidade de mobilização e apresentarão suas propostas. Eles querem que o tal déficit anunciado pelo governo seja atacado não com mais empréstimos que gerarão mais déficits e apresentam ideias simples como a eliminação do pagamento aos ex-presidentes, a recuperação do que tem sido roubado pela corrupção, a suspensão do perdão de dívidas do empresariado, a renegociação dos contratos, a focalização dos subsídios. 

Por outro lado, como sempre acontece depois de manifestações tão intensas de força por parte das organizações populares, o governo joga diferentemente com cada mão. Com uma oferece a mesa e a possibilidade de os indígenas e trabalhadores urbanos participarem da formulação de propostas, e com a outra vai atuando na lógica do terrorismo de estado, atacando lideranças isoladamente, como a prefeita de Pichincha, por exemplo, que está com prisão preventiva por ter apoiado os protestos. E nada garante que nos próximos dias não apareçam notícias de assassinatos aqui e ali, nas comunidades que estiveram em levante. Todos sabem disso, se protegem como dá e avançam. 

É fato de que se há incompreensão por parte dos trabalhadores urbanos não-índios sobre a luta indígena, também parece necessário aos movimentos indígenas avançarem na discussão sobre até onde podem ir sozinhos. Na luta contra o capital, que é global e internacional, as batalhas precisariam ser travadas em conjunto, por todos os explorados, índios e não-índios, tendo consciência de que o inimigo é justamente esse sistema de produção que afeta a existência material de todos os que não estão na bolha do 1%. Ao capitalismo não interessa nem a natureza, nem o humano. Tudo é visto como “recurso” para geração de lucro. Se um humano cai, outro é reposto. Se um lugar se esgota, partem para outro. E assim vai o capital, feito uma nuvem de gafanhotos, arrasando tudo o que toca. E essa é essa nuvem que precisa ser destruída. Sem essa vitória geral, as vitórias particulares serão só resistência e o massacre continuará. O bem viver não tem como existir no capitalismo. 



quinta-feira, 10 de outubro de 2019

Quem ataca a universidade e por quê?



Nos últimos dias, em Santa Catarina, temos lido alguns colunistas da imprensa comercial atacar de maneira violenta a universidade, os estudantes, os trabalhadores públicos. Isso não é novidade alguma. Sempre que, por algum motivo, os governos procuram destruir a universidade pública, logo assomam os cães de guarda, os puxa-sacos, os lambe-botas, os boca-alugadas, essa gente que só ocupa o lugar que têm nos jornais e emissoras de televisão justamente porque defendem a lógica do capital. Nada se pode esperar desses comentaristas a não ser justamente a defesa da classe dominante. É para isso que estão onde estão. 

A comunidade universitária, ao se ver atacada de forma brutal e praticamente sem espaço para expor seu pensamento, grita e tenta encontrar caminhos para dialogar com a sociedade, na tentativa de explicar os motivos pelo qual está em processo de luta. Mas, claro, os veículos de comunicação alternativos não têm o mesmo alcance que os meios comerciais e é sempre difícil vencer essa batalha de discursos. O que, talvez, precise ficar mais claro à comunidade, é que esse diálogo não pode ser tentado apenas nos momentos de crise. Ele precisa ser permanente. E não é. Quando tudo está bem, a universidade não se apresenta para a sociedade, fica restrita aos seus muros. E as pessoas lá fora não conseguem sentir a universidade presente no seu dia-a-dia, por isso também não se importam quando ela é atacada. Há um abismo aí. Reconhecer isso já seria um bom começo. 

Hoje, diante de mais uma tentativa de privatização da universidade e seu desmantelamento completo, há uma luta em curso. Os estudantes foram os primeiros a se levantar, premidos pela realidade concreta e material: o reitor anunciou que não haveria mais restaurante universitário nem seriam pagas as bolsas. Ora, isso significa o fim da linha para um número significativo de estudantes. Por isso eles se mobilizaram e decidiram entrar em greve. Muitos cursos pararam as aulas e vários atos começaram a acontecer. Isso, é claro, levantou a ira daqueles que defendem o capital e a proposta de privatização do ensino superior. Assim, na mídia, começaram a surgir os ataques, seja nas reportagens, ou através dos comentaristas. Os estudantes são apresentados como “baderneiros”, gente sem limite, sem ordem, vagabundos que não querem estudar. 

A verdade é bem outra. Os que decidiram parar, premidos pela notícia de que não teriam mais onde comer, nem como sustentar a permanência, tudo o que querem é estudar. É fato que diante da realidade, na qual as ameaças ainda não se cumpriram, a greve estudantil arrefeceu. Como o RU não fechou e as bolsas seguem caindo na conta, há propostas de levantamento da greve para o acúmulo de forças que serão necessário desatar nos próximos ataques. O movimento estudantil se debate nesse contexto. Os trabalhadores técnico-administrativos, também ameaçados pelo governo com vários projetos que implicam perda de direitos, decidiram esperar e não chamaram greve. Entendem que a tática governamental é de fazer bastante barulho e ameaças, e depois voltar atrás. Por isso, estão cautelosos. Vão fazendo trabalho interno, acumulando forças. Mas, sem os trabalhadores no movimento grevista, a greve estudantil perde força. Os professores, igualmente ameaçados pelo Projeto Future-se, também não aprovaram greve nesse momento. Como os TAEs, decidiram esperar que a realidade aponte nova tática.

Com apenas os estudantes em greve, os ataques externos ficam mais ferozes. Bater na juventude é mais fácil para os senhores sisudos, amantes da “ordem”. Então, a cada ação estudantil, como as protagonizadas na greve de 48 horas – com participação dos TAEs e professores  - quando fecharam os centros de ensino e as entradas da UFSC, são disparados os ataques virulentos pela mídia de massa. 

Como então, enfrentar esses borra-botas da imprensa vendida? Com informação e ação sistemática junto a população. Não há alternativa. Desde que o capitalismo nasceu com suas fábricas comedoras de gente que os trabalhadores vêm lutando para melhorar a vida. E o fazem com greves, com protestos, com atos. E no contexto do capitalismo, que nega saúde, educação, moradia e segurança a uma parcela muito grande da população, os que sofrem essa falta sabem que só a luta renhida muda as coisas. Não há caminhos fáceis, nem fórmulas mágicas. É luta! E, nesse embate sempre teremos os boca-alugadas do sistema contra nós. 

É fato de que o contexto universitário local hoje exige uma reflexão mais profunda por parte dos estudantes que estão parados. Até agora, estão em solidão. A greve estudantil não avançou nas demais universidades, a UNE não encampou nacionalmente e na maioria dos Centros de Ensino as aulas estão acontecendo. Talvez fosse momento de levantar a greve, rearticular as forças, preparar novas batalhas. 

Estamos vivendo bem agora, um levante nacional no Equador, país vizinho. Os povos indígenas, que tradicionalmente atuam coletivamente nas grandes lutas, estão parando o país. E, entre eles, circula uma máxima, que é a que dá concretude à força que têm: “si falta la gente, se levanta el paro”. Isso significa que se a maioria não assume a luta, a greve termina. É uma decisão difícil, mas necessária. Uma luta coletiva exige mobilização e engajamento, não pode ser o sacrifício de alguns sem o comprometimento da maioria. É tempo de aprender.

No cenário nacional, as coisas seguem acontecendo. No congresso avançam as pautas anti-populares, o projeto Future-se segue sendo construído pelo governo. Há muita coisa ruim sendo preparada não apenas contra a universidade, mas contra os trabalhadores. Por isso a necessidade de uma reflexão profunda e da construção de formas de luta capazes de efetivamente mobilizar as gentes e realizar o combate. 

Quanto aos detratores dos estudantes e dos trabalhadores públicos, eles seguirão atacando, agora e sempre. Porque farão sempre o que a classe dominante mandar. São cães de guarda bem treinados. Contra eles há que atuar sistematicamente, inclusive em tempos de calmaria. 




terça-feira, 8 de outubro de 2019

Bohemian Rhapsody



O cinema tem uma força descomunal. Pelo menos para mim. É incrível como as histórias contadas desde a tela grande podem assumir contornos inimagináveis. E, sobretudo, amo os atores. É uma coisa incrível uma pessoa poder representar outra pessoa, ou tantas outras, com tamanha profundidade. Deveras, é uma profissão pela qual tenho profunda inveja. Inveja boa.

O cinema me arrebata desde quando eu era criancinha e ia com minha irmã para as sessões duplas de matinê, fosse no Variedades ou no Municipal, lá em São Borja. Confesso que gostava mais do Variedades. Era mais rootzeira, com cadeiras de madeira dura, e a gente podia fazer guerrinha de balas. O Municipal era mais chique, de cadeiras estofadas e exigia mais modos. Mas, quando o filme começava, tudo perdia a importância e eu me deixava levar para o universo de luz desenhado na tela.

Quando os cinemas deixaram de existir e tudo virou sala asséptica dentro dos xópings eu fui perdendo essa tradição de mergulhar no escuro/luz. Mas, ainda assim, filmes são parte importante da minha vida. Não passa um dia sem que eu veja um, seja filme mesmo, documentário, vídeo, qualquer coisa escrita na luz e que exija atuação. Vejo tudo atrasado justamente por conta dessa birra com os xópings.

Ontem à noite, depois da rotina com o pai, fui assistir a um filme que já estava na minha lista há tempos: Bohemian Rhapsody. Chorei litros e segui chorando hoje durante todo o dia. Bastava lembrar alguma cena e lá vinham as lágrimas. Estou chorando bem agora, enquanto escrevo. A questão é: por quê? O filme não tem nada demais. É uma historinha comum sobre um artista gigante, seu começo, seus dramas, seus limites, e sua trágica morte aos 45 anos, vítima do então mortal vírus da Aids.

E apesar de ser só um filme simples, sobre alguém, o guri que fez o Mercury me arrebatou. Ele é demais. Cada movimento dele em cena é demais. Encarnou de tal forma o personagem que simplesmente nos toma por inteiro. É emocionante. Não foi à toa que levou um Oscar. Rami Malek é Freddy. Absolutamente incrível. Que trabalho maravilhoso.

O filme sobre o Queen aparece pra mim como um tributo aos anos 70. Lembro bem quando foi lançada essa música, a Bohemian Rhapsody, em 1975. Ainda vivia em São Borja e tinha gosto estranho para música. Aquele misto de ópera e rock logo se fez frequente lá em casa e em pouco tempo eu já cantava a letra toda de cor. Era bonito demais. Creio que foi isso que me emocionou tanto. Esse mergulho num passado tão distante, tão carregado de lembranças. Naqueles dias eu não sabia que o homem que cantava tão lindamente era um imigrante, gay, deslocado e infeliz. Mas, minha sensibilidade sempre a flor da pele talvez intuísse e por isso mesmo me fazia chorar sempre que eu cantava, aos berros, tentando alcançar as notas. Aquela letra forte, antevendo o destino de tantos meninos imigrantes na Inglaterra ou em qualquer parte do mundo. Aquela dor tão profunda.

Bohemian Rhapsody é, assim, mais do que um filme. É parte da vida de tantos, da minha vida mesma, dos desgraçados, dos perdidos, dos que não podem ser o que são. E ainda que termine no momento de maior glória de Freddy, deixa esse amargo, esse amargo...

“Mamãe, acabei de matar um homem
Coloquei uma arma contra a sua cabeça
Puxei o gatilho, agora ele está morto
Mamãe, a vida tinha acabado de começar
Mas agora eu estou acabado e joguei tudo fora...

Então você pensa que pode me apedrejar
e cuspir no meu olho
Então você pensa que pode me amar
E me deixar morrer”.