sexta-feira, 12 de outubro de 2018

Dia da Criança



Eu me lembro dessa menina. Era quieta e introspectiva. Gostava de ficar pelos cantos, escondida com algum livro na mão, viajando sem sair do lugar e descobrindo maravilhas: os etíopes, os astecas, os guarani, os mitos gregos, os árabes. Era fascinada com José de Alencar e Simões Lopes Neto. Amava Simbad, o marujo, e talvez venha daí seu eterno desejo de viajar. Tinha poucas bonecas e gostava de subir em árvores. Podia ficar uma manhã inteira observando algum bichinho do quintal. Também se distraia brincando na selva criada pelo seu irmão menor, cheia de bonequinhos do Tarzan e seus amigos. Acreditava piamente em seres de outro planeta (ainda crê) e, nas noites, os buscava no céu, entre apreensiva e esperançosa.

Amava passar as férias na casa do vô Dionísio, no interior de João Arreghi, e enchia os dias com ele, no silêncio da lavoura de arroz, entre taipas e chamichungas. Pouco falavam, só sentiam e compartilhavam, trocando sorrisos quando os quero-queros passavam em gritaria. E nas madrugadas, na beira do rio Ibicuí, pescavam, silentes e reverentes diante da grandiosidade da noite estrelada. Naqueles dias essa menina sonhava com nada, apenas vivia a imanência da vida, sempre de maneira profunda e comprometida.

Tinha por companheiro o irmão menor, parceiro de brincadeiras e de aventuras. Com ele aprendeu a arte da gargalhada e o segredo da cumplicidade. Sempre teve os olhos de lâmpada, admirada diante de cada pequeno detalhe da existência. E, por viver mais para dentro que para fora, entendeu a força da ternura e a capacidade que ela tem de quebrar as mais duras carapaças. Essa menina ainda vive em mim, para minha profunda alegria, e assoma nos dias tormenta, para me lembrar que por mais violenta que seja a tempestade, o dia volta, e com ele o sol.

Nesse dia da criança, que os erês (tudo o que existe de bem, puro e belo) dancem e nós com eles...

quarta-feira, 10 de outubro de 2018

As pequenas ternuras do pai



Os dias tem sido tristes, de muita amargura e solidão. Cuidando do pai, acabo entrando ainda mais para dentro de mim. A vida se move entre o trabalho e depois o cuidado com o pai e com tudo o mais: a casa, os cachorros, os gatos, as flores, a horta, a compostagem. Tudo tem de estar limpo e seguro pra que o pai possa transitar tranquilo. A carga de trabalho triplicou e depois da UFSC o tempo é todo pra ele. Cuidar de um velhinho exige não apenas o trabalho braçal, mas toda uma carga de esforço emocional que esgota. Por exemplo: não posso demonstrar tristeza. Porque se ele sente que estou triste, se preocupa e fica sem chão. Então, entrando no portão, o espírito precisa ficar leve. E como é duro encontrar leveza nesses dias tristes. Mas, seguimos em frente, tentando tornar, pelo menos a vida dele, feliz.

Ontem, surpreendentemente, cheguei a casa e ele já estava no banho. Bem alegre sob o chuveiro. Estranhei, já que o banho é sempre uma grande e penosa tarefa. Mas, tudo bem. Beleza. Segui a rotina, limpando banheiro, casa, comida para os animais, roupa no varal, pano no chão. Seis horas fui preparar a janta. Rotineiramente enquanto estou no fogão, dou a ele um copo de vinho, para “abrir o apetite”. Fiz como sempre. Ele estava vendo televisão.

Mexia nas panelas, bem concentrada, quando ouvi sua voz cantarolando: tan tan tan lalalala... Ora, que surpresa! Virei-me para acompanhar sua cantoria e pasmei: ele não apenas estava cantando como dançava, erguendo os pezinhos e mexendo os braços. Minha alma se abriu numa torrente de alegria e todo aquele peso que andava carregando desde o domingo sumiu. Larguei as panelas e fui abraçá-lo, apertando-o por longos instantes. Coração a coração. Talvez, lá no fundo, ele soubesse o quanto eu precisava daquela ternura. Depois, comecei a dançar e cantarolar com ele. Rimos muito.

A vida e sua imanência....


sexta-feira, 5 de outubro de 2018

O Brasil, subindo a ladeira

Foto: Rubens Lopes


O povo brasileiro vai às urnas nesse domingo, numa de suas maiores eleições. É que não apenas elege o presidente ou presidenta da nação, mas também todo o Congresso Nacional, senado e deputados federais, bem como as câmaras legislativas, nos estados. Gente demais, e uma gente que definirá os rumos do país por mais cinco anos. 

Os últimos anos foram marcados pelo turbilhão. Um governo se elege com 54 milhões de votos, o derrotado (Aécio Neves) não aceita o resultado e começa um processo de desestabilização que vai desembocar no golpe de 2016, quando Dilma é retirada do cargo numa armação jurídico/legislativa, fartamente amparada pela mídia comercial. Mas, a jogada do PSDB encontra uma pedra no caminho: a figura de Jair Bolsonaro, um deputado federal que ao longo de mais de 20 anos de vida pública passou por nove partidos diferentes, feito uma biruta de aeroporto, para lá e para cá, embora todos dentro do mesmo espectro da direita brasileira.

Ancorado na falta do radicalismo político que a população pedia, assoberbada por tantas denúncias de corrupção, ele passou a nadar de braçada, tomando para si o papel da crítica. Uma crítica sem fundamento, mas espetaculosa, expressa em declarações rasas e polêmicas, que foram aparecendo como uma alternativa para boa parcela da população que não queria mais do mesmo. Mão dura, ditadura militar, armamento para todos, moralismo. Começou a parecer “o cara” que iria botar ordem na bagunça. 

Para uma população que vive cotidianamente acossada pelo discurso do medo imposto pela mídia comercial, o personagem durão e violento caiu como uma luta. Seria o salvador da pátria, o que acabaria com o comunismo do PT (?) e com a corrupção. Mas que, na verdade, em seu programa, aponta para a submissão completa à política dos Estados Unidos, aos latifundiários locais e aos banqueiros.  Uma mesma farsa já vivida pelo Brasil em 1989 pela triste figura do “caçador de marajás”, Collor de Melo. 

Agora, já no século XXI, chegamos às eleições premidos por outras formas de comunicação, as quais tornam qualquer pessoa capaz de produzir conteúdo. As redes sociais públicas, como o facebook e as privadas, como as do uatizapi, se transformaram num espaço de mentiras e invenções grotescas, com conteúdos grotescos e violentos. O uso de robôs para reproduzir todo esse chorume também é impressionante, o que faz com que a realidade criada dentro das bolhas seja magnificada.

Um exemplo concreto é a montanha russa causada pelas pesquisas realizadas por institutos de conhecida parcialidade. Cada resultado diário gera um estardalhaço nas redes, e as pessoas se movimentam como baratas enlouquecidas, deixando de lado seus princípios e ideais, buscando respaldar um pragmatismo sem cabeça. 

O enfrentamento à candidatura proto-fascista e ultraliberal de Bolsonaro vai se fazendo nas redes, quando a vida real nos aponta que há uma multidão de indecisos que precisam unicamente de uma boa conversa cara-a-cara para pensar seu voto. Uma gente que vaga pelos terminais urbanos, pelas padarias, pelos mercadinhos dos bairros, pela vizinhança e que acaba não encontrando ninguém para dividir suas angústias. 

No facebook pós último debate a gritaria generalizada é contra a barbárie que pode chegar caso vença Bolsonaro, e em alguns casos parece até que muitos já jogaram a toalha. 

Não é o caso. O povo brasileiro tem a sua racionalidade e sabe fazer seu cálculo. Mas, é preciso que haja gente capaz de fazer a conversa olho-no-olho, que é a única que pode fazer com que a pessoa se sinta realmente tocada. O bom e velho trabalho de base, do casa a casa, do pessoa a pessoa, o encontro humano, tão poderoso. 

Não é hora de largar a toalha ou enlouquecer no facebook. É hora de sair para a rua, encontrar o vizinho, o amigo, o companheiro, os parentes. É hora de fazer o embate real, amoroso e sincero. 

O Brasil não está ladeira abaixo. Mas, pode ir. Cabe a nós, os que historicamente têm feito a luta por um Brasil livre e soberano, impedir essa queda. É tempo de subir a ladeira. Como sempre fizemos.

Bora lá, pessoal. 


segunda-feira, 1 de outubro de 2018

As eleições presidenciais e o coiso

foto: rubens lopes

Nunca consegui encarar a figura do "coiso" como irrelevante e já faz bastante tempo que venho falando do risco que é para todos nós tê-lo como presidente. Alguns compas me diziam que ele não chegaria a 4%, mas, como eu previa, ele foi crescendo e avançando, a ponto de ser o primeiro colocado nas pesquisas. 

Continuo pensando que tanto a estratégia como a tática de ataque a ele tem sido errada, o que pode ser a nossa desgraça. Por mais que sejam importantes os temas relativamente às questões identitárias de gênero e de raça, penso que isso não toca o coração das pessoas em geral. As pessoas que estão com o "coiso" não estão nem aí para esses temas. Elas querem saber da corrupção, que acreditam será encerrada com ele. Elas querem saber se terão posto de saúde quando ficarem doentes, e acreditam que terão, pois se ele acabar com a corrupção o dinheiro vai chegar. Elas querem saber se os filhos terão educação, e pensam que terão porque sem a corrupção a grana vai chegar. Elas querem uma mudança radical, mesmo que essa mudança signifique uma mão dura, que elas acreditam jamais lhes tocará porque são pessoas "decentes". 

Eu vejo as campanhas e vejo os debates. Praticamente não se fala nos temas que as pessoas querem que se fale. Que fique claro: não estou diminuindo as pautas que estão aí nas ruas, na boca dos movimentos e pessoas que saíram às ruas com o grito de "ele não". Penso que foi poderoso e bonito. Mas, creio que numa estratégia eleitoral isso é muito insuficiente. Tem uma massa gigantesca de gente que não se sente dentro dessas pautas - mesmo que estejam (é o caso de mulheres, negros e gays que votam no coiso, mesmo com o coiso dizendo os horrores que diz sobre eles). Esse povo está noutra onda e penso que os partidos de centro-esquerda (que é o que nos resta) não estão sabendo compreender. 

Por isso que ando assim, meio Regina Duarte, porque parece que estamos cometendo os mesmos erros dos que tripudiavam dos eleitores de Trump nos EUA. Sendo assim, e vendo chegar ao fim a campanha sem uma estratégia real para convencer essa gente, só me resta apelar para os deuses. Valamideuzi....


O voto para deputada estadual


Todas as minhas referências são do campo. Minha infância, com meus avós maternos, vivida no interior de Uruguaiana entre cavalos, vacas, ovelhas, sangas, rios caudalosos, passarinhos, porcos, galinhas e a imensidão do arroz, sempre foi vereda para minhas escolhas. Mais tarde, o encontro com o MST fortaleceu todos esses sentimentos e realidades da vida no campo. Por isso, ao longo da vida, nas eleições, sempre votei em candidatos que representam os trabalhadores rurais, os pequenos camponeses, essa gente feita de ferro, doçuras, trabalho e ternura pela vida. O campo não sai de mim.

Em Santa Catarina já tivemos a presença do Vilson Santin como deputado estadual, um homem extraordinário, que honrou nosso voto todos os dias em que esteve ali na casa legislativa. Teve o Furlanetto, outra figura querida e batalhadora. Agora, temos o Padre Pedro Baldissera, que faz um trabalho maravilhoso por esse interior, organizando as gentes, investindo na comunicação popular. Orgulho-me de, por tantas vezes, caminhar com ele na construção de algumas dessas ideias. Penso que o voto nele é uma decisão das mais acertadas para toda a gente que vive nesse grande estado de Santa Catarina.

Mas, apesar de amar o Padre Pedro e tudo o que ele representa, esse ano, vou votar numa pessoa da cidade. Uma guerreira urbana que sempre me emocionou por sua fortaleza e compromisso com os trabalhadores. Conheço-a há anos e não me lembro de qualquer luta nessa cidade na qual ela não estivesse com sua presença gigante e poderosa. O trabalho que ela tem realizado como sindicalista da área da saúde, a batalha que sempre deu na luta dos praças catarinenses, a luta pelo SUS, pelo HU público, pela universidade, pela educação, seu compromisso com os trabalhadores, tudo isso a habilita para um mandato extraordinário.

Assim que aos meus amigos do campo peço o voto no Padre Pedro Baldissera (PT), e aos da cidade peço o voto para Edileuza Fortuna (PSOL). Tenho a mais plena confiança de que se eleito, o Padre Pedro seguirá cumprindo essa jornada bonita no interior, e nós, da região de Florianópolis, que quase nunca elegemos um representante, teremos em Edileuza um pilar seguro de luta e resistência, de presença concreta na luta dos trabalhadores.

Que tenhamos sorte...

O Lino e a cidade



Eleição não muda o mundo, o que muda o mundo é a gente em luta, luta real, na vida mesma. Mas, ainda assim, eleição faz parte da grande luta, por isso não podemos negligenciar. Temos acompanhado o Congresso Nacional, um espaço no qual os deputados e senadores eleitos não representam os trabalhadores, a maioria da população. Ali se formam grupos, bancadas, que representam interesses bem específicos: os do capital. Sejam a da bala, do boi ou da bíblia, todas afinadas com o sistema capitalista de produção, com os ricos, com os patrões.

Vivemos em 2016 um golpe parlamentar, com um congresso cuja cara é feia demais. E para essa eleição, grande parte dessa cara quer se reeleger. Por isso, o voto para deputado federal tem um peso grande. Temos de ampliar a bancada dos trabalhadores, dos que defendem os interesses da maioria da população e não de grupos econômicos,

Em Santa Catarina muitos são os nomes bons para enfrentar a luta em Brasília. Pessoas de valor, que respeito demais. Mas, o voto é só um e temos de escolher. Decidi então colocar minha esperança numa pessoa a qual conheço desde há décadas e com quem caminho nas principais lutas que travamos aqui: Lino Peres.

Lino tem sido vereador em Florianópolis, realizando um trabalho extraordinário, abrindo as portas do gabinete e da vida para temas que dizem respeito à maioria das gentes da cidade. A moradia, o negro, as religiões de matriz africana, o transporte, a saúde, a comunicação, a educação, tantas coisas... Ele é um homem da cidade. Ele ama e entende a cidade, nas suas belezas e seus conflitos.

E, quando falamos cidade, não queremos dizer apenas essa, a cidade onde ele vive, Florianópolis. Ele conhece em profundidade a lógica do urbano, esse espaço gigante de diversidade, de pessoas, paisagens, naturezas e organizações comunitárias.

Professor da UFSC, no curso de Arquitetura, durante uma vida inteira tem discutido apaixonadamente o modo de vida urbano, circulando pelas veias da cidade como um peixe no mar, apontando os equívocos, encontrando espaços de beleza e transformação. Sua principal proposta é a organização das gentes e é nisso que tem depositado sua força e sua confiança. Com ele em Brasília, debatendo a cidade em nível nacional, esse é o bonde que vai andar, e vai andar bem.

Imaginem um cara como o Lino na Câmara Federal fomentando a organização comunitária e popular o tempo todo, em nível nacional? Atuando na estrutura, girando a máquina do cimento que segura e consolida o processo de participação comunitária na vida das cidades. O Lino em Brasília é espaço de articulação de um poder verdadeiramente popular. Eu acredito piamente nisso. E já o vejo, célere e risonho pelos corredores, sempre apressado, sempre apressado, porque a felicidade é pra hoje.

Quem já andou por aí com o Lino Peres sabe da sua infinita paixão pela cidade, pelas gentes, pela alegria, pela participação, pela comunidade. O Lino é um homem de aldeia, só sabe viver em comunhão. E, para ele, a cidade é o mistério revelado. Por isso, com ele, eu vou.

Para federal, 1333


quarta-feira, 26 de setembro de 2018

As mulheres na frente



Nesse sábado, 29, as mulheres brasileiras mostrarão sua força, manifestando-se em todo o país contra a fascistização da vida representada pela figura do Bolsonaro. Uma mobilização única, original e poderosa, que unifica os contrários e coloca as gentes em luta contra a violência e o ódio ao outro.

Lembro como se fosse hoje a passeata, em Florianópolis, em 20 de junho de 2013. Era o auge dos protestos contra a corrupção - início da batalha contra o governo petista -  e a capital viu saírem às ruas pessoas que sempre jogaram pedra nos manifestantes tradicionais. O protesto juntou mais de 30 mil almas, coisa nunca vista. A RBS, rede catarinense filiada a Globo, transmitia ao vivo. Estranhamente não chamava ninguém de “baderneiro”. Naqueles dias, a classe dominante dava sua bênção para a ocupação das ruas, a Globo chamava ao civismo e  as pessoas acorreram aos borbotões.  

Eu lá estava com os companheiros de sempre. E, aturdida, via as pessoas manifestarem seu ódio contra os militantes de partidos políticos e movimentos sociais. Ou seja, nós. A passeata virou uma batalha, na qual jovens vestindo camiseta – doada por partidos de direita – com inscrições contra a corrupção berravam: “sem partido, sem partido”, e enfrentavam os militantes que se agrupavam com suas bandeiras. Exigiam, de forma violenta, que fossem baixadas as bandeiras partidárias e que a passeata seguisse como uma gosma informe. Uma falsa gosma, pois como disse, os partidos de direita estavam ali, distribuindo camisetas e insuflando a massa contra os partidários da esquerda. Apenas não carregavam bandeiras, porque nunca o fizeram. Eles agem nas sombras.

Aproximei-me de umas jovens “encamisetadas”, que gritavam alucinadas, com olhos em brasa, contra as bandeiras de partidos de esquerda. E perguntei:

- Por que vocês são contra os partidos?

- Hã? É, porque é sem partido, ora!

- Sim, mas por quê?

- É sem partido e pronto. Não fazemos política. Tu tem partido? – inquiriram e me encararam, agressivamente.

Naquele dia, uma massa furiosa nos atacou e obrigou que os grupos embandeirados se descolassem da passeata, seguindo na frente. Escancarava-se a luta de classes e o ovo do fascismo que tomou conta do país estava posto. 

Lembro que comentei com vários companheiros sobre o que estava começando ali. No dizer de Adorno, o fascismo é um vírus que existe latente, em cada um. Diz ele que dadas as condições, ele brota, forte, e se espalha incontrolavelmente. Eu via aquilo na passeata. Um ódio irracional na massa, mas extremamente racionalizado nas direções políticas da direita. Um processo de construção de um consenso que foi crescendo, se consolidando e acabou no impedimento da presidenta Dilma. Jogada de mestre.

As atitudes fascistas também se consolidaram e seguiram a todo vapor. Ações truculentas de membros da justiça, total abandono das leis burguesas, agressões a gays, lésbicas, mulheres, estudantes, professores. Qualquer pessoa identificada como “petista” ou “comunista” passou a ser apontada como um mal. E as ameaças de consolidação de um regime de força foram se fazendo sem freio. Eu que vivi a ditadura militar, como criança e adolescente, lembro muito bem o terror vivido pelas famílias que tinham qualquer posição crítica ao regime. Os vizinhos vigiavam e acusavam anonimamente, muitas vezes se aproveitando da denúncia de “comunista” para vinganças pessoais. Era um tempo de vigilância e de medo. Não se podia pensar. Só dizer sim, sim, sim, ao regime. 

O crescimento das atitudes fascistas praticadas por pessoas comuns, gente “de bem” me preocuparam e provoquei amigos, partidos, movimentos, sem resposta. Estaríamos caminhando para um tempo de fascismo? O que poderia acontecer caso tudo isso se fortalecesse e crescesse sem parar?  Pensava que havia que botar freio a essa fascistização da vida ou ela se espalharia como rastilho de pólvora, no fundamentalismo do terror. Acreditava que era preciso juntar forças com as mulheres, os negros, índios, trans, trabalhadores formais, informais, homossexuais, enfim, todos os oprimidos pelo capital e pelo patriarcado. Uma luta de todos nós. 

Mas, naqueles dias era arar no deserto. Nada vingou e a onda foi crescendo.

Agora, às vésperas da eleição, quando essa ameaça iniciada lá em 2013 se concretiza numa candidatura específica, a de Bolsonaro, pronta para assumir o comando do país, fortalecendo ainda mais as práticas fascistas, foram as mulheres que, entendendo a gravidade das coisas, decidiram agir. Uma ação que começou pelas redes sociais, com as brincadeiras de sempre, mas foi crescendo e se fazendo real na vida mesma. A mulherada passou por cima das diferenças partidárias, dos pequenos poderes, de tudo. E, uma a uma, foram dando-se as mãos contra o “coiso” numa demonstração inequívoca de inteligência e numa estratégia perfeita que, sistematicamente, tem conscientizado pessoas e derrubado os índices do candidato.

Agora, nesse sábado, dia 29, toda essa intensa mobilização internética se expressará nas ruas, na luta concreta contra a fascistização da vida que é o que representa a candidatura Bolsonaro. Em Florianópolis, o encontro será em frente a Catedral, às 15 horas. E as mulheres se juntarão para dizer que “ele, não”. Cada uma terá lá no seu coração o seu candidato, de centro, de esquerda, e talvez até de direita, mas cada uma sabe que algumas coisas precisam ser banidas da face da terra. Tais como o racismo, o preconceito e ódio pelo diferente. 

Nesse sábado, em todo o Brasil as mulheres marcharão. Estarão juntas, e mostrarão sua força. Tenho esperanças que nas eleições essa proposta seja derrotada. E creio que será. Mas, ainda assim será necessário seguir juntas, no mesmo movimento, porque o fim do pleito não colocará fim nessa serpente insidiosa que já vive entre nós. Um grande estrago foi feito e há ainda um longo trabalho por fazer. Trabalho real, para além das eleições. Que a unidade feminina permaneça, porque está sendo uma bela lição.