terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

O jornalismo na Realidade



O livro “REVISTA REALIDADE 1966–1968: Tempo da reportagem na imprensa brasileira”, de J.A. Faro, é um mergulho na saudade, na beleza e na nostalgia. Fala de um tempo no qual o Brasil despertava para a “modernidade”, ampliava horizontes, derrubava tabus. Caminhando junto com a recém-imposta ditadura militar, o país se debatia entre o arcaísmo e as mudanças revolucionárias nos costumes e na cultura. No meio disso tudo acontece o projeto Realidade, uma revista que, amparada no espírito do tempo, provocou uma mudança radical na maneira de fazer jornalismo. 

Jogando peso na questão cultural, Faro consegue estabelecer de forma clara como a revista vai se desenhando no cenário brasileiro e, ao mesmo tempo, redesenhando o próprio cenário a partir de suas matérias. Com textos belos, provocativos, literários, as reportagens se utilizam do extremo realismo para narrar as mazelas sociais e políticas do país. “Não era só um movimento estético-literário”, diz o autor. Havia uma cumplicidade patente com toda a revolução cultural que se esboçava na década de 60 e, mais do que isso, havia o desejo sincero dos jornalistas que faziam a revista em transformar a cara do país. 

Naqueles dias, a ditadura ainda não havia mostrado sua face mais terrível e havia esperança. A análise de J. A . Faro parte da discussão de como foi a formação cultural do povo brasileiro, a construção da identidade, a formação do nacionalismo e a obsessão de se criar uma imagem nacional unificadora. Depois, discute como a indústria cultural interfere e influi na produção nacional, sem, contudo, determiná-la, fazendo questão de frisar que há uma diferença radical no que seja a imprensa em geral, que chama de técnica, e o jornalismo, que chama de discurso. 

Para ele, a revista Realidade trabalha com a extinção dos limites do discurso racionalista e tenta superar o caráter mutilador da ideologia do cotidiano, abolindo sem dó nem piedade o mito da objetividade. Os textos de Realidade são construções literárias, carregadas de impressionismo, onde o repórter anda, sente, cheira, sente dor. É um texto quase cinematográfico, que vai descortinando as personagens, trazendo-as às retinas do leitor. Uma narrativa que rompe com a maneira convencional de fazer jornalismo, introduzindo elementos ficcionais e de verossimilhança. “Na Realidade o repórter tinha que se colocar como um pesquisador, nenhum detalhe, nenhuma personagem, nenhuma causa e efeito, nada podia faltar. Texto igual só no new jornalismo americano”, diz Faro. 

Como uma boa história, o livro vai carregando a gente pelo mundo da reportagem. E das páginas saltam João do Rio e Euclides da Cunha, os precursores dessa categoria hoje quase em extinção: o repórter. Faro lembra que tanto um quanto o outro não chegaram a inaugurar uma escola, pois faziam sua obra de forma isolada. Euclides, narrando Canudos; João do Rio, revelando a vida real das ruas, dos bairros do velho Rio. 

Depois, o autor vai contextualizando historicamente a trajetória da reportagem pelos anos 30 e 40, até os anos 50, quando a revista O Cruzeiro amplia a ideia desse gênero narrativo. O projeto Realidade, nos anos 60, vai ser então o ponto culminante da reportagem no Brasil. E é sobre ele que Faro discorre, mostrando quem eram os jornalistas que produziam as reportagens, de onde vinham, quais seus projetos políticos. Acaba revelando que havia uma estreita relação entre aquelas pessoas e os anseios sociais, típicos daqueles tempos. Havia um país que queria compreender-se e havia um grupo, articulado numa determinada publicação, que estava disposto a desvendar esse país, compreendendo-o e compreendendo-se. 

O profissional da imprensa, na Realidade, é mostrado como um militante do seu tempo. Os anos 60 eram tempos de ebulição. O mundo todo era sacudido por mudanças que iriam transformar para sempre a cara do planeta. O Brasil também estava inserido nisso e foi essa percepção, de que havia um mundo em mudança, que fez a diferença na revista Realidade. Valores até então intocáveis como a ideia de família, por exemplo, eram pautas permanentes na revista. Aborto, contracepção, feminismo, divórcio, jovens transviados, igreja progressista, tudo isso era discutido de forma aberta, com várias visões, deixando ao leitor a possibilidade de tomar posição. 

No trabalho de Faro cada tema desses é discutido com vagar. Há um capítulo específico para a mulher, a igreja, a política, a economia, a sociedade, visões de mundo, América Latina, cotidiano, ciência, educação, vida urbana. E em cada um deles se pode encontrar parte dos textos originais publicados na revista. Trata-se, pois, de um livro que todo o bom jornalista deveria ler, para se deliciar com as construções narrativas daquele grupo de repórteres que ousou sair dos velhos caminhos, da estrada asfaltada do jornalismo convencional, e se perder nos labirintos das estradas secundárias, da experimentação, da beleza, da autoria. 

O autor encerra seu trabalho sobre esses primeiros dois anos da revista Realidade afirmando que ela foi mesmo um divisor de águas, que mudou concepções, que abriu caminhos para reformulações até no jornalismo diário, como no Jornal da Tarde, que materializou a utopia do texto independente. Mas, segundo ele, esse tipo de jornalismo foi fruto de uma determinada conjuntura, de um momento histórico bem específico no país. Encerra dizendo que pensar em retomar esse projeto é absolutamente impossível. 

Depois de viajar por cada letrinha da bem construída história de Faro, esse final deixa um gosto meio amargo na boca. E remete a uma reflexão sobre sua conclusão tão definitiva. A história é sempre um turbilhão e, se considerarmos o seu movimento contínuo, quem garante que esse texto impressionista não possa voltar, dialeticamente, num outro nível, de outra forma. O jornalismo belo, utópico, impressionista, realista, de autor, continua aí latente, talvez um pouco escondido nas estradas laterais, secundárias, nos jornais alternativos, nos jornais comunitários, em algumas publicações do interior, e até nos grandes veículos nacionais. 

Talvez seja necessária uma nova conjuração de astros, como a que houve em 60, para que esse tipo de jornalismo venha a ser, se não hegemônico, pelo menos mais visível. Mas que ele ainda existe, disso não tenho dúvidas. Assim sendo, retomá-lo não é impossível. Impossível é não acreditar que ainda é possível fazer reportagem com o mesmo amor, com a mesma gana, com o mesmo compromisso político-social daqueles que fizeram acontecer a Realidade. 

Texto publicado na Revista Famecos, em junho de 2000

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

Furb forma a primeira turma de jornalismo



Hoje é um dia especial pra uma mulher especial. Forma-se a primeira turma do curso de Jornalismo da Furb, um projeto perseguido com profundo amor pela professora e jornalista Roseméri Laurindo. Ela travou uma longa luta, muitas vezes solitária, para poder fazer real esse sonho. Nascida em Blumenau, ela se constituiu jornalista ali mesmo naquele vale. 

Menina ainda, já circulava pela redação do Santa, com seus olhinhos curiosos e seu espírito perguntador. Depois, foi para a capital perseguir o sonho de formar-se na faculdade. Foi ali, na UFSC que a conheci. Lembro como se fora hoje. No primeiro dia de aula eu a vi, parada à porta, com uma saia meio riponga, rosa, o capelo enroladinho e o óculos fundo de garrafa. Foi amor à primeira vista. Ela era das minhas. Logo nos fizemos amigas e partilhamos juntas as delícias de aprender e compreender o jornalismo. Longas noites de pipoca, mate e Horkheimer. Discussões acaloradas sobre substituição de importação e Adelmo. Rose é assim, intensa, em tudo que faz. 

Andou por vários lugares no mundo, voando para bem longe de Blumenau, trilhando seus caminhos intelectuais. Mas Blumenau nunca saiu dela. E ao longo de sua existência sempre pensou que lá, na sua terra, haveria de existir outras meninas e outros meninos que, tal qual ela, buscavam o caminho do jornalismo. Por isso voltou. E voltou com o propósito de criar ali, naquele lugar que foi seu berço, o curso de Jornalismo. Não foi uma jornada fácil. Mas, se concretizou. Muito por conta de sua insuperável teimosia.

Hoje, quando a primeira turma do curso fizer seu juramento de narrar a vida e a verdade, ela estará se derramando em felicidade. E eu, aqui, distante, me somo a essa alegria, porque sei o que ela significa de tempo, esforço, lágrimas e trabalho. Parabéns por hoje querida amiga e companheira. Tu és um exemplo de luta e de beleza. Agradeço todos os dias aos deuses e deusas por um dia ter cruzado aquele portal, lá no curso de jornalismo da UFSC, onde tu reinava, impávida, com tua indefectível vontade de contar o mundo. Que seja um dia lindo esse, de encerrar mais um ciclo e de ver real um sonho. 

Estou contigo! E te amo! Para além de todas as escuridões...

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

A praça e o carnaval


Passei pela Praça XV hoje e pasmei. A praça está toda cercada com tapumes. Como assim, o que é isso? Perguntei pra toda gente que por ali fica. É pra proteger do carnaval. Oi? Proteger do carnaval? Como assim? Pasmei, pasmei total. Houve um tempo em que a praça era das gentes. A praça era espaço de brincadeiras, de folia. A praça iluminada. A praça com seus banquinhos onde a gente podia dar um malho nos gatinhos. 

Agora, o carnaval virou o que? Festa de vândalos? Cada dia que passa a rua vai sendo tirada da gente. Não há espaço de parada, de conversa, de nada. É só um corredor por onde passamos apressados para a próxima compra. E a praça dos namorados, agora é das empresas, que, em nome de proteger vão tirando ela de nós. A praça clinicamente limpa. Pra quem? Ah, mas fica toda suja no carnaval. Ah, mas tem gente que destrói. Bom , essa é a vida... Tem gente de todo tipo. E as coisas sujam. 

Agora, por conta disso tiram a praça de nós? Caralho. Não podemos aceitar. Tiraram da praça o carnaval, tiraram os blocos de sujo, tiraram a beleza e agora nos dão tapumes? Vão para o inferno todos esses que nos privam da vida da cidade. Vão para o inferno. Embora o melhor mesmo fosse que a gente mesmo, em rebelião, os mandasse para lá.

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

O adeus a seu Getúlio

Foto: Billy Culleton

Foto: Billy Culleton

Foto: Rubens Lopes


Ruben Alves tem um texto no qual fala que o nosso corpo é como uma hospedaria na qual vivem muitas pessoas diferentes, muitos “eus”. Vez em quando é um ou outro que assoma à janela. Seu Getúlio Inácio era assim também: uma hospedaria. Há quem fale que era muito autoritário, fruto de sua disciplina militar, outros dizem que era de difícil convivência, por conta das rixas de pescadores, bem típicas do litoral. Outros o viam apenas como pai, ou marido, ou avô, ou tio, ou amigo, e cada uma dessas facetas era diferente uma da outra. Eu o conheci já como maestro e líder comunitário. Essa era a face que aparecia na janela sempre que eu o via, passando com seu passo lento, olhar no chão, cuidadoso e firme. E eu o amava.

Pois foram todos esses “Getúlios” que as pessoas saudaram nessa quinta-feira, um primeiro de fevereiro, dia de sol no Campeche. Era a hora de dizer adeus a esse homem de tantas faces, que, mais do que qualquer outra coisa, amou esse lugar com todas as suas forças. O Campeche, o campo de peixe dos aviadores franceses, que aqui paravam para descansar do longo voo até Buenos Aires. O lugar de morada e de vida de famílias centenárias como a dos Inácio, dos Rocha, dos Daniel. Espaço de belezas e lutas de outras tantas famílias que aqui fincaram suas raízes e que seguem defendendo esse chão como um bairro-jardim.

E foram todas essas gentes que acompanharam Getúlio até sua morada final, plantado bem ali, na beira do mar que o acolheu tantas e tantas vezes, comandando a canoa Glória.

O maestro e pescador se foi como viveu: entre música. Desde menino aprendeu com o pai que os barulhos da vida à beira da praia eram harmonias de deus e ele logo foi domando as notas musicais, produzindo música. Durante seu tempo como militar, foi entre os instrumentos que construiu seu caminho. Músico e depois regente da banda da Base. Mais tarde, já aposentado, decidiu que era preciso cuidar da gurizada do bairro. A música foi o caminho.  Abriu o rancho, pediu licença à Glória e, enquanto ela descansava na areia ele dava vida ao projeto “Música no Rancho da Canoa”, em parceria com os demais pescadores. Por ali então passavam meninos, meninas, e gente adulta que queria aprender a tocar um instrumento. E a música ecoava na praia fazendo coro com o barulho das ondas. Reuniu outros maestros, ampliou a ideia e coletivamente deu novos rumos a muita gente, iniciada ali entre o cheio de peixe e as paneladas de estopinhas de arraia do seu Hélio.

O rancho virou então um espaço cultural. Abria-se para a música, para o cinema, para as rodas de capoeira, para o jogo de dominó, para exposições de fotografias, shows do povo da terra, lançamentos de livros. Era uma casa coletiva. Tinha festa toda hora, regada a bolos, guaranás, com direito ao delicado som do clarinete do seu Leni, aos acordes dos alunos e dos maestros amigos. Mas, não era só isso. Ele ainda carregava o rancho para fora da praia, levando os alunos para tocar nos asilos, nas festas da igreja, nos natais no centro da cidade.

Tenho gravadas suas palavras, ao telefone, quando ligava, sistematicamente, para chamar meus sobrinhos – frutos desse lindo projeto do rancho: “Avisa aos mineiros que tem tocata e que não esqueçam o uniforme. Temos de preservar a nossa cultura, né?”. Ou então, suas histórias, sempre deliciosas, sobre “papai”, que era o seu Deca, amigo de Saint-Exupery. E sua expressão peculiar, quando deparado com qualquer coisa que o animasse: “interessantíssimo!”

Seu Getúlio ainda conseguiu coisas inimagináveis, como reunir os desafetos. Isso acontecia na missa do Primeiro de Maio, organizada por ele para saudar o início da Pesca da Tainha. Então, como era um momento único para a comunidade, a gente ia para a missa, tendo de conviver com figuras que no cotidiano são adversários, como Amin, Dário Berger, Gean, César Souza, Rodolfo Pinto da Luz. É que o seu Getúlio tinha esse respeito pelas autoridades e fazia lá os seus acordos com eles para garantir coisas para os pescadores ou para a comunidade. Eu mesmo torcia o nariz, mas ia à missa em consideração ao maestro. Muitos outros companheiros também iam de cara enfezada com os desafetos, mas entendendo a importância daquela reunião anual, à céu aberto, na beira da praia, nosso único lugar de encontro coletivo.

Nessa quinta-feira, na hora do adeus, ele conseguiu isso mais uma vez. Lá estavam os políticos e outras tantas criaturas não gratas, pelo menos à mim. Lá estavam os camaradas das lutas sociais, o povo da cultura, os capoeiras, os músicos, os pescadores, os ambientalistas, as gentes simples da beira mar. E a banda da Base, junto com os tantos alunos que passaram pelo rancho, entoaram música para que ele fosse embora, embalado pelas notas que tanto amou. “Amigos para sempre é o que nós iremos ser, na primavera ou qualquer das estações. Nas horas tristes, nos momentos de prazer, amigos para sempre...”

E assim foi. Com música, sol alto, mar quebrando na areia, gaivotas voando rasante. O corpo de Getúlio ficou ali, no pequeno cemitério. Mas sua energia cósmica haverá de voejar pelo Campeche para sempre. Porque cada cantinho tem o seu toque. Na entrada da praia, a estátua do pescador, trazida por ele, anuncia que essa comunidade tem história e memória. Assim, Getúlio nunca será esquecido. Porque ele, lutando para preservar a memória do pai e a amizade com o aviador, acabou por tornar-se ele mesmo um novo personagem. Com identidade própria. Maestro, condutor, desbravador de caminhos.

No meio da tarde, quando passei no rancho de canoa, tendo ido beber sua vida, deparei-me com as portas abertas e dentro dele, alguns pescadores jogavam dominó, seguindo a existência. A brisa era leve, o sol quentinho, havia gritos de criança. De repente, tudo era música e dentro de mim vibrou o clarinete, suave, como suave era o seu Getúlio. Pelo menos era assim que ele aparecia na janela que eu conseguia ver. Chorei.

Getúlio cumpriu um papel de guardião da história da nossa comunidade, da nossa cultura. Não sei agora como será. O Campeche, cresceu, mudou, recebeu muita gente que não se importa com nada. Mas, acredito que alguém surgirá, vestido de água, nesse dia de Iemanjá, pegará o bastão e seguirá pela trilha palmilhada pelo maestro.

Meu amigo Bira, outro apaixonado por essa comunidade, contou que quando saía para a despedida, alguém pediu ajuda para levar a esposa à maternidade. Nascia uma criança. E assim é a vida. Sempre se renovando. Haveremos de seguir...

Obrigada por tudo seu Getúlio. Nunca esqueceremos! 


quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

A felicidade no facebook


Já vi muita gente tripudiar sobre a “felicidade” que as pessoas exibem nas redes sociais. Não poderia ser diferente. A vida da gente é ordinária, absurdamente ordinária. Trabalhamos demais, passamos tempo demais no trânsito, dentro do busão, lavamos roupa, limpamos casa, resolvemos problemas com encanamento, arrumamos o lixo. Choramos nossas pitangas, brigamos com a família, temos acessos de pânico, arrancamos os cabelos com ódio e raiva, sentimos medo. Mas, nossa vocação real é para beleza. Não a alcançamos por conta das condições materiais e históricas. 

Por isso, talvez, as postagens “felizes” sejam constantes. É a beleza sonhada, almejada, o ainda-não. Esses átimos de alegria com os amigos, com o gato, com a família. Átimos, segundos estelares. Então, congelamos e repartimos como se disséssemos: que seja assim para sempre. Somos, indefectivelmente, buscadores da beleza. Essa coisa etérea, sempre tão distante... Então, deixa as gentes exercitarem essa hora, que chegará... Porque estamos em luta!

sexta-feira, 26 de janeiro de 2018

O julgamento do Lula e o futuro

Mais de 80 mil pessoas em Porto Alegre

O julgamento do ex-presidente Lula em segunda instância, realizado em Porto Alegre no último dia 24, não apenas confirmou o veredito dado na primeira instância como aumentou a pena de nove para 12 anos de reclusão. As acusações dizem respeito ao esquema de corrupção passiva e lavagem de dinheiro,  tanto no caso da Petrobrás como de empreiteiras. Segundo o Ministério Público, que apresentou a denúncia, Lula teria recebido imóveis e outras benesses, fruto de corrupção. Também é considerado o chefe de todo o processo de corrupção envolvendo o chamado “petrolão”, que investiga desvio de fundos da Petrobras. O recurso apresentado pela defesa de Lula foi negado pelos três desembargadores que conformam o Tribunal Regional Federal da 4ª Região. 

A movimentação de militantes do PT e apoiadores de Lula durante o julgamento foi precedida de muita tensão. Enquanto o partido de Lula indicava que iria “invadir” Porto Alegre, a cidade se preparava para uma batalha. O prefeito da capital gaúcha chegou a entrar com um projeto de lei na Câmara de Vereadores, buscando impedir a aproximação dos manifestantes da sede do TRF4. A lei foi aprovada e no dia do julgamento quase quatro mil policiais faziam o patrulhamento da cidade, com a ajuda, inclusive da Guarda Nacional. Nas semanas que antecederam o julgamento as redes sociais ferveram. A rede de ódio ao PT cresceu e se manifestou sem trégua, bem como os militantes petistas também provocavam. A forma como a repressão se preparou para o dia 24 antevia uma batalha campal na cidade.

Não foi o que aconteceu.

Já no dia 23 os militantes em apoio a Lula chegavam ordenadamente à Porto Alegra. Montaram um acampamento na região do Anfiteatro do Por do Sol, na beira do rio Guaíba, e ali foram recebendo os visitantes que vinham de outros estados. O MST veio em grande número, como sempre organizado. Chegaram caravanas de vários lugares do país, dos estados mais distantes. E, ao final do dia, um ato com a presença de Lula contabilizou entre 80 a 100 mil pessoas. Um número considerado baixo pelo tamanho da campanha realizada. Ainda assim foi um dos maiores atos realizados em Porto Alegre nos últimos tempos. A caminhada que seguiu pelas ruas da cidade foi tranquila e festiva. Não houve confrontos e tudo se deu na mais absoluta calma. 

Quando o dia 24 amanheceu tudo seguia dentro da ordem. Os manifestantes se postaram nos limites impostos pela polícia e o prédio do Tribunal permaneceu totalmente isolado, com barreiras por terra, pela água e pelo ar. A polícia seguia esperando um estouro popular. Os três desembargadores responsáveis pela decisão do recurso se mantiveram discretos, sem aparições na mídia, mas pelo perfil de cada um, exposto em todos os jornais do país, já era dado como certo o resultado de 3 x 0 contra Lula. Tanto que uma das maiores redes de televisão do país, a Bandeirantes, divulgou por volta das 10 horas da manhã, ainda durante a fala do advogado de defesa do ex-presidente, o resultado final, expondo na tela: por maioria absoluta Lula é condenado. As manchetes já estavam prontas.  Não haveria novidade. A única incógnita era o povo reunido na capital gaúcha.

O julgamento de Lula foi só mais um espetáculo com final conhecido. As frágeis convicções da acusação, que nunca apresentou provas concretas, seguiam fortalecidas e as argumentações da defesa permaneceram rituais. Nenhum dos desembargadores estava ali para ser convencido. Eles faziam parte do tal pacto proposto por Romero Jucá, quando tramou, com o então vice Temer, a destituição de Dilma e o acerto de um acordo, “com o Supremo, com tudo”.

Assim, os votos dos desembargadores foram, um a um, aceitando a tese do juiz Sérgio Moro sobre o tal tríplex do Guarujá e sobre um suposto envolvimento no desvio de recursos da Petrobras. A falta de provas materiais – tudo foi baseado em delações de pessoas que buscavam se safar da Justiça – não impediu que a acusação fosse mantida e a pena aumentada. Uma página verdadeiramente histórica para o judiciário brasileiro. Enfim, uma figura pública era tratada como são tratados, todos os dias, no chamado estado de direito burguês, os pobres e negros que abarrotam as cadeias. Basta uma única suspeita de culpa para encarcerar e tirar do meio social. Provas são irrelevantes. Logo, não houve novidade na ação do judiciário. O novo mesmo era o tipo de réu. Nesse caso, um réu incômodo demais para a classe dominante, que precisa ser tirado de circulação.

Dada a sentença, o que se viu em Porto Alegre foi uma espécie de anticlímax. As lideranças do ato público que se seguiu, conclamaram as gentes a calma, evitando qualquer tipo de manifestação mais raivosa. E confirmou-se o que já se previa. A aceitação ordeira da decisão. Alguns discursos inflamados, a informação de que o ex-presidente Lula seguirá utilizando os canais institucionais de recursos, apelando ao judiciário até onde for possível, e, por fim, a indicação de que todos voltassem para suas casas, esperando os próximos julgamentos. As pessoas voltaram para seus ônibus e retornaram para suas cidades.

No campo da oposição não petista ao governo golpista toda a ação envolvendo o julgamento de Lula foi igualmente protocolar. Os partidos de esquerda se limitaram a divulgar notas defendendo o direito de Lula concorrer à presidência e defendendo o que chamam de estado de direito, considerando assim o julgamento farsesco, visto que não há provas contra o ex-presidente e claramente tudo isso configura uma perseguição com a única finalidade de tirar Lula do páreo presidencial. Mas, apesar de todos saberem que o julgamento é uma farsa, ninguém quer se comprometer na defesa da pessoa de Lula, pois igualmente sabem que o ex-presidente, quando no poder, aliou-se à classe dominante, e tanto, que o próprio Lula diz em alta voz que nunca os ricos ganharam tanto quanto no seu governo. E é verdade.  Por outro lado, o apelo à manutenção do “estado de direito” também é complicado, visto que o tal estado de direito é esse que conhecemos, o que enche as cadeias com pobres e pretos, desrespeitando cotidianamente o direito das gentes, utilizando uma polícia feroz e letal.

Assim que o Brasil segue vivendo um drama de complicada resolução. O país está sendo desmantelado, vendido a preço de banana, sem reação popular massiva. Os direitos trabalhistas foram destruídos. A previdência seguirá pelo mesmo caminho e os gastos públicos estão congelados. As lutas que acontecem são pontuais e corporativas. Não há qualquer organização de trabalhadores que esteja organizando uma reação unificada e nacional. Lula ainda é o nome de maior apelo popular, e insiste em apostar suas fichas na eleição do ano que vem. Para tanto seguirá interpondo recursos na Justiça. Ele contava com a lentidão tradicional do judiciário, mas no seu caso, isso não tem acontecido. De qualquer forma, pelo que se viu no pós-julgamento do dia 24, esse seguirá sendo o caminho. Dentro da ordem, sem rugosidades para o sistema. 

Nas demais organizações e partidos de esquerda o que se observa é também a preparação do caminho para a disputa eleitoral. Tudo segue conforme o ritual “democrático” do estado burguês. 

Enquanto isso, na vida mesma, as gentes vão se defrontando com a realidade cada vez mais precária. Doenças endêmicas crescendo, hospitais sem condições de atendimento, escolas fechadas, ensino precarizado, destruição de postos de trabalho, desemprego crescente, trabalho intermitente, fim do amparo legal na luta contra a exploração. A vida ladeira abaixo, num salve-se quem puder. Boa parte espera um “salvador” e possivelmente a classe dominante haverá de criar um, com o auxílio sempre oportuno da mídia comercial.

Aos lutadores resta o mesmo velho trabalho de sempre que se baseia no sistemático processo de organização popular, com informações sobre a realidade e com a construção coletiva de outra forma de organizar a vida. Uma forma fincada não nesse “estado de direito” que tão bem serve aos grupos de poder, mas num “estado de justiça”, controlado pela maioria, capaz de dar as respostas radicais transformadoras que as gentes querem e esperam. 

quinta-feira, 25 de janeiro de 2018

Palestina: 70 anos de massacre, e resiste!!

Famílias palestinas sendo expulsas de suas terras em 1948
A vida na Palestina hoje

Onde voarão os pássaros depois do último céu? Onde dormirão as plantas depois do último ar? Escreveremos nossos nomes com vapor tecido de vermelho, cortaremos as mãos para que se complete nossa carne. Aqui morreremos. Aqui, nessa última passagem. Aqui ou aí... nosso sangue plantará suas oliveiras. (Mahmud Darwish)

“Ainda verte a fonte do crime” grita o poeta palestino Mahmud Darwish em um dos seus poemas. E é verdade. A fonte de todo o terror, do êxodo forçado, do assassinato, da prisão arbitrária, do roubo das terras, segue jorrando e provocando revolta no meio da vida palestina. É o que acontece desde o ano de 1947, quando em novembro foi divulgado pelas Nações Unidas a criação artificial do estado de Israel na região onde viviam milenariamente as gentes palestinas. Alegando que era preciso reparar o holocausto causado pelos nazistas, os Estados Unidos decidiu que deveria criar um estado para os judeus. Escolheu a Palestina, e não por acaso. A região é geopoliticamente estratégica, visto que é uma espécie de porta para o Oriente Médio, então e ainda berço do maior volume de petróleo no mundo. Alegando que ali era um espaço vazio, nasceu o estado sionista.

Mas, a Palestina não era um espaço vazio. Ali viviam as gentes com suas casas ancestrais, suas oliveiras, seus carneiros, sua história. E, na medida em que chegavam os judeus, iniciava-se o êxodo das famílias palestinas, retiradas de suas terras à força. Agora em maio completarão 70 anos do Nakba, o chamado “dia da catástrofe”, quando Israel começou, 24 horas depois de ser criado, a tentativa de extermínio de toda a gente palestina, promovendo massacres visando expulsar as famílias de suas casas. Muita gente fugiu, mas outras tantas ficaram e lutaram sem parar. Uma luta que segue até hoje.

Primeiro, foi o espanto. Do nada, um novo país se formou dentro de outro que já havia. Depois, começaram as investidas violentas. Do lado palestino crescia o número de vítimas. Gente obrigada a vagar pelo mundo, buscando abrigo longe de suas casas, famílias separadas por cercas e muros, vigiadas por soldados, pessoas sendo mortas como moscas. O caminho previsto por Israel era o extermínio. “Limpar a área”, fazer sumir do mapa o mundo palestino.

Depois do espanto, veio a organização. O povo palestino haveria de lutar para garantir a sua vida e o seu território. Assim, em janeiro de 1965 nascia oficialmente o Movimiento de Libertação da Palestina, uma organización revolucionária que tinha como líder Yasser Arafat. Foi esse movimiento que empreendeu a primeira resposta militar organizada contra o estado de Israel, visando defender o direito do povo palestino de viver em paz nas suas terras. Uma reação legítima e necessária.

A luta iniciada por Arafat cresceu, envolveu a gente palestina, e acabou gerando a OLP (Organização para Libertação da Palestina), com maior espectro que o de apenas um grupo de resistência. Tomou corpo e se encravou na vida palestina como um movimento necessário para o enfrentamento da violência sistemática de Israel que sempre teve como aliado militar e político os Estados Unidos. Inimigos de peso que não podiam ser enfrentados apenas com os corpos nus em sacrifício.

E foi essa luta que foi abrindo passo no mundo, mostrando o delírio do estado sionista, e garantindo junto aos demais países a legitimidade da resistência do povo palestino. Tanto que foi possível o reconhecimento do Estado Palestino bem como a participação de seus representantes em organismos internacionais. Por muito tempo Arafat e seus companheiros foram considerados “terroristas” porque precisaram abrir caminho com violência. Mas, poucos entendiam da extrema violência que vivia o povo palestino.

Hoje, passados 70 anos do começo de todo esse terror, que ainda assola a vida das gentes palestinas, a resistência segue. E não é fácil. O território da Palestina está cada dia menor e fatiado. Há pequenos espaços cercados por muros onde as famílias vivem segregadas como se fosse um campo de concentração. Vivem cotidianamente a violência, tendo de apresentar documentos e passar por revista para um simples ir e vir ao trabalho ou às compras. O maior pedaço é a Faixa de Gaza, onde se concentram quase dois milhões de pessoas em apenas 365 quilômetros quadros. Vivem sob bombardeios e ataques de toda sorte. É o terror diário.

Setenta longos anos de puro terror.

Na televisão, todos os dias, há notícias sobre o drama palestino. Mas, o que aparece é o seu contrário. A mídia comercial mostra a luta de resistência de um povo atacado como se fossem os palestinos os vilões. Eles são os violentos. Eles são os terroristas. A verdade já desapareceu completamente ao longo de todas essas décadas. Para o senso comum, o que acontece naquelas longínquas terras é um briga religiosa: árabes contra judeus. Nada pode ser mais falso.

O conflito na Palestina diz respeito a território, a riquezas, a roubo, a usurpação. Em nome de um sofrimento vivido na segunda grande guerra, os judeus sionistas – o que significa que não são todos os judeus – repetem o mesmo sofrimento, desta vez como verdugos. Fazem com o povo palestino o que os nazistas fizeram com seus parentes. Tudo em nome do poder e da ganância. Os Estados Unidos garantindo seus interesses no Oriente Médio, e os sionistas enchendo os bolsos. Tudo isso representa a trama bem urdida da acumulação capitalista. Rapinagem das terras e das riquezas das gentes para usufruto de alguns.

Setenta anos de dominação genocida. O terror. Mas, ainda assim, o povo palestino resiste, sobrevivendo a todas as tentativas de extermínio. Já enfrentou massacres massivos e segue enfrentando sistemáticos bombardeios, assassinatos cirúrgicos, prisão de crianças, terror cotidiano.

Nesse ano de 2018, quando maio chegar, e Israel comemorar os 70 anos da invasão, lá estarão os palestinos, vivos e resistentes, junto com todas as gentes no mundo que os apoiam, celebrando o levante e a luta. O Estado Palestino é um direito e haverá de vingar. Passaram-se 70 anos e o extermínio não se completou. Porque enquanto houver uma vida palestina pulsando no mundo, a resistência seguirá.

Agora, para “celebrar” essas décadas de massacre, o presidente estadunidenses, Donald Trump, decidiu desferir mais um golpe, declarando a cidade santa de Jerusalém, que sempre foi a capital palestina, como a capital de Israel. Mais uma imposição do império. Mais uma violência. Mais uma provocação. Tudo o que querem é provocar a reação para justificar o assassinato recorrente.  

Mas, se uma verdade pode ficar escondida por algum tempo, uma hora ela vem à tona. É impossível parar o conhecimento sobre a realidade. Hora virá que o mundo inteiro compreenderá o que realmente passa na Palestina. Reconhecerá o criminoso (Israel) e se juntará ás vítimas (Palestina).

Com a Palestina estamos, e seguimos. Liberdade, território e direito de gerir a própria vida. Fora Israel. Fora sionistas. Viva a Palestina Livre.