sexta-feira, 18 de janeiro de 2019

O pai: querendo ir para casa


Nas últimas semanas assomou no pai um das mais difíceis fases, que é a de querer ir embora. Todos os dias a mesma cantilena. Ele chega à porta da cozinha e faz um sinal com as mãos, dizendo:

- ó, tô xispando.

Ou seja, estou indo. Ele diz que quer ir para casa, mas na verdade não tem muita certeza de onde é essa “casa”. Suspeito eu que seja algum lugar de pura beleza, tamanha a ansiedade para ir. Por vezes sinto um profundo desejo de tomar sua mão e ir com ele, para esse não sabido lugar. Mas, a vida chama.

Geralmente quando a ansiedade é muita eu saio com ele. Vamos até o mercado, compramos algumas coisas, damos a volta na quadra. Ele se distrai e quando volta já esqueceu que queria ir para “casa”. Mas, têm momentos em que não esquece e fica muito nervoso. Vai até o portão e fica mexendo no trinco, tentando abrir para escapar.

É um tempo difícil, pois, de fato, temos de mantê-lo trancado. O portão com cadeado, senão ele sai andando “até o fim do mundo”, como diz. Os médicos chamam de síndrome do pôr-do-sol, porque aparece geralmente no final do dia. Mas, no pai, aparece a qualquer hora.

Ontem me deixou mal na fita com os coletores de lixo. De manhãzinha, lá estava ele no portão, esperando algum milagre, até que apareceram os coletores. Como são bem simpáticos, já foram cumprimentando.

-Bom dia!
E o pai.
- Me faz um favor, abre aqui pra mim. Tô preso.

O moço meio que perdeu a tramontana, olhou pra mim que observava do alpendre e fez uma cara de espanto. Fui até o portão e expliquei que o pai não pode sair sozinho, que tem Alzheimer. Ele ficou meio assim, não sei se acreditando, e se foi. E eu:

- Pai, não faz mais isso. O moço vai pensar que eu tô te maltratando.
Ele fez um muxoxo e redarguiu:

- A tentiada é livre.


quarta-feira, 9 de janeiro de 2019

As mulheres indianas e a luta por vida plena





O pêndulo da política segue seu incansável vai e vem. Por isso, enquanto em alguns espaços do planeta conquistas são perdidas e avança o retrocesso, em outros a luta por transformação assoma, com surpreendente força. Um exemplo disso foi o que aconteceu na Índia, esse imenso país asiático, ainda tão desconhecido para os latino-americanos. De lá, o que sabe o senso comum? Que é a terra de Gandhi, que tem muita pobreza, que tem templos bonitos, muitos deuses e espiritualidade latente. Raros são os que compreendem as razões da pobreza extrema bem, fruto de uma tradição ultraconservadora somado com a destruição colonial, bem como a estranha divisão da sociedade por castas, que se configuram em espaços intransponíveis. Ou seja: quem nasce numa casta ali permanece, e tampouco pode conviver com outra.

Um dos grandes dramas na Índia é o das mulheres, principalmente o das de casta dita “inferior”. No geral são tratadas como propriedade de pais, irmãos, parentes e maridos. Não são poucos os casos de estupro coletivo registrado no país e a violência contra elas é generalizada. Em muitos lugares elas são impedidas até de entrar nos templos para reverenciar seus deuses. Direito é algo que parece inimaginável para a maioria.

E foi justamente a batalha das mulheres para ter acesso a um complexo de templos, no estado de Kerala, que detonou um movimento gigantesco de luta por direitos. Até então, por conta de regras pétreas da chamada “tradição imemorial” elas não podiam entrar no templo de Sabrimala, dedicado a Ayyapann, filho de Shiva, ao qual acorrem mais de 17 milhões de pessoas durante o ano. Depois de muitas lutas a Suprema Corte da Índia suspendeu a decisão da justiça do estado de Kerala, que já havia reiterado essa proibição em nome da tradição.

A decisão da Suprema Corte da Índia foi tomada em 28 de setembro de 2018 e determinava que as mulheres poderiam entrar no templo, alegando que essa discriminação não fazia parte essencial do hinduísmo, mas de um arraigado “patriarcado religioso”. Com base nessa decisão o governo da Frente Democrática de Esquerda do estado de Kerala liberou o acesso, enfrentando por isso uma série de protestos de rua realizados por grupos reacionários de direita, incluindo aí o partido Bharatiya Janata (BJP).

O clima seguiu bastante tenso em Kerala e, em outubro, o chefe dos ministros do estado, Pinarayi Vijayan, que também é líder do Partido Comunista da Índia fez um discurso público na defesa da ruptura de determinados costumes. Ele afirmou: “Se uma tradição é um grilhão, devemos rompê-la”. E então convocou as mulheres a constituir um muro vivo de protesto e de luta. A partir daí, conta o jornalista Vijay Prashad, as pessoas foram se mobilizando. “Foram realizadas mais de cem reuniões públicas nos últimos meses de 2018 para impulsionar o apoio e mais de 170 organizações progressistas da Índia se uniram à campanha”.

E foi assim que no dia primeiro de janeiro, a partir das quatro horas da manhã, começou a se formar o muro humano que juntou cinco milhões e 500 mil mulheres, ombro a ombro, por 620 quilômetros, em luta pela emancipação das mulheres. “Aquele não era um muro da intolerância, como o de Trump, mas um muro de liberdade, contra tradições que não fazem mais do que humilhar as mulheres”, diz Vijay Prashad.

Prashad informa que K. K. Shailaja, ministra da Saúde de Kerala e dirigente do Partido Comunista da Índia esteve a frente do muro em Kasaragod, no norte do estado. O muro terminou em Thiruvananthapuram, a capital do estado, onde a última pessoa na cadeia humana era a dirigente comunista Brinda Karat, que reiterou: “Este muro de liberdade não é só para as mulheres de Kerala, mas para as mulheres de todo o país”. Os movimentos de esquerda estiveram unificados nessa importante manifestação de força.

A luta das mulheres contra as já insustentáveis tradições de exclusão, violência e intolerância não é coisa simples na Índia. Os costumes ainda são muito arraigados e não são poucos os assassinatos de mulheres por conta disso. Mas, com o fortalecimento das forças de esquerda no país esses pressupostos começam a ser questionados e deslegitimados inclusive legalmente, abrindo caminhos importantes para que os direitos sejam respeitados, de fato, na vida real.

A incrível coluna feminina de 620 quilômetros que se expressou no primeiro dia do ano sabe que há muitas coisas mais a conquistar do que o direito de entrar num templo. Mas, devagar, elas vão acumulando forças, coletivamente, para avançar em outros terrenos. O passo desse primeiro de janeiro é o primeiro. 


Sobre o salário, o lucro e o socialismo



É muito comum as pessoas acreditarem que por investirem muito na construção de seus negócios, os empresários tenham mesmo o direito de lucrarem e ficarem muito ricos. No geral acredita-se que essa riqueza vem pelo mérito do patrão, que trabalha e investe bastante para ter sucesso no negócio. Mas, a realidade é bem outra. A riqueza do patrão não tem nada a ver com sua habilidade ou sorte. Ela só existe porque o patrão rouba do trabalhador. Essa é natureza do capitalismo: roubar o trabalho alheio.

Explicando: um empresário resolve montar uma empresa. Ele compra as máquinas, monta a estrutura, a matéria prima para produzir seu produto. Então vai buscar a mercadoria que definitivamente vai trazer o lucro: o trabalhador. Esse trabalhador não tem nada de seu. Nem máquina, nem estrutura, nem matéria prima. A única coisa que pode vender é sua força de trabalho. E é essa força que o empresário compra.

Bom, como o provável patrão calcula o preço a pagar pela mercadoria (força de trabalho do trabalhador) adquirida? Ele precisa calcular o preço dos alimentos que manterão o trabalhador vivo, o preço das roupas que o vestirão, do aluguel, dos gastos com saúde, educação, enfim, tudo aquilo que é necessário para que a pessoa possa se manter, a ela e sua família, e ter condições de trabalhar. Somados esses valores, o total é dividido pelos 365 dias do ano. Assim, o empresário saberá qual é o preço diário do trabalho do trabalhador. Então, se para se manter vivo o trabalhador precisar de 100 reais por dia, o patrão entenderá que o preço justo a pagar pela força de trabalho dele será 100 reais.

Pois bem, depois de comprar tudo que necessita para iniciar a empresa e contratar os empregados pagando o valor que considera justo, no caso os 100 reais por dia, o empresário está pronto para iniciar seu negócio. E quando chegar o fim do mês, o patrão terá de fazer novas contas. Observem que o empresário tem despesas grandes. Os meios de trabalho (máquinas, o prédio, as ferramentas) se gastam, há que comprar os insumos e ainda pagar o salário dos trabalhadores. Logo, é justo que ele tenha seu lucro. Afinal, no capitalismo, o lucro, o excedente, é só o que importa. Até aí vamos bem.

Mas, o lucro do patrão não tem nada a ver com o preço que ele cobra pelas mercadorias que produz, porque ao somar tudo que envolve a produção, vamos ver que o preço da mercadoria não pode ser tão maior do que o custo da produção. Onde o patrão lucra então? No roubo do trabalho do empregado. Como assim?

Ora, o trabalhador é contratado por oito horas e recebe 100 reais por dia (preço que foi calculado com base no que é necessário para a pessoa se manter viva). Bem, nessas oito horas o trabalhador, por exemplo, de uma fábrica de roupas, produz 50 peças. Bem, os 100 reais que é pago ao trabalhador representa a manutenção dele por 24 horas e não o que ele produziu nas oito horas de trabalho. É como o agricultor com seus animais. Ele sabe que uma vaca vai produzir muito mais leite do que o custo que ele tem para mantê-la.

Veja que o trabalhador vai para casa considerando que está bem, o salário é muito justo. Mas, na verdade, não é. Porque ele não recebe sobre o que produz. No caso do trabalhador da fábrica de roupas, ele consegue fazer, em oito horas, 50 peças. Cada peça será vendida por 50 reais. Sua produção foi equivalente, então, a 2.500 reais num dia apenas. E por esse dia ele receberá 100 reais.  Ou seja, 2.400 reais vão para o bolso do patrão, limpinho.

Outra coisa importante para se levar em conta é que na soma das necessidades do trabalhador, o patrão geralmente só leva em conta a sobrevivência mínima do empregado. É por isso que existe um “salário mínimo”. Isso significa que esse valor é menor valor possível que se pode pagar para que alguém consiga sobreviver, comendo, vestindo e morando.

Muitos já devem ter ouvido falar no salário mínimo do DIEESE. O DIEESE é uma entidade dos trabalhadores que atua justamente com pesquisa sobre temas referentes aos trabalhadores. O cálculo que o DIEESE faz para determinar um salário “mínimo” é bem diferente do cálculo feito pelo governo ou pelos empresários. Porque como é uma entidade dos trabalhadores, leva em consideração outras variáveis. E considera que os trabalhadores não apenas devam sobreviver (manter-se vivos com o mínimo), mas fundamentalmente, viver. Ou seja, o trabalhador tem direito a uma moradia digna, comida de qualidade, educação, saúde, diversão, lazer e tudo isso entra na conta. Por isso os valores são bem diferentes.

Por exemplo, nesse primeiro de janeiro de 2019, o governo brasileiro definiu o valor do salário mínimo em 998 reais, frustrando a expectativa de que ele passasse dos mil reais (1.006) conforme já tinha sido definido no orçamento para esse ano, o que ainda seria ruim. O governo entendeu que esses 998 reais devem ser suficientes para que o trabalhador não morra. Pode ser, mas, não é suficiente para que viva.

Para ter uma vida plena e segura, o salário mínimo do trabalhador deveria ser de 3.960 reais, segundo os cálculos do DIEESE. No cálculo, essa cifra é que conseguiria garantir os direitos básicos de uma pessoa: moradia, alimentação, educação, saúde, lazer, vestuário, higiene, transporte e Previdência Social. Alguns poderiam dizer: “ah, mas aí não há quem aguente pagar”. Bom, os grandes empresários aguentam sim (eles lucram muito), e aquela família que tem empregada e não quer pagar muito por ela teria que repensar se precisa de alguém para chamar de “sua”.

Outros poderiam pensar: bem, mas é justo que o patrão ganhe com o meu trabalho, afinal ele investiu tanto. Não, não é. Porque quando o patrão faz as contas dele ele sempre leva em consideração o desgaste das máquinas, dos prédios e dos equipamentos. Está tudo contabilizado e é tirado justamente do lucro que obtém com o roubo do trabalho do trabalhador. Ele nunca perde. Mas, e o desgaste do trabalhador, quem paga? Pois o próprio trabalhador. Onde está a justiça disso? Quando o trabalhador fica doente, ele tem de bancar seu tratamento. Quando ele envelhece, ele que tem de aguentar as consequências de não poder mais trabalhar já que a previdência não lhe garante quase nada.

Para o patrão, o desgaste do trabalhador não interessa. Quando um fica velho, ele demite e contrata braços mais vigorosos. O que ficou pelo caminho que se dane. Essa é a lógica do capitalismo. Sugar o máximo do trabalhador, e deixa-lo a própria sorte quando não puder mais produzir.  

Mas, poderia ser diferente? Sim, poderia. Numa sociedade onde o trabalho fosse parte da vida coletiva (e não objeto de lucro para alguns) e o trabalhador, por qualquer tipo de produção, recebesse conforme suas reais necessidades. A isso se chama socialismo. E é isso que os empresários procurar demonizar para que os trabalhadores não se deem conta do quanto poderia ser bom. “Ah, mas o socialismo deu errado em toda parte”, argumentam alguns. Essa é uma meia verdade já que algumas experiências chamadas de socialistas não foram muito bem sucedidas. Mas, outras tentativas, como a de Cuba, apresentam vitórias importantes para a população, como saúde gratuita e de qualidade, educação gratuita e de qualidade, segurança, moradia. Não é o mundo perfeito, claro, até porque a pequena ilha vive sob o ataque econômico dos Estados Unidos. Só que ainda assim conseguiu garantir avanços incríveis. Imaginem se fosse livre para negociar.

O socialismo não é uma forma de bolo na qual colocamos a massa e esperamos crescer. Não se faz por decreto ou por qualquer forma de lei. O socialismo é um processo que precisamos construir, coletivamente, em comunhão. Que nos custará muito, mas nos trará também grandes benefícios. Claro que nem todo mundo consegue acreditar que é possível viver num estado de Justiça, onde cada qual viva conforme precise, e ninguém tenha mais que ninguém. Onde o trabalho seja sinônimo de vida, de criação, e não de morte. Mas, pessoas há que querem viver assim e não deveriam ser condenadas por isso.

Então, quando ouvirem os empresários ou gente do governo dizer que o socialismo é o demônio, tenham bem claro: é mesmo. Mas, é o demônio para os empresários que enriquecem a custa de todos nós, os trabalhadores. No socialismo eles não seriam os patrões, nem seriam os ricos, porque uma fábrica de roupas, por exemplo, seria gerida por todos os seus trabalhadores. Assim, o que é ruim para eles é bom para a maioria dos trabalhadores. Não é interessante?

Então, não compre o discurso assim, tão rápido. Pense.  



domingo, 23 de dezembro de 2018

Quem cuida do cuidador?



Desde que comecei a cuidar do meu pai, diagnosticado com Alzheimer, há uns três anos, tenho procurado encontrar caminhos para melhor atender as exigências desse tempo da vida. O velho não é criança, então não dá para aplicar as regras do trato infantil com ele. É preciso dar autonomia, fazer com que se sinta capaz, respeitar suas escolhas e vontades. É um processo intenso e difícil.

As coisas ficam ainda mais duras se a gente tem de trabalhar. São pelo menos umas oito horas longe de casa, sempre em sobressalto. Há pessoas que cuidam, mas a gente não descansa. Se o telefone toca, o coração pula, se chega mensagem no celular, o peito aperta. Fica aberto aí um caminho para a doença porque a sobrecarga é grande. O sono é pouco, a pressão aumenta, e a gente parece viver num eterno torpor por conta da vigília intermitente.

Não bastasse o ataque físico, o psicológico também fica roto. Afinal, aquele que cuida está sozinho. Com o tempo, já não há mais tempo para os amigos e muitos vão sumindo. Não é culpa deles, cada um tem seus próprios dramas para viver. A família ajuda, mas a confiança do velhinho se fixa em uma única pessoa e ela é quem carrega o cuidado inteiro. Não é qualquer um que pode dar banho, não é de qualquer um que aceita a comida, o processo de dependência vai criando um torvelinho no qual o cuidador pode sucumbir.

Nesse diapasão, quem cuida do cuidador? Pois, ele mesmo. Ao longo desse tempo nos cuidados com o pai fortaleci em mim uma certeza que eu já tinha de que somos mesmo seres da solidão.  E é isso aí. Não dá para esperar nada de ninguém. Se a ajuda chega, é bom, mas não podemos querer que as outras pessoas venham em nosso auxílio.  Vejo nos grupos de ajuda a familiares o quanto as pessoas sofrem por estarem sozinhas nessa batalha danada. Mas, toda hora de angústia sempre é vivida na solidão. Não tem jeito. Nem mesmo a pessoa que mais nos ama pode viver nossa dor. Ela é nossa. E temos de nos virar com ela. Sei que isso é duro, mas é assim que é.

Podemos nos enterrar na tristeza ou podemos encontrar pequenos pedaços de beleza espalhados pela estrada do cuidado. Aprendi que o meu pai, apesar de seus devaneios, está muito bem. Faço por ele tudo o que posso, o que não posso e um pouco mais. Dedico a ele meu tempo inteiro e sei que isso o faz feliz. Vejo no seu rosto, sinto na sua risada, no seu passo miúdo, sempre me procurando pela casa. Percebo sua confiança na forma como segura meu braço quando vamos passear ou como fecha os olhos, quietinho, quando lhe faço a barba. E mesmo quando explode em violência querendo “ir para casa” compreendo que é coisa da doença e deixo que a raiva passe para depois estreitá-lo em meus braços, dizendo que estarei sempre ali.

Quanto a mim, me esforço para cuidar da casinha que abriga a minha alma. Faço pequenos momentos de meditação. Tomo uma boa cerveja enquanto cozinho. Busco encontrar momentos para encontrar as amigas e os amigos mais próximos, tomar um café, jogar conversa fora, ver as tendências. Também faço ginástica, muita ginástica, fortalecendo o corpo, os músculos, cada pedaço de mim. Basta o pai dar uma folga e lá estou eu estendendo minha toalhinha no chão, dando duro nos abdominais. Procuro ficar forte porque sei que é só comigo que posso contar. Pode parecer meio arrogante, mas não é. Saber da nossa solidão, aceitar isso, é a única maneira de não sucumbir na auto piedade.

Sei que não é bolinho cuidar de uma pessoa velha, com demência, sem grana para cuidadores, ou massagens, ou fisioterapias. Mas, busco me virar à moda cubana, inventando, inventando e inventando, todos os dias e a cada minuto. É assim que eu mesmo descubro as massagens, os exercícios, os entretenimentos. E vou dando jeito, até quando preciso for.  

Por fim, nossos velhos não são incômodos, muito menos castigos de deus. Eles são uma janela para nossa mais profunda humanidade. E se a dureza do cuidado com eles pesa, ela também estende o tapete vermelho para que assome tudo aquilo que é de mais bonito em nós: o riso sem razão, o carinho, a picardia, a ternura, o amor, a compaixão, a vontade de acertar, o cuidado conosco mesmo.

Assim, vamos ficando melhores pessoas. O outro sempre é o paraíso quando ele já existe dentro de nós.



quarta-feira, 19 de dezembro de 2018

Um conto de natal


Um menino palestino

Na madrugada, bateu um vento. Tocou, de leve, o sininho que fica na porta da frente. Acordei, sonolenta, pensando que fosse, talvez, o gato querendo entrar. Mas, surpresa, vi que ali estava um menininho. Olhou pra mim com os olhos imensos, feito duas jabuticabas, e sorriu. Acercou-se da árvore que piscava em luzinhas e acarinhou o pequeno presépio andino que ali sossega, lembrando a sagrada noite. Sentou na poltrona e quis conversar. 

Não tenho problemas com visões. Costumo ver gente morta em todo lugar. Aqueci a água, preparei um chá de hibisco, e ficamos ali, na madrugada calorenta, papeando. Perguntei o que fazia ali se a hora ainda não havia chegado. “Não sei, quis vir”. Falamos das coisas que andam acontecendo. Das pessoas que falam de Jesus como um vingador. Dos que em seu nome matam, agridem, causam dor.  Falamos da longa viagem que ele e seus pais fizeram na velha Palestina, fugindo de um rei louco que queria matar todos os meninos com medo de perder o poder. E a família, no burrinho, atravessando desertos. E, no caminho, pedindo uma ajuda que não vinha. Migrantes de terras estranhas tentando se salvar. Ignorados, chutados, esquecidos à própria sorte.

Falamos sobre as guerras no oriente médio, na sua amada Palestina, lugares de onde, todos os dias saem famílias como a dele, buscando vida. Falamos dos centro-americanos caminhando em direção aos Estados Unidos, querendo comer na mesa do banquete. E ele com aqueles olhos graúdos, tristes, tristes. Falamos do Brasil, da triste rota de ódio ao pobre, ao caído, ao excluído. Bebericamos em silêncio. E nos abraçamos. Forte, forte.

O meu jesusinho, esse que eu amo, é o que caminhou com os pobres, os cegos, os perdidos, os desgraçados, as putas, os difamados, os paralisados. Ele trouxe uma mensagem de puro amor. “Ame o outro como a ti mesmo. Semeie em todos os campos. Divida o que tens, não o que sobra. Dance e tome o vinho entre amigos. Abra teus olhos para a beleza. Caminhe em direção ao sumo-bem”. Sobre isso falamos e eu, cética: “Tá difícil, menininho”. E ele, manso. “Não desiste. Tamu junto”. O meu deusinho sabe que a vida aqui depende mesmo é de nós, não dele.

A noite correu. Comemos biscoitos, gargalhamos, brincamos com os gatos e cachorros, tomamos chimarrão. De manhãzinha, ele já sonolento, apertou-se ao meu peito e depois partiu. “Passo de novo no natal, ou qualquer hora pra brincar”. Fiz o sinal de positivo. Sorri. E ele foi sumindo, não sem antes olhar pra trás, com seus olhos de lâmpada. “Não desiste, fica firme no amor”. “Podexá”. 

O sol veio vindo e eu fiquei no alpendre, pensando. 2019 será duro, mas, a despeito de tudo, vou seguir no amor. Nunca sozinha, sempre em comunhão, com todos aqueles que lutam por um mundo no qual não as riquezas sejam repartidas e cada um possa viver conforme suas necessidades. Porque nada pode ser mais forte do que uma gente unida, que atravessa os desertos, sem medo. 

Estaremos juntos. Na noite sagrada, quando vier o menininho. E nos dias que se seguem, porque a vida é presente, é dádiva, é comunhão, é amor. 

Aos amigos, aos compas, aos parças,  Feliz Natal e Feliz Ano Novo. 



segunda-feira, 10 de dezembro de 2018

O pai e o banho



Quem cuida de pessoas velhinhas sabe, levar para o banho é o maior desafio. Tudo é motivo para não tomar banho. Não entendo isso. Só falar em banho e tudo já fica tenso e emburrado. “Agora não”. “Tomo banho é de noite”. E quando chega a noite: “agora não, tomo banho é de manhã”. É uma longa corrida de gato e rato.
Com o pai eu defini assim. Chamo pra tomar banho e se não quer, deixo pra lá. Faço uma coisa, faço outra. Pergunto de novo, para medir o nível do emburramento. Tá alto. Sigo fazendo outra coisa. E vou toda hora perguntado. “Vamos agora?” “Que tal um banho”. A brabeza firme. Tem dias que eu deixo quieto, ficar sem banho não vai matar. Passo um paninho úmido nas partes, com muita gritaria e protesto, mas fico firme. “Sem banho, ok, mas tem de limpar a bundinha”. A brabeza é grande, mas dura pouco. Creio que ele fica envergonhado.
Hoje o calor estava forte. E a novela do banho foi novamente encenada, desde as duas da tarde. Só lá por perto das cinco horas que ele apareceu na porta. “Vem, vamos tomar esse banho”. E lá fomos nós para a nova novela de tirar a roupa que demora um eito. “Não vou tirar a roupa com esse monte de gente aí”. O monte de gente são as pessoas na televisão. “É a TV, pai, eles não estão te vendo”. “Ahhhh, mas não mesmo, tira eles dali”. Tá bom, apaga a televisão.
Finalmente no banho quentinho a zanga se desfaz. Fica brincando com o sabão até mais não poder. “Bora sair, chega”, e ele nada. Vai entender.
Findo o banho, última etapa rocambolesca. Colocar a roupa. Uma confusão danada. Quer por a camisa nos pés, a cueca na cabeça. Então, cada peça tem e ser alocada, com cuidado e com explicação. Nisso tudo já se passou mais de hora. O banho é uma expedição perigosa e cheia de loucas aventuras.
Banhado e perfumado é hora de ir para o alpendre, onde ele calmamente saca o cigarro, acende, e fica fumegando, com os olhos no infinito. Então me olha e repete o mantra: “amanhã eu vou pra casa”.

domingo, 2 de dezembro de 2018

Violência de quem, cara pálida?


"Chamam violento o rio que tudo arrasa, mas não as margens que o oprimem". Li hoje um comentário sobre os protestos na França. A pessoa dizia que aquilo tudo ( a violência) era fruto do multiculturalismo. Ou seja, uma racista que evitava dizer ser culpa dos negros e árabes. Como se fossem só eles os que protestam. 

Os que protestam na França são os pobres, os que vivem o cotidiano da fome, da desnutrição, do desemprego, da violência mais vil. O aumento do preço da gasolina tem reflexos em toda a cadeia de preços. A vida fica pior. E coisas assim detonam toda a dor, todo desespero. A luta que muda o curso das coisas sempre é violenta, porque violento é o modo de vida que põe milhões na miséria para que meia dúzia vivam à larga. 

Os fatos na França não têm a ver com o "multiculturalismo", até porque os negros e árabes que ali estão hoje apenas buscam viver um pouco do bem viver que lhes foi tirado por um país que tornou colônia muitos povos, que roubou e matou para extrair as riquezas desses povos. Os fatos tem a ver com o momento em que uma pessoa diz: basta, não posso mais.  E responde como pode aos opressores. 

Como no Brasil de 2013, os manifestantes não estão ligados a partidos, e realizam atos marcados via redes sociais, aparentemente sem coordenações centralizadas, mas os partidos já estão pegando carona no movimento. Todos os que são contra Macron já mostram as unhas. Macron já sinalizou que é preciso prestar atenção às reivindicações do protesto social, porque sendo ou não espontâneo ele expressa reivindicações de grande parcela da sociedade.