terça-feira, 19 de junho de 2018

Direito à data base em debate no STF


Em plena Copa do Mundo, nessa quarta-feira, dia 20, o Supremo Tribunal Federal, do qual nada de bom se pode esperar para os trabalhadores, está prometendo realizar, finalmente, o julgamento da ação que analisa o direito de revisão anual de Salários dos Servidores Públicos Federais, a famosa data-base, que os trabalhadores federais, ao contrário dos trabalhadores da iniciativa privada, não têm. Isso significa que, sem data-base, esses trabalhadores precisam realizar lutas a cada ano para poder garantir aumento salarial ou reposição. Tem sido assim desde muito tempo e essa tem sido também a causa de muitas greves que são realizadas ano após ano. 

A luta por data-se sempre esteve incorporada às pautas de reivindicação dos trabalhadores públicos, porque se isso fosse legalizado, seria automático o governo pensar a questão salarial a cada ano, evitando tanto desgaste. Mas, para o estado isso nunca foi prioridade. Pelo contrário. É muito melhor deixar que os trabalhadores fiquem mal vistos pela sociedade como se fossem “malandros”, “vagabundos”, “grevistas”, criando assim a ideologia de que o pessoal que trabalha no setor público reclama muito por nada. 

A data-base para os trabalhadores público foi reconhecida na Emenda Constitucional 19, da Reforma Administrativa de 1998, a qual diz que os trabalhadores têm direito a uma revisão anual de salários. Mas, essa norma nunca foi respeitada pelos governos, ou então foi interpretada de forma ritualística, como quando o governo oferecia 1% de reajuste no primeiro mês do ano, considerando assim o acatamento da lei. Ora, isso não é negociação e muito menos respeita a lógica de revisão salarial.

Agora, o STF deverá deliberar sobre a ação que discute o direito de servidores públicos do Estado de São Paulo a indenização por não terem sido beneficiados por revisões gerais anuais em seus vencimentos. Caso os trabalhadores vençam essa batalha, abre a possibilidade para que todos os trabalhadores públicos tenham reconhecida a data-base. Isso porque, caso for reconhecida a indenização aos  trabalhadores paulistas, cada servidor público poderá ajuizar ações indenizatórias em face de seus “empregadores”, no caso os governos, podendo pedir tal indenização relativamente aos últimos 5 anos (ou 3, dependendo da tese a ser adotada em relação à prescrição). Terão que provar, no entanto, que os reajustes concedidos foram inferiores à inflação do período.

A discussão desse tema corre no STF há anos e em 2014 foi interrompida por um pedido de vista do ministro Dias Toffoli. Já havia um resultado parcial de 3 votos favoráveis e 4 contrários. Marco Aurélio (relator), Cármen Lúcia e Luiz Fux se posicionaram favoravelmente ao Recurso. Já os ministros Gilmar Mendes, Rosa Weber, Roberto Barroso e Teori Zavascki eram contra. 

Amanhã, no julgamento da ação, Zavascki não estará mais, faleceu, e no seu lugar votará Alexandre Morais, do qual não se sabe o voto, embora se possa intuir que seja contra, visto que uma decisão favorável aos trabalhadores fará com que o governo federal defina uma data-base para todos. 

Essa é uma luta que deveria estar sendo acompanhada de maneira muito próxima pelas entidades sindicais de trabalhadores públicos, mas pouco se vê movimentação. O Sintufsc, na UFSC, praticamente não informou nem mobilizou a categoria, embora tenha chamado, de maneira ritualística, uma vigília para o Hall da Reitoria para essa quarta-feira a partir das oito horas da manhã.  

Já o STF, que tem se lixado para as grandes manifestações populares, certamente não fará caso das manifestações dos trabalhadores. E assim, enquanto alguma desconhecida seleção joga lá na Rússia, a sorte de milhares de pessoas será lançada por um grupo de juízes que não têm qualquer empatia com os trabalhadores. 

Ainda assim, estaremos de olho. Às vezes, coisas acontecem!  

sexta-feira, 8 de junho de 2018

A UFSC, os trabalhadores e a batalha do estágio probatório




Caso Juliane expõe as vísceras da arbitrariedade que envolve estágio probatório

O Brasil vive um momento conjuntural convulsionado, saindo a poucos dias de uma paralisação geral provocada pelos caminhoneiros e que, infelizmente, não contou com a adesão das centrais sindicais. Caso os trabalhadores tivessem subido nesse bonde as coisas poderiam passar diferente. Não passaram. A greve dos caminhoneiros acabou, o diesel não vai baixar, a gasolina subiu e tudo segue na paz.

E, se no Brasil o negócio está assim, imaginem na universidade. A vida segue entre teses, dissertações, trabalhos finais, burocracias e gestão de projetos. E no campo das relações de poder, a vida é ainda mais complicada, pois o coronelismo é um fantasma cujo ectoplasma segue visível e forte.

Nessa sexta-feira esperava-se que uma batalha travada por um grupo de técnicos-administrativos, bem como pelo sindicato, referente a anulação de uma decisão de exoneração de trabalhadora pública em estágio probatório pudesse ser resolvida no âmbito das negociações internas. Já há algum tempo que a decisão vem sendo questionada e nas idas e vindas da administração e a esperança era de que agora as coisas se resolvessem. Não foi assim.

Tal qual aconteceu no caso do trabalhador Daniel Dambrowski, a argumentação dos TAEs e do sindicato era de que a comissão que definiu pela avaliação insuficiente cometeu equívocos graves e foi arbitrária. A trabalhadora em questão, Juliane de Oliveira, que exerceu seus primeiros meses de trabalho no Hospital Universitário, ao que parece foi mal avaliada porque reclamou de estar em um espaço insalubre e pediu para ser removida. Vale ressaltar que quando pediu para sair do HU Juliane estava grávida e, depois, lactante, portanto, em pleno direito de querer um espaço que não causasse dano ao bebê. O mais grave é que o período no qual Juliane trabalhou depois de sair do HU não foi levado em conta na avaliação. O sindicato e os TAEs denunciam perseguição, ilegalidades e a negação do direito ao contraditório.

Ocorre que no âmbito do trabalhadores técnico-administrativos não há instâncias as quais recorrer em casos assim. A comissão de avaliação é soberana e inquestionável. Diferentemente dos trabalhadores docentes, que podem apelar para mais quatro instâncias antes de ver uma exoneração por desempenho insuficiente acontecer.  

E diante dessa flagrante injustiça, qual a posição da reitoria? "A coisa é assim, nada podemos fazer". Ora, a universidade tem todas as condições de gerir autonomamente sua política de pessoal e pode sim definir instâncias de recurso. Não é possível que uma comissão, que não leva em conta toda a trajetória de um trabalhador, decida, e não possa ser questionada.

A reivindicação dos colegas de Juliane e do sindicato era de que a avaliação fosse revista, com a inclusão do período no qual ela atuou no Departamento de Compras - onde está agora  - e que também fosse levado em consideração a sua condição de grávida e depois, de lactante, no período em que discutiu o ambiente onde estava.

Mas, depois de reuniões e reuniões, o reitor Ubaldo Balthazar decidiu que não iria decidir. E a proposta apresentada foi a de levar o caso ao Conselho Universitário. Uma decisão de Pilates, visto que o CUn, predominante formado por professores, não tem sido sequer imparcial nas suas análises, inclusive nos casos que envolvem sua própria categoria. Basta lembrar o triste episódio de uma professora do Curso de Enfermagem que foi exonerada também por perseguição, por ser “boa demais” com os alunos. Ela entrou na Justiça e venceu, não sem pagar um preço elevado demais pelo sofrimento todo que passou, vindo depois a tirar a própria vida.

O caso envolvendo a trabalhadora Juliane não é exceção. É regra. A vida das pessoas é rasgada e cortada sem dó nem piedade. Se for alguém que questiona, que luta, que atua politicamente, bom, aí a coisa é bem pior. A lógica da “fazendinha” é simples: assuma seu cargo, não abra a boca, não olhe para os lados, não gema, não vá às assembleias, não se mova, obedeça toda as ordens, senão... O chicote canta. E a demissão vem. Juliane reivindicou. Errou aí.

O século XXI já vai chegar à segunda década, mas os trabalhadores públicos da educação, que não são docentes, seguem sendo tratados como joãos e marias-ninguém. Tudo para eles é menos.

Agora, o caso da Juliane vai para o Conselho Universitário. Nova batalha. Não há paz. Mudam as administrações e a UFSC segue como sempre foi. “É assim, não há o que fazer”, diz o reitor. Não. Não é verdade. Vontade política e coragem mudam as coisas. Mas, pelo visto, isso não é para agora.

A luta por Daniel deu um grande ânimo nos trabalhadores, porque foi vitoriosa. Aprendeu-se muito. Agora, a batalha pela permanência da Juliane mostra que a questão do estágio probatório é muito mais complexa do que se supunha. Há coisas tantas para mudar. O caminho é longo. Mas, enquanto houver luta, a vida vai apontando rumos.  



quinta-feira, 7 de junho de 2018

Doval, o futebol e o esquadrão imortal

Doval

o esquadrão imortal

Sempre tive certa síndrome de Madre Tereza, ficando ao lado do mais fracos em todas as situações, inclusive no futebol. Lembro que quando era pequena (ou criança, porque pequena ainda sou) achava muito estranho a garotada da rua ser Flamengo. Todos eram Flamengo, aquilo não me parecia justo. Eu brigava porque achava que tinham de ser dos times locais, no caso ou Internacional, ou Cruzeiro, que eram os times de São Borja. Mas, bastava ter jogo do Flamengo que a galera deixava o jogo de bolita para ouvir a contenda.

Foi por conta disso que me fiz Fluminense lá pelos anos 70. Achava triste que ninguém torcia para o tricolor. No jogo de botão, esse sempre era meu time. Cafuringa, Mickey (o artilheiro do paz e amor), Félix, Gerson. E, em 1975 o “esquadrão imortal” era imbatível, com figuras míticas como Carlos Alberto, Edinho, Dirceu, Rivelino e o absoluto Doval. Esse era meu ídolo, tinha milhares de fotos recortadas do “diabo loiro” argentino. E o dono da banca de revista já sabia, quando chegavam as revistas do esporte eu era a única menina a comprar. Também tinha todos os álbuns de figurinha.

Naqueles anos o futebol era uma beleza. A gente conhecia os jogadores, amava cada um deles pela magia que conseguiam fazer com a bola nos pés. Eu, de fato, sempre gostei do jogo, não importando muito quem jogava. E a torcida era sempre definida em função de quem estava com menos apoio.

Ao longo dos anos amei Nelinho, Eder, Paulo Cesar Carpeggiani, Renato, Figueroa, Paulo César Caju, Manga, Zico, Falcão, Marinho, Sócrates, Wladimir, Palhinha, Fio, Biro-Biro, Toninho Cerezzo, Roberto Dinamite, Leão, Valdo, e tantos outros. Hoje ainda me deixo ficar em frente à TV quando o jogo é bom, mas já não conheço ninguém. Desses, da seleção brasileira, praticamente nenhum. Eles não são nossos ídolos aqui, não dançam nos nossos gramados, estão fora.

Mesmo assim, quando chega o tempo da Copa eu me animo. Mesmo no meio do futebol técnica assoma algum guri brincalhão, desses que dança e faz misérias. Isso me emociona e me transporta para os anos 70 e 80 quando a gente vivia com força essa paixão. Mas, é triste não ter o nome dos guris na ponta da língua e não saber sequer de onde eles estão saindo. No geral, as gentes de outros lugares sabem deles mais do que nós. Nossos garotos, quando em algum momento se destacam, já são capturados por algum olheiros e viram mercadoria, levados para longe de nós.

Nesses dias que antecedem a Copa me veio assim, profundo, um oceânico sentimento de saudade e me vi debruçada sobre o álbum que enchi só com fotos do Doval. Ele ainda deve existir em alguma caixa na casa de meu pai. O Doval já se foi, “hace tempo” jogar no céu. Morreu cedo, com 47 anos, deixando a doce lembrança do riso, dos cabelos lisos e compridos e do braço em riste na hora do gol. Doval é a memória de um tempo em que o futebol era capaz de nos encantar.

Hoje, não mais... Ainda que nos dias de Copa eu me perca, outra vez...Esperando.


Messi e as crianças palestinas


Foi assim, tão logo souberam que a seleção argentina iria jogar um amistosos com a seleção de Israel, um grupo de crianças palestinas decidiu escrever uma carta ao jogador Messi, que é um ídolo mundial, e também muito amado pela gurizada palestina. Uma gurizada que vive diuturnamente acossada pela violência, pela morte, pela dor, tudo provocado pelo estado sionista de Israel. Hoje, são mais de 300 crianças presas nas cadeias israelenses, pelo simples fato de existirem, quererem viver no seu território e lutarem por isso. 

Na carta, entregue a representação diplomática da Argentina na Cisjordânia pelo presidente da Associação Palestina de Futebol, Jibril Rajoub, as crianças falam com Messi: “ Disseram que você vem jogar com os seus amigos em Al Malha, num estádio construído sobre a nossa aldeia. Você é uma figura lendária do futebol com a qual todos sonhamos em ser iguais. Somos filhos de refugiados palestinos dos campos de refugiados de Qalandia, al Amari, Yalazón e Aida. Nossas famílias são originárias de Al Malha. É lógico que Messi, o herói, venha a jogar em um estádio construído sobre os túmulos dos nossos antepassados? Nós, em nome de nossos amigos, oramos a Deus para que atenda nosso desejo, e que Messi não parta nossos corações."

Essa comunidade, que existia na parte ocidental de Jerusalém, foi  uma das 418 vilas palestinas destruídas por Israel desde a invasão, e ali hoje está o estádio Teddy Kollec, onde seria a partida, que serviria justamente para celebrar os 70 anos de criação do estado de Israel. Os 34 mil ingressos já estavam vendidos e o governo preparava uma grande festa, completamente alheio ao sofrimento e ao terror que vem provocando desde a invasão das terras palestinas.

Na última terça-feira a Argentina confirmou o cancelamento da partida, aparentemente acolhendo o pedido das crianças, numa vitória diplomática importante para o povo palestino, justo nesse momento em que os Estados Unidos acirram a violência com a transferência da sua embaixada para Jerusalém, alegando que ela é a capital de Israel. Os últimos dias tem sido de barbárie com dezenas de pessoas sendo assassinadas por franco-atiradores durante os protestos na fronteira, como o caso da enfermeira de 21 anos, Razan al-Najar, atingida enquanto prestava ajuda a um ferido.

A vitória é também do Movimento BDS (Boicote, Desenvestimento, Sanções)argentino, que potencializou a campanha. Esse movimento existe em todo o mundo conclamando o boicote a Israel.

O governo israelense já confirmou o cancelamento argumentando que o jogo não será realizado em função de “ameaças de morte” ao jogador Messi. O presidente da Associação de Futebol Argentina, Claudio Tapia, também confirma a versão: "O acorrido nas últimas 72 horas, as ações, as ameaças que aconteceram, nos levaram a tomar a decisão de não viajar. A minha responsabilidade, como presidente, é a de lutar pela saúde e a integridade física de toda a delegação".

Essa jogada de colocar a culpa do cancelamento nas “ameaças”, que na verdade não existiram, é uma tentativa polida de escorregar pela tangente. 

De qualquer forma, a Argentina não indo a Israel é um gol de placa, não de Messi, mas das crianças palestinas que ousaram chutar forte e, mais uma vez, enfrentar o gigante.

Que vivam as crianças palestinas. Que vivam!  Elas enchem meu coração de alegria em meio a toda essa dor. 




sexta-feira, 1 de junho de 2018

Pantera Negra e Fahrenheit 451


Assisti essa semana o filme Pantera Negra e a despeito da belíssima estética envolvendo os cenários e o figurino, não gostei. Porque, para mim, o filme tem de dizer algo e o que o filme me diz não me agradou. Gosto de filmes de super-heróis, porque eles nos remetem aos sonhos de justiça que temos e que não podemos realizar. São metáforas dos nossos desejos de um mundo bom. Mas, os super-heróis que temos visto no cinema desde algum tempo na nova leva de renascimento dos personagens da Marvel não tem nada de bom. No geral, quando os vejo, acabo assumindo o lado dos “bandidos”, que me parecem mais justos que o tal do herói.

Vejam o Homem-de-Ferro, feito lindamente pelo adorável Robert Downey Jr. Fala sério, mano, o cara é comerciante de armas que adora matar árabes. Ele é o “bad gay”. Aí não dá, né?

E no Pantera Negra, o gurizinho vê o pai ser assassinado porque queria levar a liberdade a todos os negros da terra, segue no rumo do sonho do pai e ele é o que é bandido? Ah, aí é demais pra mim. Ver o rei de Wakanda voltar ao poder por conta da providencial ajuda de um agente da CIA, que é salvo em nome da “bondade” , foi muito uó. E por que a bondade do rei não se expressou no acolhimento ao primo, revoltado? Gostei não! Gostei não mesmo. E no final, o rei da fantástica Wakanda decidindo abrir um centro de ajuda a menininhos do bairro onde o primo viveu não me comoveu. É fato que nessa hora eu chorei. Mas, chorei de raiva. Filantropia a essa hora do dia. Foda-se!

Aí, como eu torci o tempo todo pelo primo do rei bundão, o bandido, fui atrás de saber quem era aquele garoto lindo. Michael B. Jornan, sublime! Então vi que ele protagonizou a nova versão do clássico de Ray Bradbury “Fahrenheit 451”. E aí sim vi a representatividade negra necessária. Ele faz o papel de Montag, o herói da trama. Heróis sem ser super. Herói na sua humanidade desesperada. Herói porque se entrega para salvar o sonho de um mundo bom.

A ficção de Bradbury fala de um mundo sem livros. E onde as pessoas que os possuem são presas. E Montag é um bombeiro que vive de atear fogo nos livros, até que se encontra com as palavras. É uma história fantástica. A nova versão para o cinema foge um pouco do livro, mas mostra o nosso tempo de internet, telas gigantes e esquecimento do sentido de comunidade. Ficou bom. Gostei. Também gostei de Montag ser representado por um negro. Creio que é por aí que se valoriza de fato a representatividade do povo negro. Um negro valoroso, um homem do bem, que entrega sua vida por uma comunidade que quer pensar livremente. Ah, que belezura. Esse sim me comoveu, bem mais do que o tecnológico e caridoso rei de Wakanda.

Recomendo fortemente essa bela nova versão do “Fahrenheit 451”, protagonizada por esse garoto espetacular, Michael B. Jordan. Ele é maravilhoso, e a história melhor ainda. É desses heróis que precisamos. Aqueles que a despeito de não terem nada a lhes proteger, se atiram no abismo em nome da justiça.


quinta-feira, 31 de maio de 2018

Audálio encantou

Texto com a reportagem sobre o pistoleiro do caso Sacopã/1959



Eu nem tinha nascido ainda e o Audálio Dantas já era um jovem repórter na revista Cruzeiro, a primeira revista de reportagens do Brasil com circulação nacional. Tempos depois, eu já conseguia ler seus textos nas revistas que ficavam na casa de minha avó Tila, na beira do rio Uruguai. Lembro que eu gostava de ler deitada na frente da porta da rua, que dava para o rio. Lá fora, os balseiros passavam devagar e ali dentro da pequena casa de madeira escura eu me aventurava pelas letras, barriga no chão, cotovelos fincados e a cabeça nas nuvens. Aprendi da beleza do texto na Cruzeiro. E muito aprendi com Audálio, o qual segui por toda a vida. Um texto fantástico.

Essa semana ele encantou e eu fui buscar a primeira revista na qual vi um texto seu, fazendo uma parte da reportagem que contava de um famoso crime acontecido no Rio de Janeiro: o crime de Sacopã. O texto ainda não tinha todo o brilhantismo que iria adquirir mais tarde, mas já era denso e carregado de impressões. 

Foi ele também, como repórter, que descobriu os cadernos de Carolina de Jesus, ao fazer uma matéria na favela do Canindé. O trabalho da escritora virou o clássico "Quarto de Despejo".

Tive a graça de conhecê-lo. Fica a saudade, sem dor, porque ele é eterno. Valeu Audálio... 


Da desinformação, dos desejos e da história



A crise do desabastecimento por conta da greve dos caminhoneiros vai passando devagar, deixando marcas indeléveis. E as redes sociais seguem no interminável frisson de notícias falsas e de fabricação de realidades que vão se incorporando na mente de muita gente que não tem outra fonte de informação. E assim, a televisão – cujo comando está nas mãos de quatro famílias e uma igreja – e o facebook, vão moldando pensamentos e ações. Nessa ciranda, tanto as gentes da direita como as da esquerda vão gestando um caldo grosso de mentiras e desinformação. As redes viraram pântanos onde no mais das vezes só é possível se afogar.

Acordo cedo e espio as notícias, um hábito que tenho bem antes da existência das redes sociais. Vejo que os bloqueios dos caminhoneiros vão sendo levantados e o debate que encontro é de que venceram os empresários. Afinal, o governo acabou isentando impostos das empresas ao propor a redução do preço do diesel. Eles terão um bom respiro enquanto o restante da população sofrerá com mais um aumento na gasolina, que por sua vez provocará aumento no gás e em outras mercadorias. Ou seja: ganham os caminhoneiros a sua pauta específica e perdem todos os demais mortais. E a culpa é de quem? Dos caminhoneiros reacionários que pararam o Brasil por 10 dias com o apoio dos empresários e das “forças ocultas”. Também se divulga a exaustão que os caminhoneiros todos querem a volta do regime militar e vai se tecendo uma opinião sobre eles que não é das melhores.

Há que pensar sobre isso. 

As pessoas se movem por interesses e desejos. O preço do diesel está alto demais, assim como o da gasolina, do gás, da luz. Mas, quem se moveu foram os caminhoneiros, principalmente os autônomos, donos de um, dois ou três caminhões. Tinham uma pauta bem específica: baixar o preço do combustível para poder dar conta de pagar as contas. A eles se somaram, é claro, as transportadoras, afinal, não seriam bobas de ficar de fora de uma movimentação como essa. E espertamente foram negociar com o governo, procurando tirar suas vantagens. Na política não há vácuo. Tanto que chegaram a fechar dois acordos, não reconhecidos pela massa que fechava as estradas. Tiveram de aguentar as pontas e esperar até que a maioria que bloqueava as estradas fosse decidindo voltar ou fosse retirada pela força. 

E enquanto os caminhoneiros provocavam uma convulsão nacional os partidos políticos de esquerda, sindicatos, centrais sindicais, movimentos sociais, relutavam em apoiar, entendendo que não era uma greve, mas um locaute, ou seja, algo provocado pelos empresários. Acabou que o tempo revelou ser o movimento as duas coisas ao mesmo tempo, com todas as contradições. Ali estavam os empresários e ali estavam trabalhadores, contapropistas (por conta própria), mas trabalhadores. E por fim, em meio a luta pela queda do preço do diesel, viu-se de tudo. Desde pedidos de volta dos milicos até o Lula Livre. Ou seja: o movimento envolvia todas as frações ideológicas e partidárias, pois, como sempre foi nas greves de qualquer categoria, nem todo mundo que para e luta é de esquerda. Sempre se trava um longo debate quando se inclui pautas mais abrangentes na pauta específica e corporativa. Quem vive o mundo sindical sabe disso muito bem. É sempre uma disputa. No caso da greve dos caminhoneiros, como não havia uma direção específica e a categoria estava espalhada pelo país, as pautas assomaram sem controle. 

Creio que se deu demais importância para o conservadorismo. No geral, uma boa conversa, com argumentos claros, convencem aqueles que estão abertos para o diálogo. E não são poucos. Óbvio que há gente conservadora e reacionária por convicção. Mas, muita gente é por não ter informação. 

Nessa quarta-feira, em Florianópolis, as centrais chamaram um ato em defesa da Petrobras. Quase nenhuma menção aos caminhoneiros. A impressão que dá é que venceu a ideia de que são todos “pelegos reaças”. Mas, cá no meu cantinho, penso que poderia ser diferente. Uma ação sistemática junto aos piquetes, com conversas e muita, mas muita escutatória, poderia ajudar as lideranças sindicais e partidária a compreender o fenômeno. As coisas estão mudando no mundo da política já faz algum tempo, mas as práticas seguem sendo as de um passado que não cabe mais. Há coisas novas no ar, e não estamos sabendo lidar com isso. 

Fiquei pensando sobre as grandes batalhas populares que tivemos no Brasil e em Santa Catarina: Canudos e Contestado. Tanto numa como na outra o mote político abrangente que movia as gentes era a defesa da monarquia. Uma pauta reacionária para a época, visto que assomava a República. Fiquei curiosa para saber como as forças de esquerda se comportaram. Teriam apoiado os camponeses que perdiam suas terras para latifundiários gananciosos? Ou será que se deixaram levar pelo discurso de aquela era uma gente atrasada, que não entendia a importância da República, que estava atravancando o progresso? 

E porque os camponeses maltrapilhos apoiavam a monarquia? Porque ela os havia deixado lá nos seus cantos, com suas terrinhas. E, para eles, o “progresso” da República representava o desalojo, a perda do espaço da vida. Estavam errados? Queriam vida boa e bonita, e enquanto a monarquia não mexia com eles, acreditavam que podiam seguir buscando. Praticavam a consciência ingênua e, pela lógica, só podiam apoiar a monarquia. Óbvio.

Foi assim com os Mapuche – única etnia sul-americana que não foi conquistada pelos espanhóis e portugueses – que só caíram depois que houve a independência. Eles então eram contra as guerras de libertação da colônia porque na monarquia eram capazes de manter sua soberania. Foram vistos como traidores da causa independentista e massacrados pelos vencedores.

Essas são contradições que precisam ser pensadas. A história está aí para ensinar, mas ao que parece, nem mesmo o povo que vive dizendo para os reacionários estudarem história, tem feito o dever de casa. Tampouco estudam história. 

A luta de classes é um espaço de contradição. E a consciência de classe não brota só do desejo da gente. Ela exige trabalho e construção. Ela exige estudo, autocrítica, novos estudos. Ela exige a delicadeza da escutatória. Ouvir o outro em profundidade. Compreender o que move os desejos das gentes. Não é coisa fácil. Mas, pode-se lograr. 

Temos visto as pautas neofascistas crescerem assustadoramente, muitas vezes impulsionadas por nós mesmos, na louca ilusão de que praticando julgamentos morais sobre as decisões dos outros poderemos mudar as coisas. 

Penso que a história nos ajuda a compreender. Revisá-la, escutá-la no mais profundo, pode fazer com que mudemos o rumo das coisas. E, para isso, precisamos de ferramentas como os partidos, os sindicatos e os movimentos. Mas, entendendo que mesmo ali há que haver mudanças para o tempo novo. Vinhos novos exigem odres novos. 

É tempo de estudar...