segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

Festival Cultural pelo Pedacinho do Céu



A querida dona Zenaide, como uma boa capitã, resiste e segue firme

O “pedacinho do céu” que havia no Pântano do Sul queimou. Era o bar da capitã, dona Zenaide. Uma marca registrada da praia, pelo atendimento alegre dessa pessoa sem igual, que tem criado sua família na lida dura, frente ao mar.

Pois com o bar destruído, artistas de Florianópolis decidiram realizar atividades buscando arrecadar recursos para reconstruir o bar. A cada semana alguma coisa acontece.

Nessa semana que entra, nos dias 17 e 18, está programado um Festival Cultural, com muita música, poesia, pintura, livros, enfim, muita coisa boa. Já estão confirmadas as presenças de nomes importantes da arte da nossa cidade: Denise de Castro, Sílvia Beraldo, Esporão do bagre, Valdir Agostinho, Luis Meira, Regi Barcelos e muito mais gente boa. Som de qualidade e muito amor no coração, assim como é quando o povo dessa ilha se junta pra ajudar os seus.

Quem mora no sul da ilha não pode perder, e quem vive nos outros cantos da cidade também. Faça um esforço e venha dar seu apoio para que o Pedacinho do Céu volte a oferecer a boa comida típica junto com a simpatia da capitã. 


O festival começa na sexta, dia 17 a partir das 19h, no Salão Paroquial do Pântano do Sul. E no sábado, a festa continua também a partir das 19h. 

A apresentação do festival estará a cargo de Andréa Buzzato e Cláudia Barbosa.


domingo, 12 de fevereiro de 2017

Das esperanças



Sim, acredito na possibilidade dessa coisa que tanta gente abomina: o comunismo. Um modo de vida sem estado, sem classes, sem preconceitos de etnia, religião ou orientação sexual, no qual ninguém explora ninguém, onde não há medo e a riqueza gerada coletivamente é repartida conforme a necessidade. Ah... o mundo perfeito! Sei que é difícil chegar lá, mas vou caminhando nessa trilha, tropeçando aqui e acolá.

Sempre há quem diga: isso é loucura. Esse mundo nunca virá. Eu escuto e sorrio. Não acredito nessas pessoas, porque vejo coisas no mundo que me dão sinais, bons sinais. “O mundo só tem gente ruim”, insistem. “Veja o que fizeram na segunda guerra com os judeus”. É, um povo inteiro seguindo um louco. 
Gritando com o braço erguido, aplaudindo a morte de milhões nas câmaras de gás. Mas ai eu penso naqueles que arriscaram tudo para salvar um vizinho, nos que escondiam judeus ou que trilhavam com eles caminhos de fuga. 

Penso nessas pessoas que ajudam os fugitivos de guerra a fugir, ou naquele francês que carrega os imigrantes pela fronteira. Penso nessas mulheres incríveis que andam por aí salvado bichos de rua ou animais abandonados. Ou nos que andam pelas noites perigosas para levar uma sopa aos que não tem um canto onde descansar a cabeça.

Penso nos companheiros e companheiras que ofereceram o peito à bala na luta contra a ditadura, nos que perderam tudo por ter ajudado um comunista nos tempos sombrios. Ou as mães da praça de maio a rodar buscando os filhos, enfrentando os generais.

Penso nos que, no cotidiano da vida comum, nas cidadezinhas e aldeias, estão sempre dispostos a matar a fome de alguém, a fazer algo grandioso, sem nenhum holofote. Penso na juventude que ocupou escolas e na que se organiza em partidos de esquerda ou movimentos populares.

Ah, para cada fascista tem uma multidão. Pessoas que, ás vezes, nem sabem o que vem a ser esse tal de comunismo, e na sua estrada andam, por carregarem tanto amor.

Hoje, quando o dia amanhecia e eu via o meu pai tomar seu café da manhã, vi o celular tocar. Era uma amiga me dizendo para ver uma postagem no facebook. Um cara, em Vitória, capital do Espírito Santo, onde se vive um momento de medo e terror, andando com seu carro pela noite da cidade. Um alto-falante tocando a música de John Lenon, “Imagine”, e um canhão de luz jogando sobre casas e prédios uma mensagem singela: “sem medo”.

Vendo isso, como não se encantar? Como não acreditar? Das janelas as pessoas gritavam, acenavam. “Tu não tem ideia do efeito positivo que aquilo deu na nossa alma”, disse uma moradora, que filmou a cena da janela. E, como um vírus, as pessoas ficaram esperando que ele passasse na rua delas, para se encherem de esperança. E na sua página começaram a chover pedidos: "passa aqui".

O nome desse cara é Rike Soares e ele mexe com a paz. Com a arte, com a beleza. Trabalha com eventos e fez o que fez num impulso de amor.

Não sei quem ele é , não sei que posições políticas compartilha. Não sei. Mas o que eu sei é que coisas como essa que ele fez são as que fazem a diferença. Ele pode até nem ser comunista, mas que sua alma anda por essa estrada é de certeza.

Sei lá, mas tem gente legal nesse mundão de deus... Ah, tem...

Veja o vídeo de suas andanças... 




Steve do meu coração


Ele me chegou sem eu nem querer. Vinha da rádio, num cálido dia de abril, por esses caminhos de areia que o Campeche ainda tem. Então o vi, no portão de uma casa. Chorava um chorinho miúdo, olhando pra dentro do pátio, agoniado. Era um pedacinho minúsculo de vida, todo pretinho. Estaquei diante da cena. Era de doer. Fiquei parada em frente à casa, esperando que alguém saísse para pegar o pequenino. Nada. Uma mulher finalmente assomou na janela. “Tá querendo entrar”, falei, penalizada. Ela redarguiu, seca: “Não é nosso”, e fechou a janela.

O bichinho seguiu com seu chorinho e fui andando com o coração aos pedaços. Entrei num caminho e continuei a ouvir o choro. Olhei pra trás e lá estava ele, agora olhando na minha direção. A súplica era para mim. Olhei para um lado e para outro. Ninguém. “Foda-se, vou pegar”. Voltei às pressas e peguei a bolinha preta. Aconcheguei ao coração, bem apertado. Ele cessou o choro e se apertou de encontro a mim. Vim pelos caminhos conversando e fazendo carinho. Pensava nos gatos em casa, o que achariam?

Quando cheguei e o tirei do colo a blusa estava tomada de carrapatos. Ele mesmo estava cheio dos bichinhos. Provavelmente fora abandonado há um ou dois dias, era muito bebê. Então, lá fui eu comprar remédio e comidinha de cachorro. Como já tinha um gato preto de nome Zumbi, o batizei com o nome do grande lutador sul-africano, Steve Biko. Por conta dos carrapatos ele ficou com uma sequela, uma tremurinha na perna. Mas, o demais, tudo bem. Tem sido uma adorável companhia desde então. Nove anos. Adquiriu inúmeros modos dos gatos, família que o acolheu. Dorme em cima da mesa, com a cabeça pendente, igual aos irmãos felinos. E escala o muro tal e qual.

Hoje cheguei do mercado e ele estava ali, na rua, como sempre. Fica olhando, bem paradinho, até que me reconhece, então vem pulando, balançando o rabinho. Tem nove anos, mas é um galgo. Pula o muro quantas vezes bem quer, adora a rua. Agora, que ela está calçada, virou uma perigosa armadinha. Mas, como prendê-lo? Impossível. O coração fica apertado quando ele alça o pulo e se vai. Faz um salseiro na rua, acendendo toda a cachorrada, e passa pra lá e pra cá no portão, olhando pra dentro de casa, como a dizer: ó, to aqui.

Depois, pula o muro de volta e vem esfregar a bundinha na gente, olhando com aqueles mesmos olhos doces que tinha quando o encontrei no caminho. Essas criaturinhas nos enchem de ternura.


Greve dos municipários


Campeche na luta

Entrevista com moradores do bairro que estão organizando ações pela praia limpa.


sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

No mercado...


Já fazia muito tempo que eu não sentava na ponta do mercado para olhar a vida. Desde que o prefeito César Souza inventou uma reforma gourmet e tirou da ponta o Bar do Alvin, ir ao mercado Público de Florianópolis virou um sofrimento. Por ali, tudo agora é espaço de boy e de madame. Turistas comendo pratos caros e cervejas artesanais. Não tem mais o samba de raiz, nem as cadeiras de plástico e principalmente pessoas. Gente nossa, dessas que a gente conhece, dos botecos, das quebradas. Até bem pouco tempo nem cerveja tinha, só aquela de pescoço longo, tamanho pequeno e preço nas alturas. Passo por ali quase todo o dia, mas não gosto. Não reconheço ali o povo daqui. E não tem mesmo.

Mas, hoje, me assaltou a vontade de ver a vida passar. E não há melhor lugar no mundo do que a ponta do Mercado, que dá vista para o terminal de ônibus. Ficar ali, sentado, é ver passar diante de si a cidade. As pessoas e seu corre-corre cotidiano. Dez minutos e a gente já cumprimentou pelo menos uns três. Estudantes, trabalhadores, donas de casa em compras, mascates, cantores, mendigos, skatistas, artistas de rua, é uma miríade de vida, uma vida que se conhece. Tão diferente da que se expressa no vão do mercado, antes tão nosso.

O sol estava quase a pino quando entrei no bar. Era o espaço do antigo bar do Alvin. Tudo arrumadinho demais. E os garçons? Nenhum conhecido, todos sem sotaque. O exato sentido de solidão. Antes, já se gritava: “Ei, Marcelo, um chope”. “Neto, um bolinho de bacalhau”. E se via o Alvin, circulando pelas mesas. Mas agora, nada. Aquela coisa sem vida, sem gritos, sem bebuns. Uma gente arrumadinha demais. Enfim, sentei. Aquele lugar é, sem dúvida, o melhor lugar de Floripa para se ver a vida que pulula no centro. Bem em frente ao Camelódromo, na diagonal com o terminal central. É um sem fim de gente.

O garçom foi simpático, mas não era amigo. Pedi um chope e fique ali, bem na porta, vendo as gentes passarem. É uma experiência sem igual. Um vai e vem de pessoas que carregam nas almas suas dores, seus medos, suas alegrias. O cego, o sem perna, a mocinha de pernas de fora, a do shortinho curtíssimo, o homem da água de coco, a velhinha com a sombrinha, o vendedor do chip da TIM, a senhorinha bem arrumada com sacolas do xopingue, as garotas falantes com sacolas do Kilojão, os garotos sarados, os equatorianos com suas sacolas cheias de muamba.

Vez em quando algum amigo ou conhecido que passava ligeiro me acenava. E eu ali, morrendo de vontade que fosse outro tempo. Bateu quase que um sentimento de vazio. Meio da tarde e eu ali, sozinha, ruminando minhas ausências. Nenhum garçom pra contar das namoradas, nenhum amigo para dividir as coisas da vida, nenhum ombro companheiro para as lágrimas e lamentações. Só aquele sonzinho de música cabeça, e aquela coisa limpa demais. O garçom chegou, solícito: “Mais um?”. “Tá”. Fazer o quê. O primeiro chope tava amargo demais, pedi um da brama. A porra do bar só serve duas marcas de chope. Ou isso, ou vaza. Caralho, e é o melhor lugar da cidade, na ponta do Mercado. Ódio. Fiquei, ainda que com aquele sentimento de estar traindo o Alvin e toda a companheirada que antes frequentava o bar.

Mas a vida ali na esquina dessa cidade que amo me chamava. E eu mergulhei. Esquecida do ambiente abuguesado e dos clientes entojados, fiquei, virada para a rua, balançando no vai e vem. Lá na outra ponta do camelódromo começou um bafon, uma mulher gritava por conta de uma sombrinha. Sorri. A vida! Do nada surgiu um cara com uma caixa de som e começou a cantar. Músicas bregas, de traições e mágoas de amor. Pedi o terceiro chope, sem nem olhar para dentro do bar. O centro da cidade é bom demais. Não saberia viver sem isso.

Por fim, 30 pila mais pobre (é, 10 pila cada chope), decidi pegar o rumo do sul. Misturei-me a multidão que assomava rumo ao terminal, passei a catraca da Plataforma B e procurei o Rio Tavares. Lá estava, parado, e com pouca gente. “Milagre, milagre”, gritei, mentalmente, e corri arrastando a sacola da Millium, onde tinha comprado umas almofadas vermelhas.  Sentei esbaforida. Um menino no meu lado sorriu. E eu retribui.

Ah, tem horas que vale a pena viver.


Aqui, a histórica entrevista com o Marcelo, garçom no Bar do Alvin.


terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

Sobre o "caos" no Espírito Santo

Esposas e familiares dos PMs se movimentam contra o arrocho e a insegurança

A mídia comercial tem mostrado o "caos" no Espirito Santo por conta da greve dos policiais militares. Algumas coisas precisam bem esclarecidas sobre esse movimento. Em conversa com o cabo Noé, vice-presidente da Associação dos Cabos e Soldados da Polícia Militar e Bombeiros Militares do Espírito Santo, colhemos as seguintes informações. 

1 - Não é uma greve de policiais. O que acontece é que as esposas e familiares dos policiais estão trancando as portas do batalhões e não estão permitindo que eles saiam. 

2- Os familiares decidiram fazer isso porque é vedado aos policiais fazer greve.

3 - Os familiares reivindicam um salário melhor aos policiais e também condições de trabalho. Hoje o salário médio é de 2.750 bruto, e é o pior salário do Brasil. No Espírito Santo eles estão sem ganho real há sete anos, e desde há três anos sequer têm reajuste da inflação. A situação é de penúria.

4 - Não bastasse a falta de salário, os policiais são obrigados a trabalhar enfrentando riscos cotidianos sem as condições para sua proteção. os coletes a prova de bala estão vencidos, e os que estão na validade precisam ser usados em sistema de rodízio. Um veste a proteção e outro não. A sorte define quem vive.

5  - As perdas salarias chegam a 45%, mas a Associação dos Praças alega que um reajuste de 10% já poderia abrir uma negociação. Ainda assim o governador Paulo Hartung, que é do PMDB, se nega a negociar. 

6 - A postura do governador é descrita como "imperial". Segundo os policiais eles prefere morrer a ceder. 

7 - Por outro lado, os policiais e suas famílias já estão morrendo e tampouco estão dispostos a seguir assim.  

8 - Se hoje o estado vive um caos, com criminosos nas ruas, tiroteios, sequestros, roubos de carro, saques, a responsabilidade deve ser dada a quem de direito: o governador e sua política de arrochar os trabalhadores em vez de cobrar as dívidas do empresariado local. Como sempre, o argumento para manter o salário baixo e não garantir a segurança dos soldados é a falência financeira do estado. Como sempre, pagam os trabalhadores.