terça-feira, 28 de março de 2017

Os trabalhadores, o capital e a Previdência



O sistema capitalista de produção, diz Mészáros, é uma totalidade incontrolável. Sua função é buscar lucro a todo custo e, por isso, nem mesmo os capitalistas conseguem colocar freio a essa sede desenfreada. Pelo contrário, eles são obrigados a se submeter aos imperativos do sistema que é totalitário por natureza. Assim que, como no clássico filme de terror do grande Bóris Karloff, “A bolha assassina”, ele funciona exatamente como a gosma verde faminta e sem controle, se expandindo sempre mais e engolindo tudo no caminho por onde passa, insaciável. Sua fonte de riqueza é o trabalho dos trabalhadores. Daí é extraída a mais-valia, que é o valor a mais, criado pelo trabalhador, e não pago pelo patrão. Marx (2013) já desvendou esse mistério e mostra no clássico “O Capital”, com dados concretos, como não existe outra forma de o capitalista garantir sua riqueza se não for explorando o trabalhador.

No geral a exploração se dá assim: a pessoa, dita livre, é contratada, vendendo sua força de trabalho, e recebe um salário por oito horas. Esse salário serve apenas para garantir que o trabalhador não morra. Garante minimamente a comida, a roupa, algum serviço de saúde e ponto. Mas, a riqueza que a pessoa produz nessas oito horas de trabalho é bem maior do que o salário que ela recebe. O que sobra dessa subtração é o lucro do patrão. A mais-valia.

Com o passar do tempo, o sistema capitalista foi encontrando formas de extrair ainda mais valor da pessoa. A invenção das máquinas ajudou e tem ajudado bastante os ricos a enriquecerem mais. Pois, com a máquina, a pessoa trabalha as mesmas oito horas, mas produz infinitamente mais. O salário segue achatado e aumenta o mais valor para os patrões. Os lucros são estratosféricos, enquanto os trabalhadores são muito mais explorados porque ficam completamente subordinados à máquina, tendo de acompanhar o seu movimento, prejudicando sua saúde e vendo ser sugada a suas condições de vida. “A autovalorização do capital com a máquina é diretamente proporcional ao número de trabalhadores que ele aniquila” (MARX, 2013, p. 503).

Pois nos tempos atuais, não satisfeitos com a possibilidade de extrair mais e mais valor da pessoa que trabalha, o sistema busca esticar e esticar a vida dessa “peça” inestimável, que é a que produz valor e garante seu lucro. Uma das estratégias é investir na medicina e na indústria farmacêutica, garantindo assim que a expectativa de vida do ser humano aumente, logo, as pessoas tendem a viver mais, mesmo os trabalhadores. Ainda que os avanços mais radicais sejam de uso exclusivo de quem tem muito dinheiro, os trabalhadores acabam se beneficiando perifericamente e isso faz com que possam garantir saúde por mais tempo. Basta lembrar que, segundo dados do IBGE, no início do século XX a expectativa de vida de um trabalhador era de 33 anos enquanto que hoje ela chega aos 64 anos. Então, com base nesses números, que praticamente dobram o tempo em que um trabalhador pode permanecer dando lucro, qual o passo mais lógico para o sistema capitalista? Não permitir que essa peça imprescindível de produzir riqueza fique gozando a vida em uma aposentadoria que pode se estender por 20 e até 30 anos, com custos considerados altíssimos pelo Estado.

O roubo do corpo

É exclusivamente por isso que não só o Brasil, mas vários outros países da América Latina estão promovendo mudanças no sistema de Previdência e seguridade social. Uma reforma já foi anunciada pelo governo de Michel Temer. E ela, confirmam os estudiosos, não tem nada que ver com rombo ou déficit.

Conforme explica a professora da UFRJ Denise Gentil (2016), enquanto os economistas do governo provisório apontam em 2015 um déficit de R$ 85 bilhões, no mesmo ano as planilhas da Associação Nacional dos Auditores Fiscais da Receita Federal (Anfip) anunciam um superávit de R$ 24 bilhões. E, na comparação com os anos anteriores, percebe-se que, em função do aumento do desemprego que diminui a arrecadação, esse saldo positivo foi bem menor do que os R$ 53,9 bilhões que sobraram em 2014 e os R$ 76,2 bilhões de 2013, anos em que, do lado do Planalto, já se falava em déficit.

“O governo faz um cálculo muito simplório. De um lado, ele pega uma das receitas, que é a contribuição ao INSS, dos trabalhadores, empregadores, autônomos, trabalhadores domésticos, que é o que a gente chama de contribuição previdenciária. Do outro, pega o total do gasto com os benefícios: pensão, aposentadoria, todos os auxílios — inclusive auxílio doença, auxílio-maternidade, auxílio-acidente — e diminui. Então, isso dá um déficit” (GENTIL, 2016, s.p).

A professora informa ainda, baseada num longo estudo, resultado de seu doutorado, que levando em conta apenas as contribuições previdenciárias, a receita bruta da previdência em 2014 chegou a R$ 349 bilhões, e pagou um total de R$ 394 bilhões de benefícios. Assim, fazendo essa conta chega-se ao déficit apontado por Denise: R$ 45 bilhões — bem menor do que o anunciado pelo governo. Mas, ao considerar a receita total, incluindo os mais de R$ 310 bilhões arrecadados da CSLL, Cofins e PIS-Pasep, o valor arrecadado chega a R$ 686 bilhões. Logo, a gritaria de que há déficit não espelha a realidade. É uma mera manipulação dos números.

Observando os números sob o aspecto da totalidade vê-se que não há problemas com as contas. A questão única que orienta essa decisão é a ganância dos capitalistas e o desejo de expandir cada vez mais seus lucros e seus espaços de exploração. Por isso que as pretendidas mudanças na Previdência e na Seguridade Social não aparecem só no Brasil, elas estão por todo o mundo, inclusive nos países centrais que, até bem pouco tempo, gozavam do famoso “bem estar social”. Não gozam mais. Basta ver as lutas que acontecem na Europa desde há anos, por conta da sistemática perda de direitos por parte dos trabalhadores.  

Como aponta Marx, é da natureza do capitalismo se expandir. Ele precisa fazer o dinheiro gerar dinheiro, sem parar. Foi assim que a produção saiu dos países centrais e ocupou os países dependentes e subdesenvolvidos. Os capitalistas ocuparam a América Latina, o continente africano, a Ásia, sempre em busca de mão de obra barata, as quais pudessem sugar até a última gota de sangue. Por isso que nesses lugares periféricos o que existe é a superexploração dos trabalhadores, ou seja, jornada maior que oito horas, e maior produção no espaço de tempo da jornada (MARINI, 1999). Com isso o lucro dos capitalistas aumenta de maneira abissal.

Agora, todos os espaços da terra já foram ocupados com essa sanha destruidora da produção de mercadorias que as pessoas sequer precisam. Também já criaram as técnicas de obsolescência programada para que essas mercadorias tenham que ser trocadas a cada tanto.

Só que os capitalistas sabem que, apesar de toda automação, é só o trabalhador que cria o mais valor. Esse lucro, que garante a riqueza do 1% das pessoas que detêm os meios de produção, só pode existir se for roubado de seres humanos que trabalham, os 99% restantes que apenas possuem sua força de trabalho para vender e a vendem por preços mínimos. Não há outra forma de produzir riqueza. Por isso a necessidade agora de avançar ainda mais sobre o corpo.

Se antes a pessoa trabalhava até os 50 anos, agora precisa ir mais adiante. A vida dura mais, então há que explorar por mais tempo a pessoa. O que fazem então os donos do capital? Tiram os direitos. Nada de aposentadoria, pois faria com que uma grande massa de gente ficasse sem gerar valor. E ainda mais sendo empobrecidos. “Ficariam por aí incomodando”, é o que devem imaginar. Então, acabam com a previdência, inviabilizando a aposentadoria. Pelas novas regras proposta pela reforma de Michel Temer, que deverão ser aprovadas, a pessoa terá de contribuir por 49 anos para ter direito a uma aposentadoria.

Os prognósticos são aterradores, visto que, no Brasil, a maioria das pessoas começa a trabalhar muito cedo, e, no geral, sem a cobertura de uma carteira assinada. Ainda assim, o governo consegue passar a ideia de que os trabalhadores estão mesmo atrapalhando o desenvolvimento do país por estarem ficando velhos. E como consegue isso? Simples. Cria uma campanha sistemática através dos velhos parceiros do capital – os meios de comunicação de massa. Envolve jornalistas, formadores de opinião, apresentadores de programas de entretenimento, ídolos nacionais, todo mundo falando a mesma coisa. “A previdência tá quebrada, a previdência tá quebrada”. “A culpa é dos velhos, a culpa é dos velhos”. Cria-se um consenso e, num átimo, até os velhos começam a achar que são mesmo um atrapalho e que o melhor mesmo é, pelo menos seguir trabalhando e contribuindo para o desenvolvimento do país. Até que venha a morte.

Ora, isso é uma mentira.

No mundo, 99% da população é formada por esses criadores de valor, os trabalhadores, que conformam a maioria. A riqueza que existe, toda ela, é produzida por essa gente. Os que usufruem dela são os ladrões. Roubam mais valor.

A bomba que hoje é chamada de “reforma da previdência” não está a reformar nada. Está, ao contrário, destruindo a vida das pessoas, com mais voracidade do que já vem fazendo a classe patronal desde que o sistema capitalista existe. Contribuir por 49 anos para garantir um salário igual ao que a pessoa tenha quando se aposentar, isso é uma afronta à vida. Jogar para 65 anos a idade mínima para parar de trabalhar é um crime. Mas, em verdade, esse não é problema mesmo. É só a aparência da coisa. A essência mesmo é o modo de produção, o capitalismo. E é esse sistema que precisa ser destruído.  

A boa notícia é que isso é possível. Se são os trabalhadores os que geram a riqueza e se eles são 99% da população, então eles são os que estão com a faca e o queijo na mão. Nesse sentido, considerando que o sistema se sustenta no tripé capital, trabalho e estado, há que recuperar o trabalho, destruir os capitalista e assaltar o estado. E, tomando-o, mudar o modo como a riqueza é gerada e distribuída. Conforme diz Mézáros (2002), esse tripé é uma totalidade sistêmica e não basta mudar apenas em um dos pontos. É necessária uma mudança estrutural geral.

O sindicato domesticado

Desde o princípio do capitalismo as lutas dos trabalhadores se intensificaram a ponto de serem criadas instituições capazes de juntar as pessoas de um mesmo ramo do trabalho, para reivindicar direitos e melhores remunerações. No final do século 19 e início do século 20 foram os anarquistas que, com suas ações diretas, deram um formato guerreiro aos sindicatos. Mas, com o tempo, conforme analisa Mézáros, essas entidades saíram da atitude agressiva e de combate, para um papel mais defensivo. Começou a política de negociação e interlocução com o capital que gerou, em alguns lugares e momentos específicos, certos ganhos pontuais. O nascimento dos partidos trabalhistas também fez piorar a situação, pois mais uma vez se aprofundaram as atitudes defensivas. Os pequenos ganhos, as migalhas, fizeram com que os trabalhadores fossem se afastando do socialismo e a da proposta de uma transformação radical do modo de produção.

Hoje, o que se vê são os sindicatos afundados nas pequenas lutas corporativas, com pontos muito específicos, e os partidos de trabalhadores acreditando que, no parlamento, poderão avançar nas conquistas. Segundo Mézáros, esses são equívocos desastrosos para a luta geral da classe trabalhadora. Os sindicatos atuais não têm respostas para a globalização do capital e os partidos estão encurralados em parlamentos ultraconservadores. E mesmo aqueles que chegaram a tomar alguns governos na década de 90 do século passado e no início do século 21 não foram capazes de mudar a regulação sociometabólica do processo de reprodução material. O capital assumiu o controle fora da política, seguiu dominando, ampliando ainda mais seus espaços.

O filósofo húngaro critica o fato de os socialistas terem se voltado para lutas pontuais nos movimentos sociais, esquecendo o trabalho e todo o potencial mobilizador que ele tem, justamente por ser o que produz de fato a riqueza. Para ele, os movimentos de questão única (sem a profundidade da luta de classes) não apresentam soluções nem alternativas coerentes. E, aos poucos, ou são integrados ou derrotados.

É fato que não há respostas prontas sobre como enfrentar o capital nos seus tempos de monopólio globalizado, mas Mézáros dá pistas. Ele acredita que é preciso combinar o braço industrial (sindicatos) com o político (partido de trabalhadores). Mas, para isso, os sindicatos precisam sair da bolha do particularismo, precisam tomar decisões no campo da política e os partidos de esquerda precisam ser ativos nos conflitos industriais como antagonistas do capital, dentro e fora do parlamento. A luta isolada de cada um desses segmentos representa a derrota dos trabalhadores. Há que atuar em conjunto.

No caso específico da contrarreforma da Previdência que está sendo vivenciada no Brasil e em vários outros países, essa ideia precisaria ser colocada em prática. Não basta aos sindicatos discutir só o direito em si. É preciso mostrar aos trabalhadores que esse projeto é parte intrínseca do sistema metabólico do capital. Nesse sentido há que atuar politicamente mostrando as rachaduras do sistema como um todo e não apenas os números e possibilidades da previdência pública.

O trabalhador precisa saber que o capital não vive sem o trabalho, mas o trabalho vive sem o capital. Isso tem de ser aproveitado e deve ser o ponto de partida. Assim, retomar a discussão do trabalho e da sua potencialidade revolucionária urge, mostrando que o socialismo não é uma ideia absurda de um pequeno grupo. O socialismo, diz Mézáros, precisa ser universalmente viável, inclusive nos Estados Unidos, que é o motor do capital.

O projeto socialista precisa discutir as causas da pobreza, das migrações, do desemprego, da fome, não como coisas isoladas num determinado momento, mas como causas do modo de controle sociometabólico estabelecido. A mudança tem de ser global. Mudar o sistema como um todo e não apenas estabelecer alguns ajustes em uma das três pontas do tripé.

É claro que enquanto não acontece a derrocada do sistema é preciso lutar pontualmente contra os sintomas. Por isso há que buscar barrar essa mudança na Previdência. Mas, como uma luta tática.

Não existe rombo. A pesquisadora Denise Gentil, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, escreveu uma tese desmontando essa farsa. O que acontece é que o governo de plantão faz uma opção política de tirar recursos da rubrica da previdência para pagar outras contas, geralmente os juros bancários. Os bancos, sempre os bancos. Lembrem que naquela turma do 1% uma boa parte é de banqueiros. Voltamos ao começo, tudo se trata de melhorar o sistema de roubo de riquezas do trabalhador.

Imaginem se fossem os próprios trabalhadores que gerissem os recursos das contribuições que fazem ao longo da vida, mais os outros impostos que foram criados para financiar aposentadoria das gentes? Imaginem que esses recursos não fossem desviados para pagar empréstimos que nunca aprovaram? Imaginem que esses recursos não fossem entregues para salvar empresas de amigos ricos? Acreditam em sã consciência que não haveria proteção e cuidado aos velhos, que já tivessem contribuído tanto? 

Hoje são 32 milhões de trabalhadores que recebem aposentadoria, a quase absoluta maioria, salários de fome. E são esses os que impedem o crescimento do país? Denise Gentil prova que não há rombo. Esse vídeo aponta os dados. (https://www.youtube.com/watch?v=Z8TJyflXEqg)

O que está por trás da tal reforma da previdência é justamente mais uma forma de extração de riqueza dos trabalhadores feita pelos capitalistas. “Não pense em crise, trabalhe”. Esse é o mote dos governos . Trabalhe até morrer e não cometa besteiras como atuar em sindicatos ou construir revolução.  As saídas existem. Cabe aos trabalhadores construírem as passagens.

Referências

GENTIL, Denise.  Está sobrando (muito) dinheiro na Previdência; entenda os números. Entrevista publicada no jornal Brasil de Fato. (acesso em 27/12/2016). https://www.brasildefato.com.br/2016/07/22/esta-sobrando-muito-dinheiro-na-previdencia-entenda-os-numeros/
MARINI, Ruy Mauro. Subdesenvolvimento e Revolução. Florianópolis: Insular, 2012.
MARX, Karl. O Capital: crítica da economía Política. Livro I – o processo de produção do capital. São Paulo: Boitempo, 2013

MÈZÁROS, Itzván. Para além do capital. São Paulo: Boitepo editorial, 2002

segunda-feira, 27 de março de 2017

A vida e seus mistérios


Depois de cinco meses lutando pela vida, uma das cachorrinhas que viviam na minha casa, Chiquinha, partiu para o encontro com a grande energia cósmica. Plantamos ela no nosso jardim e oferecemos uma muda de girassol para que ela pudesse seguir em paz. Hoje, uma semana depois da partida, eis que aparece o girassol, amarelinho e feliz. A vida se renovando e nos dizendo que não existe morte. Existe apenas a vida e seu ciclo de eterno renascer. Um tempo para lágrimas e para sorrisos. Chiquinha está na paz e na beleza

sexta-feira, 24 de março de 2017

Egito: Mubarak, o assassino, está livre

A praça Tahrir, em 2011, ardendo em rebeldia...

Estive no Cairo quando se celebrou um ano da revolução que derrubou Hosni Mubarak. Pude compartilhar da alegria de milhares de jovens, que celebravam o começo de um novo tempo para o país e se animavam com a prisão do tirano que foi o responsável pela morte de centenas de pessoas durante os conflitos, bem como a de seus asseclas. Mubarak havia assumido o controle da vida dos egípcios havia 30 anos, depois de assassinar Anuar Sadat. Governava com mão de ferro e exterminava todos os seus adversários.

Naqueles dias de celebração da luta só havia esperança. Na Praça Tahrir, a população dançava e cantava, comemorando. Por todos os espaços do Egito mobilizavam-se, principalmente, os jovens, construindo novas formas de organização, até então impensáveis. Estavam para chegar as eleições gerais, há tanto tempo esperadas e mesmo que viesse um governo ligado à Irmandade Muçulmana, a população acreditava que as coisas poderiam ser diferentes.

Não foi assim. O que fora chamado de “primavera” começou a dar sinais de inverno. As eleições deram vitória à Irmandade Muçulmana, como já era esperado. Mas, o governo de Mohamed Mursi não foi capaz de dar sequência às demandas da revolução. Endureceu, e sua condição de religioso também levantou várias forças contrárias. A tensão cresceu e o comandante do exército, Abdel Fattah al-Sisi, deu um golpe, derrubando Mursi. Era o começo do fim de qualquer possibilidade de mudança. O Egito mergulharia outra vez na corrente do autoritarismo. Mesmo com eleições em 2014, que deram a vitória a al-Sisi, a sonhada democracia não vingou.

Agora, passados seis anos da revolução, o Egito segue vivendo a tirania, uma ditadura militar das mais ferozes, que começa a recuperar todos os “caídos” do antigo regime. A começar pelo “cabeça”, Mubarak.

Condenado a prisão perpétua em 2012, responsabilizado pelo assassinato de quase 300 pessoas durante os conflitos revolucionários, ele agora foi colocado em liberdade, inocentado de todo o terror que provocou. Também já estão livres seus dois filhos, igualmente considerados sanguinários. Tudo volta a ser como antes no belo e acolhedor Egito.

O fato é que uma revolução precisa derrubar todo o sistema antigo, destruir, não deixar pedra sobre pedra. Sem isso, os velhos poderes se rearticulam e assomam outra vez, travestidos ou não. No caso do Egito, a situação é bastante complexa. Quando a revolução terminou e Mubarak foi preso, o drama não tinha acabado. Estava apenas começando. Quando vieram as eleições, o único partido que tinha condições de vencer era mesmo o da Irmandade Muçulmana. Afinal, os partidos que surgiram, com as novas lideranças, com a juventude, não tinham base material alguma para fazer a disputa. No Egito não há propagando política gratuita. Cada partido tem de se organizar com suas próprias pernas e buscar os votos em todo o país com recursos arrecadados dos militantes.

Já a Irmandade Muçulmana, além de contar com um partido sólido, articulado em todo o país, tinha ainda todas as mesquitas a seu favor. A competição era desigual. Não foi à toa que Mursi ganhou a eleição. Contra esse poder, só a força das armas, e foi o que Sisi usou. O exército, eivado de gente ligada ao antigo regime, de Mubarak, não estava cooptado pela revolução. Então, tudo voltou a ser como antes.

Agora, aquela juventude que vibrou e cantou na Tahrir terá de conviver com os velhos sanguinários de volta às ruas e aos espaços de poder. Tudo terá de recomeçar.

Meu coração sangra ao lembrar o rosto e o sorriso de tantos egípcios que encontrei no caminho, cada um deles repleto de esperanças de vida melhor. Sequer sei se ainda estão vivos, ou se já foram tombados pela ditadura. Ou pior, se sobreviventes, seguem agora na amargura de vivenciar um governo ainda pior do que o de Mubarak.

Quando aqui no Brasil assistimos a derrocada de grande parte das conquistas dos trabalhadores, percebemos entristecidos que esse avanço do conservadorismo e das práticas de direita não é uma coisa local, mas sim o capitalismo avançando para mais uma fase de acumulação. E, nela, o que jorrará com mais força é o sangue dos trabalhadores. Não que não seja assim o tempo todo, mas é a conta-gotas. Nesses momentos de arranque, a violência é maior.

Que meus irmãos egípcios encontrem as formas para resistir, assim como nós aqui. Estamos no mesmo barco do capitalismo, mas não frequentamos a primeira classe. Estamos nas galés. Há que tomar o barco! Há que tomar...


quarta-feira, 22 de março de 2017

A liberdade de expressão agora é só pra jornalista?



Durante muitos anos lutamos contra os donos da mídia para manter a obrigatoriedade do diploma para o exercício da profissão de jornalista. Sabíamos que o objetivo único dessa gente era poder extrair mais-valor dos trabalhadores, diminuindo direitos, estendendo a jornada e intensificando o trabalho. As novas tecnologias estavam chegando, permitindo que tudo fosse feito com mais velocidade e em maior quantidade. Não havia saída para os empresários da imprensa. Era preciso avançar sobre os direitos para garantir mais lucros. Nada de novo, portanto. Só a mesma velha técnica da acumulação capitalista.

Particularmente sempre fui favorável à manutenção do diploma como exigência, não porque acredite que só alguém formado possa ser jornalista. Até porque há muito que discutir e mudar na universidade, hoje, no geral, incapaz de formar jornalistas de verdade, desses que auscultam a vida mesma, gente crítica. Mas, bem sabia que essa exigência era talvez, a última fronteira - o dedo no buraco da represa – para garantir que os jornalistas dos grandes meios de comunicação não virassem escravos modernos. Com essa exigência, mantinham-se todos os direitos conquistados em duras batalhas, vigiados pelos sindicatos. Jornada de cinco horas, piso salarial, funções, código de ética, etc... Havia uma tábua onde se ancorar, frágil, é certo, mas ali estava.

Pois apesar de todas as lutas, perdemos a batalha. O Superior Tribunal Federal deu ganho de causa aos capitalistas. É claro. Tiraram a obrigatoriedade do diploma e o mundo das empresas de comunicação emergiu com seu pacote de maldades. Sem a exigência do diploma, qualquer pessoa podia ser contratada, sob nomes diversos: produtor de conteúdo, assistente de texto, subsecretário de redação, formulador de escritura, locutor, apresentador, e outras pataquadas. O salário passou a ser o mínimo possível, nada de piso de jornalista, nada de jornada de cinco horas, nada de proteção sindical. Se não tem profissão regulamentada, não tem sindicato. Está sozinho no mundo: o negociado sobre o legislado, maior alegria do patrão.

E assim fomos vendo as redações se encherem de gente que em vez de cumprir sua tarefa de jornalista, passou a cumprir cinco ou seis tarefas juntas: motorista, fotógrafo, redator, editor, editorador, produtor de conteúdo digital. Ou seja, um único jogador avança, dribla, cabeceia e defende. O que Ruy Mauro Marini conceitua como a superexploração, o trabalhador tendo sua jornada estendida e aumentando ainda mais a intensidade do trabalho. Com isso, o dono de um jornal podia enxugar o pessoal pela metade e ainda assim fazer o mesmo jornal, ou produzir o mesmo telejornal. Golpe de mestre.

Essa semana vimos o sistema e seus dirigentes darem outra mostra da capacidade de se utilizar da lei ao bel prazer. Prenderam um “blogueiro”, que atua como jornalista, ainda que não formado na área, e exigiram dele o nome da fonte que ele usou para dar, antecipadamente, a informação de que Lula seria levado coercitivamente à polícia. Pois vejam, o direito ao sigilo da fonte é um direito que têm os jornalistas, logo, o povo com formação. Mas o STF disse que qualquer um pode ser jornalista, então esse “qualquer um”, atuando como jornalista, deve ter seu direito ao sigilo respeitado. 

O STF aceitou a tese do fim do diploma alegando que todos tem o direito à livre expressão. Ah, mas agora isso não vale mais. O juiz que ordenou a prisão disse: ele não é jornalista. Mas como, se foi a mesma Justiça a qual ele serve que disse que qualquer um pode ser jornalista? Agora é só o jornalista que pode se expressar?

Ah, chegamos então onde eu queria chegar. No mundo do capital não há lei. A lei é a junção de algumas letras no papel que servem para garantir que os poderosos façam o que querem. Quando a lei complica a vida de alguém da parte de cima, muda-se a lei. Ou dá-se outra interpretação à lei. E quando um estado, ou os juízes que amparam a legalidade do estado, mudam a lei ou a ignoram? O que isso é? Não seria um estado de exceção?  Quando as vozes daqueles que tem por profissão narrar a realidade começam a ser cerceadas, o que isso significa? 

Vejam que são dois pesos e duas medidas. Jornalistas da Globo “vazando” gravações pessoais não é crime. Mas, um blogueiro informando que um ex-presidente vai ser levado coercitivamente à polícia, uma informação verdadeira e de interesse público, é.  Onde está a diferença? 

Simples. A Globo é aliada do grupo que hoje está governando o país. O blogueiro é aliado do presidente Lula.

Então, se é assim, podemos concluir que a lei não vale para os simples mortais. Seu único objetivo é pegar os inimigos do rei ou os que investem contra o sistema. Também serve para encarcerar um massa de gente pobre, no mais das vezes negra, que são as que vão garantir que outros amigos  - empresários, industriais, distribuidores  - possam lucrar. O sistema penitenciário brasileiro é uma fonte inesgotável de lucro para alguns.

E assim vamos, sabendo que a qualquer momento a lava-jato pode nos pegar. Porque ele pode pegar qualquer um, desde que não esteja no círculo do poder. Aos amigos, tudo. Aos inimigos, a lei. Não é sem razão que isso é um dito popular. No fundo, todos sabem que é assim. Logo, não há motivo algum para confiar no judiciário. Na justiça, sim.  E, essa, quem deve fazer valer são os trabalhadores, unidos e organizados.

terça-feira, 21 de março de 2017

A carne e a luta



Sempre é bom repetir. Ao capital e aos capitalistas não interessam as gentes. Portanto, o que tiver de ser feito para que os lucros sejam sempre maiores, será. Isso acontece nos frigoríferos, nos bancos, nas fábricas, em todo lugar onde se produz mercadoria e onde se extrai a mais-valia do trabalhador. O jogo é sempre o mesmo: o trabalhador cria valor e os donos do capital usam seus truques para dobrar ou triplicar o lucro. Se isso incluir fraudar os produtos, usar veneno, plástico ou o que for, será feito. Bem como subornar funcionários, fiscais e etc...

Assim que o caso da carne podre, ou com papelão, e os casos de corrupção não são um raio num céu azul. É praticamente regra. O que acontece de fato, é que enquanto não são pegos, os capitalistas vão fazendo o que podem para ampliar os lucros, inclusive ilegalidades ou barbaridades, obviamente sempre amparados no estado que, para eles, nunca é mínimo. E esse tipo de fraude pode ser feito também pelos servos voluntários, aqueles que querem ser mais reais que o rei, e que, mesmo não sendo eles os donos do negócio, agem como se fossem, empregando os métodos mais sujos para garantir mais riqueza aos patrões.  

Ainda no caso dos frigoríficos, outra coisa que precisa ser levada em conta é a ligação deles com a proposta petista/lulista/dilmista de país. Não tem nada a ver com teorias mirabolantes de conspiração. É a simples observação da realidade. O grupo que hoje governa o Brasil quer varrer da história o modo de governar proposto por Lula desde o seu primeiro mandato, que não era revolucionário, nem socialista, apenas um pouco diferente do que sempre foi praticado. Por isso essa política de terra arrasada e, é claro, que os aliados de primeira e última hora de Lula serão os mais focados. Destruí-los faz parte do jogo.

O Lula quando assumiu a presidência do Brasil não o fez apenas com a classe trabalhadora. Ele fez uma aliança muito clara com o setor produtivo da burguesia nacional. Não foi à toa que seu vice era um industrial tido como “bom moço”, o José de Alencar. Ao longo de seus dois mandatos, Lula prosseguiu com essa política de abrir espaço e crédito para um determinado grupo produtivo, incluindo aí empreiteiras, os frigoríficos, alguns agro-empresários e assim por diante. Uma espécie de proteção ao capital produtivo nacional e ao latifúndio industrializado, que se deu via os bancos de fomento.  Até aí morreu neves. Nada de novo no front. Era o lulismo tentando deitar com o capitalismo, buscando nesse grupo a proteção, já que a velha direita não iria engolir o sapo barbudo. Lula não fazia nada de errado. Apenas traçou uma política diferenciada da que vinha sendo praticada até então. Capitalista, dependente, tudo isso, mas com um forte apelo nacional. Ou seja, dava comidinha para as multinacionais, mas também engordava o capitalismo nacional.

Não é por acaso que, agora, com Temer no comando, todo o projeto lulista esteja sendo desmontado. Temer é a velha política de entrega total do país aos estrangeiros, com o apoio de grupos da burguesia produtiva nacional que aceitam ser apenas entrepostos das grandes multinacionais. Aqueles que não têm apego algum a coisas como pátria, ou mátria ou nação. Seu território é o movediço terreno da grana, venha de onde vier.

Então, que esses frigoríficos de gente que já foi aliada no projeto nacional de Lula estão sob o foco dos aliados de Temer, isso não tem dúvida. Assim como a Odebrech já foi flechada e a Petrobras.
Mas, que fique claro. Isso não quer dizer que não tenha havido crimes, subornos, corrupção, adulteração, fraude etc... Provavelmente isso aconteceu, pois é da natureza do capitalismo, seja ele nacional ou estrangeiro. Todos têm o mesmo sangue e o mesmo DNA.  Logo, não se trata de cerrar fileiras em defesa da indústria dita nacional, ou aos antigos aliados de Lula e do PT. As empresas capitalistas não merecem nenhuma lágrima por parte dos trabalhadores, porque qualquer uma delas os esfola vivos todos os dias. Então, há que denunciar, há que boicotar, há que constranger cada um desses que jogam com a vida e com a saúde das pessoas. E eles o fazem sem dó.

O agronegócio invade terras, mata índios, rouba pequenos proprietários, escraviza, prostitui, mata trabalhadores sem-terra. Tudo em nome do lucro, de uns poucos. Basta que se observe o tal do trabalho agregado, quando o produtor produz na sua terra a matéria prima que a grande empresa vai comprar para fazer sua mercadoria. As famílias trabalham de sol a sol, não têm direitos, estão à própria sorte e se algo sai errado, precisam arcar com todo o prejuízo. É quase uma servidão, ainda que mascarada.

Então, não há que ter piedade dessa gente que hoje enfrenta a fúria dos golpistas. Eles não são os bonzinhos só porque eram aliados de Lula. Eles aproveitaram a onda e ficaram mais ricos. Muito pouca coisa do “projeto nacional” petista chegou à maioria da população. Migalhas. Importantes, é fato. Pois, afinal, tirar 40 milhões de pessoas da situação de fome não é brincadeira. Mas, não deixaram de ser migalhas. Afinal, a gente não quer só comida, a gente quer saúde, diversão, balé...

Há o risco de essas empresas quebrarem e colocarem na rua da amargura milhões de trabalhadores? Não creio. Pode ser que haja algum momento de queda nas vendas, uma perda aqui, outra ali. Mas, as negociações no tapetão já devem estar acontecendo, e os endinheirados se entendem. Muita gente vai perder, é claro. E não serão os empresários. A corda sempre estoura nas mãos dos trabalhadores. 

Certamente milhares de produtores, principalmente os integrados, serão prejudicados. Mas ocorre que eles são prejudicados hoje, com esses patrões. Do mesmo jeito. Com esses, nacionais, ou com as multinacionais que virão no seu lugar, tudo seguirá como sempre. Exploração, exploração e exploração. Alguns ganham mais, outros menos, mas todos vivem esse processo de servidão mascarada. Não é o que podemos comprar com o dinheiro do salário que nos faz menos ou mais explorado. Seja como for, os que detêm os meios de produção estão sempre roubando os trabalhadores. 

Então, o que podemos tirar de lição de um caso como esse? Primeiro: não basta a um governo – que se diz progressista - se unir com alguns grupos da burguesia nacional esperando lealdade na hora do “pega pra capar”. Não há lealdades no mundo do capital. A história está aí para mostrar, caso após caso. Toda vez que os trabalhadores se uniram com a burguesia para tentar conquistar algo juntos, foram traídos e abandonados no meio do caminho.

Segundo: o agronegócio latifundista não é uma boa opção para o desenvolvimento nacional e muito menos para a segurança alimentar das pessoas. Essa gente comanda uma indústria, não a produção de comida. É indústria que produz mercadoria que é vendida pelo maior preço possível com o menos custo de produção e com o roubo do trabalho dos trabalhadores. Quem produz comida no Brasil é o pequeno e o médio produtor. E esses estão aí, como sempre, afogados pelas imposições da grande indústria agropecuária. 

Terceiro: é preciso construir uma proposta verdadeiramente nacional de produção e geração de riqueza. Não essa que foi tentada por Lula, de engordar indústrias e fazendeiros locais, sem um projeto popular de nação. Mas uma construída pelos trabalhadores, unificados com os camponeses que verdadeiramente produzem alimento e podem ser ganhos para um projeto de país.

Para isso é preciso trabalho, muito trabalho. Mas o campo está aí, aberto e preparado. A crise das empresas de carnes não vai durar muito. Já, já as emissoras de televisão, as mesmas que derrubam, às erguem. Basta que sejam bem pagas. E os trabalhadores, que no capitalismo, de um modo ou de outro sempre saem prejudicados, haverão de levantar. Esse furacão que está passando pelos grandes frigoríficos precisa servir de alavanca  para a consolidação da velha aliança operário/camponesa, sempre tão necessária. 

Hoje, no espaço da luta pela terra, são os trabalhadores rurais sem-terra que formam a ponta-de-lança, um pouco adormecida. É o momento de reforçar as grandes lutas, unificar com os pequenos produtores, constituir um novo modo de organizar a vida, retomar a terra.

Os tempos de arar já se foram. É hora de fazer brotar a semente. 

domingo, 19 de março de 2017

Jornalista Moair Loth recebe medalha Professor João David Ferreira Lima


Homenagem será na Câmara de Vereadores, dia 20, segunda-feira, às 16h

Quero começar esse texto dizendo que Moacir Loth é um homem especial, e que eu o amo. Ele é um desses jornalistas de primeira linha, dos que quase não existem mais. Seus textos primorosos, desde os tempos em que trabalhava no velho Jornal de Santa Catarina, em Blumenau, sempre foram um sul para os novos repórteres. Escrita potente, ironia fina, Moacir tem como marca adentrar as entranhas dos fatos, descrevendo com maestria e reportando com fidelidade. Nascido lá na Itoupavazinha, ele traz, bem arraigada, a sua alma colona, de desbravador. Os olhinhos apertados, sempre desconfiados, nunca deixaram passar um detalhe. O espírito reporteiro encontrou ali a sua concretude.

O conheci quando entrei na UFSC para ser repórter na Agência de Comunicação (Agecom). Ele era o diretor da agência. Durante a caminhada naquele pequeno (grande em qualidade) espaço de comunicação da UFSC tivemos grandes momentos. O Moacir é um chefe como poucos. O trabalho com ele é como um bailado. Não impõe. Discute. Sua marca na Agecom sempre foi a da liberdade. Nós podíamos escrever o que quiséssemos, desde que fosse bem escrito. Uma novidade para alguém que, como eu, vinha de anos na iniciativa privada, sempre podada por interesses outros que não o da boa informação pública.

Com ele construímos uma política pública de comunicação que andou pelo Brasil, inspirando e acendendo novas formas de ser assessoria de imprensa. E sob sua direção fazíamos o Jornal Universitário, que, por conta da maneira como todos entendiam a comunicação, mostrava toda a vida que pulsava na UFSC. Não era um jornal chapa-branca, desvelava as mazelas da política nacional, os grandes temas do país e fazia a crítica da própria universidade. Moacir segurou barras incríveis por conta de reportagens aparentemente desabonadoras sobre a UFSC. Posso dar um exemplo de uma que eu fiz, sobre o cruel abandono de cachorros usados para experiências no curso de Medicina. Gente grande pediu minha cabeça. Moacir segurou a barra, sob o risco de perder a sua própria cabeça. Vivemos muitas situações assim. E ele nunca abandonou qualquer um de nós.

Tivemos, é claro, brigas homéricas e ficamos por algum tempo sem se falar. Afinal, Moacir, na direção da Agecom, também cometia erros, como qualquer ser humano. E eu era implacável. Acho que ainda sou. Mas, como ele é generoso, e eu também sou, sempre voltamos às boas. É difícil demais ficar brava por muito tempo com ele.  E ele tem um coração maior que o corpo.

Uma das coisas que sempre me emocionou na história de Moacir foi o seu amor pela UFSC. Nunca vi coisa igual. Talvez o Assis tenha chegado ao mesmo nível. Quando diretor da Agecom, praticamente morava na universidade. Sua sala, tomada por livros, recortes de jornal e outros papéis, era seu ninho seguro e quentinho. Escondido ali, com os dedos ágeis sobre a máquina de escrever, usada muito tempo ainda depois da chegada dos computadores, ele passava os dias e parte da noite. Nunca teve tempo feio. E mesmo quando a vida se transportava para o bar, com cerveja e pizza, a UFSC era o assunto principal. Conspirávamos, conspirávamos, planejávamos e agíamos. Que tempos vivemos, que tempos!!!

Por conta da pequena política Moacir também passou maus bocados. Por muitas vezes foi afastado, preterido, substituído. Mas, aquilo não importava. Seguia seu caminho, fazendo sempre o melhor pela UFSC,  sua “pequena”, sempre amada. Fosse na Agecom, ou na Editora, onde também atuou. Aposentou-se em meio a uma tormenta, na gestão da Roselane Neckel. Perseguido, assediado, vilipendiado. Saiu da UFSC sem pompa, mas sempre com aquele risinho meio tímido, meio cínico, como a dizer “a vida é mais”. E ele estava certo.

Agora, quando o vereador Lino o homenageia pelos 35 anos de dedicação à UFSC eu me emociono. Porque o Moa merece que o reverenciemos. Ele merece, não uma medalha, mas esse reconhecimento público pelo trabalho que fez na universidade. Trabalho de formiguinha, amoroso e sistemático. Ele merece pelo tanto que contribuiu com o jornalismo de qualidade, seja como repórter, seja como chefe de redação, seja como colunista.

Com ele, a despeito de todas as diferenças, dividi minha vida de reporteira. Na Agecom, na Pobres e Nojentas, no sindicato. E, hoje, me enche de felicidade vê-lo homenageado. Não pela Câmara, que é uma instituição que não nos diz nada. Mas, pelo Lino, que foi professor na UFSC e sabe bem o que o Moacir significou na Comunicação. E por todos nós, seus amigos, que também queríamos ver todo o seu trabalho dignamente reconhecido.

Nessa segunda-feira, quando ele receber a medalha Medalha Professor João David Ferreira Lima, eu estarei lá, para ver com esses olhos de enxergar a merecida honraria a esse homem que construiu uma linda história no jornalismo catarinense. A honraria não partiu da UFSC, sua casa amada. Mas, não importa. Ela se faz e nós nos alegramos.

Valeu Lino, por dignificar o trabalho do Moa.


Valeu Moinha, por ser quem tu és. E eu sei que tantas outras belezas estão nascendo desses teus dedinhos, agora no computador. Bem assim, desse teu jeitinho, quietinho, escondidinho, mas absolutamente lindo. Que venham os livros!!!!

quarta-feira, 15 de março de 2017

Há mais velhos no Brasil, e eles estão fodidos


Os velhos são lentos, mas não são idiotas

Sempre me encantou a cidade de Porto Alegre. Desde que me lembro, é muito comum ver os velhos circulando pelas ruas, no comércio e principalmente nos restaurantes. Geralmente são aqueles que vivem sozinhos os que têm o costume de comer fora, por conta da comodidade. E é bacana ver como os restaurantes estão completamente adaptados à presença dessas pessoas que, ao contrário dos adultos, são lentas e, por vezes confusas. Sempre há um trabalhador pronto para ajudar, e no mais das vezes, sorridente e prestativo.

Mas, penso que isso é uma raríssima exceção. No geral, as pessoas tratam muito mal os velhos, ignorando que eles estão num outro patamar da realidade, completamente diferente da loucura que já foi incorporada pela maioria das gentes, desse mundo acelerado e tecnológico. No serviço público, a situação é lamentável. Outro dia, levei meu pai a UPA do Sul, por conta de uma febre de 29 graus. Ele tem 85 anos e sofre do mal de Alzheimer. O enfermeiro que o atendeu para a triagem pediu que ele colocasse o termômetro embaixo do braço. E o pai completamente confuso, atarantado pela febre, deixava o termômetro cair. Foi assustadora a reação do rapaz. Falou com o pai de maneira desrespeitosa, voz alta, ríspido.

-Eu já coloquei esse termômetro três vezes, tem de segurar.

Pois não via ele que ali estava um velhinho doente? Não podia ter um pouco de paciência? Não! Não teve o cuidado de tratar com carinho alguém que não estava no seu normal.  E que nem fosse carinho, mas com um pouco de respeito pela condição da pessoa idosa.

Da mesma forma são absurdas as regras do SUS. Para marcar consulta o velho tem de ir até o Posto, ficar na fila, às seis da manhã. Tem a opção de marcar pelo telefone, mas no geral é para dois ou três meses. Logo, se quer ser atendido tem de ir para a fila. Não importa se está doente, se não pode caminhar, se está com febre. Também o remédio de uso contínuo só pode ser retirado pelo paciente, “para evitar fraudes”. E olha que nunca uma palavra significou tão bem: paciente. Haja paciência para lidar com tudo isso. Quem mora longe do posto, e não tem carro, cada vez que precisa pegar o remédio tem de carregar o velhinho, todo estropiado, pelo transporte desintegrado. Um absurdo. Com certeza deve ter uma forma mais humana de lidar com isso sem dar moleza para a fraude.

Mas um dos lugares onde o velho mais padece é no banco. Obrigado que é a receber sua aposentadoria nessas malditas casa de usura, lá vai ele todo o mês para retirar seu pagamento. Os mais velhos não conseguem acompanhar a loucura da informatização. E por mais que o funcionário explique, a coisa é incognoscível. Experimente tentar ensinar como é que retira o dinheiro aplicando a senha de 4 dígitos, depois a senha de letras e números e toda aquela sorte de botões. Não dá! É impossível. Outro dia vi uma velhinha chorado copiosamente, dizendo: “não entendo, não entendo”. E não podia entender mesmo, e o funcionário fazendo cara de paisagem. Por que, com todos os caralhos, não capacitam essa gente para lidar com os velhos? Isso deveria ser prioridade num país onde o número de velhos aumenta significativamente a cada ano.

Tenho andado por aí com meu pai e vivenciado essas experiências todo o dia. É de arrasar. Porque a gente fica pensando que um dia também vai chegar nossa hora e teremos de igualmente viver toda essa sorte de humilhações e desrespeitos.

O velho pertence à classe dos homens e mulheres lentos. Tudo neles é pausado, tranquilo, vagaroso. Eles demoram a decidir a comida, eles demoram em entender as sentenças imperativas, eles se confundem com os sinais, as placas, eles param no meio da rua para olhar os passarinhos, eles escutam, mas por vezes não ouvem, eles se distraem com uma música, eles caminham bem devagar, eles são frágeis e precisam que as pessoas lhe toquem o braço, sorriam e repitam várias vezes as mesmas coisas, sem exasperação, sem rispidez, sem pressa. Eles não são crianças, para serem tratados como bebezinhos. São velhos. Portanto precisam que as pessoas os reconheçam na sua capacidade e autonomia. Estão baleados, mas ainda sabem quem são. Estão confusos e lentos, mas ainda podem tomar decisões sobre as coisas. Só demoram um pouco mais.


Fico pensando que, talvez, quando os capitalistas descobrirem que os velhos são também “consumidores”, quem sabe comecem a mudar a forma de atender, respeitando essa diferença. Mas, seria bom que as pessoas já pensassem sobre isso e começassem a mudar no trato com eles. Não custa nada desacelerar e ouvir delicadamente a confusão. Depois, ir desenrolando o novelo da desordem, com carinho e atenção. Veja o velho como um espelho. Ele é tu amanhã. 

E a considerar a reforma da Previdência que o governo Temer está planejando para os brasileiros, o destino de todos os trabalhadores será esse: de sofrimento, miséria e desrespeito. Barrar a reforma é preciso, mas ainda há muita estrada para caminhar no que diz respeito ao cuidado com os velhos do Brasil.