quinta-feira, 15 de novembro de 2018

Sobre os médicos cubanos

médico cubano no Haiti

Escrevo, porque é tudo que sei fazer. Mas, nesses tempos de surdez, sei que é um grito no vazio. Quem eu gostaria que lesse, não lerá. Minhas palavras morrerão na cova das mentiras fabricadas e distribuídas por bispos, robôs ou gente sem qualquer visão crítica. Ainda assim, escrevo. Quem sabe algumas das palavras consigam chegar a algum recôndito coração aberto para conhecer o que ainda não sabe.

Falo sobre os médicos cubanos, ofendidos e vilipendiados pelo presidente eleito. Sei que é difícil para a maioria das pessoas entender a lógica de um governo que não é capitalista. O que vale aqui no Brasil não vale em Cuba. São sistemas radicalmente diferentes. O que o recém-eleito presidente quer é estabelecer com os médicos cubanos uma relação capitalista, coisa que não tem sentido para eles, ou pelo menos para a maioria.

Em Cuba a faculdade de medicina é gratuita e o médico formado não sai dali correndo para abrir um consultório onde vai cobrar para atender as pessoas. Não. Isso não acontece em Cuba. É inconcebível para um cubano pagar para ter atendimento médico. Não há lógica nisso. Os médicos cubanos são trabalhadores do estado. Atendem nas clínicas do estado, nos postos de saúde. Ninguém lá ganha dinheiro com a medicina. É possível compreender isso?

Então, o convênio entre Brasil e Cuba é um convênio com o estado cubano. E Cuba manda para cá seus trabalhadores públicos, assim como manda para outras dezenas de países com os quais tem convênio ou os que vai ajudar por conta própria, como é o caso do Haiti, na sua permanente tragédia. O recurso do convênio vai para o estado e o trabalhador/médico recebe o seu salário. O estado cubano é socialista e todos os recursos que recebe são usados para o bem comum, um comum do qual o médico também faz parte. Assim, o dinheiro do Mais Médicos que não vai para o bolso do médico, vai para todo o povo cubano. Logo, a família desse médico cubano lá em Cuba poderá ter médico também, e moradia, e educação e cultura e segurança. Num estado socialista todos trabalham para o bem comum e não para uma oligarquia ou para meia dúzia de empresários.

“Ah, mas tem cubano reclamando e querendo fugir de Cuba”. Sim, tem. Porque são apanhados pela mosca azul da propaganda capitalista de que podem ter mais e melhor. Uma ilusão que muitos pagam para ver. Alguns se dão bem, a maioria não. Basta ver as comunidades cubanas nos Estados Unidos. Quantos conseguem “chegar lá”?

Num estado socialista não há ricos. As pessoas dividem o que tem entre todos. Há garantias fundamentais: saúde, educação, moradia, segurança. Por isso os salários são baixos em Cuba. Porque os salários são quase desnecessários.

“Ah, mas é um horror não poder ter tudo o que temos”. E o que temos? Quem “temos”? Somos um país no qual um quarto da população vive abaixo da linha da pobreza, ou seja, mais de 52 milhões de pessoas. E o que é viver abaixo da linha da pobreza? É viver com 300 reais por mês. Viver? E quantos são os que vivem com um salário mínimo? Mais uns cem milhões. Então quem pode ter tudo o que temos? Quem?

O presidente eleito, ao oferecer aos cubanos uma relação capitalista, pessoa-a-pessoa, atacou um estado soberano, que tem resistido por 60 anos a força de um império que o bloqueia e o mina. Fez de caso pensado, para atacar Cuba, que é socialista, não comunista. E fez sem pensar um segundo sequer nesses 150 milhões de brasileiros empobrecidos, muitos dos quais votaram nele com profunda esperança. Uma gente que nunca teve a possibilidade de ser atendida com carinho, com cuidado, com atenção e com uma qualidade técnica que é reconhecida no mundo todo. Os médicos cubanos são os melhores do mundo. Pois essa gente agora ficará sem médico, sem atenção.

Espero que os médicos brasileiros se disponham a ir aos cantões do Brasil, como fizeram os cubanos. E que essa gente toda possa continuar tendo atenção. Espero, mas não sei...

O que sim, sei, é que seria bem bom se as pessoas pudessem também compreender que a realidade cubana é bem diferente da brasileira. Pessoas há que acham um horror um povo ter saúde, educação, segurança e moradia. Pessoas há que acham que isso é escravidão. Outras entendem que isso é a conquista de um povo inteiro que lutou e morreu por isso. Há que respeitar.

terça-feira, 13 de novembro de 2018

Sobre a vida, sobre nós


Essa foto me tocou como se fossem dois raios. Um, pela maldade. Quem poderia pichar um retrato assim, de alguém que passou a vida – e por isso foi morta – lutando contra o terror? O terror que mira no pobre, no preto, no caído. Atingida no peito, verti lágrimas, que caíram mansinhas, sustentadas num ódio são. Pensei que se tivesse sido alguém da ordem, desses que gosta de matar e torturar, tudo bem. Faz parte do show dele e está dentro do seu script odiar a mulher que estava fazendo uma devassa na Polícia Militar do Rio. Mas, e se não foi? E se a pessoa que manchou o retrato é uma dessas pessoas comuns que trabalham e vão à igreja rezar, ajoelhadas aos pés de um Jesus de amor? Como poderia? Como foi inoculada no ódio aos seus?

O ódio de classe é o motor do mundo. É com ele que aqueles que são oprimidos, roubados, massacrados, pisados, avançam e mudam o estado das coisas. O ódio aos vilões do amor, como dizia o grande poeta Cruz e Souza. E o ódio de classe é o ódio de quem é explorado pelo explorador, assim como o explorador odeia o pobre, aquele do qual visceralmente depende, afinal, só o que trabalha gera valor.

Mas, como odiar aqueles que são como a gente, que lutam com a gente, que buscam cuidar, proteger, garantir a justiça? Que estranho vírus é esse que toma o empobrecido e o faz voltar-se contra os seus, os companheiros de classe? Pois seja esse "vírus" o que for, há que combatê-lo até o último suspiro. Os que trabalhamos e vendemos nossa força de trabalho – tudo o que temos – precisamos andar juntos, sonhar juntos, lutar juntos. Só assim garantimos a vida plena.

O outro raio que me pegou foi o da força, essa que move a luta de classe. Em volta da pintura vandalizada, mulheres negras, abraçadas, em pé, cabeça erguida, pernas retesadas. Protegendo a memória de Marielle, uma mulher que lutou até o dia do seu último suspiro, garantido à bala pelo ódio do opressor. As garotas protegendo Marielle e protegendo-se. Uma posição de batalha. Porque cada uma delas ali sabe muito bem quem são os inimigos, e onde estão. Seus inimigos são os inimigos de todos nós, da classe trabalhadora. Na foto não vemos os rostos da mulheres, mas podemos intuí-los e haverão de estar impregnados do ódio, o ódio são, o que é necessário. Aquele que impele à resistência, ao combate. Porque enquanto houver um mundo em que para que um viva outro tenha de morrer, não teremos tempo para a paz.

Marielle foi assassinada. Outras tantas serão. Mas, como uma incontrolável onda, outras mais virão. Assim, agarradas, retesadas, cabeça erguida e com ódio, muito ódio, contra os vilões do amor.


segunda-feira, 12 de novembro de 2018

Nas redes do Figueira

Uma das formações daquele 1990 - Peçanha no gol

O dia da vitória


Aquele era para ser um domingo feliz. O mais feliz. Antônio nem foi para o mar. De manhã, revirou todo o guarda-roupa atrás da bandeira. Fazia tanto tempo que ele não ia ao campo. Mas naquele domingo ele iria. Era a decisão da Primeira Copa Santa Catarina (1990) e o Figueirense estava na final. Desde 1974 o alvinegro não ganhava qualquer título. Tinha que ser agora.

Neste tempo todo de jejum, a bandeira branco e preta tinha dormido no fundo do guarda-roupa. Por isso demorava tanto para achar. Quando encontrou, cheirava a mofo. Ele pendurou ao sol e foi ajeitar um cano, no qual iria prendê-la. Ao meio dia, a “bichinha” já tremulava em frente a casinha de madeira, que quase beijava o mar da Costeira.

No morro do Mocotó, a galera também se preparava. Os homens, encostados nas portas da bodega do Tinoco, entornavam uma branquinha para aquecer a goela. Juquinha, com o pandeiro, ensaiava um samba enquanto os outros garotos, com os tambores, marcavam o ritmo. Uma bandeira alvinegra balançava na mão, ora de um, ora de outro. O Figueira não iria falhar. Desta vez levaria o título, e o grito guardado iria explodir no Scarpelli.

Zeca, com 12 anos, nunca tinha visto seu time ganhar um campeonato e lembrava com amargura o título do Avaí, em 1988. Tinha sentido tanta raiva, tanta inveja, que tinha descido o cacete no filho do sargento Carlos, avaiano roxo, quando ele atreveu-se a arriscar uma gozação. Mas, neste domingo a festa iria ser dele.

No edifício Artur, bem no centro de Florianópolis, Eliete também jogava para dentro um trago de Velho Barreiro, para afogar o medo, que teimava em trancar a garganta. Sabia que o Figueira estava melhor que o Brusque. Mas, desde pequena também sabia da máxima: “jogo é jogo”. Como quem toca uma relíquia, ela pega a camisa alvinegra e estende na cama. Afaga devagar e pensa que aquele domingo vai ser mesmo de festa. Vai ter que ser, como diz a Gal e, quando a camisa entra pelo pescoço, acariciando o corpo, aí sim ela tem certeza. O Figueira vai ser campeão. Ela olha no espelho e os olhos no reflexo, brilham. Afinal, porque tanto amor? De onde vem esta euforia, esta coisa forte que meio explode no peito quando aquele bando de homens, vestido de preto e branco, sai do túnel? Como explicar este sentimento? Este grito solto, este bater descompassado, esta alegria na hora do gol? Eliete não sabia.

Por volta das duas horas da tarde, o terminal urbano já está fervilhando de gente em busca do ponto do ônibus do Canto. Todos os caminhos levam ao Scarpelli. No rosto de cada um grita um sentimento diferente. Medo, alegria, paixão, amor, carinho, dor, preocupação... As bandeiras voam pelas janelas dos ônibus e o grupo do samba batuca o hino do clube: “Figueira, Figueira, a tua glória é lutar...”. Os mais tímidos acompanham com um movimento de cabeça ou batendo os dedos no joelho. Mas a cara de todos é de pura alegria. De calção, camisa alvinegra e radinho de pilha, todos ali parecem cópias um do outro. Gritos, risadas, piadinhas e o grito de guerra: Figueeeeira! O ônibus parece voar, inebriado com aquela vibração toda. Eliete está ali, com a amiga Rose, que nunca tinha ido ao campo de futebol e olhava tudo com olhos virgens, sedentos.

Na fila para comprar ingresso é a mesma a alegria ansiosa. Os homens grudam a orelha no rádio e ouvem as primeiras notícias sobre o jogo. Tem pouca mulher por ali. “Futebol é coisa de macho”, tinha dito, um dia, o velho Fernandes. Mas, isto era coisa do passado. Os homens não podiam tirar das mulheres esta magia do futebol e elas invadiam cada vez mais a área da bola. Algumas driblavam o marido e diziam que estavam indo para a casa de uma amiga. Era o caso de Margarida, que se esgueirava pelo portão A, ligeirinha como quem rouba. “Meu marido não gosta que eu venha ao campo e ainda por cima é avaiano. Mas, hoje vai ser o meu dia”, comenta rindo e roendo a unha já sem esmalte.

Lá dentro a Teimosia Alvinegra faz a festa. Papel picado, talco, farinha. Vale tudo e quem não gosta é melhor se mandar. Aquele pedaço é o pedaço da orgia, do orgasmo da emoção. Rose, que ainda não foi mordida pelo vírus da bola, reclama da farinha, mas não se atreve a fazer qualquer gesto de desagrado. Apenas olha ressentida para Eliete. “Lavei meu cabelo hoje”, diz, mais de duzentas vezes, com beicinho. Coitada, fica branco quando o Figueira entra em campo.

A galera explode, feito uma mina, uma bomba. Os foguetes espocam sem parar e a farra da farinha é completa na arquibancada. O estádio pulsa como se fosse um coração bombeando o sangue vital para a vida.

Quando a bola começa a rolar ninguém vê mais nada. É só um esperar nervoso pelo primeiro gol. Um homem, com óculos fundo de garrafa, aperta os olhos, vira para a torcida e berra: Figueeeira! Fica assim o jogo inteiro, feito um louco, o calção caindo, deixando à vista parte da bunda branca. A rapaziada gosta e ri. Encharcado de cerveja, ele passeia próximo ao alambrado e segue berrando o nome do seu time, como um bebê que não sabe dizer outra palavra.

Um pretinho aleijado também está ali, com sua cadeira de rodas, esperando o gol. O olho brilha, a cerveja desce boa, ainda mais que é dada. Ele olha todo mundo ao seu lado e ri, batendo palmas. Todos vibrando na espera do gol.

Então, eis que vem o esperado. O gol! Do Figueira! A bola vai parar redondinha na rede do Brusque. Os mais velhos hesitam por um segundo, depois se desmancham, assim, como um picolé. O estádio balança, os gritos explodem, a galera alvinegra lava a alma. O homem de óculos fundo de garrafa cai deitado na arquibancada. Levanta as pernas para o ar e fica ali, com ar de bobo, sem forças para o seu grito. O aleijadinho, na euforia, rola da cadeira, mas nem liga. Fica no chão, batendo palmas e gritando como um louco. Um velhinho ao lado de Eliete chora mansinho, como se visse um milagre. Eliete abraça Rose e fica muda, parecendo ter engolido a bola do gol. A partir daí o povo não para mais, fica o tempo todo gritando, fazendo brincadeiras com a onda, levantando e sentando conforme o movimento da massa.

Neste carnaval acontece o segundo gol. Então não tem mais jeito. Está selado. A copa é do Figueira. Já não há mais o que fazer. Só esperar pelo fim do jogo, invadir o campo, abraçar os heróis, ficar com alguma lembrança daquela tarde mágica de gritos de “é campeão!”.

Os últimos minutos são tensos. A gurizada começa a pular a cerca que separa o público do campo. Os soldados fingem que não estão vendo nada. E não adianta ver, são muito poucos frente a massa. E assim, um por um, os garotos vão pulando e ficando próximos das placas de propaganda, esperando o apito final. Parecem bichos na hora do ataque que vai resultar na alegria do almoço ou jantar. Naquele caso é o ataque a um sonho, de ser campeão, finalmente realizado.

Apita o juiz. É o sinal. O povo entra em campo, agora a festa é dele. Têm quem pague promessa atravessando o campo de joelhos. Têm os que querem agarrar os jogadores, os que se atracam nas redes, arrancando pedaços para serem guardados nos armários e na lembrança. Outros gritam, arrastam bandeiras, se jogam no chão, explodem de prazer. Quando a taça chega, e os jogadores saem com ela em volta olímpica, aquela gente enlouquecida segue atrás, correndo feito loucos. A taça é deles também, tão esperada. Mas uma boa parte está nas arquibancadas, embalando a vitória, alguns choram como crianças, outros de mansinho, um choro feliz.

Depois, um a um, vão saindo devagar, com um sorriso imenso pregado na cara. Um sorriso que vai ficar por dias. Dentro do ônibus que volta para o centro, o clima agora é de calma. Assim como quando a gente acaba de fazer amor. O Figueira é campeão e a vida continua. Antônio vai para o mar, o Mocotó volta a sua calma e Eliete acorda cedo para trabalhar. Só uma coisa é certa. Todos eles vão sair de branco e preto naquele diáfana manhã.




quinta-feira, 8 de novembro de 2018

Jornalismo, jornalistas e mentiras


A mídia brasileira foi pega de surpresa pelo presidente eleito nas últimas eleições quando este não quis saber de entrevistas nem de jornalistas para falar com seu eleitorado logo depois da vitória. Transmitiu suas palavras direto de casa, pelo celular, na sua rede social, sem mediações. Depois, nos dias que se seguiram chutou o pau da barraca de uma série de empresas de comunicação acusando os jornalistas de “fabricantes de mentiras”. Entre seus seguidores não há um que respeite a mídia. Os comentários são os mais estapafúrdios: a rede Globo é comunista, a Folha de São Paulo é do Lula. Ou seja: duas coisas que foram sistematicamente demonizadas durante a campanha eleitoral, comunismo e PT. A coisa beira ao surreal. 

Mas, entre nós, jornalistas, quem pode dizer que o presidente eleito esteja errado sobre a imprensa ser uma fábrica de mentiras? A mídia comercial brasileira – tal como a mídia mundial – é efetivamente uma fábrica de enganos. Manufatura mentiras e age visceralmente ligada com o sistema dominante. Usa dos espaços de notícias para constituir um consenso sobre a realidade, sobre o mundo, sobre o que é bem ou mal. Sob a capa da “imparcialidade” que a teoria funcionalista legou ao jornalismo hegemônico, ao longo de décadas tem extraído a mais-valia ideológica das pessoas que se colocam frente à televisão ou do jornal.

Ou seja, concretamente, o jornalismo praticado na maioria dos meios é realmente mentiroso. Logo, não é uma invenção do presidente eleito. Ele aproveita uma verdade para poder tornar verdade as mentiras que diz e dirá. O exemplo é tomado de Donald Trump, que fez a mesma coisa nos Estados Unidos. Durante sua campanha presidencial soltou os cachorros na mídia tradicional e fez - com a providencial ajuda das Big Datas, empresas de dados – aparecer essa verdade já sistematicamente denunciada, obviamente pelas entidades de esquerda. Ora, Trump não fez isso porque é louco, como diziam seus opositores. Não. Ele é um ultra milionário que tem acesso a qualquer coisa que o dinheiro possa comprar. E, hoje, o dinheiro pode comprar dados pessoais, manipulando mentes, tornando os meios de comunicação tradicionais bem obsoletos. 

Assim que agora, diante do furacão das mentiras disseminadas pela internet por bilhões de robôs, misturados a pessoas bombardeadas pela guerra psicológica por empresas especializadas nesse fazer, que também espalham “notícias” os jornalistas se levantam em indignação. Mas, figuras como Trump ou o presidente eleito do Brasil estão cagando para os jornalistas. Eles não precisam mais dessa categoria. As notícias agora podem ser fabricadas por um simples robô de inteligência artificial mediana. Então, Trump expulsa jornalistas das coletivas, manda outro calar a boca, humilha. Bolsonaro não permite jornalistas nas suas aparições e promete até destruir jornais os quais acusa de fabricantes de mentiras. O campo da disputa das mentes é outro agora e eles estão ganhando, sem necessitar das mídias convencionais. 

Ao refletir sobre isso fiquei a matutar sobre a responsabilidade dos jornalistas nesse massacre em praça pública do jornalismo. 

Não é de hoje que se discute a ação dos jornalistas dentro dos meios de comunicação comerciais. No geral, a maioria se curva sem críticas ao que manda o projeto editorial do veículo. E quem define o projeto editorial nunca é o jornalista. É o dono do negócio. E o dono do negócio define quem será notícia e quem não será. Quem será demonizado e quem será mostrado como bonzinho, qual abordagem deve ser dada em tal notícia, qual deve ser dada em outra. Tudo vem determinado de cima. Sobra pouca margem de manobra para o trabalhador/jornalista fugir. Sim, sempre há os rebeldes, os criativos e ladinos que encontram brechas para fazer escapar a verdade. Mas, a esmagadora maioria se rende sem questionar. Em muitos casos assume a verdade do patrão como sua e pode tornar-se até mais real que o rei. Basta uma passadinha na Globo News e já temos uma mostra do que eu digo. 

Quero dizer com isso que os jornalistas dos meios hegemônicos estão agora colhendo os frutos dessa capitulação. E eles são amargos. Acostumados que estavam a ser o esteio da classe dominante, agora estão tendo de lidar com um grupo desconhecido de pessoas que consegue ter mais poder de comunicação que todos os seus patrões juntos. Ou seja, ficaram desnecessários para os novos donos do campinho e serão tratados como lixo.

A dança das cadeiras do poder dominante está muito louca e será necessário algum tempo para ver onde isso vai dar. As empresas de comunicação podem capitular, se render ao novo grupo de mando. Isso é bem possível. Eles são camaleônicos, mudando conforme os interesses. Se isso acontecer os jornalistas voltarão a servir ao rei, como sempre fizeram. Ou, algumas dessas empresas podem desistir do negócio, passar a outro mais atrativo e lucrativo, sem a necessidade de jornalistas, e todos irão amargar a grade barca. O certo é que a barra vai pesar.

Ainda assim, isso não é o fim do jornalismo como já se vê um que outro alardear. O jornalismo seguirá sendo essa função essencial de mostrar o que alguém quer esconder. E também seguirão existindo – como hoje existem – jornalistas de quatro costados, capazes de saltar sobre as pedras do engano e da mediocridade, desvelando a realidade e produzindo conhecimento com seus textos, como ensinou o teórico Adelmo Genro Filho. O jornalismo é um fazer que não morre, nem mesmo nas mais odiosas distopias, porque sempre alguém escapa do torpor e narra a vida em sua imanência, descortinando a verdade.

A conjuntura não está boa para nossa categoria. E vai seguir assim por um longo tempo. Então, é um bom momento para refletir sobre esse fazer e sobre a capitulação ao engano que boa parte dos colegas abraçou. Todo tempo é tempo de mudar. 

Já para aqueles que sempre remaram contra a maré, é só mais uma tempestade, a qual atravessarão com remadas sistemáticas, as mesmas que os mantiveram navegando incólumes nesse grande mar de mentiras fabricadas ao longo das décadas. 

O jornalismo da grande mídia mente, sim. Mas, jornalistas há que não. Que caminham pelas margens, que abrem brechas, que encontram nichos e oferecem “biscoitos finos” da verdade. 

A verdade, essa louca, que mesmo na mais longa das noites, emerge e se diz. A verdade, essa louca, que a despeito de tudo, emergirá também dentro dessa imensa máquina de produção de ideologia que se tornou a tal da rede social. 

Que os jornalistas da boa cepa sigam produzindo, escrevendo, dizendo. Porque eles serão sempre necessários. 

Seguimos, rompendo as manhãs, como dizia o poeta. 




O pai

Dormir não é com ele. Acorda às cinco e meia da manhã e vai até às nove horas da noite. Aí, encontrar coisas que o distraiam não é bolinho. Há que ter muita criatividade. Ainda mais que ele é meio chato e não gosta de quase nada do que a gente inventa. Consigo encantá-lo com a música gaúcha, e ele pode ficar vendo os clipes por um bom tempo. Também gosta da Praça da Alegria e dá muita risada com o Carlos Alberto e sua turma. Adora ficar caminhando pelo pátio, espichando as pernas, fumando um pito e observando as estripulias dos gatos.

Hoje, ao fim da tarde, encontrei-o no jardim. Estava sentado no banquinho de madeira, com os olhos lá no infinito. Sentei ao seu lado e perguntei:

- Que tá fazendo aí, quiridu?

E ele , sem tirar os olhos do ponto no infinito, respondeu.

- Imaginando! ...

Só consegui ficar do seu lado, bem quietinha, imaginando também.


segunda-feira, 5 de novembro de 2018

Sobre ser cristão



Há uma cena que sempre me comove quando eu penso sobre ser cristão. Digo isso porque sou cristã, nascida em família cristã, com uma mãe que frequentava a igreja e ensinava sobre Jesus. A cena foi protagonizada por um homem que sempre amei profundamente: Dom José Gomes, bispo de Chapecó. Era uma romaria da terra que acontecia em Florianópolis, juntando gente sem terra e gente sem casa.  A caminhada saiu de São José, atravessou a ponte e terminou no aterro da Bahia Sul, com uma grande missa e um almoço comunitário. Durante a missa, estavam todos os padres e bispos da região, Dom José junto. Eu era repórter na época, e estava em cima do palanque com os padres, para melhor fotografar o povo lá embaixo. Então, ao final da celebração o arcebispo metropolitano, acho que era o Dom Eusébio, convidou todos os bispos que estavam no palanque para um almoço na arquidiocese. Dom José saiu de fininho, recusando o convite para ir ao palácio episcopal e se foi, misturando-se à multidão.

Quando no aterro o almoço comunitário já corria solto, e eu andava pelo meio das gentes, ouvindo as histórias, deparei-me com a cena, que até hoje enche meus olhos de lágrimas. Lágrimas boas, de profundo amor.  Dom José, já sem batina, com seu terno e sapatos surrados, comia um cachorro-quente, encostado a uma banquinha. Comeu devagar, conversando com o moço que vendia. Depois, saiu, caminhando pelo meio das pessoas, sentando com uns, sentando com outros, e cada uma delas oferecia um frango, um pão. E ele mordiscava um naquinho aqui, outro ali, vivendo aquela coisa boa que é a comunhão. Um companheiro. E as pessoas o envolviam com uma atmosfera de amor.

Eu o mirava de longe, mas minha vontade era de abraçá-lo longamente. Coisa que fiz, mais tarde, na despedida, primeira e última vez que eu o estreitei em meus braços, em profunda gratidão. Dom José era um homem jesuânico. Como Jesus, ele gostava mesmo era de andar com as pessoas, com os seus, os camponeses, os trabalhadores. Nada de palácios e pompas.

Essa igreja de Dom José é a que eu tenho dentro do coração. Esse sentimento de partilha, de amor, de solidariedade, de comunhão real. É o que me alimenta nas horas noas. É o que me embala, enquanto escuto o sussurro do homem de Nazaré a dizer: não tema, estarei sempre com vocês. 


quinta-feira, 1 de novembro de 2018

"Preciso trabalhar"



Uma das rotinas que tive de assumir agora que tenho de cuidar do pai, é a tal da limpeza diária da casa. Antes, tudo ficava fechado e faxinar no final de semana era suficiente. Agora, com a circulação de pessoas e bichos o dia todo na pequena casinha, a sujeira abunda. Então, todos os dias há que varrer e passar pano. Assim, quando chega lá pelas seis horas começo a função.

O pai sempre fica agitado quando eu começo a limpar, porque ele acha que precisa ajudar.

- Que eu posso fazer, filha?
- Nada, pode ficar aí ouvindo música.

Capaz! Ele se levanta e vai para a pia.

- Vou lavar a louça.
- Mas já tá tudo limpo.
- Não tá, não.

Então começa a tirar todas as xícaras de dentro do armário e lava de novo, uma por uma. Repete o procedimento até que eu encerre a lida. Se eu demoro ele lava umas duas ou três vezes. Se eu penduro o rodo e recoloco os tapetes, ele se dá por satisfeito.

- Arrumamos tudo, né?.
- É. Obrigada, querido. Ajudou muito.

Ele fica bem feliz e vai pitar seu cigarrinho.