segunda-feira, 17 de setembro de 2018

As aventuras com o pai


Todas as manhãs são sempre iguais. Sair para o trabalho é uma odisséia. Meu pai acorda às cinco e meia, seis horas, depende, mas não passa disso. Sempre procuro despertar antes dele, para tomar banho antes de começar os cuidados, senão o atraso é certo. Sempre há algo para acertar. Ou ele põe o sapato trocado, ou a blusa do avesso, ou o casaco virado, ou o cabelo fica molhado. E não dá para dizer que está errado. Tem de acertar inventando outra história para ele não ficar brabo. Então, depois de ajeitado o figurino, começa o rolo do café. Até aí já tomei banho e vou fazendo uma coisa pra ele, e outra pra mim.

Café pronto e preciso ficar atenta, senão ele joga tudo fora, ou enche de pão, ou amassa o remédio. Então as coisas precisam ser realizadas uma de cada vez. Antes de servir a xícara, corto o pão em cubinhos pequenos, passo manteiga e mel. Depois encho a xícara e só então dou o remédio. Se descuidar ele joga o remédio fora, então tem de ficar olhando se ele põe na boca mesmo. Remédio na boca é hora de engolir. Outra novela. Ele faz a maior enrolação e gira o remédio na boca, ou tira e põe no pão. Esse momento precisa de atenção total.

Quando o remédio já foi para dentro dá pra deixá-lo tomando café sozinho, enquanto me arrumo. Mas é tudo muito rápido. Ele termina e já vai para a pia lavar a xícara. Ali ele arruma novo salseiro, jorrando água pra todo lado. Deixo que ele “trabalhe” senão fica brabo e mal humorado o dia todo. Ele lava a xícara e em vez de guardá-la começa a tirar todas as outras do armário ordenando-as em cima da mesa, enchendo-as de água, cada uma com sua respectiva colherinha. É um ritual. Vamos tentando tomar café, enquanto ele nos olha com ares de repreensão. É um tumulto na mesa, mas tudo bem. Seguimos.

Passado o café já estou exausta, mas é hora de colocar os cachorros pra dentro, porque senão eles saem e correm atrás das pessoas na rua. É sempre a mesma novela. Bota os cachorros pra dentro e o pai vai lá e abre a porta. Gritaria geral. Nããããããoooooo! E corre pra lá e pra cá atrás dos cachorros. 

Ufa. Cachorros dentro de casa, pai no lado de fora e lá vamos nós. Fechado o portão, cachorros pra fora, pai pra dentro e passo o bastão para o Renato, que seguirá com os cuidados até as oito horas quando chega a moça que fica com o pai enquanto eu trabalho e ele vai para a faculdade.

Tudo isso leva pouco mais de uma hora, mas quando sento no carro, parece que já se passaram horas e horas. Não são nem sete horas da manhã e a sensação é de profundo esgotamento. Sem contar que ainda precisarei viver o engarrafamento do Rio Tavares.

Suspiro e olho pela janela. Ele está no alpendre e acena. Tão frágil e bonitinho. É uma daquelas cenas de doce encantamento. A gente ri e acena de volta. E vamos embora com aquela sensação ambígua de preocupação e ternura.


sexta-feira, 14 de setembro de 2018

Um bilhão de famintos no mundo


Betinho entendeu que a fome é um crime ético, e mobilizou o Brasil contra isso. Betinho queria matar a fome e mudar o mundo. Reforma e revolução.

Na última terça-feira, dia 11, a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO) divulgou os números da fome no mundo. Quase um bilhão de famintos (821 milhões). E isso considerando os países que dispõem de dados, o que significa que o número pode ser maior. Só no continente africano estão 256 milhões de pessoas passando fome.  Na América Latina, aonde os números haviam diminuído, a fome voltou a crescer, afetando 32 milhões de pessoas. 

Fazendo as contas é possível perceber que uma em cada nove pessoas no planeta está nesse momento passando fome. E não é aquela fome que dá quando ficamos um período sem comer. É a fome estrutural, a que mata horrivelmente, e mata mais do que qualquer outra enfermidade no mundo.

A FAO reconhece que as guerras, os conflitos armados (60% dos famintos estão em zona de guerra) são causas importantes para o drama da fome, assim como também as mudanças climáticas que acabam afetando bem mais os empobrecidos. Mas, também aponta que essas emergências bélicas e climáticas, apesar de influírem no mapa da fome, não são as causas principais. 

A fome da maioria dessas pessoas é estrutural, ou seja, são gerações e gerações vivendo sem alimentação adequada ou se alimentando muito pouco. Porque faz parte da organização do modo de produção capitalista que para que poucos tenham muito, a maioria seja despojada de tudo. 

Parece irracional que quase um bilhão de pessoas estejam vivenciando o horror da fome, num mundo que produz tanta comida, cujas cifras poderiam alimentar quase 13 bilhões de seres humanos tranquilamente (o dobro do número de pessoas que existe). Num mundo onde o desperdício de comida é imenso.  Mas, o que acontece é que como bem apontava Marx, a lógica do capital é manter os trabalhadores num estado limite entre a possibilidade de produzir valor e a morte. Nem ganhando tanto que possam achar que não precisam trabalhar, nem tão pouco que não sobrevivam. É da natureza do capital manter os trabalhadores nesse estado de letargia, típico da fome. 

Uma olhada sobre o nosso território brasileiro e vamos ver que a produção maior de grãos não é para comer. Serão 232 milhões de toneladas esse ano, a segunda maior produção de toda a história. Mas, é uma produção que serve para exportação e vai alimentar vacas e porcos em outros países. 

O jornalista argentino Martín Caparros, autor do livro "A Fome", escrevendo sobre os números da fome lembra que no seu país, Argentina, a produção atual de alimentos poderia sustentar 300 milhões de pessoas, mas mesmo lá existem dois milhões de famintos, com tendência a aumentar esse número. Ele mostra uma conta muito simples: para produzir um quilo de carne são necessários dez quilos de cereal. Então, o produtor de grãos tem duas opções. Ou vende um quilo de cereal para dez famílias, ou vendo os dez quilos, a um preço bem melhor, para um fazendeiro criador de gado. No geral, a escolha é pelo gado e não pelas gentes. 

Ele lembra também do caso de Níger, um país africano considerado um dos mais pobres do mundo e com séculos de fome estrutural. Lá, os campos são secos e tudo é pobre, o que pode parecer que não há saída. Mas, esse mesmo país é o segundo produtor mundial de urânio, mineral estratégico e caro. Imaginem o que não seria possível fazer com os recursos do urânio? Mas, se a riqueza entra no país, ela não chega às pessoas em geral. Fica em algum bolso. 

Assim que a fome não tem nada a ver com falta de comida, mas sim como o sistema capitalista se organiza. No Brasil, por exemplo, ainda são contabilizadas 7 milhões de pessoas no mapa da fome (IBGE), o mesmo país que desperdiça 14 mil toneladas de alimentos por ano, estando entre os dez mais em desperdício no mundo.

Mas, esses terríveis números, divulgados todos os anos pela FAO, caem no vazio. Porque a notícia é dada nos telejornais como uma nota ritualística. Um bilhão de pessoas passam fome no mundo. E ponto. Não dizem por quê. E quem ouve, se impressiona naquele momento, mas logo já esquece, envolvida com outra notícia bombástica, como a separação de uma celebridade, ou outra coisa qualquer.

Esse um bilhão de pessoas famintas não tem rosto, não tem nome, não tem CPF nem endereço, não provoca qualquer empatia. Quando muito uma lágrima rápida diante de uma foto impactante de um menino morrendo, e sendo velado por um urubu. Mas, poucos são aqueles que procuram saber os por quês. O que afinal se passa no mundo, se há tanta comida sendo produzida? Que sistema é esse no qual para que poucos vivam à larga, milhões tenham de morrer?

A fome no mundo é a falência de nossa espécie. Uma pessoa em cada nove está morrendo agora, essa morte lenta, dolorosa, marcada pelo horror. E para essa gente não basta que doemos o nosso quilo de arroz, em musculação de consciência. Ajudá-las é mudar o sistema. Mudar o modo de organização da vida. Destruir o capitalismo. 

Sem isso, seremos sempre cúmplices dessa dor. 


quinta-feira, 13 de setembro de 2018

Lula e a política brasileira



Lula está preso em Curitiba. E o caso de pagamento de propina pelo qual está sendo processado ainda não teve julgamento de mérito. Ele foi condenado em segunda instância e, conforme uma infinidade de advogados, não precisaria estar preso. Vários outros casos de pessoas julgadas em segunda instância foram resolvidos com Habeas Corpus até julgamento do mérito. Lula não. Ele é a cabeça da hidra petista que precisa ficar exposta como a dizer: o jogo acabou, não se aventurem, já era. Não haverá mais conciliação de classe e nem concessão de poder a alguém minimamente identificada com os trabalhadores. Mesmo que ele não represente mais propostas de transformação radical.

Fatalmente, salvo alguma mudança "cósmica", ele deverá cumprir todos os anos de prisão imputados. E, possivelmente só depois disso os eminentes juízes julgarão o mérito. Talvez decidam que não há mesmo nenhuma prova que determine a posse do imóvel. Mas, isso não importa. O que importa é que ele fique preso. E durante muito tempo. Isso será exemplar.

E, para isso, tampouco basta a prisão. O judiciário brasileiro quer muito mais. Precisa ver o cidadão Lula no chão, aplastado.

O juiz de Curitiba, na primeira instância, havia condenado Lula a nove anos e seis meses de prisão e ao pagamento de multa no valor de 669 mil reais. Já ao passar pelo TRF da 4ª região, em segunda instância, Lula teve a pena aumentada para 12 anos. E a multa também dobrou. Passou dos 669 mil para um milhão e 14 mil reais. O TRF decidiu aplicar o valor máximo permitido. Já outros réus na mesma ação, como Léo Pinheiro, ex-presidente da OAS e Agenor Franklin, também diretor da OAS, na segunda instância tiveram as penas e as multas bastante diminuídas.

Agora, no mês de agosto, depois de já estar amargando a prisão, uma outra juíza de Curitiba, Carolina Lebbos, decidiu que Lula deverá pagar uma multa por reparação de danos e custos processuais no mesmo processo do tríplex, de 31 milhões de reais.

Sendo assim, ao todo, o ex-presidente terá de pagar 32 milhões de reais pelo processo referente a um crime que, até prova em contrário, ele não cometeu. Uma situação jurídica que, no entender de muitos estudiosos do Direito, é absolutamente surreal.

Mas, apesar de toda essa circunstância esdrúxula, o ex-presidente, bem como seu partido, o PT, tem insistido em recorrer a esse mesmo judiciário que o enterra. Reiteradas vezes novas apelações são feitas buscando na lei as mesmas condições que são dadas a outros réus. Segundo os dirigentes do partido a lógica é mostrar para a população que a prisão de Lula é mesmo política. Outros políticos, como Aécio Neves - que disse em gravação de própria voz que poderia matar quem pudesse delatá-lo – ou Geddel – pego com malas de dinheiro de propina - estão inocentados porque não há provas contundentes, por que então Lula está encarcerado? Se todas as provas contra ele no processo do tríplex são circunstanciais, o que poderia levar a uma presunção de inocência, como mantê-lo preso? Esses questionamentos são jogados para a população, que então, faz o seu julgamento.

Enquanto todo esse cenário kafkiano vai se descortinando, a estratégia petista é de manter a militância aquecida com a cotidiana saudação ao ex-presidente em Curitiba. Todas as manhãs e todo final de tarde, um grupo se aproxima da sede da Polícia Federal e dá o bom-dia e o boa-noite a Lula. Essa rotina deixa o PT em evidência na mídia e nas redes sociais, mantém o nome de Lula no imaginário e busca fortalecer o nome do indicado de Lula para disputar as eleições presidenciais.

Tanto que a decisão de desistência de Lula aconteceu só agora, pouco mais de 20 dias antes das eleições. Até então, a tática era manter o nome de Lula na cabeça, para mobilizar ainda mais a militância. Quando todos os recursos fossem esgotados, sempre apontando para a parcialidade política do judiciário, o nome de Haddad já estaria bem colado ao de Lula. Esse era o plano.

Agora, a partir dessa semana, o partido vai conhecer o resultado da estratégia montada. A expectativa é de que Lula consiga, com a força de sua personalidade carismática, transferir os votos para Haddad. Mas, a conjuntura, com o ataque ao candidato do ultraliberalismo, Jair Bolsonaro, pode alterar o caminho petista.

Com o atentado, Bolsonaro cresceu. Os partidários do candidato da direita fazem barbaridades nas redes sociais, divulgando notícias falsas, ligando o atentado ao PT ou à esquerda. Um senador da república, Magno Malta, ligado à igreja evangélica, divulgou no seu perfil do facebook uma foto adulterada, com a cara do agressor do Bolsonaro num comício do Lula. A manipulação da foto é grosseira, mas mesmo assim o senador a disseminou pela rede, dando ao PT a autoria do ataque. Outro pastor, de fama nacional, divulgou no seu Twiter que a ex-presidenta Dilma havia mandado matar Bolsonaro. E pasmem, nada aconteceu com eles.

A subida de Bolsonaro agitou as águas da eleição. Nas pesquisas ele está em primeiro lugar e a proposta do voto pragmático já aparece com força. Os brasileiros fazem cálculos para ver quem poderia ter mais chance de vencer o candidato reacionário. Com isso, crescem os eleitores de Ciro Gomes, que não faz parte da dobradinha petucana (PT/PSDB). Seria uma terceira via. Pesa contra ele o fato de ter como vice uma latifundiária que apesar de articulada e poderosa no debate, está ligada ao agronegócio de maneira visceral, tendo já recebido dos indígenas brasileiros o título de rainha da motosserra, em alusão ao desmatamento provocado pelo latifúndio. Guilherme Boulos, escolhido pelo PSOL para ser uma força de esquerda, não empolgou, tendo ficado muito tempo mais no apoio à estratégia petista do que na campanha própria e o PSTU, apesar de ter uma proposta de governos bastante radical, é avaliado na esquerda também pela sua prática cotidiana e pelas posições tomadas com relação à Venezuela e à Síria, que foram totalmente equivocadas. Por fora corre Geraldo Alkmin, candidato do PSBD, insosso e inexpressivo, mas que pode receber o apoio da classe dominante se a situação com Bolsonaro complicar e ele escorregar do primeiro lugar.

Assim que os rumos da eleição ainda estão incertos. Nesses 20 dias que faltam para o pleito muita água vai rolar. A política brasileira é uma montanha russa, resta saber se está desgovernada ou se vai se manter nos trilhos, ainda que com sustos controlados.


Visitando Zininho


Um dos nossos poetas maiores, Cláudio Alvim Barbosa, Zininho, está te esperando para um encontro de belezas, na exposição que lembra os 20 anos de saudade, desde o seu encantamento em 1998. A mostra está no Mercado Público, na parte de cima, na entrada que dá para a Alfandega. E não poderia ser outro lugar, visto que o mercado sempre foi o guardião da alma boêmia da cidade. E mesmo que agora esteja gourmetizado, ainda restam as memórias, que perduram nas velhas paredes.

Assim, que subir os dois lances de escadas vermelhas já vai nos preparando para o encontro. De cara a gente vê, na entrada, o imenso boneco, que sai no Berbigão do Boca. E a gente se enche de alegria. Depois, lá dentro, a simplicidade da mostra se abre em saudade e pequenas maravilhas. Os óculos do poeta, os microfones que usava, os enormes gravadores, as placas e homenagens, os discos, os livros escritos sobre ele, os quadros que o retratam, os vídeos com o Aldírio Simões falando das coisas da ilha, tudo isso forma uma atmosfera de encantamento. Nossa querida Desterro, as dores de amor, tudo de bonito que foi retratado nas músicas de Zininho, que é muito mais do que o compositor do “Rancho de Amor à ilha”, nosso hino.

No meio da sala está Zininho, com seu riso estampado, um copo de cerveja na mão, esperando por cada um de nós, para um papo, uma trova, um poema. A cadeira ao seu lado chama e a gente senta e conversa, e ri com ele. Eu mesma não o conheci pessoalmente. Mas, o conheço da obra. Das músicas que tocamos cotidianamente na nossa Rádio Campeche. Gosto de sua poesia, de sua simplicidade, da sua carinha tão litorânea. 
Hoje, na sala vazia de gente, e cheia de memórias, me apresentei. E falamos sobre a música brasileira e sobre nossa amada cidade. Foi bom.

A exposição é uma belezura e a obra em fibra de vidro, que imortaliza Zininho, feita por outro maravilhoso artista catarinense, o Plínio Verani, simplesmente nos transporta para o encontro amoroso com esse grande compositor brasileiro que nossa cidade teve a alegria e a honra de ter como morador desde que era bem gurizinho. Um homem do continente, do estreito, do Abrãao, que tão bem soube cantar a vida.

Vai lá, fica até o dia 22 de setembro. Temos de conhecer os nossos!


sexta-feira, 7 de setembro de 2018

O capitalismo, a banalização da vida e o Netflix



Foi na televisão que comecei minha vida profissional. Era 1982 e eu era repórter da Tv Caxias, em Caxias do Sul. Antes disso não era muito ligada em TV. Mas, depois que fui descobrindo suas entranhas, me apaixonei. Sou fascinada por tudo o que se produz na telinha. Espectadora voraz. Desde as primeiras matérias que produzi já percebi o poder desse veículo. Produtor da  ideologia poderosa da classe dominante, por vezes escapa, e pode até produzir conhecimento. É raro, depende muito das pessoas, mas acontece. Eu mesma, ao longo da vida televisiva, muitas vezes consegui fazer passar a luta dos sem-terra, as greves dos trabalhadores, enfim, outra informação. Gotas, mas, enfim... Há que resistir em qualquer lugar. 

Agora, nessa nossa brutal contemporaneidade capitalista, a televisão ainda é poderosa demais. Apesar do avanço da internet, é desde os estúdios dos grandes conglomerados televisivos que se produzem as coisas que as pessoas veem na rede.  Mesmo que o meio seja um computador ou o celular, a ideologia televisa segue seu curso, firme e forte. 

Um dos exemplos mais contundentes é o Netflix. Por 20 reais as pessoas podem ter acesso às produções televisivas e cinematográficas que o sistema capitalista cria. No geral, são os mesmos conglomerados de sempre que se fundem e se agigantam. E, obnubilados pela ilusão de que estão livremente fazendo suas escolhas, os consumidores só conseguem formar “listas” com o que o sistema oferece. Procure um filme do Win Wenders no Netflix e vê se acha. Não tem. Não tem no Netflix e tampouco tinha na televisão, a não ser em algum horário da madrugada, em algum canal de pouca audiência. O que tem é o lixo ideológico de sempre, o mesmo que povoava nossas sessões corujas, super tela, tela quente e tudo mais. Só muda o meio, a mensagem segue igual.

Eu, como uma espectadora compulsiva, vejo tudo que há. Por vezes, claro, encontro algumas pérolas, mas tem que saber muito bem o que procurar. O bom está sempre escondido.Quem não sabe, não acha.  A informação crítica é sempre necessária, para a interação com qualquer meio. Mas, o que me apavora mesmo são os chamados block buster , os filmes e seriados arrasa-quarteirão, os que são sucessos virais. 

Outro dia, passeando pelas opções da Netflix, querendo curtir uma daqueles comédias idiotas, para fugir do doloroso cotidiano, me deparei com uma série que está fazendo bastante sucesso nos EUA. Chama-se Santa Clarita Diet. A história é de uma mulher que, do nada, se transforma num zumbi, uma morta-viva e que necessita comer carne humana para seguir vivendo. Mas, não é como os zumbis que conhecemos, troncha e caindo aos pedaços. Não. Ela é normal. O marido a vê matando sua primeira vítima e, pasmem, não se surpreende. Parece a ele uma coisa quase natural. Logo, ele começa a ajudar a esposa a fazer as vítimas. Mais tarde, a filha também descobre e, pasmem, não se apavora. Também passa a ajudar. 

A família, que é “gente de bem”, moradora do subúrbio - aquelas casinhas sem cerca bem típicas da famílias de classe média alta - decide então caçar pessoas “do mal”. Ou seja, são bonzinhos e vão limpar o mundo. Então, a partir de seus pressupostos do que seja “gente do mal” eles vão matando. Convertem-se assim em juízes da sociedade. Tudo tratado com muita graça. É uma comédia. 

Assisti as duas temporadas, horrorizada com a capacidade que esse sistema tem de banalizar a vida mesma. Posso entender porque os Estados Unidos é o país onde mais acontecem esses casos de massacres aparentemente absurdos e inexplicáveis. Não são inexplicáveis. Essa sociedade investe pesadamente na ideologia do justiçamento, no moralismo de cueca, o qual a pessoa se acha no direito de julgar e praticar ela mesma a sentença. Com base em nada, apensa no seu “gosto pessoal”. Ou seja, se o vizinho é chato, mata ele. Se o chefe cobra demais, mata ele. Se a professora exige muito, mata ela. E sabe o que mais? Não acontece nada. A pessoa ainda pode virar herói ou heroína. 

Aqui no Brasil, estamos consumindo de maneira acrítica todo esse lixo desde há tempos. Estamos aí vivendo 15 anos de Big Brother , a Fazenda e outros programas de realidade que ensinam a eliminar o outro, simplesmente por uma malquerença. E se elimina sem dó, pagando pela ligação. Toda essa ideologia de violência, banalização da vida e justiçamentos com base no gosto pessoal segue firme e forte nos novos meios de comunicação. O modelo de geração de medo “a la Datena” e afins adentrou também as redes sociais e estão a formar pessoas capazes de virar zumbi e não se importar. Aceitam tranquilamente o “fardo” e tratam de aproveitar para vingar suas pequenas e grandes maldades. Metralhar os inimigos, furar o olho do outro, comer o fígado, arrancar as vísceras, esmagar o coração. Junte a isso um fundamentalismo religioso também criado pela religião eletrônica e pronto: estamos bem arranjados. 

Outro dia um menino de 10 anos atirou numa professora e se matou. Aqui, no Brasil. Isso está bem perto. O brasileiro cordial, que já era um mito, vai se esfumaçando. Estamos sendo doutrinados, dia após dia, a sermos monstros competitivos. E isso vale inclusive para aqueles “bons cristão” que disseminam imagens de Nossa Senhora, falam de amor, mas que arreganham os dentes em explosões de ódio contra o que não gostam ou não entendem. 

A parada é dura, companheirada. Há que mudar isso. E não será com “democratização da mídia”. Só uma mudança radical, de todo o sistema. Sem isso, seguiremos zumbis... 



sexta-feira, 31 de agosto de 2018

Um triste brasil para os trabalhadores



O jogo do toma-lá-dá-cá entre o governo de Temer e o Judiciário garantiu mais um gol de placa para a classe dominante: a terceirização irrestrita. Com isso, o Brasil volta ainda mais no tempo, alcançando a era em que os trabalhadores não tinham qualquer direito garantido e podiam ser movidos ao bel prazer dos patrões. A decisão do Superior Tribunal Federal, pouco depois de garantir aumento salarial de 16% para seus membros, permite que a partir de agora mesmo as atividades-fim possam ser terceirizadas. Até então apenas as atividades-meio como limpeza, transporte e segurança eram permitidas. Mas, agora, vale para qualquer função. Ou seja, uma empresa pode funcionar sem nenhum empregado contratado, com cada tipo de trabalhador vindo de uma empresa diferente.

Essa decisão abre-se também uma porta gigantesca para o fim do serviço público tal como o conhecemos, com concurso para os trabalhadores e com estabilidade, evitando assim, os bota-fora a cada governo de plantão. Afinal, ali também a terceirização já vem sendo implantada, com empresas gerindo hospitais, creches e instituições de assistência. Logo, logo, a máquina pública também poderá terceirizar todos os trabalhadores.

Importante lembrar que a terceirização não diminui custos, pelo menos não no serviço público. A empresa leva uma bolada de dinheiro enquanto paga uma mixaria para os trabalhadores, como é hoje com as empresas de limpeza. O resultado é sempre o mesmo: os donos cheios de grana e os empregados na maior precariedade.

A votação no STF foi de sete votos a favor e apenas quatro contra. Os argumentos dos que votaram a favor seguem o mesmo padrão dos do governo: "com a terceirização aumentarão os empregos". O que eles não dizem é que os empregos que existirão serão quase uma escravidão, já que não contarão mais com qualquer amparo. A reforma trabalhista, aprovada pelo Congresso, já tratou de eliminar todos os possíveis “gastos” que a classe patronal possa ter com trabalhadores. Sobra então, o emprego precário, sem direitos, sem férias, sem 13º, sem nada. A pessoa pega ou larga, e pronto. Salários baixos, nenhuma garantia, é o salvem-se quem puder. Carteira assinada, nem pensar.

A terceirização está apta também a entrar no serviço público. Professores poderão ser contratados por hora, médicos, enfermeiros, dentistas, qualquer um. Não precisará mais de concurso, apenas contrato temporário. Viveremos a mais brutal exploração do trabalho humano, comparada talvez aos primórdios do capitalismo, quando as pessoas, apesar de trabalharem 15 ou 18 horas por dia, morriam de fome. 

O cinismo dos togados, que recebem mais de 30 mil de salário e ainda gozam de imunidade sob todos os aspectos, inclusive de crítica, não tem mais limites. O ministro Celso Mello declarou que: “Pode a terceirização constituir uma estratégia sofisticada e eventualmente imprescindível para aumentar a eficiência econômica, promover a competitividade das empresas brasileiras e , portanto, para manter e ampliar postos de trabalho”. Tudo às claras. O que importa é garantir mais e mais lucros para os empresários. Os trabalhadores são mero detalhe. Como se não fossem eles, e somente eles, os que podem geral valor. 

A vida vai ficar ainda bem pior para os trabalhadores, sejam eles qualificados pelo ensino formal ou não. O mundo “mad-max” ao vivo e a cores. Os “jogos vorazes” estarão abertos, com as pessoas que têm apenas sua força de trabalho para vender se digladiando entre si, enquanto o 1% que detém a riqueza assiste, inebriado pelo champanhe e pelo sadismo, em nome do lucro e da competitividade. 

O capitalismo na sua fase mais perversa, da superexploração exacerbada. O paraíso do empresariado predador e especulador. 

Todos os dias cai um direito. Todos os dias a classe dominante avança mais sobre os trabalhadores, sugando feito vampiro até a última gota. 

E as ruas estão quietas. E alguns esperam as eleições.  



quarta-feira, 29 de agosto de 2018

Venezuelanos voltam para casa


Enquanto a mídia a mando dos Estados Unidos transforma em “crise humanitária” a migração de venezuelanos para países vizinhos, outros tantos sonham em voltar para seu país, por não suportarem as condições de vida e trabalho nos países para onde migraram em busca de vida melhor. Por conta disso, nessa semana o governo venezuelano disponibilizou um avião para trazer de volta para casa dezenas de venezuelanos que estavam no Peru. 

Como a Venezuela tem sofrido desde 2015 uma guerra econômica, com a ação criminosa de empresários escondendo comida, remédios e provocando escassez, muita gente decide pegar as trouxas e sair do país. Essa migração tem sido bastante incentivada pelas forças oposicionistas do governo Maduro e por conta disso se disseminam propagandas sobre como a vida no estrangeiro pode ser melhor, inclusive dizendo que os governos do Brasil, Peru e Colômbia podem assegurar casa, saúde e crédito para novos empreendimentos.  Algumas pessoas caem nesse conto e cruzam as fronteiras. 

Mas, chegando aos países, não encontram as promessas feitas. No caso do Brasil, há poucas semanas, os venezuelanos foram rechaçados por hordas violentas, também organizadas por políticos e entidades conservadoras brasileiros. O resultado é mais tragédia para uma gente já golpeada pela guerra econômica travada pelos Estados Unidos contra a Venezuela. 

Como resposta a campanha da direita que procura incentivar a migração, o governo da Venezuela tem incentivado a volta. Nessa segunda-feira, um avião lotado partiu de Lima, Peru, para Caracas, com um grupo de cem pessoas. Outras, que moram mais perto da fronteira, estão vindo por terra. Ao chegarem, no encontro emocionado com familiares, contaram que foram enganados com falsas promessas e chegando ao Peru foram explorados por empresários que pagam salários com valores abaixo do prometido. Alguns também foram vítimas de coiotes e traficantes de drogas e pessoas.  
Quem vive na Venezuela sabe o que têm sido esses últimos anos de ataque econômico. Os grandes meios divulgam incessantemente que o país será atacado pelos Estados Unidos, que vai faltar comida, que o terrorismo vai atacar. Tudo isso provoca medo e desespero nas pessoas, que acabam caindo nas armadinhas da migração provocada. 

O governo de Maduro iniciou uma série de medidas para vencer a galopante inflação, também provocada pelo ataque econômico, e espera que isso possa melhorar a situação. Ele insiste que não faltará comida, embora, é claro, a guerra movida contra a Venezuela obrigue a população a alguns sacrifícios, como as já conhecidas filas. 

A migração na Venezuela sempre existiu, como em todos os países latino-americanos. Uma olhada nos números da própria Organização das Nações Unidas mostra que hoje, há muito mais colombianos e brasileiros na Venezuela do que venezuelanos na Colômbia ou no Brasil. Mas, essas informações a mídia não passa porque o que interessa é fazer crer que o país bolivariano é um inferno de onde todos querem sair. 

Os cubanos sabem muito bem o que é isso. Desde 1959 que os Estados Unidos move feroz campanha contra a ilha. Mas, lá, as gentes se mantiveram firmes e de pé. Na Venezuela também. A maioria apoia e confia que, junto com o governo, vai vencer a guerra movida pelos EUA contra o povo.  Não é coisa fácil porque a direita venezuelana segue atuando com desenvoltura no país, tendo como braço armado os grandes meios de comunicação. A pedagogia do terror e do caos tem sido bastante eficaz, minando as possibilidades de soberania do país. É uma batalha, é a luta de classes. A velha elite petroleira que perdeu poder, aliada com os EUA, querendo voltar. E para isso, vai destruindo o país e o povo junto. Para eles, pouco importam essas pessoas que hoje saem da Venezuela aterrorizadas com suas campanhas de ódio. Tudo o que querem é retomar o controle do país.