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quinta-feira, 12 de agosto de 2021

O trabalho e os dias


Eu tinha 19 anos quando consegui meu primeiro trabalho de carteira assinada. Foi em Pirapora, Minas Gerais. E eu tinha essa carinha aí. Naqueles dias minha mãe vivia a dor de ter desenvolvido a doença da tristeza: a tuberculose. E, não havia SUS. A parada era sinistra. O tratamento muito caro. Era preciso agir. Eu não tinha muita qualificação e fui atrás do que fosse. Padaria, lanchonete, hotel, qualquer coisa que assegurasse uma ajuda para o pai, que era o único que tinha salário. 

Depois de muita procura consegui uma vaga numa distribuidora de bebidas, de um amigo/vizinho da minha amiga Fathiô, que ficava quase na saída da cidade, bem longe. Minha função lá era anotar os pedidos que chegavam por telefone ou ao vivo e fazer as notas. Era um escritório pequeno e trabalhávamos eu e outra menina, a doce e querida Lúcia, que pacientemente me introduziu naquele mundo de números, quase incognoscível para mim. Já no pátio, onde ficava a carga e descarga de bebidas, tinha bem mais gente, todos rapazes bem encorpados, pois era um trabalho de força. Ali, era sempre uma festa, apesar do trabalho pesado.

Em pouco tempo já percebi que o trabalho no pátio, apesar de alegre, era bem perigoso. Volta e meia alguém se machucava, garrafas quebravam e pronto, ali estava o acidente. Pedi ao chefe uma caixa de primeiros socorros, pois às vezes, era necessário um curativo. Claro que não me deram bola. Insisti, enchi o saco, mas nada. Sempre que alguém se machucava eu tentava dar um jeito e foi assim que fui montando uma caixinha com gaze, iodo, bandeide, pomada para ferimentos, comprimido para dor de cabeça, o básico. Acabei virando uma referência para a gurizada. Sempre que alguém se machucava me gritavam e lá ia eu com minha caixinha. Ainda assim continuava reivindicando que era a empresa quem tinha de garantir. Todo dia um embate.

A gota d´água foi o dia em que um dos guris enterrou alguma coisa na cabeça, acho que foi um prego. Como sempre acontecia, me chamaram. Eu fui lá com a minha caixinha e quando vi o ferimento, saia uma coisa branca da cabeça do guri. Apavorei, pensei que podia ser coisa grave. Nunca tinha visto assim. Corri para o gerente pedindo que o levassem para o hospital. Não tinha sangue, só aquela coisa branca. Ele não levou em conta. O guri lá, pálido e trêmulo. Ah, bom... Aí virei o Jiraya!

Peguei o guri pela mão e fui para a estrada, fazendo sinal de socorro.

Ao primeiro carro que parou pedi que o levassem ao hospital. Voltei para o escritório, peguei minhas coisas, abracei a Lúcia, agradeci por todo o seu cuidado comigo, já que me ensinara todo o trabalho, e saí. Bati o pó das sandálias e me fui, a pé, até em casa, tremendo de ódio. Eu precisava daquele emprego, mas não deu de segurar. Desde então, sempre foi assim. Em cada lugar que trabalhei virei a “encrenqueira”, sempre com alguma demanda. Hoje tenho 60 anos e sigo igual. Valamideuzi.



terça-feira, 28 de agosto de 2018

O Xangô do São Francisco



Era assim. Todas as tardes era hora de ir ao Xangô, um espaço de bar/discoteca/ salão que havia na beira do Rio São Francisco, em Pirapora. Por volta das cinco horas o tempo era de um banho nas duchas do rio e depois ficar à toa, pernas para o ar, vendo o pôr-do-sol, aquela quenturinha envolvendo o corpo. 
A vida passava devagar naquelas lindas paragens das Minas Gerais. 

Uma cuba libre, a cabeça tonteada. A cidade toda passava por ali, pelo menos a que nos interessava. O flerte, o olhar oblíquo, aquela coisa morna do norte de Minas. Um deixar-se estar, apenas fruindo o som do rio, passando devagar. Tudo era devagar. Por vezes um beijo, um volteio de corpo, o mergulho nas águas profundas. Pirapora. Pira Poré. 

E no som que ecoava das caixas do Xangô, Alceu... E a belle de jour... as tardes de dias azuis... Era bom! E a gente, no azul, também viajava. Saudades daqueles verdes anos!