terça-feira, 23 de maio de 2017

Artigas, um caminho

o exército de Brancaleone...


Gina, a condutora, artiguista de valor


Sempre que nos encontrávamos nosso assunto preferido era o Artigas, o homem que conduziu o povo da banda oriental para a liberdade. Gina e eu somos orientais. Ela, do Uruguai e eu de Uruguaiana. Nossas histórias se misturavam com a história daquela região. Gina, carregando suas caixas de livro, armando a barrada da Expressão Popular, me provocava. “Tens que escrever o livrinho sobre o general”. E eu dizia: - vou escrever, vou escrever. Por vários anos fomos recolhendo tudo sobre Artigas e nas nossas conversas ele era sempre o foco. Ambas éramos apaixonadas por aquele homem. Então, em 2015 decidi fazer o caminho do “êxodo”, a saga do povo oriental que seguiu Artigas por mais de 500 quilômetros Uruguai afora, primeiro fugindo e depois voltando para a vitória.

Num carrinho Fiat, todo estuporado, confiando na providência, partimos, eu, Rubens, Antônio e Renato. Uma equipe minúscula, com uma câmera e a ideia na cabeça. Dois nunca tinham mexido com vídeo. Mas, não faltava vontade. Viajamos por quase 20 dias, atravessando o Uruguai. Buscávamos as pegadas de Artigas. Foi uma viagem fantástica, de risos, lágrimas e descobertas.

Na volta, fui ver a Gina. Queria contar pra ela tudo que tinha vivido. Foi uma tarde memorável. Ela já estava doente, mas sua alma era a de uma menina, encantada com todas as estórias. Rimos, tomamos café, falamos de Artigas, de toda a experiência, do meu encontro com sua alma libertária. Pedi a ela que me desse uma entrevista. Falando de Artigas. Ao longo de toda nossa vida juntas ela nunca quis me dar entrevista. Dizia que sua vida não era importante. Ora, pois. Mas, para falar de Artigas, sim, topava. Foi a primeira e última vez que ela fez um depoimento gravado em vídeo. Nós duas sabíamos o quanto aquilo era importante. Era Artigas.

Ela queria muito que o vídeo sobre o Artigas ficasse logo pronto, para que mais pessoas pudessem conhecer aquele homem que tanto nos arrebatava. E nós, com as parcas condições materiais que tínhamos, fomos fazendo o que era possível. Demorou demais.

No dia 2 de setembro de 2016 a Gina me fez essa sacanagem. Encantou. Não pode ver o vídeo pronto. Quase desisti do projeto. Estava difícil demais terminar. Mas, a Gina merecia que fôssemos até o fim. Com a parceria essencial do amigo/filho/irmão Rubens Lopes, o trabalho seguiu. Com sua mão firme na edição, o documentário sobre o Artigas foi tomando forma. E, no início desse ano, depois de várias batalhas, terminamos.

Hoje saiu a notícia de que o nosso vídeo, pequeno e intimista, foi selecionado para o FAM, a mais importante mostra de vídeos e filmes do Mercosul. Foi uma alegria sem fim. Finalmente Artigas vai ser visto por outros tantos brasileiros, tal qual a Gina queria, mostrado pelos nossos olhos. Ela é condutora. Ela é alma que move cada centímetro. Chorei bastante. Queria que ela estivesse viva para ver. É um vídeo singelo, como era a Gina, e eu sei que ela o amaria.  

Divido então esse contentamento, certa de que todos os nossos amigos lá estarão no dia da mostra, que será na UFSC, em junho. Para ver a Gina, para ver Artigas e para conhecer essa saga incrível do povo da banda oriental. A nossa história. A história da nossa libertação.

E, sei, que de algum lugar - talvez de dentro de mim - a Gina estará vibrando com seu riso doce, murmurando: mi general!!!! 


O terror na Venezuela vem da oposição


Oposição ao governo Maduro começou trancando ruas, depois, passou a queimar prédios públicos. Chegaram a colocar fogo em um hospital infantil. Agora, queimam na rua pessoas que eles identificam como "chavistas". Uma série de ações coordenadas e financiadas possivelmente pelas instituições dos Estados Unidos. A intenção é provocar uma guerra civil, destruir economicamente a Venezuela e recuperar o poder. Com todos os erros de Maduro, a maioria da população ainda prefere o bolivarianismo e nessa nova fase da luta, certamente haverá de tomar as armas para defender a revolução. A oposição, hoje estrategicamente liderada pela mulher de Leopoldo López não está nem aí para os jovens que se matam nas ruas. O que quer é colocar outra vez a mão no petróleo. Uma tristeza. Todo apoio ao povo venezuelano, soberano e lutador. No pasarán!

video

domingo, 14 de maio de 2017

Um dia de domingo


Dia de domingo, sol de outono, aquela belezura. Mas, aqui no meu bairro não há qualquer espaço onde se possa passear com um velho. Ou é a praia, ou nada. Como ele precisa caminhar, eu vou com ele até o mercado. São 20 minutos no tempo do passinho dele. Vinte pra ir, vinte pra voltar. Andamos pelas prateleiras, compramos alguma guloseima, passamos na farmácia para pesar e pronto. Acabou. No pequeno centrinho comercial do Castanheira não há opções, e até os cachorros precisam ficar de fora. Como o Steve insiste em nos seguir, temos de voltar rápido, pois todos nos olham com maus olhados. Então, lá vamos nós de volta para casa.

É incrível como nesse nosso mundinho periférico, capitalista dependente não há mesmo qualquer cuidado com as crianças ou os velhos. Tudo é planejado para a azáfama do capital e os caminhos só levam ao trabalho. Lazer é para poucos. Se a pessoa não tem carro, então, baubau. Resta o girar em torno da quadra, no geral em solidão, pois os muros são altos e as pessoas estão fechadas nas suas casas.

As crianças ainda recebem algum cuidado, afinal, elas serão os braços do amanhã. Por isso há creches, escolas e alguns parquinhos mal cuidados. Mas os velhos, esses não têm mais nada para dar. Já foram sugados de todo. Não geram mais valor. Então, que se fodam.  Para eles, não há espaços de lazer, não há cuidados, não há nada. Cada família que se vire. E o destino da maioria é ficar dando tratos ao nada, sozinho, em alguma varanda, quando não, trancado em algum quarto.

Cuidar de um velho é um desafio. Não temos mapas, não nos preparamos, não sabemos como fazer. Tudo é feito às escuras, tateando, errando e acertando.  O que temos nas mãos é um cristal, frágil, delicado, qualquer aperto quebra. Com eles não são válidas as didáticas e as pedagogias infantis. Eles já cruzaram todo o caminho e, se estão esquecidos, não se perderam de todo. Então, há que ser cuidadoso. Por vezes demoramos horas para arrancar um sorriso e é preciso muita paciência para enfrentar os ataques de mau humor, a impaciência e a tristeza.

Com meu pai tenho aprendido. Não é fácil. Penso que eu, ainda tenho a sorte de contar com a ajuda dos que vivem comigo, meus sobrinhos e meu companheiro. Mas me angustia saber que nesse mundão de deus tem uma carrada de velhinhos perdidos e sozinhos, porque as famílias não têm a menor condição de cuidar. Há que prover a vida, há que trabalhar, há que moer o corpo na roda do capital. Não é culpa de ninguém, é a porra da vida que não abre saídas.

Essa é outra batalha que temos de travar. Arrancar do poder público garantias de cuidados para aqueles que já atravessaram o grande deserto. Dura batalha num país que hoje discute justamente o contrário, buscando tornar a velhice ainda mais cruel, sem aposentadoria digna, sem amparo. E ainda temos de aturar propaganda de previdência privada falando em "melhor idade". 

Definitivamente precisamos de revolução. Pelos que ainda não vieram e pelos que insistem em ficar, mesmo quando o sistema de moer gente os quer excluir. 


quinta-feira, 11 de maio de 2017

Sobre obrigada e gratidão...



Já faz algum tempo que pessoas que vivem a minha volta incorporaram a palavra “gratidão” quando querem agradecer alguma coisa... Um dos argumentos, me disse um amigo, é o de que a palavra “obrigado”, dá um sentido de obrigação. E que as coisas que as pessoas fazem graciosamente por alguém não podem obrigar que o outro tenha de retribuir ou pagar. Por isso, gratidão. Eu, que tenho sangue e alma indígena, nunca gostei muito dessa explicação. Sigo usando o “obrigada”.

Explico o porquê disso. Na cultura dos povos originários de toda a franja oeste da América Latina existe um elemento fundante da cultura e do modo de ser que é a reciprocidade. Ou seja, a cada coisa que alguém faz para outro alguém, deve corresponder um ato recíproco. Isso quer dizer que o nosso “obrigado” deveria ser mesmo a promessa de uma obrigação. Fazer pelo outro algo tão bom quanto foi feito para nós. Porque na cosmovisão originária, a reciprocidade não é um ato de vontade individual, mas um dever cósmico, coletivo, que reflete a ordem universal da qual o ser humano é parte. Assim que a reciprocidade também deve existir  entre os humanos, os humanos e a natureza, os humanos e as divindades. É isso que determina o senso de justiça. A ética cósmica. Por isso que se dá pago à terra e se oferecem graças aos deuses e aos animais.

Assim que mais do que nos sentirmos agradecidos, sempre que alguém nos fizer algum bem, temos de nos sentir obrigados, sim... Obrigados a estabelecer uma reciprocidade com aquele “bem”, mantendo assim o equilíbrio no cosmo, na vida.

Falo isso porque hoje percebi que o facebook colocou um botãozinho de “gratidão”. E fico cá comigo pensando se isso não reforça esse absurdo individualismo que toma conta de nossa sociedade. Aceitar o “bem” sem que nos sentirmos obrigados a uma recíproca? Apenas fruir o que nos agrada sem se sentir obrigado a manter o equilíbrio cósmico? Talvez não, talvez sim... 

Sei lá, ainda prefiro a sabedoria ancestral dos meus  antepassados, que me é sussurradas na noites desse meu lugar. E, amorosamente, prefiro seguir com meu “obrigada”, sempre obrigada a retribuir, de alguma forma, todo o bem que me é dado, seja pelos humanos, pelos bichos, pela natureza, pelos deuses... Na corda bamba intergaláctica, equilibrando o cosmo.



terça-feira, 2 de maio de 2017

30 anos - uma vida



Eu tinha acabado de chegar a Florianópolis para fazer a faculdade de jornalismo. Era 1987. Dividia um apartamento, no mítico Itambé, próximo à UFSC, com mais três colegas de aula. Dias duros, sem trabalho, precisando pagar as contas. Então um deles arranjou uma namorada. E ela entrou na minha casa e na minha vida como uma rajada de vento. Era maio. De cara eu não gostei daquela guria magrela, alta, de olhos rasgadinhos e de cabelos radiantes como o sol. “Filha de milico, arg! Boa coisa não pode ser...” Era eu destilando meus pré-conceitos.

Toda vez que ela vinha eu repetia minha cara blasé. De pura nojentice. Não queria criar laços.

Mas, sem eu querer, a guria foi entrando. O namoro com o colega acabou, e a gente seguiu amigas. Ano após ano, construindo uma relação de amor. Conflituosa, às vezes, mas capaz de resistir a todas as tormentas. Ela parece que tem um radar, capaz de sentir desde longe, quando a tristeza me vem. Então liga, e sua voz apascenta minha alma. Sempre foi assim.

Tem uma qualidade única, coisa jamais vista. Ela me liga quando está feliz, quando vive algum momento estelar, quando transborda de contentamento. Como o menininho do texto do Galeano, ela repete o “me ajuda a olhar”, na presença do infinito. Somos capazes de ficar em silêncio quando tudo é grande demais, e podemos morrer de rir de coisas idiotas, que só nós compreendemos.

Nossa amizade é feita de pequenas e grandes coisas, de alguns vazios, de cumplicidade amorosa, de cuidados, tanto na dor quanto na alegria. Ela conhece meus tormentos, minhas escuridões. E nunca foi capaz de se perder de mim, nem quando me faço insuportável.

Desde aquele maio de 1987 vamos caminhando nesse mundo. Separadas geograficamente, mas sempre antenadas com o que se passa da vida da outra. Amizade sólida, pétrea, que não se esboroa.

São 30 anos de bem-querença e eu rendo graças aos deuses por um dia ter deixado aquela compridona entrar no Itambé, no meu coração e na minha vida.

Te amo, Catarina Gewehr, mulher/vento/sol. E te agradeço, por sempre estar...

   

domingo, 30 de abril de 2017

Não é o método, são os motivos



Na Venezuela, "opositores"

 No Brasil, "vândalos"

Certa vez um amigo me dizia que colocar fotos de palestinos mortos nos atos pela Palestina não era bom. Afastava as pessoas. Ninguém quer ver tragédia, argumentava. Eu fiquei muito tempo pensando sobre isso, tentando encontrar outras formas de falar sobre a Palestina ocupada e violentada. Mas não havia. Eu então me perguntava. Mas por que tanta gente assiste a esses programas horríveis, de mortes e tragédias? Se não gostam de vê-las, por quê?

O mesmo se dá com o lance dos vândalos. Quando os que quebram e depredam estão na Venezuela, são “opositores”. Se isso acontece no Brasil, contra a reforma da Previdência, são vândalos. 


Ora, não é preciso a gente ser muito inteligente para se tocar. Não é o método. São os motivos. Se alguém sai às ruas botando fogo em prédios públicos, carros de polícia e machucando pessoas, mas o faz contra o “ditador” Maduro, tudo bem. São até transformados em heróis. Vejam o caso do ex-prefeito de Chacao, Leopoldo Lopez, que é tido como um “prisioneiro político” pela direita mundial. Incitou o povo à violência e foi o responsável por mais de 40 mortes.


Mas, no Brasil, se as pessoas quebram vidros, queimam ônibus, ou se defendem com pedras de uma polícia assassina, são chamados de vândalos. E as carolas destilam seus ódios pelas redes sociais, desejando que jovens morram, porque não deveriam estar na rua lutando contra a ditadura do capital. 


São dois pesos e duas medidas. Noam Chomsky já desvendou essa dupla mirada que existe principalmente nos meios de comunicação. No seu livro “Guardiões da Liberdade” ele mostra como os inimigos dos Estados Unidos são mostrados como bandidos, à exaustão. E os inimigos dos amigos dos EUA também. Já os amigos que fazem coisas ruins, aparecem muito rapidamente, numa nota de roda pé. E olhe lá. 


A questão deve ser vista então sob um olhar de classe. Todos aqueles que lutam contra o sistema capitalista estão a favor dos trabalhadores, tem um lado claro, sem rugosidades. E os que atacam os governos progressistas ou socialistas, mesmo que sejam pobres, estão ao lado da classe dominante. Escolheram um lugar. E não é do lado dos trabalhadores. Preferem seguir comendo as migalhas da mesa do banquete dos patrões. 


Por isso os jovens venezuelanos “guarimbeiros” aparecem na mídia como defensores da liberdade. É uma verdade isso aí. Só que a liberdade que eles estão a defender é a de meia dúzia de milionários que os descartarão tão logo cheguem ao poder. Ou o manterão apenas como subalternos, cães de guarda.


Já a nossa juventude que se arrisca no confronto com as forças da repressão, são os “comunistinhas vagabundos”, os que estão “pedindo para levar”. E se por acaso se ferem gravemente ou morrem, os bons cristão proferem a sentença: bem-feito, quem mandou fazer baderna. E se quebram o vidro de um banco então, deus nos acuda. Pobrezinhos dos bancos. São tão pobres que precisam ter suas dívidas de 25 bilhões perdoadas pelo governo. Claro, o governo pode tirar do trabalhador. 


Então a parada é simples. Não importa como a gente faça a luta. Se nossos motivos forem as lutas contra o capital ou contra a classe dominante, a ideologia que é vomitada pelos meios de comunicação sempre nos colocará como bandidos. Ainda que entreguemos flores, como foi o caso de uma ciclista em São Paulo. Ela ofereceu flores ao prefeito João Dória e ele indignou-se, jogou tudo pela janela. Pois não é que teve gente que achou bom? Na visão dessa gente a garota e seu gesto de paz era apenas “uma ridícula”. Pois é. Insisto: não é o método, são os motivos.




Belchior.. até logo!!!



Eu tinha 17 anos. Tinha acabado de chegar à pequena cidade de Pirapora, Minas Gerais, para onde fôramos meio que fugidos da ditadura militar. Não tinha amigos, não tinha nada além de um velho toca-discos dado pela minha tia Zaíra. Era uma mudança muito radical. Desde o Rio Grande, onde tínhamos uma vida boa, para Minas, passando todas as necessidades. Minha mãe tuberculosa, meu pai tentando sobreviver, e nós, os três filhos, perdidos num universo cultural tão diferente.

Foi ali que eu encontrei o Belchior. Seu disco “Alucinação” tinha sido comprado por mim quase ao acaso. Saída da fronteira com a Argentina, gaúcha, charrua e paysana, sua música “Apenas um rapaz latino-americano” me emocionava demais. Era eu mesma naquela canção. E eu a cantava entre lágrimas.

Cada uma de suas músicas atiçava meu coração e minha mente. Viver coisas novas, amar e mudar as coisas, não ser como nossos pais. Na velha casa da rua Argemiro Peixoto eu sonhava em sair pelo mundo, feito faca, cortando a carne daqueles que eram os vilões do amor. Naqueles dias, passávamos as tarde de sol no Xangô, um bar em frente às duchas do rio São Francisco. E lá também estava Belchior. Olhava aquele rio cheio de caixões e corredeiras e sabia que a vida era muito mais do que estar ali, vendo a água passar.

Um dia, então, peguei minha mochila e saí para o mundo. Nunca mais voltei. Tinha seguido aquela canção do garoto de Sobral. Sabia que era preciso mudar as coisas.

Belchior incendiou minha vida, minha mente, meu caminho. E entre as chamas eu segui, esquivando e esgrimindo as coisas ruins. Toda minha vida teve Belchior como trilha sonora, sempre... E quando ele andou sumido, fazendo coisas doidas, eu sorri. Ah, Belchior! Tu podias tudo, poeta, amigo, louco sonhador, mente inquieta, rebelde. Sentia tua falta, mas tu já eras eterno. Bastava um clique e ali estavas.., Com tua poesia cortante, nos empurrando para frente.

Hoje, quando enfim entendi que já não estavas mais nesse plano, chorei sem parar, horas e horas. Vinhas fazer parte de uma série de perdas que me estão corroendo a alma. Chiquinha, Bartolina e agora, contigo, minha juventude, parte de minha vida toda. O outono da vida me pegou, tantas dores, tantas perdas, inclusive a de mim mesma.

Mas é o mesmo Belchior que nos instiga: Não sou feliz, mas não sou mudo... Hoje eu canto muito mais. As coisas que nos dilaceram, nos corroem, nos paralisam, são parte dessa vida humana, demasiado humana. Mas, é preciso seguir...

Tu encantas Belchior... tua obra gigante fica... E a gente segue, até que chegue nossa hora. Porque a noite eu tenho um compromisso e não posso faltar... 



sábado, 29 de abril de 2017

Sobre ser trabalhador em mais um dia de trabalhador

Foto: Rubens Lopes

Imagine a seguinte situação. Tu fazes um contrato com teu patrão. Tu trabalhas 30 dias e ele te paga até o quinto dia útil. Assim diz a lei. Qualquer um que trabalha sabe que tudo o que dá nas oito horas que fica no emprego é muito mais do que o valor que recebe no salário. A riqueza que o trabalhador gera é infinitamente maior do que o salário que o patrão paga. A isso chamamos mais-valia. Mas, tudo bem, nem vamos falar nisso.

Vamos só pensar como um contrato comum, sem considerar o roubo de trabalho. A pessoa trabalha os 30 dias e tem o direito de receber no dia combinado.

Pois bem, em vários estados do país isso não está acontecendo. O estado do Rio de Janeiro é um deles. Desde o ano passado que o governo vem atrasando o dia do pagamento. No último mês de março, o salário dos trabalhadores públicos estaduais saiu apenas no dia 18. Mas, as contas não esperam. E os trabalhadores além de receber com atraso precisam pagar multas de todas as contas que estão pendentes. Isso parece certo? Quem de nós viveria isso sem se indignar, sem se revoltar? Afinal, a pessoa está cumprindo a sua parte no trato. Mas o patrão decidiu burlar a lei. E pronto. Nada acontece. É por isso que no Rio de Janeiro os protestos são duros. Esse inferno já passa de um ano. E os próprios policiais que atacam e ferem os trabalhadores vivem o mesmo drama. Loucura pensar que eles mesmos não se revoltem.

No estado de Minas Gerais os trabalhadores estão recebendo o salário em três partes ao longo do mês, e a regra do quinto dia útil tampouco é respeitada desde o ano passado. Nesse mês de abril os trabalhadores receberam a primeira parte apenas no dia 14. E lá se vai o salário nos juros das contas de água, luz, telefone e tudo mais. Já não é mais possível planejar a vida, porque ninguém mais tem certeza se vai ou não receber o salário. No Rio Grande do Sul isso também acontece.

E isso está acontecendo agora, antes mesmo da reforma trabalhista do Temer que prevê o negociado valer mais do que a lei. Agora imaginem como será a vida dos trabalhadores se não houver uma lei que os ampare no mais mínimo? O patrão vai decidir o que fazer, como fazer e quando fazer. Não há negociação entre quem tem os meios de produção e os que têm apenas a força de trabalho para vender. O que vai acontecer é que o patrão vai tirar muito mais do trabalhador do que já tira agora.

E não me venham com esse mimimi que trabalhador público não trabalha. Ora, se o país está funcionando é porque os trabalhadores estão trabalhando. Não fosse assim, estaria tudo parado. Estradas estão sendo feitas e mantidas, hospitais, postos de saúde, escolas, serviços administrativos, coleta de lixo. Tudo.  Pode não ser o melhor serviço público, mas não é culpa do trabalhador. Se forem a fundo verão que o que falta mesmo é investimento nos setores públicos e que é a mão de obra (os trabalhadores) a que garante o mínimo que ainda temos. Certo, tem um que outro que é vagabundo, mas isso tu vais encontrar no mundo privado também. Então me poupem.

O que se viu no Rio de Janeiro foi o ensaio da barbárie que vai ser tornar o país com a desregulamentação das leis trabalhistas. E isso não foi só agora na Greve Geral, desde que os trabalhadores públicos estaduais começaram a ter seus salários atrasados eles têm lutado e enfrentado a fúria da repressão. E vejam, eles querem apenas ter os salários pagos em dia.

O governo diz que o estado está quebrado e que não pode pagar o salário no prazo. Mas a culpa do estar quebrado não é do trabalhador. O que quebra o estado são os empresários – no geral, amigos dos governantes – que não pagam os impostos ou então as dívidas ilegais e ilegítimas contraídas sem  o conhecimento dos contribuintes. Isso é público e notório.

Por que cortar na carne do trabalhador e não cobrar os empresários? Quem tem mais condição de aguentar um baque financeiro? Os responsáveis pelas dívidas do estado são os que têm de pagar.

Mas, no sistema capitalista de produção, não há compaixão para com o trabalhador. Ele existe apenas para gerar a riqueza que aquecerá o rico. Com o trabalho do trabalhador ele seguirá mais e mais rico. Não importa que massas de gente pereçam. Sempre haverá corpos se oferecendo para a exploração. Os capitalistas não se emocionam com famílias inteiras sendo despejadas para que um terreno seja limpo para a construção de um xópin. Não. Não se emocionam com gente se matando porque não consegue pagar o aluguel ou dar comida aos filhos. Não.

Então, aos trabalhadores só restam duas opções. Ou se mantém como escravos desse sistema que não lhes leva em conta, e que mais dia menos dia vai lhes descartar, ou se rebelam e procuram construir outro modo de organizar a vida.

Essa é a parada, amigos. Temos de escolher.

Que esse dia primeiro de maior sirva para a gente pensar sobre isso.

Tu, que vive de salário, para e pensa. O que aconteceu no Rio de Janeiro, com a polícia atacando os trabalhadores até mesmo no palco onde falavam sobre seus problemas não é uma coisa isolada. É o que está posto para cada um de nós. Bordoadas na cabeça, como a que feriu o jovem em Goiás, bombas e gás na cara, quando não, tiros. Para que aceitemos a escravidão e a morte sem rebeldia.

Há os que lutam. Pelo menos, respeita. Porque esses, quando conquistarem o direito de bem viver, o garantirão também para ti. 

sexta-feira, 28 de abril de 2017

A greve foi um sucesso


Foto: Rubens Lopes - Em Florianópolis a greve reuniu mais de 20 mil pessoas

Digam o que disserem os meios de comunicação comercial, a greve geral desse dia 28 foi um sucesso. Desde a madrugada os trabalhadores começaram a se mobilizar em cada canto do país. Das grandes cidades até os recantos mais escondidos saltaram as vozes e as bandeiras de luta. Os trabalhadores sabem muito bem o que está em jogo: fim da aposentadoria, fim dos direitos. É simples.

Agora o desafio é manter a mobilização acesa. A reforma trabalhista já passou na Câmara dos Deputados e deve passar pelo Senado, possivelmente com a mesma velocidade. Isso significa que em uma semana tudo poderá estar decidido. Como os atos dessa sexta foram na maioria pacíficos, talvez não sejam suficientes para tocar os senadores. E ainda que o presidente da casa tenha se manifestado, aparentemente contra a retirada dos direitos, quem pode saber? Quantos jantares no palácio não rolarão e quantas notas verdinhas não passarão por baixo do pano? Vai-se saber... Por isso não dá para baixar a guarda.

A movimentação desse dia 28, que a televisão golpista insistiu de chamar de “confusão” mostrou que a população está atendendo ao chamado da luta. Por alto, mais de 35 milhões de pessoas foram às ruas, fora aquelas que não chegaram aos atos, mas que, mesmo em casa, estavam apoiando. Gente demais para ser ignorada.

Apesar de a ideologia dominante ainda manter cativas algumas pessoas  na ideia de quem estava na rua era “vagabundo”, uma mirada cuidadosa na realidade já mostra que não foi bem assim. Vieram para as ruas os padres, as freiras, os trabalhadores do metrô, os motoristas, os funcionários públicos, as faxineiras, os estudantes, o pessoal do escritório e até os comerciários. As grandes cidades ficaram com seus centros vazios, as lojas não abriram, aeroportos não funcionaram. E bueno, se as coisas não funcionaram é sinal de que precisa ter alguém para fazê-las funcionar. Logo, os que pararam não são vagabundos, são os trabalhadores, os que verdadeiramente geram a riqueza de qualquer país.

O tamanho do inimigo finalmente juntou toda a esquerda e os atos aconteceram de forma unificada. A força da mobilização foi tão grande que quebrou a empáfia de alguns governantes que anunciaram antes que iriam fazer e acontecer. Tiveram que se curvar ao povo em luta. Foi o caso do prefeito de São Paulo.

No Rio de Janeiro a batalha foi feroz. E não é para menos, os trabalhadores estaduais vem enfrentando sistematicamente os atrasos nos pagamentos de salário. No mês de março, o dinheiro saiu só no dia 18, enquanto todas as contas são cobradas até o quinto dia útil. Era certo que lá haveria grande disposição. E, como sempre, também grande disposição da polícia em criar o tumulto. Tem sido assim desde o ano passado quando começou o atraso nos salários. Em vez de resolver o problema dos trabalhadores, o governo manda a polícia bater naqueles que protestam, indignados. E ainda há gente que acuse os cariocas de “vandalismo”. Ficar sem o salário para pagar as contas não seria um vandalismo maior?

Certamente nos meios de comunicação esse será o tema principal. Os “vândalos” do Rio. 

Nas mídias, que seguem paternalmente amparadas pelo dinheiro público da publicidade governamental, o discurso reproduzido à exaustão será de que o movimento só causou transtorno, que as pessoas “de bem” foram impedidas de trabalhar por conta da ação de vagabundos, e que a reforma trabalhista é boa e vai aumentar as chances de emprego. Mentiras que não poderão se sustentar diante da realidade. Quem teve acesso a outras informações pelas redes sociais, ou mesmo aqueles que viram passar as gigantescas manifestações em todos os lugares saberão que nesse dia 28 as gentes se levantaram e que estão contra as reformas de Temer e do “bonde” do Congresso.

Agora, é fazer esse bolo crescer e transbordar, para que os políticos sintam que estão esticando demais a corda. Ou para a reforma ou os trabalhadores saberão o que fazer. O ensaio foi bonito.  


segunda-feira, 24 de abril de 2017

Bartolina Sisa



Foi embora de mansinho... como lhe era típico. Amanheceu no domingo, dentro da casinha do cachorro. Parecia dormir, mas já estava encantada. Não gostava de pegação. Nada de colo, de nhumi nhumi, carinhos. Qualquer tentativa era brindada com boas unhadas. “Deixem-me só”, miava gretagarbodianamente. E partia, caminhando levinha, aboletando-se em alguma cadeira, refestelada. Era a mãe de todos os gatos. Ao todo deve ter dado umas 18 crias, todos sapequeando no meu quintal. Amarelinhos, branquinhos, pretos, cinzentos. Cada um deles com seu jeito amoroso e independente. Sobreviveu a quase todos. Agora ficaram apenas quatro, também seus filhos. Plantei-a no jardim, como todos, em meio a miados de tristeza e lágrimas de dor. Foram 13 anos de amor e parceria. Foi bom demais. Gracias, Bartolina...Nos veremos no céu dos gatos, pois certamente eu pularei pra lá...

O papel do Estado nas garantias sociais e o significado da desaparição desse Estado



Comentário no Informativo Paralelo, uma produção da Cooperativa Desacato Sobre o desmonte do estado é preciso deixar bem claro aos ouvintes. Vivemos num estado capitalista. E o que é um estado capitalista? Marx foi o que melhor o descreveu: é nada mais, nada menos do que um comitê de negócios da burguesia, que é a classe dominante. O estado existe para servir aos poderosos. Tudo é para eles. O estado se organiza para tornar a vida dos que já são grandes, melhor. E nesse estado capitalista, o que é oferecido aos trabalhadores, aos desempregados, aos sem-terra, sem-teto, os sem-nada? Pouca coisa. Na verdade, migalhas. E elas só aparecem quando o estado está em algum pico de crescimento e bonança. Quando acontece qualquer coisa que pode diminuir o lucro dos ricos, o próprio estado começa a gritar: é a crise, é a crise. Na verdade, não há crise, pelos menos não para os ricos. A crise sempre é para aqueles que já são empobrecidos pelo capital. Se os lucros diminuem, a saída que os governantes encontram é espremer os trabalhadores, já que são esses os únicos que criam riqueza. É do trabalho que nasce o lucro. Assim, os serviços que o estado oferece aos empobrecidos durante os tempos gordos, vão desaparecendo. É assim com a saúde, com a educação, a moradia, a segurança. Hoje estamos vivendo um tempo assim. Por conta de mais uma crise do sistema capitalista,que já não tem mais para onde se expandir, os lucros diminuem e aí, para que os ricos permaneçam ricos é necessário cortar na carne dos trabalhadores. Por isso vem a reforma da previdência, que estende o tempo de contribuição e praticamente impede os trabalhadores de se aposentar. E também por isso vem a reforma trabalhista que é para tirar dos trabalhadores direitos já conquistados. O estado assim vai retirando benefícios dos empobrecidos para garantir a boa vida dos que já são ricos. Basta olhar os noticiários para ver a verdade. As declarações dos donos da Odebrecht são muito claras. São as grandes empresas as que dirigem de verdade os destinos de um país. O estado – e seus governantes – apenas gerenciam os interesses dos empresários. Então, deputados, vereadores, governadores e até presidentes são subornados, comprados, muito bem pagos para garantirem que nada toque no lucro das empresas. É por isso que Marx falou da necessidade do fim do estado. E isso só pode acontecer depois que os trabalhadores assumirem o controle dele a partir de uma revolução. Aí quem vai mandar são os trabalhadores. Nesse primeiro momento depois da luta será necessário ainda manter o estado, mas controlado pelos trabalhadores. É socialismo. Porque nessa fase é preciso alfabetizar as gentes sobre como viver num outro modo de produção. Depois que todos já souberam como é, passa-se ao comunismo, que é momento em que acabam as classes, e aí já não precisaremos de um estado, assim como hoje. Os trabalhadores encontrarão uma maneira de coordenar a vida, sem que precise haver um estado opressor. Essa é a utopia pela qual caminhamos. Mas, hoje, dentro do estado capitalista, é preciso que os trabalhadores estejam unidos e possam apertar e enfrentar o estado – que é dos ricos - para que sejam garantidos os direitos mínimos, como hospitais de qualidade, postos de saúde, remédios, moradia, segurança, direitos trabalhistas.
Já os direitos máximos, que é a garantia de uma vida digna para todos, só virão com a revolução e é por aí que temos de avançar.

sábado, 22 de abril de 2017

O destino manifesto de destruir



Quem estuda a história sabe: desde 1492, quando os espanhóis invadiram a costa de Abya Yala, trazendo com eles a imposição de uma fé e o capitalismo como modo de vida, a vidas das gentes desse grande continente tem sido de grande dor. A entrada dos europeus no espaço que mais tarde ficou conhecido como América não foi um encontro de culturas. Foi uma invasão genocida, afinal, atrás deles vieram a tortura, a escravidão, a morte e o desaparecimento de povos inteiros. 

Assim, nos primeiros tempos, foram esses dois países, Espanha e Portugal, que definiram a vida de todos. Mas, eles, na verdade, não eram os verdadeiros donos da América. Toda a riqueza que tiravam daqui ia para a Inglaterra, que no espaço geográfico da Europa, era quem dominava. Então, para sustentar uma vida de luxo de poucas famílias da nobreza espanhola e portuguesas, o continente americano foi depredado, saqueado e seu povo escravizado. História diferente se deu nos Estados Unidos e no Canadá, para onde vieram famílias de colonos com a finalidade de fixar residência. Mas, ainda assim, essas famílias foram as responsáveis pela morte e destruição de milhões de pessoas dos povos originários.

Quando três séculos depois tiveram início os processos de independência quem se posicionou na retaguarda, pronto para abocanhar as nações recém-libertas, foi a Inglaterra, novamente, agora negociando diretamente com as Américas. E ela pairava sobre a vida de todos, decidindo os destinos das nações. Quem ousava fugir de seu controle, como foi o caso do Paraguai, era arrasado. Foi para colocar o país no lugar de subalterno que a Inglaterra fomentou a guerra contra o Paraguai, da qual vergonhosamente participaram Argentina, Uruguai e Brasil, como testas de ferro do império inglês.

Com o fortalecimento dos Estados Unidos, como nação livre, o pêndulo do poder foi mudando de posição. A nação emergida do colonialismo inglês resolveu ela mesma comandar o destino das gentes no continente. Era seu “destino manifesto”. Segundo seus dirigentes, “deus” havia decidido que agora quem mandaria no mundo seriam os Estados Unidos, e em nome dele, principiaram a tramar contra a soberania de todas as nações. John Winthrop, governador da colônia de Massachussets, em 1630, criou um selo, conhecido como o “grande selo” que rege a lógica daquele país até hoje. Nele, há a figura de um indígena, com um pergaminho saindo de sua boca. Nesse pergaminho está escrito: venham e ajudem-nos. Messianicamente, os colonos que tomavam os Estados Unidos, achavam-se os “ungidos do senhor” com a missão de salvar os hereges e os selvagens.

O grande selo foi a imagem que também comandou a tomada de Cuba, Haiti e Porto Rico em 1898, das mãos da Espanha, e desde então tem sido assim. Os governantes usam desse argumento praticamente religioso e, em nome do que chamam de “intervenção humanitária”, invadem, matam e destroem países inteiros.

Para garantir esse destino manifesto os Estados Unidos tornaram-se uma máquina de matar. Não é sem razão que hoje ele são as maiores autoridades em tortura, usando-a para seus interesses e também exportando os métodos para os países da sua órbita. Foi assim durante as ditaduras militares na América Latina, quando seus homens treinavam os policiais na tristemente famosa “Escola das Américas”.

Hoje, com os meios de comunicação, a ideologia do “venham e ajudem-me” se espalha de maneira viral. Foi o argumento usado para invadir o Afeganistão. Era preciso livrar a população de lá do tremendo mal que era o Talibã. Como se os afegãos não pudessem eles mesmos definir suas vidas. Foi o “venham e ajudem-me” que determinou a invasão ao Iraque, para livrar o povo de lá do ditador sanguinário. E assim poderíamos enumerar cada intervenção dos Estados Unidos, não apenas de agora, mas também do passado.

Estranho destino esse de ajudar, matando e destruindo. Segundo Noam Chomsky, se as informações divulgadas fossem as verdadeiras, o mundo inteiro saberia que o governo mais terrorista no planeta é o dos Estados Unidos. Para ele, o maior ato de terror até hoje foi o que John Kennedy perpetrou com a invasão do Vietnã e da Indochina. Milhões de pessoas foram mortas das maneiras mais cruéis. Naqueles dias, dizia Kissinger, então conselheiro de Segurança Nacional: “tudo o que voa contra tudo o que se move”. Foi um massacre sem igual na história durante os oito anos que durou a guerra, inclusive com o uso de armas químicas, de resultados avassaladores.

Olhando para o Oriente Médio e toda a destruição que vem sendo causada desde a guerra do golfo, só mesmo um ingênuo poderia ainda acreditar na invenção de Winthrop, do “venham e ajudem-nos”. Isso nunca existiu. Os povos originários dos Estados Unidos foram massacrados e nunca pediram para entrar na “civilização”, porque sabiam que aquilo não era bom.

Essa semana temos acompanhado pelos meios de comunicação comercial mais um terrível capítulo dessa enganação. As garras da águia estão sobre a Venezuela, um país que decidiu seguir seu caminho longe da órbita estadunidense. E, por conta disso, tem pago um preço alto demais. Primeiro foi uma tentativa de golpe, financiado e organizado pela inteligência dos EUA na parceria com a classe dominante venezuelana. Não deu certo. Depois, mataram Chávez, e também não deu certo. Agora, financiam uma oposição criminosa que coloca o país dentro de uma guerra econômica, e não satisfeitos ainda promovem o terror. Grupos de jovens são incitados a praticarem atos de terror e violência, chegando a atacar um hospital infantil. Tudo isso sob o argumento de que o “povo” está pedindo ajuda para se livrar do “ditador”.

Um breve recorrido pela história mundial e o que se vê é a história se repetindo. E de tal maneira que parece incrível que ainda há quem acredite na “bondade” dos salvadores do mundo. Tal qual um Midas ao contrário, todos os países onde a “intervenção humanitária” se dá, fica pior. Os lugares são destruídos e se seguem sob o controle dos Estados Unidos, nunca mais se levantam. O Iraque é um exemplo que nos salta a cara. Quatorze anos de matança e destruição. Um dos mais belos lugares do mundo segue em escombros.

O grande selo inventado pelo governador de Massachussets foi uma enganação. Uma piada de mau gosto, a considerar todo o genocídio dos povos originários. É preciso que as gentes saibam de que não há um destino manifesto, muito menos um povo eleito, que se arvore em dominar o mundo. Somos todos um pequeno gênero humano, como dizia Bolívar, povos com suas particularidades, belezas e desafios. Ninguém necessita de um “grande salvador branco”, cada povo pode muito bem se autogerir de acordo com sua cultura e suas tradições.

O “venham e ajudem-me” inventado pelo colono estadunidense é só um engodo para justificar as atrocidades que são praticadas apenas para o saque das riquezas.

No Brasil já tivemos a nossa cota, durante o período militar. E é bom que os brasileiros estudem mais a história para não cair na armadilha. Também para não reproduzir as barbaridades que se ouve e lê nas redes sociais, seja sobre a Venezuela ou sobre a Síria. Não precisa muito, só uma boa observação, para vem quem está nos países dizendo aos EUA, “vem e ajude-me”. São aqueles que, quando no poder, se comportam de maneira imperial, governando apenas para seu grupo de amigos, ignorando aqueles que os ajudaram a garantir o poder.


A Venezuela, a Síria, o Iraque, o Brasil, o Haiti, qualquer país, tem todas as condições de resolver seus problemas sem a intervenção de ninguém, muito menos daqueles que só se ocupam em saquear as riquezas.     


quinta-feira, 20 de abril de 2017

O lugar do corpo na cena



Para Marcos Mazzuco

A nova votação no Congresso Nacional brasileiro, configurada como manobra, aprovou a urgência no projeto da reforma trabalhista. Uma votação no dia anterior derrotara o governo. Eles votaram de novo, até ter quórum para sua vitória. O golpe no golpe, se fazendo cotidianamente, e transmitido ao vivo, pela TV. A ação criminosa dos meios de comunicação cuja função é desinformar, desintegrar, fragmentar, levando a população ao engano e a alienação. O crescimento de figuras como Dória, empresários gananciosos gerindo o estado, escrachando ainda mais a verdadeira verdade que é a de que o estado é o balcão de negócios da classe dominante.

No plano internacional temos a guerra contra a Síria, mais uma obra do império estadunidense, que já tem plantado campos de guerra no Afeganistão, no Iraque, na Palestina, na Somália, no Haiti, e em tantos outros espaços onde age, com armas ou conspirações. A possibilidade de um iminente ataque nuclear no mundo, levando nações à guerra, sem nem saber por quê.

Nossa América Latina sob ataque constante dos “tanques de pensamento” neoliberal e imperial, provocando a desestabilização, a violência, a destruição. É o que se vê na Venezuela, onde a direita, financiada pelos Estados Unidos, forma e arma jovens pobres para destruir a possibilidade de uma nação ser soberana e livre. A perversidade da destruição por dentro. E tudo em nome do enriquecimento de alguns, porque essa molecada que está na rua provocando a violência não terá espaço numa Venezuela “azul” (cor dos esquálidos).

O nosso Brasil, vivendo de maneira clara e concreta um retrocesso abissal. Os direitos dos trabalhadores sendo retirados, a impossibilidade de uma vida digna, a saúde destroçada, a educação entrando na idade média, a violência aumentando de maneira exponencial, os povos indígenas sofrendo novos reveses, perdendo territórios já conquistados, jovens negros morrendo como moscas.

Tudo isso nos coloca um novo/velho problema: qual o lugar do nosso corpo nessa cena?

Os governos petistas que atuaram desde 2003 incentivaram os trabalhadores a acreditar que com eles lá, tudo estava dado. Os corpos em luta – pelo menos uma grande parte - saíram de cena, apostando na institucionalidade. Mas, a realidade mostrou que isso foi um erro. Um governo não pode tirar o povo da rua. Pelo contrário. Tem de fomentar cada vez mais a rebeldia e a radicalidade, porque as mudanças, mesmo as mais pueris, são enfrentadas com violência pela classe dominante. 

Agora aí está. Um golpe atrás de golpe. Um congresso entreguista, que se move a partir dos interesses dos conglomerados empresariais. Tudo contra as gentes, contra os trabalhadores, contra a vida. Votação trás votação, os direitos se perdendo e a classe dominante abocanhando tudo o que há.

Enquanto isso, nas ruas, nos bairros, nas escolas, nas igrejas, nas comunidades, as pessoas estão perplexas, hipnotizadas pela televisão. Há uma paralisia, um estupor. E claro, não é “culpa” das gentes. A responsabilidade é de quem, por apostar no campo institucional, descuidou da formação de base. Um povo capaz de lutar é um povo organizado desde baixo, na cabeça e no coração. E isso significa trabalho, árduo e cotidiano, nos fundões da vida.

Esse é lugar do corpo na cena. O corpo em movimento, nas quebradas, nos bairros, na vida dos trabalhadores. O corpo falante, contando as histórias dos ancestrais, contando das tantas lutas já travadas, dos nossos heróis, nossas heroínas, desvelando as possibilidades de vida boa e digna. O corpo brincante, dançante, festivo, capaz de se alegrar na comunidade, ao mesmo tempo em que aponta caminhos de belezas coletivas e solidárias. Um corpo capaz de seduzir o outro, para além do discurso, mas com o exemplo concreto e cotidiano.

A cena do grande teatro humano é a sinistra globalização do modo capitalista de produção. A luta de classes é o enredo. E o lugar do corpo, do nosso corpo, é junto aos oprimidos, aos de baixo, à maioria. Não importa em qual cantinho da cena estamos: na universidade, no teatro, na música, no sindicato, na igreja. Nesse nosso cantinho singular nosso corpo deve estar em luta. Em luta com os trabalhadores.

E todo esse movimento deve desembocar agora, no dia 28, na Greve Geral. Depois, é ir crescendo, crescendo e crescendo... Para esse ainda-não tão sonhado, para lá mandaremos nosso corpos em luta...




quarta-feira, 19 de abril de 2017

Sobre o Dia do Índio
























Atividade foi promovida pela vereador Renato da Farmácia, do PSOL, e contou com a participação de Cris Tupã e Marcos Karaí, da etnia Guarani.

Aceitei falar hoje aqui na seguinte condição. Primeiro, como uma descendente do povo Charrua, da Banda Oriental, que vicejou junto às duas margens do Rio Uruguai, tanto no lado uruguaio quanto brasileiro. E segundo como alguém que tendo sangue charrua e não renegando a minha condição, tem pautado sua vida na missão de falar aos não-índios  sobre a importância de se conhecer as culturas originárias, para que não se reproduzam os discursos discriminatórios e racistas, tão comuns àqueles e àquelas que desconhecem a realidade desses povos. Importante ressaltar que a chegada dos espanhóis e portugueses nas costas de Pindorama não foi um encontro de culturas. Foi uma invasão, violenta e genocida. Mas, hoje, passados mais de 500 anos, os povos originários seguem acreditando, como naquele então, que é possível viver em paz. Apenas não abrem mão de seu direito de ter território e vida digna. 

1 – A primeira coisa a dizer é que essa gente – que muito chamam erroneamente de índios - é a verdadeira dona dessas terras. Digo erroneamente porque essas etnias tem nome próprio: Guarani, Laklãnõ Xokleng, Kaingang, Xetá, Charrua e assim por diante. Eram e são povos com história e cultura. Eles aqui estavam quando chegaram os invasores, eram mais de cinco milhões, e seus espaços foram sendo roubados na ponta da espada e na bala do canhão. Cada pedaço de terra onde hoje estão nossas cidades, as propriedades rurais, as fábricas, tudo, era originalmente desses povos.

2 – Não há qualquer argumento plausível para justificar o massacre desses povos. O que moveu os nossos antepassados brancos foi a sede incontrolável de ouro e riquezas. Em nome disso eles invadiram, mataram, estupraram, violentaram e destruíram tudo o que viam pela frente, incluindo aí grandes civilizações. Em nome de um deus único, o deus cristão, e argumentando que os originários não tinham alma, eles roubaram a vida e a terra de todos eles.

3  - Todo esse processo de invasão e violência não se deu sem luta. Os povos originários resistiram e batalharam contra os invasores desde os primeiros anos da chegada deles às nossas praias. Caciques como Hatuey, Guaicaipuro, Tupac Catari, Tupac Amaru, Sepé Tiaraju e tantos outros empreenderam lutas gigantescas na defesa de seu mundo. Infelizmente foram vencidos e tiveram suas terras roubadas.

4 - Mas, se foram vencidos, não foram extintos. Eles sobreviveram e estão aí. Com a instituição do estado nação, Brasil, houve a tentativa de incorporar esses povos sobreviventes a uma única identidade: a brasileira. Mas, isso não foi possível. Não por eles, que sempre foram muito tranquilos na possibilidade do encontro. A dificuldade sempre foi do lado do branco, que sabendo de seu crime, sempre teve medo. Então, a saída foi desqualificar e aviltar.  Assim, o indígena, mesmo que vivendo na cidade, sempre foi apontado como alguém ruim, perigoso, preguiçoso, inútil. Essa é a ideologia que venceu. E mesmo aqueles que nunca viram um índio na sua vida, que nunca conheceram as culturas originárias, são capazes de reproduzir essa mentira.

5 – O resultado é perverso. O homem branco destruiu o modo de vida do originário e ao mesmo tempo se nega a conviver com ele. Não quer que ele tenha terra, e lhe nega a possibilidade de ser alguém digno de respeito na sociedade branca. É um beco sem saída.

6 – O fato é que contra todas as previsões, os povos originários não se acabaram e nem se aculturaram. Eles sobreviveram à extinção e se fortaleceram como povo. De cinco milhões na época da invasão a 180 mil no final dos anos 60 do século passado, eles passaram para 300 mil nos anos 80 e agora já são quase um milhão. Contra todas as previsões de desejos eles sobreviveram e cresceram. Por isso, hoje, eles querem de volta seus territórios. Porque ninguém pode ser uma cultura sem território. É o território que determina o modo de viver. Assim que nas culturas originárias eles precisam de espaço para caçar, pescar, nadar, fazer suas batalhas, plantar, enterrar seus mortos, dançar, educar os filhos, fazer coisas que a comunidade branca não consegue compreender porque não é o seu modo de vida. Os brancos podem viver apertados numa quitinete ou morar numa cidade sem mobilidade. Uma comunidade originária, não. Então, porque se nega a eles seu território? Se sabemos que foi roubado? Se conhecemos a história? Por quê? 

7 - Os povos originários não querem tirar a terra dos brancos, não querem sua fazenda, sua casa, seu quintal. Não. Eles sabem que já não é mais possível viver aqui nesse espaço, sem a presença dos brancos. Afinal, são 500 anos de convivência forçada. Mas, eles querem um espaço para viver conforme seus costumes e tradições. Um espaço grande, que lhes permita viver de verdade. Seus espaços tradicionais, com água pura, florestas, terra fértil. Esse espaço existe e pode ser ocupado pelos povos autóctones.

8   - Mas, há uma grande barreira nisso tudo: vivemos no sistema capitalista de produção. E, para o sistema capitalista essa proposta de vida dos originários é inconcebível. No sistema capitalista as pessoas existem para serem trabalhadoras, para vender sua força de trabalho a  algum patrão. Isso fará com seja gerado valor, e isso será o lucro do patrão. Ninguém ficaria rico se as pessoas trabalhassem para si ou vivessem coletivamente em comunidade. A riqueza só é possível com a exploração do trabalhador.

9 - Por isso, para os que controlam o sistema, o índio é um inútil e tem de ser destruído. Só que o índio não é um inútil. Ele só não quer ser um trabalhador aos moldes do capital. Ele não quer vender sua força de trabalho. Não quer gerar riqueza para uma pessoa que ele nem conhece. Não. O indígena quer viver na sua terra, na sua comunidade, trabalhando para o bem viver de todos os seus, em equilíbrio com a natureza. E por favor, isso não significa que ele queira andar pelado, de arco e flecha, como nos tempos primitivos. As comunidades estão convivendo há 500 anos com o mundo branco, e durante todo esse tempo eles foram obrigados a gerar valor, a vender sua força de trabalho para poder comer. Portanto eles têm direito a todas as maravilhas criadas pela tal “civilização”. Essas maravilhas são deles também. Então não venham com esse mimimi de que índio usa celular, computador e tudo mais. Sim, ele usa. Não parou no tempo. As culturas avançam e o índio não está cristalizado na floresta.

10 - O real motivo da guerra contra os índios hoje é o mesmo que moveu portugueses e espanhóis no final do 1400: riqueza. Se o índio não quer gerar riqueza para o capital, que desapareça. Os grandes senhores brancos que dominam espaços como esse, de poder, não querem que essa gente seja uma cunha de “mau exemplo”, exercitando coisas como trabalho coletivo, terras comunais, equidade, solidariedade, cooperação, amor pela natureza, equilíbrio. Isso é coisa de comunista, dizem. Logo, eliminem.

11  - As poucas terras que ainda estão na mãos dos originários somam perto de 12% do território nacional, ou seja, nada. Mas, para desgraça dos povos elas são também cheias de riqueza: madeira, ouro, diamante, nióbio, água. E o agronegócio, a empresa rural insaciável, quer tudo isso para si. Não apenas a riqueza material que está no solo e no subsolo, mas também a força de trabalho que virá do índio expropriado, que expulso da terra e do seu modo de vida, será obrigado a vender sua mão de obra por troca de nada, como os trabalhadores brancos.  Vocês sabiam que os Terena, do Mato Grosso do Sul, vêm como boias-frias para Santa Catarina, na colheita da maça? E que eles ganham pouco mais que nada? Pois é, é índio que o capital quer. 

12 - Então, é por isso que pessoas como Caiado, Kátia Abreu e outros de seu tipo, se tiverem de arrasar cada aldeia, cada comunidade, eles o farão. Não há compaixão no capital.

13  - A má noticia, para eles, os poderosos, é que os originários seguem vivos, crescem, se organizam, mantém acesa sua cultura e sua cosmovisão. Mesmo os mais aparentemente integrados tem dentro de si seu núcleo ético-mítico a lhe chamar. E, convocados, estarão nas fileiras da luta por território e pelo direito de ser quem são.

14  - Conhecer esses rápidos pontos já é um bom caminho para os não-índios. No Brasil, na América Latina, nos Estados Unidos, na África, todo dia tem sido dia de índio. Porque essa gente existe, está de pé e em luta, cotidianamente, ainda que a gente não veja quase nada sobre essas lutas nos meios de comunicação. Assim, compreender esses povos e seus mundos é o primeiro passo para o pagamento de uma dívida que ainda precisa ser cobrada. Mas, o que tem de ficar claro é que os povos originários não querem cobrar o terror da invasão com sangue. O que esses povos querem é o seu território e o direito de viverem em paz. 

O tal diálogo de culturas que muitos dizem ter existido em 1492, e que não existiu, ele ainda é possível. Mas, para isso é preciso uma mudança de postura por parte dos não-índios. Uma mudança que precisa começar. Já é tempo. Uma mudança que se expresse no respeito ao modo de vida originários, e no seu direito ao território. É tempo do pachakuti, como anunciam os indígenas dos Andes. Quando tudo muda. No 1492 os brancos mudaram a vida de quem vivia aqui. Agora é hora de a mudança acontecer no mundo branco. 

Já basta, dizem os zapatistas. Nunca mais o mundo sem nós. E assim é.