segunda-feira, 24 de abril de 2017

Bartolina Sisa



Foi embora de mansinho... como lhe era típico. Amanheceu no domingo, dentro da casinha do cachorro. Parecia dormir, mas já estava encantada. Não gostava de pegação. Nada de colo, de nhumi nhumi, carinhos. Qualquer tentativa era brindada com boas unhadas. “Deixem-me só”, miava gretagarbodianamente. E partia, caminhando levinha, aboletando-se em alguma cadeira, refestelada. Era a mãe de todos os gatos. Ao todo deve ter dado umas 18 crias, todos sapequeando no meu quintal. Amarelinhos, branquinhos, pretos, cinzentos. Cada um deles com seu jeito amoroso e independente. Sobreviveu a quase todos. Agora ficaram apenas quatro, também seus filhos. Plantei-a no jardim, como todos, em meio a miados de tristeza e lágrimas de dor. Foram 13 anos de amor e parceria. Foi bom demais. Gracias, Bartolina...Nos veremos no céu dos gatos, pois certamente eu pularei pra lá...

O papel do Estado nas garantias sociais e o significado da desaparição desse Estado



Comentário no Informativo Paralelo, uma produção da Cooperativa Desacato Sobre o desmonte do estado é preciso deixar bem claro aos ouvintes. Vivemos num estado capitalista. E o que é um estado capitalista? Marx foi o que melhor o descreveu: é nada mais, nada menos do que um comitê de negócios da burguesia, que é a classe dominante. O estado existe para servir aos poderosos. Tudo é para eles. O estado se organiza para tornar a vida dos que já são grandes, melhor. E nesse estado capitalista, o que é oferecido aos trabalhadores, aos desempregados, aos sem-terra, sem-teto, os sem-nada? Pouca coisa. Na verdade, migalhas. E elas só aparecem quando o estado está em algum pico de crescimento e bonança. Quando acontece qualquer coisa que pode diminuir o lucro dos ricos, o próprio estado começa a gritar: é a crise, é a crise. Na verdade, não há crise, pelos menos não para os ricos. A crise sempre é para aqueles que já são empobrecidos pelo capital. Se os lucros diminuem, a saída que os governantes encontram é espremer os trabalhadores, já que são esses os únicos que criam riqueza. É do trabalho que nasce o lucro. Assim, os serviços que o estado oferece aos empobrecidos durante os tempos gordos, vão desaparecendo. É assim com a saúde, com a educação, a moradia, a segurança. Hoje estamos vivendo um tempo assim. Por conta de mais uma crise do sistema capitalista,que já não tem mais para onde se expandir, os lucros diminuem e aí, para que os ricos permaneçam ricos é necessário cortar na carne dos trabalhadores. Por isso vem a reforma da previdência, que estende o tempo de contribuição e praticamente impede os trabalhadores de se aposentar. E também por isso vem a reforma trabalhista que é para tirar dos trabalhadores direitos já conquistados. O estado assim vai retirando benefícios dos empobrecidos para garantir a boa vida dos que já são ricos. Basta olhar os noticiários para ver a verdade. As declarações dos donos da Odebrecht são muito claras. São as grandes empresas as que dirigem de verdade os destinos de um país. O estado – e seus governantes – apenas gerenciam os interesses dos empresários. Então, deputados, vereadores, governadores e até presidentes são subornados, comprados, muito bem pagos para garantirem que nada toque no lucro das empresas. É por isso que Marx falou da necessidade do fim do estado. E isso só pode acontecer depois que os trabalhadores assumirem o controle dele a partir de uma revolução. Aí quem vai mandar são os trabalhadores. Nesse primeiro momento depois da luta será necessário ainda manter o estado, mas controlado pelos trabalhadores. É socialismo. Porque nessa fase é preciso alfabetizar as gentes sobre como viver num outro modo de produção. Depois que todos já souberam como é, passa-se ao comunismo, que é momento em que acabam as classes, e aí já não precisaremos de um estado, assim como hoje. Os trabalhadores encontrarão uma maneira de coordenar a vida, sem que precise haver um estado opressor. Essa é a utopia pela qual caminhamos. Mas, hoje, dentro do estado capitalista, é preciso que os trabalhadores estejam unidos e possam apertar e enfrentar o estado – que é dos ricos - para que sejam garantidos os direitos mínimos, como hospitais de qualidade, postos de saúde, remédios, moradia, segurança, direitos trabalhistas.
Já os direitos máximos, que é a garantia de uma vida digna para todos, só virão com a revolução e é por aí que temos de avançar.

sábado, 22 de abril de 2017

O destino manifesto de destruir



Quem estuda a história sabe: desde 1492, quando os espanhóis invadiram a costa de Abya Yala, trazendo com eles a imposição de uma fé e o capitalismo como modo de vida, a vidas das gentes desse grande continente tem sido de grande dor. A entrada dos europeus no espaço que mais tarde ficou conhecido como América não foi um encontro de culturas. Foi uma invasão genocida, afinal, atrás deles vieram a tortura, a escravidão, a morte e o desaparecimento de povos inteiros. 

Assim, nos primeiros tempos, foram esses dois países, Espanha e Portugal, que definiram a vida de todos. Mas, eles, na verdade, não eram os verdadeiros donos da América. Toda a riqueza que tiravam daqui ia para a Inglaterra, que no espaço geográfico da Europa, era quem dominava. Então, para sustentar uma vida de luxo de poucas famílias da nobreza espanhola e portuguesas, o continente americano foi depredado, saqueado e seu povo escravizado. História diferente se deu nos Estados Unidos e no Canadá, para onde vieram famílias de colonos com a finalidade de fixar residência. Mas, ainda assim, essas famílias foram as responsáveis pela morte e destruição de milhões de pessoas dos povos originários.

Quando três séculos depois tiveram início os processos de independência quem se posicionou na retaguarda, pronto para abocanhar as nações recém-libertas, foi a Inglaterra, novamente, agora negociando diretamente com as Américas. E ela pairava sobre a vida de todos, decidindo os destinos das nações. Quem ousava fugir de seu controle, como foi o caso do Paraguai, era arrasado. Foi para colocar o país no lugar de subalterno que a Inglaterra fomentou a guerra contra o Paraguai, da qual vergonhosamente participaram Argentina, Uruguai e Brasil, como testas de ferro do império inglês.

Com o fortalecimento dos Estados Unidos, como nação livre, o pêndulo do poder foi mudando de posição. A nação emergida do colonialismo inglês resolveu ela mesma comandar o destino das gentes no continente. Era seu “destino manifesto”. Segundo seus dirigentes, “deus” havia decidido que agora quem mandaria no mundo seriam os Estados Unidos, e em nome dele, principiaram a tramar contra a soberania de todas as nações. John Winthrop, governador da colônia de Massachussets, em 1630, criou um selo, conhecido como o “grande selo” que rege a lógica daquele país até hoje. Nele, há a figura de um indígena, com um pergaminho saindo de sua boca. Nesse pergaminho está escrito: venham e ajudem-nos. Messianicamente, os colonos que tomavam os Estados Unidos, achavam-se os “ungidos do senhor” com a missão de salvar os hereges e os selvagens.

O grande selo foi a imagem que também comandou a tomada de Cuba, Haiti e Porto Rico em 1898, das mãos da Espanha, e desde então tem sido assim. Os governantes usam desse argumento praticamente religioso e, em nome do que chamam de “intervenção humanitária”, invadem, matam e destroem países inteiros.

Para garantir esse destino manifesto os Estados Unidos tornaram-se uma máquina de matar. Não é sem razão que hoje ele são as maiores autoridades em tortura, usando-a para seus interesses e também exportando os métodos para os países da sua órbita. Foi assim durante as ditaduras militares na América Latina, quando seus homens treinavam os policiais na tristemente famosa “Escola das Américas”.

Hoje, com os meios de comunicação, a ideologia do “venham e ajudem-me” se espalha de maneira viral. Foi o argumento usado para invadir o Afeganistão. Era preciso livrar a população de lá do tremendo mal que era o Talibã. Como se os afegãos não pudessem eles mesmos definir suas vidas. Foi o “venham e ajudem-me” que determinou a invasão ao Iraque, para livrar o povo de lá do ditador sanguinário. E assim poderíamos enumerar cada intervenção dos Estados Unidos, não apenas de agora, mas também do passado.

Estranho destino esse de ajudar, matando e destruindo. Segundo Noam Chomsky, se as informações divulgadas fossem as verdadeiras, o mundo inteiro saberia que o governo mais terrorista no planeta é o dos Estados Unidos. Para ele, o maior ato de terror até hoje foi o que John Kennedy perpetrou com a invasão do Vietnã e da Indochina. Milhões de pessoas foram mortas das maneiras mais cruéis. Naqueles dias, dizia Kissinger, então conselheiro de Segurança Nacional: “tudo o que voa contra tudo o que se move”. Foi um massacre sem igual na história durante os oito anos que durou a guerra, inclusive com o uso de armas químicas, de resultados avassaladores.

Olhando para o Oriente Médio e toda a destruição que vem sendo causada desde a guerra do golfo, só mesmo um ingênuo poderia ainda acreditar na invenção de Winthrop, do “venham e ajudem-nos”. Isso nunca existiu. Os povos originários dos Estados Unidos foram massacrados e nunca pediram para entrar na “civilização”, porque sabiam que aquilo não era bom.

Essa semana temos acompanhado pelos meios de comunicação comercial mais um terrível capítulo dessa enganação. As garras da águia estão sobre a Venezuela, um país que decidiu seguir seu caminho longe da órbita estadunidense. E, por conta disso, tem pago um preço alto demais. Primeiro foi uma tentativa de golpe, financiado e organizado pela inteligência dos EUA na parceria com a classe dominante venezuelana. Não deu certo. Depois, mataram Chávez, e também não deu certo. Agora, financiam uma oposição criminosa que coloca o país dentro de uma guerra econômica, e não satisfeitos ainda promovem o terror. Grupos de jovens são incitados a praticarem atos de terror e violência, chegando a atacar um hospital infantil. Tudo isso sob o argumento de que o “povo” está pedindo ajuda para se livrar do “ditador”.

Um breve recorrido pela história mundial e o que se vê é a história se repetindo. E de tal maneira que parece incrível que ainda há quem acredite na “bondade” dos salvadores do mundo. Tal qual um Midas ao contrário, todos os países onde a “intervenção humanitária” se dá, fica pior. Os lugares são destruídos e se seguem sob o controle dos Estados Unidos, nunca mais se levantam. O Iraque é um exemplo que nos salta a cara. Quatorze anos de matança e destruição. Um dos mais belos lugares do mundo segue em escombros.

O grande selo inventado pelo governador de Massachussets foi uma enganação. Uma piada de mau gosto, a considerar todo o genocídio dos povos originários. É preciso que as gentes saibam de que não há um destino manifesto, muito menos um povo eleito, que se arvore em dominar o mundo. Somos todos um pequeno gênero humano, como dizia Bolívar, povos com suas particularidades, belezas e desafios. Ninguém necessita de um “grande salvador branco”, cada povo pode muito bem se autogerir de acordo com sua cultura e suas tradições.

O “venham e ajudem-me” inventado pelo colono estadunidense é só um engodo para justificar as atrocidades que são praticadas apenas para o saque das riquezas.

No Brasil já tivemos a nossa cota, durante o período militar. E é bom que os brasileiros estudem mais a história para não cair na armadilha. Também para não reproduzir as barbaridades que se ouve e lê nas redes sociais, seja sobre a Venezuela ou sobre a Síria. Não precisa muito, só uma boa observação, para vem quem está nos países dizendo aos EUA, “vem e ajude-me”. São aqueles que, quando no poder, se comportam de maneira imperial, governando apenas para seu grupo de amigos, ignorando aqueles que os ajudaram a garantir o poder.


A Venezuela, a Síria, o Iraque, o Brasil, o Haiti, qualquer país, tem todas as condições de resolver seus problemas sem a intervenção de ninguém, muito menos daqueles que só se ocupam em saquear as riquezas.     


quinta-feira, 20 de abril de 2017

O lugar do corpo na cena



Para Marcos Mazzuco

A nova votação no Congresso Nacional brasileiro, configurada como manobra, aprovou a urgência no projeto da reforma trabalhista. Uma votação no dia anterior derrotara o governo. Eles votaram de novo, até ter quórum para sua vitória. O golpe no golpe, se fazendo cotidianamente, e transmitido ao vivo, pela TV. A ação criminosa dos meios de comunicação cuja função é desinformar, desintegrar, fragmentar, levando a população ao engano e a alienação. O crescimento de figuras como Dória, empresários gananciosos gerindo o estado, escrachando ainda mais a verdadeira verdade que é a de que o estado é o balcão de negócios da classe dominante.

No plano internacional temos a guerra contra a Síria, mais uma obra do império estadunidense, que já tem plantado campos de guerra no Afeganistão, no Iraque, na Palestina, na Somália, no Haiti, e em tantos outros espaços onde age, com armas ou conspirações. A possibilidade de um iminente ataque nuclear no mundo, levando nações à guerra, sem nem saber por quê.

Nossa América Latina sob ataque constante dos “tanques de pensamento” neoliberal e imperial, provocando a desestabilização, a violência, a destruição. É o que se vê na Venezuela, onde a direita, financiada pelos Estados Unidos, forma e arma jovens pobres para destruir a possibilidade de uma nação ser soberana e livre. A perversidade da destruição por dentro. E tudo em nome do enriquecimento de alguns, porque essa molecada que está na rua provocando a violência não terá espaço numa Venezuela “azul” (cor dos esquálidos).

O nosso Brasil, vivendo de maneira clara e concreta um retrocesso abissal. Os direitos dos trabalhadores sendo retirados, a impossibilidade de uma vida digna, a saúde destroçada, a educação entrando na idade média, a violência aumentando de maneira exponencial, os povos indígenas sofrendo novos reveses, perdendo territórios já conquistados, jovens negros morrendo como moscas.

Tudo isso nos coloca um novo/velho problema: qual o lugar do nosso corpo nessa cena?

Os governos petistas que atuaram desde 2003 incentivaram os trabalhadores a acreditar que com eles lá, tudo estava dado. Os corpos em luta – pelo menos uma grande parte - saíram de cena, apostando na institucionalidade. Mas, a realidade mostrou que isso foi um erro. Um governo não pode tirar o povo da rua. Pelo contrário. Tem de fomentar cada vez mais a rebeldia e a radicalidade, porque as mudanças, mesmo as mais pueris, são enfrentadas com violência pela classe dominante. 

Agora aí está. Um golpe atrás de golpe. Um congresso entreguista, que se move a partir dos interesses dos conglomerados empresariais. Tudo contra as gentes, contra os trabalhadores, contra a vida. Votação trás votação, os direitos se perdendo e a classe dominante abocanhando tudo o que há.

Enquanto isso, nas ruas, nos bairros, nas escolas, nas igrejas, nas comunidades, as pessoas estão perplexas, hipnotizadas pela televisão. Há uma paralisia, um estupor. E claro, não é “culpa” das gentes. A responsabilidade é de quem, por apostar no campo institucional, descuidou da formação de base. Um povo capaz de lutar é um povo organizado desde baixo, na cabeça e no coração. E isso significa trabalho, árduo e cotidiano, nos fundões da vida.

Esse é lugar do corpo na cena. O corpo em movimento, nas quebradas, nos bairros, na vida dos trabalhadores. O corpo falante, contando as histórias dos ancestrais, contando das tantas lutas já travadas, dos nossos heróis, nossas heroínas, desvelando as possibilidades de vida boa e digna. O corpo brincante, dançante, festivo, capaz de se alegrar na comunidade, ao mesmo tempo em que aponta caminhos de belezas coletivas e solidárias. Um corpo capaz de seduzir o outro, para além do discurso, mas com o exemplo concreto e cotidiano.

A cena do grande teatro humano é a sinistra globalização do modo capitalista de produção. A luta de classes é o enredo. E o lugar do corpo, do nosso corpo, é junto aos oprimidos, aos de baixo, à maioria. Não importa em qual cantinho da cena estamos: na universidade, no teatro, na música, no sindicato, na igreja. Nesse nosso cantinho singular nosso corpo deve estar em luta. Em luta com os trabalhadores.

E todo esse movimento deve desembocar agora, no dia 28, na Greve Geral. Depois, é ir crescendo, crescendo e crescendo... Para esse ainda-não tão sonhado, para lá mandaremos nosso corpos em luta...




quarta-feira, 19 de abril de 2017

Sobre o Dia do Índio
























Atividade foi promovida pela vereador Renato da Farmácia, do PSOL, e contou com a participação de Cris Tupã e Marcos Karaí, da etnia Guarani.

Aceitei falar hoje aqui na seguinte condição. Primeiro, como uma descendente do povo Charrua, da Banda Oriental, que vicejou junto às duas margens do Rio Uruguai, tanto no lado uruguaio quanto brasileiro. E segundo como alguém que tendo sangue charrua e não renegando a minha condição, tem pautado sua vida na missão de falar aos não-índios  sobre a importância de se conhecer as culturas originárias, para que não se reproduzam os discursos discriminatórios e racistas, tão comuns àqueles e àquelas que desconhecem a realidade desses povos. Importante ressaltar que a chegada dos espanhóis e portugueses nas costas de Pindorama não foi um encontro de culturas. Foi uma invasão, violenta e genocida. Mas, hoje, passados mais de 500 anos, os povos originários seguem acreditando, como naquele então, que é possível viver em paz. Apenas não abrem mão de seu direito de ter território e vida digna. 

1 – A primeira coisa a dizer é que essa gente – que muito chamam erroneamente de índios - é a verdadeira dona dessas terras. Digo erroneamente porque essas etnias tem nome próprio: Guarani, Laklãnõ Xokleng, Kaingang, Xetá, Charrua e assim por diante. Eram e são povos com história e cultura. Eles aqui estavam quando chegaram os invasores, eram mais de cinco milhões, e seus espaços foram sendo roubados na ponta da espada e na bala do canhão. Cada pedaço de terra onde hoje estão nossas cidades, as propriedades rurais, as fábricas, tudo, era originalmente desses povos.

2 – Não há qualquer argumento plausível para justificar o massacre desses povos. O que moveu os nossos antepassados brancos foi a sede incontrolável de ouro e riquezas. Em nome disso eles invadiram, mataram, estupraram, violentaram e destruíram tudo o que viam pela frente, incluindo aí grandes civilizações. Em nome de um deus único, o deus cristão, e argumentando que os originários não tinham alma, eles roubaram a vida e a terra de todos eles.

3  - Todo esse processo de invasão e violência não se deu sem luta. Os povos originários resistiram e batalharam contra os invasores desde os primeiros anos da chegada deles às nossas praias. Caciques como Hatuey, Guaicaipuro, Tupac Catari, Tupac Amaru, Sepé Tiaraju e tantos outros empreenderam lutas gigantescas na defesa de seu mundo. Infelizmente foram vencidos e tiveram suas terras roubadas.

4 - Mas, se foram vencidos, não foram extintos. Eles sobreviveram e estão aí. Com a instituição do estado nação, Brasil, houve a tentativa de incorporar esses povos sobreviventes a uma única identidade: a brasileira. Mas, isso não foi possível. Não por eles, que sempre foram muito tranquilos na possibilidade do encontro. A dificuldade sempre foi do lado do branco, que sabendo de seu crime, sempre teve medo. Então, a saída foi desqualificar e aviltar.  Assim, o indígena, mesmo que vivendo na cidade, sempre foi apontado como alguém ruim, perigoso, preguiçoso, inútil. Essa é a ideologia que venceu. E mesmo aqueles que nunca viram um índio na sua vida, que nunca conheceram as culturas originárias, são capazes de reproduzir essa mentira.

5 – O resultado é perverso. O homem branco destruiu o modo de vida do originário e ao mesmo tempo se nega a conviver com ele. Não quer que ele tenha terra, e lhe nega a possibilidade de ser alguém digno de respeito na sociedade branca. É um beco sem saída.

6 – O fato é que contra todas as previsões, os povos originários não se acabaram e nem se aculturaram. Eles sobreviveram à extinção e se fortaleceram como povo. De cinco milhões na época da invasão a 180 mil no final dos anos 60 do século passado, eles passaram para 300 mil nos anos 80 e agora já são quase um milhão. Contra todas as previsões de desejos eles sobreviveram e cresceram. Por isso, hoje, eles querem de volta seus territórios. Porque ninguém pode ser uma cultura sem território. É o território que determina o modo de viver. Assim que nas culturas originárias eles precisam de espaço para caçar, pescar, nadar, fazer suas batalhas, plantar, enterrar seus mortos, dançar, educar os filhos, fazer coisas que a comunidade branca não consegue compreender porque não é o seu modo de vida. Os brancos podem viver apertados numa quitinete ou morar numa cidade sem mobilidade. Uma comunidade originária, não. Então, porque se nega a eles seu território? Se sabemos que foi roubado? Se conhecemos a história? Por quê? 

7 - Os povos originários não querem tirar a terra dos brancos, não querem sua fazenda, sua casa, seu quintal. Não. Eles sabem que já não é mais possível viver aqui nesse espaço, sem a presença dos brancos. Afinal, são 500 anos de convivência forçada. Mas, eles querem um espaço para viver conforme seus costumes e tradições. Um espaço grande, que lhes permita viver de verdade. Seus espaços tradicionais, com água pura, florestas, terra fértil. Esse espaço existe e pode ser ocupado pelos povos autóctones.

8   - Mas, há uma grande barreira nisso tudo: vivemos no sistema capitalista de produção. E, para o sistema capitalista essa proposta de vida dos originários é inconcebível. No sistema capitalista as pessoas existem para serem trabalhadoras, para vender sua força de trabalho a  algum patrão. Isso fará com seja gerado valor, e isso será o lucro do patrão. Ninguém ficaria rico se as pessoas trabalhassem para si ou vivessem coletivamente em comunidade. A riqueza só é possível com a exploração do trabalhador.

9 - Por isso, para os que controlam o sistema, o índio é um inútil e tem de ser destruído. Só que o índio não é um inútil. Ele só não quer ser um trabalhador aos moldes do capital. Ele não quer vender sua força de trabalho. Não quer gerar riqueza para uma pessoa que ele nem conhece. Não. O indígena quer viver na sua terra, na sua comunidade, trabalhando para o bem viver de todos os seus, em equilíbrio com a natureza. E por favor, isso não significa que ele queira andar pelado, de arco e flecha, como nos tempos primitivos. As comunidades estão convivendo há 500 anos com o mundo branco, e durante todo esse tempo eles foram obrigados a gerar valor, a vender sua força de trabalho para poder comer. Portanto eles têm direito a todas as maravilhas criadas pela tal “civilização”. Essas maravilhas são deles também. Então não venham com esse mimimi de que índio usa celular, computador e tudo mais. Sim, ele usa. Não parou no tempo. As culturas avançam e o índio não está cristalizado na floresta.

10 - O real motivo da guerra contra os índios hoje é o mesmo que moveu portugueses e espanhóis no final do 1400: riqueza. Se o índio não quer gerar riqueza para o capital, que desapareça. Os grandes senhores brancos que dominam espaços como esse, de poder, não querem que essa gente seja uma cunha de “mau exemplo”, exercitando coisas como trabalho coletivo, terras comunais, equidade, solidariedade, cooperação, amor pela natureza, equilíbrio. Isso é coisa de comunista, dizem. Logo, eliminem.

11  - As poucas terras que ainda estão na mãos dos originários somam perto de 12% do território nacional, ou seja, nada. Mas, para desgraça dos povos elas são também cheias de riqueza: madeira, ouro, diamante, nióbio, água. E o agronegócio, a empresa rural insaciável, quer tudo isso para si. Não apenas a riqueza material que está no solo e no subsolo, mas também a força de trabalho que virá do índio expropriado, que expulso da terra e do seu modo de vida, será obrigado a vender sua mão de obra por troca de nada, como os trabalhadores brancos.  Vocês sabiam que os Terena, do Mato Grosso do Sul, vêm como boias-frias para Santa Catarina, na colheita da maça? E que eles ganham pouco mais que nada? Pois é, é índio que o capital quer. 

12 - Então, é por isso que pessoas como Caiado, Kátia Abreu e outros de seu tipo, se tiverem de arrasar cada aldeia, cada comunidade, eles o farão. Não há compaixão no capital.

13  - A má noticia, para eles, os poderosos, é que os originários seguem vivos, crescem, se organizam, mantém acesa sua cultura e sua cosmovisão. Mesmo os mais aparentemente integrados tem dentro de si seu núcleo ético-mítico a lhe chamar. E, convocados, estarão nas fileiras da luta por território e pelo direito de ser quem são.

14  - Conhecer esses rápidos pontos já é um bom caminho para os não-índios. No Brasil, na América Latina, nos Estados Unidos, na África, todo dia tem sido dia de índio. Porque essa gente existe, está de pé e em luta, cotidianamente, ainda que a gente não veja quase nada sobre essas lutas nos meios de comunicação. Assim, compreender esses povos e seus mundos é o primeiro passo para o pagamento de uma dívida que ainda precisa ser cobrada. Mas, o que tem de ficar claro é que os povos originários não querem cobrar o terror da invasão com sangue. O que esses povos querem é o seu território e o direito de viverem em paz. 

O tal diálogo de culturas que muitos dizem ter existido em 1492, e que não existiu, ele ainda é possível. Mas, para isso é preciso uma mudança de postura por parte dos não-índios. Uma mudança que precisa começar. Já é tempo. Uma mudança que se expresse no respeito ao modo de vida originários, e no seu direito ao território. É tempo do pachakuti, como anunciam os indígenas dos Andes. Quando tudo muda. No 1492 os brancos mudaram a vida de quem vivia aqui. Agora é hora de a mudança acontecer no mundo branco. 

Já basta, dizem os zapatistas. Nunca mais o mundo sem nós. E assim é. 

terça-feira, 18 de abril de 2017

No busão... da UFSC ao centro




Saí da universidade por volta das cinco e meia da tarde. Respirei fundo, pois, depois das cinco, já se sabe que o calvário será doloroso. No geral, o ônibus leva uns cinquenta minutos só para ir da biblioteca até a Eletrosul. Não deve dar mais de dois quilômetros. É um martírio. E não há saída. Quem mora longe tem de pegar o ônibus. Não dá para ir à pé e a bicicleta não é opção. Não há ciclovias e não há respeito com quem pedala. Fazer o trajeto na magrela é arriscar a vida, sempre.

Agora para completar a tragédia da imobilidade ainda estão em andamento as obras da duplicação de parte da Edu Vieira. Outra obra inútil, pois duplica apenas um pequeno pedaço do trajeto, que novamente vai engarrafar na Eletrosul. É uma coisa de louco. Talvez fosse bom a gente investigar sobre os contratos da empreiteira que está fazendo o serviço, porque não tem explicação racional para aquilo.

O fato é que depois das cinco e meia os ônibus andam lentos e totalmente lotados. Quem vai em pé sofre demais, ainda mais carregando livros e cadernos. É o terror.

Pois nesse dia uma cena grotesca me jogou no chão. Uma daquelas coisas que nos deixa sem palavras, pelo tamanho do absurdo.

O busão seguia lento, o povo com aquelas caras de desespero, apinhado no corredor. Na catraca, a cobradora, a cada ponto, recitava o mantra: um passinho mais pra trás, por favor, tem mais gente pra entrar. Só que não tinha mais espaço. Nenhum passinho podia ser dado. Todos com aquela cara de bunda, já olhando feio para a moça. Mais um ponto e nem a porta conseguia abrir, de tanta gente. Então, ela, tentando ser engraçada, começou a gritar: olha a barata, olha a barata. Duas garotas que estavam mais a minha frente arregalaram os olhos, cheios de terror. Eu acalmei. Bobagem, não tem barata. Só a tentativa desastrada da guria em fazer as pessoas se apertarem mais.  

Lá na frente a moça sorria de sua própria piada. Só ela, ninguém mais. Eu, que ando com os nervos à flor da pele não consegui reter as lágrimas. Que porra de mundo é esse? Que merda de sociedade a gente criou? Na qual se tem de andar como bicho, olhos no chão, resignados? E ainda tendo de aturar brincadeiras idiotas de quem infelizmente não tem consciência de classe.

Bateu uma tristeza infinita. Porque aquela moça é uma trabalhadora. Deve também pegar o busão cheio para voltar pra casa. E certamente seguirá cabisbaixa e triste como todos nós que levamos quase três horas para chegar a casa depois de um dia de trabalho.

Do meu lado, as garotas rastreavam o chão, ainda sem acreditar que não havia barata. E me olhavam, estranhadas, por conta das lágrimas que corriam devagar. Vontade de quebrar o ônibus e a cara da mulher, que seguia rindo. Tem dias que é uma merda, mesmo... 




28 de abril - dia de parar o Brasil



O Brasil se prepara para uma greve geral no dia 28 de abril. E não é por acaso. Passado um ano do processo que retirou do poder a presidenta Dilma Roussef, conduzido por um Congresso corrupto e baseado unicamente num desejo de vingança do então presidente da casa, Eduardo Cunha, o país vive uma vertiginosa ação de desmonte. Sem nenhum prurido, a classe dominante assumiu o controle, impondo uma avassaladora derrota aos trabalhadores no que diz respeito aos direitos conquistados com longas e dolorosas lutas. Não que essa gente não estivesse no controle, durante os governos petistas, mas as coisas caminhavam mais devagar, com possibilidade de organização e luta. Agora, sem freio e com seus gerentes bem afiados, o processo de desmonte de direitos acontece sem máscaras e de maneira muito rápida.

O Congresso Nacional tem sido o protagonista principal nesse teatro de horrores. Com uma maioria expressiva, desde o próprio processo de impedimento, vem aprovando tudo o que o novo presidente quer. E o que Temer quer é o que quer o conglomerado empresarial industrial e agrário. Às claras, aqueles que deveriam representar a maioria da população, simplesmente viram as costas, ficam surdos às vozes das ruas, e legislam para os pequenos grupos de poder que os elegeram. Votam leis que fortalecem unicamente a classe dominante. Sem máscaras.

Com as denúncias realizadas no âmbito da operação Lava-Jato, a população finalmente se informa, com dados e números, sobre a realidade que desde sempre andamos denunciando: o estado nada mais é do que o comitê de negócios do capital. O estado existe para garantir que os ricos e poderosos sigam ricos e poderosos, seja pela expropriação de direitos dos trabalhadores, seja pela entrega das riquezas nacionais, seja pela sucessão de benesses oferecidas aos empresários nacionais e estrangeiros. Não é sem razão que todas as lutas travadas pelos trabalhadores encontram firme repressão. Vez em quando, se há algum crescimento nos lucros, a classe dominante permite uma ou outra proteção social. Mas, basta que caia a taxa de lucros para que tudo seja retirado. E aí, compram-se os deputados, os senadores, os vereadores, os governantes. Tudo é passível de suborno e corrupção. Ou seja, é da natureza do estado capitalista a corrupção.

Mas, todo o midiático escândalo da Lava-Jato é apenas uma agulha no “generoso” palheiro do sistema capitalista de produção. As propinas distribuídas aos legisladores, ministros e outros dirigentes do balcão do estado, são café pequeno diante das grandes quantias garantidas aos conglomerados nacionais e internacionais. Assim, enquanto os jornalistas de boca-alugada gritam histericamente sobre pagamentos de 10 milhões, dois milhões, 100 milhões, o estado brasileiro vai perdoando dívidas de empresas no valor de 26 bilhões – como é o caso do ITAU – ou 100 bilhões, como o caso das teles. Esse sim dinheiro gordo, que deixa de ser investido na saúde, educação, segurança, moradia, para encher as burras dos capitalistas.

Só que enquanto a mídia coloca no poste, para justiçamento, os peixes pequenos, os graúdos seguem nadando de braçada nas verbas do estado. Apenas o pagamento dos juros da dívida pública leva do orçamento brasileiro quase a metade de tudo que se arrecada. E sobre isso não se vê matéria na TV, nem comentários indignados dos jornalistas das grandes redes, acostumados a serem valentes contra os pobres e os trabalhadores. E uma auditoria nos contratos dessa dívida já deixaria claro o tanto de roubo, de corrupção e de entrega de riquezas se perpetrou desde a ditadura militar, momento em que a dívida começou a crescer vertiginosamente.

Os meios de comunicação não se preocupam em informar à população a totalidade do processo de corrupção que é natural no capitalismo. Limitam-se a fazer barulho com pequenos factoides, mostrando uma ou outra punição, como se isso fosse suficiente. Não é. A grande corrupção segue firme e a todo vapor. Ela é inerente ao sistema. E enquanto o estado perdoa dívidas dos empresários em valores estratosféricos, impõe aos trabalhadores o pagamento de toda essa conta, com aprovação de leis que tiram direitos e enxugam os serviços públicos.

Só no ano de Temer os congressistas congelaram, a seu pedido, os gastos públicos em 20 anos, condenando a maioria da população ao sucateamento de toda rede de serviços de saúde, educação, moradia, segurança, ciência, arte. Aprovaram o projeto das terceirizações que precariza ainda mais a vida do trabalhador e destrói tudo o que é público. Insistem na contrarreforma da previdência que tira o direito da aposentadoria, obrigando o trabalhador a contribuir 49 anos para então pleitear o direito de se aposentar. E, para fechar com chave de ouro, querem realizar uma contrarreforma trabalhista, destruindo tudo o que foi conquistado com sangue no último século.

Aos trabalhadores resta a luta e a organização. Antes de tudo é preciso totalizar esse cenários de desmonte e corrupção. Montar o quebra-cabeças inteiro e não apenas uma parte. A operação Lava-Jato - essa peça midiática -  é só a ponta do iceberg da corrupção do estado burguês. Há que mergulhar no mar de lama do capital e conhecer cada centímetro desse corpo que, para ser forte, precisa do trabalho e da vida do trabalhador.


Só os trabalhadores podem cortar a fonte do crime. Por isso, no dia 28, dia da Greve Geral, é preciso parar a produção, cada máquina, cada empresa, cada espaço de produção de valor. Se são os trabalhadores os que geram a riqueza, só os trabalhadores podem estancar a sangria. Parar é fundamental. Parar geral, travar a máquina do capital, mostrar força e organização. Essa é a única arma capaz de vencer a classe dominante. Há que lembrar: os que dominam conformam apenas 1% da população, os trabalhadores são 99%. Geram a riqueza e são a maioria, logo, o poder é deles. É tempo de usar essa força e esse poder. 


sábado, 15 de abril de 2017

Racismo, preconceito e discriminação



Comentário para o Informativo Paralelo, programa semanal da Cooperativa Desacato.

Assistimos em Florianópolis a dramática passeata dos senegaleses pedindo que lhes deixem trabalhar, que não lhes tomem as mercadorias que vendem nas ruas, que lhes acolham. Senegaleses são africanos que estão em santa Catarina. Como eles, também estão por aqui os haitianos, do vizinho Caribe. Carregam no corpo marcas perfeitas para o racismo, a discriminação e o preconceito. São negros, são pobres, são estrangeiros. Saíram de seus países em fuga, da guerra, da fome, da dor. Tudo o que querem é encontrar um lugar onde possam viver em paz.

Mas, azar o deles, vieram parar num país onde a propalada democracia racial é uma farsa piramidal. Afinal, sem serem estrangeiros, são os negros jovens e pobres aqueles que caem como moscas nas comunidades de periferia, seja pelas balas da polícia, ou pelas balas de seus iguais, submetidos como eles a violência cotidiana de viver num sistema de produção em que para que um viva outro tenha de morrer. Um mundo em que para que um coma, outro tenha de ter fome, para que um more, outro tenha que ser sem teto. É o sistema de produção capitalista, que provoca a guerra entre os de baixo para que os de cima possam seguir vivendo à larga, nas mansões climatizadas, com boas refeições.

O preconceito nada mais é do que o medo. Medo de conhecer, medo de saber, medo de se contaminar com o diferente. O negro africano que chegou à América veio sequestrado, escravizado á força. Era preciso criar a ideologia de que ele era mau. Única forma de fazer com as massas descabeçadas aceitassem aquilo como natural. Mas, no fundo, o que havia era o medo. E se aqueles negros e negras se revoltassem? O que haveria? O que houve no Haiti, revolução.

Então, é por isso que se criam essas ideologias sobre os que dão medo ao poder. Pobre é tudo bandido. Negro é ruim. Índio é preguiçoso, mulher não presta, ciganos são ladrões, árabes são terroristas. É preciso fazer crescer o medo para que as pessoas ditas de bem matem, açoitem, excluam, discriminem, odeiem todos aqueles que não são iguais, seja no modo de vida, ou na servidão voluntária ao capital.

Desmontar o discurso do preconceito não é coisa fácil. São falas construídas desde séculos. Mas, sempre é tempo de começar. Pobres, não existem. O que há são pessoas empobrecidas pelo capital. E não são bandidos. Há bandidos também entre os ricos. Negro não é mau. É só uma pessoa com cor diferente. Sente o mesmo, vive o mesmo, sonha o mesmo. Índios não são preguiçosos, eles apenas vivem de outro jeito, que não é o servindo de mão de obra para patrões.  Mulheres prestam sim. São as que geram a vida e constroem o mundo lado a lado com os homens. Ciganos na são ladrões. São mágicos, nômades, vivem na liberdade. E os árabes, ah, os árabes. Eles são de outra cultura, outra terra, outra forma de ser. No geral de terras invadidas, tal quais as nossas e por isso estão em luta.

Conhecer o outro, saber do outro. Ter a delicadeza de se aproximar sem medo. Isso desmonta o preconceito, o racismo. Há que arriscar. Pode até dar errado, mas no geral dá certo. Faça o teste. Aproxime-se, conheça, toque, acolha, como um dia o fez aquele samaritano na estrada para Jericó. Ele viu o estrangeiro caído e não se perguntou: se eu ajudar, o que poderá me acontecer? Não, ele não teve medo... Fez o contrário, Perguntou-se. Se eu o deixar, o que poderá lhe acontecer. E por amor, o salvou.   


sexta-feira, 14 de abril de 2017

Dia santo


Há muito tempo, na minha infância, quando morava em São Borja, a sexta-feira santa era dia de acordar muito cedo para colher marcela. Tinha que ser antes do sol nascer, pois a erva tinha de ser colhida orvalhada. A mãe dizia que o orvalho representava as lágrimas que Jesus derramara quando morrera na cruz. E assim a gente saia, em bandos, pelos caminhos, sempre mais fora da cidade que era onde as plantas nasciam em abundância.

Voltávamos para casa com os cestos cheios das florezinhas que a mãe guardaria em potes de vidro, para durarem o ano todo. Na verdade a marcela era um remédio que se tomava quando acometia alguma dor de barriga, cólicas de menstruação, ou qualquer outro mal-estar. Por serem bentas pelas lágrimas de Jesus, valiam para quase tudo. Geralmente tomávamos o chimarrão sempre com algumas flores de marcela, o que lhe dava aquele gosto peculiar.

Aqui na ilha não sei onde tem marcela. Mas, mesmo assim acordei cedinho, antes do sol nascer, e colhi algumas folhas de limão. Servirão para cumprir o mesmo papel da marcela, guardadas para que se transformem em folhas bentas pelas lágrimas do homem que andava com as putas, com os ladrões, nos caminhos vicinais. Aquele carinha que pregava o amor, a solidariedade e a compaixão.

Gosto do cumprir algumas tradições da infância, mesmo que reinventadas. É uma maneira de sentir, outra vez, aquele oceânico sentimento de pertencimento e de amor. Uma forma de caminhar, de novo, com a mãe, e sentir o seu toque, ouvir sua voz ou a risada cristalina.

Como dizem os contadores de história, não importa que no caminho da vida, a história mude. O que importa mesmo é o que ela significa. E, sexta-feira santa, para mim tem esse rosto: infância, mãe, marcela, e essa absurda certeza que só existe na fé, de que tudo o que vive é sagrado. 


segunda-feira, 10 de abril de 2017

Sobre o Daniel e o calvário do trabalhador




Causou profunda estranheza que a Pró Reitoria de Desenvolvimento e Gestão de Pessoas da UFSC não tenha definido ainda o destino do trabalhador Daniel Dambowski.  A própria procuradoria já havia encaminhado a decisão para a administração, portanto, o mais provável, devido a todo o debate já realizado e as evidências de perseguição, era que o processo fosse arquivado e encerrado, acabando de vez com o sofrimento do trabalhador. Mas não, foi encaminhado para outra comissão.

A pergunta que fica martelando é: que motivos levam a administração a protelar cada vez mais esse processo visto que ele é marcadamente uma perseguição a um trabalhador que foi atuante em duas greves importantes e no Grupo Reorganiza?

Em vários debates e encontros já foram levantados todos os problemas e ilegalidades que permeiam o processo. Nele constam as avaliações feitas ao trabalhador no seu estágio probatório. E, claramente percebe-se que as avaliações negativas foram feitas de maneira irregular. A última, mesmo, foi feita enquanto o trabalhador estava de licença médica. Como dizer que ele não é assíduo, se ele está em licença. Como dizer que ele não é pontual, se está em licença? Ora. Isso não tem cabimento algum. Como avaliar negativamente o trabalho de alguém que não está?

Esses são apenas alguns pontos. Há outros, já exaustivamente debatidos.

É necessário que a administração realize novas avaliações, com pessoas que não criminalizem as lutas do trabalhador e que possam julgar apenas o seu trabalho como funcionário público. Não há outra solução a não ser essa. É mais digna e a mais correta.

Não é possível que essa administração aceite essa “vingança” desferida contra o Daniel pela administração passada, que sempre agiu com truculência contra os grevistas  da histórica greve das 30 horas. Lembrem que foi a administração Roselane/Lúcia foi a primeira na história a cortar salários, a descontar dias parados e a punir os trabalhadores com processos descabidos.

O mínimo que se espera do novo reitor e sua equipe é que não compactue com essa injustiça.

Que acabe de vez esse sofrimento. Que se faça uma avaliação séria e que se arquive o processo de exoneração. 

sexta-feira, 7 de abril de 2017

Beirando o mar



Hoje fiz um caminho pouco comum. Coqueiros e Itaguaçu, bairros do continente que margeiam o mar. É sempre como um descanso para a alma. A água calminha, as pedras apontando para o céu. Na tarde emburrada, de nuvens cinzentas, as cores do outono assomavam em plena beleza. Pela janela do ônibus, vislumbrando o mar, as imagens enchiam os olhos e vinha àquela paz docinha, que só existe no coração de quem ama demais essa cidade. E na ponta de areia parecia ver – eu e minha mania de ver os mortos – os pescadores do tempo de Othon D´Éça, trançando suas redes, mascando tabaco e falando das lidas do mar. 

quarta-feira, 5 de abril de 2017

O qilin, protetor da bondade


No mercado Pan Jia Yuan


No templo em Xian


Na cidade Proibida

Quando em 2013 passei alguns dias na China, fui perseguida o tempo todo por uma figura em especial, uma espécie de dragão, com enormes chifres e rosto feroz. Para todo lugar onde eu olhava, lá estava ele, representado em escultura ou em pintura. Como eu não falava chinês o jeito foi ficar perguntando à mocinha de uns 28 anos que nos acompanhava como guia. Sabia que não era o dragão clássico, que se vê também representado comumente em vários espaços. Alguma coisa nele me chamava e era muito forte. Por onde passava eu registrava sua figura e o abraçava.

Sou apaixonada pelos povos originários e seja onde for que eu vá imediatamente minha curiosidade se volta para as origens. Imaginei então que se aquele animal me perseguia e me chamava a atenção era porque tinha a ver com o passado remoto da China. A garota que nos guiava não sabia dizer. “Deve ser um deus antigo, coisa que agora não faz mais parte da nossa cultura”. Mas aquilo me encafifava. Se não fazia mais parte da cultura porque ele estava em todo lugar? 

Na visita que fizemos à cidade proibida, memória do tempo imperial chinês, lá estava ele, nos beirais dos palácios, em estátuas espalhadas pelo jardim, por tudo. E nas ruas também o víamos, misturado ao tradicional dragão. Espantou-me ver que a garota não sabia dizer o que ele significava ou mesmo seu nome.  

Em Xian, quando andávamos pelas ruas da cidade fortificada, nos deparamos com um templo magnifico, totalmente dedicado a ele. Naquele passeio estávamos sozinhos, sem guia, e por isso não foi possível a comunicação. Mas era óbvia a reverência que se via por parte das pessoas, visto que o templo era muito bem cuidado e tinha bastante incenso. Ou seja, não eram poucos os que ali acorriam para reverenciar o estranho animal. Logo, certamente era um ser sagrado.

Foi também por puro acaso que passeando pelas ruas de Pequim nos deparamos com um imenso mercado popular. Era o fascinante mercado Pan Jia Yuan, um gigantesco espaço da genuína arte tradicional e popular chinesa, misturado a um animado e diversificado brique, no qual se vendiam desde bonecas quebradas, lembranças de Mao, até as mais finas joias. O pavilhão, é claro, estava totalmente fora dos circuitos turísticos. 

Pois ao adentrar pelos seus portões mergulhamos na China mais verdadeira. Na praça estavam os vendedores avulsos, cada um com seu banquinho e  antiguidades de todos os tipos. Tranquilos e sorridentes eles nos convidavam para sentar e apreciar as coisas, com calma. Não importava que a língua verbal não fosse compreendida – de novo estávamos sem guia - o corpo falava, a mímica, a gente se entendia. Impossível descrever a beleza que explodia ali. O mercado, na sua concepção mais antiga. O olho no olho, a conversa, o regateio, tudo na paz.

E foi ali que, de novo, encontrei o estranho dragão. Estava em todos os lugares e era vendido em profusão, de madeira, de jade, de plástico, feito em tudo quanto era material. Não era possível que aquele animal não fosse algo muito importante para os chineses. Como no mercado praticamente só havia chineses, e muitos era bem velhinhos, eu tive de arriscar ser compreendida. Precisava saber o que era aquele ser, que já me tomara por inteiro.

Foi difícil, mas enfim consegui saber. O animal era chamado de “xilin”, com a grafia em chinês “Qilin”. Era, de fato, uma criatura mítica, oriunda das memórias mais antigas. E sim, era um elemento do sagrado mais profundo da gente do leste asiático. Então, como sempre acontece, lá estava eu de novo encontrando as raízes originárias do sagrado das gentes. Foi um encontro abissal.
Ele está em todas as partes porque os mitos ainda sobrevivem nas gentes, mesmo depois de tanto tempo de esquecimento, visto que com o fim do império e com o advento da revolução comunista, a religião foi apagada. Só que como sempre acontece, os elementos míticos não são coisas que se destroem assim. Eles vivem na memória histórica, na memória afetiva, no DNA.

O Qilin é uma criatura quimérica conhecida não apenas na China, mas em outros lugares do leste da Ásia. Queimar incenso para ele é pedir prosperidade, serenidade e felicidade. As primeiras referências a esse ser datam do século V antes de Cristo e há lendas que contam que o imperador Wu de Han chegou a capturar uma dessas criaturas vivas. 

Há os que dizem que ele é a estilização da girafa, que apareceu na China na dinastia Ming e que foi considerada pelo imperador como uma criatura mágica, capaz de gerar grande poder. Essa parece ser uma boa origem para o mito visto que o Qilin, apesar de seu aspecto feroz, é vegetariano, como a girafa. E também contam as senhoras no mercado que, mesmo sendo grandes, os qilins têm a capacidade de andar na grama sem perturbá-la e sem machucar qualquer ser vivo. Também dizem que sua voz é serena e auspiciosa, quase como o tilintar de sinos. Por isso, sua presença nas casas é sinal de desejos de paz e tranquilidade. 

A mitologia igualmente registra que os qilins tem a capacidade de discernir entre aqueles que são bons e maus, por isso sua figura aparece bastante em cenas de julgamento. Ser abençoado por um qilin é sinal de que se é bom e eles só ficam nas casas daqueles que conduzem sua vida pelo bem. Estando na moradia, o qilin é também proteção, pois podem ficar ferozes se a pessoa que eles abençoam é ameaçada.

As lendas dizem que os qilins só aparecem em corpo vivo para as criaturas muito bondosas, como apareceram para o mítico imperador Amarelo (Huangdi), que é considerado uma divindade dos tempos antigos. Também há registros de que foi um qilin quem previu o nascimento de um dos maiores sábios chineses: Confúcio. 

Saí do mercado com um qilin, é obvio. Comprei-o em jade de uma senhora bem velhinha, que o abençoou diversas vezes, e hoje ele mora na minha casa no altar dos meus afetos.  Por vezes, à noite, sinto-o respirar e caminhar pela habitação com seus passos de lã, mas ainda não o vi em carne e osso. Talvez porque ainda tenha que batalhar muito para chegar ao topo da bondade.

De qualquer forma é bom saber que o qilin guarda minha morada e meu espírito. Os deuses antigos de todos os povos tem em mim um altar. 



segunda-feira, 3 de abril de 2017

O fim do estado de direito, ou quando a ditadura do capital mostra a cara


Houve um tempo em que pareceu possível acreditar que no capitalismo haveria a possibilidade de existir um “estado de direito”. Ou seja, uma organização da vida amparada em leis e direitos, valendo para todos. O tal do contrato social. E assim, os estados garantiram leis de amparo ao trabalhador, benefícios para os velhos, as viúvas, as crianças e os doentes, regras de convício social. Alguns países até conseguiram chegar a algum nível dessa proposta, mas todos do centro do sistema. Até porque quem estuda sabe que, no capitalismo, o centro só é rico justamente porque tem uma periferia empobrecida da qual ele tira tudo o que pode. 

Mas, como a ideologia e a propaganda sempre foram fortes, houve muita gente que acreditou na falácia de que se trabalhassem muito, também chegariam a ter as maravilhas que se apresentavam na velha Europa ou nos estados Unidos. Riqueza, consumo desenfreado, amparo, saúde. Uma bobagem. Isso nunca seria possível num país dependente. Poderia chegar para um grupo bem pequeno de pessoas, pois como diz o teórico Gunder Frank, os países dependentes também conseguem algum nível de desenvolvimento, ainda que seja o desenvolvimento do subdesenvolvimento. E é só. Não há como garantir direitos para todos, pois assim o capitalismo deixa ser o que é: um sistema de exploração.

Assim, na América Latina, quando a revolução cubana iluminou todo o continente com uma proposta diferente da do capitalismo, os que estavam no controle do mundo trataram logo de abafar o perigo. Foi assim que se impôs a ditadura cívico/militar em todo o continente, de cima abaixo. O único direito que tinham os latino-americanos era o de ficarem calados, senão a morte vinha a galope, ceifando a vida dos que se insurgiam.

Nos anos 80 do século passado veio a tal da “democratização”, que foi uma distensão lenta da mão dura militar, passando o comando apenas para o braço civil. A ditadura já não era necessária, o tempo havia passado, Cuba seguia isolada e o sistema capitalista havia desenvolvido mecanismos de sedução que encantavam as pessoas, atraindo-as, sem a necessidade de um governo tão opressor. A liberdade raiou na América baixa, trouxe de volta os exilados, e abriu um tempo de eleições diretas. Votar era possível de novo. Voltava o direito. As pessoas podiam se expressar, fazer oposição, lutar por direitos trabalhistas, aposentadoria, moradia, transporte. Parecia que o “bem-estar” teria uma chance por aqui. Veio uma nova Constituição. A lei haveria de garantir o direito de todos.

Mas, que engano. A lei não vale para todos. Ela é uma construção histórica de uma determinada classe. É a classe dominante que elege seus representantes, e estes fazem as leis. É também a classe dominante que escolhe os juízes das cortes que julgam com base numa lei que sua própria classe fez.  E se a lei é um feito da classe dominante, o que podem os trabalhadores esperar? Que ela sempre se volte contra eles. Sempre. Mas, na euforia da democracia, as pessoas preferem se enfeitiçar pela ideologia do direito para todos.

A vida real nos mostra que não há direitos para os pobres. Eles não têm moradia, nem saúde, nem educação, nem amparo, nem previdência. Tudo é aparência de direito. A lei só existe para ser usada contra os pobres. São eles os que enchem o sistema prisional a partir de condenações por “crimes” tão prosaicos como ser companheira de um traficante e estar com ele na hora da prisão, roubar um pão, passar um cigarro de maconha para o marido na cadeia, carregar vinagre durante uma manifestação. Coisas assim. Claro que bandidos há, mas eles são a minoria. Aí estão as pesquisas para provar. A lei é feroz contra os pobres. Já os ricos, bem, esses tem bons advogados que torcem e distorcem a lei. Que o diga o jovem Thor, que não é um deus, mas filho de um que era: Eike, o superempresário. Matou um homem e saiu de boa.

Pois o sistema capitalista agora está tão seguro de si que já começa a pouco se importar com manter a aparência de um estado de direito. O poder está nas grandes corporações, que são transnacionais. Não estão nem aí para parecerem boazinhas. Querem tomar a vida dos trabalhadores até a última gota e arreganham os dentes. O direito? Ah, que se lasque. As leis? Que se mudem ao nosso bel prazer. É a ditadura do capital em sua meridiana clareza.

Em nível internacional isso começou devagar, com o império estadunidense afogando o direito, ainda meio tímido, escondendo-se por trás de mentiras. Foi assim na invasão do Afeganistão, feita a partir da queda das duas torres gêmeas. Era o terrorismo e tinha de ser combatido. Onde estavam os barbudos?

No Afeganistão. Então borá lá, vamos pegá-los. O mundo inteiro caiu nessa mentira deslavada e o Afeganistão foi destruído para alegria da indústria militar.  Depois foi a vez do Iraque, e a mentira das armas químicas. Em nome da salvação dos iraquianos, borá lá destruir as armas químicas que podem ser ameaça ao mundo. Mas, pera aí, não há provas! E quem precisa de provas? Basta que alguém – do centro – grite que tem armas, e tem. E lá foram os países centrais ocupar o Iraque, provocando destruição e morticínio. Dane-se o direito internacional. Afinal, quem decide o que é direito são os grandes. 

A América Latina volta ao foco

A América Latina pós ditadura parecia não fazer parte dos planos dos EUA. Mas, na verdade, fazia sim, só que com as coisas acontecendo de outra forma, no modo “suave”. Os primeiros sintomas de que a parte baixa da América sofreria outra vez o peso do império apareceram em 2002, quando a Venezuela viveu um golpe de estado. Hugo Chávez comandava o país fazendo coisas incríveis, como eleições gerais, plebiscitos, Constituinte, falando em socialismo. Deu o alerta vermelho. Era preciso parar o caudilho.

Então, veio o golpe, desta vez sem canhões, mas com a mídia. Através da televisão se formou um consenso de que Chávez tinha que cair. Era um ditador. Como assim, ditador? O que mais fazia era ouvir o povo. Ainda assim o golpe foi dado, pois interessava ao capital tirar o país do petróleo da mão dos “comunistas”. Mas, o golpe furou. O exército ficou com Chávez, o povo cercou o palácio, ocupou as ruas, exigiu o respeito à Constituição. Eles tinham feito a nova carta e não abririam mão dela. Foi uma derrota para os gringos.

Os países centrais viram que na Venezuela o buraco era mais embaixo. Resolveram então comer pelas beiradas. Se não tinham conseguido derrubar Chávez, derrubariam seus aliados, limpando a área e isolando a Venezuela, mantendo a campanha midiática sempre contra. E quais foram as armas? O arremedo do direito. As leis viradas de cabeça para baixo, para servir aos interesses dos poderosos.

Começou no Haiti, em 2004. O ex-padre, Jean Arisitide, foi enredado num jogo de mentiras, acusado de comandar um esquema de cocaína. Não bastasse isso, o parlamento se extinguiu obrigando o presidente a governar por decretos. No meio disso tudo “apareceu” um grupo rebelde, devidamente armado pelos EUA. Estava definido cenário do golpe.  Acuado, Aristide fugiu e o país foi ocupado por tropas leais aos EUA. Estão lá até hoje. Espaço estratégico no Caribe, de frente para a Venezuela. O golpe ainda seguia a velha cartilha de criar grupos rebeldes e desestabilizar pelas armas. Sem o presidente, usaram o “direito” para ocupar o país com tropas da ONU, levando a “democracia”. A ocupação está lá até hoje, só causando mal, impedindo o Haiti de seguir com as próprias pernas. Apesar de o mundo interior pedir a desocupação, os invasores seguem surdos. 

Em 2009, ainda por conta da “terrível ameaça” que era o Hugo Chávez, inventaram um novo tipo de golpe de estado. Não mais com canhões, grupos rebeldes ou milicos, mas no parlamento, tudo “dentro da lei”. Em Honduras, alguém – da classe dominante – gritou que o presidente estava rasgando a Constituição por querer ouvir o povo num plebiscito. E pronto. Estava dado o motivo para derrubar o mandatário. Sequestrado, ele ainda conseguiu se exilar na embaixada brasileira. Mas o golpe seguiu seu curso, pisando em todas as leis. Sem direito à defesa, Zelaya caiu. Golpe suave, patas de lã. O direito patas arriba. 

Em 2012, outra vez o novo golpe. Desta vez no Paraguai. Lugo, o presidente eleito, foi acusado de ser o responsável por um massacre de camponeses. Acusação sem cabimento, mas imediatamente aceita pelo parlamento. De novo, pisando em todos os ritos, os parlamentares, em parceria com o judiciário, mandaram embora o presidente, sem que ele pudesse se defender. E a América Latina viu, surpreendida, o judiciário atuar politicamente, sem base legal. 

Em 2016, foi a vez do Brasil. Depois de uma cruzada midiática, a presidenta Dilma foi a julgamento no parlamento mais corrupto dos últimos tempos. Acusada de dar pedaladas fiscais, uma prática comum em todos os governos, ela é tirada do governo. Sem argumentos sólidos, sem provas, sem nada, os parlamentares aprovam o impedimento em nome de deus, das mulheres, dos filhos, do cachorro. De novo, as leis parecem não valer absolutamente. Antes, várias pessoas ligadas ao PT também já tinham sido presas com base em delações, sem provas sólidas, apenas por pura “convicção”. O judiciário assumiu a patranha, com ações midiáticas, que transformaram um juiz em herói nacional, ainda que ele siga atuando contra o direito.

Agora, em 2017, a Assembleia Nacional da Venezuela, comandada pela direita, também decidiu pisar na lei, seguindo a mesma lógica. Simplesmente recusou-se a acatar decisões judiciais e ainda decidiu não reconhecer o presidente eleito como presidente legítimo, elevando-se acima de todos os poderes. E quando a justiça do país finalmente decidiu atuar e deslegitimar a Assembleia golpista, o chamado “mundo livre” saiu em defesa dos que haviam pisado na lei. Ou seja, ao que parece, o certo agora é não levar em conta o direito, se esse direito for o que determinar a classe dominante. Isso é a ditadura do capital mostrando-se em meridiana clareza.

Na semana que passou, os senadores do Paraguai, ligados ao presidente, que é um megaempresário, decidiram fazer uma reunião secreta para simplesmente mudar a Constituição. E lá foram eles, de costas para todos os ritos legais, remendar a carta magna para garantir que alguns dos candidatos à presidência pudessem propor uma reeleição. Entre eles, Fernando Lugo, o que fora deposto pelo golpe de 2012 e que agora aparece como virtual vitorioso numa próxima eleição. Assim, em nome dessa possibilidade ele se junta aos ex inimigos para garantir a eleição. 

Ontem, no Equador, fecharam-se as urnas para mais uma eleição presidencial. Acirrada. Disputa entre o oficialismo e a direita tradicional. Venceu Lenín, candidato de Rafael Correa. A direita, como está sendo praxe, não reconhece a derrota e insiste na denúncia de fraude. Muita água ainda pode rolar no Equador, inclusive, golpe. 

Tudo isso feito de maneira tranquila, como se sair do caminho da lei fosse agora coisa natural. E o pior que é. Não há qualquer lei capaz de barrar os interesses do capitalismo em sua nova fase de acumulação. Aquilo que aparecia como uma concretude, o tal estado de direito, não existe mais. A ditadura do capital mostra-se sem máscaras e sem qualquer prurido. 

Os países da América Latina estão sob riquezas muito cobiçadas. Petróleo, gás, ouro, prata, nióbio, lítio, água. Tudo isso precisa ser explorado sem que as empresas precisem se incomodar com protestos ou contratos que lhes diminuam os lucros. Por isso é preciso apoderar-se de tudo, sem levar em conta as leis. São tempos de anomia, sem regras, a não ser a que é a melhor para os poderosos de plantão e que são ditadas conforme a ocasião.

Então, o que parece muito claro é que há uma orquestrada tentativa de recuperar os governos minimamente incomodativos. Digo minimamente porque não há em qualquer deles grandes projetos de mudanças estruturais. O máximo que alguns governantes fazem é garantir alguns direitos sociais via políticas públicas, amaciando os trabalhadores para a aceitação da exploração. A Venezuela é a que parece avançar mais na garantia de direitos à maioria, por isso é a mais visada e mais atacada.

Mas, se a regra é burlar e pisar nas leis, o que os graúdos não pensaram é que ela pode ser usada também pelas gentes. Se nada mais vale, então pode tudo, inclusive o enfrentamento violento com as forças governistas e entreguistas. A revolta dos liberais no Paraguai foi bastante clara. Diante da sandice dos senadores, de todas as cores, inclusive Lugo, as pessoas entenderam que o que menos estava importando naquele prédio era o destino das gentes. Apenas interesses eleitoreiros, políticos e financeiros de um pequeno grupo que estava decidido a assaltar o poder. O freio para o vale-tudo foi a violência do grupo que protestava em frente ao Congresso. Portas quebradas, fogo, destruição total. “Que se vayan todos”, inclusive Lugo, que cedeu ao fisiologismo. Não foi uma revolta "popular", é claro. Marcadamente o protesto era do grupo opositor. Liberal. Mas, tem agregado gente de todas as tendências que não aceita ver os acordos feitos por cima. 

Como diz uma velha canção camponesa, “o risco que corre o pau, corre o machado”. Se a lógica do poder é pisar nas leis ou legislar em causa própria, esse feitiço pode virar contra o feiticeiro. Sem normas, sem qualquer contrato que garanta uma paz social, as gentes farão o que precisa ser feito. Romperão as correntes com a violência necessária. Então, será a revolução.

Por isso, não espantaria de maneira alguma se as classes dominantes dos países da América Latina, devidamente orientadas pelo império, voltassem a apelar para o direito, justamente para controlar a anomia que criaram. Um direito duro, mão de ferro, visando garantir a paz que tanto gostam. A do cemitério. 

Mas, enquanto isso, a história, com as gentes que a fazem, vai caminhando. Quem sabe? ... 

Paraguai e os desacertos da política eleitoreira


Há certa esquerda, no Brasil e na América Latina, que desgraçadamente desconhece a palavra e a prática da autocrítica. Nunca comete erros e suas verdades são mais verdade que a das gentes. Vários exemplos podem ser dados aqui no Brasil. A incapacidade de entender o grito das ruas no junho de 2013, quando milhões saíram a se manifestar por tudo quanto era coisa. Não era apenas a direita, havia ali uma multidão de pessoas desorganizadas, mas com demandas, querendo ser ouvida. 

Também podemos contabilizar os equívocos das campanhas de Haddad, em São Paulo e Freixo, no Rio, praticamente surdos diante das demandas reais da população. Enquanto as pessoas sonhavam com um atendimento médico de qualidade eles ofereciam ciclovias. Já a direita de nova cepa, a dos CEOs, atuava nesse nicho prometendo coisas que a maioria andava a sonhar. Venceu. 

Agora no Paraguai também assomaram as gentes numa revolta semi-organizada. O senado reuniu-se a portas fechadas, em acordo de partidos, numa sessão considerada irregular, para aprovar uma emenda à Constituição que garantiria a reeleição, não apenas de Cartes, o atual presidente, mas também de Lugo, o que foi deposto num golpe em 2012 e atualmente é o favorito nas pesquisas. Participaram da reunião senadores do oficialismo colorado, da frente Guasu, disidentes do Partido Liberal e representantes do Unace.

O grupo de pessoas que se reuniu em frente ao Congresso e colocou fogo no mesmo era formado na sua maioria por militantes do Partido Liberal, que são contrários à emenda porque tanto Lugo quanto Cartes são seus inimigos. Foram eles que comandaram os atos que levaram ao incêndio e a morte de um de seus militantes, numa invasão ilegal da polícia à sede do Partido Liberal. O jovem foi morto dentro do partido. Mas, entre eles também estavam pessoas comuns, desorganizadas, cansadas dos acordos feitos por cima, às escondidas das gentes. A população não é burra. Sabe como a política funciona. Apenas aparentemente não liga porque está mais preocupada com seus dramas cotidianos, que ninguém ali naquelas casas acarpetadas resolve. 

Ainda ontem, a frente que Lugo representa, Frente Guasú, lançou uma nota dizendo que não compactuava com os atos de violência e vandalismo praticados na noite de sexta e que esperava que o povo decidisse pela reeleição para que Lugo pudesse voltar ao poder, que lhe foi tirado por um golpe parlamentar. Ocorre que depois dos protestos em frente ao Congresso alguns parlamentares resolver agregar a sua aprovação da emenda, a proposta de fazer a mesma passar por um plebiscito. Mas isso ainda não está confirmado, porque parece que outros senadores não querem que seja assim. O povo tem de estar de fora.

Então há aí dois pontos a pensar: Sim, foram os partidários do Partido Liberal, que é tão conservador quanto o Partido Colorado, que iniciaram os protestos. E possivelmente foram eles que colocaram fogo no Congresso. Mas, eles não estavam sozinhos. 

Em segundo lugar, é fato que todos os partidos, Liberal, Colorado, a frente Guasu e Unace estavam resolvendo a questão das eleições a partir de um grande acordão. O Liberal, mesmo não concordando, teve representantes na reunião paralela e ilegal. 

A questão que se coloca então é que qualquer dos partidos, mesmo o de Lugo, está unicamente preocupado com as eleições. O próprio golpe parece que já foi superado, com Lugo negociando até com os inimigos. Vencer a eleição é o ponto central. O povo parece ser secundário.

O que os jovens liberais colocaram em xeque, ainda que ali estivessem representando seus interesses partidários também, foi a velha prática dos partidos que não são revolucionários: seus acordinhos secretos e fisiológicos, as manobras por cima para garantir mandatos . A emenda que garante a reeleição é uma boa ideia? Sim, pode ser. Inclusive para os grupos mais à esquerda. Mas isso não podia ser decidido dessa forma, em salas fechadas, sem um debate popular. Os movimentos sociais no Paraguai estão atuando, são fortes, capazes de realizar esse debate. Então que se coloque em discussão ampla e nacionalizada. Depois, sim, poderiam discutir no senado e na câmara. Mas, a prática autoritária e desrespeitosa com as gentes é ainda uma constate na nossa América baixa.

E as lideranças de esquerda também se fazem surdas ou incapazes de entender a força popular. Na Bolívia, há alguns anos, Evo Morales, certo de que tinha alta popularidade, aumentou o preço da gasolina, sem discutir com ninguém. Levou um tranco da população organizada que saiu às ruas em atos massivos e o obrigou a voltar atrás. Ainda assim, com todos os exemplos, as lideranças não aprendem e fazem pouco caso da capacidade das gentes. As decisões ainda são feitas a partir de cima. 

Chávez foi um dos poucos líderes que colocou quase todas as grandes questões nacionais nas mãos do povo, ainda que correndo o risco de perder, como de fato aconteceu em alguns momentos. O povo, por ser povo, não é o detentor da verdade, pode inclusive ser responsável por graves retrocessos. Mas, é preciso aprender a caminhar com as gentes, formar, garantir conhecimento, garantir espaços de poder real. É uma alfabetização lenta, mas necessária. Como dizia Chávez, “melhor errar com minha gente que acertar sem que eles saibam o que está acontecendo”. 

Assim que o que aconteceu no Paraguai não foi uma revolta popular, é certo. Foi a ação de um grupo organizado, de oposição, marcadamente liberal. Mas, ali, naquela praça também estavam pessoas comuns, desorganizadas e desinformadas. Algumas até manipuladas pelo discurso liberal ou midiático. Só que isso não significa que suas demandas estivem erradas ou que devam ser desqualificadas. Não. É papel dos grupos políticos de esquerda, do Paraguai, do Brasil e de toda a América Latina, ouvir, entender e, a partir daí estabelecer políticas de formação e intervenção. A ninguém interessa ter o controle de uma massa informe, porque ela pode mudar de rumo por qualquer motivo. O que se necessita é uma população esclarecida, informada, sabedora das contradições e das possibilidades, para que possa avançar no rumo certo.

A lição que o Paraguai nos dá não é só a da possibilidade de as gentes indignadas queimarem o Congresso, mas a de que a grande política precisa ser feita junto com as gentes. Sem acordos por cima. Uma tarefa dura, Chávez bem o sabia. Mas, só assim, teremos uma nação de pessoas capazes de decidir seu destino.