quarta-feira, 22 de novembro de 2017

Primeira Marcha da Periferia de Florianópolis


Foto: Rubens Lopes

No dia 20 de novembro, a periferia de Florianópolis ocupou o centro da cidade para gritar contra o genocídio do povo negro. Já não é de hoje que, na guerra de classes vivida no Brasil, é o negro aquele que mais sofre. São negros os que são assassinados, 70% dos casos. São negros os que apodrecem nas prisões, 67% dos apenados. São negros os que são empurrados para a periferia, sem emprego, sem moradia, sem nada. A periferia é herdeira dos quilombos, lembraram os manifestantes, que se concentraram em frente à Catedral. Os quilombos eram espaços de liberdade que os negros foram construindo ao escaparem da escravidão. E, depois da libertação jurídica, sem terra e sem trabalho, também acabaram sendo espaço de organização e vida. Hoje, passado tanto tempo, o Brasil não superou a chaga da escravidão. E a liberdade é só formal. Sobrevive o preconceito e a discriminação. Por isso o grito segue sendo necessário. A Primeira Marcha da Periferia foi organizada pela CSP Conlutas, Movimento Nacional Quilombo Raça e Classe, Quilombo Brasil e Islam Continente, e reuniu negros e indígenas. Para os que se reuniram nessa caminhada histórica, a luta só pode acabar quando chegar ao fim o sistema racista e capitalista que mata negros e índios há mais de cinco séculos.
A marcha também lembrou os ataques atuais, no governo Temer, como as reformas Trabalhista e da Previdência que aumentarão o desemprego e a miséria. Isso sem falar do ataque direto que esse governo faz aos quilombolas e indígenas, buscando retirar deles as terras conquistadas. Há que colocar abaixo esse governo e todas as suas contrarreformas. Fotos: Rubens Lopes

O jornalismo, a Pobres e o Rubens



Parceiros: na Rádio Campeche, no corpo a corpo com a vida

Nessa quinta, às 9h, no Curso de Jornalismo, o querido Rubens Lopes defende seu trabalho final, depois de cumprir uma longa caminhada para chegar ao jornalismo. Nascido em Santa do Alegre, no interior de Minas Gerais, seu destino poderia ser o de quase toda a gente trabalhadora dali: o campo. Tanto a vó, Rita, como a mãe, Edna já tinham trilhado esse caminho. Mas, ele era curioso demais e seus olhinhos vívidos estavam sempre procurando a vereda das gentes.

Vendendo picolé nas ruelas da cidade ele foi percebendo que Santana era um lugar cindido. Pobres e ricos muito bem demarcados. As camionetas dos latifundiários fazendo sombra às velhas bicicletas da gente rural. Depois, trabalhando numa floricultura, ele adentrou aos casarios da pequena burguesia e pode compará-los às moradias humildes daqueles que eram como ele. Na fábrica de leite, o contato com os demais trabalhadores lhe deu a verdadeira ideia do que é ser explorado até a última gota de sangue e ainda ser agradecido ao patrão. Histórias e histórias que lhe saltavam na cara, e que se remoíam dentro dele, sem saber como sair.

E foi para fazer esse parto que ele decidiu fazer o curso de Letras, que chegou à cidade justo quando ele terminou o segundo grau. Quem sabe, nos livros, ele não encontrava um jeito de fazer brotar aquela angústia que lhe tomava. Os estudos começaram, mas a inquietude não parava.

Foi então que ele se deparou com o exemplar do primeiro número da Pobres e Nojentas, uma revista de reportagem produzida em Florianópolis, pela tia do amigo Renato. Os textos que saltaram das páginas encontraram lugar no seu coração e ele soube que era aquilo que queria fazer. Narrar a vida das gentes que, como ele, andavam pelos caminhos fora do centro de poder.

Por essas coisas da vida o amigo Renato saiu de Santana, indo para Florianópolis seguir o seu sonho que era o de estudar música. Esse passo levou Rubens a também buscar o seu desejo maior. E ele embarcou de mala e pão-de-queijo para a capital catarina. O propósito era passar na Federal, no Curso de Jornalismo. E foi um duro processo. Mas, ele enfrentou cada pedra com fibra e decisão. Cabeça nos livros, pré-vestibular popular no Campeche, professora particular conseguida em permuta e lá foi ele. Tentou e não conseguiu. Tentou de novo e de novo. Então, passou.

Não foi um aluno comum. Bem antes de entrar no curso já tinha se engajado no Instituto de Estudos Latino-Americanos, onde foi realizando um lindo trabalho. Filmagens, fotografias, assistência técnica, carregador de mesas e livros. Cada pequena oportunidade de aprender ele agarrou, apaixonando-se cada dia pela América Latina. Também embarcou na viagem da Rádio Campeche, atuando como produtor e repórter do programa Campo de Peixe.

Como não podia deixar de ser, seu primeiro texto jornalístico foi publicado na revista Pobres e Nojentas. Falava de um trabalhador de Santana, sua gente nunca esquecida, então imortalizada pelas suas palavras. Ele encontrara seu lugar. Demorou para terminar o curso, não por mandrião. Mas, por excesso de vontades. Viajou pela Pátria Grande, fotografando as gentes, andou o Brasil todo no projeto Indígena Digital, fotografando e ensinando, querendo para os meninos e meninas que encontrava pelo caminho o mesmo destino que tivera: força para buscar o sonho. O jornalismo vibrava dentro dele e tudo aquilo que queria dizer e não sabia como, agora encontrava o caminho de se fazer.

Nesse dia 23 de novembro o Rubens encerra essa pequena jornada apresentando seu trabalho final de Jornalismo. É uma monografia sobre a revista Pobres e Nojentas, a publicação que orientou seu mundo. Na convivência com as jornalistas que conformam a revista ele solidificou seu projeto de ser e com elas tem caminhado em projetos diversos, sempre à margem, no jornalismo libertador. É um companheiro, um pobre e nojento como nós.

O menino de Santana agora tem o título com o qual sonhou por noites a fio. Mas sabe que o homem que ele  se tornou é mais do que o título que está chegando. Forjado nos caminhos vicinais ele prepara os alforjes para novas aventuras,  sempre posicionado do lado certo da história, com os trabalhadores, com os seus.

Eu, que por caminhos tortos acabei tendo participação nisso tudo, só posso me alegrar e compartilhar amorosamente desse momento estelar. Vai ser uma grande festa.

O ciclo termina, mas outro vem. E eu sei que lá irá o gafanhoto construir belezas.

Parceiros da vida, estaremos juntos. 


segunda-feira, 20 de novembro de 2017

Derlei



Eu não a conhecia, mas já tinha escutado sobre ela. Então, ela me ligou, pedindo ajuda para divulgar um livro que havia escrito. Pedi que me mandasse 20 exemplares que tentaria vender também. Ela mandou. O livro chegou . “No corpo e na alma” era a narrativa de sua militância contra o golpe de 64. A luta no movimento estudantil, iniciada na UFSC, depois na Ação Católica, a clandestinidade, a prisão, a tortura e o exílio. Li de um único fôlego, entre lágrimas. Um relato sem véus de um tempo cruel, no qual jovens apaixonados pela vida e pela liberdade, deram seus melhores anos para defender o bem-viver. No relato de “Leila” ficava bem claro o compromisso que foi assumido para defender o Brasil e toda a gente da barbárie que representa um golpe militar.

Pouco tempo depois, no universo das lutas da cidade, eu a conheci pessoalmente. Parecia difícil crer que Leila era ela. Baixinha, risonha, amorosa e delicada. Mas, ao passar dos dias, ficava cada vez mais fácil ver a Leila na Derlei de Luca. Na luta para garantir a Verdade e a Memória era gigante e implacável. E foi assim que todos nós fomos conhecendo e convivendo com Derlei, acompanhando e compartilhando da luta para abertura de arquivos, na busca dos desaparecidos, na manutenção da lembrança dos que caíram, na perseguição da verdade.

O Coletivo Catarinense Memória, Verdade e Justiça, cujo nascedouro foi ainda no início dos anos 80, teve Derlei como sua primeira coordenadora e durante todo esse tempo foi impulsionado por ela. Estar com ela era caminhar com a história da resistência, era aprender, na prática, o conceito de não se entregar.

A Derlei agora não estará mais nas marchas, nem nas audiências, nem nos gabinetes, iluminando os caminhos e clamando por Justiça. Ela não estará. Encantou. Mas aquela força inquebrantável que a levou, jovenzinha ainda, para a luta contra a ditadura, permanece naqueles que com ela conviveram em todos esses  anos. Continuar a luta por Memória e Verdade, trincheira onde travou suas últimas batalhas, é o que temos de fazer, para honrar sua vida.

Memória, Verdade e Justiça, tanto ainda por conquistar. Mas, essa vereda construída e trilhada por Derlei seguirá aberta, para que todos nós caminhemos.

Foi uma linda vida, Derlei. E nós te agradecemos por tudo! Que bom que tivemos tempo para estar contigo, te abraçar e te dizer tudo isso. 

Caminhada pela Verdade - 2014


sábado, 18 de novembro de 2017

Das pequenas delicadezas



Meu amigo Nildo tem uma expressão que ele aprendeu no México que é “ningunear”. Significa tu não dar importância àqueles que estão contigo, por perto. Ningunear, tornar ninguém. Isso é muito comum entre a gente. Geralmente tecemos loas para pessoas que estão distantes, famosas, midiáticas, enquanto temos ao nosso lado criaturas igualmente valorosas. Por isso tenho como prática viver homenageando as pessoas que estão perto de mim. Pessoas que amo, respeito e admiro. 

E das coisas bonitas que já vivi nessa minha larga vida de jornalista, guardo sempre com mais carinho as homenagens dos “meus”. Hoje, limpando o altar dos meus afetos, deparei-me com esse singelo regalo: o “Prêmio Volodia Teitelboim” que recebi dos meus amigos queridos do Portal Desacato, num dos primeiros Cafés Anti-coloniais promovidos por eles. Uma adorável caixinha de madeira com um pequeno pergaminho dentro. Uma pequena preciosidade. Ah, mas aí não vale. São teus amigos. Sim, são meus amigos, e por isso vale tanto. Porque eles me conhecem e, mesmo estando tão perto, me reconhecem. É bom ser homenageada por aqueles a quem amamos. 

Esses amigos queridos já ultrapassam uma década com essa proposta bonita do Desacato. Eu também os reconheço e agradeço todos os dias pelo valoroso trabalho que desenvolvem junto aos trabalhadores e trabalhadoras. Viva o Desacato, vivam todos esses companheiros e companheiras – velhos e novos – que fazem o jornalismo florescer! 


quinta-feira, 16 de novembro de 2017

Nossos velhos precisam de nós


Fumando um charuto, no dia do aniversário do Che

Como diz o Ziraldo, a velhice acontece assim, de repente.  A pessoa está bem , fazendo coisas, controlando a vida, quando então, algo acontece. Com meu pai foi assim. Um dia, minha irmã o surpreendeu rasgando alguns documentos. Coisa que ele fazia cotidianamente, colocando fora os documentos já velhos, para não juntar lixo. Mas, entre os documentos rasgados, estava a escritura do único bem que ele tem: sua casa. Algo não estava normal. Pouco depois percebemos que ele estava descontrolado nos gastos, contraindo dívidas com o banco. Mais um sobressalto. Sua memória falhava e ele foi definhando. Completara 85 anos.

Levamos no médico e o diagnóstico foi Alzheimer. Prescreveu remédios fortíssimo que o tornaram um zumbi. Não andava e em pouco tempo já não conseguia nem pegar os talheres para comer. Aquilo não estava certo. Por sorte, na intuição, minha irmã suspendeu o remédio.

Foi quando decidi trazê-lo para morar comigo. Minha irmã mora no campo, sem qualquer condição estrutural de cuidar de uma pessoa idosa e doente.

Em Florianópolis consultei um jovem médico, Henrique Passos, desses, preciosos e necessários, que pensam no ser humano e não na doença. E do saco de remédios que ele trouxera, sobrou só um: o da pressão. A nova prescrição foi cuidado, atenção, conversas, passeios, estímulo artístico, interação social, alimentação saudável e balanceada. Tudo foi sendo cumprido e ele renasceu.

Ontem, lendo sobre a situação de João Gilberto, me dei conta do quanto a relação com os velhos precisa mudar. Eles definitivamente não podem ficar sozinhos. Não por um imperativo moral, mas por responsabilidade ética. A velhice tem outro ritmo, outras necessidades, outro ethos. E, a única maneira de manter a sanidade e a alegria por estar vivo é estar cercado de pessoas que lhes prestam atenção e garantem uma relação de amizade, de parceria, de companheirismo.

Há um momento em que a memória recente se vai, que as mãos ficam trêmulas, a capacidade de tomar decisões fica confusa, as funções intestinais se descontrolam. Vejo que não é demência, é simplesmente o início do apagamento da energia vital. Por isso eles precisam de gente por perto, para explicar as coisas milhões de vezes, sem irritação, para amparar o passo, para garantir o riso, para incentivar a memória, para caminhar ao sol, para brincar, para ver novela na TV, para contar das notícias, para ajudar na hora do banho.

Com meu pai tenho aprendido coisas demais. É fato que a vida da gente muda por completo e tudo o que era não é mais. Mas, ao mesmo tempo, coisas que nunca foram, passam a ser. E isso não é de todo ruim. Havia anos que eu não catava pedrinha na rua, havia anos que eu não aquietava em casa nas noites mornas da primavera, havia anos que eu não me demorava tanto para ir de um lugar ao outro, no passinho lento, parando eventualmente para ver o avião passar, ou o cachorro, ou o passarinho.

O fato é que assim como meu pai, o João Gilberto, uma hora começou a mudar, e, ao que parece não havia ninguém por perto para notar. Há que cuidar... Há que ficar por perto. Essa é uma hora que vai chegar para todos nós. E tomara que tenhamos alguém que nos observe assim, com olhar atento, pronto para nos guardar das dores e dos enganos.

O mundo capitalista nos ensina a ter muita pressa, a eliminar o entrave, o diferente, o chato. Não podemos aceitar isso. O futuro pertence aos homens lentos, dizia Milton Santos. Talvez seja isso que a velhice dos nossos queridos venha nos ensinar, na prática.  







terça-feira, 14 de novembro de 2017

Orçamento Legislativo Participativo: as gentes decidindo




Uma das experiências mais bonitas tocadas pelo Partido dos Trabalhadores no início de sua trajetória como institucionalidade foi a do Orçamento Participativo. As cidades sendo pensadas pelas gentes mesmas, as que as constroem e que as vivem. Florianópolis viveu esse momento durante o governo de Sérgio Grando, no qual Afrânio Boppré (então PT)  era vice-prefeito. E foi uma belezura. Todos os bairros faziam suas reuniões e discutiam suas prioridades para obras e serviços. Depois, decidiam o que fazer e quanto gastar em cada coisa. Pela primeira vez na história da cidade os moradores eram chamados para uma participação real e direta, na qual definiam eles mesmos o que fazer com os recursos do município. Foi um tempo em que as prioridades eram invertidas, pelo bem da maioria.

Com a volta dos políticos conservadores esse processo todo se perdeu, ainda que o germe da participação direta continuasse ativo. E tanto que quando a lei nacional do Estatuto da Cidade obrigou os prefeitos a iniciarem o Plano Diretor Participativo, toda aquela gente que  viveu a experiência do Orçamento Participativo voltou à carga, com força e com disposição. Decidir a vida da cidade é coisa que todo mundo quer. E é coisa que todo mundo deveria ter direito. E ainda que o processo do Plano Diretor não tenha sido vitorioso, a lógica da participação direta formou muita gente. Isso é ganho popular.

Pois agora, numa conjuntura na qual a Câmara de Vereadores conseguiu juntar um pequeno grupo de vereadores capaz de pensar os moradores como sujeitos reais de direitos, surge a proposta de um Orçamento Legislativo Participativo, uma ideia inovadora que pretende envolver os moradores da cidade na discussão e na decisão sobre os investimentos e gastos públicos do município no que diz respeito as emenda que os parlamentares têm direito.

A proposta envolve os vereadores Afrânio Boppré (PSOL), Lino Peres (PT), Marcos José de Abreu (Marquito, PSOL), Pedro de Assis Silvestre (Pedrão, PP) e Vanderlei Farias (Lela, PDT) e tem como objetivo principal manter a lógica de participação popular nas decisões da cidade, buscando tornar democrática a tomada de decisão acerca das prioridades sobre obras e serviços.

Os vereadores querem fortalecer a prática da participação direta e reverter a mentalidade clientelista que é marca registrada das emendas orçamentárias dos vereadores. Onde colocar o dinheiro das emendas historicamente tem servido como moeda de troca com o Executivo e para campanhas políticas, tornando o Legislativo um lugar onde o povo não é verdadeiramente representado.

O Orçamento Legislativo Participativo foi lançado nessa segunda-feira, dia 13, em sessão especial da Câmara de Vereadores e deve se fortalecer como um dos mais importantes desafios desse pequeno grupo de vereadores que realmente respeitam o mandato que receberam. A ação dos vereadores aparece como um importante contraponto à vergonha nacional que tem sido expressa na relação fisiológica de deputados e senadores, historicamente vendendo seus votos aos interesses da classe dominante.

Não será um processo fácil, os vereadores reconhecem, pois a prática da democracia direta não encontra espaço nos governos conservadores que se repetem na cidade. Mas, é uma iniciativa generosa e cheia de esperança. No lançamento da ideia, ontem, era possível sentir a alegria de cada um dos envolvidos em iniciar essa caminhada que é desafiadora, mas absolutamente necessária.

Será, talvez, a primeira vez que esse parlamento cumprirá uma função de utilidade real na vida dos moradores da cidade. Os recursos – de dois milhões e meio – que os cinco vereadores têm para usar com emendas parlamentares – serão usados a partir dos desejos das comunidades, depois de boas discussões comunitárias. É um valor baixo, que muito pouco mudará o rumo das coisas na cidade, mas na medida em que esses cinco vereadores decidem mudar a lógica, e entregar a decisão para a população, eles abrem as portas para uma prática verdadeiramente democrática que, se vingar, fatalmente obrigará os demais vereadores a abrir o debate com seus apoiadores também.

Com a presença de entidades sociais e populares na abertura dessa generosa proposta, o lançamento do Orçamento Legislativo Participativo foi um respiro de alegria nesses tempos tão sombrios.

Agora, é acompanhar a ação de cada um desses cinco vereadores que deram ontem um passo histórico. Juntos, ainda que com divergências, eles abrem passo para o “mandar obedecendo”, a única democracia possível.

Parabéns a todos e toda a força avante. É no chão da vida que as coisas começam a mudar.   


domingo, 12 de novembro de 2017

Sobre as feras no porão



Quem leu o clássico “Crime e Castigo” sabe que ali está plasmada uma ética. Um homem comete um crime, ninguém vê. Ele pode seguir com sua vida tranquilamente porque não houve testemunhas, ninguém nunca saberá que foi ele o autor do crime. Ainda assim ele se remói de remorsos, no sofrimento ético: ele sabe que foi ele quem cometeu a atrocidade. E assim transcorre a narrativa de Dostoiévski, centrada no sofrimento psicológico do assassino. É uma belezura de livro e, ao final, premido pelo dilema ético, o jovem se entrega. Não precisaria. Poderia sair impune. Mas, não consegue.

Hoje, os tempos são outros. Vivemos uma época anômica. Não há lei, não há regras, não há ética. Tudo parece permitido desde que o autor dos delitos não seja pego. Está autorizado roubar, se o cara for suficientemente esperto para não deixar rastros. Está autorizado matar, se não houver corpo nem testemunhas. Não há remorsos, não há dor de consciência. Não há nada. Inclusive um degenerado por vir a público defender outro degenerado, em nome de sabe-se lá o quê. Fico pensando que romance Fiódor escreveria nesses tempos sombrios.

O apresentador da Globo que foi descoberto agora em uma atitude racista, um ano depois do fato, teve esse azar. Foi pego. Disse o que disse cercado de testemunhas, e não ficou nem vermelho, porque sendo quem é acreditou que estava acima do bem e do mal. Outra característica do tempo. Mesmo tendo testemunhas, há determinado tipo de gente que não sofre consequências. Certamente não sofrerá. Já tem muita gente defendendo o “pobre” rapaz. Um tempo na geladeira e logo estará de volta.

É assim. Vivemos o racismo estrutural. Impregnado no DNA de uma sociedade escravista. Para os projetos de ‘sinhozinhos e sinhás’ o negro sempre será um animal sem alma, servindo apenas para servi-los. Isso inclusive assume uma capilaridade que toma até a mente daqueles que nunca chegarão a ter uma “casa grande” para chamar de sua. São os feitores modernos, sempre prontos a chicotear aos que a classe dominante ordena chicotear.

O Brasil não está voltando à idade média, como dizem alguns. Essa estrutura erguida pelo domínio português nunca saiu de lá. Vive, latente, nos porões da memória de todos os corpos. Por isso assoma quando a conjuntura parece favorável. São como feras, aprisionadas, mas nunca mortas. O racismo, o ódio ao pobre, à mulher, ao homossexual, o desrespeito ao velho, o descuido com a criança. E, em meio a isso, a servidão voluntária daqueles que se conformam com as migalhas que caem da mesa dos ricos.

Sim, essas feras estão aí, agora cada vez mais soltas. Cabe a nós empreender a luta para fazê-las retornar ao porão. 




sexta-feira, 10 de novembro de 2017

UFSC: nada está normal!



Nessa sexta-feira, técnico-administrativos, professores e estudantes realizaram uma assembleia conjunta para discutir as ameaças que pairam sobre a universidade e sobre os trabalhadores.

Um olhar desavisado diria: tudo está normal. Os pró-reitores todos trabalhando, o reitor interino também, o Áureo passeando pelo saguão, algumas pessoas indo e vindo das salas da reitoria, e num dos lados do hall, as três categorias, em número não muito significativo, expressando a pouca mobilização, discutindo a conjuntura e buscando caminhos para sacudir a UFSC.

Motivos não faltam. O governo Temer vem desmontando o serviço público desde o congelamento dos investimentos, e agora promete diminuir salários, retirar direitos e quem sabe, de quebra, privatizar um pouco mais essa já combalida instituição.

Ora, isso é a normalidade.

Não, não é!

No saguão da UFSC, onde se desenrolam todas essas cenas, há uma presença, que interpela e exige. É a presença de Cau Cancelier, o reitor. Impossível não sentir. Há pouco mais de um mês ele saltou para a morte, não suportando o peso da acusação de ser um “criminoso”, responsável por obstruir o trabalho de investigação sobre uso indevido de recursos.

A operação da Polícia Federal, que infligiu ao reitor uma absurda e desnecessária humilhação, até agora nada disse sobre as acusações. Eram verdadeiras? Eram falsas? Nada!  A comunidade segue no escuro. Só no dia 27 de outubro , quase dois meses depois da malfada ação, o Conselho Universitário finalmente montou uma comissão para investigar os fatos relacionados ao processo que deu origem a operação ouvidos moucos. A equipe, que conta com dois professores, dois estudantes e dois técnicos, terá 30 dias para apresentar a conclusão dos trabalhos. Assim, até o dia 27 de novembro, a comunidade seguirá às escuras.

Então, nada está normal na UFSC, apesar da aparente tranquilidade.

Um homem morreu. E os outros professores e técnicos que foram presos também, acusados de malversar dinheiro, seguem vivendo a agonia do desterro da UFSC. Quem pode esquecê-los? Eu não. Os via todos os dias no corredor do meu Centro, pertencem ao meu mundo cotidiano. Lembro e me preocupo, ainda que mal os conheça. Quantos não estarão também com a alma em escombros?

Tem um mistério aí para se revelar. E a UFSC é a que precisa fazer isso. Esclarecer a sua comunidade, interna e externa, sobre o que aconteceu, e que levou à ainda dolorosa ausência do reitor.  Que isso não tarde. Há que restituir à memória de Cau a sua dignidade. A UFSC deve isso a ele.

Por isso, nada está normal na UFSC.

Hoje, observando os mesmos lutadores de sempre, na cotidiana batalha de informar e formar, contra vento e maré, acerca dos grandes desafios que estão postos para nós, trabalhadores e estudantes, me veio essa terrível sensação:  nada está normal. Nada está bem. Nada está como sempre foi.

Há que reconstituir essa alma despedaçada da UFSC. E isso é trabalho nosso.

Nessa manhã chuvosa de uma assembleia esvaziada, eu tinha tudo para desesperar, mas não. É quando me dá essa gana louca de começar a rolar de novo a pedra até o alto da montanha. Há um longo caminho de reconstrução da nossa luta como trabalhadores, e há que recuperar aquele velho amor que sempre embalou nossa relação com a UFSC, essa universidade que ainda não é como a queremos. Mas, que pode ser. 


quinta-feira, 9 de novembro de 2017

A escolha do PSOL

Com Nildo Ouriques, pela revolução brasileira 

Era 2004. Tudo conspirava para uma acomodação por conta da eleição de Lula. Eu estava na direção do Sintufsc, e começamos uma luta feroz contra o governo por conta da reforma da previdência. Nossa crítica a Lula nos custou muito. Perdemos amigos, enfrentamos a fúria de colegas que eram parceiros históricos. Mas, tínhamos claro que nosso primeiro compromisso era com os trabalhadores. Nunca nos furtamos a isso. Combatemos sem piedade. Fomos derrotados. Tudo bem. A vida seguiu.

Naqueles dias vivíamos, eu e outra colega, um processo difícil de censura e assédio moral na Agecom, onde trabalhávamos. Estava duro. Então, recebemos o convite para começar um trabalho de estudo sobre a América Latina, coordenado pelo Nildo Ouriques, com a participação de Beatriz Paiva. Não hesitamos e lá fomos nós construir uma história de belezas.

Foi no mês de julho de 2004 que nasceu o Observatório Latino-Americano, espremido numa pequena salinha do Serviço Social. Ali, começamos essa experiência incrível que desembocou na criação do IELA, em 2006. Remando contra vento e maré, fomos realizando coisas. Pesquisas floresceram, trabalhos de extensão foram criados, diálogos com a sociedade foram iniciados, a América Latina sendo exposta como esse espaço geográfico cheio de maravilhas, até então praticamente desconhecido. O IELA transformou-se em um lugar de criação do conhecimento e, para além dos trabalhos de investigação e de extensão, começou a recuperar os mais importantes pensadores do continente em uma coleção editorial chamada Pátria Grande.

Cada dia desses 13 anos de trabalho foi um desafio, cumprido com alegria, com entusiasmo, com profundo amor pela Pátria Grande.

E o motor de todo esse processo sempre foi Nildo Ouriques. Um sonhador, um realizador, uma criatura de extrema generosidade, comprometido com a partilha do conhecimento. Um cara de uma capacidade de trabalho incrível, motivador, instigante, capaz de superar, com incrível tranquilidade, todos os obstáculos, que nunca foram poucos.

E assim, no IELA, cada sonho sonhado foi se fazendo, ora aos trancos e barrancos, ora mais suave. Mas, tudo que nossa mais louca imaginação apontou se fez, por mais impossível que parecesse. Porque havia paixão, havia compromisso. E segue havendo.

Sempre comparei o Nildo com uma pandorga, esse instrumento da meninice que nos ensina a brincar e amar o infinito. E assim ele é, feito a pandorga, voado alto no céu, loucamente girando ao sabor das tormentas, mas sempre firmemente preso a terra, à realidade, ao mundo que precisamos mudar.

Nesses anos todos de parceria no IELA travamos muitas batalhas, demos muitas risadas, choramos, atravessamos os difíceis pântanos da intolerância e da incompreensão. Nunca esmorecemos.

Por isso, agora, ver o Nildo disputar a candidatura para a presidência da República pelo PSOL não me surpreende. Porque essa ousadia é a marca do Nildo. Sempre apontando para o horizonte, para o infinito, tal qual a utopia. O impossível se realizando, o caminho se abrindo, e ele avançando. Espero firmemente que o partido que ele escolheu para sua militância não se intimide e acolha sua candidatura. Tenho certeza absoluta que será como um vento forte, varrendo a mediocridade da pequena política. Porque conheço e respeito essa capacidade abissal que o Nildo tem de enfrentar a vida e os problemas. Sei do seu brilhantismo, da sua capacidade, da sua força e do profundo amor que ele tem a esse país, aos trabalhadores e a essa ideia generosa de Pátria Grande.

Com ele eu vou, por qualquer caminho, sem titubeio. Construindo a revolução brasileira. E vou segura, porque sei quem ele é e o que é capaz de fazer.  

Que o PSOL escolha o Nildo. Vai ser bom!


terça-feira, 7 de novembro de 2017

Sobre o Plano Diretor...


 A Costeira, antes da Expressa Sul


Sim, eu amo essa cidade. Amo demais. Cheguei aqui em 1987, disposta a passar apenas quatro anos. O plano era fazer a faculdade e zarpar. Mas, já no primeiro dia eu vi o Mercado Público, e a Lurdinha, e o samba, e a Copa Lord. Aí, pronto, estava capturada para sempre. 

Desde então, viver e amar a cidade tem sido meu cotidiano. E, com as gentes, tenho lutado para mantê-la linda e boa de viver. Um luta inglória, visto que vamos perdendo as batalhas, uma a uma.


Agora essa. O STJ decide manter aquela excrescência de Plano Diretor, votado num final do ano, com mais de 600 emendas acrescentadas, sem que a comunidade as conhecesse. Destas, 300 foram aprovadas, e nem os vereadores sabiam do que se tratava. Não precisava. O capital mandou, os servos acataram. Sobrou a resistência de três vereadores (Lino, Afrânio e Pedrão)e de uma parcela da população que acorreu à Câmara, e gritou, e lutou, e apanhou da polícia. 


Pois aí estamos, nesse ano de golpe, no qual todos os direitos vão se perdendo, com um judiciário que não precisa mais fazer jogo de cena. Não restará pedra sobre pedra. Tudo é decidido em favor da classe dominante, mesmo que esteja fora da lei. Não há lei para os ricos. A lei é só para os pobres. 

A Florianópolis que emergirá desse Plano Diretor ilegítimo é a Florianópolis do capital, dos predadores, dos empreendedores. Esses seres sem compaixão, que pouco se importam com as gentes. Tudo o que querem é cimento e lucro.

É um momento de profunda tristeza.

Compartilho aqui um texto que escrevi em 1996, quando de mais uma derrota: a construção da via expressa sul, que destruiu a Costeira e toda aquela beleza. Nele, choro mais essa derrota de hoje.


Uma cerimônia de adeus

Assisti ontem uma triste cerimônia de adeus. Parei em frente à grande obra da Via Expressa Sul com os olhos perdidos na areia branca que aos poucos vai nos roubando o mar. Tinha dentro do peito uma certa angústia, destas que batem, inexoráveis. Não sou engenheira ambiental, ainda não sei detalhes sobre a obra, mas uma coisa eu sei. É como se estivessem assassinando a beleza. Algo soa mal ali, principalmente no por-do-sol.

Refletia sobre isso e mastigava minhas mágoas quando meus olhos bateram num homem, distante de mim alguns metros. Ele também olhava a obra. Tinha o rosto vincado de sol e de mar, destes rostos que não se pode adivinhar a idade, só a profissão. Era um homem do mar, um pescador. Ficou parado por uns minutos eternos, petrificado diante da areia branca. Depois, lentamente, caminhou em direção à lama preta, velha conhecida, que fica próxima aos ranchos de pesca já em demolição.

Então começou a cerimônia. Arremangou até os joelhos as velhas calças de um tergal gris, bem desbotado. Tirou os chinelos de borracha e foi entrando na lama, pisando devagar, quase em reverência. Com os pés enterrados na sujeira do mar ele foi caminhando pra lá e pra cá. Os olhos baixos, olhando o chão, se despediam. Depois, o pescador caminhou em direção à água, já distante.

Quando seus pés encontraram o salgado do mar ele parou e volveu os olhos para a grande draga que continuava seu trabalho, jogando areia branca, engolindo a água que por muito tempo, com certeza, embalara o seu barco. Ficou ali parado, olhando fixo, parecendo fazer força para acreditar que aquilo tudo não era um sonho. Então voltou pelo mesmo caminho, os pés enterrados na lama, os olhos de novo no chão. Chegou ao meio fio e sentou sem pressa. Foi quando eu vi. Lágrimas corriam fininhas pelo meio das rugas de sol e mar.

Era um homem dizendo adeus a um mar que foi seu abrigo por décadas. Um pescador chorando esses choros sem barulho, por isso mais dolorosos. Olhei de novo para a obra da Expressa Sul e já comungando da mesma dor com aquele homem, pensei: Qual é o preço do progresso? Do conforto? Se forem as lágrimas daquele homem, não sei se vale à pena. Não tive coragem de lhe falar e fui embora com um indelével sentimento de culpa. Quando o ônibus no qual eu ia passou pelo homem, ele continuava ali, sentado no meio fio, os pés sujos de lama e o rosto crispado de dor.

20.09.1996

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Hoje, 2017, sou aquele homem, as lágrimas correndo, e essa dor insuportável no peito....



sexta-feira, 3 de novembro de 2017

Olá, ceifadora, como vai?



A morte é sempre um soco no estômago, e ela sempre fala mais de nós do que daquele que morreu. Quando ela chega sempre nos surpreende nos fazeres e não fazeres. Por que não disse que amava? Por que não lhe dei atenção? Por que não notei que algo estava errado? Por quê? Por quê? Ou então: ainda ontem o vi e estava tão bem. Ainda outro dia o vi passar e me abanou. É o assombro da finitude, como se não soubéssemos que a ceifadora passaria e passará. Então ela vem e nos confronta. Ou nos abraça.

Nos últimos meses a tenho visto demais. Outro dia passou na Chico Mendes e levou o Dodô, um educador de primeira linha, um lutador popular, um homem de infinita ternura pelo outro. Levou-o de um golpe, manso e rápido. Depois, sussurrou no ouvido no nosso reitor, o Cau, que tomado de tanta dor abraçou-a num aperto desesperado. E se foi, deixando um vazio de espanto. Agora, ela passa bem aqui, raspando minha rua, na rua de cima e leva o Daniel, um companheiro de anos, sempre ali, na frente do convivência da UFSC, vendendo suas pratas e badulaques, ou então pedalando pelas areias do nosso Campeche. Também foi rápida e silenciosa.

E agora, nesse dia gris, me vem essa melancolia.

As pessoas entram e saem da vida da gente assim, de inopino, num átimo. E aquilo que era cotidiano se quebra. Como com o Daniel. Desde quando entrei na UFSC - há mais de 20 anos  - o via por lá. Não éramos amigos, mas dividíamos o mesmo espaço. Eu comprava suas pratas e falávamos de política. Ele sempre foi falador e cheio de opinião. Firme, sempre no mesmo lugar, que era um espaço de pura vida, de agitação, de movimento. Depois, o convivência foi minguando. Tiraram de lá o DCE, o salão de beleza, a galeria de arte, o restaurante, o auditório. Só ficou o correio. E o que era vida, escafedeu. Ele resistiu, no mesmo ponto, ainda por um longo tempo. Depois, desistiu. 

A partir daí era comum vê-lo no Campeche, na praia, no mercado, no ônibus. Negociava vinhos da argentina e vez ou outra eu comprava algum. Era meu vizinho. Sempre parávamos para conversar, colocar em dia a conjuntura. Nada sabia de sua vida, nem ele da minha, mas éramos companheiros, porque dividíamos as mesmas angústias e algumas esperanças.

Agora lá se foi ele com a ceifadora. Que esteja bem no seu céu.  

Existe uma prática entre nós de quando qualquer pessoa morre, se dizer: ah, coitado. Era tão bom! E é assim mesmo. O ser humano é um ser que tende à beleza. Por vezes, ele se perde no caminho, mas sua essência é a boniteza. Por isso que quando a pessoa se vai com a ceifadora, só ficam as belezuras de sua essência original e elas se revelam.

Gosto de pensar que pessoas tão distintas como o Dodô, o Cau e o Daniel tenham essa beleza comum. A beleza original de quem veio ao mundo para brincar no jardim. Alguns conseguem, outros não. Mas, eu cá com minhas crenças, penso que quando a noite cai sobre nossos olhos para sempre, viramos pura alegria. Essa poeira cósmica que brilha ao sol, essa boniteza, essa luz, essa energia. Não há mais bem, nem mal, nem claro, nem escuro, nem dor, nem nada. Só essa luz, essa luz.

É assim que é a vida.



quinta-feira, 26 de outubro de 2017

A UFSC cede soberania e abre mão da autonomia



O dia na UFSC hoje foi quente. De manhã, uma reunião auto-convocada pelos trabalhadores técnico- administrativos – visto que o Sintufsc está morto -  juntou mais de 120 TAEs para discutir a situação da universidade. Aberta a reunião, logo foi concedida a palavra para que os trabalhadores pudessem analisar os fatos que se sucedem na UFSC desde a prisão arbitrária do reitor Luis Cancellier e mais outros trabalhadores da instituição. Foi apontado que a administração da UFSC deveria ir a público explicar de maneira clara o que acontece na universidade, afinal, até agora não houve qualquer pronunciamento.

A invasão da universidade e a prisão dos professores foi um ato típico do estado de exceção e feriu profundamente a autonomia da universidade. É preciso que a sociedade saiba que a universidade tem mecanismos de controle interno e externo muito eficazes e que ela mesma tem todas as condições de resolver seus problemas. A ação de instituições externas como Ministério Público, Tribunal de Contas e outras, podem apontar problemas e pedir explicações. Mas não têm poder algum para impor qualquer coisa à universidade. O que se espera da administração é que ela responda a altura. Não é o que está sendo feito. Pelo contrário. Isso precisa mudar.

Também se discutiu o papel do corregedor e a ação submissa da vice-reitora em revogar a portaria que abria processo disciplinar administrativo contra ele. É sabido por toda a UFSC, com denúncias de trabalhadores da própria corregedoria, que esse senhor tem uma postura violenta e desrespeitosa no setor, já tendo sido acusado de assédio moral por mais de uma servidora. 

Os trabalhadores ainda avaliaram as disputas internas que existem na UFSC, os grupos de poder e os interesses que estão por trás de cada ação. Ao final do debate, que durou mais de duas horas, decidiu-se que seria levado um documento desses TAEs para ser lido na reunião do CUn, onde essas  avaliações fossem colocadas e com as seguintes exigências:

(a) posicionamento público imediato contra as ações abusivas dos envolvidos nas prisões desta operação;
(b) prosseguimento do processo administrativo referente ao corregedor, respeitando o devido processo legal;
(c) manifestação em defesa da autonomia universitária e, portanto,  contrária a quaisquer tentativas de intervenção externa, via indicações de cargos ou mecanismos de controle.

A reunião do CUN

Se a reunião da manhã correu tranquila, a do CUn explicitou o completo esquecimento da prerrogativa da autonomia. Seguindo a lógica do que acontece hoje no Brasil, de um estado de exceção, o Conselho Universitário não permitiu a entrada da imprensa, inclusive a interna. Alguns conselheiros chegaram a questionar a presença da Agecom, que é o setor oficial da comunicação da UFSC. Também a TV UFSC não teve acesso. Todos ficaram de fora. Nem mesmo a câmera que faz a filmagem da reunião foi manipulada, ficando aberta e mostrando uma imagem geral. Coisa assim só foi vista na trágica votação da Ebserh, que foi feita dentro do prédio da Polícia Militar.    

O TAE Hélio Quadros, escolhido pelos trabalhadores para ler o documento, não teve permissão de entrar. Ele então foi conversar com os representantes legais dos TAEs no Conselho, que foram eleitos pela categoria, para que lessem o documento. Pasmem. Negaram-se, dizendo que o documento não tinha sido feito pelo sindicato. Ora, os representantes dos TAEs no CUn não são representantes do sindicato.  São eleitos em eleição geral. Mas, como se viu, ao que parece, só fazem o que o sindicato manda. E se o sindicato está morto, eles se calam.

Assim, dessa forma antidemocrática começou a reunião. A vice-reitora se pronunciou dizendo que tem clareza de que o Conselho já havia decidido pela sua permanência e que ela estava pronta para enfrentar o desafio. Caiu por terra as teorias de que ela iria renunciar. Não vai. Teceu loas à autonomia universitária e logo em seguida informou ao CUn que havia suspendido a portaria do processo contra o corregedor porque a universidade estava vivendo uma situação de muita instabilidade. 

Assim, decidiu que enviará o processo envolvendo o corregedor para a Corregedoria Geral da União, em nível nacional, para que eles lá decidam sobre a vida da UFSC. Paradoxo total. Como falar em autonomia e imediatamente depois ceder soberania para a CGU? Um vexame total.

A professora Sônia Probst interveio dizendo que aquela não era pauta do Conselho e que a informação da vice-reitora, bem como sua decisão, não estaria respaldada pelo CUn.

Ao final, o conselho decidiu criar comissões para investigar as denúncias que pesam sobre a UFSC. E ainda contratar empresa para ver o que ficou de impacto negativo da operação ouvidos moucos sobre a UFSC. Surreal. 

Ao que tudo indica, a vice-reitora segue o mandato, inclusive com o aval para refazer a equipe de comando, uma vez que vários pró-reitores pediram para sair. 

No campo dos trabalhadores técnico administrativos ficou o compromisso de construir uma Assembleia Geral Universitária.

Como análise geral fica a certeza de que essa administração seguirá submissa aos órgãos externos, cedendo soberania e abrindo mão da autonomia. Segundo o professor Áureo Moraes, que encaminhou o processo contra o corregedor, a vice-reitora estava sabendo dos trâmites e só voltou atrás depois de receber a visita de representantes de órgãos externos à UFSC.

No que diz respeito aos trabalhadores já está bem claro como a banda vai tocar. Nenhum respeito e ignorância total sobre as pautas. Restará ao grupo que hoje se auto-convocou seguir se reunindo e apontando caminhos.

Nessa sexta-feira tem assembleia do sindicato, mas os dramas da UFSC não estão na pauta. A luta vai ser dura, principalmente porque estaremos com o sindicato jogando contra. A posição dos conselheiros hoje deu o tom.

O caminho é centrar fogo na Assembleia Geral Universitária, buscando mobilizar também os professores e os estudantes. 


quarta-feira, 25 de outubro de 2017

Aos velhos e aos novos - Vamos discutir a UFSC



Na UFSC, uma das grandes batalhas que sempre travamos foi a da autonomia universitária. Garanti-la durante os momentos mais cruciais sempre foi cimento para unificações – no geral complexas  - entre técnicos, professores e estudantes. Autonomia na sala de aula, autonomia administrativa, autonomia política. Claro que sempre alinhada às grandes políticas traçadas pelo estado, afinal a universidade é uma instituição pública.

Nunca foi fácil caminhar por esse caminho de autonomia. Primeiro porque quase sempre tivemos reitores visceralmente atrelados politicamente às políticas conservadoras dos governos de plantão. Ainda assim, quando do interesse dos gestores, a autonomia era chamada. No geral, assim, obedecendo a esse uso instrumental. Quantas batalhas perdemos nós, trabalhadores e estudantes, porque os administradores não quiseram usar do princípio da autonomia, e quantas outras perdemos porque eles arrogaram autonomia? Os que estão na UFSC por mais tempo sabem disso.

É por isso que seguimos lutando pela tal autonomia. Mas entendemos que ela deva ser praticada para servir aos interesses da maioria da população, que é quem usa e sustenta a universidade. Sabemos também que isso só vamos conseguir quanto tivermos uma administração alinhada com as grandes lutas nacionais por transformação. Infelizmente na UFSC temos tido administrações conservadoras, no mais das vezes alinhada com o mercado capitalista.

Durante a gestão de Roselane/Lucia, vivenciamos um momento estranho. Houve um afã desenfreado de processos contra trabalhadores, mais de 500, muitos deles sem qualquer fundamento, sob a alegação de que a UFSC estava sob a fiscalização cerrada de outros órgãos federais. E houve uma questão em particular que acendeu a luz vermelha dessa relação de submissão da instituição ao Ministério Público.  Foi a imposição do ponto para os técnico-administrativos. Segundo a reitora, o MP estava pressionando e a UFSC iria acatar, sem levar em conta a sua autonomia. Na época, sugerimos à reitora que trouxesse os membros do MP à UFSC para explicar como a instituição funcionava, como ela não era uma fábrica de salsichas e como não podia ter as mesmas regras. Sugerimos também uma proposta autônoma e adequada ao papel da universidade sobre como controlar o ponto dos trabalhadores. Não teve jeito. A reitoria assumiu a reprimenda do MP e impôs a folha-ponto.

O que precisa ficar claro para a sociedade é que ninguém aqui está dizendo que a universidade não deve se submeter a controle. Ela tem sim que estar sob controle da sociedade e existem mecanismos para isso. Mecanismos que são usados o tempo todo. Poucas instituições são tão controladas como a universidade. Se estouram alguns escândalos de desvio de verbas, podem apostar que estão sob o comando das fundações, porque essas sim estão livres e não prestam contas com rigor. As fundações são empresas privadas dentro da universidade, configurando uma excrescência que poucos têm a coragem de discutir. Durante o mandato dos TAEs Livres no Conselho Universitário bem que tentamos trazer um mínimo de transparência para as contas. Esbarramos na sempre subserviente relação entre os professores e as fundações. Avançamos pouco. Nossa proposta sempre foi pelo fim das fundações dentro das universidades, mas o próprio presidente Lula as legalizou.

Voltando a autonomia, a universidade poderia sim evocá-la para discutir com qualquer outro órgão federal. Um reitor ou reitora que realmente conhece e defende a instituição não deve ter medo de dialogar e apresentar os argumentos sobre como está fazendo seu trabalho. Enfrenta MP, enfrenta tribunal de Contas, enfrenta Controladora Geral da União. Chama para conhecer, mostra as diferenças, abre as contas, abre todos os “cofres”. Transparência e firmeza. Com isso pode-se ir conversando e encontrando caminhos.

O que não dá é para temer.

Compreendo que o que aconteceu com o Cancellier possa colocar medo nas pessoas. Se ele, sendo um homem do sistema e um conciliador, passou o que passou, o que não poderia passar àquele ou àquela que decide enfrentar com autonomia esses setores que hoje assomam com tanta empáfia, arrogância e intolerância? Não deve ser fácil arriscar ser preso por um jovenzinho pseudo-calvinista por não cumprir uma determinação imposta pelo desconhecimento.

Mas, apesar de toda essa treva que se abate sobre o país, é preciso resistir. Nossa UFSC precisa de uma administração sem medo, capaz de apontar o caminho da resistência. O Cau foi tomado de surpresa. Ele não teve chance. Não sei se ele enfrentaria, mas o fato é que não teve chance. Foi arrancado de casa e impedido de entrar na universidade. Sofreu humilhações e ficou impedido de fazer contato com seus colegas da UFSC.  Nessa hora faltou mesmo liderança. Ninguém do grupo da administração assomou levantando a bandeira da autonomia. Nem seus correligionários. Ficou um estupor. Nossas entidades sindicais internas estão mortas. Não se moveram. Os estudantes tampouco.
Então o reitor se matou. E isso abriu os olhos de alguns.

Começou uma movida, ainda muito burocrática. Denúncia do estado de exceção, pedido de justiça. Mas nenhuma ação massiva da comunidade. A vida segue nos departamentos, nos centros, como se nada fosse com a gente.

Agora, mais essa. A nova reitora em exercício se rende aos órgãos de fora. Desfaz um ato administrativo que buscava esclarecer denúncias sobre o corregedor. Atropelos, titubeios, medo. Não é disso que a UFSC precisa.

Os técnico-administrativos vão realizar um encontro auto-convocado nessa quinta-feira, dia 26 de outubro, às 9h e 30min, no Hall da reitoria. Chamamos todos e todas. Os velhos, que já se aposentaram, os novos que aí estão, atônitos diante de tudo. É tempo de retomarmos o protagonismo que sempre tivemos sobre os grandes temas da UFSC. Os trabalhadores fazem a UFSC. É hora de encontrar caminhos coletivos que fortaleçam nossa universidade e que permitam assomar propostas de autonomia e bom-governo.


Sem medo, avante! TAEs, vamos dizer nossa palavra.