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domingo, 30 de agosto de 2020

Sobre Wakanda e o socialismo


 Chadwick Boseman é um ator negro que morreu aos 40 e poucos anos e causou uma grande comoção nos Estados Unidos. Ele interpretou um rei africano de uma terra imaginária, Wakanda, no cinema. Um filme sobre um reino negro, feito só com pessoas negras. Um marco nos Estados Unidos. Não vou entrar aqui no debate sobre a mensagem do filme, absolutamente liberal. Vou apenas perguntar: e poderia ser diferente? 

Sempre é importante lembrar que as ideias socialistas e comunistas foram varridas dos Estados Unidos na grande cruzada realizada pelo nefasto Joseph McCarthy entre os anos 1946 a 1958. Durante anos a fio qualquer pessoa com ideias mais à esquerda era denunciada e cassada. Acredita-se que mais de 10 mil pessoas perderam seus empregos e caíram no ostracismo social durante a chamada era McCarthy: professores, sindicalistas, artistas, escritores. Até o grande Charles Chaplin viveu na pele esse horror. 

Nas universidades se algum professor resolvesse incluir nas suas aulas de história a verdade sobre a Segunda Guerra ou algo sobre a Revolução Russa já era denunciado por alunos e imediatamente expulso. Se alguém numa empresa qualquer fizesse um abaixo-assinado para ter café para os trabalhadores também era apontado como comunista. E o comunismo passou a ser um inimigo a ser extirpado do país. Vale lembrar que muitas dessas pessoas que foram execradas não eram comunistas. Eram apenas pessoas que queriam lutar por direitos, mínimos às vezes. McCarthy promovia uma caça aos comunistas e a população apoiava fortemente, porque toda a mídia de massa divulgava a necessidade de combater o perigo vermelho.  

Foi uma campanha tão virulenta que o Partido Comunista dos Estados Unidos quase chegou a extinção, sobrando muito pouca gente identificada com essa proposta. E quando nos anos 1960 assomam as lutas pelos direitos civis, os direitos da população negra e contra a Guerra do Vietnam, as ideias que as movimentam são mais no campo liberal. Os Panteras Negras, que falavam de socialismo e apresentaram uma visão mais radical da luta contra o racismo, igualmente foram presos e execrados, sobrevivendo uma visão mais “palatável” da luta, com as ideias pacíficas de Luther King. Muitos avanços vieram a partir daí, ainda que cobrando alto em sangue e dor da população negra. Mas, tudo redução de danos, a considerar a realidade atual via massacre sistemático dos negros naquele país. O que dizer quando um negro desarmado leva sete tiros nas costas e um branco armado de fuzil mata e sai andando? 

Hoje, observando as figuras que representam as ideias mais progressistas nos Estados Unidos – de qualquer etnia - fica bastante claro que a visão vencedora – não apenas no campo da luta contra o racismo, mas também nas demais lutas por direitos – foi a visão liberal. Assim, o máximo que a turma consegue chegar é nas pautas que traduzem as lutas contra as desigualdades, o que significa que as desigualdades seguirão existindo, só que menos. Bom, isso não é suficiente. 

Essa é também a mensagem do filme Pantera Negra, do qual Chadwick Boseman foi protagonista. E, na indústria do cinema estadunidense isso já foi altamente transformador. Seria obviamente impensável que Hollywood colocasse na tela um filme só de negros, com uma mensagem revolucionária: ou seja, Wakanda saindo de seu isolamento para comandar uma revolução mundial, acabando de vez com as desigualdades e com a exploração. Não. Isso não sairia da cidade dos anjos. O que pode sair é o que saiu. Wakanda dando uma de Banco Mundial, FMI, Nações Unidas, financiando programas de redução da pobreza. Até aí, tudo bem.

Cá no meu cantinho eu entendo perfeitamente a comoção da população negra estadunidense com a morte daquele que representa um rei imemorial dos ancestrais. E sua história de luta contra a doença, mesmo durante as filmagens, o torna ainda mais heroico como ser humano e como homem negro tentando sobreviver na selva real. Ele certamente viverá na memória das crianças negras, que nunca tinham visto um rei negro no cinema. Levá-los a ultrapassar esse limite é a tarefa hercúlea dos partidos e dos movimentos revolucionários, que ainda são minúsculos nos Estados Unidos. 

Mas, por hoje, é isso que se pode ter. Não morreu apenas um ator negro, um bom ator a se considerar sua performance como James Brown, morreu alguém que representou, pela primeira vez em muito tempo, uma imagem positiva do negro estadunidense – ainda que camuflada em rei africano e limitada pela proposta liberal.  Chadwick representa um marco no cinema estadunidense e, na pele do rei de Wakanda, representa uma esperança para muitos meninos e meninas negras acostumados a ver seus iguais apenas em papel de empregados, drogados ou bandidos. Cruzar o muro do liberalismo é o próximo passo. 

A luta pelo socialismo/comunismo nos Estados Unidos é uma estrada que vem sendo reconstruída com muito vagar. Tanto que o Partido Comunista de lá passou décadas sem conseguir eleger sequer um vereador. Apenas no ano passado, o partido pode garantir um assento no legislativo da pequena cidade de Ashlan (oito mil habitantes), ao norte, no estado de Wisconsin, conhecido por ser o berço do chamado “progressismo” ainda no final do século XIX.

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2020

A moral é política

A família margarina é um desejo de felicidade


Das coisas que me incomodam nos tempos atuais uma é ver companheiros do espectro da esquerda tripudiarem das pautas morais que têm sido impostas pelo governo e seus apoiadores. Não compreender a importância desses temas é desconhecer por completo a natureza humana. Desde o princípio dos tempos, quando homens e mulheres começaram a pensar sobre o mundo, o tema moral está posto, seja na religião ou na filosofia. Grandes pensadores foram astutos moralistas, inclusive o nosso ícone revolucionário Che Guevara.  E no que se constitui a moral: a elaboração de uma série de regras para alcançar a felicidade e o bem viver. 

Aristóteles dizia que a felicidade só vinha através da virtude, e virtudes aqui seriam não apenas as atividades racionais, mas também as sentimentais, afetivas, passionais que deveria ser governado pela razão embora não pudessem ser totalmente resolvidas pela razão. Ele entendia que a razão podia dominar a paixão, mas não conseguia aniquilar ou destruir. Isso significa que o extraordinário filósofo sabia muito bem ser a paixão algo capaz de desestruturar tudo se não fosse domada pela razão.  

Adam Smith, considerado um ícone do liberalismo, discorreu largamente sobre a moral e considerava a simpatia – que ele entendia ser a capacidade de sentir aquilo que o outro sente – o elemento natural que deveria balizar o agir humano.

Che Guevara, como já disse, foi pródigo em estabelecer regras morais para que a revolução pudesse se fortalecer e avançar. O chamado “homem novo” que ele reivindicava era justamente isso, a instauração de novas regras para viver numa sociedade socialista. Outros valores, outras paixões. A virtude como aplicação da razão, mas não só razão. 

Cada um desses pensadores entendia a moral como uma regra para a humanidade, com caráter universal. E, esse é um debate que vem sendo travado através dos séculos por intelectuais de todo o planeta. Mas, com a emergência da chamada pós-modernidade, esse tema da moral foi escasseando e chegou-se inclusive à proposta da destruição da moral. As pessoas foram “autorizadas” a fazer tudo o quem bem entendiam, tudo passou a ser permitido em nome de uma felicidade individual ou particular. Daí a lógica das “tribos” ou do que outros chamam de “identitarismo”. As regras morais valem só no e para o grupo, não se estendem ao universal. E há inclusive, a regra do eu-sozinho ou o que Lipovetzki conceitua como o “self-made man” . O tempo da anomia, o tempo sem-lei.

É esse tempo, iniciado em 1968, que vem se fortalecendo desde então.  E é esse tempo, o da anomia, que a moral neopentecostal ataca com relativo sucesso. A desestruturação de todas as esferas da vida causada pelo capitalismo enche as pessoas de angústias, dúvidas e vazios. E é nesse buraco, muitas vezes sem compreensão por parte da maioria, que se infiltram os tentáculos da religião ou de qualquer instituição que apresente uma mínima tentativa de ordenamento universal. É importante percebermos que as “tribos” não conseguiram dar uma resposta para todos e as pessoas estão aí, perdidas, esperando um salvador. Não deveria ser assim. Mas, as coisas não são como a gente quer e sim como a história se nos apresenta na sua materialidade. 

Quando observamos o ascenso do conservadorismo ou das práticas fascistas no mundo, esse é um tema que deveria ser melhor compreendido. Por quê? O que leva as pessoas ao medo ou à tentativa de recuperar um passado que – na verdade  - só existe na memória, visto que é impossível fazer com que as coisas sejam como antes? Tripudiar desse medo seria o melhor caminho?

Tenho uma amiga que acha formidável a ideia de uma campanha pela abstinência sexual. Ela tem quatro filhos saindo da adolescência. Ela se depara todo o dia com as notícias do aumento das doenças sexualmente transmissíveis, ela sabe que Florianópolis tem alto índice de contaminação pelo HIV, ela sabe que o Posto de Saúde não dá respostas rápidas para os problemas de saúde. Ela não tem dinheiro para uma emergência médica. Ela se desespera. Ela então acredita que se os garotos não transarem, estão protegidos. E se agarra no pastor, e no governo, e em deus. E ela encontra respostas. Pensa que as coisas vão se resolver assim, de maneira mágica. Não compreende que seus filhos são sujeitos históricos, que estarão submetidos a outras relações, que estão no mundo e não na redoma da casa. E não compreende também que as doenças poderiam ser evitadas por políticas públicas eficientes, com educação de qualidade, com possibilidade de alimentação saudável etc.. Ou seja, não consegue racionalizar que o motivo da emergência das pautas morais é a situação política/econômica/cultural. 

As pessoas não conseguem ver que o precisam é de uma revolução.

Por isso creio que estamos bem atrasados no debate sobre a moral. Por isso penso que o governo atual está conseguindo ganhos importantes no campo da política utilizando o discurso moral. Esse povo aí no poder sabe o que está fazendo. Está dizendo claramente: vou colocar ordem nesse mundo desestruturado. E muita gente acredita que sim, isso é possível. Que a ordem virá por um impulso da vontade. Não virá. O que vem é ordem de um grupo muito pequeno, bem específico, sobre a maioria, que aceita por sentir-se perdida e sem respostas. 

Penso que é chegada a hora de parar de rir e tripudiar das pautas morais. Elas são importantes e definem caminhos. Seguir a deixa do Aristóteles: a razão no comando, mas sem esquecer que as paixões são selvagens e arrebentam os muros da razão. É um extraordinário esforço garantir o equilíbrio. Disputar nesse terreno é fundamental. 

quarta-feira, 29 de janeiro de 2020

“Queremos estudar”: crianças das ocupações precisam de material escolar



Viver em Florianópolis é duro. Principalmente para as famílias de baixa renda. Os aluguéis são pela hora da morte, mesmo na periferia. A renda da terra exorbita o valor dos terrenos, muitos deles conseguidos de foram ilegal, como atesta o musculoso trabalho de Gert Schinke no livro “O golpe da reforma agrária: fraude bilionária na entrega de terras em Santa Catarina”´. Terrenos valorizados, casas e apartamentos também. 

E é por conta da impossibilidade de pagar os altos aluguéis que as famílias que nada têm se obrigam à luta pela moradia. Há que dar um lugar para os filhos viverem, e há que ter um lugar para descansar a cabeça. Por isso, o movimento dos sem-teto ocupa terras da União ou outras que não cumprem sua função social. Mas, as pessoas não querem terra ou casa de graça. Estão dispostos a pagar por elas, mas há que ser um preço justo e num lugar onde possam se mover e trabalhar. Só na capital existe um déficit de 20 mil moradias (mais de 75 mil pessoas) , a região metropolitana 40 mil ( 175 mil pessoas) e no estado inteiro são mais de 200 mil ( 750 mil pessoas). E o que isso significa na prática? Que essa gente toda não tem onde morar, não tem assegurado um direito básico. Não são números, são pessoas, com sonhos e esperanças de vida boa.

Na grande Florianópolis existem hoje várias ocupações, que se constituem nesse processo de luta por moradia. A Mestre Moa congrega 26 famílias, a Nova Esperança tem 300, a Beira Rio, 130 famílias, a Contestado, 150, a Fabiano de Cristo, 43, a Vila Esperança, 92, e a Marielle Franco, 134. São mais de 800 famílias só nas ocupações atuais, isso sem contar as mais antigas e consolidadas que seguem ainda na luta pela regularização. Nesse universo pulula a criançada, mais de 500 pequeninos e pequeninas, tão cedo jogados no campo da batalha por vida digna.  

Pois esses pequenos precisam estudar e além de todo o processo de resistência contra o despejo e pelo direito de ter uma casa onde morar, suas famílias precisam enfrentar o desafio de manter as crianças na escola. Não é fácil. Garantir vaga e principalmente garantir a permanência é outra peleia constante. Por isso, os movimentos organizados estão realizando uma campanha para arrecadar material escolar, visando dar as condições para que as crianças possam se manter estudando. 

Portanto, é hora da solidariedade concreta. O que é quase nada para alguns pode significar muito para outros. Faça sua doação em qualquer destes lugares até o dia 07 de fevereiro: 

SINTESPE - SINTRASEM - SINTRAFESC - SINTRAJUSC - SINJUSC - SINTUFSC - ARCO IRIS - UDESC/FAED PET Geografia - FECESC -  TENDA LULA LIVRE - Gab Ver. LINO - Gab Dep. PADRE PEDRO - SEEB BANCARIOS - SINTE Floripa - SINDSAUDE - BAIACU DE ALGUEM – RÁDIO CAMPECHE - ELETROSUL/SINERGIA – SINERGIA

Veja aqui a lista de material

Caderno Peq 1 Matéria
Caderno Gd 10 Matérias
Caderno de Desenho Gd
Caderno de Desenho Pq
Bloco A4 Pautado
Folha A4 Branca 100fls
Folha A4 Colorida 100fls
Estojo Escolar
Lápis Preto
Cx Lápis Colorido
Cx Lápis de Cera
Caneta Azul 
Pincel Pq
Pincel Gd
Tinta Guache
Régua de 30cm
Apontador
Borracha 
Cola Bastão
Cola Branca Tubo pq
Tesoura Sem Ponta
Fita Adesiva Transparente
Garrafa pra Agua
Copo Plástico Reciclável
Dicionário Pq de Português
Dicionário Pq de Ingles Português
Mochila Sacola ou Bolsa Escolar
Amor, Carinho e Solidariedade

A campanha é coordenada por: MNLM - Mov Nac de Luta por Moradia, Coletivo Ocupacoes Urbanas Gd. Floripa, IGENTES - Instituto Gentes de Direito

quarta-feira, 23 de outubro de 2019

Os brasileiros por conta própria


As cenas no nordeste são de arrepiar. O óleo vazado dos navios da Shell chegando a mais de 180 pontos de praia. E nenhuma ação do governo brasileiro para conter o desastre. O presidente chegou a dizer que o país não tem responsabilidade alguma, logo, nada fará. Está brincando de rei no Japão. E, como o governo acabou com o Comitê que trabalhava na contenção de desastres, não há qualquer política de ação. Cada cidade está tendo de agir por si.

Enquanto isso, as gentes que vivem nas cidades afetadas estão tirando o óleo da praia do jeito que dá, com apenas sua intuição e desejo de vencer o drama. Quando o dejeto chega à praia, eles enrolam com as próprias mãos e colocam dentro de sacos plásticos, que são levados sabe-se lá para onde.O importante para os moradores é tirar o óleo da praia, já que o mar é o espaço de sustento de grande parte das pessoas.  

O abandono do governo tem a ver com o imenso ódio que o grupo de poder têm dos nordestinos. Primeiro, porque acreditam que lá, todo mundo é do Lula e do PT. E segundo, pelo racismo explícito, sempre alardeado pelo agora presidente da nação. A impressão que se tem é de que essa gente que está no poder agora fica vendo o desastre, rindo e comemorando o fato de os “petralhas nordestinos” estarem sofrendo. Há quem diga que o desastre foi provocado em represália contra os nordestinos. Não sei se chegariam a tanto. Mas, dado o desastre, a inação é deliberada, com certeza.  

Nos grupos de apoiadores do governo os comentários são os mais abjetos: “ que se virem”, “peçam ajuda ao Lula”, “ vão se ferrar”, ou seja, representam e expressam justamente o mesmo sentimento do governo.  Já os liberais aplaudem a ação dos moradores dizendo que é isso mesmo, que se organizem sozinhos e não fiquem pedindo ajuda ao “papai” Estado. Segundo eles, o Estado não tem de dar respostas para tudo.Cada um que se vire.   Ora, se o papai estado não deve ser chamado num desastre dessa natureza, talvez os brasileiros atingidos também não devessem ficar sustentando o “papai” estado, já que são as pessoas que sustentam essa máquina com seus impostos. Logo, não existe um papai estado. O que existe é uma nação sustentada pelo povo que ali vive. O governo não é pai. O governo deveria ser o organizador do espaço, gerindo os recursos que são criados pela população em benefício dessa população. 

Mas, claro, isso seria o ideal. Na verdade, o estado é “papai”sim, mas não da maioria da população. Ele sente-se pai de apenas uma fatia bem pequena da população, que é a dos empresários e grandes proprietários. Para essa parcela ínfima tudo está reservado. Se os bancos, por exemplo, sofrem algum colapso, lá vai o Estados salvá-los. Se alguma grande empresa tem problemas, lá vai o Estado salvá-la, se algum empresário bem rico precisa de ajuda para ampliar os negócios, lá está o Estado para ajudá-lo. Mas, se a floresta pega fogo, que se virem as gentes. E se o óleo de uma empresa multinacional é jogado no mar, que as pessoas encontrem formas de limpar as praias. Nada de esperar pelo “papai” Estado. Porque o estado não é pai dessa gente mesmo. 

O estado é balcão de negócio da classe dominante. Só a ela serve.

Por isso, no nordeste, são as pessoas que estão se virando por conta própria. 

O estado brasileiro está se desobrigando de sua gente, todos os dias, um pouco mais. Além de abandonar o nordeste de maneira perversa, hoje também celebra o fato de jogar na sarjeta todos os seus velhos. O senado aprovou a reforma da previdência que define o fim da aposentadoria dos brasileiros. Raríssimos trabalhadores conseguirão chegar a essa situação visto que terão de trabalhar mais de 40 anos para requerer o benefício. E se chegaram a isso, terão ainda um benefício bem encolhido, que não será suficiente para sobreviver, que dirá viver.  

A reforma passou sem que as grandes centrais sindicais dessem sequer um suspiro. As lideranças burocratizadas preferiram negociar com o Congresso alguns destaques, tentando evitar o pior. Obviamente também não conseguiram porque esse Congresso que aí está não representa a população e sim os grupos de interesses e poder.  

Assim, o Estado brasileiro vai mostrando sua cara real,eliminando qualquer ilusão que alguém possa ter sobre ser o pai das gentes. Não há absolutamente nada que se possa esperar do Estado. Muito menos do sistema que o sustenta e que alguns chamam de “democracia”.  O quanto antes a população entender que nem o Estado a representa, nem a democracia existe, mais rápido será possível mudaras coisas.

Vejam que o sistema de poder é muito eficaz na sua batalha discursiva. Tanto que chama de ditadura sistemas de governo como os de Cuba, da Venezuela e agora da Bolívia. E chama de democracia países como os Estados Unidos, Iraque, Brasil. Ora, Cuba exerce muito mais a dita democracia que qualquer lugar do mundo. Lá, a população sabe o que acontece e decide os rumos do país em cada rua, cada bairro. Na Venezuela, a maioria da população é chamada para decidir sobre os rumos do país. Isso é apresentado como ditadura e ponto final.

Já um país como os Estados Unidos que nem eleição direta para presidente tem– o que seria um pilar básico da tal democracia – é visto como modelo de liberdade no mundo. E só são reconhecidos como “democracia” os governos que se aliam aos Estados Unidos.Ou seja, tudo está “de patas para o ar”. Aquilo que dizem ser democracia é na verdade ditadura, e o que chamam de ditadura são governos de liberdade. E é incrível que as pessoas não consigam perceber isso, tão ofuscadas que estão pela comunicação massiva e ideológica. 

Por isso que o governo brasileiro e a mídia local mentem dizendo que o óleo chegado ao nordeste veio da Venezuela. Ligam assim o desastre à “ditadura” e ficam isentos da responsabilidade. Ora, mesmo que o óleo fosse da Venezuela – e não é  - o governo tinha de ter um plano de contenção de desastres. E se vier um furacão? Ou uma tormenta? Ou um tsunami? O Estado não vai agir? Ao que parece, não.  

Estamos por nossa conta e, inclusive, sem direito a ficar velho. Bueno, isso pode ser bom, se estamos por nossa conta, e estamos dando conta, isso significa que esse Estado aí não é necessário. Logo... um mais um são dois. 

terça-feira, 3 de setembro de 2019

Proibido celebrar


Trabalhadores do Instituto Chico Mendes

Texto: Manoela Costa - Asibama -DF

No dia 28 de agosto, os servidores do Instituto Chico Mendes (ICMBio) se reuniram no pátio da sede em Brasília-DF para comemorar os 12 anos do órgão ambiental e chamar a atenção para a gravidade dos incêndios na Amazônia. A atividade, convocada como assembleia pela Asibama-DF, associação dos servidores, reuniu cerca de 100 participantes. Porém, enquanto o grupo cantava o hino nacional, o presidente do ICMBio, Homero de Giorge Cerqueira, despachou documento para proibir a celebração.

A justificativa para a tentativa de impedir a manifestação dos servidores seria a necessidade de concentrar esforços na operação Verde Brasil, que supostamente pretende proteger o bioma da Amazônia. No entanto, não constavam atividades ligadas à operação na agenda oficial dos diretores do ICMBio. Os servidores tampouco foram informados sobre essa operação, recebendo apenas um convite por e-mail sem mais explicações.

"Quando organizamos o evento, pensamos em algo para levantar a moral e estima dos servidores uma vez que, diante do constante assédio, muitos servidores estão se sentindo ameaçados e amedrontados no exercício das suas funções", explicou Alexandre Gontijo, presidente da Asibama-DF.

Durante o ato, os trabalhadores do ICMBio lembraram das dificuldades enfrentadas no trabalho: cortes orçamentários, redução das operações de fiscalização, retaliações e remoções à revelia, exoneração, impedimento de realizarem suas assembleias e darem entrevistas.

 “A melhor forma que o governo deveria fazer para conter os incêndios e o desmatamento é reforçar os órgãos ambientais, dotando-os de capacidade de ação, planejamento e infraestrutura. Infelizmente, o que vemos é o oposto”, complementou um servidor que preferiu não ser identificado.

As celebrações do aniversário do ICMBio se tornaram tradicionais. Anualmente, a Asibama-DF recebe o pedido das direções para contribuir com o recurso para o bolo e decorações. Neste ano, a associação se deparou com o silêncio e a recusa do diretor em receber os representes dos servidores, que tiveram dois pedidos de audiência desmarcados.

"Entendo que está acontecendo uma tentativa de intimidação mesmo", concluiu Beth Uema da Ascema Nacional. 


quinta-feira, 29 de agosto de 2019

O ataque agora é contra os trabalhadores públicos


Sempre é preciso repetir. Não há surpresa nas ações do governo federal. Tudo que está fazendo, foi anunciado. Em meio às mentiras escabrosas como a da mamadeira de piroca, estavam também as verdades. Assim que não há nenhuma enganação. O que está sendo feito foi aceito pela maioria dos eleitores que colocou na presidência Jair Bolsonaro. O ódio aos indígenas, aos sem-terra, aos pobres, aos trabalhadores públicos, tudo anunciado. 

Por isso não é novidade que toda a ação econômica prevista e planejada pelo ministro Paulo Guedes seja contra a maioria da população, que se encaixa no perfil acima citado. Esse é um governo dos ricos, dos banqueiros, dos fazendeiros, dos mineradores e das transnacionais. Foi assim que se fez a reforma trabalhista, arranjada para aliviar a vida dos empresários, dos patrões. Os trabalhadores pagarão a conta da crise e permitirão que em meio ao caos os seus patrões sigam levando os filhos à Disneylandia e tomando vinho francês. Enquanto isso se observa  o crescimento exponencial de gente trabalhando na rua, em subemprego, bem como a volta da fome, dos moradores de rua e a exacerbação da violência.

Feito o “ajuste” com os trabalhadores da iniciativa privada o governo agora se volta para o serviço público. Algumas carreiras são admitidas como essenciais, mas a maioria é vista como entrave ao projeto de lucro acima de tudo, da elite nacional. Segura-se a onda do judiciário, que serve aos interesses da horda, da receita federal, talvez, e os demais começam a sofrer o processo de destruição. 

A última agora é economizar em cima dos trabalhadores públicos. Segundo o ministro da economia os “gastos” com a máquina pública são altos. Como se o serviço público não fosse um direito. 

A proposta inicial é acabar com os planos de carreira conquistados com muita luta pelos trabalhadores, que sequer conseguiram ainda garantir uma data base. Isso significa que os aumentos salarias sempre têm de ser arrancados na luta. Com muita batalha vieram os planos de cargos e salários, que garantem progressões sistemáticas por tempo de serviço. Coisa muito pouca. No caso dos trabalhadores das universidades, por exemplo, há 16 degraus para subir na carreira, que são escalados de dois em dois anos, com um reajuste ínfimo de 3,7%.  E é aí que o governo quer “economizar”. Tirando o direito dos trabalhadores. Segundo Guedes, haveria uma economia de 10 bilhões. E tudo deve ser feito autoritariamente com Medida Provisória.

Ou seja, não passa pela cabeça do ministro, nem dos demais governantes, discutir a dívida pública, por exemplo, que transfere quase a metade do orçamento total brasileiro para os bancos, pagando juros de uma dívida ilegal e ilegítima. O sacrifício só é exigido dos trabalhadores. Nenhum problema em perdoar as dívidas dos fazendeiros que chegam a 17 bilhões.  Só isso já ultrapassaria o valor que o governo quer “economizar” com o serviço público. E não estão contabilizadas aí outras dívidas não pagas, como as dívidas previdenciárias de outros empresários, cujo montante chega a 331 bilhões. Por que não cobrar dessa gente? Por que tentar colocar a culpa do chamado “rombo” sobre o serviço que se presta ao cidadão? Ora, porque que essa é a proposta do governo: proteger os ricos. Só o violento dono da Havan deve mais de 160 milhões aos cofres públicos. E a ele, nada toca.

As universidades públicas já estão sofrendo com o corte de verbas, com o qual o governo pretende chantagear as administrações e comunidades para a adesão a um projeto que finalmente privatiza a universidade. Também estão vendo sumir todos os serviços terceirizados, os quais não podem mais ser bancados pela falta de recursos. Agora, com a retirada de direitos dos trabalhadores, pretendem colocar mais uma pá de cal sobre a já combalida instituição. E assim, como um castelo de cartas, pegando todo o serviço público que realmente chega à população como saúde, educação, segurança, alimentação etc...

Por isso que pouco importa falar sobre a mulher do presidente francês. Mais valeria estarmos atentos a toda essa perda de direitos. Porque a hora de todos vai chegar. Já foram os trabalhadores do mundo privado, agora os públicos. E amanhã?  

segunda-feira, 26 de agosto de 2019

Os incêndios e os indígenas

Foto: Andressa Zumpano/CPT

Ainda que pouco se fale, dentro da mata que queima há dias existem comunidades indígenas, comunidades ribeirinhas e tradicionais. Gente que vive há milhares de anos na relação equilibrada com a floresta. Gente que coleta da mata aquilo que a mata dá, que pesca nos rios, que cultiva a mandioca e outras culturas milenares sem prejudicar o ambiente. Esse povo convive com os assassinos e os destruidores desde a invasão portuguesa e espanhola. Tem sido um sistemático massacrar, igualmente combatido numa resistência tenaz. 

É fato que ao longo desses mais de 500 anos de invasão, muitas etnias foram extintas. Mas, há as que sobrevivem e seguem buscando existir de acordo com sua cultura ancestral, convivendo com o ambiente, manejando-o sem destruir, inventando novas formas de não sucumbir ao sistema capitalista que tudo arrasa ao transformar tudo em mercadoria. E são essas pessoas que conseguem manter esse rico patrimônio ambiental que, por sua grandeza, acaba sendo importante para todo o planeta.

Mas, é justamente essa parcela da população que enfrenta hoje no Brasil o pior dos ataques. Desde o primeiro dia do governo de Jair Bolsonaro, as comunidades indígenas, ribeirinhas e tradicionais passaram a viver com a faca estatal sob suas cabeças. É fato que o estado brasileiro nunca foi lá muito bom para os povos originários, mas, com Bolsonaro, assumiu uma posição de ofensiva agressão contra os indígenas. A aliança com o agronegócio feita para ganhar a eleição teve como objeto principal da negociação as terras indígenas. Os fazendeiros querem avançar sobre a Amazônia para explorar a madeira e depois plantar soja. E os mineradores, parte da mesma fatia de gente, querem as terras para fuçar o chão e extrair as riquezas minerais. 

Por isso que ao longo desses meses o governo atuou com bastante agilidade no campo do Meio Ambiente, contra o meio ambiente. Multas de agressores da natureza foram anuladas, servidores dos órgãos ambientais que tinham atuação séria contra as violações foram exonerados, há registros de perseguição e censura aos funcionários e a suspensão das multas por desmatamento. Situações como agressões por fazendeiros aos trabalhadores do Ibama são toleradas e as falas presidenciais são uma clara permissão para que os criminosos atuem sem medo. Não bastasse isso, o governo cortou de maneira significativa as verbas destinadas aos órgãos ambientais.  

Há pouco tempo, o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais já havia alertado para um aumento exacerbado de desmatamento na Amazônia, situação que provocou a demissão do dirigente máximo do instituto, praticamente escorraçado pelo presidente do país, que segue negando os dados e a realidade para não comprometer seus aliados. 

Os incêndios que se propagam pela região nessa época do ano são comuns, mas nunca chegaram a essa magnitude, o que mostra que eles extrapolaram as causas naturais. Essa semana foi divulgada uma informação de que um grupo de fazendeiros no norte do país, através de um grupo de uatizapi, coordenou ações de queimada visando criar um “dia de fogo” na região. A intenção era justamente queimar os espaços já desmatados para destruir provas da retirada das madeiras e, de quebra, preparar a terra para o plantio. 

As etnias que vivem na região amazônica seguem fazendo o que fazem há séculos: resistindo. Protegem suas aldeias e enfrentam com seus corpos os ataques que não param. O fogo, o desmatamento, os jagunços, os homens do estado, a invasão dos grileiros, tudo isso é coisa cotidiana para quem vive na região. Mas, agora, com o sinal verde do governo federal para a invasão das terras indígenas, a situação piorou muito, o que demanda nova postura da comunidade. À resistência precisa se somar uma ofensiva, coisa que já está sendo gestada nas profundezas da floresta, no interior das comunidades, nas estradas secundárias onde circulam as gentes ribeirinhas e tradicionais.

A Amazônia não está queimando. Ela está sendo deliberadamente queimada. E a nós, que não vivemos na região e não enfrentamos essa realidade no dia-a-dia, cabe juntar-se à denúncia e ao protesto. Mas, esse protesto não pode se limitar a passeatas e atos públicos pontuais, que são importantes e necessários. Ele deve se ampliar na ação sistemática de parceria com os povos originários. Parceria real, que significa conhecer seu modo de vida, compreendê-los e realizar com eles atividades conjuntas de luta. Porque, ao fim e ao cabo, tanto os indígenas quanto os não-indígenas que são trabalhadores estão vivendo sob o ataque do mesmo inimigo: o capitalismo.  Se na Amazônia os capitalistas – consubstanciados em fazendeiros, mineradores e empresários transnacionais - querem usurpar as terras que ainda sobrevivem sob mãos originárias, nas cidades e nos campos eles se apropriam da vida dos trabalhadores sugando toda sua força de trabalho. Essa é, portanto, uma batalha que há que ser travada na comunhão dos oprimidos. É uma guerra de classes que está em curso e aí, não dá para contemporizar: ou estamos contra o capital ou não estamos. Já é mais do que sabido que aceder vela para deus e o diabo ao mesmo tempo resulta em tragédia.

A Amazônia precisa ser preservada não porque é a natureza necessária ao mundo. Precisa ser preservada porque é morada da vida de milhares de seres – gente, bicho e planta -  responsáveis por sua existência e permanência. Se o trator e o machado vencerem, morre a vida da nossa gente. Por isso, estar com as populações originárias nesse momento é estar contra esse governo de morte e contra o capital. 

terça-feira, 30 de julho de 2019

Sobre o que somos no capitalismo


Não há novidades na vida daqueles que não são proprietários, que não pertencem à classe dominante. Seu cotidiano é o do não-ser. Eles não existem como pessoas, que têm nome, sobrenome, filhos, sonhos. Não. O que não faz parte do 1% que domina é considerado um número, uma estatística, um receptáculo de força de trabalho. Nada mais. Mesmo os alto executivos, que dependem de salários, ainda que polpudos, estão na mesma condição. Um belo dia o patrão cansa, e adeus.

Quando o capitalismo começou a se firmar, a riqueza de poucos proprietários de terra e fábricas se fez em cima do trabalho duro da maioria das pessoas que eram arrancadas de suas terras, recebendo como prêmio a liberdade. Não mais prisioneiros do feudo, mas livres para trabalhar onde quisessem. Essa era a promessa, mas a toada era de fato outra.

Marx, no livro “O Capital” conta como tudo aconteceu na Inglaterra. Ele diz: “Os recém-libertados só se convertem em vendedores de si mesmos depois de lhes terem sido roubados todos os seus meios de produção, assim como todas as garantias de sua existência que as velhas instituições feudais lhes ofereciam”. Ou seja, não era uma escolha. A terra ficara para trás e só restava o trabalho pesado nas fábricas. Mas, como empregar toda aquela multidão que estava sendo expulsa do campo? Impossível. Muita gente ficava pelo caminho, amargando a mendicância.

E o que faziam as pessoas de bem daquela época? Ajudavam, sentiam compaixão? Não! Aplicavam leis perversas. Em 1530, na Inglaterra, a miséria era tanta entre os velhos que eles recebiam licença para mendigar. Isso era o máximo que se fazia por eles. Já os adultos que não conseguiam trabalho tinham como punição o açoitamento e a prisão. E se ao sair da prisão não encontrasse um emprego a pessoa podia ser escravizada. E quem escravizava a criatura desafortunada? Aquele que o denunciava como vadio. Era a lei.

No reinado de Elizabeth os mendigos que eram pego sem licença, mesmo se velhos, eram açoitados e os que com mais de 14 andassem na “vadiagem” podiam ser surrados e ter a orelha esquerda marcada a ferro. E caso ninguém quisesse dar emprego ao cristão, ele poderia ser executado. Eis a liberdade do capital no início dos seus tempos. “Assim, a população rural, depois de ter sua terra violentamente expropriada, sendo dela expulsa e entregue a vagabundagem, viu-se obrigada a se submeter por meio de leis grotescas e terroristas e por força de açoites, ferros em brasa e torturas, a uma disciplina necessária ao sistema de trabalho assalariado”.

Olhando para hoje, o que mudou? Façam o exercício de pensar. Nos dias que correm os “vagabundos” seguem sendo marcados a ferro, sem chance de se erguer. E são denunciados pelos seus iguais, que só se diferem um pouco pelo fato de terem conseguido um emprego para ser explorado. Mas, no fundo, fazem parte do mesmo grupo, daqueles que precisam vender sua força de trabalho para poder comer ou sustentar seus pequenos luxos.

Os empobrecidos pelo sistema capitalista nunca estarão empoderados, em nenhuma situação. Sobre eles pesa a realidade concreta. Se não tem trabalho, não come. E não há trabalho para todos. Se o vivente cai na droga, na bandidagem, no vazio, não há quem lhe estenda a mão. O sistema organiza e impõe a concorrência, a disputa. É matar ou morrer.

No Brasil, o presidente falastrão é só um gerente desse sistema de morte. Por isso não há novidade no grotesco do discurso. O que ele diz é o que diria um lord inglês no século XVI, XVII ou XVIII. O que ele diz é o que dizem os megaempresários nas suas mesas de negócio. O que ele diz é o que dizem os banqueiros que desalojam gente de suas casas. Morte, tortura, açoite, bala. É o normal da classe dominante e dos seus cães de guarda. A sua volta, voejam as moscas, os que riem dos torturados, dos assassinados, dos desaparecidos. Os que pensam que seu dia nunca chegará. Ele chega irmão. Por que se a pessoa não é dona dos meios que garantem a produção do que vai lhe gerar a vida ela está em permanente risco. Mesmo o maior puxa saco do planeta pode cair em desgraça. Porque que os poderosos são assim. Não veem pessoas. Eles veem coisas. E coisa se chuta.

Resumindo a ópera. O inimigo é o sistema que torna a maioria das gentes uma coisa. Os gerentes vêm e vão, são melhores ou piores, mas a desgraça permanece. Então, quando um cão de guarda rosna, há que avançar para além dele, destruindo aquilo que ele guarda. É tempo de ir à fonte.


terça-feira, 23 de julho de 2019

A luta e a servidão


Eu vivi de maneira muito próxima o início do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra. Eram os anos 1980 e eu trabalhava na TV Passo Fundo. Foi na cidade de Ronda Alda, na estrada do Pontão, que brotou o primeiro grande acampamento do MST: a Fazenda Anonni. Era praticamente uma cidade toda de lona preta, na qual resistiam e lutavam bravamente cerca de seis mil pessoas, 1.500 famílias. Ocupavam as terras que eram devidas à Reforma Agrária, mas que nunca tinham sido entregues aos trabalhadores. 

Naqueles dias os sem-terra eram vistos como o próprio demônio. Na televisão era proibido falar deles. Foi unicamente porque a notícia era imparável que a Fazenda Anonni começou a aparecer no noticiário. O MST anunciou que seguiria para Cruz Alta, para ocupar outra fazenda e o governo autorizou o cerco ao acampamento.  Era um fato grande demais para ser escondido. Imaginem cercar seis mil pessoas sob a ponta da baioneta.

Nossa equipe viveu aqueles dias de cerco, mais de um mês, reportando tudo que acontecia. Foi uma saga. Ainda assim os sem-terra seguiam sendo vistos como demônios, ladrões, bandidos, etc. Só que as pessoas não diziam isso em público. Xingavam os sem-terra no reduto do lar, nos grupos de esquina, nos bares, nas rodas da missa. A polícia agia duramente, mas a força do movimento era tanta que os sem-terra iam vencendo as batalhas. Mesmo que a maioria os considerasse bandidos, era impossível não reconhecer que as terras vazias não produziam nada e que, com eles, elas vicejavam. Assim, mesmo odiando aqueles camponeses, as pessoas se resignavam com suas vitórias, porque elas estavam dentro da lei. A lei é clara: latifúndio improdutivo é passível de desapropriação para reforma agrária. O ódio ficava confinado no seu reduto. Se era lei, era lei. E havia grandes movimentos de trabalhadores em ação para garantir isso. 

Hoje não. A Constituição brasileira é papel inútil. A lei não vale nada. A legislação muda conforme a pessoa que a utiliza. Não há regras. Latifúndio improdutivo é defendido pelo estado. Camponeses sem-terra são assassinados como moscas. E os assassinos dizem: “tem que passar por cima de todos eles”. E as pessoas assentem com a cabeça. “É isso aí”. E esperam que o sangue escorra nas estradas, achando que a morte de um sem-terra é coisa justa. Até matar pessoas passou a ser legal. E o latifúndio está cada dia mais armado, e dentro da lei. Vale tudo contra os “petistas”, mesmo que as pessoas não sejam petistas, mas alinhadas a outra maneira de pensar. 

Petistas, comunistas. Contra esses tudo pode. E as pessoas assistem tudo pelo celular, deixando de ver a vida dura que se expressa ao lado, nas ruas de suas cidades, no seu quintal. A dor do outro não lhes toca. Petistas, comunistas, tem mais é que se ferrar. Mas, por que? Não sabem. Não importa. Deu no grupo do uatizapi. Que morram todos. Que fiquem sem educação, sem-terra, sem casa, sem saúde, sem segurança, sem nada. Que morram. 

E, com a cabeça pendendo para o celular as pessoas não percebem que elas mesmas estão no grupo de “petistas, comunistas”, porque estão empobrecidas, porque não têm saúde, nem educação, nem casa, nem segurança. Mas, não importa. Há que destruir tudo o que é “vermelho”. 

Não é um ódio de classe. É um ódio cego, contra si mesmo. Um ódio insuflado pelo que o oprime, o explora. É a servidão voluntária. O beija-mão dos ricos esperando a migalha. Que não virá. 

Porque para o capital não existem pessoas, histórias, dramas humanos. As relações são entre coisas. A pessoa que trabalha não existe em si, apenas sua força de trabalho. Se ela se esgota, troca. É como uma pilha. Não importa se a pessoa vai passar fome, se seus filhos vão perder a escola, a saúde. Por isso que um sem-terra atropelado e morto não importa. É só mais um CPF que foi tirado de cena. Por isso um desempregado não importa. É só um CPF tirado de cena. E, enquanto as gentes vão destruindo a si mesmas e aos seus iguais, um pequeno grupo que controla o mundo segue feliz e saltitante, aproveitando a beleza da vida. 

O resto é resto. Até que se levante em rebelião. E eles se levantam. E é grande. A história ensina. 

segunda-feira, 22 de julho de 2019

O Brasil autoritário


A campanha de Jair Bolsonaro para a presidência foi absolutamente clara sobre o que iria acontecer com o Brasil caso ele se elegesse: “vamos acabar com tudo isso que tá aí”.  Eleito, está cumprindo a palavra. Suas primeiras ações já foram ataques a tudo o que é público. Nada é poupado. Ele encarna o senso comum que diz que o público é ruim. Não importa que não seja verdade. O próprio presidente é o senso comum. Ele tem os Estados Unidos como modelo e quer fazer do Brasil uma cópia. 

Na semana passada ele tripudiou das informações oficiais ao afirmar que no Brasil ninguém passa fome, e chegou a fazer gracinha com os jornalistas dizendo que não havia nenhum magro ali. Negava assim os dados do próprio governo, de instituições sérias como o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística e o IPEA, que mostram, a partir de pesquisas, um número de mais de cinco milhões de pessoas ainda sofrendo com a fome no país e 54 milhões de brasileiros vivendo abaixo da linha da pobreza. 

Também criticou o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais fazendo crer que os pesquisadores mentem quando mostram que mais de mil quilômetros quadrados da Amazônia foram desmatados só na primeira quinzena do mês, num avanço desenfreado do latifúndio. Depois de ouvir uma reprimenda do diretor do INPE, que ficou indignado, o presidente brasileiro voltou à carga dizendo que o Instituto não poderia divulgar a informação sem antes passar pelo ministro ou por ele mesmo. Ao que parece Bolsonaro não quer que mais nenhum órgão tenha vida própria. Tudo tem de passar por ele. Isso tem um nome: censura!

Outra decisão foi diminuir a representação da sociedade civil nos Conselhos. Ele já havia tentado acabar com qualquer Conselho, pois acredita que eles são “ideológicos”. Não conseguiu. Na verdade os Conselhos são uma conquista da sociedade organizada para acompanhar as ações governamentais.  Bolsonaro não quer ninguém que não seja do governo ou aliado em potencial discutindo as questões importantes do país. Ele pretende cada vez concentrar o poder na presidência. Nada de participação popular. Nada de democracia. 

No caso do Conselho Nacional de Políticas sobre Drogas, ele extinguiu a participação das seguintes representações: jurista, médico, assistente social, enfermeiro, psicólogo, educador, cientista e estudante. O argumento para isso é que ele é contra a descriminalização das drogas e no Conselho tem gente que é a favor. Então, tratou de tirar os que são a favor para ter a posição majoritária. Isso se chama decisão arbitrária. 

Hoje (22/07) também informou que o governo vai cortar o que ele chama de “merreca” do orçamento nacional, na ordem de um bilhão e 44 milhões de reais. Não disse onde vai cortar, mas especula-se que seja em setores de maior demanda pública como educação ou saúde.

Na mídia comercial os factoides vão se acumulando sem qualquer nota crítica. A cobra vai engordando. O comando da política está sendo feito sob ordem unida. Nenhuma voz dissonante pode aparecer. Entre os apoiadores, palmas e mais palmas, a ponto de manifestantes bolsonaristas carregarem cartazes pedindo mais cortes na educação. E no campo da esquerda, esperneios pontuais. 

O autoritarismo se apresenta como graça. A reação é individual, portanto, praticamente inútil. Quem se atreve a lutar de cara ao sol, como é o caso dos povos indígenas, que desde o primeiro mês de governo vem se manifestando coletivamente, vai sendo atacado pelo terrorismo paralelo (jagunços, milícias, criminosos a soldo) ou pelo terrorismo de estado. As mortes de lideranças sociais vão pipocando aqui e ali como se não estivessem ligadas entre si. 

E a barca segue. Até quando? 

terça-feira, 16 de julho de 2019

Brasil, uma vertigem



Primeiro foi a reforma trabalhista que retirou direitos dos trabalhadores. Todas as vantagens para o patrão. Nada de carteira assinada, nada de multa por demissão sem justa causa, nada de incomodação na justiça, até porque a Justiça do Trabalho também se acabou. A propaganda era boa: o trabalhador estará livre, poderá escolher seus horários. Boa parte das gentes acreditou e vibrou. E veio o trabalho temporário, intermitente, sem qualquer vínculo. A uberização da vida. Todos os riscos são do trabalhador. E se ficar doente, tá morto. Porque se não trabalha no dia, não ganha. Não há direitos. 

Agora, já definida em primeiro turno, com todas as chances de ser mais uma estrondosa vitória no segundo, está pronta a reforma da Previdência. Toda a sorte de maldades contra os trabalhadores. Uma grande vitória para os empresários. Mas, para quem vive do trabalho a reforma é a destruição de sua velhice. Há que se trabalhar 40 anos seguidos para se pleitear uma aposentadoria que deverá ser 60% do que se ganhava na ativa, ou menos. Poucos conseguirão chegar lá. Para a maioria será o chicote da exploração até a boca da cova. 

E nem bem os brasileiros começavam a digerir a amarga derrota no parlamento, que foi comprado com emendas somadas em quase dois bilhões, o governo anuncia mais uma medida para arrebentar a vida dos empobrecidos. Pois o Ministério da Saúde rompeu contrato com os laboratórios que produziam remédios para serem distribuídos gratuitamente.  São 19 remédios que não mais serão disponibilizados pelos Sistema Único de Saúde, deixando na mãos mais de 30 milhões de pessoas que usam os medicamentos regularmente. Pessoas com câncer, diabetes e dependentes de transplantes.

A jogada é clara. A intenção do governo é acabar com os laboratórios públicos que produzem esses remédios a um custo bem mais baixo e passar a comprar os medicamentos das farmacêuticas transnacionais. Mais um golpe na produção nacional e a entrega de bandeja para os grandes conglomerados. O lema de “Brasil acima de tudo”  é mesmo para inglês ver. Ingleses, alemães, estadunidenses e toda a sorte de empresas estrangeiras que irão encher as burras. O ministro já disse que os pacientes não serão afetados porque os remédios chegarão. Pode até ser. Mas, o custo para o país certamente será triplicado.  Mais dinheiro escoando para o monopólio farmacêutico e pau nos laboratórios nacionais. 

Também na última semana circulou a notícia de que o governo já estava pensando em introduzir a mensalidade nas universidades públicas, o que será mais um golpe sobre a classe média e os mais empobrecidos. E se articula também o fim do Sistema Único de Saúde, de gratuidade universal, que é modelo para muitos países. O governo de Jair Bolsonaro  quer passar a régua entregando os recursos dos trabalhadores para os Bancos, as Farmacêuticas, os empresários do Ensino e os mercenários da Saúde. A intenção é de que tudo que é público se acabe. 

E, apesar de toda essa trama contra os brasileiros, a população ainda está paralisada, dividida entre os que aplaudem sua própria desgraça e os que não encontram como expressar de maneira coletiva a sua revolta. As reações são pontuais e esporádicas. A massa se move ao sabor dos factoides criados para encobrir o verdadeiro desastre que se aprofunda a cada dia. 

O Brasil vive mesmo uma vertigem, que começou no dia primeiro de janeiro e que ao chegar quase ao final de julho, ainda cega a maioria. 

Como a desgraça vai atingir primeiro os mais empobrecidos, a reação ainda deve demorar. Por enquanto restam alguns “Jeremias” que, tal e qual o profeta, gritam no deserto, apontando os horrores e chamando para a luta. Poucos dão atenção e ainda há marchas de apoio à destruição do país. Há os que só esperneiam no facebook, terreno do inimigo, e há os que sequer querem saber do que está acontecendo. 

É de amargar. E a vida mesma, vai esboroando. 





segunda-feira, 1 de julho de 2019

O agrotóxico mata a gente, lentamente


Uma pessoa é literalmente o que come, já dizia o velho Bataclan, atleta negro e figura lendária em Porto Alegre que desde os anos 1950 pregava a necessidade de uma alimentação saudável, baseada em legumes e hortaliças. Seu lema era “não comemos cadáveres”. Chegou a andar pelo estado fazendo propaganda da alimentação natural, dando cursos e palestras. Uma das coisas engraçadas que ele dizia era que seu cocô era perfumado, porque não tinha nele nenhum vestígio de carne putrefata. E nos desafiava a mudar totalmente os hábitos.

Bataclan viveu até 1990, mas se hoje estivesse ainda na sua luta pela vida vegetariana, imagino que teria muita dificuldade em convencer as pessoas, já que alimento saudável é coisa para muito pouca gente. 

Os que não têm recursos para garantir uma comida verdadeiramente orgânica - a maioria – estão num beco sem saída. Se a opção for comer carne, entopem-se de gordura ruim, hormônios e toxinas. Se decidirem ser vegetarianos estarão ingerindo quilos e quilos de agrotóxicos, cancerígenos e provocadores de outras tantas doenças. Cultivar a própria comida não é opção para a maioria também e mesmo aqueles que têm alguma terra e conseguem criar animais e plantar legumes ou hortaliças acabam entrando na cadeia do veneno, seja pelo ar ou pela água. E ainda assim é uma saída individual.

O Brasil tem sido desde há tempos um espaço privilegiado para as empresas de veneno. E , agora, no governo de Jair Bolsonaro, a coisa tem piorado bastante. A tal ponto que nos primeiro seis meses de governo já foram autorizados 239 novos venenos para uso nas lavouras. O argumento utilizado pelo Ministério da Agricultura é de que boa parte das substâncias autorizadas seguem fórmulas que já existem no mercado. Apenas uma delas nunca havia sido introduzida no Brasil. Mas, mesmo assim, as fórmulas dos agrotóxicos são cheias de venenos e muitas dessas fórmulas foram totalmente banidas na União Europeia, por exemplo. O motivo: são muito perigosos para o meio ambiente, logo, para as pessoas também. 

A ministra Tereza Cristina, que é representante do latifúndio, diz que os agrotóxicos não estavam sendo liberados nos governos anteriores por “motivos ideológicos” e que agora, com os novos venenos vai ser possível aumentar a concorrência e baratear o custo da comida. Então veja bem: a comida ficará mais barata, mas terá mais agrotóxico. Logo, haverá mais doenças. Isso é bom para quem?  

Em discurso na FAO, a ministra defendeu a democratização do acesso ao alimento para que se acabe a forme no mundo. Mas, é fato que essa tal democratização não pode ser a produção de comida envenenada. A menos que esse seja o projeto, matar a população ou então engordar as receitas da indústria farmacêutica, que enche as burras com tanta doença nova no pedaço. 

É fato também que os agrotóxicos permitem maior produtividade e também garantem uma aparência bonita aos produtos. Mas, quem de nós já não se surpreendeu com a aparência e o gosto de plástico de uma alface verdinha demais para ser real? O resultado da ação dos agrotóxicos na vida de todos nós é algo que só vai aparecer em longo prazo. O aumento dos casos de câncer, por exemplo, é uma consequência direta da alimentação contaminada, seja ela vegetariana ou não, afinal os animais são alimentados com ração, e a ração é feita com produto que consumiu muito agrotóxico. Não há escapatória. 

Nesse país perverso, no qual para que pouco mais de mil grandes proprietários de terra possam ter lucros astronômicos, milhões tenham de ser contaminados, estamos todos aprisionados.  E, mesmo que só comêssemos folhas e legumes e nosso cocô fosse perfumado, tal como queria Bataclan, ainda assim seguiríamos na trilha da morte. Uma triste morte, envenenados. Irremediavelmente envenenados. 




Te abraço, Carola



Em todo mundo vicejam as pessoas de bem. Bons cristãos que ajudam pessoas quando tem desastre tipo enchente, terremoto. Que doam alimentos e brinquedos nas campanhas de natal. Que ajudam os “pobres”. Mas, desde que esses “pobres” permaneçam no seu lugar. O lugar da vítima, do caído, do desgraçado, daquele que precisa da esmola que estão dispostos a oferecer. Que não venham para seus jardins, ou para a porta de suas casas, que não inventem de namorar suas filhas ou entrar nos salões.

É o que temos visto todos os dias no nosso triste país. E é o que vemos em todo o canto do planeta. Sábado, na Itália, foi presa a jovem capitã alemã, Carola Rackete, que comanda o barco de uma ONG holandesa cuja missão é salvar pessoas que estão à deriva no mar, fugindo de seus países. Foi presa porque não atendeu a ordem da guarda marítima italiana e atracou no porto de Lampedusa para deixar 40 pessoas que estavam em sério risco de saúde. As pessoas, no caso, eram migrantes. E não migrantes quaisquer. Migrantes negros.

Ela tinha escolha. Podia seguir com o barco no mar, e deixar as pessoas morrerem. Ou, desobedecia aos soldados italianos e atracava, dando uma chance para a vida daqueles seres. Optou por seguir rumo ao porto. Uma mulher jovem, branca, provavelmente em boa situação financeira. E por isso mesmo, por saber que faz parte de um grupo privilegiado, ela decidiu se arriscar no mar, por pessoas que nem conhece. Sabe que essas pessoas têm milhares de vezes menos chance que ela.

Agora, sobre ela pesa a acusação de “resistência e violência contra um navio de guerra”. Porque, sozinha, arremeteu seu barco carregado com 42 almas contra um buque cheio de armas. Sim, porque os italianos não querem ver chegar às suas costas os imigrantes. Muitos, inclusive, aplaudiram veementemente a ação da polícia. Consideram que ajudar pessoas a não morrer no mar é incentivar a imigração ilegal. Sim, esse é o argumento. “Que se fodam os pretos, os pobres, os ninguém. Que não venham nos roubar emprego”, é o que dizem os mais raivosos.

Carola seguiu serena para a prisão. Pode pegar até 10 anos de cárcere, mas sabe que terá muita gente lutando por ela. Coisa que é difícil de dizer em relação aos milhares de corpos que se lançam ao mar na desesperada fuga da guerra, da fome e da miséria.

Carola salva vidas de gente pobre, africana, árabe. Por isso é considerada uma criminosa. Esse é o nosso mundo.

quinta-feira, 28 de março de 2019

A caderneta e o comunismo


Outro dia alguém das minhas relações publicou um banner no qual estava escrito assim: “Obrigada militares, por nos livrarem do comunismo em 64. Senão, hoje estaríamos nas filas, com uma caderneta na mão, buscando comida”. Fiquei meditando muito sobre isso. E no fundo do meu coração procurei entender como alguém que vive num país como o nosso, no qual pessoas ainda morrem de fome, dormem em barracos imundos, não conseguem dar vida digna aos seus filhos, considera ruim que em um país comunista as pessoas tenham uma caderneta com a qual conseguem comida. Ora, minha gente, isso significa que as pessoas recebem comida. Onde está o horror disso? Horror não seria passar pela periferia de suas cidades e ver tanta miséria. E saber que aquelas pessoas não tem uma caderneta, nem um fila onde ficar para garantir a alimentação? Horror não seria saber que existem crianças cuja única refeição decente que fazem é na merenda da escola, que é fraudada e diminuída a cada dia?  Que pessoas são essas que escrevem essas coisas? Será que não conseguem entender o que estão publicando? Isso sim, me dá horror. 

Mas, tirando isso há que aclarar algumas coisas. Primeiro: não, os militares não nos salvaram do comunismo. Porque o que estava em curso com o governo João Goulart não era comunismo. No máximo um nacionalismo reformista que poderia chegar a um capitalismo de estado, com grande participação popular. Jango era um fazendeiro, apegado a sua classe, ainda que tivesse grande sensibilidade social. O golpe se deu não pelo comunismo que poderia vir, mas pelo que o império sempre considerou o mal maior: o nacionalismo de esquerda. Ou seja, essa ousadia de querer ser autônomo, soberano, de ditar as regras em favor do povo. O Brasil não seria uma Cuba. Infelizmente, não. 

Outra coisa importante: quem inventou o golpe não foram os militares. Eles apenas operacionalizaram aquilo que a elite nacional e o império apavorado queriam, que era acabar com a ameaça nacionalista. Então, se tiver de agradecer a alguém pelo Brasil de fome, de pobreza, de atraso, de subdesenvolvimento, não agradeça só aos militares, mas à elite dominante também. 

Segundo: o comunismo não é um mundo sombrio, cheio de filas e cadernetas. Essa imagem, criada a partir da realidade cubana e agora venezuelana não representa o comunismo. Cuba tem vivido esses anos todos de libertação sob um bloqueio comercial. Ou seja, o país não consegue comprar coisas nos outros países, mesmo que tenha recursos para isso. Os países que negociam com Cuba sofrem pressões dos Estados Unidos. Então, entendam. Não é o comunismo que provoca filas ou cadernetas. É o bloqueio! 

A mesma coisa acontece na Venezuela, que só uma pessoa muito desinformada ou formada pelo uatizapi, pode ver como comunismo. A Venezuela é um país capitalista bem normalzinho, com um governo nacionalista. De novo temos aí o nacionalismo, o verdadeiro temor do império. E o que é o nacionalismo: é pensar no país primeiro. “America First”. Por que todos acham isso bonitinho no discursos de Trump, e no de Chávez, Maduro ou Jango, ou Fidel é um absurdo comunista? 

Terceiro: o comunismo é um modelo de organização da vida no qual as pessoas trabalham e recebem conforme suas necessidades. Então, se uma família tem cinco filhos, receberá para dar dignidade aos cinco filhos. Se tiver um, receberá para um. Os velhos são amparados, as crianças também. O trabalho não é exploração, é construção solidária da riqueza coletiva. É o reino da liberdade. Ninguém precisa passar fome. A economia é planejada em função das pessoas, e não para enriquecer meia dúzia de empresas e famílias. Então, porque as pessoas temem o comunismo? Porque a ideologia inventa coisas como essa, da caderneta, das filas, sem contar a verdade toda. 

Eu fico pensando nos anos 60, quando eu vivia em São Borja e praticamente todas as famílias que eu conhecia compravam coisas na venda com a caderneta. O comerciante anotava e se pagava no final do mês, ou quando se tinha dinheiro. Havia muita tolerância e praticamente nenhum juro. Então, qual é o problema da caderneta? Era como um cartão de crédito. 

Mas, claro, é preciso tornar isso um problema, um terror, para que as pessoas acreditem que o comunismo é coisa ruim. Mas, se pensar bem, vai ver que a caderneta moderna, o cartão de crédito, é muito mais aterrorizante do que a caderneta cubana. Quem aí já não pagou rios de juros ao banco por ter estourado o limite? Quem ganhou e quem perdeu com isso? Pensa aí. 

Pois em Cuba, apesar de um criminoso bloqueio que dura 60 anos, tem caderneta, tem fila, mas tem comida, não tem criança na rua, tem educação para todos, saúde universal, moradia, segurança, arte, cultura. Em Cuba o salário é baixo sim, mas há pouco que precisa ser comprado. Então, há que ver a floresta, não a árvore.

Sei que os que publicaram o banner não lerão isso. Cuspirão, com ódio, no primeiro parágrafo.  Mas, vou insistindo, como a água, tocando, devagar e insistentemente o rochedo. 



quinta-feira, 14 de março de 2019

As mil mortes de Marielle


No dia em que foi divulgado o nome dos matadores de Marielle, o que mais se viu nos perfis dos bolsonaristas foram calúnias e mentiras sobre ela. Um verdadeiro horror. Cada um e cada uma, a seu modo, tentando desqualificar essa mulher que vinha lutando bravamente, inclusive pelos policiais militares que também são vítimas da violência no Rio de Janeiro. São muitos os relatos de familiares de policiais assassinados que tiveram o apoio de Marielle nos mais de 10 anos em que ela trabalhou com a ajuda jurídica e psicológica à vítimas da violência. É, Marielle não começou sua luta contra a violência quando se elegeu vereadora, antes disso já travava pesadas batalhas. 

Como parlamentar pode ir mais fundo nessa luta e estava dedicada a esfacelar as milícias (grupos paramilitares que extorquem comerciantes e populares) que tomaram conta do Rio. Assassinada por dois policias (um aposentado e outro ex) ligados às milícias, ao longo desse ano ela ainda foi sendo assassinada em cada mentira, em cada calúnia, em cada maledicência dita contra ela. Seu corpo segue quente e recebendo balaços. 

Agora, encerrada a fase de saber quem foi que atirou, deveria ter sequência para se chegar ao mandante. Mas, mais uma vez Marielle é assassinada. O delegado que estava à frente das investigações foi afastado do caso. Segundo o governador do Rio, ele não foi exonerado, apenas está saindo porque "ele está esgotado, absorveu informação demais" e vai passar alguns meses na Itália, para espairecer, talvez. Sabe-se que os assassinos foram avisados que haveria a prisão, e já tratavam de fugir. Mas, o delegado antecipou o ato e conseguiu pegá-los, um deles já em fuga. Isso diz muito. Muito mesmo.

Agora, sabe deus quem vai assumir o caso e com que vontade de chegar à verdade. Marielle seguirá morrendo...

Mas, se Marielle segue sendo assassinada todos os dias, seja pelas autoridades ou pelas gentes bolsonaristas, isso significa que ela segue viva. E segue. Nas ruas, nas praças, nas casas, nos corações dos que amam a paz e a justiça. E para cada novo balaço que ela receba, uma nova ressurreição. Mil vezes alvejarão seu corpo. Mil vezes se levantará. Até que caia aquele que mandou apagar seu sorriso. Só aí poderemos chorar e fazê-la descansar! 




segunda-feira, 28 de janeiro de 2019

Sobre a imprensa e a classe trabalhadora

Na foto, a jornalista Claudia Weinman entrevista Vilson Santin, do MST.

Jornal Nacional. Rede Globo. O presidente da Vale fala por um tempo gigante, a considerar o valor do tempo num jornal global. Repete insistentemente que o que houve em Brumadinho foi um acidente. Um acidente? Com todos os laudos técnicos que mostram o risco dessas barragens? Com todos os avisos de gente muito especializada que milita nos movimentos? Com a trágica experiência de Mariana? Acidente? Foi um crime.

Na hora em que vi aquela cena grotesca, sem a interferência de nenhum jornalista, questionando e apontando as contradições, fui tomada pelo ódio, a indignação. Mas, passado o estupor inicial, a cabeça esfria e a gente começa a pensar. Nada poderia ser diferente. A mídia comercial é braço armado do capital. Jamais encontraremos ali a crítica ou o contraditório. Pode escapar, é verdade, nas brechas que naturalmente os fatos apresentam. Mas, é só isso mesmo. Escapadas, rápidas e sem ligação, coisa que pode tornar bem difícil o entendimento da totalidade do fato.

Isso nos leva a um debate que raramente as forças da esquerda fazem: a necessidade de uma imprensa de classe. O máximo que temos visto nos sindicatos de jornalistas, de radialistas, nos movimentos que atuam no âmbito da comunicação é a discussão sobre liberdade de imprensa. Ora, colegas. Por favor.

Não existe liberdade de imprensa, nem aqui, nem na China, nem em lugar nenhum. O que existe é imprensa de classe. E qual é a classe que domina a mídia? No mundo em geral é a classe dos endinheirados, dos artífices e gestores do capital.

Nós, no Brasil, nunca conseguimos avançar para a construção de uma imprensa de classe. Nem mesmo nos 15 anos que tivemos o Partido dos Trabalhadores no poder. Absolutamente nada foi feito nesse sentido. Pelo contrário. Durante o governo de Lula a própria Globo acabou sendo salva e todos devem se lembrar do presidente no velório de Roberto Marinho, consternado. Também não é pouco que a gente lembre sobre a tão sonhada Conferência Nacional de Comunicação, na qual o governo nos impôs uma derrota, colocando junto os empresários e permitindo que eles dessem a direção para o debate. Praticamente nada foi mexido na estrutura das comunicações no Brasil. Nem mesmo o tema das outorgas foi tocado. O estado, na mão do PT, seguiu rezando pela cartilha empresarial. O resultado disso vimos agora, quando a classe trabalhadora estava desguarnecida de veículos de massa para fazer frente a avalanche conservadora.

É mais do que hora de ultrapassarmos esse discurso liberal de “democratização das comunicações”. Isso nunca acontecerá no âmbito do capital. Porque esse sistema não está aí para brincadeiras e só solta alguns anéis se tem uma ameaça muito grande diante dele. Hoje, ao que parece, não existe nada no horizonte. Então, não virá nada. Pelo contrário. Quando o capital corre livre, sem inimigos de peso, ele não concede um centímetro. Ele aplasta! Vejam que já se configura a vinda da CNN para o Brasil. O tentáculo mais manipulador do sistema. Esse povo não brinca em serviço.

E pensar que quando o governo petista teve a chance de colocar como canal aberto a Telesur, rede televisiva de classe, não o fez. Nunca avançou um milímetro no sentido de trazer a América Latina para dentro do Brasil.

No que diz respeito ao campo dos trabalhadores tampouco se conseguiu avançar, mesmo nos anos de maior ascensão das lutas sociais. Jamais se chegou a um jornal de alcance nacional e o mais próximo disso que tivemos - que foi o Brasil de Fato - acabou se esboroando, justamente por falta de uma compreensão mais classista por parte dos inúmeros movimentos sociais e militantes populares. O que restou foram os grupos de mídia alternativa, comunitária, popular e independente, que vão se arrastando conforme podem, com pouco poder de fogo diante da maquinária capitalista. É muito difícil enfrentar com uma rádio comunitária, uns 30 segundos num jornal noturno de uma rede de televisão que abocanha o país inteiro. O poder do capital é avassalador.

Em Santa Catarina vivemos o mesmo dilema. Temos uma imprensa ridícula, cada dia mais vazia de qualidade. Só nos últimos meses foram demitidos dezenas de jornalistas do grupo hegemônico, ex RBS, atual NSC. Precarizam-se as relações de trabalho, aumenta a exploração dos trabalhadores e a comunidade fica cada dia mais refém de uma comunicação pífia e manipuladora. Assistir um jornal televisivo é de chorar. O pensamento crítico passa longe. Não há sequer boas perguntas, matéria prima básica do bom jornalista. É uma vergonha. Mas, ainda assim temos muitos sindicatos, e movimentos, e parlamentares que preferem assinar um jornal da imprensa comercial que investir nas propostas de comunicação populares que teimam em existir, ainda que em difíceis condições.

Creio que é tempo de aprendermos a lição. Façamos a autocrítica e caminhemos no sentido de construir uma imprensa de classe. Da classe trabalhadora. Já basta de querer melhorar o capitalismo, basta de pensar que pode ele ser humanizado. Não pode. Por isso a comunicação não será democratizada. Há que mudar o modo de organizar a vida e enquanto isso não vem, fortaleçamos a imprensa de classe. É isso, ou morte.