Mostrando postagens com marcador Internet. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Internet. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

Derrota para a soberania digital

Os monstros comedores de energia

Na madrugada desta quarta-feira (25/03) a Câmara de Deputados aprovou projeto de lei de autoria do deputado José Guimarães (PT/CE) que isenta de imposto de importação os equipamentos usados ​​na fabricação de data centers e que zera os tributos sobre a exportação de serviços do setor. Uma pancada na luta pela soberania digital. O projeto, agora lei aprovada, substitui uma Medida Provisória que havia sido baixada pelo governo federal. Mais uma vez, o governo Lula se mostra completamente alinhado aos interesses do Congresso e dos grupos multinacionais de comunicação. 

Agora, enquanto vários países debatem e discutem a presença dos centros de dados em seus territórios, por conta do excessivo gasto com energia, o Brasil caminha na contramão, chamando para o país “monstros” que consomem essa água potável e luz de maneira extraordinária. São, pelo menos, 90 mil litros de água por dia. Não bastasse isso, ainda concede incentivo para que as grandes big-techs se apropriem, não só dos recursos naturais, mas também dos dados dos brasileiros. As condições dadas às empresas são um atestado de submissão. 

Quem cria os centros de dados precisa fornecer apenas até 10% do processamento ao mercado interno, e investir ao menos 2% do valor dos produtos adquiridos no mercado interno em projetos de pesquisa ou inovação. O projeto também diz que as empresas deverão publicar relatórios de “sustentabilidade” contendo índices de Eficiência Hídrica e as fontes de energia. Há uma exigência de que apenas energia limpa ou renovável seja utilizada, mas quem define o que é “limpa”? 

Um levantamento feito pela mídia comercial (G1) apontou que só quatro projetos de centro de dados de Inteligência Artificial previstos no Brasil poderão consumir energia equivalente a quase 17 milhões de casas. Isso é um absurdo de energia. E o governo já anunciou que para dar conta desta demanda a carga energética precisa crescer 600% até 2037. 

O argumento do governo para o MP que agora é lei é de que a suspensão do imposto de importação para os centros de dados tornará o Brasil um importante polo digital, competitivo e sem dependência de outras infraestruturas estrangeiras. Mas, quem serão as empresas que poderão construir esses “monstros”? Quem serão os donos senão os mesmos que já detém o domínio desta tecnologia? É uma farsa. 

As palavras de Everton Rodrigues, do movimento Software Livre, integrante da Rede pela Soberania Digital e do movimento Economia Solidária, resumem o horror desta situação: “Lamento profundamente ter que admitir que o discurso do nosso presidente Lula sobre soberania digital é lindo, mas, na prática, o governo não tem e não discute com a sociedade, um projeto nacional de soberania digital, não escuta quem está discutindo e está fazendo outra coisa, completamente diferente e totalmente desarticulada dos interesses da sociedade. O mercado internacional de formulação de dados está tomando conta do Brasil. projeto aprovado, as big techs trilionárias, que não precisam de isenções de impostos, que usam nossos dados, a mentira e a desinformação para ganhar trilhões e que já estão ocupando grande parte das cidades brasileiras, terão isenção de tributos por cinco anos na compra de equipamentos para instalar seus data centers no Brasil.”.

Ou seja, mais um projeto para derrubar a nossa soberania.


segunda-feira, 5 de agosto de 2024

Os tempos atuais



Está difícil entender o mundo. E, paradoxalmente isso acontece num tempo em que o que mais circula é a informação. O advento das redes sociais permite que qualquer pessoa munida de um celular possa disseminar informações em fração de segundo e para milhões de pessoas. O que menos importa nesse caso é a verdade dos fatos. O que vale é a versão. E, no geral, o que mais sucesso faz são as mentiras, armações, falsificações e sensações desprovidas de contexto. Vale tudo por um joínha, o dedo em positivo, o coraçãozinho.

Essa desvairada caçada de seguidores ou cliques tornou o mundo um lugar difícil de ser compreendido já que a leitura apurada, a análise complexa, o texto totalizante são coisas que perdem de goleada diante da informação ligeira que tem como base coisa nenhuma além do “é o que eu acredito” dos escreventes. Não bastasse isso a dissociação cognitiva causada pelo excesso de rolagem de inutilidades no celular leva as pessoas a não entender o que está dito, fazendo com que misturem alhos com bugalhos. 

Nesse universo turbulento quem ganha a guerra do discurso é o nosso velho conhecido sistema capitalista de exploração do mundo e das gentes. Quanto mais despreparadas estiverem as cabeças, mais fácil dominar.  Não é sem razão que impera no mundo a lógica liberal, mesmo na chamada esquerda. Tenho visto, estupefata, gente conhecida, lutadores sociais, jornalistas, políticos, assumirem posturas inimagináveis como, por exemplo, acreditar que a atual vice-presidente dos Estados Unidos, Kamala Harris, possa ser um grande avanço para a democracia no mundo visto que é mulher, negra e pode tornar-se presidente do império. É aterrador, porque, inclusive, não se pode alegar desconhecimento. 

O Partido Democrata é uma máquina de guerra e atualmente apoia e financia um genocídio. Como Kamala pode ser um avanço para a democracia? De que democracia fala essa gente, por deus? O fato de ser negra e mulher é suficiente para que aceitemos uma dirigente que aplaude e promove o massacre de crianças no Iêmen, na Palestina, na Somália e em tantos outros espaços onde os EUA intervêm? 

Tivemos na Universidade Federal de Santa Catarina uma situação aberrante também quando uma Cátedra que leva o nome da primeira deputada negra do estado, Antonieta de Barros, se manifesta publicamente alegando que quem defende o povo palestino é racista e antissemita. O que é isso, minha gente? E quem assina a nota são pessoas que estudam, que têm conhecimento sobre a realidade. Como explicar isso senão observando que é a defesa de uma ideologia? Ideologia de direita, de defesa do capital. 

Agora a bola da vez é a Venezuela. Num átimo estamos cheios de comentaristas sobre o país irmão, do qual não conhecem nada além do que reproduz a Globo, a Record ou as redes sociais. É uma infinidade de bobagens que nos avermelham a cara, não por comunistas, mas por vergonha. Desconhecem a história, não compreendem a geopolítica, ignoram os fatores locais, surfam unicamente na aparência, e caso sejam confrontados com uma análise mais aprofundada, a reação é não ouvir, não ler, não dar bola. “Vi no instagram, me mandaram no uatizapi” solapam anos e anos de estudo sobre dada realidade. É desesperador. 

Diante deste turbilhão nos resta seguir. Tudo o que temos é a luta contra o capital que tudo esmaga, inclusive a capacidade de raciocinar. E para isso, seguiremos estudando, observando as entranhas do monstro e das vítimas, analisando o que se esconde, sempre numa perspectiva crítica é claro, porque o estudo em si, sozinho, não garante nada também. Uma hora dessas vem um novo pachakuti. É o que me mantém no prumo! P´alante! 



sábado, 27 de junho de 2020

Entre o tribunal das redes e a liberdade


Eu gosto de novidades e gosto de aprender. Por isso sempre me encantam as novas tecnologias, as novas plataformas, e toda essa mudança louca pela qual passa o nosso planetinha. Acho revigorante e procuro me atualizar. Mas, não faço disso meu mundo. Ainda tenho como maior paixão essa coisa do corpo-a-corpo com a vida. Pode ser essa minha veia repórter. Caminhar pela vida real, sentir os gostos, os cheiros, olhar no olho, tocar na mão, abraçar.

Só que agora com essa pandemia que nos limitou os movimentos e nos confinou, acabei por estar bem mais tempo no mundo virtual, creio que como todo mundo. E, com o passar dos dias, fui me aterrorizando. Já havia percebido que as tais redes são pequenos tribunais de exceção. As pessoas estão sempre prontas para o julgamento sumário e para a condenação sem apelação. É espantoso e cruel. E se tu tentas argumentar, buscar o debate, não te é permitido. Julgamento feito, condenação dada, nada mais a fazer.

Outro dia li alguém a dizer: “essas pessoas ficam jogando suas histórias, como se isso tivesse alguma importância”. Santo Marx. Mas, se não louvarmos nossa caminhada histórica, o que vamos louvar, nós, os trabalhadores, que só temos de nosso a nossa história e nossos corpos nus? Há uma inumerável multidão de pessoas que acredita piamente que o mundo começou quando elas entraram nele. E tudo o que já foi feito antes, não tem valor. Uma geração de arrogantes e de seres incapazes de ouvir. Vivessem numa aldeia indígena seriam ensinados sobre o valor da história dos anciãos.

Navegando pelas redes sociais tenho me sentido assim como o Zaratustra, do velho Nietzsche. Aquele que passou 10 anos aprendendo coisas e veio para a cidade dividir os conhecimentos. Mas, o que encontrou foi uma turba insensível e alheia, perdida em suas próprias verdades, no caso do nosso mundo, verdades muitas vezes construídas via uatizapi. Zaratustra querendo mostrar os horrores do último homem, buscando a ponte para o além do homem. Ninguém para ouvir. E falo isso já sabendo que alguém vai dizer: Nietzsche era um machista. E o além da mulher? Ô, glória! E dê-lhe pedra.

Zaratustra desiste de tentar falar com as gentes. “Não serei pastor, nem coveiro. Cantarei aos solitários”. Por vezes me sinto assim. Mas, sou filha de um tempo bem antigo no qual o coletivo sempre esteve acima do individual ou do particular, e prefiro ser gregária, agarrada a minha classe. Apavora-me pensar que a cada dia que passa, vamos perdendo mais gente no caminho para a intolerância e para os mais diversos fundamentalismos. E que, por isso, o mundo anda tão triste, tão gris.

Confesso que tenho dado umas fraquejadas. Mas, ampara-me a literatura. Há um livro em particular do qual gosto muito, é o “A Caverna”, do José Saramago, que conta a história de uma família que não suporta mais viver no mundo no qual lhes era seguro viver. E, junto com um cachorro, Achado, tomam o rumo do sabe-se lá. Ah, como me identifico com aquele momento de partida do Centro, num carro velho, cheio de coisas bonitas e singelas, feitas com as próprias mãos, recheadas de história.

Estou presa nesse átimo entre ficar no rebanho, ou levantar âncora. Sei que sempre haverá uma pequena “família” – parentes de alma - para sair por aí comigo, desligada de todas as redes, livre de todos os tribunais. E, com essa gente, sentar em volta de uma fogueira, para contar minha história, e ouvir a deles, respeitosamente, porque será só o que teremos. E será suficiente. Esse é o mundo pelo qual ainda luto!


quarta-feira, 13 de maio de 2020

A vida digital


A pandemia do coronavírus provocou o aprofundamento da dependência digital. Isso é um fato. E ainda que milhões de seres no mundo não tenham acesso ao “admirável” mundo da internet, a tendência que desponta é justamente essa: tudo o que puder ser feito via rede mundial de computadores, será. Em muito pouco tempo quase nada necessitará ser  presencial e chegaremos ao tempo que considerávamos como um futuro distópico que é  tempo dominado por um grande irmão sem rosto e sem nome. 

Mas, apesar de o mundo em rede parecer não ter nome ou rosto, ele tem, e terá. É o bom e velho capitalismo se reinventando e conseguindo garantir mais lucros com menos gastos, porque poderá prescindir de muito mais trabalhadores. E os que restarem para operar – e sustentar  - o sistema serão ainda mais explorados do que antes, a superexploração chegando a todos os rincões do mundo.

Nos grandes centros, onde a vida pulsa, assoma o tal do tele trabalho ou trabalho remoto. Ou seja, a pessoa pode produzir em casa. Assim, o trabalhador fica muito mais tempo disponível para o trabalho, pois está praticamente 24 horas pendente. E tem de fazer seu trabalho, se concentrar, ao mesmo tempo em que cuida dos filhos, da casa, dos bichos, dos doentes. Gasta sua luz, sua conexão com a rede, seus equipamentos, sem que o patrão precise pagar mais por isso. Há quem goste da coisa, mas para a maioria é e será o inferno. 

Também na educação esse parece ser o futuro. Uma luta de anos contra o ensino à distância está preste a ser resolvida oportunamente por conta de um vírus. Sem saídas para o ensino presencial, a proposta que surge é a do ensino via internet. Segundo os governantes e especialistas da área, hoje, todo mundo, com um celular, pode ter acesso à rede. Isso é uma meia verdade. É certo que a maioria das gentes possui um celular, mesmo as mais pobres. Mas, qual é a relação do celular com a conexão? Quem tem os pacotes de dados capazes de garantir navegação em todos os sítios? A esmagadora maioria tem plano básico ou pré-pago e só consegue acesso às redes sociais porque as operadoras oferecem de graça. 

Até mesmo no campo da vida política as coisas poderão ser definidas a partir da rede. A pandemia também mostrou que as articulações via internet para intervir em votações no Congresso ou na decisão de prefeitos e governadores podem ser poderosas. E ainda que a tal da rede seja um criadouro de mentiras e enganos, há uma tendência cada dia maior de as coisas serem discutidas e decididas através dela. Basta ver a dimensão que tomaram os famosos “ao vivo” agora, nesse tempo pandêmico. Mesmo que ninguém esteja vendo, todos estão falando e tentando influenciar. O aplicativo de mensagens tornou-se a assembleia e as consultas em tempo real tendem a se proliferar com rapidez. A batalha de ideias se dará nesse campo minado no qual a verdadeira verdade pouco terá vez. 

Na aparência, o mundo será ágil, limpo e organizado. Na essência, seguirá cobrando sangue e vida dos empobrecidos. 

A arte, que é a antena do mundo, tem sido pródiga em apresentar essas distopias. E em todas elas, para desespero da classe dominante, sempre há um espaço de resistência, de luta e de organização. Porque se para um número bem grande de pessoas esse mundinho limpo das redes pode ser uma realidade, haverá uma fatia considerável de pessoas que ficará de fora. Afinal, quem vai retirar do chão o minério para fazer os suplementos dos computadores? Quem vai produzir as máquinas? Quem vai fabricar os bens de consumo? Quem vai plantar o alimento? Quem ai tratar os animais? Quem vai limpar o lixo do empoderados? Todas essas coisas ainda terão de ser feitas pelo trabalho humano, real e presencial. 

De qualquer forma, é certo que uma nova arena de combate se apresenta, se consolida, e temos de prestar muita atenção a ela. Conhecê-la, dominá-la e encontrar caminhos para atuar é nosso desafio. Mas, também é certo que esse campo, dentro do capitalismo, seguirá sendo um campo desigual. Muito desigual. Mesmo que a gente queira disputar a hegemonia nas redes sociais, como o faremos? Enquanto a classe dominante tem empresas que disparam milhões de mensagens por minuto, nós seguiremos tendo apenas os militantes que terão uma capacidade bem menor de inserção. Já vimos perdendo essa batalha desde o golpe de 2016. O discurso dominante - mentiroso e enganador - circula com mais velocidade e com mais densidade do que o da luta popular. Além disso, como disputar o discurso falando apenas para nossa bolha, enquanto os chamados “influenciadores”, muitas vezes a soldo do capital ou buscando interesses próprios, conseguem obter audiências avassaladoras? O que dizer de um “ao vivo” de uma famosa cantora popular brasileira , do campo da agro/música, que conquistou a segunda maior audiência do mundo, com suas canções eivadas de machismo, misoginia e aceitação acrítica da realidade opressora?

O cenário de futuro pós-pandemia é desolador. Não virá o mundo novo, generoso, solidário que muitos estão sonhando por terem visto imagens poéticas de pessoas tocando violinos nas janelas. Não virá porque esse mundo não pode ser constituído de forma mágica ou pela graça de um deus. O mundo novo só poder vir se construído pelas pessoas reais, organizadas e em luta. 

Assim que entender que se está diante de um novo campo de batalha - as redes  -  é importante, mas não basta para mudar a realidade. Muito menos o combate por dentro delas poderá nos oferecer caminhos vitoriosos para a transformação. Ainda continua atual e necessário o projeto de uma nova sociedade baseada no comum, comandada pelos trabalhadores, a maioria da população. Tomar nas mãos o controle de toda a produção humana e colocar tudo isso a serviço do bem comum fará com que se trabalhe menos e melhor. A distribuição da riqueza poderá ser feita conforme a necessidade e as decisões serão tomadas com base no interesse geral e não apenas dos grupos de poder. Todos terão direito à moradia, saúde, educação e vida boa. Essa é a utopia. Esse é o sul. 

Por isso que o caminho da luta não pode tomar atalhos falaciosos. Nosso drama não é só a luta contra as mentiras da internet ou contra a nova realidade digital. É a luta contra o capital, coisa muito mais profunda. Como diria o poeta palestino Mahmud Darwish, “ainda verte a fonte do crime. Obstruam-na! E permaneçam vigilantes, prontos para o combate”. E é isso mesmo. A fonte do crime: o capitalismo, segue apertando os corpos dos trabalhadores com seus tentáculos sedutores. Há que obstruir, combate, e destruir. Não é tempo de resistência. É tempo de avançar. 

quinta-feira, 8 de novembro de 2018

Jornalismo, jornalistas e mentiras


A mídia brasileira foi pega de surpresa pelo presidente eleito nas últimas eleições quando este não quis saber de entrevistas nem de jornalistas para falar com seu eleitorado logo depois da vitória. Transmitiu suas palavras direto de casa, pelo celular, na sua rede social, sem mediações. Depois, nos dias que se seguiram chutou o pau da barraca de uma série de empresas de comunicação acusando os jornalistas de “fabricantes de mentiras”. Entre seus seguidores não há um que respeite a mídia. Os comentários são os mais estapafúrdios: a rede Globo é comunista, a Folha de São Paulo é do Lula. Ou seja: duas coisas que foram sistematicamente demonizadas durante a campanha eleitoral, comunismo e PT. A coisa beira ao surreal. 

Mas, entre nós, jornalistas, quem pode dizer que o presidente eleito esteja errado sobre a imprensa ser uma fábrica de mentiras? A mídia comercial brasileira – tal como a mídia mundial – é efetivamente uma fábrica de enganos. Manufatura mentiras e age visceralmente ligada com o sistema dominante. Usa dos espaços de notícias para constituir um consenso sobre a realidade, sobre o mundo, sobre o que é bem ou mal. Sob a capa da “imparcialidade” que a teoria funcionalista legou ao jornalismo hegemônico, ao longo de décadas tem extraído a mais-valia ideológica das pessoas que se colocam frente à televisão ou do jornal.

Ou seja, concretamente, o jornalismo praticado na maioria dos meios é realmente mentiroso. Logo, não é uma invenção do presidente eleito. Ele aproveita uma verdade para poder tornar verdade as mentiras que diz e dirá. O exemplo é tomado de Donald Trump, que fez a mesma coisa nos Estados Unidos. Durante sua campanha presidencial soltou os cachorros na mídia tradicional e fez - com a providencial ajuda das Big Datas, empresas de dados – aparecer essa verdade já sistematicamente denunciada, obviamente pelas entidades de esquerda. Ora, Trump não fez isso porque é louco, como diziam seus opositores. Não. Ele é um ultra milionário que tem acesso a qualquer coisa que o dinheiro possa comprar. E, hoje, o dinheiro pode comprar dados pessoais, manipulando mentes, tornando os meios de comunicação tradicionais bem obsoletos. 

Assim que agora, diante do furacão das mentiras disseminadas pela internet por bilhões de robôs, misturados a pessoas bombardeadas pela guerra psicológica por empresas especializadas nesse fazer, que também espalham “notícias” os jornalistas se levantam em indignação. Mas, figuras como Trump ou o presidente eleito do Brasil estão cagando para os jornalistas. Eles não precisam mais dessa categoria. As notícias agora podem ser fabricadas por um simples robô de inteligência artificial mediana. Então, Trump expulsa jornalistas das coletivas, manda outro calar a boca, humilha. Bolsonaro não permite jornalistas nas suas aparições e promete até destruir jornais os quais acusa de fabricantes de mentiras. O campo da disputa das mentes é outro agora e eles estão ganhando, sem necessitar das mídias convencionais. 

Ao refletir sobre isso fiquei a matutar sobre a responsabilidade dos jornalistas nesse massacre em praça pública do jornalismo. 

Não é de hoje que se discute a ação dos jornalistas dentro dos meios de comunicação comerciais. No geral, a maioria se curva sem críticas ao que manda o projeto editorial do veículo. E quem define o projeto editorial nunca é o jornalista. É o dono do negócio. E o dono do negócio define quem será notícia e quem não será. Quem será demonizado e quem será mostrado como bonzinho, qual abordagem deve ser dada em tal notícia, qual deve ser dada em outra. Tudo vem determinado de cima. Sobra pouca margem de manobra para o trabalhador/jornalista fugir. Sim, sempre há os rebeldes, os criativos e ladinos que encontram brechas para fazer escapar a verdade. Mas, a esmagadora maioria se rende sem questionar. Em muitos casos assume a verdade do patrão como sua e pode tornar-se até mais real que o rei. Basta uma passadinha na Globo News e já temos uma mostra do que eu digo. 

Quero dizer com isso que os jornalistas dos meios hegemônicos estão agora colhendo os frutos dessa capitulação. E eles são amargos. Acostumados que estavam a ser o esteio da classe dominante, agora estão tendo de lidar com um grupo desconhecido de pessoas que consegue ter mais poder de comunicação que todos os seus patrões juntos. Ou seja, ficaram desnecessários para os novos donos do campinho e serão tratados como lixo.

A dança das cadeiras do poder dominante está muito louca e será necessário algum tempo para ver onde isso vai dar. As empresas de comunicação podem capitular, se render ao novo grupo de mando. Isso é bem possível. Eles são camaleônicos, mudando conforme os interesses. Se isso acontecer os jornalistas voltarão a servir ao rei, como sempre fizeram. Ou, algumas dessas empresas podem desistir do negócio, passar a outro mais atrativo e lucrativo, sem a necessidade de jornalistas, e todos irão amargar a grade barca. O certo é que a barra vai pesar.

Ainda assim, isso não é o fim do jornalismo como já se vê um que outro alardear. O jornalismo seguirá sendo essa função essencial de mostrar o que alguém quer esconder. E também seguirão existindo – como hoje existem – jornalistas de quatro costados, capazes de saltar sobre as pedras do engano e da mediocridade, desvelando a realidade e produzindo conhecimento com seus textos, como ensinou o teórico Adelmo Genro Filho. O jornalismo é um fazer que não morre, nem mesmo nas mais odiosas distopias, porque sempre alguém escapa do torpor e narra a vida em sua imanência, descortinando a verdade.

A conjuntura não está boa para nossa categoria. E vai seguir assim por um longo tempo. Então, é um bom momento para refletir sobre esse fazer e sobre a capitulação ao engano que boa parte dos colegas abraçou. Todo tempo é tempo de mudar. 

Já para aqueles que sempre remaram contra a maré, é só mais uma tempestade, a qual atravessarão com remadas sistemáticas, as mesmas que os mantiveram navegando incólumes nesse grande mar de mentiras fabricadas ao longo das décadas. 

O jornalismo da grande mídia mente, sim. Mas, jornalistas há que não. Que caminham pelas margens, que abrem brechas, que encontram nichos e oferecem “biscoitos finos” da verdade. 

A verdade, essa louca, que mesmo na mais longa das noites, emerge e se diz. A verdade, essa louca, que a despeito de tudo, emergirá também dentro dessa imensa máquina de produção de ideologia que se tornou a tal da rede social. 

Que os jornalistas da boa cepa sigam produzindo, escrevendo, dizendo. Porque eles serão sempre necessários. 

Seguimos, rompendo as manhãs, como dizia o poeta. 




segunda-feira, 25 de junho de 2018

As novas tecnologias, as notícias falsas e o jornalismo

O problema não é a internet, mas o sistema que a toma como locus da espionagem e da ideologia


As novas tecnologias e a criação das redes sociais colocaram uma novidade na vida cotidiana de bilhões de pessoas: o acesso rápido às informações e também a possibilidade de produzi-las e distribuí-las. Assim, o que era até bem pouco tempo quase que exclusividade dos jornalistas ou formadores de opinião ligados aos meios de comunicação, passou a ser comum para qualquer pessoa no planeta que tenha acesso à rede mundial de computadores. Mas, o que parecia ser uma vitória da democracia tem mostrado que, no sistema capitalista de produção, nada mais é do que mais do mesmo. Isso porque nos últimos tempos o que se percebeu foi que as informações  que circulam na internet também estão dentro da forma-mercadoria geradora de mais-valia ideológica. A enxurrada de notícias falsas, fabricadas por empresas especializadas nesse fazer, tem servido para produzir “verdades” que servem aos interesses do capital e das forças que conformam o poder político e econômico do sistema.

Conforme dados divulgados pelas Nações Unidas, nos países desenvolvidos 81% da população já tem acesso à internet, conformando 2,5 bilhões de usuários. Os países considerados em desenvolvimento têm 40% de conectados e nos empobrecidos 15%, somando juntos apenas um bilhão.  Já os que estão fora da bolha internética somam 3,7 bilhões, sendo que a maioria dos “desconectados” se encontra na África.

Mas, apesar de tantos ainda estarem fora da rede, a possibilidade de entrarem está dada visto que a cobertura de celular já está disponível para 95% da população global. E também avançam os planos de internet para pobres no celular, que inclui apenas a possibilidade de acesso ao facebook e uatizapi, o que significa uma única empresa no controle do que as pessoas recebem de informação. Mesmo assim, ainda conforme as Nações Unidas, houve uma desaceleração do uso da internet, possivelmente provocada pelos altos preços do serviço.

Já o acesso da internet nos domicílios tem outra geografia. No momento existem um bilhão de lares conectados, sendo que desse total 230 milhões estão na China, 60 milhões na Índia e 20 milhões nos 48 países menos desenvolvidos do mundo. Ou seja, a desigualdade é visível. Enquanto 84% das casas europeias têm internet, no continente africano apenas 15,4% possuem acesso em casa.

Mas, apesar de a rede estar distribuída de maneira desigual, claramente conforme as possibilidades econômicas de cada país, a repercussão do que circula nas famosas “redes sociais” acaba chegando também nas pessoas que não tem acesso, visto que os meios de comunicação massivos tais como o rádio e a televisão estão tendo de subordinar-se ao que “bomba” na rede, reproduzindo assim os conteúdos mais compartilhados. Basta uma tarde de domingo na frente da TV aberta brasileira, por exemplo, e isso fica patente. Os programas de auditório das principais redes trazem as figuras e os temas que mais tiveram repercussão nas redes sociais.

Esse é um dado importante porque tanto para a mídia eletrônica aberta, que é a que chega nos “desconectados”, quanto nas redes internéticas, o que vale é o que “bomba”, o que tem mais curtidas e comentários, mesmo que a informação ali contida não seja verdadeira ou não passem de bobagens. E é justamente nesse nicho que estão concentradas as notícias falsas, geralmente fabricadas por empresas especializadas a serviço de políticos ou de redes de poder.

No Brasil, recentemente, a Câmara de Deputados promoveu um debate sobre esse tema visto que já existem na casa mais de vinte projetos de lei buscando regular ou coibir as notícias falsas na internet.  Para os representantes das entidades populares que participaram da reunião, esse é um tema que não pode ficar relegado a um parlamentar. Seria necessário um amplo debate público para que a sociedade pudesse participar e sugerir coisas. Isso porque a maioria dos projetos em tramitação trata de criminalizar os usuários ou as plataformas pela prática de compartilhamento das notícias falsas. Ora, isso não tem sentido algum. É preciso controlar aquelas empresas ou mesmo entidades que são as geradoras das mentiras.

O fantasma da censura também aparece em muitas das falas dos representantes de entidades civis que discutem o tema porque muitos projetos apontam para saídas bastante complicadas como, por exemplo, tipificar criminalmente informações sem aprofundamento, sem deixar claro quem julgaria o que é sem aprofundamento ou qual nível de aprofundamento seria necessário para que fosse uma notícia veraz. Igualmente criminalizar as plataformas poderia gerar uma censura prévia, algo também muito complicado de se aceitar.

Bia Barbosa, do Intervozes, acredita que a única lei em tramitação no Congresso que pode trazer contribuição de fato para o debate é a lei de proteção de dados pessoais, pois, segundo ela, é justamente a partir da coleta e do tratamento massivo de dados que se promove a construção de perfis individualizados de cidadãos na rede e é para esses perfis que as chamadas notícias falsas são disseminadas. Esse é, inclusive, o debate que acontece em nível mundial, tendo sido desatado pelas revelações de Edward Snowden, ao tornar público os programas de vigilância global efetuado por agências estadunidenses. Não por acaso ele está ameaçado de morte. Ele tocou no centro da questão: o controle dos dados pessoais.

O mais sério de tudo isso é que a maior das redes sociais, o facebook, deixa bastante claro nas regras que apresenta para o usuário que todos os dados sobre ele estarão coletados e já se sabe que essas informações são usadas para oferecer produtos e ideias políticas. Tanto que o famoso “algoritmo” que define como a informação é distribuída na rede, cada dia mais se aperfeiçoa no sentido de criar guetos nos quais a pessoa é colocada, sem condições de receber outras informações divergentes. E a pessoa aceita isso.

O tema é largo e ainda vai provocar muitos debates no campo da cidadania. Afinal, como já foi dito, qualquer pessoa pode produzir conteúdo. Mas, algo precisa ficar bem claro. Produção de conteúdo pessoal, feita por qualquer criatura no mundo, não é a mesma coisa que notícia. A notícia é um fazer específico do jornalista que deve estar ancorada nas regras já historicamente determinadas. E para usar a teoria do jornalismo de Adelmo Genro Filho, a notícia é uma forma de conhecimento que se faz a partir da singularidade dos fatos, transitando para o particular e chegando ao universal. Ou seja, no conteúdo noticioso o jornalista precisa oferecer a quem o ouve/vê ou lê toda a atmosfera universalizante do fato narrado para que a pessoa possa entender as causas e consequências que envolvem a notícia singular. Só isso já mostra que 99,9% dos conteúdos jornalísticos produzidos nos meios de comunicação por aí estão fora dessa regra. No geral, as “notícias falsas” não são uma novidade do mundo das redes sociais. Elas sempre estiveram aí, cotidianamente nos jornais, rádios e revistas, servindo de ideologia para sustentar o modo de vida classe dominante. Claro que, agora, passaram a ser uma mercadoria exclusiva de determinadas empresas, especializadas em produzi-las para quem pagar mais. Isso é que é novo.

Um dos pontos importantes nesse processo deveria ser o de identificar e coibir essas empresas, entidades e pessoas que vivem (são pagas para isso) de produzir e disseminar notícias falsas com o intuito de provocar atitudes, reações e até induzir o voto num determinado candidato, ou provocar o ódio contra pessoas e instituições. Mas, como tudo isso já virou um rentável negócio, no mais das vezes, essas empresas, entidades e pessoas que já são bastante conhecidas, acabam ficando intocáveis sob o manto do empreendedorismo ou do “empresário bem sucedido”.

Assim, o tema das redes e das notícias falsas na verdade é só mais uma cortina de fumaça para não atacar o verdadeiro problema que é justamente o capitalismo realmente existente, que para se manter como modo de produção precisa manter a ideologia que o sustenta em constante movimento. No caso, agora potencializada pela velocidade e pelo alcance das redes sociais, que ao contrário dos tempos da mais-valia ideológica promovida pela televisão, permite a interação e a formação de grupos coesos em todo mundo, movidos pela mesma ideia, pelos mesmos preconceitos e capazes de atuar também de forma coesa na vida real. É só mais um potente e eficiente mecanismo do capital.

Nesse sentido, todas as medidas inibitivas ou punitivas de “excessos” que surgirem nada mais serão do que paliativos para a manutenção da vida do mesmo monstro que vem assombrando a vida dos trabalhadores desde há 300 anos. As redes sociais não são democráticas nem espaços de liberdade. Na verdade são cada vez mais espaços de aprisionamento das mentes e dos corações em nichos preparados com maestria pelos “sacerdotes” dessa esmagadora religião que é o culto ao capital.

Por isso que o debate sobre as notícias falsas, ou a apropriação dos dados pessoais pelas empresas oligopólicas que comandam as grandes plataformas internéticas não pode ser feito descolado do contexto no qual elas existem. É o sistema capitalista e nele vale tudo para que seja mantido o estado de coisas. Isso tanto é verdade que a solução que tem aparecido em nível mundial é a da formação de agências que irão vigiar as informações e sua veracidade. Agências que pertencem aos oligopólios empresariais e que ganharão rios de dinheiro para fazer esse trabalho. Ora, como a raposa pode vigiar o galinheiro? O capitalismo é sabido mesmo.




sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

Banco Mundial e a Internet



Relatório do Banco Mundial - o banco que adora dar pitaco nas políticas públicas dos países subdesenvolvidos - divulgado essa semana dá conta das seguintes informações:

1  - A internet não democratiza a informação
2 - As novas tecnologia não melhoraram o acesso aos serviços públicos
3  - A internet aumentou a desigualdade no mundo
4  - Quem tem educação de qualidade e recursos financeiros consegue aproveitar melhor a internet
5 - A tecnologia é inútil para 20% da população mundial que ainda é analfabeta
6  - No planeta, 60% da população não tem acesso à internet.
7 - A tecnologia emprega entre 3 a 5% da população nos países desenvolvidos, nos subdesenvolvidos emprega 1%.

Com base nisso, o Banco orienta que deve ser feito um esforço de oferecer uma educação que habilite as pessoas para as tecnologias.

Conhecendo a instituição, já se pode imaginar o que isso significa. Programas de educação cada vez mais tecnologizados e emburrecedores. Como se pode perceber pela pesquisa do próprio banco, o problema não parece ser a falta de habilidade, mas sim a falta de condições de acesso. Habilidades se conseguem em cursinhos rápidos, já a possibilidade de estar conectado exige condições econômicas, o que significa a necessidade de uma mudança no modo de organizar a vida.


Como diz o Suricate seboso: valamideuzi!!!