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terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

Nem tão Santa Catarina



Os tempos são de perplexidade. Temos assistido às maiores barbaridades, rolando a tela do celular, num alcance mecânico e indiferente. O mundo, essa gaiola de loucura, vai ganhando contornos de uma grande partida de futebol. O bem e o mal diuturnamente se digladiando, mas com etiquetas trocadas. O que é bem vira mal, o que é mal vira bem. Tudo “al revés”. Lembro-me, por exemplo, das campanhas bolsonaristas na internet acusando o papa Francisco de pedófilo e comedor de criancinhas, quando na verdade eram seus “ídolos” os que praticavam esses horrores. E assim podemos seguir com centenas de exemplos. 

Santa Catarina, outro exemplo, é pintada como o estado mais seguro do país, o lugar das maravilhas. Mas, por aqui tivemos no ano passado mais de 50 feminicídios e 225 tentativas. É realmente uma epidemia. Todos os dias, os jornais mostram uma mulher sendo assassinada ou escapando por uma triz. Matar virou coisa natural, como se vivêssemos num mundo anômico, sem lei. A polícia, que deveria existir para proteger, tem sido a que mais mata. Cem pessoas foram mortas pela PM e uma em cada quatro sem qualquer antecedente criminal. Nos últimos dias, vimos policiais atacando mulheres de maneira brutal, sem qualquer propósito. E mesmo com todos estes dados e informações, acompanhamos as boca-alugadas da mídia afirmando que aqui é o melhor lugar para viver, por conta da segurança. Segurança para quem?

Não que o respeito à cidade também seja incontável às violências. Dia após dia a administração municipal vai destruindo a vida, a memória, a cultura. E a população - salvo raras opiniões - seguindo a vidinha, apreciando os videozinhos do prefeito no Tik Topk. O cimento tomando conta das praias, o crescimento desordenado e sem estrutura, o esgoto jorrando no mar. E a turma curtindo o verão. A última agora é o anúncio da tal marina da Beira-Mar, mais um empreendimento que nos roubamos a cidade. Obra para os ricos, aplaudida pelos que nada têm. Enquanto isso, os trabalhadores vão sendo empurrados para fora da cidade, com as vidas inviabilizadas pela voracidade do capital. 

Nem vou falar do martírio do cãozinho Orelha protagonizado por jovens "bem-nascidos".

Ontem vi a notícia de que pretendíamos destruir os bonecos do Berbigão. Um baque atrás do outro. Ainda não se sabe quem atou fogo nos bonecos que, por conta da ação rápida da segurança, não queimou na totalidade, apenas dois foram destruídos, mas eu torço para que tenha sido uma fatalidade, um ato tresloucado de alguma pessoa alcoolizada, sei lá. Não sei se suportarei saber que foi um ato intencional, para realmente apagar os gigantes da alegria, bonecos de pessoas que são significados da nossa cultura. 

Assusta-me ver nossa cidade se transformando desta forma tão violenta. Parece que não há parada... Seguiremos rolando a tela do celular? Inertes? 

De minha parte, escrevo, na minha impotência...

domingo, 14 de julho de 2024

Como a cidade cuida de pessoas em situação de rua



Entrevista com Denilson Machado, que tem uma larga caminhada no trabalho com pessoas em situação de rua e que atua junto ao Instituto Arco Íris na intenção de garantir dignidade a estas pessoas que em Florianópolis já alcançam o número de três mil. Ele também fala sobre a ação da prefeitura, que não consegue oferecer respostas para essa população. (Programa Campo de Peixe. 13.07.2024).



segunda-feira, 19 de fevereiro de 2024

Para conhecer a cidade


Nesse ano de 2024 teremos as eleições municipais, momento importante de decisão sobre os rumos da cidade. Vamos escolher prefeitos e vereadores, ou seja, definir quem vai organizar a cidade. E isso significa que serão estas pessoas as que vão decidir sobre a maneira como vamos viver, afinal, é na cidade que atuamos e existimos. Sabemos que existem duas cidades: a que nos pinta a mídia e os governantes de plantão, e a cidade real, desenhada pelo confronto e pela luta. Esta, a segunda, é pouco conhecida justamente porque a ideologia que jorra nas mídias comerciais a escondem. Mas, há quem se dedique a pensar, narrar e desvelar esta cidade concreta, a que vivenciamos no nosso dia a dia. 

Por conta disso o Instituto Cidade e Território (ITCidades) lançou em 2022 um livro, organizado pelo professor Lino Peres, que junta todo esse pessoal e que, através de 50 artigos, reflete sobre as políticas do Estado, a questão fundiária e as lutas urbanas e ambientais no embate contra o capital em seus vários âmbitos, principalmente imobiliário e rentista. Sim, é um livro grande, como grande é a luta que se trava por aqui desde há séculos. Mas, não dá para pensar a cidade sem ouvir essas vozes. 

O livro “Confrontos na cidade: luta pelo plano diretor nos 20 anos do Estatuto da Cidade”, está livre na rede. É só baixar. Vale a pena conhecer. 

quarta-feira, 30 de agosto de 2023

Os patinetes e as ciclovias



Pois os patinetes voltaram a aparecer por toda a cidade. E têm feito a alegria da garotada. Na UFSC é possível ver muita gente pra lá e pra cá com aquelas coisinhas amarelas ou verdes. E é bom, porque no trânsito caótico da cidade acaba sendo uma forma bem rápida de se mexer. A mobilidade só piora, então aparecem as “alternativas”. Dizer o quê? Na UFSC, que é uma universidade onde circulam mais de 30 mil pessoas por dia a gente pode ficar numa parada de ônibus por até 40 minutos. É sim! Por isso mesmo que a gurizada pede ciclovia e agora acha bacana esse lance dos patinetes. A turma saúde pedala e os mais preguiçosos andam nas maquininhas de duas rodas, que sequer pedem esforço. 

Não sou contra ciclovia nem contra os patinetes. Há que desenvolver técnicas de sobrevivência no caos. Mas é preciso ultrapassar o limite das pautas pequeno-burguesas que clamam por ciclovias e outros tipos de transporte individuais. E por que digo isso? É simples. Os trabalhadores são seres que moram quase sempre muito longe de seus locais de trabalho. Eles não têm como fazer 30 ou 40 quilômetros em cima de um patinete (seria desconfortável e caro), muito menos pedalar tudo isso para ir e para vir. Imagine uma senhora como eu, prá lá dos 60, como vai pedalar todo esse trajeto depois de um dia estafante de trabalho, num trânsito que mata? Que tipo de governante pode conceber isso? 

Os trabalhadores precisam de transporte de massa. Repito. Transporte de massa. Com qualidade e de preferência com tarifa zero. Porque 90% das pessoas que usam o transporte se deslocam para engordar a conta do capital, o mesmo que lhes suga a vida e ainda permite que percam de duas a três horas no inferno do transporte desintegrado. Eu quero um ônibus bom e rápido, um trem de superfície, qualquer coisa que nos transporte num átimo para onde nosso coração clama: a casa, aconchegante morada. 

O transporte individual, seja o carro, a bicicleta, o patinete, a moto, resolve a vida de muitos. Mas não da maioria. Fosse assim não teríamos mais de 200 mil pessoas se aglomerando nos ônibus todos os dias, padecendo com falta de linhas e horários. 

Pois bem, vêm aí as eleições municipais. De novo vamos ver propostas mirabolantes e muitas historinhas no tik tok. Não se enganem. Para nós, trabalhadores, a única proposta realmente séria é o transporte de massa, bom, rápido e barato, senão gratuito. Fora isso são arranjos individuais, que não servem à maioria. Temos amargado prefeito após prefeito o descuido com nossa vida cotidiana. Não podemos dar nosso voto para quem nos engana.

sexta-feira, 14 de julho de 2023

A cidade esfacelada

Foto: Anderson Coelho/ND - O mar comendo as casas irregulares no Morro das Pedras


Uma das técnicas mais difundidas pela máquina da propaganda que visa manipular as consciências é a fragmentação. Ou seja, impedir uma visão abrangente e totalizante das coisas faz com que os fatos se sucedam como se brotassem do nada. As coisas acontecem como se não houvesse um antes e nem levassem a um depois. São acontecimentos mágicos, aparecem e somem, sem que qualquer linha os amarre a um cenário maior. No geral, os fatos aparecem sempre recheados de emoções e sensações, mas nunca mostram o quadro completo.

Basta ligar a TV ou acessar a redes e lá estão os “fatos”, se sucedendo em vertiginosas campanhas que apelam ao emocional, e se dissipam rapidamente tão logo outra emoção seja colocada no lugar. Nenhum contexto, nenhuma análise. Nada. Só a sensação. E a vida vai seguindo aos saltos, sem que as pessoas percebam que a montanha russa das sensações existe para impedir que vejam o todo.

Assim estamos na nossa cidade “mágica”. Desde 2014, quando foi aprovado, de maneira absurda, o Plano Diretor, Florianópolis vive um processo vertiginoso de especulação da vida e de privatização dos bens públicos. Nos últimos meses temos visto o prefeito de ocasião, Topázio, exibir seus dotes de menino propaganda no TikTok mostrando a cidade em pequenos vídeos, exaltando a cultura, o turismo e dizendo como tudo está indo bem e como a cidade está boa e bonita para todos. Apresenta propostas mirabolantes e diz pra população que tudo será feito com a ajuda privada, esses amigos queridos, sempre dispostos a melhorar a cidade. 

Sobre os bairros inchados, sem planejamento, não fala nada. Sobre a falta de estrutura nas comunidades, não fala nada. Sobre o horror cotidiano do transporte coletivo, não fala nada. Sobre a impossibilidade de se morar na cidade devido aos absurdos preços dos alugueis, não fala nada. Sobre a sobrecarga nos Postos de Saúde, que seguem com poucas senhas e incapazes de atender a população na demanda necessária, não fala nada. Sobre o alucinado processo de construção aprovado pelas mudanças no Plano Diretor, não fala nada. Sobre a inexistência de espaços de lazer nas comunidades, não fala nada. Enfim, a cidade verdadeira, com seus dramas e mazelas, não aparece no programa do prefeito e muito menos nos meios de comunicação. 

O jornalismo local é uma vergonha. Alimenta e respalda essa lógica da fragmentação, sensação, emoção e desconexão com o todo. Os problemas até são mostrados, mas assim, como se fossem casos isolados, brotados do nada, sem relação com o processo de destruição. Um exemplo disso é o caso da UPA Sul, que o prefeito quer deslocar para o antigo aeroporto. As matérias falam dos atos, das manifestações, mas não acabam fechando a história com a fala do prefeito dizendo que não tem dinheiro para reformar. E pronto. Não questionam, não investigam, não cumprem seu papel de aprofundar os temas. E partem para outra comoção. Como foi o caso do pouso acidentado de um avião na pista do “Floripa Airport” (sic). Explora-se o pavor dos passageiros, o drama dos cancelamentos dos voos, mas nenhuma palavra sobre a responsabilidade da empresa privada que agora controla o aeroporto de Florianópolis. Nada de tocar na empresa suíça. Tudo ficará bem... Foi só um “acidente”. 

Nas redes igualmente os temas de interesse da maioria têm pouco espaço. Pode-se ver à exaustão postagens sobre a proposta de um Dia do Batman – claramente uma manipulação para tirar o foco das coisas sérias – mas quase nada sobre a luta das comunidades com relação à saúde, educação, segurança, moradia e outros temas que verdadeiramente importam. 

Não demora muito e começam as tramas da campanha eleitoral, aí voltam a aparecer os temas “quentes”. Muitas promessas serão requentadas como a melhoria do transporte coletivo, a despoluição da Beira Mar (sic), a melhoria na saúde e tudo mais. Serão apenas alguns dias e logo tudo volta à normalidade. Desaparecem os temas de interesse geral e voltam os fragmentos de bobagens e tolices. A população desinformada acreditará no que tiver a melhor campanha publicitária e seguirá navegando nos mares revoltosos da vida dura, pensando que tudo são designíos de deus. 

A cidade se esfacela e nós também. Haverá saída? 

***


segunda-feira, 10 de julho de 2023

A UPA Sul fica ou não?


O prefeito disse hoje na televisão: não há qualquer possibilidade de manter a UPA Sul ao lado do terminal urbano. Segundo ele, não há recursos para realizar as obras de melhoramento e por isso mesmo vai entregar para uma empresa privada, que é administradora do Aeroporto, a tarefa de construir o tal complexo de saúde nas dependências do velho aeroporto, o qual abrigará também a UPA. 

Essa proposta do Topázio faz parte do plano iniciado com Gean de entregar tudo o que é público para a mão privada. Tanto que a própria administração da nova UPA será dada a uma Organização Social – que é nome fantasia de empresa privada. A proposta é ir gradativamente se livrando do compromisso público. Segundo a economista Tamara Siemann, do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (DIEESE-SC), em entrevista ao Sintrasem, a administração municipal gastou de junho de 2022 a junho de 2023, um total de 45 milhões de reais com despesas de terceirização, com um aumento de 28%. E, explica Tamara, cada vez que a prefeitura aumenta o gasto com as empresas privadas, vai diminuindo a margem para investir em pessoal próprio. 

Ora, para a prefeitura é bem melhor. Vendo a cidade como uma empresa isso significa que cada vez haverá menos trabalhador público e muito mais trabalhadores terceirizados cuidando do que é público. Qual é o ponto: trabalhador terceirizado ganha muito menos e não tem as garantias que o trabalhador público tem. É ruim para o trabalhador e é ruim para o usuário. Ou seja, o prefeito não quer nem saber do bem-estar da população. Está mais preocupado em garantir recursos para os parceiros privados. 

A mesma saída foi dada para o Plano Diretor, visto que com as mudanças, quem vai desenhar a cidade é o empresariado. As construtoras decidirão quantos andares colocarão nos prédios e trocarão os excessos por alguma pracinha ou algo do gênero, nos lugares que eles quiserem. Pequenas migalhas em troca da destruição da cidade.

A comunidade do Sul da ilha não quer que a UPA saia de onde está. Ali o ponto é estratégico. Está do lado do terminal e do Corpo de Bombeiros. Para chegar a UPA hoje basta um ônibus. Se for para o Aeroporto a coisa complica. Do jeito que é a mobilidade na cidade, o doente terá de pegar dois ou três ônibus para chegar ao destino. Ah, mas quem se importa né? O povo que pegue um Uber. É o que devem pensar os tais “administradores” da cidade. 

Já faz bastante tempo que o público deixou de ser a medida da ação da prefeitura. Tempo demais. Ainda assim, a comunidade grita. Sábado fez protesto, abraçou a UPA e informou sobre a proposta ladina. E se perguntar para qualquer um que está na UPA esperando atendimento, a resposta certamente será a mesma: a UPA tem de ficar ali mesmo. Mas, ao que parece, o prefeito está mais preocupado com os likes no TikTok e ouvir os usuários nem lhe passa pela cabeça. Afinal, quem disse que na cidade manda é o povo? No geral não é, mas tempos há, em que as gente se levantam e aí é o bicho...

quarta-feira, 12 de abril de 2023

Prefeitura fraca, dirigentes fracos


Foto: Cristiano Estrela

Desde que recomeçou esse debate sobre as mudanças no Plano Diretor tenho repetido: essa é uma prefeitura fraca. Porque ao ceder aos empresários do cimento ela abre mão da soberania que deveria ter tendo conseguido um mandato do povo. O prefeito foi eleito pelas gentes daqui e essa mesma gente disse não às mudanças em 13 diferentes audiências públicas arrancadas da prefeitura pela Justiça. Mas, apesar do “não” a prefeitura seguiu com as mesmas propostas e mandou para a Câmara. E a Câmara seguiu as mesmas ordens do bonde do cimento. Prefeitura fraca e vereadores fracos. Dobram-se sem pejo ao mando do capital. Por medo ou por conivência? Isso é algo a pesquisar...

Agora vivemos aqui no entorno da UFSC mais um drama que impactará a vida de milhares de pessoas. A tal duplicação da Edu Vieira. Lembro que o terreno foi entregue à prefeitura por uma reitoria fraca, que também se rendeu ao mando do bonde do cimento e à indústria do automóvel sem pejo. Apesar de terem acontecido dezenas de debates e haver até uma proposta construída desse pensar coletivo, o reitor na época (2012), Álvaro Prata, decidiu aprovar a entrega do terreno. Levou a proposta para o Conselho Universitário que, igualmente, entregou o terreno, ainda que condicionasse a um debate conjunto com a prefeitura. Na época, alguns professores da UFSC, membros do conselho, diziam que poderiam ajudar a cidade a sair do caos do trânsito. Ilusão.

Logo depois, em 2014, a reitora Roselane Neckel retomou o debate e entregou o terreno sem reservas, apesar dos protestos da comunidade.  “Façam o que quiserem”. Essa foi a mensagem. Na comunidade se dizia: se houver duplicação, que seja como a gente quer, com ciclovias e pista exclusiva para ônibus, para realmente melhorar a vida de estudantes e trabalhadores. A reitoria fraca entregou o espaço para uma prefeitura fraca, rendida à cultura do carro, incapaz de ouvir a voz da população.

E assim, passaram-se os anos com uma obra inacabada, comendo dinheiro público, milhões, milhares. Por fim, esse ano encerraram a tal “duplicação”. Uma obra absolutamente inútil a considerar a lógica que deverá seguir. Não precisa ser muito esperto para saber que os gargalos do trânsito seguirão em outros pontos, mas seguirão iguais. Os carros passarão mais rápido pela UFSC, mas logo ali na frente vão parar. Porque o planejamento da cidade é burro. E nós, trabalhadores e estudantes seguiremos sofrendo nos ônibus, que seguirão lentos e lotados. A ideia da prefeitura fraca é fazer um sistema binário. Já até anunciaram e já planejaram as linhas de ônibus. E a reitoria atual? O que diz? Como se posiciona?

Não ouviram a população. Não ouviram os usuários. Não ouviram quem realmente vive na região. Inventaram uma lógica saída das cabeças tecnocratas que provavelmente não andam de ônibus. “Desafogar os carros, desafogar os carros”, devem pensar os escravos da cultura do individual. O transporte coletivo vai respeitar os interesses de quem? Ora, do bonde do monopólio. Nada para nós, tudo para eles. Prefeitura fraca. 

Anunciaram que dia 21 começa a mudança. Dia 21, amanhã... e não ouviram a população. Prefeitura fraca. 

A administração municipal segue governando como se não tivesse um mandado do povo. Administra para os empresários. É fraca. Impõe suas vontades à maioria acreditam-se forte. Mas, na verdade, é fraca. Mostra toda a fragilidade que tem diante dos interesses do cimento e do transporte individual. Serve ao deus mercado. 

Prefeitura fraca. Prefeitura burra. 

E apesar disso, a população segue aceitando passivamente tudo isso. Protestos há. Mas, são poucos. 

Quando será que a população de Florianópolis vai decidir por ter uma prefeitura forte, que realmente governe para o povo. Quando será? 


quinta-feira, 23 de março de 2023

Aprovadas as mudanças no Plano Diretor


Aconteceu o esperado. Os vereadores da capital, por ampla maioria, aprovaram as mudanças no Plano Diretor. Basicamente agora será permitido o aumento dos números de andares nos prédios e se entrega o desenho da cidade para os empresários. Ou seja: a prefeitura cede soberania aos homens do cimento. Sendo assim, aquele que foi eleito pela população para comandar os destinos da cidade, simplesmente não comanda. Concretiza-se o estelionato eleitoral. Mas, se é assim, por que não se observa uma rebelião na cidade? Por que a maioria simplesmente não se importa com o que acontece na Câmara? Por que o protesto se limita a um grupo específico que desde há mais de duas décadas estuda, acompanha e elabora propostas para a cidade? 

A resposta para isso é simples: a ideologia prevalece e obscurece a compreensão sobre o que de fato acontece na vida das pessoas. 

A maioria da população está ocupava em sobreviver. Lutando para manter a cabeça fora da miséria da vida. São trabalhadores e trabalhadoras, estudantes, desempregados buscando bicos, enfim, gente em batalha. No pouco tempo que têm para seu descanso ou lazer, o máximo que conseguem fazer é ficar diante da televisão ou nas redes sociais. E, nestes espaços a mensagem que chega é singela. As mudanças que a prefeitura quer fazer na cidade vão garantir mais emprego e mais oportunidades para as pessoas. Novos prédios são novos espaços de trabalho e a ocupação desenfreada das praias também trará empregos nos bares, restaurantes, lojas etc... Transformar Florianópolis em uma nova Balneário Camboriú trará turistas de montão e provavelmente artistas famosos de todo mundo comprarão lindas coberturas em frente ao mar. 

Aqueles que moram ainda perto do mar poderão vender seus terrenos a preços altíssimos e pouco importa se tiverem de morar nos municípios vizinhos, terão um dinheirão no bolso. E pouco importa se as praias estiverem cheias de merda, a turma aproveita igual. Não é assim no Balneário Camboriú, onde até o Cristiano Ronaldo tem um apartamento? Se é tão ruim assim, por que as temporadas de verão bombam por lá? 

O apelo a um possível emprego e ao dinheiro fácil que virá se servirmos aos ricos que consumirão os novos prédios de apartamentos parece ser imbatível. No geral, pouco se compreende a proposta de preservar as dunas, as restingas, os mangues e a floresta atlântica. Como se vai arrancar dinheiro dali? É onde a pedagogia da beleza do capitalismo nada de braçada. Porque o que os capitalistas prometem é: se vocês trabalharem duro, vão chegar lá. E esse lá a que se referem aparece como “vocês serão iguais aos moradores ricos dos prédios caros ou aos turistas que vêm no verão curtir a praia”. Mas, na verdade, o lá aonde nós, os trabalhadores chegamos, segue sendo o mesmo lugar de sempre: o de vendedores da nossa força de trabalho para enriquecer algum empresário. A não ser por um golpe de sorte – que atinge raros – os trabalhadores seguem tendo de se virar no almoço para pagar a janta. 

Só que esta realidade fica escondida pela ideologia que se esparram na televisão e nas redes sociais. Nas telas, jornalistas e “influenciadores” de boca alugada esbravejam contra quem quer preservar a natureza e garantir a cidade como um espaço para todos. E, aqueles que não têm tempo nem condições materiais para conhecer a realidade, acreditam, e passam a defender a mesma ideia. Danem-se as dunas, se brotarem hotéis. Dane-se a restinga se brotaram condomínios de luxo. Dane-se a floresta se brotarem áreas de eventos para os granfinos. 

E, nessa batalha ideológica, os movimentos sociais que lutam para garantir uma cidade soberana ficam em desvantagem, porque eles não aparecem na televisão todos os santos dias, eles não aparecem nas redes sociais, eles não são distribuídos nos uatizapis de família. Raramente conseguem chegar à maioria e quando chegam são pintados como ecochatos, inimigos do progresso e gente que atrapalha o sonho de “chegar lá” da turma que está aí, trabalhando duro. É uma luta desigual. 

Por isso não surpreende que a Câmara tenha mandado cercar o prédio para impedir que os movimentos comunitários acompanhassem a votação e protestassem. Por isso a polícia, a força bruta. E na televisão e nas redes o mesmo discurso: “esse povo só quer atrapalhar, pau neles! Bora fazer de Florianópolis um lugar moderno e perfeito para se ganhar dinheiro”. Como vencer esse discurso sedutor?

Não há como escapar. 

Não temos mais os velhos partidos políticos atuando nos bairros, nas comunidades, formando gente. Não temos trabalho de formação política nos sindicatos. Não temos a sistemática caminhada junto à população levando informação e conhecimento. Não há formação para a rebeldia. Tudo se dá nas redes, como se tivéssemos o mesmo espaço, como se o algoritmo não apagasse as pegadas dos lutadores, como se os servidores alocados no estrangeiro não censurassem. Aceitamos fazer a luta no campo deles, sem preparar qualquer surpresa. Eles sabem que o máximo que faremos será gritar lá na frente da Câmara, numa ação ritualística de impotência. 

O poder perdeu o medo que tinha dos trabalhadores organizados. Eles patrolam e riem de nós. Temos 23 vereadores na capital. Quatro votaram contra a proposta que entrega a cidade para o cimento. Quatro. Uma do PT, três do PSOL. Os 19 restantes votaram sim. E celebram. 

Hoje, nossa cidade comemora mais um ano de existência. Uma cidade que se perde e se afoga na grande ressaca das empreiteiras. Haverá festas e celebrações e nas telinhas da TV e dos celulares, os mesmos vendilhões seguirão entregando a ilusão de que agora sim, o progresso vai chegar. E as gentes seguirão o mágico som do capital, no rumo de sua desgraça, acreditando chegar ao paraíso. Sem informações, acreditam que o comunismo é o demônio e não a alegria do comum. 

Fomos derrotados, mas seguiremos lutando.

quarta-feira, 15 de março de 2023

Casas quadradas, sem alma


Todos os sábados eu pego minha bicicletinha e vou pra rádio lá pelas 9 da manhã. Gosto de ir devagar, olhando o bairro, observando as mudanças. Amiúde, eu choro. Lutamos muito para manter o Campeche como um bairro jardim. Fomos fragorosamente derrotados. O trajeto é longo e pelos caminhos vou notando as novas construções, principalmente nos grandes condomínios. O que é aquilo, meu deus? As casas são todas do mesmo tipo, quadradas, sem curvas, sem desenhos, sem rococós, sem detalhes. Parecem caixas. São grandes, chiques, mas daquele jeito estranho, como se não tivessem vida. Eu acho feio demais da conta.

Também assomam ao longo das ruas os “apertamentos” que as imobiliárias vendem como casas. São finos e quadrados também, como caixas. Tem uma nesga de terra na frente e outra atrás. Não é casa. É um caixotinho metido a besta. Feio demais da conta. Isso sem contar nos prédios que também pululam em todo o lugar. Apartamentos  e apartamentos, prometendo vista para o mar. Igualmente caixas de alto padrão. Feio demais da conta. Nesse ritmo vão se apagando os caminhos de areia e vão sumindo as árvores.  O asfalto vai tomando as ruas, aquecendo ainda mais os dias. Também já não encontramos mais as corujas buraqueiras, pois não existem os terrenos baldios. Tudo nos foi tirado.

Lá na curva da rádio havia um engenho, lindo e singelo. Foi derrubado. Agora o terreno está todo cercado de tapumes pretos e já se podem ver as colunas das construções. Com certeza um enorme prédio surgirá no lugar. O Campeche vai se transformando na fria patrolagem do progresso. Um progresso burro, que destrói o que mais os turistas querem: a natureza, a beleza, o mar limpo. Muito em breve seremos um bairro igual a tantos outros, sem alma, sem a delicadeza dos jardins, abarrotado de cimento futilidades.

Para nós, moradores, restam às lágrimas. E as minhas, não tem fim... 


terça-feira, 14 de março de 2023

Prefeito não ouve a comunidade

Fotos: Flora Neves Guarani Kaiowá e Kauan Marisco

A prefeitura de Florianópolis tentou passar modificações no Plano Diretor da cidade numa patrolagem. Não deu certo. As comunidades se organizaram, entraram na Justiça e garantiram audiências públicas para que a municipalidade apresentasse a proposta e ouvisse as gentes. As audiências foram feitas, mas com via única. A prefeitura mostrou sua ideia – que basicamente entrega a cidade para os empresários do cimento – e simplesmente fez ouvidos moucos para as falas da comunidade. Em praticamente todas as audiências nos bairros as comunidades rejeitaram a proposta que pretende aumentar o gabarito dos prédios (mais andares) e garantir aos empreiteiros o controle do desenho da cidade. Ou seja, mostra uma prefeitura fraca, rendida aos interesses dos construtores. 

Nas falas dos moradores da cidade, a proposta da prefeitura simplesmente incha a cidade, sem qualquer preocupação com a infraestrutura. Não há proposta para mobilidade, saneamento, espaços de lazer, nada. É só a sanha louca de construir prédios e prédios para render lucros aos empreiteiros. Há os que se iludem com a ideia de que com mais prédios haverá mais empregos (???) e desenvolvimento. Numa cidade como Florianópolis, que vive do turismo, é a natureza o foco principal. Uma praia cheia de merda não pode ser atrativa para ninguém, mas a prefeitura parece não se importar com isso. Tampouco está preocupada com oferecer transporte de qualidade e rápido para os trabalhadores que sofrem cotidianamente com o sistema desintegrado, e mais ainda na temporada, quando a cidade dobra de número de habitantes. Aos moradores, nada. Aos empreiteiros, tudo. Esse é o plano. 




Ontem a prefeitura faria a Audiência Final. Na mesa nenhuma novidade, a não ser a mesma proposta que foi rejeitada pelas comunidades. Insisto. Na maioria das audiências essa proposta foi rejeitada. E foram audiências bastante expressivas em números de moradores. REJEITADA! Mesmo assim, a prefeitura insiste em mandar para a votação na Câmara de Vereadores. Os movimentos sociais se reuniram e constituíram um substitutivo, um Plano Popular. Todos entendem a necessidade de mudanças no Plano, mas é preciso que sejam mudanças para melhor, e não para pior. Assim, depois de muito debate e levando em conta mais de uma década de discussão e construção coletiva de alternativas, o substitutivo ficou pronto e havia a proposta de que ele fosse levado em conta, que se discutisse o plano popular. Como a prefeitura não quis saber de conversa, os movimentos assomaram na Audiência Pública em protesto. 

De novo, sem qualquer capacidade de diálogo, a prefeitura ignorou a organização popular, encerrou a audiência e anunciou que mandará o projeto para votação no próximo dia 20 de março.

A manifestação das comunidades mostrou que a cidade está viva e em luta. Qualquer decisão sobre a cidade precisa da participação popular. Não é possível que um plano rejeitado totalmente seja encaminhado para votação, quando se sabe que a Câmara de Florianópolis também está de joelhos diante dos interesses dos empresários do cimento. Entrando em votação, o plano passa, porque não há preocupação com a cidade por parte daqueles que deveriam proteger e cuidar. Basta lembrar que o plano em vigor foi votado num final de ano, em uma votação marcada por protestos, na qual os vereadores aprovaram mais 600 novas emendas, que não haviam sido apresentadas às comunidades e que nem eles conheciam. Muitos votaram sim sem haver sequer lido as emendas. Assim que dia 20 deve ter mais protestos. 

A articulação dos movimentos sociais nesta terça-feira deixa claro que ainda há muita luta. E não vai parar. 

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quarta-feira, 30 de março de 2022

O restaurante popular de Florianópolis


O prédio fica na Mauro Ramos, antigo Sine

A mídia comercial florianopolitana não surpreende e mantém invisível a luta social. Ontem, anunciou com pompa e circunstância o que chamam de “mais uma obra do prefeito Gean Loureiro”: o restaurante popular. E lá estava ele, sorridente, cortando fitas e entregando o restaurante que oferecerá mais de duas mil refeições a preço módico para a população empobrecida. Serão R$ 3 para quem tem renda per capita de até meio salário mínimo, R$ 6 para quem recebe acima de meio salário mínimo e isenção para renda zero. Mostraram as instalações, os balcões, as mesinhas, os trabalhadores que farão o cadastro e anunciaram que a “gestão” do restaurante ficará a cargo de empresa parceira, que no bom português significa mãos privadas. Terminada a inauguração, as pessoas terão de esperar o próximo semestre para ver a coisa realmente acontecer. 

Bom, o que os jornalistas não contaram foi a luta renhida travada por pessoas e movimentos sociais para que esse restaurante tivesse chegado à vida. O principal deles é o Movimento em Defesa do Restaurante Popular, com anos na batalha pelo direito humano à alimentação, reivindicando, discutindo, propondo, insistindo, porque entende que alimentação não é “benesse”, mas direito. Por isso, fazem a defesa intransigente de uma política pública permanente que garanta o funcionamento efetivo e sem interrupções do restaurante popular. O movimento ainda reivindica que o RP não seja só um lugar onde as pessoas possam “comer barato”, mas que faça parte de toda uma proposta global que garanta também:

1. Acesso a empregos, salário e renda capaz de viabilizar qualidade na alimentação

2. Sistema de produção de alimentos de qualidade para o consumo de toda a população

3. Condições para que as pessoas em vulnerabilidade social tenham acesso a comida e água

4. Educação, saúde, moradia e saneamento básico 

Nesse sentido não basta o prefeito inaugurar o restaurante popular e colocar ali uma ONG para administrar, colocando o feito na sua folha corrida de “obras”. É preciso que esse projeto faça parte do Sistema de Segurança Alimentar e Nutricional, ainda inexistente em Florianópolis. 

O movimento também reivindica que o Restaurante Popular esteja articulado à produção local com maricultores, pescadores, agricultores, indígenas e quilombolas, garantindo assim qualidade de vida para quem produz e para quem vai consumir o alimento. 

Em Carta Aberta o Movimento em Defesa do Restaurante Popular reconhece a importância de esta proposta ter saído do papel e encontrado concretude na vida da cidade, mas alerta para a insuficiência. Se a cidade realmente quer tratar a questão da fome e da segurança alimentar de sua população há que seguir batalhando para que a municipalidade integre o restaurante com as demais políticas sociais. 

É sempre bom lembrar que não existe pobreza, o que há é o empobrecimento das gentes em função da lógica do capital. Portanto, o que se reivindica não é comiseração ou pena e sim uma proposta articulada entre quem produz e quem consome para que todos possam viver com dignidade. 

O restaurante popular é uma vitória da luta! E a luta segue.


sexta-feira, 15 de outubro de 2021

Devagar, lá se vai a cidade



Passo pela via expressa sul todos os dias em direção ao trabalho. Não gosto daquela via rápida, que nos impede de ver. Sempre preferi a Costeira, com seu velho cais, com a visão das moradas e as figuras dos personagens diários que assomam: o velhinho limpando a calçada, o papai-noel, a senhora à janela, os cachorros. A cidade descortinada no seu existir humano. Mas, o busão vai na Expressa e tudo o que posso fazer é olhar o vazio que se forma em volta. Não é de hoje que eu digo ao meu companheiro: “não vai demorar e estão vendendo tudo isso aqui, como fizeram na beira-mar”. Digo isso com profunda tristeza porque o que pode se erguer ali são prédios de alto padrão. A vista para o mar outra vez retirada das gentes comuns. 

Pois a semana passada li o veredito que me assombrava: o vazio artificial criado pelo aterro da expressa sul vai ser vendido. O prefeito Gean fala em “revitalização”, palavra bonita que significa entrega do que é público para a iniciativa privada. E a proposta é incluir o vazio do aterro num tal de programa pioneiro do governo federal – provavelmente um desastre - que busca vender as terras da União que consideram “subutilizadas”. A venda será feita por intermédio de um fundo imobiliário, coisa que cheira mal. A proposta vem da Secretaria Especial de Desestatização, Desinvestimento e Mercados do Ministério da Economia e, considerando que o governo federal está aí para destruir tudo, já se pode prever a desgraça.

As bocas-alugadas da imprensa já começaram a campanha em favor da proposta, alegando que a Expressa Sul precisa ser melhorada. Os vereadores – na sua maioria  - já se preparam para as mudanças no zoneamento e tudo o que isso traz, como o esfacelamento do Plano Diretor. Em março desse ano a mesma Câmara aprovou um total de 100 milhões de reais para a prefeitura usar em obras de infraestrutura na via, claramente ajeitando o espaço para entregar ele mais bonitinho para os empresários. A cidade ficará encalacrada com o empréstimo. E quando se diz cidade, diz-se nós, os moradores. Ficaremos com o ônus e ainda perderemos o patrimônio público. Obviamente que ninguém fala em parques ou espaços de lazer para as comunidades do entorno – a maioria suspensa nas encostas onde quase nada existe para a brincadeira e a fruição. Não. As vendas certamente serão para grandes empreendimentos imobiliários ou de eventos, afinal, para essa gente que governa, os empobrecidos tem mais é que trabalhar e dormir. Lazer é pra quem pode e afinal, tem a praia. 

O que me espanta é que tudo isso vai acontecendo sem reação. Nas redes sociais criam-se grupos que lembram uma Florianópolis de ontem, mas poucos se preocupam com a de hoje, que segue se transformando sob nossos olhos atônitos. Sei que as mudanças são inexoráveis, mas elas não precisam ser para pior. Há milhares de exemplos de cidades que conseguem mudar sem perder sua essência. 

E aqui? Que faremos? Só nos restarão as lágrimas?

***

Deixo aqui a imagem que plasmei na retina quando as dragas começaram a estender a costeira. Um profundo momento de dor: 

Assisti ontem uma triste cerimônia de adeus. Parei em frente a grande obra da Via Expressa Sul com os olhos perdidos na areia branca, que aos poucos vai nos roubando o mar. Tinha dentro do peito uma certa angústia, destas que batem, inexoráveis. Não sou engenheira ambiental, ainda não sei detalhes sobre a obra, mas uma coisa eu sei. É como se estivessem assassinando a beleza. Algo soa mal ali, principalmente no pôr-do-sol.

Refletia sobre isso e mastigava minhas mágoas quando meus olhos bateram num homem, distante de mim alguns metros. Ele também olhava a obra. Tinha o rosto vincado de sol e de mar, destes rostos que não se pode adivinhar a idade, só a profissão. Era um homem do mar, um pescador. Ficou parado por uns minutos eternos, petrificado diante da areia branca. Depois, lentamente, caminhou em direção da lama preta, velha conhecida, que fica próxima aos ranchos de pesca já em demolição.

Então começou a cerimônia. Arremangou até os joelhos as velhas calças de um tergal gris, bem desbotado. Tirou os chinelos de borracha e foi entrando na lama, pisando devagar, quase em reverência. Com os pés enterrados na sujeira do mar ele foi caminhando pra lá e pra cá. Os olhos baixos, olhando o chão, se despediam. Depois, o pescador caminhou em direção à água, já distante. 

Quando seus pés encontraram o salgado do mar ele parou e volveu os olhos para a grande draga que continuava seu trabalho, jogando areia branca, engolindo a água que por muito tempo, com certeza, embalara o seu barco. Ficou ali parado, olhando fixo, parecendo fazer força para acreditar que aquilo tudo não era um sonho. Então voltou pelo mesmo caminho, os pés enterrados na lama, os olhos de novo no chão. Chegou ao meio fio e sentou sem pressa. Foi quando eu vi. Lágrimas corriam fininhas pelo meio das rugas de sol e mar.

Era um homem dizendo adeus a um mar que foi seu abrigo por décadas. Um pescador chorando esses choros sem barulho, por isso mais dolorosos. Olhei de novo para a obra da Expressa Sul e já comungando da mesma dor com aquele homem, pensei: Qual é o preço do progresso? Do conforto? Se forem as lágrimas daquele homem, não sei se vale a pena. Não tive coragem de lhe falar e fui embora com um indelével sentimento de culpa. Quando o ônibus no qual eu ia passou pelo homem, ele continuava ali, sentado no meio fio, os pés sujos de lama e o rosto crispado de dor.

20.09.96

domingo, 31 de janeiro de 2021

Sobre os trabalhadores, a Comcap e a cidade

 


Não faz muito tempo, durante a ditadura militar, que foi até 1984, lutar por direitos dava cadeia na certa. E dando cadeia podia dar em desaparecimento, tortura e morte. Era um tempo duro e muitas das batalhas tinham de se fazer clandestinamente. Depois, com a tal da democratização lenta e gradual, as lutas puderam acontecer à luz do dia. E foram tantas, e tão imensas, e tão massivas. As greves reuniam milhares de trabalhadores e nasciam as Centrais Sindicais para organizar e impulsionar os movimentos em nível nacional. Tempo de profusão, de levantes e grandes conquistas. O medo ficara para trás e os trabalhadores diziam a sua palavra. Quem tinha medo então eram os patrões, acossados com tanta mobilização.

Depois, com a conquista de direitos, as coisas foram se acomodando, a tal ponto de o sindicalismo virar uma espécie de repartição, na qual a vida acontecia em horário comercial. As grandes greves foram rareando, as movimentações passaram a ser pontuais e o que eram batalhas passaram a ser mesas de diálogos, notas de repúdio, passeatas pacíficas, marchas festivas. Do lado de lá da luta, os patrões observavam, agora já sem medo. De certa forma tinham vencido.

Agora, atravessamos uma longa tormenta ultraliberal. Os direitos foram se perdendo, os salários baixando, os empregos desaparecendo e em meio a tudo isso o que se vê é um mundo sindical bastante domesticado e apático. Atravessamos um ano de pandemia sem que se visse qualquer ação mais efetiva por parte das grandes centrais sindicais, dos grandes partidos ditos de esquerda, e poucas foram as entidades que ousaram sair de seu conforto para exigir direitos aos trabalhadores. Sim, aconteceram lutas, aqui e ali, muito localizadas. Nem mesmo com a ação da ceifadora, colhendo vidas sem parar houve levantes. Apenas os gritos prisioneiros das redes sociais, praticamente inúteis.

Hoje, um ano depois do início da pandemia temos mais desemprego, pequenos negócios fechados, trabalhadores perdendo os poucos direitos que ainda tinham e vem aí o anúncio de mais reformas para destruir o serviço público que ainda resta. Tudo em nome do lucro de uma parcela muito pequena da população. Na desgraça, essa gente ganhou muita grana e continua ganhando. Não há misericórdia para os trabalhadores. Ninguém se importa. Que sobreviveu, sobreviveu. É o cada um por si e deus por ninguém. E o mais dramático é que essa tendência para o matadouro se expressou de maneira avassaladora nas eleições municipais, com a vitória de pessoas vinculadas às políticas de morte e de destruição.

Em Florianópolis não foi diferente. A capital catarinense sempre pendeu para o conservadorismo e nos últimos anos não fugiu do script. Foi capaz de eleger Angela Amin, por dois mandatos, Dário Berger por dois mandatos, depois César Souza, e por fim Gean Loureiro, reeleito com larga vantagem ainda em primeiro turno. O Gean que já vinha entregando a cidade para as empreiteiras, para o cimento, para o turismo predador. O Gean que assedia trabalhadoras, que usa o gabinete como motel, que maquia a cidade com asfalto ruim, que não constrói uma casa popular sequer. O Gean que trata mal os professores e os demais trabalhadores públicos. O Gean que sonha em lotear cada pequeno pedaço da cidade para grandes condomínios de luxo, tornando a nossa linda paisagem e a natureza que nos abençoou espaços de especulação, completamente vedados aos moradores menos endinheirados.

Agora, em pleno janeiro, ele enviou à Câmara de Vereadores um projeto que fatia a Comcap, autarquia municipal de limpeza. Na prática, abre portas e janelas para a privatização. Em pouco tempo algum edital amigo será anunciado e alguma empresa amiga será vencedora para cuidar do lixo da capital. E todo o saber fazer de uma vida, de gerações de trabalhadores, se perderá. Pagaremos mais por um serviço ruim. O argumento é de que a empresa dá prejuízo e os trabalhadores tem muitos privilégios. Cabe perguntar: empresa pública é para dar lucro ou para atender com qualidade a cidade? Investir numa empresa pública não é gasto, é justamente investimento em vida boa para todos. Também cabe perguntar: em que planeta trabalhadores têm privilégios? Trabalhadores são seres que vendem sua força de trabalho por muito menos do que ela vale. Qual é o privilégio que poderiam ter os trabalhadores da Comcap, esses que começam seu dia na madrugada, recolhendo lixo alheio e limpando a cidade? Uma gratificação? Um bônus? O quê?

Certamente que os garis da capital não recebem auxílio moradia, nem auxílio terno, nem verba para gasolina de seus carros particulares, muito menos passagens aéreas para visitar parentes. Não. Se têm algumas diferenças em seus contracheques são conquistas garantidas em longas e dolorosas lutas. Porque os trabalhadores não recebem nunca nada de graça. Tudo precisa ser arrancado no braço.

Pois esses mesmos homens e mulheres que durante todo esse ano de medo e pandemia estiveram nas ruas mantendo a cidade limpa, como anônimos heróis, agora são esculachados como se fossem os responsáveis pela drenagem do dinheiro público que sangra das veias abertas dos contribuintes. Alto lá, senhores e senhoras! Se querem saber quem são os vilões procurem nas pastas da Justiça, em operações da polícia federal, nas investigações de corrupção, que apontam claramente os nomes de “respeitáveis” empresários,  vereadores da cidade e até mesmo o do senhor prefeito. Nomes esses que com bons advogados se safam e seguem fazendo a sangria. Então, quando o sangue encharca as vias, eles procuram rapidamente algum bode expiatório. Por vezes são os professores, ou os eco-chatos, os trabalhadores do executivo, e agora os trabalhadores da Comcap. Essas acusações bem urdidas servem para desviar o rastro de sangue que deixam nos seus passos.

Assim, camuflados pela mídia comercial entreguista e boca-alugada, esses nobres ladrões vão espalhando as mentiras e criando uma realidade paralela. Uma realidade fantástica na qual trabalhadores são monstros cheios de privilégios. Agora, por conta de greve, legítima e justa, o prefeito tem o apoio do judiciário - sempre célere quando é para julgar a favor dos graúdos - e já deu início a um processo que pode acabar com demissão por justa causa dos “monstros privilegiados que deixam a cidade suja”. A notícia é dada na mídia como se fosse a salvação da lavoura. E a plebe rude grita “oba, oba” e “Pau no cu dos trabalhadores privilegiados”, bem ao estilo do elegante presidente da nação.

Enquanto isso, nos piquetes, nas assembleias e nas passeatas, os trabalhadores tentam passar a verdade dos fatos, sem conseguir. Não se espantem se vier a prisão de lideranças, a destruição financeira do sindicato e a demissão de alguns trabalhadores para servir como modelo à massa. Esse é o modus operandi da chamada classe dominante.  Empunham o medo e tratam de sacrificar os corpos dos trabalhadores no altar do capital. Abrem suas entranhas e dizem: olhem aí as vísceras dos privilegiados. E as gentes ao redor olham, sem nada ver, mas fingindo ver.

A verdade sobre a Comcap é uma só: esta é uma empresa pública que presta um serviço de alta qualidade, com trabalhadores qualificados que conquistaram direitos ao longo dos anos, justamente por sua qualidade e por sua capacidade de luta. O quadro da Comcap é um quadro temido pelos dirigentes, porque os trabalhadores são organizados e conscientes do seu papel. Essa é uma gente perigosa para os que dominam, e por isso precisam ter a crista abaixada. Portanto, o que vimos agora é mesma velha luta entre aqueles que sugam a energia das pessoas para enriquecer sem esforço, e os que vendem sua força de trabalho por não terem como seus, os meios de produção. A luta de classe. Isso não é uma ciranda. É peleia dura e tem consequências. Ora a gente perde, ora a gente ganha.

Os trabalhadores esperam que a prefeitura apresente uma proposta nessa segunda-feira. Talvez essa proposta não venha e venham as demissões. Talvez a batalha seja perdida e a Comcap seja privatizada. Se isso acontecer os trabalhadores, com muita dor encontrarão novos caminhos. Mas, a cidade, essa não. Essa perde para sempre e com ela, todos nós.

Por isso que conhecer a verdade é importante. Para que a cidade possa se juntar à essa luta e não permitir a destruição da Comcap. O serviço público, com todas as suas mazelas, ainda é o que temos de melhor e é o que garante que tanto o milionário da beira-mar, quanto o morador da comunidade empobrecida que fica lá onde o judas perdeu as botas, tenham seu lixo recolhido. Pensem nisso antes de acreditar na histeria borra-botas dos colunistas da televisão e das redes sociais.

A verdade está lá fora. A verdade está na assembleia dos trabalhadores, no sindicato, na boleia e na traseira do caminhão do lixo.

Todo apoio aos trabalhadores e trabalhadoras da Comcap. A luta é sempre vitória. É justamente nessa hora que nos transformamos no corpo necessário, o corpo da classe trabalhadora, que é nossa mais legítima morada. A caminhada desse domingo reuniu mais de cinco mil pessoas. Assim, unidos, vencemos.



quinta-feira, 22 de outubro de 2020

O que é prefeiturar?



Vi a propaganda do Gean na televisão e me pus a pensar sobre o seu prefeiturar. Obras e mais obras de aparência grandiosa. Postos de Saúde, Creches, asfalto. Hum... muito convincente. E aí ele diz que está prefeiturando, e que esse prefeituar é para os mais empobrecidos. Tem aí uma meia-verdade, que é a matéria prima da mentira. O prefeito está sim, prefeiturando. Mas não é para os empobrecidos. Seu governo nunca inverteu prioridades. Ele prefeitura é para os ricos: o cartel do transporte, a turma do cimento, o empresariado do turismo, o bloco do automóvel.

Prefeiturasse ele para a maioria das gentes haveria de ter feito mudanças substanciais no transporte de massa. Esse transporte desintegrado que nos tira tempo de vida, duas, três horas por dia, por conta de suas baldeações absurdas. Transporte esse criado no governo de Angela Amin, diga-se de passagem, que também prefeiturava para os ricos, garantindo ao cartel dos empresários de ônibus décadas de tranquilidade.

Prefeiturasse Gean para os menos favorecidos teria uma política de moradia, o que evitaria de as famílias terem de ocupar terrenos em ações desesperadas, para poder fugir do aluguel. Construiria casas populares, teria um plano para garantir aluguéis justos. A Angela diz que construiu mais de mil casas populares, mas não conta que elas vieram por conta de uma poderosa e dura luta das famílias da Chico Mendes, por exemplo, que arrancaram suas moradias com sangue e lágrimas. Ah, esses prefeitos que prefeituram para os ricos.

Prefeiturasse para os empobrecidos e o Gean não colocaria como prioridade a construção de uma marina, que é bonita, é legal, mas é para poucos. Enquanto  que moradia, transporte público, cultura e segurança é para toda a gente.

Prefeiturasse para a maioria, o Gean colocaria dentro dos prédios bonitos que apresenta na propaganda, as equipes de trabalho necessárias: nos postos de saúde, nas UPAS, nas Escolas Municipais. Não adianta ter o prédio se não tem gente com salário digno, com condições boas para ensinar e cuidar.

Prefeiturasse para a maioria e o Gen já teria encontrado os recursos para garantir saneamento nessa cidade que vive de turismo e que ainda não tem esgoto na maioria dos lugares. É que esgoto não é prédio. É coisa escondida. Não dá pra mostrar como um troféu. Mas, sabe onde aparece a obra do esgoto? Na cara das pessoas, na vida saudável, no sumiço das doenças, no prazer de viver nos espaços da cidade, na praia limpa. Só que isso é coisa difícil de notar e não dá voto.

Prefeiturasse Gean para a maioria e teríamos a cultura viva da nossa gente se expressando a cada dia nas ruas, nos espaços públicos, nos teatros, nas escolas. Teríamos nosso centro humanizado, com banquinhos e flores, para que as pessoas pudessem sentar na Felipe Schmidt e ver a vida passar nas cores e nos sotaques da nossa cidade. 

Ah, esses prefeitos que prefeituram para os ricos.

Eu acredito sim que prefeiturar é mesmo uma arte: é viver a cidade, conhecer cada canto, garantir espaços democráticos de decisão de prioridades como um dia já aconteceu com o Orçamento Participativo, é levar transporte onde não têm, é garantir trajetos rápidos para que as pessoas possam ganhar vida, é definir políticas de moradia, de saneamento, é realizar de verdade um Plano Diretor Participativo, com as pessoas e para as pessoas, democracia direta, participativa. Esse é meu sonho de prefeiturar e acredito firmemente que pode voltar a acontecer na cidade, como um dia foi feito com a Frente Popular. Temos essa chance outra vez. Bora aproveitar.

Vamos colocar na prefeitura um prefeito que prefeiture para todos e não só para alguns. Elson e Lino - 50


terça-feira, 20 de outubro de 2020

Transporte coletivo - o que fizeram Angela, Gean e a Frente Popular?


As eleições vêm aí numa cidade que não verá debates entre os candidatos, pelo menos não nas redes de massa. Isso significa que as pessoas caminharão para as urnas praticamente sem informação, porque as campanhas políticas só falam das coisas lindas que cada candidato vai fazer. Só que uma cidade não vive só de futuro. É preciso um passo atrás, uma mirada para o passado, para que os erros não se repitam. Daí que eu quero falar sobre o transporte.

Foi no governo da Frente Popular que nasceu a ideia do transporte integrado. Era uma proposta que faria a integração entre os bairros, ligando, por exemplo, o norte ao sul sem passar pelo centro. Era uma proposta transformadora para o transporte. Mas, aí veio a eleição e ganhou a Angela Amin. Ela mudou a proposta original e criou esse monstro que temos hoje, o transporte desintegrado. Além disso criou uma série de espaços de transbordo que logo em seguida se mostraram inúteis. Dinheiro público jogado fora e um transporte que não funciona. Tudo depende do centro. Linhas curtas que realizam transbordo causando aumento no tempo da viagem, linhas longas que não se ligam com outros bairros. É uma baita confusão e um transtorno cotidiano. Quem usa o ônibus sabe.

Depois da Angela veio o Dário, que prometeu mudar tudo e não mudou. Só piorou. Depois veio o César Souza e o Gean e o transporte coletivo segue sendo o nó górdio da nossa vida. Uma tragédia diária. Ou seja, todos esses candidatos que aí estão prometendo mundos e fundos já estiveram no governo, seja como pessoa, seja como partido, e não mudaram nada. A cidade seguiu sendo governada dando prioridade aos ricos.

É por isso que os florianopolitanos deveriam dar uma chance à Frente Popular. Elson e Lino são dois urbanistas reconhecidos. E o que é isso? É uma pessoa que estuda e conhece a cidade, a cidade como espaço de vida das pessoas, dos trabalhadores. Não apenas o lugar de lazer e privilégio dos ricos. A cidade como lugar de vivência de todos.

A pergunta é: por que dar o voto a quem já esteve ali e já mostrou que não prioriza e gente? Não cuida das comunidades mais distantes, não se preocupa com o lazer das pessoas, com a mobilidade, com a moradia. Porque não apostar no novo. Se a memória for puxada até o tempo do governo do Grando - Frente Popular -  vai ser possível lembrar que foi nesse governo que os ônibus finalmente foram levados aos morros, foi nesse governo que aconteceu o orçamento participativo, no qual os bairros decidiam as obras que necessitavam. Nesse governo houve uma real inversão das prioridades e os trabalhadores, os empobrecidos, tiveram vez e voz. Por que então não apostar na Frente Popular, que já fi poder e tantas coisas boas fez?

Só uma busca rápida na memória e a gente vê que já teve um momento de mudança na cidade e que esse momento foi definido por um governo de Frente Popular. Já os demais, que também já experimentaram o poder, sempre fizeram mais do mesmo: tudo para os ricos e restos para a maioria.

É tempo da gente fazer acontecer a cidade que queremos. A cidade onde cada um de nós possa viver feliz. Mas isso não vai acontecer colocando os representantes dos ricos no poder. Há que ser o povo que está aí na luta com a gente desde sempre, sem nunca esmorecer.

Bora votar 50 para prefeitura. As coisas vão mudar. Não apenas no transporte, mas em tudo, como um dia mudou...



quinta-feira, 2 de abril de 2020

Enquanto a cidade dorme, voluntários trabalham, na periferia


É de manhã, a vida segue em suspenso na capital catarinense, totalmente parada pela quarentena. Os trabalhadores dos setores essenciais estão saindo, no rumo do trabalho e, junto com eles, outro pequeno grupo se move. São os voluntários que, nesses dias de isolamento, abrem mão de seu próprio cuidado para cuidar de outras pessoas. É que nas comunidades de ocupação, pelo menos mil famílias, que são invisíveis para o poder público, assomam com cara, nome e sobrenome para esses lutadores sociais que, desde anos, lutam por uma política de moradia capaz de garantir casa e vida digna a essas famílias.

Loureci Ribeiro, Elisa Jorge, Gerson Shatkoski, Ruy Wolf e Albani Pawelki Lopes coordenam a Campanha Solidária em Defesa da Vida com o trabalho de distribuição de cestas básicas e material de limpeza e higiene pessoal nesses territórios concretos de vida. Junto com eles mais 26 outras lideranças da base das comunidades também se organizam e se movem. Há que criar cumplicidade política e solidária de apoiadores externos, receber doações ou comprar os alimentos, há que montar as cestas e garantir que elas se multipliquem, podendo chegar em cada casa onde vive um trabalhador que agora está sem poder sustentar sua vida. É que na maioria dos casos são trabalhadores informais, catadores, precarizados, que a cada dia precisam garantir o sustento. Com a cidade parada, não há como. Por isso é necessária agora a solidariedade concreta. “Não é uma política de gueto nem assistencialismo. Trata-se de uma denúncia de ausência do Estado Social através da ajuda absolutamente imprescindível de sobrevivência”, diz Loureci Ribeiro.

Loureci é a prova viva de que não é diletantismo nem caridade. Desde quando era estudante de Arquitetura, e lá se vão mais de 30 anos, que ele começou essa caminhada de luta pelo Direito à Cidade. Esteve nas primeiras ocupações de terra urbana no final dos anos 1980, acompanhou a batalha do Caprom, do Cedep, atuou na construção do Estatuto da Cidade e tem se mantido esses anos na militância da Reforma Urbana pelo acesso à terra e moradia numa cidade cada vez mais especulada e inalcançável. Com ele, a também arquiteta Elisa Jorge, cumpriu a mesma estrada, atuando ainda como assessora e consultora de política urbana aos vereadores que foram fundamentais no processo de consolidação das primeiras ocupações em Florianópolis como Vítor Schmidt, Lázaro Daniel e agora Lino Peres, todos do PT.

Lutar pelo acesso à moradia, pela inclusão na vida da cidade, pela vida digna passava e ainda passa pela organização das comunidades. Isso é luta concreta, no chão da vida. É luta de classe, com os trabalhadores explorados e excluídos. E é assim que as coisas andam, dia após dia, nas antessalas do poder entregando documento, cavando reuniões, organizando atos, caminhadas, protestos. Nenhum ganho ao longo da caminhada foi concessão de governo. Tudo foi arrancado no braço. Agora, quando o terror de um vírus desconhecido cai sobre a cidade, são essas famílias as que mais precisam de um apoio real. E, com eles estão essas lideranças, que não são figuras de um dia só.

A emergência dos dias que correm diz respeito a pelo menos mil famílias em oito ocupações. Mas a luta pela moradia digna, contabilizadas as comunidades ainda em litígio, cheias de casas mal havidas, sem banheiro e sem condições de vida pode chegar a 80 mil pessoas em 70 comunidades que estão irregulares, fruto da falta de compromisso com uma politica de moradia popular, sem secretaria, projetos e orçamento municipal para habitação social . Gente demais, é fato, e que, apesar disso, segue invisível para governantes e demais moradores dos bairros “bons”.

Assim que nesses tempos de coronavírus esses lutadores sociais se dividem entre a ação junto a outras entidades e a Campanha Solidária para dar condições de sobrevivência a pelo menos 350 moradores em situação de rua que estão na Passarela Nego Querido, e outros que seguem na ruas, e ainda encontram tempo para coordenar essa ação das cestas básicas nas comunidades de ocupação.

Na semana que passou mais de 200 cestas foram entregues, com alimentos, mais 100 sabonetes, 200 litros de detergente e 200 litros de água sanitária nas seguintes comunidades: Beira-Rio, Mestre Moa e Nova esperança, em Palhoça.   Contestado, em São José. E em Florianópolis nas comunidades Fabiano de Cristo, Marielle Franco e Vila Esperança. Famílias do Mocotó, Jagata, Mont Serrat, Caieira da Barra do Sul e Quilombo Vidal Martins. Também foram lembrados e receberam cestas os estudantes indígenas abrigados na UFSC, os Kaingang que ocupavam o TISAC e os Xokleng que estão em Blumenau. É um trabalho gigantesco que, quando se trata de direitos humanos, permanece invisível para a grande mídia, tal qual as famílias as quais eles atendem.

O silêncio da mídia não é por acaso. Dar luz aos dramas da periferia seria expor o fato de que a cidade é um espaço especulado e que o poder público reserva quase 100% dos recursos para os territórios que são de interesse do capital e da acumulação privada. Tornar visíveis as famílias que lutam pela terra, que vivem em espaço degradados, de risco, seria colocar na tela da TV ou do computador a contradição viva do sistema capitalista de produção, no qual para que um viva outro tenha de morrer. Os trabalhadores, que são aqueles que verdadeiramente geram a riqueza, precisam o tempo todo estar batalhando para garantir atenção básica e condições de existência. E agora, com a pandemia, isso fica ainda mais claro. O que podem fazer aqueles que perderam o emprego ou que não têm como ganhar o pão do dia nos seus trabalhos informais? Como enfrentar esses dias tão sombrios se já no cotidiano sem vírus essas famílias já vêm seus filhos morrer por conta da falta de saneamento, moradia, emprego? A pandemia coloca à nu a luta desigual travada dentro da cidade.  Só no campo da moradia, por exemplo, a previsão orçamentária municipal para 2020 é praticamente zero e é por isso que o Movimento Nacional de Luta pela Moradia já vinha travando a luta para que a prefeitura e o estado revisassem os valores e metas essenciais. Agora, com a crise aprofundada pelo vírus o tema desaparece da mesa.

Para o MNLM e os voluntários que se somam a essa campanha solidária, mais do que dar suporte ás famílias nesse momento crucial, o trabalho é seguir organizando e lutando para que essa periferia esquecida não seja a que cotidianamente coloca os mortos, justamente por já não ter saneamento, saúde, moradia e salário.

Ainda falta muita gente para ser atendida, a quarentena se estende, e as promessas de renda mínima são para a maioria deles um futuro incerto por falta de cadastro. Por isso, o grupo de voluntários – ligados ao coletivo OCUPAÇÕES URBANAS, MNLM Movimento  Nacional de Luta por Moradia, INSTITUTO IGENTES, Igreja PRESBITERIANA de Florianópolis, MST e Tenda Lula Livre – continua insistindo em buscar doações solidárias e humanistas com a população de Florianópolis, seja em produtos ou dinheiro. Qualquer valor ajuda, então não precisa ficar com vergonha se não pode doar muito. Com menos de 40 reais é possível montar uma cesta. A compra e entrega das doações de Alimentos e Materiais de Limpeza e Higiene Pessoal é feita pelos voluntários, orientados pelo Coletivo Ocupações Urbanas e MNLM Movimento Nacional de Luta por Moradia. Uma gente voluntária e de luta que trabalha no amor e na vontade de ver o outro – vítima de um sistema tão cruel – em pé e alimentado, para que a luta por moradia e vida digna não pare.

Nas fotos, capturadas durante as entregas, o que assoma, poderoso, é o riso: de alegria de quem recebe, e de quem doa. Um povo que, em comunhão, já vive aqui e agora o amanhã sonhado.

Para contribuir entre em contato com as seguintes pessoas:

Ci Ribeiro 48 999421196

Elisa Jorge 48 984133043

Ruy Wolff 48 996740451

domingo, 2 de fevereiro de 2020

Uma marina para os ricos





Imagine que a Beira-Mar, que hoje já colapsa em quase todos os horários por conta do sempre crescente fluxo de automóveis, venha receber uma obra gigante: uma Marina, que é um espaço para estacionamento de barcos de médio e grande porte. Imagine ir para a Universidade – seja UFSC ou UDESC – por aquele que é praticamente o único caminho, todos os dias, tendo de enfrentar o tremendo impacto de uma obra dessa natureza? Não bastasse isso, a tal Marina pode ainda causar um número bastante grande de desequilíbrio em todo o entorno, impedindo ainda que os pequenos barcos dos pescadores e de passeios ecológicos possam circular. 

Pois bem, esse parece ser o cenário que está reservado para a cidade, com a prefeitura local dando seguimento ao processo licitatório para a construção de um Parque Urbano e uma Marina na Beira-Mar norte. Ocorre que apesar de vários pedidos de apresentação de relatórios e licenças ambientais que nunca foram atendidos, e até mesmo de um inquérito civil na Procuradoria do Ministério Público que exige uma série de esclarecimentos sobre o empreendimento, a proposta segue sem parada dentro da lógica das grandes obras que estão sendo realizadas pela prefeitura. 

Ainda em 2018 o procurador Eduardo Barragan entrou com pedido de revisão do projeto em função de uma série de questões que não estavam claras no diagnóstico apresentado pela prefeitura, que vinha, inclusive, com informações de 15 anos atrás que não davam condições de precisar os impactos reais na área. A procuradoria apresentou pedido de informações sobre os danos que poderiam ser causados às áreas de preservação que ficam no entorno, como o manguezal do Itacorubi (berçário de inúmeras espécies) e a Reserva do Pirajubaé. Observava também no inquérito que uma obra como a Marina iria impactar de forma decisiva o espaço, pois haveria muita dragagem e bota-fora de areia. 

Dava o exemplo da Marina criada na cidade de Salvador, Bahia, que, construída igualmente sem os estudos de impacto ambiental, acabou depois provocando intensa erosão na Praia da Preguiça. 

O inquérito também aponta que o local onde ficará a Marina é hoje espaço de circulação de muitos barcos pequenos, de pescadores artesanais e de passeios de eco turismo. Tudo isso irá por água abaixo com o grande estacionamento de barcos de luxo, que ainda pode trazer séria contaminação por óleo e por componentes químicos utilizados pelas embarcações na pintura anti-incrustrantes dos cascos, causando prejuízos a fauna e flora marinha.

O relatório, que apresenta ainda outros possíveis impactos da obra foi enviado a todas as entidades ambientais, prefeitura, câmara de vereadores. Uma a uma as instituições foram dando suas respostas, ou se esquivando, ou dizendo que não havia nada errado com a obra. 

Apesar disso, o processo foi parar no Tribunal de Contas do Estado porque a prefeitura queria fazer a obra com ônus para o município, alegando que era uma obra de interesse público, mas sendo ela de usufruto privado. O espaço será entregue por um valor bem abaixo do preço de mercado, numa das áreas mais caras da ilha, e tanto a prefeitura como os empresários estão abrindo mão da segurança jurídica, coisa que não é comum no mercado imobiliário. 

No documento preparado pelo Movimento de Luta pela Ponta do Coral Pública e Pelo Parque das Três Pontas, entregue ao Tribunal de Contas, os signatários questionam: “Ao empresário, em especial, cabe perguntar como conseguirá se planejar se um dos requisitos mais complexos e delicados, que são as licenças ambientais – requisitadas pela licitação – não tem parâmetros técnicos, orçamentários, financeiros, administrativos, e sequer estão definidas desde o início? Como este irá analisar os documentos do edital que orientariam os procedimentos administrativos, com as salvaguardas que estão em vigor sob o rigor da tutela coletiva do tema ambiental nos órgãos municipais, estaduais e federais?”

Mas, ao que parece, nem a prefeitura nem os empresários estão preocupados com as licenças ambientais e nem com a fiscalização do Ministério Público, apesar de já existir o inquérito civil questionando a obra. Não estão querendo saber se haverá ônus nem se fere os direitos da sociedade. Tudo o que importa é dar sequência ao empreendimento.

A Marina vai ser construída no metro quadrado mais caro da cidade, numa região que já bastante problemática quanto à mobilidade e à paisagem urbana e ambiental. Um lugar na baia que ainda serve de espaço de vida para as espécies e para os pescadores artesanais. 

Ainda segundo os argumentos do Movimento a baia é o espaço que apresenta o menor fluxo de renovação de águas, o  que já causa problemas de balneabilidade. Com a obra se somarão mais 123 mil metros quadrados de área para o parque urbano e 179 mil metros quadrados de espelho d’água privado, protegido por um quebra-mar e píer com capacidade de 650 vagas privadas (de 120 a 40 pés) e apenas 60 vagas públicas (de 40 a 30 pés) em meio à movimentação, ruídos e resíduos das 710 embarcações. Impossível não perceber o tremendo impacto que isso terá para a cidade.

Imaginem o que isso significará para a mobilidade e para a vida que viceja na baia? 

A prefeitura já determinou que a Marina só pode ser construída naquele espaço da Beira-Mar, e diz que isso não é negociável. Também aponta que só vai responder a questões de caráter ambientais, negando-se a pensar qualquer outra localização. Já deixou claro que não está disposta a discutir os impactos sociais, culturais, econômicos e ambientais, que, por conta das legislações vigentes, exigem alternativas locacionais mitigatórias frente a possíveis impactos e de perdas e danos irreparáveis, comprovados por pericias técnicas de EIV e EIA/RIMA.

Infelizmente o Tribunal de Contas deu sinal verde para que a licitação seguisse seu curso, ainda que não tenha ainda homologado e adjudicado o processo. Mas, a decisão já aponta que pouca coisa pode mudar. A prefeitura então já deu sequência a entrega dos envelopes e aos demais trâmites. Depois da abertura e julgamento das propostas deverá então encaminhar toda documentação para o TCE/SC, que vai avaliar se as irregularidades identificadas trarão ou não prejuízos ao certame, ao interesse público ou à sociedade. Caso se verifique o prejuízo, a licitação poderá ser anulada. Uma olhada no inquérito civil do Ministério Público mostra que as respostas dos órgãos ambientais já apontam para a liberação da obra.

O Ministério Público de Contas (MPC/SC) já se manifestou, via parecer, em três momentos no processo LCC 17/00419568. De acordo com a tramitação regular, o processo retorna ao MPC/SC (gabinete do Procurador-Geral Adjunto de Contas, Aderson Flores) após avaliação da área técnica do TCE/SC. Esse é o embate que acontece no âmbito jurídico, mas também há e haverá manifestações da sociedade organizada através dos movimentos populares. 

Nunca é de menos lembrar que estamos em um ano eleitoral e que a elite florianopolitana sem escrúpulos não medirá esforços para ter a sua marina, pouco se importando com os impactos que poderá causar às pessoas e ao ambiente. O prefeito Gean Loureiro é candidato à reeleição e quer marcar a gestão com grandes empreendimentos. Então, essa vai ser uma batalha das grandes. A mídia comercial, sempre do lado do empresariado, insiste em dourar o projeto como um ganho para a comunidade que poderá contar com um parque junto à Marina. Com isso, vão abortando a possibilidade do Parque das Três Pontas, pelo qual as comunidades lutam há anos, e que serviria ao turismo comunitário e aos pescadores. 

Com a Marina privada essa gente fica de fora. E o processo segue sem que a prefeitura escute o clamor popular pelos direitos constitucionais de controle e participação no processo decisório de empreendimentos potencialmente impactante. O movimento do Parque Cultural das Três Pontas lembra que isso já aconteceu quando da licitação e aprovação do Sistema Integrado do Transporte Coletivo de Florianópolis que, dois anos após a execução, dos nove terminais urbanos projetados e construídos, levou a desativação de três deles por inadequação frente à demanda, localização e a pretendida integração local regional. Um prejuízo para a cidade. Um prejuízo que até hoje os usuários do transporte pagam nas tarifas, via custos de execução e manutenção destes terminais. 

A população, como sempre, diz o documento “é vitimas das ações discricionárias e autoritárias do chefe do executivo municipal, e da inoperância dos órgãos de controle e fiscalização, como a Câmara de Vereadores e do próprio TCE-SC, que ainda não fez justiça e salvaguarda do direito e da economia popular, e nem puniu, com ato de improbidade administrativa, os responsáveis por tamanha negligencia”.

Os exemplos estão aí, só não vê quem não quer. Pagamos caro pelo transporte e pagaremos também para que os ricos da cidade tenham um espaço onde ancorar seus barcos. A marina não é um projeto para a cidade, é para poucos proprietários fruírem a vida. Para a maioria virá o custo e o terror da imobilidade urbana. 

Por isso é preciso que as pessoas conheçam a fundo o processo e entendam os impactos que virão. Depois de feita a obra não adiantará chorar. Olhando assim, é bonito. Mas a pergunta é: e serve a quem?