sexta-feira, 21 de fevereiro de 2020

A mídia dos trabalhadores na cidade de Florianópolis

Fotos: Rubens Lopes


Fazer jornalismo em Florianópolis não é coisa fácil. Até bem pouco tempo o oligopólio formado pela empresa gaúcha RBS detinha a hegemonia, abarcando não apenas a capital, mas toda Santa Catarina. Sua ligação visceral com o poder político instituído fazia dela o braço armado comunicacional da oligarquia local. Enfrentar essa massa uniforme de propaganda oficial sempre foi um desafio. Ainda assim, ao logo dos tempos, alguns jornalistas em particular e algumas experiências de comunicação comunitária ou popular conseguiram dar à sociedade outra mirada sobre os fatos, ainda que com dificuldades e com pequeno alcance. Hoje, o controle da empresa gaúcha se esgarçou, mas as propostas hegemônicas seguem o mesmo diapasão, ligadas ao poder político e neopentecostal. A batalha é a mesma. Dura e implacável.

Pensando na história mais contemporânea da mídia popular na cidade podemos nominar a proposta levada a cabo pelo Centro de Apoio e Promoção do Migrante (Caprom), na metade dos anos 1980 que conseguiu viabilizar o Jornal das Comunidades, com o qual abria um canal de comunicação com os florianopolitanos divulgando sobre a intensa jornada de migração vivida na época. Essa leva de gente vinda do interior do estado e de outros estados da federação viabilizou uma série de ocupações urbanas, que acabaram fazendo nascer uma boa parte das comunidades de periferia da capital. O jornal era distribuído gratuitamente e era produzido por jornalistas e estudantes de jornalismo da UFSC. O debate sobre o direito à terra e à moradia se fazia por ali. 

No início dos anos 1990 surgiu no bairro do Campeche o jornal Fala Campeche, que também expressava a luta vivida na comunidade por um Plano Diretor, ampliando ainda mais a temática de interesse das gentes, discutindo terra, moradia, transporte, saúde e educação. O jornal abarcava o bairro, mas também discutia a cidade.

No final daquela década, justamente por conta do crescimento da luta popular, foi a vez da aparição da Rádio Comunitária Campeche, uma proposta de comunicação popular nascida do centro nervoso da luta pelo direito à cidade que vicejava no bairro. A rádio, criada em 1998, despontava como um oásis dentro do controle comunicacional exercido pelo poder dominante, o qual tinha sob seu tacão os principais jornais, as TVs e as emissoras de rádio locais. A Rádio Campeche passou a ser não apenas a voz da comunidade se expressando pelo ar, mas também o espaço para a divulgação das lutas dos trabalhadores e dos movimentos sociais. 

No mesmo ano de 1998, é fundada a TV Floripa, gerida por um grupo de entidades sindicais. A proposta era justamente trazer à luz todo o espectro das lutas sindicais que se faziam fortes na cidade. No início dos anos 2000, já com a consolidação das novas tecnologias, surge a Alquimídia, uma proposta  de comunicação crítica que trazia com ela também a possibilidade de criação de novos veículos, dos próprios movimentos sociais, com hospedagem solidária. Em 2004 nasce a revista de reportagem Pobres e Nojentas, que procurava ser uma referência de jornalismo de classe, focando seu trabalho nas pautas de interesse dos trabalhadores, distribuída gratuitamente nas comunidades. 

Nesse período é também de grande repercussão o trabalho do ativista Hamilton Alexandre, o Mosquito, que com suas Tijoladas, expressas num blog, trazia outros olhares sobre a política da cidade. Com ele também fazia coro o meu blog pessoal, chamado primeiro de Jornalismo Amoroso e de Libertação, transformando-se mais tarde no Palavras Insurgentes, também com o objetivo de mostrar as vísceras da cidade e as lutas dos trabalhadores. Igualmente importante foi a experiência do bairro da Lagoa da Conceição, com a criação da Folha da Lagoa, espaço de jornalismo crítico.

Mais tarde foi a vez da criação do Portal Desacato, gerido por uma cooperativa, trazendo a possibilidade de uma cobertura ampliada não apenas da cidade, mas também do Oeste catarinense. E em seguida, outras novas propostas de jornalismo independente como o do Coletivo Maruim, Catarinas, Estopim, o braço estadual do Jornalistas Livres, o Daqui na Rede e por fim a proposta da Associação das Rádio Comunitárias foram aparecendo, dando mais musculatura para o jornalismo independente que vinha sendo praticado sistematicamente por um grupo pequeno de jornalistas.  

Pois foi toda essa gente que se juntou nesta quinta-feira, dia 20 de fevereiro, para uma sessão de homenagens na Câmara dos Vereadores proposta pelo vereador Lino Peres. Um momento importante de encontro e de reafirmação do compromisso de construção de uma mídia comprometida com os trabalhadores, com os oprimidos, com os explorados da terra. Cada um dos veículos ainda em atividade recebeu um diploma de reconhecimento, e os que já não existem mais foram lembrados como deve ser, porque a luta pela soberania comunicacional é um edifício construído por inúmeras mãos de jornalistas e agentes comunicacionais que decidiram romper com a falácia do jornalismo imparcial. A memória histórica não pode nem deve ser apagada, porque essa luta não começou agora.

No capitalismo vivemos uma guerra de classes e é importante que a sociedade saiba que existe uma mídia que se emparelha com os dominadores e outra que atua irmanada com os trabalhadores. É uma batalha comunicacional travada cotidianamente. Claro que os veículos de comunicação independentes, populares e comunitários têm muito menos alcance e eficácia na relação com os meios de massa, mas eles seguem firmes na resistência até que chegue o dia em que os trabalhadores realizem a revolução e os meios de comunicação sejam controlados pela maioria. 

A sessão promovida pelo vereador Lino Peres, muito mais do que amaciar egos, foi o encontro de parceiros e parceiras que trabalham pela transformação. E, para além disso, a oportunidade da reafirmação pública desse compromisso coletivo, generoso e revolucionário. Na guerra de classe, estamos todos – os que lá compareceram, os que já passaram e os que chegam agora - na trincheira dos trabalhadores e como afirmou a jornalista Paula Guimarães na sua fala, representando todos nós: 

“... é um erro pensar que somos poucos ou poucas, preocupadas com construir uma narrativa anti-hegemônica. A cada dia somos muitas e muitos que, de maneira coletiva e em redes, nos movemos na contramão das fake news e na luta por uma democracia de fato e direito, só possível com a edificação do poder popular. Teorias e práticas atentas a desestabilizar verdades legitimadas sob violências são nossa maior potência. Por isso, governos autoritários não nos querem por perto. E não estaremos mesmo. Nosso lugar é do outro lado da trincheira”.

A mídia da classe trabalhadora está viva e se move, a despeito de tudo. 


sábado, 15 de fevereiro de 2020

A nova fase do pai



O pai, apesar de já entrando nos 88 anos tem uma energia incrível. Ele passa o dia inteiro em função, andando pra lá e pra cá. Quando se aquieta é alerta. Mesmo à noite ele costuma levantar umas três ou quatro vezes. Até então tudo bem. Ele geralmente levanta e vem bater na porta pedindo café. Acha que já é de manhã. Eu levanto, explico pra ele que é de noite e ele volta para o quarto. Há duas semanas esse ritual mudou. 

Naquela noite ele não apareceu. Eu estranhei, mas não pensei em nada de mais. Ele só veio bater na porta por volta das seis horas da manhã. Eu já estava de pé. Abri a porta e dei de cara com uma cena de “Carrie, a estranha”: o pai, com a cara toda ensanguentada. Até hoje não sei de onde tirei calma para não demonstrar pavor e tentar ver o que havia acontecido. Apesar da sangueira ele tinha apenas um corte na testa, grande, mas não profundo. Não soube dizer o que havia acontecido. Quando entrei no quarto encontrei toalha, lençol, travesseiro, tudo sujo de sangue. Provavelmente ele dormiu sentado e deu com a cabeça na mesa. Única possibilidade. 

Observei então que não dava mais para deixá-lo dormir sozinho e embora ele fique brabo com a minha presença, decidi armar uma cadeira de praia ao lado da cama dele e ficar vigiando. Na noite seguinte, lá estava eu, toda torta, meio dormindo, amparando a cada vez que ele levantava para fazer xixi. Ficou furioso a noite toda, mas não arredei pé. Quando foi de manhã, já na hora de me arrumar para o trabalho, ele dormia profundamente. Sai de mansinho e fui tomar banho. Não deu cinco minutos. Quando eu voltei, lá estava ele no chão. Machucou os dois braços, se encheu de hematomas, um perigo total. Cair pode ser fatal para um velho. Que fazer? Como estar atenta o tempo todo? Que coisa difícil. 

Agora as coisas estão assim, uma nova fase, novos aprendizados e muito mais cansaço. Fico com ele a noite toda e, de manhã, quando vou trabalhar, alguém fica com ele. Vigilância total. Não é fácil, porque as noites são muito mal dormidas e logo cedo há que estar alerta e dar conta da vida. Não sei até onde vai ser possível aguentar esse batidão, mas estou indo em frente. Durante o dia, procuro dormir como posso, no ônibus, ou, depois que chego a casa, quando ele também cochila. Mas é um não-dormir, um estado de alerta o tempo todo. 

Agora ele já se acostumou com a minha onipresença durante a noite. Ainda assim, toda vez que ele desperta para ir ao banheiro, quando vê minha cabeça assomando, começa a rir e pergunta: mas o que tu tá fazendo aqui? 

Tô te cuidado, meu velhinho. Tô te cuidando. 

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2020

Atrás do Berbigão vai até quem já morreu



O carnaval de 2020 em Florianópolis terá um grande vazio. Pela primeira vez em 33 anos não estará à frente dos festejos o alegre e querido Ernani Hulk, histórico Rei Momo da corte da alegria, que encantou em setembro do ano passado depois de uma longa luta contra o câncer. Nascido em Blumenau, ele assumiu o amor pela cidade abraçando o carnaval e por mais de três décadas arrastou a multidão pelas ruas, clubes e sambódromo. Quem vive o carnaval sabe o quanto sua figura era estimada e é justamente por isso que ele será o mais novo boneco da corte do Berbigão do Boca.

O Berbigão é o mais popular bloco de carnaval de Florianópolis, nascido em 1993 e que com o passar do tempo se transformou na festa popular mais importante da cidade, carregando pelas ruas, com alegres marchinhas, para lá de 40 mil pessoas na abertura dos festejos de Momo que acontece uma semana antes da festa oficial. 

Florianópolis já teve um dos melhores carnavais de rua do Brasil, num tempo em que tudo acontecia ao redor da Praça XV. Por ali passavam os blocos, as grandes Sociedades com seus carros de mutações (únicos no país) e as escolas de samba. Para a população a alegria era gratuita, pois não tinha que pagar nada para ver as maravilhas que se construíam ao longo do ano para apresentação no Carnaval. Com a inauguração da Passarela do Samba Nego Quiridu em 1989 as escolas foram deslocadas para lá e os desfiles passaram a ser comercializados. A rua esvaziou, mantendo-se apenas os blocos de sujos. 

E foi a nostalgia dos velhos carnavais da Praça XV que levou um grupo de rapazes a criar o Berbigão. Era o carnaval de 1992. Eles curtiam a ressaca, quarta-feira de cinzas, em frente ao mar de Coqueiros, cheios de saudade de um tempo em que a festa era na rua. Queriam também aumentar os dias de folia, agora tão protocolar. Começaram a lembrar do bloco Bacalhau do Batata, de Olinda, que sai depois que tudo acaba. Pois aqui haveria de sair antes. Logo veio à mente o berbigão, fruto do mar típico da ilha, para dar nome ao bloco e como a ideia tinha sido do Boca (Paulo Bastos Abraham), ficou “Berbigão do Boca”. O bloco sairia uma semana antes do carnaval, circulando pelas ruas do centro, sem nenhum custo para a população. 

Quando 1993 chegou lá estava o Berbigão pronto para a festa.  No começo era só um bloco, que já nos primeiros anos ia arrastando muita gente. Mas, quando em 1995 inventou de incorporar grandes bonecos no cortejo, com a construção da figura gigante do primeiro Rei Momo, o Lagartixa, pelas mãos do artista Alan Cardoso, o bloco foi ficando com cara de um Boi-de-Mamão carnavalesco e a cidade foi se apaixonando. Seguir atrás do Berbigão do Boca começou a ser de lei. Ano após ano, outros grandes bonecos foram sendo criados, de figuras importantes da cultura local que já tivessem partido para o outro plano, e hoje já são 40 deles que seguem junto à multidão, imortalizando o povo do carnaval e da cultura.  

É de alegre lembrança a eterna rainha do samba, a Nega Tide, que sempre dizia: “valhamideuzi, eu não quero virar boneco”. Pois ainda assim, virou, pois era figura imprescindível no carnaval. Claro que o que ela não queria era morrer, pois só vira boneco quem parte. E, conforme conta o Alan da Pandorga, o artista dos bonecos, só depois de cinco anos da passagem é que ele começa a confeccionar. Isso porque quando morreu o Aldírio Simões, um nome importante da cultura local, eles decidiram fazer logo o boneco para homenagear o amigo. Só que enquanto construía a figura, o boneco, do nada, se mexeu. Alan decidiu, por isso, esperar o morto esfriar bastante. Mas, esse ano, ele abriu exceção, pois não poderia sair o Berbigão sem o Hulk. E por isso mesmo já está pronto o 40º boneco, lembrando o mais querido Rei Momo da cidade. 

A farra do Berbigão do Boca, no dia 14 de fevereiro, começa ao meio dia no Mercado Público. Tem festival gastronômico, com receitas de berbigão, tem shows de todo tipo de música de carnaval e quando chega às 19 horas, a banda, formada por músicos locais, com muito sopro, sai pelas ruas arrastando o povo. A cidade se enche de alegria e as gentes de todas as idades podem curtir as velhas marchinhas e o carnaval na rua, seguindo o cortejo dos bonecos. É festa pra rachar, é uma coisa louca, todo mundo botando pra quebrar, no Berbigão do Boca, uma festa genuinamente popular.  

A folia do Berbigão do Boca foi declarada em 2008 como uma festa de utilidade pública, e em 2011 definida como Patrimônio Imaterial da cidade. 

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2020

Aprender a lidar com o velho


O pai não andava muito bem e eu levei ele no Posto de Saúde para uma consulta. Cumprimos todas as regras. Ir para a fila de madrugada, pegar a senha e depois marcar a consulta. Claro que não levei ele para a fila. Ele ficou em casa, esperando. Com a consulta garantida o Renato levou ele. No posto é o de praxe, com alguma espera. Até aí tudo bem. Mas, ocorre que há um ar-condicionado no modo polo norte. O pai com problemas respiratórios. Uma coisa complicada. Isso sem falar nos outros doentes, com gripe e tal. Aquilo não é de deus. Mas, tá. 

A médica pediu uma radiografia do pulmão. Beleza, seguimos os trâmites da espera. O pai tomou os antibióticos e era para ver se tinha ficado tudo bem, então a espera de mais de uma semana para fazer o raio-x não complicou. Beleza. 

Hoje fomos fazer a tal da radiografia. E no meu coração assomou a certeza. Poucas pessoas estão habilitadas a cuidar de pessoas velhinhas, com demência. O moço insistia em pedir para pai encostar o queixo e o peito na placa. Ele não entendia. Eu falei: deixa eu ajudar. O moço: não, a senhora não pode entrar. E eu: Mas, moço, ele tem demência, não compreende as coisas, eu preciso mostrar pra ele como fazer, tem que ter paciência. O moço: não. E insistia em dar os comandos. O pai foi ficando nervoso, porque não entendia. Com muito custo eu convenci o moço de ficar com o pai dentro da sala. Ele me colocou uma roupa de chumbo, eu acho. E eu tentando fazer o pai fazer o que era preciso. Mas, ele já estava nervoso e com dor no braço por conta de uma queda, e não obedecia. Um climão. 

Por fim fizemos a chapa de costas, mas tinha uma que era de lado. O pai não conseguia, de jeito nenhum, erguer os braços. Doía. O moço tentou levantar, ele gritou de dor. Eu fiquei braba. - Moço, ele está com o braço luxado, não poder erguer. Quer saber, não vamos fazer essa chapa.  Foda-se. Fica só a de costas. 

O moço ficou meio brabo. Mas, porra, aquilo estava sendo uma tortura e uma confusão. E o pai foi ficando nervoso a ponto de descompensar um pouco. ´Já não ordenava mais a fala, gemia com dor no braço. Um terror. 

Resumindo a ópera. A radiografia ficou pela metade. Não sei muito bem como as coisas deveriam ser, mas creio que poderia ter alguma técnica para ajudar pessoas nessas condições. O pai, no geral, não consegue verbalizar o que está sentindo direito. Tudo tem de ser muito intuitivo. Claro que entendo que o trabalhador do raio-x está ali atendendo dezenas de pessoas por dia, às vezes até em condições ruins. Mas, haveria que ter uma capacitação sobre como lidar com pessoas assim, bem velhinhas e confusas. A nossa população está envelhecendo, isso é uma novidade, e cada vez mais  haverá gente assim. Não creio que eles possam seguir o atendimento padrão. Sei lá, algum jeito tem de ter, afinal saí sem a chapa. 

Fica a dica então para o sistema de saúde. Hoje foi difícil. 


domingo, 9 de fevereiro de 2020

Artigas, um caminho

Em tempos de Oscar, no qual se celebra a indústria do cinema, apresento nosso documentário feito a facão, produzido e financiado com recursos salariais próprios, meus e de Rubens Lopes. Quinze dias rodando o Uruguai, vivendo aventuras, raiva e alegria. Por fim, um trabalho que conta um pequeno pedaço da saga do povo da Banda Oriental, seguindo Artigas por mais de 500 quilômetros, à pé, na luta pela libertação. Esse é o nosso prêmio, ter conseguido trazer à luz essa linda história, ainda que sem recursos técnicos ou financeiros, porque, no capitalismo, a cultura é guerrilha.


sexta-feira, 7 de fevereiro de 2020

Governo brasileiro quer entregar terras indígenas à exploração


O governo do Brasil encaminhou um projeto ao Congresso Nacional buscando liberar as áreas indígenas para mineração, geração de energia, agricultura e pecuária. Essa é uma promessa de campanha do atual presidente que finalmente foi colocada em andamento. Durante o primeiro ano de mandato, o presidente foi pródigo em declarações bombásticas contra os povos indígenas. Para ele, os indígenas ainda não são humanos e só o serão quando puderem produzir mercadorias. Daí esse projeto que visa tornar “produtivas” as terras que hoje conformam apenas 12% do território nacional, garantidos com muita luta pelas comunidades. 

A decisão do governo vem no sentido de fortalecer o grupo de latifundiários, mineradores e empresas estrangeiras que desde há muito estão de olho nas riquezas das terras que os povos originários têm conseguido manter vivas e cheias de biodiversidade. Esse grupo de latifundiários, que representa apenas 1% da população brasileira, detém atualmente - conforme o Atlas do Agronegócio - mais de 51% das terras no Brasil. Não satisfeitos com isso eles querem as terras indígenas onde pretendem ampliar a fronteira agrícola e extrair petróleo, gás e outros minérios importantes. 

O projeto encaminhado à Câmara dos Deputados autoriza a exploração e ainda define que serão permitidos estudos técnicos sobre as regiões pretendidas, sem que seja necessária a presença de estudiosos na área. Tudo poderá ser feito à distância com “dados e elementos disponíveis” (seja lá o que isso for). Na verdade, isso significa que com base em um laudo qualquer, de um amigo qualquer, sem qualquer contato com as populações envolvidas, a autorização poderá ser efetivada. Mais uma vez o governo ignora e tripudia o conhecimento construído ao longo dos anos, fruto do incansável trabalho de campo de inúmeros cientistas em parceria com as comunidades. 

Esse conhecimento sobre a realidade brasileira também foi ironizado na fala do mandatário do país, quando declarou que os ambientalistas só atrapalham e que se fosse por ele seriam todos confinados na Amazônia. “Se um dia eu puder, confino eles lá, já que gostam tanto de meio ambiente”. Na verdade, o que ele chama de ambientalistas são estudiosos, pesquisadores, lutadores sociais que têm um conhecimento técnico, prático e acumulado sobre os ecossistemas e sabem muito bem o que pode acontecer se continuar a devastação desenfreada que tanto querem os latifundiários e outros empresários rurais. 

Os representantes do governo dizem que os povos indígenas serão consultados sobre os projetos e terão poder de veto sobre ações de garimpo. Mas, a considerar o que já acontece atualmente, com o aumento da violência nas regiões de terras indígenas, com a ação desinibida de jagunços e pistoleiros, não resta dúvida de que essa “consulta” está sob suspeita, visto que poderá ser feita a ponta de bala. 

Também não se deve descartar a possibilidade de persuasão de algumas comunidades já bastante enredadas no modo de produção capitalista. A possibilidade de ganhar dinheiro arrendando as terras ao garimpo ou à agricultura poderá levar muitas comunidades a aceitar a transação, justamente porque vivem em situação de abandono por parte do poder público. A sedução do mundo capitalista é grande e o governo vai apostar muitas fichas nisso. É o que já afirma o presidente quando diz que os indígenas não têm hoje autonomia e que com esse projeto poderão de “libertar”, podendo servir ao capital sem qualquer amarra. Ele busca dividir para reinar com eficácia.

Mas, dentre as mais de 300 etnias que vivem hoje no Brasil, a maioria tem se colocado contra a proposta, porque sabe que essa é a porta aberta para a destruição do seu modo de vida e também do ambiente, com o qual consegue estabelecer uma relação harmônica. Para a população indígena, não há desconexão entre a terra e o ser humano. Tudo está ligado e precisa ser trabalhado de forma a manter o equilíbrio. Explorar a terra, exauri-la em projetos como a mineração ou a agricultura extensiva é matar também o seu próprio modo de ser. Por isso a reação a esse projeto será à altura. 

Desde o início do atual governo, em janeiro do ano passado, que as entidades indígenas e as comunidades têm atuado em consequência. Atos em Brasília, marchas, recorridos internacionais, muita luta têm acontecido para denunciar a proposta e para conseguir apoio tanto dentro quanto fora do Brasil. As comunidades sabem que a proposta visa unicamente destruir qualquer forma de resistência da vida originária. Incluir os povos indígenas no modo de produção capitalista é condená-los à exploração, à miséria, à morte. Perder o controle sobre o território é perder tudo. 

A ganância dos latifundiários, o ódio aos índios, e o desejo do capital em incorporar mais de um milhão de seres ao seu exército de escravidão serão elementos poderosos nessa batalha. Mas, para quem resiste desde há mais de 500 anos, isso não é novidade. Está duro, está mais escrachado, mas nunca foi muito diferente. Os indígenas lutarão e com eles muitos apoiadores. E como diz o ditado popular, “enquanto houver bambu, vai flecha”. Nada está perdido. 



quarta-feira, 5 de fevereiro de 2020

A moral é política

A família margarina é um desejo de felicidade


Das coisas que me incomodam nos tempos atuais uma é ver companheiros do espectro da esquerda tripudiarem das pautas morais que têm sido impostas pelo governo e seus apoiadores. Não compreender a importância desses temas é desconhecer por completo a natureza humana. Desde o princípio dos tempos, quando homens e mulheres começaram a pensar sobre o mundo, o tema moral está posto, seja na religião ou na filosofia. Grandes pensadores foram astutos moralistas, inclusive o nosso ícone revolucionário Che Guevara.  E no que se constitui a moral: a elaboração de uma série de regras para alcançar a felicidade e o bem viver. 

Aristóteles dizia que a felicidade só vinha através da virtude, e virtudes aqui seriam não apenas as atividades racionais, mas também as sentimentais, afetivas, passionais que deveria ser governado pela razão embora não pudessem ser totalmente resolvidas pela razão. Ele entendia que a razão podia dominar a paixão, mas não conseguia aniquilar ou destruir. Isso significa que o extraordinário filósofo sabia muito bem ser a paixão algo capaz de desestruturar tudo se não fosse domada pela razão.  

Adam Smith, considerado um ícone do liberalismo, discorreu largamente sobre a moral e considerava a simpatia – que ele entendia ser a capacidade de sentir aquilo que o outro sente – o elemento natural que deveria balizar o agir humano.

Che Guevara, como já disse, foi pródigo em estabelecer regras morais para que a revolução pudesse se fortalecer e avançar. O chamado “homem novo” que ele reivindicava era justamente isso, a instauração de novas regras para viver numa sociedade socialista. Outros valores, outras paixões. A virtude como aplicação da razão, mas não só razão. 

Cada um desses pensadores entendia a moral como uma regra para a humanidade, com caráter universal. E, esse é um debate que vem sendo travado através dos séculos por intelectuais de todo o planeta. Mas, com a emergência da chamada pós-modernidade, esse tema da moral foi escasseando e chegou-se inclusive à proposta da destruição da moral. As pessoas foram “autorizadas” a fazer tudo o quem bem entendiam, tudo passou a ser permitido em nome de uma felicidade individual ou particular. Daí a lógica das “tribos” ou do que outros chamam de “identitarismo”. As regras morais valem só no e para o grupo, não se estendem ao universal. E há inclusive, a regra do eu-sozinho ou o que Lipovetzki conceitua como o “self-made man” . O tempo da anomia, o tempo sem-lei.

É esse tempo, iniciado em 1968, que vem se fortalecendo desde então.  E é esse tempo, o da anomia, que a moral neopentecostal ataca com relativo sucesso. A desestruturação de todas as esferas da vida causada pelo capitalismo enche as pessoas de angústias, dúvidas e vazios. E é nesse buraco, muitas vezes sem compreensão por parte da maioria, que se infiltram os tentáculos da religião ou de qualquer instituição que apresente uma mínima tentativa de ordenamento universal. É importante percebermos que as “tribos” não conseguiram dar uma resposta para todos e as pessoas estão aí, perdidas, esperando um salvador. Não deveria ser assim. Mas, as coisas não são como a gente quer e sim como a história se nos apresenta na sua materialidade. 

Quando observamos o ascenso do conservadorismo ou das práticas fascistas no mundo, esse é um tema que deveria ser melhor compreendido. Por quê? O que leva as pessoas ao medo ou à tentativa de recuperar um passado que – na verdade  - só existe na memória, visto que é impossível fazer com que as coisas sejam como antes? Tripudiar desse medo seria o melhor caminho?

Tenho uma amiga que acha formidável a ideia de uma campanha pela abstinência sexual. Ela tem quatro filhos saindo da adolescência. Ela se depara todo o dia com as notícias do aumento das doenças sexualmente transmissíveis, ela sabe que Florianópolis tem alto índice de contaminação pelo HIV, ela sabe que o Posto de Saúde não dá respostas rápidas para os problemas de saúde. Ela não tem dinheiro para uma emergência médica. Ela se desespera. Ela então acredita que se os garotos não transarem, estão protegidos. E se agarra no pastor, e no governo, e em deus. E ela encontra respostas. Pensa que as coisas vão se resolver assim, de maneira mágica. Não compreende que seus filhos são sujeitos históricos, que estarão submetidos a outras relações, que estão no mundo e não na redoma da casa. E não compreende também que as doenças poderiam ser evitadas por políticas públicas eficientes, com educação de qualidade, com possibilidade de alimentação saudável etc.. Ou seja, não consegue racionalizar que o motivo da emergência das pautas morais é a situação política/econômica/cultural. 

As pessoas não conseguem ver que o precisam é de uma revolução.

Por isso creio que estamos bem atrasados no debate sobre a moral. Por isso penso que o governo atual está conseguindo ganhos importantes no campo da política utilizando o discurso moral. Esse povo aí no poder sabe o que está fazendo. Está dizendo claramente: vou colocar ordem nesse mundo desestruturado. E muita gente acredita que sim, isso é possível. Que a ordem virá por um impulso da vontade. Não virá. O que vem é ordem de um grupo muito pequeno, bem específico, sobre a maioria, que aceita por sentir-se perdida e sem respostas. 

Penso que é chegada a hora de parar de rir e tripudiar das pautas morais. Elas são importantes e definem caminhos. Seguir a deixa do Aristóteles: a razão no comando, mas sem esquecer que as paixões são selvagens e arrebentam os muros da razão. É um extraordinário esforço garantir o equilíbrio. Disputar nesse terreno é fundamental. 

domingo, 2 de fevereiro de 2020

Uma marina para os ricos





Imagine que a Beira-Mar, que hoje já colapsa em quase todos os horários por conta do sempre crescente fluxo de automóveis, venha receber uma obra gigante: uma Marina, que é um espaço para estacionamento de barcos de médio e grande porte. Imagine ir para a Universidade – seja UFSC ou UDESC – por aquele que é praticamente o único caminho, todos os dias, tendo de enfrentar o tremendo impacto de uma obra dessa natureza? Não bastasse isso, a tal Marina pode ainda causar um número bastante grande de desequilíbrio em todo o entorno, impedindo ainda que os pequenos barcos dos pescadores e de passeios ecológicos possam circular. 

Pois bem, esse parece ser o cenário que está reservado para a cidade, com a prefeitura local dando seguimento ao processo licitatório para a construção de um Parque Urbano e uma Marina na Beira-Mar norte. Ocorre que apesar de vários pedidos de apresentação de relatórios e licenças ambientais que nunca foram atendidos, e até mesmo de um inquérito civil na Procuradoria do Ministério Público que exige uma série de esclarecimentos sobre o empreendimento, a proposta segue sem parada dentro da lógica das grandes obras que estão sendo realizadas pela prefeitura. 

Ainda em 2018 o procurador Eduardo Barragan entrou com pedido de revisão do projeto em função de uma série de questões que não estavam claras no diagnóstico apresentado pela prefeitura, que vinha, inclusive, com informações de 15 anos atrás que não davam condições de precisar os impactos reais na área. A procuradoria apresentou pedido de informações sobre os danos que poderiam ser causados às áreas de preservação que ficam no entorno, como o manguezal do Itacorubi (berçário de inúmeras espécies) e a Reserva do Pirajubaé. Observava também no inquérito que uma obra como a Marina iria impactar de forma decisiva o espaço, pois haveria muita dragagem e bota-fora de areia. 

Dava o exemplo da Marina criada na cidade de Salvador, Bahia, que, construída igualmente sem os estudos de impacto ambiental, acabou depois provocando intensa erosão na Praia da Preguiça. 

O inquérito também aponta que o local onde ficará a Marina é hoje espaço de circulação de muitos barcos pequenos, de pescadores artesanais e de passeios de eco turismo. Tudo isso irá por água abaixo com o grande estacionamento de barcos de luxo, que ainda pode trazer séria contaminação por óleo e por componentes químicos utilizados pelas embarcações na pintura anti-incrustrantes dos cascos, causando prejuízos a fauna e flora marinha.

O relatório, que apresenta ainda outros possíveis impactos da obra foi enviado a todas as entidades ambientais, prefeitura, câmara de vereadores. Uma a uma as instituições foram dando suas respostas, ou se esquivando, ou dizendo que não havia nada errado com a obra. 

Apesar disso, o processo foi parar no Tribunal de Contas do Estado porque a prefeitura queria fazer a obra com ônus para o município, alegando que era uma obra de interesse público, mas sendo ela de usufruto privado. O espaço será entregue por um valor bem abaixo do preço de mercado, numa das áreas mais caras da ilha, e tanto a prefeitura como os empresários estão abrindo mão da segurança jurídica, coisa que não é comum no mercado imobiliário. 

No documento preparado pelo Movimento de Luta pela Ponta do Coral Pública e Pelo Parque das Três Pontas, entregue ao Tribunal de Contas, os signatários questionam: “Ao empresário, em especial, cabe perguntar como conseguirá se planejar se um dos requisitos mais complexos e delicados, que são as licenças ambientais – requisitadas pela licitação – não tem parâmetros técnicos, orçamentários, financeiros, administrativos, e sequer estão definidas desde o início? Como este irá analisar os documentos do edital que orientariam os procedimentos administrativos, com as salvaguardas que estão em vigor sob o rigor da tutela coletiva do tema ambiental nos órgãos municipais, estaduais e federais?”

Mas, ao que parece, nem a prefeitura nem os empresários estão preocupados com as licenças ambientais e nem com a fiscalização do Ministério Público, apesar de já existir o inquérito civil questionando a obra. Não estão querendo saber se haverá ônus nem se fere os direitos da sociedade. Tudo o que importa é dar sequência ao empreendimento.

A Marina vai ser construída no metro quadrado mais caro da cidade, numa região que já bastante problemática quanto à mobilidade e à paisagem urbana e ambiental. Um lugar na baia que ainda serve de espaço de vida para as espécies e para os pescadores artesanais. 

Ainda segundo os argumentos do Movimento a baia é o espaço que apresenta o menor fluxo de renovação de águas, o  que já causa problemas de balneabilidade. Com a obra se somarão mais 123 mil metros quadrados de área para o parque urbano e 179 mil metros quadrados de espelho d’água privado, protegido por um quebra-mar e píer com capacidade de 650 vagas privadas (de 120 a 40 pés) e apenas 60 vagas públicas (de 40 a 30 pés) em meio à movimentação, ruídos e resíduos das 710 embarcações. Impossível não perceber o tremendo impacto que isso terá para a cidade.

Imaginem o que isso significará para a mobilidade e para a vida que viceja na baia? 

A prefeitura já determinou que a Marina só pode ser construída naquele espaço da Beira-Mar, e diz que isso não é negociável. Também aponta que só vai responder a questões de caráter ambientais, negando-se a pensar qualquer outra localização. Já deixou claro que não está disposta a discutir os impactos sociais, culturais, econômicos e ambientais, que, por conta das legislações vigentes, exigem alternativas locacionais mitigatórias frente a possíveis impactos e de perdas e danos irreparáveis, comprovados por pericias técnicas de EIV e EIA/RIMA.

Infelizmente o Tribunal de Contas deu sinal verde para que a licitação seguisse seu curso, ainda que não tenha ainda homologado e adjudicado o processo. Mas, a decisão já aponta que pouca coisa pode mudar. A prefeitura então já deu sequência a entrega dos envelopes e aos demais trâmites. Depois da abertura e julgamento das propostas deverá então encaminhar toda documentação para o TCE/SC, que vai avaliar se as irregularidades identificadas trarão ou não prejuízos ao certame, ao interesse público ou à sociedade. Caso se verifique o prejuízo, a licitação poderá ser anulada. Uma olhada no inquérito civil do Ministério Público mostra que as respostas dos órgãos ambientais já apontam para a liberação da obra.

O Ministério Público de Contas (MPC/SC) já se manifestou, via parecer, em três momentos no processo LCC 17/00419568. De acordo com a tramitação regular, o processo retorna ao MPC/SC (gabinete do Procurador-Geral Adjunto de Contas, Aderson Flores) após avaliação da área técnica do TCE/SC. Esse é o embate que acontece no âmbito jurídico, mas também há e haverá manifestações da sociedade organizada através dos movimentos populares. 

Nunca é de menos lembrar que estamos em um ano eleitoral e que a elite florianopolitana sem escrúpulos não medirá esforços para ter a sua marina, pouco se importando com os impactos que poderá causar às pessoas e ao ambiente. O prefeito Gean Loureiro é candidato à reeleição e quer marcar a gestão com grandes empreendimentos. Então, essa vai ser uma batalha das grandes. A mídia comercial, sempre do lado do empresariado, insiste em dourar o projeto como um ganho para a comunidade que poderá contar com um parque junto à Marina. Com isso, vão abortando a possibilidade do Parque das Três Pontas, pelo qual as comunidades lutam há anos, e que serviria ao turismo comunitário e aos pescadores. 

Com a Marina privada essa gente fica de fora. E o processo segue sem que a prefeitura escute o clamor popular pelos direitos constitucionais de controle e participação no processo decisório de empreendimentos potencialmente impactante. O movimento do Parque Cultural das Três Pontas lembra que isso já aconteceu quando da licitação e aprovação do Sistema Integrado do Transporte Coletivo de Florianópolis que, dois anos após a execução, dos nove terminais urbanos projetados e construídos, levou a desativação de três deles por inadequação frente à demanda, localização e a pretendida integração local regional. Um prejuízo para a cidade. Um prejuízo que até hoje os usuários do transporte pagam nas tarifas, via custos de execução e manutenção destes terminais. 

A população, como sempre, diz o documento “é vitimas das ações discricionárias e autoritárias do chefe do executivo municipal, e da inoperância dos órgãos de controle e fiscalização, como a Câmara de Vereadores e do próprio TCE-SC, que ainda não fez justiça e salvaguarda do direito e da economia popular, e nem puniu, com ato de improbidade administrativa, os responsáveis por tamanha negligencia”.

Os exemplos estão aí, só não vê quem não quer. Pagamos caro pelo transporte e pagaremos também para que os ricos da cidade tenham um espaço onde ancorar seus barcos. A marina não é um projeto para a cidade, é para poucos proprietários fruírem a vida. Para a maioria virá o custo e o terror da imobilidade urbana. 

Por isso é preciso que as pessoas conheçam a fundo o processo e entendam os impactos que virão. Depois de feita a obra não adiantará chorar. Olhando assim, é bonito. Mas a pergunta é: e serve a quem? 


sexta-feira, 31 de janeiro de 2020

Do que me emociona



Não sou muito fã de carnaval. Muita gente. Me dá zica. Mas, aqui em Florianópolis se tem uma coisa que me dá imensa alegria é ver o Berbigão do Boca, o bloco que abre o carnaval uma semana antes dos festejos. Muito menos o desfile pelas ruas, com aquela multidão, e muito mais os bonecos. Sou louca com os bonecos. principalmente aqueles que representam mesmo a vida popular do carnaval dessa terra. O Lagartixa, a Nega Tide, Zininho, Carlinhos da Tuba, Cascaes, Negão Tenente, Maestro Mendes. Eu gosto de ir ver a saída do bloco no Mercado, só para ver os bonecos. Aquilo me emociona demais. Ontem passei no mercado, depois de ir ver a ponte com meu amigo Maicon Cláudio Da Silva e lá estavam eles fazendo o chamariz. Jazinho o carnaval vem aí... e lá estará o Berbigão com seus bonecos gigantes arrastando a multidão. Coisa mais linda do mundo... Eu amo essa cidade...

quarta-feira, 29 de janeiro de 2020

O Papa Francisco



Eu tinha 17 anos, lembro como se fosse hoje. Era setembro. Meu irmão foi me avisar no colégio. Eu fazia contabilidade num colégio de Pirapora, cumprindo outro segundo grau só pra não ficar sem estudar. Chamou na porta da sala e eu já logo pensei que fosse desgraça. Afinal, ele ali, naquela hora, com a cara contrita. Chegou pra mim, falou baixinho: a mãe mandou avisar que o Papa morreu. O papa? Tá louco? Eu ri, pois já fazia mais de um mês da morte de Paulo VI. Vivíamos a alegria de ter na função o doce e querido Albino Luciani, aquele que viria para fazer da Igreja um espaço de belezas para os mais pobres. 

Eu cresci na religião católica, minha mãe era devota. E eu, desde pequena já andava nas funções da Igreja. Mais tarde, atuando também nas CEBs, quando ainda vivíamos a noite escura da ditadura cívico/militar. O Papa era figura presente, mas eu mesma nunca fora com a cara do Paulo VI, muito sisudo e conservador. Por isso que quando o Papa que o sucedeu foi aquele italianinho querido, eu me enchi de amores. João Paulo I tinha alguma coisa santa, o seu sorriso, seu jeito de pensar a igreja, sua maneira carinhosa. Haveria de ser um Papa para a maioria das gentes e não dos poderosos da terra. Eu era uma guria cheia de esperanças. 

Quando o meu irmão, ainda mais entristecido, me contou que quem tinha morrido agora era o Papa sorriso, eu desabei. Saí da aula correndo e fui pra casa chorar com minha mãe. Sentia que estávamos órfãos outra vez. Durara tão pouco tempo: trinta e três dias.  Mataram ele, eu dizia, mataram ele. E assim foi. Mataram ele. 

Depois daquela tristeza toda abandonei as coisas da igreja. A instituição não me interessava mais. Havia matado aquela doce criatura que queria mudar tudo. Nunca mais. Segui meu caminho, religiosa sempre,  ligada às CEBs, mas sem qualquer esperança de que a igreja deixasse de ser o que era. Pensei que jamais iria me encantar com um Papa, pois quem iria superar o sorridente e doce Albino?

Quando, agora,  depois da longa jornada do ultraconservador  João Paulo II, finalmente um latino-americano assumiu o lugar do chefe supremo da igreja, meu coração balançou. Um argentino,aaaah. E escolhera o nome de Francisco. Bah! Haveria de ser gente boa. Mas, em seguida, a enxurrada de denúncias sobre a atuação de Jorge Bergoglio na ditadura militar me fez largar pra lá a figura do Papa.

Com o passar do tempo o argentino foi fazendo sua caminhada no pontificado e, de novo, o Papa chamou minha atenção. Num mundo louco, no qual o conservadorismo e o reacionarismo cresciam a velocidade vertiginosa, Francisco se destacava, com seu riso contagiante, sua delicadeza, sua maneira nova de olhar e viver o cargo. E, em alguns momentos, as palavras de Francisco chegavam a soar como mais progressista que as da dita esquerda. Por dios! Era engraçado. E ele foi me ganhando.

Não voltei à igreja, mas gosto de acompanhar a caminhada do Papa Francisco. E, vendo o filme “Dois Papas” que mostra seus equívocos durante a ditadura argentina, sua autocrítica sincera, fui criando empatia. As pessoas erram. É assim. Não sei se as coisas foram mesmo assim, mas o fato é que gosto dele. Gosto do Papa. Sei que ele não vai virar o Vaticano ou a igreja “patas arriba”, não tenho ilusões com a instituição. Ele não é o comunista que os reaças católicos dizem que é, óbvio. Mas tem alguma coisa nele que me toca. Talvez o charme argentino, essa coisa atávica, esse jeito engraçado de dizer coisas sérias, esse compromisso com os perdidos. Pode não ser como eu sonhava, mas me cativa. 

Sei que isso não importa a ninguém, mas mesmo assim, senti que precisava verbalizar. Pela memória do amado Papa sorriso, ao qual amei com paixão. Francisco me faz lembrar ele. Só por isso já o quero bem. Imagino eu que a instituição igreja, que nunca dá ponto sem nó, tenha escolhido Francisco por isso mesmo, para ganhar fiéis, visto que o catolicismo perde gente. Mas, ainda assim, gosto do Francisco. Gosto mesmo. Até quando ele chuta o balde. 


O pai e as convenções



Escrevo sobre a doença do pai - demência, Alzheimer, caduquice, ninguém sabe ao certo - e procuro encontrar janelas de beleza. Sem romantizar. Porque a parada é dura. Dura mesmo. Mas, se o que não tem remédio remediado está, penso que é necessário driblar o desespero. E é o que faço colocando no papel as histórias dessa fase intensa com ele.

O pai não aceita colocar fralda. Ele ainda tem boa dose de autonomia e de vontade. Não quer e pronto. Faz escândalo. Então, há que deixar que ele se vire com suas necessidades. E cada dia é uma surpresa. Fazer cocô é complicado. Quando está bem, vai no vaso e segue os protocolos. Mas, quando não tá muito legal, o salseiro é grande. Eu fico na minha, deixo ele se resolver. Depois vou lá e limpo tudo, serenamente, cercada de óleos perfumados e luvas de borracha. Ainda brinco com ele que “as mãos amarelas” vão lhe pegar. Ele se diverte. Antes tinha um pouco de vergonha. Agora não tem mais. Não está nem aí. Fica mexendo nos “seus papéis” enquanto eu vou limpando.

Pois é, sujaram tudo aqui, eu digo. E ele, surpreso, responde com pergunta: sujaaaaaaaaram? Eu não fui.

Mas, se para o cocô ainda vai ao banheiro, para o xixi ele não escolhe lugar. Deu vontade, baixa as calças e vai mijando. Geralmente escolhe uma planta ou as pedrinhas do jardim e ainda faz mira. Se é de noite. Ele levanta da cama e ali mesmo, em pé, se alivia. Pode bater na parede, no guarda-roupa, foda-se. Ele mija mesmo. E eu, por perto, para a operação limpeza. Ele volta a dormir, bem tranquilo.

Agora, nos últimos dias, deu de levantar pelado. Cinco horas da manhã ele está na porta da cozinha, como veio ao mundo, sorrindo. Eu me comporto com naturalidade e vou, devagarinho, levando ele para o quarto.

- Bora botar uma roupinha, querido, que tá fresquinho.

E ele me segue, tranquilo, aceitando a roupa outra vez. Fosse no começo ele não me deixaria vê-lo nu. Tomar banho foi um calvário. Mas, agora, ele parece não estar nem aí com a nudez. Fico pensando que isso até que é bom. Para quem viveu tanto - vai fazer 88 - ter de passar quase um século seguindo regras morais e sociais, deve ser bem legal poder mandar tudo às favas.

Claro que pra mim o lance é pesado, a limpeza sextuplifica. Mas, sinto que pra ele é libertador. Então, enquanto posso, vou deixando. Nada paga o olharzinho sapeca de quem está muito bem com a vida. Seu Tavares não é fácil.

“Queremos estudar”: crianças das ocupações precisam de material escolar



Viver em Florianópolis é duro. Principalmente para as famílias de baixa renda. Os aluguéis são pela hora da morte, mesmo na periferia. A renda da terra exorbita o valor dos terrenos, muitos deles conseguidos de foram ilegal, como atesta o musculoso trabalho de Gert Schinke no livro “O golpe da reforma agrária: fraude bilionária na entrega de terras em Santa Catarina”´. Terrenos valorizados, casas e apartamentos também. 

E é por conta da impossibilidade de pagar os altos aluguéis que as famílias que nada têm se obrigam à luta pela moradia. Há que dar um lugar para os filhos viverem, e há que ter um lugar para descansar a cabeça. Por isso, o movimento dos sem-teto ocupa terras da União ou outras que não cumprem sua função social. Mas, as pessoas não querem terra ou casa de graça. Estão dispostos a pagar por elas, mas há que ser um preço justo e num lugar onde possam se mover e trabalhar. Só na capital existe um déficit de 20 mil moradias (mais de 75 mil pessoas) , a região metropolitana 40 mil ( 175 mil pessoas) e no estado inteiro são mais de 200 mil ( 750 mil pessoas). E o que isso significa na prática? Que essa gente toda não tem onde morar, não tem assegurado um direito básico. Não são números, são pessoas, com sonhos e esperanças de vida boa.

Na grande Florianópolis existem hoje várias ocupações, que se constituem nesse processo de luta por moradia. A Mestre Moa congrega 26 famílias, a Nova Esperança tem 300, a Beira Rio, 130 famílias, a Contestado, 150, a Fabiano de Cristo, 43, a Vila Esperança, 92, e a Marielle Franco, 134. São mais de 800 famílias só nas ocupações atuais, isso sem contar as mais antigas e consolidadas que seguem ainda na luta pela regularização. Nesse universo pulula a criançada, mais de 500 pequeninos e pequeninas, tão cedo jogados no campo da batalha por vida digna.  

Pois esses pequenos precisam estudar e além de todo o processo de resistência contra o despejo e pelo direito de ter uma casa onde morar, suas famílias precisam enfrentar o desafio de manter as crianças na escola. Não é fácil. Garantir vaga e principalmente garantir a permanência é outra peleia constante. Por isso, os movimentos organizados estão realizando uma campanha para arrecadar material escolar, visando dar as condições para que as crianças possam se manter estudando. 

Portanto, é hora da solidariedade concreta. O que é quase nada para alguns pode significar muito para outros. Faça sua doação em qualquer destes lugares até o dia 07 de fevereiro: 

SINTESPE - SINTRASEM - SINTRAFESC - SINTRAJUSC - SINJUSC - SINTUFSC - ARCO IRIS - UDESC/FAED PET Geografia - FECESC -  TENDA LULA LIVRE - Gab Ver. LINO - Gab Dep. PADRE PEDRO - SEEB BANCARIOS - SINTE Floripa - SINDSAUDE - BAIACU DE ALGUEM – RÁDIO CAMPECHE - ELETROSUL/SINERGIA – SINERGIA

Veja aqui a lista de material

Caderno Peq 1 Matéria
Caderno Gd 10 Matérias
Caderno de Desenho Gd
Caderno de Desenho Pq
Bloco A4 Pautado
Folha A4 Branca 100fls
Folha A4 Colorida 100fls
Estojo Escolar
Lápis Preto
Cx Lápis Colorido
Cx Lápis de Cera
Caneta Azul 
Pincel Pq
Pincel Gd
Tinta Guache
Régua de 30cm
Apontador
Borracha 
Cola Bastão
Cola Branca Tubo pq
Tesoura Sem Ponta
Fita Adesiva Transparente
Garrafa pra Agua
Copo Plástico Reciclável
Dicionário Pq de Português
Dicionário Pq de Ingles Português
Mochila Sacola ou Bolsa Escolar
Amor, Carinho e Solidariedade

A campanha é coordenada por: MNLM - Mov Nac de Luta por Moradia, Coletivo Ocupacoes Urbanas Gd. Floripa, IGENTES - Instituto Gentes de Direito

sábado, 25 de janeiro de 2020

Os indígenas e os trabalhadores


Nos fundões do Brasil os jagunços armados invadem aldeias, matam índios e intimidam famílias. São “trabalhadores” da morte, a soldo dos fazendeiros ou mineradores ricos que provavelmente nunca sequer pisarão nas terras que querem tomar. Os jagunços estão ousados, sabem que a polícia, que deveria proteger as pessoas, também tem a mesma intenção que eles: servir aos poderosos. E que dentro da corporação vão encontrar pessoas que, como eles, consideram aqueles índios uma gente suja e inútil, praticamente não-humanos. Provavelmente também devem ter ouvido o presidente da nação dizer algo assim. Então, estão seguros, protegidos. E sorriem quando matam um jovem guerreiro. Poderiam até pendurar a sua cabeça, como um troféu. Não o fazem porque ainda não podem. Quem sabe daqui a pouco.

Nas cidades, uma gente amargurada vê na televisão sobre as mortes. Poucos sofrem ou se indignam. Pensam igual aos jagunços e aos policiais. Os índios não são humanos. São índios, alguma coisa entre o bicho e nojo. Melhor que morram, imaginam. Assim, deixam de incomodar quem quer produzir. Essa é, afinal, a mensagem que recebem dia e noite, por todos os canais de comunicação. Assim aprenderam na escola, onde o índio sempre foi só um tema do passado, dos tempos de Cabral. Hoje não há que ter índios, pensam, deviam se incorporar aos “brasileiros”, os tempos são outros. Para que querem tanta terra? É o que se perguntam, repetindo pergunta alheia, sem entender muito bem os fatos e sem ter informação alguma sobre o território originário, hoje apenas 12% do torrão nacional.

E assim vai seguindo o bonde do terror sobre os povos indígenas, tanto nos grotões como nos salões. Só em 2019 foram sete indígenas assassinados. Todos em conflitos por terra. Há quem diga: Mas, só sete? Sim. Sete. Sete universos contidos num corpo. Seres com sonhos, com esperanças, com família. Isso sem falar nas sequelas de outras tantas violências como perseguições, ameaças, surras, violações, torturas. Também não contabilizamos aqui os suicídios de indígenas que acabam não suportando mais existir de um jeito que não é o que lhes cabe viver. Nos últimos 10 anos, 500 tiraram a própria vida, a maioria gente muito jovem, meninos e meninas sem saída no mundo do capital. 500 almas, 500 universos contidos num corpo.

Mas, entre tantas desgraças acumuladas sobre os trabalhadores, quem realmente se importa? Cada um trata de lamber suas próprias feridas. E o índio segue sendo alguma coisa distante, um bicho sem alma. O verniz da “democracia racial” está totalmente descascado e os monstros se mostram às claras, sem medo de punição ou vexação pública. Sentem que estão entre iguais. A face perversa do colonizador/explorador assoma no Brasil atual, sem pejo. O que antes se escondia, agora se desvela.

Uma olhada mais profunda sobre a questão indígena no Brasil e já se pode perceber que muito pouca coisa mudou desde a nefasta chegada dos portugueses ao porto seguro da Bahia. Os povos originários com suas vidas comunitárias, sua cultura panteísta, seu respeito à natureza não serviam para a lógica de exploração que vinha se implantar, e não servem hoje para o capital. Eles são seres inúteis para a produção capitalista porque não produzem mercadorias, nem querem produzir. Em vez de ficar 15 horas dentro de uma fábrica produzindo riqueza para um patrão eles preferem ficar tomando banho de rio. Isso é um insulto à lógica do capital. E passa a ser um insulto também para boa parte da massa trabalhadora que olha para eles com ódio, rancor e inveja. O capital acirra a guerra intra/classe, afinal, tanto os trabalhadores quanto os índios são vítimas do sistema de exploração que rege a vida do planeta. Melhor que se odeiem, assim não se unem para acabar com a farra dos ricos.

E assim segue o baile.

Mas haverá de chegar o dia no qual os trabalhadores empobrecidos perceberão que estão no mesmo andar que os indígenas no navio da vida, e que querem a mesma coisa: vida boa, bonita, farta, com trabalho coletivo e banho de rio. E quando esse dia chegar não haverá mais jagunço e os poderosos serão varridos.

Sei que posso pouco, mas no que posso estou com meus irmãos originários. Somos um. Espero que os demais que me leem, possam também compreender.


quinta-feira, 23 de janeiro de 2020

Novo ataque à UFSC - Entenda o caso



A Corregedoria-Geral da União publicou uma portaria na qual pune o reitor da UFSC, Ubaldo Balthazar, com suspensão do cargo, e ainda aplica uma advertência à vice-reitora Alacoque Lorenzini Erdman e ao Diretor do CSE, Irineu Manoel de Souza. Segundo a portaria a punição diz respeito ao fato de o reitor ter nomeado Ronaldo Davi Viana Barbosa como Corregedor-Geral da UFSC, depois de discussão e aprovação no Conselho Universitário.

Para compreender esse episódio é necessário voltar a outro, que acabou causando, inclusive, a morte do reitor Luiz Carlos Cancellier, em dois de outubro de 2017, quando ele se atirou do sétimo andar do Centro de Compras Beira-Mar. Cancellier tinha sido denunciado por obstrução de justiça, justamente pelo então corregedor da UFSC, Rodolfo Hickel do Prado. A denúncia levou a uma operação policial na UFSC que prendeu o reitor e o submeteu a uma série de constrangimentos e humilhações, culminando com a decisão de afastá-lo da universidade. Cancellier se viu envolvido em um escândalo de desvio de 80 milhões de reais, conforme divulgava a mídia da época e que, depois, com o andar da carruagem caiu para 300 mil. Notícias enviesadas e mal apuradas levaram a manifestações bastante fortes da comunidade universitária contra Cancellier, a tal ponto de até no velório do reitor haver pessoas, aos gritos, desrespeitando sua memória.

Cancellier, que havia sonhado uma vida inteira com a reitoria, viu sua reputação ser destruída em poucos dias. Não podia falar com os colegas, não podia sequer entrar na UFSC. Seu gesto desesperado chocou a instituição que tinha sido muito lenta na defesa do reitor. Nos dias que sucederam a denúncia e a prisão, poucos se manifestaram em apoio e o nome de Cancellier ficou manchado como aquele que havia roubado os 80 milhões. Na verdade, a denúncia fora por obstrução e não por roubo. O que o corregedor alegava era que Cancellier sabia do uso indevido do dinheiro e não investigou o caso, apesar de ter sido alertado. Mas, para a mídia e para a opinião pública isso não estava claro. O reitor aparecia como um ladrão. Cancelier não suportou.

Os dias que se seguiram a morte de Cancellier foram pesados na UFSC. A investigação policial não apresentava qualquer prova sobre a suposta obstrução realizada por Cancellier e a instituição foi percebendo que todo o espetáculo montado durante a prisão tinha sido uma exagerada ação que beirava o desmando e o abuso.

Internamente, o corregedor-geral Rodolfo Prado passou a ser visto como o responsável pela morte do reitor, visto que partira dele a denúncia. Ele bancou a denúncia que fez e seguiu trabalhando normalmente, mas logo pediu afastamento por licença médica e depois mais 30 dias de férias. A reitoria decidiu por exonerá-lo do cargo em fevereiro de 2018, alegando a necessidade da manutenção da harmonia após o tumulto causado pela Operação Ouvidos Moucos. A UFSC ficaria então sem um corregedor-geral. Assim, depois da exoneração de Rodolfo, o reitor decidiu nomear Ronaldo Davi, que já era corregedor auxiliar, para assumir como corregedor-geral. A CGU foi consultada e declarou não haver nada desabonador contra ele. Por conta disso, quando encerrou o mandato tampão, Ronaldo foi reiterado como corregedor-geral, para novo mandato.

Nesse ínterim as disputas envolvendo o cargo seguiam se fazendo e Ronaldo chegou a ser denunciado em um Processo Administrativo Disciplinar (PAD), por não cumprimento de horário e retirada de documentos sem autorização quando ainda era corregedor auxiliar. Esse PAD foi aberto na CGU com alegações de que o clima era instável na UFSC por conta da operação que levara o reitor à morte. A reitoria da UFSC alega que não sabia desse PAD aberto em maio de 2018, quando Ronaldo já era o corregedor-geral, e só foi informada numa segunda nota técnica encaminhada em 2019, a qual solicitava que Ronaldo não fosse reconduzido como corregedor-geral.

Um parecer sobre as notas da CGU foi solicitado pelo Conselho Universitário e escolhido o relator: o diretor do CCJ, professor José Isaac Pilati, que coloca por terra as alegações da CGU considerando as notas técnicas equivocadas e sem sustentação jurídica. Assim expressa o documento: “com muita habilidade, o texto (no caso, da segunda nota técnica) inseriu ocorrência posterior, para vincular a nomeação perfeita a um processo administrativo disciplinar movido a poster/or/ contra ele, Ronaldo; a misturar as coisas de modo a extrair consequência jurídica estranha ao caso, ou seja, para pleitear a anulação ab ovo da nomeação válida e perfeita ao seu tempo”. E, com base na argumentação do relator, o Conselho decidiu por manter a decisão de nomeação de Ronaldo como corregedor-geral para mais um mandato de dois anos.

Ocorre que a CGU não aceitou a decisão do CUn e decidiu por afastar o corregedor nomeado das funções de técnico-administrativo por 60 dias, tentando impedi-lo também de entrar na UFSC . O reitor e o Conselho Universitário consideraram a decisão da CGU como um ataque à autonomia e decidiram mantê-lo no cargo. E foi isso que acabou gerando o Processo Administrativo contra o reitor e todos os que participaram na sessão do CUn, que agora culmina com essa punição.

Na época, a maioria dos conselheiros, ao ser notificada do PAD, que é uma investigação interna, decidiu entrar na Justiça contra a decisão, pois, afinal, tinham votado num parecer apresentado pelo relator do tema, um jurista, e que garantia ser completamente legal a indicação de Ronaldo. O processo se extinguiu, mas a CGU conseguiu desmembrá-lo e reabriu novo PAD contra aqueles que não haviam ingressado na justiça, no caso, os três agora punidos. Lendo os documentos, que estão disponíveis na plataforma Solar, parece claro que a UFSC tomou a decisão acertada, sem qualquer dolo para a instituição.

Na imprensa, como sempre, o caso aparece como uma coisa isolada e as pessoas envolvidas são apresentadas como criminosas. A verdade é que o tema tem suas implicações políticas e o pano de fundo é a luta pela autonomia da universidade, que está na Constituição, no artigo 207, mas que mesmo assim encontra dificuldades para ser reconhecida ou respaldada. É na verdade mais uma batalha na guerra deflagrada contra as instituições federais de educação. Por isso que dizer meias-verdades, ou não contextualizar a notícia, pode provocar ainda mais desinformação.

A imprensa segue sendo irresponsável.

O diretor do CSE, Irineu Manoel de Souza, que na época da abertura do PAD decidiu não entrar na Justiça, acabou penalizado justamente por ter confiado no processo interno. Ele afirma que o conselheiro tem por obrigação votar em qualquer processo, contra ou a favor, e seu voto é balizado pela decisão apresentada pelo relator. Na época, nada havia no parecer do relator que significasse irregularidade, daí o seu voto favorável. Agora, com essa punição, que considera injusta, ele deverá recorrer na justiça comum.

Nessa sexta-feira, o Conselho Universitário se reúne para discutir o tema.

quarta-feira, 22 de janeiro de 2020

Já fomos mais valentes na UFSC


Quando o horário especial de verão terminar centenas de trabalhadores da UFSC e milhares de estudantes terão suas vidas transformadas radicalmente, pois a reitoria decidiu voltar atrás em uma decisão que já levava mais de um ano e que fora promessa do ex-reitor Luís Carlos Cancellier: a extensão do horário de atendimento, com a universidade aberta das sete da manhã às 22 horas.  Essa medida permitia que os estudantes pudessem ter acesso aos serviços da universidade tanto no horário do almoço quanto de noite e também garantia os turnos de seis horas seguidas para os trabalhadores. 

A reivindicação por uma UFSC de portas abertas é antiga, pois justamente nos horários do meio dia e à noite é quando os estudantes têm mais tempo para realizar as atividades burocráticas que exigem os serviços da universidade. Só que sem o horário estendido os estudantes dão com a porta na cara. Para os trabalhadores também foi uma vitória importante, pois garantiu os turnos de seis horas, o que melhora o atendimento e também a qualidade de vida de quem trabalha. Não foi coisa fácil de ser conquistada, exigiu muita luta. E quando finalmente essa reivindicação teve acolhida junto a um reitor, foram igualmente necessárias muitas reuniões, estudos e trabalho para comprovar a possibilidade de realizar os turnos, bem como a sua eficácia. 

Todo esse trabalho foi feito e finalmente os setores da universidade começaram a atuar nos turnos de 12 horas seguidas ou mais, se considerarmos os Centros que têm aula à noite. Para os estudantes abriu-se um universo, visto que puderam ter mais tempo para realizar as tarefas, e para os trabalhadores, igualmente, pois conseguiram organizar a vida garantindo mais tempo para a família.

Ocorre que no final do ano passado, pressionado pela Procuradoria Geral da União, o reitor decidiu por suspender as portarias que garantiam a flexibilização do horário dos trabalhadores. O tema foi amplamente discutido pelos trabalhadores que apresentaram ao reitor os seus argumentos para que não houvesse retrocesso no atendimento. Segundo os trabalhadores a decisão representaria um profundo descontrole na vida pessoal de todos os que faziam o turno de seis horas, pois a vida já estava estruturada no novo horário: tais como horários de escola dos filhos, cuidado com os pais, etc... Também foi argumentado que diante de ataques tão violentos por parte do governo federal à universidade, era bastante perigoso ceder diante de uma ameaça. Falou-se da necessidade de chamar os procuradores e o Ministério Público para uma conversa na qual fosse possível mostrar a especificidade da universidade, que não é uma fábrica de salsichas.  Mas, nada comoveu o reitor Ubaldo Balthazar. Conforme confirmou em reunião aberta com os técnico-administrativos, ele não estava disposto a colocar o seu CPF em risco, afinal, uma ação do Ministério Público poderia até criminaliza-lo. 

Ao que parece, os tempos são duros. Não há quem queira enfrentar o estado e o judiciário policialesco que temos no momento. A saída tem sido ajoelhar-se, ceder. E mais, além de acabar com a ampliação do atendimento, a reitoria também vai atender a sugestão do Ministério Público e instalar o relógio-ponto. De novo, cede, sem que se leve em conta o tipo de trabalho realizado na universidade. O desejo do governo federal, de desqualificar os trabalhadores da educação, está sendo fielmente cumprido pela administração. 

Do lado dos técnico-administrativos, os sentimentos são dúbios. Há os que se colocam contra essas medidas por sua completa inadequação histórica. Avançou-se muito no processo de trabalho para que tudo se perca agora. E há os que sentem medo, muito medo. Estão acossados pela campanha sistemática realizada pelo governo federal contra os trabalhadores públicos e temem por seus empregos. A queda de braço com a reitoria ainda não conseguiu sair dos gabinetes e das reuniões.

Quando fevereiro chegar a vida retorna ao normal na universidade e é quando se poderá medir a força real dos trabalhadores, que voltam tendo de cumprir o novo horário. Por enquanto tudo é apatia e a instalação do ponto já está marcada para março quando também chegam os estudantes que voltarão a encontrar a universidade fechada nos horários que mais precisam. 

Tá tudo calmo por agora, mas nós já fomos mais valentes. 



terça-feira, 14 de janeiro de 2020

O pai e as lembranças


Quando eu era pequena, dizia-se “caduco” para os velhinhos que esqueciam coisas, e faziam algumas peraltices. Hoje colocaram nome de doença na simpática caduquice: Alzheimer, demência. Naqueles dias eu achava que as pessoas esqueciam só as coisas que lhes traziam alguma dor. Entendia aquilo como sabedoria. Os velhinhos voltavam a fazer coisas da meninice e isso só lhes trazia prazer. Vi muitos dos meus queridos envelhecerem: tios-avôs, tias-avós, avôs e avós. Alguns deles acompanhei bem de perto. Minha vó materna por exemplo era eu quem carregava para lá e para cá, do Rio Grande à Minas, até quase ao final da vida.

Hoje, com o pai, percebo isso também. Ele esquece o que já lhe doeu. Mas, lembra muito bem o que abre nele espaços de alegria.

Uma coisa que descobri, por acaso, é que ele lembra de falar espanhol. E penso que é porque isso evoca nele momentos de muito contentamento. Somos da fronteira, e o espanhol é praticamente língua-mãe. A vida toda ouvimos rádio, vimos televisão e passeamos pelas “calles” argentinas e uruguaias, portanto o “castelhano” nos é muito familiar.

Outro dia, quando o pai acordou emburrado, pensei em falar com ele em espanhol, acho até porque estava lendo alguns contos de Roa Bastos.

- Buenos dias, señor Tavares, que tal estás?
E ele abrindo um sorrisão.
- Muy bien, señorita, por aqui nos vamos muy bien.

Desde aí procuro falar com ele em espanhol, e ele sempre responde prontamente. Às vezes, quando me ajuda a secar a louça, encerra os trabalhos, pendurando o pano e dizendo pra mim: todo listo!

Quando saímos para o passeio diário, digo: Adelante, compañero. E ele responde: a la carga, señora.

Acho isso incrível, porque sem que eu precise perguntar se ele lembra de algo da vida na fronteira, essa vida assoma naturalmente, nesses pequenos flashes de lembranças. E eu quase volto a ser a guriazinha curiosa que ia com ele para Santo Tomé comprar balas Mumu. É uma maneira bonita de seguirmos conectados com nosso passado.

A la carga, nos vamos!


domingo, 12 de janeiro de 2020

A luta pela moradia é em toda Santa Catarina




A cidade de Florianópolis é muito mais do que a ponte ou as lindas praias que fervem no verão. Ela é também campo de batalha da luta de classes. Viver aqui é estar o tempo todo confrontado com esse espaço real, o qual poucos conseguem usufruir. Muitas são as lutas, tais como manter um emprego digno, ter saúde, educação, segurança.  Outra peleia cotidiana é pelo direito de morar.

Hoje, na grande Florianópolis resistem várias ocupações, com famílias garantindo na luta o espaço para morar. Quem conhece a história sabe que as terras no Brasil foram roubadas dos indígenas e usurpadas por famílias portuguesas. Depois, com o passar do tempo, muitas dessas terras passaram para a mão do Estado, que as repartiu com os “amigos”. O estudo do historiador Gert Schinke, por exemplo, mostra como muita gente boa “ganhou” terra do governo de Santa Catarina durante a ditadura militar e hoje se arvora de dona, sendo que tudo foi fruto de uma ilegalidade.

Por isso que ao discutir o direito de moradia sempre é necessário entender como é que uns poucos se apropriaram das terras, tornando a grande maioria das pessoas sem-teto e sem-terra. Assim, quando famílias sem recursos ocupam terras da união ou terras devolutas, nada mais estão fazendo do que garantir a justa distribuição dos espaços. Morar é um direito para todos e não só para alguns.

Na semana que passou, o movimento pela moradia que se re/organiza desde há três anos em Santa Catarina, e principalmente na grande Florianópolis, recebeu a visita das famílias da ocupação Jardim das Oliveiras, da cidade de Araquari. Nessa ocupação estão 600 pessoas, 200 famílias e 245 crianças, exigindo o respeito à Constituição que diz que a moradia digna é um direito. Essas famílias vivem há dez anos em terras da União e agora estão ameaçadas com despejo. A cidade de Araquari tem um dos maiores PIB per capita do estado, com arrecadação maior do que a de São José, mas o município não se decide por resolver o problema destas pessoas. Para piorar ainda tem o poder judiciário que está cada dia mais longe da justiça, e que decide pelo despejo.

No intuito de estadualizar o debate sobre o direito à moradia, famílias do Jardim das Oliveiras vieram mostrar sua luta na capital e confraternizar com as ocupações de Florianópolis, unindo forças e trocando experiências. Assim, reuniram-se com representantes das ocupações Marielle Franco e com os indígenas que batalham pela Casa de Passagem.

Foi um momento importante de aprendizagem, de encontro, de troca que culminou numa caminhada pela ponte Hercílio Luz, símbolo da capital.  
Na próxima terça-feira, dia 14, haverá um ato em Araquari, em frente à Prefeitura e na quinta-feira, dia 16, uma vigília noturna contra o despejo. No dia 17, sexta-feira, as famílias decidiram por montar resistência e contarão com o apoio de movimentos de todo o estado.