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terça-feira, 20 de dezembro de 2016

O Rio Grande, os trabalhadores e o capital

 Foto: Claudio Fachel

O que aconteceu ontem no Rio Grande do Sul é uma prévia do que virá em todos os estados da Federação. Deputados votando leis que retiram direitos, trabalhadores agredidos pelas polícias militares, governadores impassíveis e insensíveis às dores das gentes. O argumento para a barbárie contra os trabalhadores é o de que o estado está endividado e há que cortar na carne para equilibrar as contas. Só que esse cortar na carne, não se refere a qualquer carne. É a carne de quem produz a riqueza: o trabalhador. A carne de quem se apropria do lucro gerado por esse trabalho não sofrerá sequer um risquinho. Não bastasse isso, as pessoas que sofrem os ataques sequer sabem como a dívida foi contraída, em que bases e para onde foi o dinheiro.

Isso não é nenhuma novidade para quem estuda o modo de ser do capitalismo. Nesse sistema, que Mészáros considera “incontrolável”, o Estado existe justamente para proteger os meios de produção (que são de propriedade dos capitalistas) e a propriedade privada. Tudo é feito para garantir a expansão do capital e a maior extração do trabalho excedente. Logo, quando há uma crise mais profunda, como agora, cabe ao estado proteger as condições gerais da extração da mais valia do trabalho excedente. O que isso significa? Que novas normas e leis são criadas para garantir que a taxa de lucro dos capitalistas não caia. Logo, a outra face dessa verdade é o chicote no lombo dos trabalhadores. Assim, cortam-se direitos e diminui-se a intervenção do estado na vida das gentes, com cortes nos setores públicos.

O que acontece hoje no Rio Grande do Sul é a expressão do que já começou a acontecer em nível nacional com a aprovação da PEC 55. Nesse sistema, que Mészáros chama de “sistema metabólico do capital”, o tripé Capital x Trabalho x Estado é como uma entidade única de três cabeças, sendo que a cabeça Trabalho é a que vive sob a subordinação. E ela está sob o tacão da força porque, sem ela, as outras duas cabeças deixariam de existir. Ainda assim, mesmo dependendo da força dos trabalhadores para se fazer real, o capital não faz qualquer concessão. Diante e qualquer possibilidade de perder lucro, o sistema se reorganiza sem levar em conta, no mais mínimo, os interesses das pessoas. Todas as decisões são tomadas para manter rodando a roda viva da produção do lucro. É o “sistema” que precisa se manter. Danem-se os trabalhadores. Existem tantos no mundo que o capital pode permitir que muitos deles venham a perecer diante das medidas de austeridade tomadas.

Assim que não há qualquer eficácia em apelar para os “bons sentimentos” dos governantes. Eles não estão subordinados a qualquer compaixão. Sua subordinação é a um sistema que se configura incontrolável, exigindo sempre mais. Uma espécie de deus sanguinário. Quanto mais sangue se lhe é sacrificado, mais ele quer. Mészáros diz que o capital tem um controle sem sujeitos. E o que quer dizer com isso? Que não há no quadro de mando do sistema alguém que possa olhar para o sofrimento dos trabalhadores e se compadecer. Não. O sistema exige mais e mais e os seus supostos controladores – na verdade controlados pelo sistema - só o que podem fazer é aplicar receitas que permitam a insaciável expansão do capital.

Por isso que o governador Ivo Sartori pode ser visto dando risadas no aeroporto enquanto sua polícia desce o cacete nas gentes em frente à Assembleia Legislativa. Aquele que comanda o estado sabe que sua função ali será a de garantir o controle de qualquer rebelião que venha a ameaçar o perfeito rotacionar do sistema. Por isso ele está em paz. Não é comandado pela moral. Na cabeça dele, a função para a qual foi eleito está sendo cumprida à risca. Não enxerga pessoas. Vê pequenos cânceres que com sua ação rebelde querem pôr fim ao sistema metabólico do capital. O mesmo acontece com aqueles que, enquanto os trabalhadores apanhavam em frente ao Congresso nacional, se coqueteavam com champanhe e salgadinhos. O quadro que se desenrolava lá fora era só um borrão, tapado pela fumaça das bombas. A única visão possível era a dos policias, bem armados, protegendo a “bastilha”. E só.

Diante dessa constatação não cabe aos trabalhadores clamar por piedade ou misericórdia. O único que lhes cabe é a luta. A luta renhida. Mas não pode ser uma luta pontual, para resolver a questão da previdência ou a da dívida, como se solucionado esses pequenos pontos, a vida pudesse seguir seu curso em direção ao paraíso. Isso não vai acontecer. Ainda que o sistema – em temos de crescimento – possa conceder um ou outro ganho aos trabalhadores, seus hábitos alimentares não mudam. Segue se alimentando da mais valia dos trabalhadores. Não pode viver sem isso. É como o vampiro que diante da moça assustada, dá um suspiro de pena, mas imediatamente finca-lhe os dentes. Não pode existir se sentir compaixão.

Cabe, portanto, desmontar esse “sistema metabólico do capital”. Avançar para uma forma de organizar a sociedade na qual as aspirações legítimas das pessoas por vida plena, digna e de riquezas repartidas conforme as necessidades, sejam levas em consideração em vez dos imperativos fetichistas da ordem. Enquanto existir o modo capitalista de produção, essas aspirações não terão lugar. Logo, é tempo de decidir. Não que as lutas pontuais não devam ser travadas. Isso não só é justo como necessário. Mas, elas precisam avançar para a destruição desse sistema que nos suga todo o sangue e a alegria de viver.

Ninguém entre nós que tenha começado a trabalhar aos quatro, cinco anos, cortando cana, carregando pedra, amassando massa quer trabalhar até os 100 anos. Esses desejos só sentem aqueles que não produzem riquezas, os que se refestelam em salas acarpetadas com ar-condicionado. Aos trabalhadores o que lhes cabe é a rebelião, completa e total, na construção de outra forma de ditadura, que não essa que vivemos, do capital sobre as gentes, mas a dos trabalhadores sobre a burguesia parasita. Para, enfim, chegarmos a tão sonhada estação na qual não haverá mais estado. Só assim desmontaremos o tripé que sustenta a riqueza do 1% da humanidade que hoje comanda a vida dos 99% restantes, sugando-lhe todo o sangue.

Longo caminho, é fato. Mas que precisamos começar a trilhar. Ou isso, ou o eterno retorno da morte.  

 

domingo, 9 de agosto de 2015

Uma conversa de bar



Porto Alegre, noite de chuva e frio. Saí para um café e um pão com manteiga. Na lancheria (que é como os porto alegrenses chamam lanchonete) próxima à Farrapos encontrei guarida. Uma mulher atendendo e outra tomando cerveja, sozinha. Fiz o pedido e aguardei. As duas iniciaram um papo louco sobre ratos. "Porto Alegre está infestada de ratos. Estão por todo lugar. Aqui no centro mesmo, é um horror. E são enormes, parecem até uns coelhos", dissertava Denise, a atendente. A outra, de nome Bia, assentia fazendo cara de apavoramento.  "E o pior é que esses ratos aqui do centro sobem nos apartamento. Eles vão bem alto. Eu moro no quinto andar e um dia, ao entrar no banheiro, lá estava um em cima do vaso, olhando pra mim".

- Que horror. Fugiste?

- Capaz! Eu peguei a arma e atirei nele. Dei três tiros. Errei dois, mas um acertou. Ele escapuliu correndo porta afora, mas eu acho que morreu. Meu marido tem medo, sai disparado. Mas eu não, eu dou tiro mesmo. Se aparecer, leva bala.

A conversa ainda fluiu sobre ratos, como se dar tiros neles fosse algo comum, e depois foi desviando para as gentes.  "Eu tenho pena é dos moradores de rua. Os ratos andam sobre eles, estão por tudo. E tem o perigo de pegar aquela doença, a leptospirose. Eu cuido deles, dos moradores. O meu filho não gosta, diz que são tudo vagabundo. Eu nem ligo, ajudo mesmo", comentou Bia. "Outro dia eu dei uma bicicleta para um deles, o Wagner, que eu conheço faz tempo. A bicicleta era do meu filho, mas ele não usava há anos. Dei e pronto. Levei a maior bronca. O meu filho disse que ele ia vender pra comprar cachaça. Nos primeiros dias ele andou por aí com a bici, parecia um louco na rua. Eu até pensei que tinha dado a morte pra ele. Ia se matar daquele jeito. Mas, em três dia vendeu. Eu tive que vender, me disse. E eu aceitei. É a vida dele".

Denise ouviu a história e concordou com a amiga. Era preciso ter o coração bom quando o assunto era essa gente que ninguém gosta.

- É assim. Basta ser diferente. Aqui na lancheria as gurias tem medo de atender os haitianos, agora tu vê? Ela dizem que viram na televisão que eles estão todos doentes. E aí têm medo de pegar doença. Eu fico bem braba. Não admito discriminação. Se elas têm medo de pegar doença que lavem os pratos e os talheres com água quente. Água quente mata tudo que é bicho. Mas discriminar os haitianos na minha frente, ah, isso não. Eu faço questão de atender bem, coitados.

- Bem que tu faz. Eles só estão buscando uma vida melhor. Não tem nada a ver. São tudo seres humanos - insuflava Bia.

Vez ou outra elas me incluíam na conversa, olhando pra mim, esperando por uma reação. Ora eu ria, ora assentia, constrita. Ora comentava alguma coisa. E a noite avançava.

Naquela simples lancheria de Porto Alegre a solidariedade aparecia, concreta, na figura daquelas duas mulheres que, sem maiores discursos além de suas práticas cotidianas, mostravam que a vida pode ser melhor quando se respeita o outro como outro, diferente, mas real. No cuidado com os moradores de rua e os imigrantes elas tornavam aquele momento único. Uma trabalhadora e uma solitária mulher de classe média, parceria insólita, e uma passageira cliente, unidas no amor às gentes, numa chuvosa noite gaúcha. Às vezes, por nada, a vida assume contornos bonitos demais.

Naquele pedaço do centro porto alegrense, a  matadora de ratos e a salvadora de mendigos, seguiram sua conversa amorosa e doida, enquanto a chuva lavava a calçada, território livre dos roedores.  


sexta-feira, 22 de maio de 2015

Porto Alegre por meus olhos

























Como Marco Polo, no século XIII e Ítalo Calvino, no século XX, eu também tenho esse encantamento pelas cidades invisíveis, aquelas que a maioria não vê, mas que se apresentam, tão intensas diante dos nossos olhos. Gosto de andar pelas ruas, observando os cantos escondidos, os ângulos inauditos, as frestas da vida dos lugares, me assombrando com a beleza. Boca aberta, olhos perplexos, coração aos saltos.

Assim foi em Porto Alegre, capital dos gaúchos, dia desses. Cheguei cedinho, no raiar da manhã. As janelas ainda se guardavam, fechadas, escondendo as pessoas que possivelmente se arrumavam para o turbilhão. Nas calçadas, os corpos retorcidos dos sem-teto, buscando aquecimento nos papelões, ou em algum cobertor velho. Um ou outro cachorro passeava, feliz, nas ruas ainda sem tráfego. Uma cerração pesada tornava tudo branco, dando um ar de sonho. 

O mercado público reinava, imenso, inaugurando a algaravia do dia. A praça ia se enchendo, com o vai e vem apressado das gentes até o terminal de ônibus. Era uma visão de sonho. O mercado, a prefeitura, o bulevar. Quase uma Porto Alegre de outros tempos. 

Mais alguns passos e chegamos à Rua da Praia, estranho nome para um espaço que está razoavelmente longe do rio Guaíba. Mas, é que andando até o final indefectivelmente chegamos ao rio, que se descortina em profunda beleza. É uma rua que remonta minha primeira infância. Tinha 12 anos quando ali pisei pela primeira vez e, assim, na manhã despertando, parecia tão igual. As mesmas pedras do calçamento, o prédio da antiga CEEE, a empresa de Força e Luz, as galerias com suas lojinhas fulgurantes e estranhas. Logo à frente, a Praça da Alfândega, lugar das maravilhas, no qual os velhos hippies ainda sobrevivem, expondo e vendendo sua arte. Hoje dividem a calçada com bolivianos, peruanos, haitianos, gente que busca sobreviver, e tudo parece ser uma grande família. O chimarrão corre de mão e mão e um vai ajudando o outro a montar a barraca. Os que já se instalaram tocam algum instrumentos ou leem um livro. Há um cheiro bom de incenso no ar.

Na praça, Mario Quintana conversa com Drummond, poemices talvez, bem em frente ao imponente prédio do Clube do Comércio. Mais a frente, Osório, o general dos farrapos, montado em seu cavalo, crava os olhos no horizonte, no qual também assomam os velhos e magníficos prédios onde hoje estão um museu e um centro cultural. Assim, na bruma da manhã, tudo parece tão mágico e tão antigo. Quase posso ver Getúlio Vargas, passando devagar, com seu terno de linho branco e bengala. 

Dando a volta, indo outra vez para o mercado, paro para uma conversa com um velho amigo. Meu amado general Artigas, Dom José, o homem que caminhou com os livres da banda oriental. Ali está, com sua cara marcante, nariz adunco e olhos de eternidade. Toco sua fronte de bronze, e fico ali, sorrindo, enquanto os passantes me olham como se louca fosse.

A cerração se dissipa, a cidade vai ganhando seu ritmo de metrópole. Perde a aura. Somem os fantasmas do passado e assomam as gentes comuns, apressadas, teclando alucinadamente seus celulares. Não chegam a perceber as maravilhas que se apresentam todos os dias em diferentes facetas. 

Uma Porto Alegre vai sumindo, vem a cidade real, com as obras da Copa do Mundo ainda inacabadas causando transtornos e mau humor. Buzinas, olhares fulminantes, ou a indiferença de quem não tem poder. Nada mais há fazer. Sigo para um café. Sento em frente ao mercado e espero o garçom. Faço o pedido e sorrio, pois é só nessa incrível cidade que a gente pode comer um "farroupilha" com café com leite. Comer mesmo, pois farroupilha é o nome do sanduiche comum, com mortadela. Leva o nome da maior revolução desse estado, que o fez uma república em 1835, e também do guerreiro farrapo que é quem dá dignidade a essa briga de fazendeiros. Mastigo o farroupilha e fecho os olhos, ouvindo o tropel. 

Essa cidade me emociona.