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terça-feira, 27 de setembro de 2022

A tecnologia e o tele trabalho


Trabalhadores querem outras regras para o tele trabalho - Foto: Rubens Lopes

Como já bem pontuou o filósofo Álvaro Vieira Pinto a tecnologia sempre vem para ajudar o ser humano na sua relação com o trabalho. Desde o começo dos tempos quando o humano inventa é para ter mais qualidade de vida. Assim, a descoberta do fogo, da roda, do alfabeto, as máquinas e por aí. Daí que o debate sobre o tele trabalho na UFSC deve levar isso em consideração. A internet, os novos instrumentos de trabalho e tudo mais chegaram para melhorar a nossa vida. Isso, em tese. 

E por que dizemos assim, em tese? Porque se a tecnologia sempre vem para melhorar a vida, quem a domina e impõe seu uso pode mudar a ótica da coisa. Um exemplo claro é a internet. Quando chegou anunciou a democracia, a possibilidade de cada pessoa poder produzir sua informação, dizer sua palavra. O reino da liberdade. Mas, na prática, como funciona? Para ter a internet é preciso pagar e as grandes corporações são as que decidem como e o quê tu vais dizer. Quem nunca foi bloqueado no facebook? Quem tem liberdade de escolha? Quem pode dizer o que quer? Não é bem assim, né? Quem domina as redes não é a pessoa. São umas poucas pessoas que concentram as informações e dados. Ou seja, ela tem dono, e não és tu. Logo, não há democracia nem liberdade. É tudo uma ilusão. Segue a ditadura do capital.

A proposta do governo para o tele trabalho segue a lógica do capital. O professor Vitor Filgueiras, da UFBA, escreveu um livro mostrando o quanto as chamadas “novidades” do mundo do trabalho são as mesmas velhas armadilhas que superexploram trabalhadores e atuam para sua desagregação enquanto classe. Trabalhar remotamente pode ser bom para algumas pessoas, mas é preciso estar atento às regras impostas pelo governo para que isso aconteça. Pela norma aprovada ontem no Senado, a IN65, é o trabalhador quem deve ficar responsável pela sua estrutura de trabalho, ou seja, caminho seguro para o gasto e a precarização, assim como já funciona no Uber e com entregadores de comida. Há que cuidar do carro e da bicicleta e há que seguir as regras da empresa, mantendo-as como a empresa quer. O cara se acha empreendedor ou autônomo, mas, na verdade está atrelado às normas da empresa. Ela define e ele gasta.

No caso do tele trabalho proposto pelo governo a coisa vai por aí. E tem mais. O trabalhador terá de ser responsável pela segurança dos dados públicos. Ora, como dar segurança para os dados senão investindo em bons antivírus e coisa e tal? E esse investimento quem terá de fazer é o trabalhador e se os dados forem roubados, ele será responsabilizado. Pesado isso, heim? Sem contar o tanto de direitos que somem da relação e trabalho. Haverá metas a cumprir e índices de produtividade e quem vai definir isso é o chefe imediato. Ou seja, o cara não precisará bater ponto, mas deverá seguir uma proposta de produção. E o que é mesmo que os trabalhadores técnico-administrativos produzem? Temos uma longa luta contra essa lógica da fábrica de salsicha. Não é assim que banda toca. O trabalho na universidade e no serviço público não pode ser medido pelo número de e-mails respondidos ou atendimentos realizados. Isso não diz do trabalho feito pelo trabalhador da educação. Aceitar isso é dar tiro no pé.

O governo que aí está não pretende fazer com que a tecnologia facilite a vida do trabalhador. Pelo contrário. Quer preparar a cama e a mesa para os empresários da educação na medida em que o sonho dessa turma é privatizar a universidade precarizando o trabalho. Aceitar essa regra tal qual o governo criou é colocar tijolo nessa obra. 

Por isso que o sindicato dos trabalhadores da UFSC está discutindo uma outra legislação, que não penalize os trabalhadores, que de fato use a tecnologia a nosso favor, que não signifique perda de direitos, que não ajeite o campo para a privatização. Mas, há quem seja contra isso e peça a implantação já da IN65. Nada mais equivocado. Na sanha de resolver questões pessoais e urgentes, colega há que estão atropelando o debate. A regra do governo é ruim. Nós podemos melhorar isso. Mas, é preciso que estejamos juntos nessa luta. Dividir os trabalhadores é trabalho dos quinta coluna, dos que não se importam com os destinos da universidade e do serviço público. Olho vivo com isso pessoal. O tele trabalho pode ser bom, mas tem de ser dentro das nossas regras. 


segunda-feira, 23 de agosto de 2021

Farinha pouca, meu pirão primeiro


Esse é um ditado popular que infelizmente parece ser a regra no mundo humano. Aquilo que toca individualmente é o que acaba prevalecendo. O coletivo serve para bonitos discursos, mas a prática é o que determina aquilo que realmente somos e pensamos. Um dos exemplos disso é a vacina. Há os que, em nome de suas convicções individuais, preferem deixar o coletivo se explodir. Mesmo sabendo que a vacina terá mais eficácia quando mais gente estiver vacinada, há os que se negam, ainda que nos seus perfis de redes sociais façam emocionados discursos pela família, por deus, por gatinhos ou cachorros. 

Outro exemplo são as lutas sindicais, coletivas. Uma batalha travada por uma categoria precisa da adesão de todos, mesmo aqueles que não são tocados pelas decisões. Lembro-me das greves da UFSC quando os técnicos de nível superior decidiram criar uma associação própria porque entendiam que os ganhos vinham só para os de nível médio.  Estudados, sabiam muito bem que numa greve existem várias demandas e que os ganhos podem não chegar da mesma forma nem no mesmo tempo para todos. Houve greves que os TAEs de nível superior ganharam mais, e outras que os de nível médio ganharam mais. É assim. 

Também havia e há até hoje os que sequer fazem greve porque acreditam que estão muito bem, que o seu salário tá bom, que não sofrem assédio, que têm chefias camaradas etc... Então, se existe alguém que não está satisfeito, que lute sozinho. O bom e velho egoísmo funcionando a mil. Sempre tentamos trabalhar isso nos movimentos, observando que a luta coletiva é o que fortalece a categoria, e que as batalhas pontuais a gente vai travando ora aqui, ora ali. 

Agora mesmo a UFSC define um retorno ao trabalho presencial em setembro, apenas para os técnico-administrativos é claro, bem no meio de uma nova onda da Covid, com a variante Delta chegando para arrasar. A ideia, diz o documento da reitoria, é preparar os setores gradualmente para o retorno, ainda que diga que os setores precisam abrir das 08 às 18. Onde fica o gradual aí? E como trabalhar em salas que não têm a devida ventilação quando os prédios foram sendo feitos para o uso de ar-condicionado? Há tantas coisas que causam insegurança e até terror. 

Isso acontece com todos os trabalhadores? Não! Existem setores na UFSC que podem estar bem preparados para um retorno. Inclusive existem trabalhadores que nunca pararam de ir à universidade, presencialmente, para resolver problemas. Eu mesma fui várias vezes ao IELA ligar os equipamentos, fazer limpeza, fazer a manutenção nas máquinas fotográficas, filmadoras e em outras máquinas que não podem ficar tanto tempo paradas. Sabemos o quão difícil é conseguir a estrutura. Amamos a UFSC e temos muita clareza de que precisamos cuidar. E por que eu fui ao IELA? Porque lá estou sozinha. Não divido o espaço com ninguém e nunca permiti ar-condicionado no meu espaço, sempre de janelas abertas. Ora, essa é minha realidade, individual. 

O mesmo não acontece com uma parcela bastante grande da universidade. Boa parte dos trabalhadores labuta em salas coletivas, fechadas. Então, o compromisso ético de cada um de  nós deve ser com essa maioria. A luta coletiva precisa estar em primeiro lugar. Atualmente, os mais diversos setores da UFSC, com suas especificidades tão díspares, estão trabalhando na sua capacidade máxima. Cada pequeno setor segue dando respostas para a comunidade e para a instituição. Ninguém está parado. O trabalho da maioria está sendo feito remotamente, mas, possivelmente, muitos colegas já foram até a UFSC para resolver alguma coisa presencialmente. Porque é assim que são os trabalhadores comprometidos com a universidade.

Assim que um retorno presencial em massa não tem sentido algum nesse momento, muito menos na lógica confusa da administração que afirma ser um retorno gradual, mas exige setores abertos. Haveremos de retornar, é certo. Quando for seguro. E ainda não é. Por que então expor os trabalhadores a um risco desnecessário? Por conta das cobranças da imprensa pelega? Ora, desde quando a UFSC se rendeu à bocas-alugadas de plantão? O documento da reitoria diz que serão acompanhados os casos de infecção que possam surgir. Ora? O que é isso? Depois de os trabalhadores serem infectados, sem necessidade, o que a UFSC fará? Rezar? Chorar no enterro? Isso não tem qualquer cabimento. 

Cada trabalhador da universidade sabe do seu trabalho e a maioria sempre esteve e está comprometida com a qualidade do que faz, sabendo muito bem o que significa ser um trabalhador público. Sim, existem os ladinos, os preguiçosos, os egoístas. Mas, esses, são poucos, exceções. Não podem servir como base. 

O que deve nos orientar é a luta coletiva. Enquanto houver um único colega em risco, por conta de uma decisão irresponsável, temos de estar juntos, lutar juntos.  

Precisamos preparar a universidade para o retorno, é certo, mas isso não se dá assim, num ato administrativo, sem diálogo com os trabalhadores e sem a devida contrapartida estrutural. Esse retorno precisa ser articulado e discutido com as categorias que conformam a UFSC. Não estamos em Marte. Estamos aqui e temos muito a contribuir. 

Esperamos que a administração central não se esqueça de tudo que prometeu na campanha eleitoral. A democracia tem de ser participativa e, tal e qual a solidariedade, ser uma prática cotidiana e não um discurso vazio.



quinta-feira, 18 de fevereiro de 2021

Os fugitivos do capital


Fronteira do Brasil com o Peru - polícia peruana impede passagem dos que fogem do Brasil por medo da pandemia que está incontrolável

A cena de um grupo de haitianos/venezuelanos/brasileiros tentando cruzar a fronteira do Peru, desde o Acre, é de partir o coração. Dezenas deles, que não encontrando formas de sobreviver no Brasil, decidem partir para outro ponto do globo, sendo impedidos, barrados, escorraçados. Seu destino parece ser a fuga permanente. Os haitianos, maioria no grupo, saíram do Haiti, onde desde há décadas o império estadunidense estende seus tentáculos, seja nas ditaduras sanguinárias, seja nos golpes disfarçados - como a tal ajuda humanitária com os cascos azuis – seja em mais uma tentativa de perpetuação no poder, como é o caso agora do último presidente, Jovenel Moïse. O Haiti é uma ferida aberta de tormentos e dores. E por isso os jovens fogem de lá, buscando um espaço para viver em paz. Mas, ao que parece, por mais que se desloquem, não encontram guarida.  

Aqui na capital catarinense também podemos vê-los, nas suas correrias no centro da cidade, com enormes sacos nas costas, tentando vender produtos nas ruas, sempre acossados e humilhados  pelos fiscais da prefeitura. São rechaçados pelos comerciantes que não lhes dão emprego e também lhes impedem de sobreviver com as vendas informais. Podemos vê-los nas comunidades empobrecidas, sendo enganados, sofrendo agressões e até morrendo. É um sofrer sem fim. Poucos conseguem escapar deste destino. 

Migrantes pobres são sempre vistos como um atrapalho, como uma concorrência para os parcos empregos locais, como uma sujeira, um encosto. Se são negros, é pior. Porque aí se embute também o racismo estrutural típico das nossas sociedades escravagistas e dependentes. Os haitianos padecem, assim como padecem os migrantes dos mais diversos países da África, que atravessam oceanos fugindo das guerras, da miséria, da morte.  

Mas não são apenas os negros que vivem esse drama da fuga permanente. Na América Central, desde o ano de 2019, as famílias e principalmente os jovens, inauguraram uma nova forma de migrar. Não mais individualmente, enfrentando sozinhos os coyotes (personagens que cobram para atravessa-los na fronteira), mas em gigantescas colunas que chegam a juntar mais de quatro mil pessoas. Milhares de corpos em fuga, da violência explícita, da fome, de governos tiranos. Atravessam a pé os países do braço que divide as Américas, no rumo do sonhado paraíso, representado pelos Estados Unidos. E, como os haitianos e africanos de todas as nações, são barrados pela polícia, agredidos, mortos. Muitas mães perdem seus filhos, homens perdem esposas, pais se desencontram. Os que conseguem furar os bloqueios vão enfrentar lá dentro do pseudo-paraíso o racismo, a miséria, a violência, tudo igual.  

Olhando bem, vê-se que o capitalismo é mesmo um estado de guerra permanente, em alguns lugares com os tanques e as bombas, em outros com o manejo da economia e o roubo das riquezas autóctones. Tudo o que esse sistema de produção toca fica imediatamente sujo de sangue. Para que 1% da população mundial siga acumulando riqueza sem fim, a maioria precisa viver nesse estado de fuga perpétua, seja migrando para outros países, seja migrando dentro do próprio país. Vagar de um lado para outro em busca de trabalho é a sina. E toca sucumbir no forno da exploração. 

O Brasil sempre foi mais um espaço de chegada, mas com a ascensão do governo ultraconservador – com rasgos fascistas  - de Jair Bolsonaro começa a ser também um espaço de fuga. Os que têm condições de garantir a vida em outro país pegam suas trouxas e se mandam. Os que não têm, sonham com a migração. Não tem sido fácil viver nesse país/continente, onde o governo central aposta na morte, liberando armas para os ricos, abandonando os empobrecidos à própria sorte em plena pandemia e destruindo tudo o que é público, para que os trabalhadores fiquem à mercê do privado. É a hora do cidadão-cliente, figura criada pelo economista Bresser Pereira, do nada saudoso governo de Fernando Henrique Cardoso. Cidadão/cliente, aquele que para ter acesso ao que deveria ser um bem público - como água, luz, saúde, educação - tem de pagar caro, muito caro.  

Não bastasse isso, os brasileiros precisam enfrentar seus irmãos de até ontem, que hoje se juntam às hostes do nefasto e começam a construir a estrada que levará a uma inevitável guerra. Os anjos (eles) contra os demônios (nós). Só que não. Nem eles são anjos, nem nós os demônios. Mas o discurso formatado desde os grupos de uatizapi - alimentados por grandes empresas disparadoras - insuflam pautas fascistas que reforçam preconceitos e discriminações. Um recente decreto do presidente permite que os brasileiros possam ter em casa até seis armas, num claro incentivo a formação de um exército pronto para garantir novas atrocidades do governo. Óbvio que a massa trabalhadora não terá a opção de se armar também, pois sua prioridade será comer e não comprar armas, deixando assim esse “privilégio” para os mais abastados. Isso significa que num possível golpe ou confronto, mais uma vez os trabalhadores ficarão em desvantagem.   

O abandono dos empobrecidos no caso da pandemia já provoca fugas. Cidades em colapso, hospitais sem condições de prover atendimento, mortes desnecessárias. Moradores das fronteiras, por exemplo, procuram os países vizinhos para, pelo menos garantirem vacina, já que aqui o governo cria barreiras para que elas demorem e não cheguem. E, sendo pobres, são também rechaçados como acontece com os demais migrantes. É um quadro de horror.  

E assim, em todo o planeta, os trabalhadores se movem em desespero tentando manter a vida, enquanto que os que detêm o capital ficam cada dia mais ricos, criminosamente acumulando muito mais riqueza nesses tempos de terror.  

E ainda há quem tenha a cara de pau de dizer que o capitalismo é bom e que a ideia de comunismo precisa ser varrida do mundo. Pois para quem não sabe, no comunismo, as riquezas seriam comuns e repartidas conforme a necessidade. Um vislumbre desse mundo pode ser visto em Cuba, que ainda nem é comunista embora tente chegar lá. Agora, na pandemia, seu povo está protegido e é o único país do mundo – dos que não estão entre os mais ricos - que desenvolveu uma vacina própria. Lá, apesar da pobreza – causada por um criminoso bloqueio dos Estados Unidos – existe a melhor educação, a melhor saúde, moradia para todos, segurança e ninguém morre de fome. Sim, há quem queira fugir dali em busca do sonho do consumo insuflado pelo capitalismo. Mas, são poucos. Se olharem bem, verão que os fugitivos, na sua mais absoluta maioria, são fugitivos do capital.   

Logo, é contra ele que temos de travar longa e feroz batalha. 

domingo, 31 de janeiro de 2021

Sobre os trabalhadores, a Comcap e a cidade

 


Não faz muito tempo, durante a ditadura militar, que foi até 1984, lutar por direitos dava cadeia na certa. E dando cadeia podia dar em desaparecimento, tortura e morte. Era um tempo duro e muitas das batalhas tinham de se fazer clandestinamente. Depois, com a tal da democratização lenta e gradual, as lutas puderam acontecer à luz do dia. E foram tantas, e tão imensas, e tão massivas. As greves reuniam milhares de trabalhadores e nasciam as Centrais Sindicais para organizar e impulsionar os movimentos em nível nacional. Tempo de profusão, de levantes e grandes conquistas. O medo ficara para trás e os trabalhadores diziam a sua palavra. Quem tinha medo então eram os patrões, acossados com tanta mobilização.

Depois, com a conquista de direitos, as coisas foram se acomodando, a tal ponto de o sindicalismo virar uma espécie de repartição, na qual a vida acontecia em horário comercial. As grandes greves foram rareando, as movimentações passaram a ser pontuais e o que eram batalhas passaram a ser mesas de diálogos, notas de repúdio, passeatas pacíficas, marchas festivas. Do lado de lá da luta, os patrões observavam, agora já sem medo. De certa forma tinham vencido.

Agora, atravessamos uma longa tormenta ultraliberal. Os direitos foram se perdendo, os salários baixando, os empregos desaparecendo e em meio a tudo isso o que se vê é um mundo sindical bastante domesticado e apático. Atravessamos um ano de pandemia sem que se visse qualquer ação mais efetiva por parte das grandes centrais sindicais, dos grandes partidos ditos de esquerda, e poucas foram as entidades que ousaram sair de seu conforto para exigir direitos aos trabalhadores. Sim, aconteceram lutas, aqui e ali, muito localizadas. Nem mesmo com a ação da ceifadora, colhendo vidas sem parar houve levantes. Apenas os gritos prisioneiros das redes sociais, praticamente inúteis.

Hoje, um ano depois do início da pandemia temos mais desemprego, pequenos negócios fechados, trabalhadores perdendo os poucos direitos que ainda tinham e vem aí o anúncio de mais reformas para destruir o serviço público que ainda resta. Tudo em nome do lucro de uma parcela muito pequena da população. Na desgraça, essa gente ganhou muita grana e continua ganhando. Não há misericórdia para os trabalhadores. Ninguém se importa. Que sobreviveu, sobreviveu. É o cada um por si e deus por ninguém. E o mais dramático é que essa tendência para o matadouro se expressou de maneira avassaladora nas eleições municipais, com a vitória de pessoas vinculadas às políticas de morte e de destruição.

Em Florianópolis não foi diferente. A capital catarinense sempre pendeu para o conservadorismo e nos últimos anos não fugiu do script. Foi capaz de eleger Angela Amin, por dois mandatos, Dário Berger por dois mandatos, depois César Souza, e por fim Gean Loureiro, reeleito com larga vantagem ainda em primeiro turno. O Gean que já vinha entregando a cidade para as empreiteiras, para o cimento, para o turismo predador. O Gean que assedia trabalhadoras, que usa o gabinete como motel, que maquia a cidade com asfalto ruim, que não constrói uma casa popular sequer. O Gean que trata mal os professores e os demais trabalhadores públicos. O Gean que sonha em lotear cada pequeno pedaço da cidade para grandes condomínios de luxo, tornando a nossa linda paisagem e a natureza que nos abençoou espaços de especulação, completamente vedados aos moradores menos endinheirados.

Agora, em pleno janeiro, ele enviou à Câmara de Vereadores um projeto que fatia a Comcap, autarquia municipal de limpeza. Na prática, abre portas e janelas para a privatização. Em pouco tempo algum edital amigo será anunciado e alguma empresa amiga será vencedora para cuidar do lixo da capital. E todo o saber fazer de uma vida, de gerações de trabalhadores, se perderá. Pagaremos mais por um serviço ruim. O argumento é de que a empresa dá prejuízo e os trabalhadores tem muitos privilégios. Cabe perguntar: empresa pública é para dar lucro ou para atender com qualidade a cidade? Investir numa empresa pública não é gasto, é justamente investimento em vida boa para todos. Também cabe perguntar: em que planeta trabalhadores têm privilégios? Trabalhadores são seres que vendem sua força de trabalho por muito menos do que ela vale. Qual é o privilégio que poderiam ter os trabalhadores da Comcap, esses que começam seu dia na madrugada, recolhendo lixo alheio e limpando a cidade? Uma gratificação? Um bônus? O quê?

Certamente que os garis da capital não recebem auxílio moradia, nem auxílio terno, nem verba para gasolina de seus carros particulares, muito menos passagens aéreas para visitar parentes. Não. Se têm algumas diferenças em seus contracheques são conquistas garantidas em longas e dolorosas lutas. Porque os trabalhadores não recebem nunca nada de graça. Tudo precisa ser arrancado no braço.

Pois esses mesmos homens e mulheres que durante todo esse ano de medo e pandemia estiveram nas ruas mantendo a cidade limpa, como anônimos heróis, agora são esculachados como se fossem os responsáveis pela drenagem do dinheiro público que sangra das veias abertas dos contribuintes. Alto lá, senhores e senhoras! Se querem saber quem são os vilões procurem nas pastas da Justiça, em operações da polícia federal, nas investigações de corrupção, que apontam claramente os nomes de “respeitáveis” empresários,  vereadores da cidade e até mesmo o do senhor prefeito. Nomes esses que com bons advogados se safam e seguem fazendo a sangria. Então, quando o sangue encharca as vias, eles procuram rapidamente algum bode expiatório. Por vezes são os professores, ou os eco-chatos, os trabalhadores do executivo, e agora os trabalhadores da Comcap. Essas acusações bem urdidas servem para desviar o rastro de sangue que deixam nos seus passos.

Assim, camuflados pela mídia comercial entreguista e boca-alugada, esses nobres ladrões vão espalhando as mentiras e criando uma realidade paralela. Uma realidade fantástica na qual trabalhadores são monstros cheios de privilégios. Agora, por conta de greve, legítima e justa, o prefeito tem o apoio do judiciário - sempre célere quando é para julgar a favor dos graúdos - e já deu início a um processo que pode acabar com demissão por justa causa dos “monstros privilegiados que deixam a cidade suja”. A notícia é dada na mídia como se fosse a salvação da lavoura. E a plebe rude grita “oba, oba” e “Pau no cu dos trabalhadores privilegiados”, bem ao estilo do elegante presidente da nação.

Enquanto isso, nos piquetes, nas assembleias e nas passeatas, os trabalhadores tentam passar a verdade dos fatos, sem conseguir. Não se espantem se vier a prisão de lideranças, a destruição financeira do sindicato e a demissão de alguns trabalhadores para servir como modelo à massa. Esse é o modus operandi da chamada classe dominante.  Empunham o medo e tratam de sacrificar os corpos dos trabalhadores no altar do capital. Abrem suas entranhas e dizem: olhem aí as vísceras dos privilegiados. E as gentes ao redor olham, sem nada ver, mas fingindo ver.

A verdade sobre a Comcap é uma só: esta é uma empresa pública que presta um serviço de alta qualidade, com trabalhadores qualificados que conquistaram direitos ao longo dos anos, justamente por sua qualidade e por sua capacidade de luta. O quadro da Comcap é um quadro temido pelos dirigentes, porque os trabalhadores são organizados e conscientes do seu papel. Essa é uma gente perigosa para os que dominam, e por isso precisam ter a crista abaixada. Portanto, o que vimos agora é mesma velha luta entre aqueles que sugam a energia das pessoas para enriquecer sem esforço, e os que vendem sua força de trabalho por não terem como seus, os meios de produção. A luta de classe. Isso não é uma ciranda. É peleia dura e tem consequências. Ora a gente perde, ora a gente ganha.

Os trabalhadores esperam que a prefeitura apresente uma proposta nessa segunda-feira. Talvez essa proposta não venha e venham as demissões. Talvez a batalha seja perdida e a Comcap seja privatizada. Se isso acontecer os trabalhadores, com muita dor encontrarão novos caminhos. Mas, a cidade, essa não. Essa perde para sempre e com ela, todos nós.

Por isso que conhecer a verdade é importante. Para que a cidade possa se juntar à essa luta e não permitir a destruição da Comcap. O serviço público, com todas as suas mazelas, ainda é o que temos de melhor e é o que garante que tanto o milionário da beira-mar, quanto o morador da comunidade empobrecida que fica lá onde o judas perdeu as botas, tenham seu lixo recolhido. Pensem nisso antes de acreditar na histeria borra-botas dos colunistas da televisão e das redes sociais.

A verdade está lá fora. A verdade está na assembleia dos trabalhadores, no sindicato, na boleia e na traseira do caminhão do lixo.

Todo apoio aos trabalhadores e trabalhadoras da Comcap. A luta é sempre vitória. É justamente nessa hora que nos transformamos no corpo necessário, o corpo da classe trabalhadora, que é nossa mais legítima morada. A caminhada desse domingo reuniu mais de cinco mil pessoas. Assim, unidos, vencemos.



quarta-feira, 2 de dezembro de 2020

O tempo dos maus? Onde estás, felicidade...


A morte de um mendigo numa padaria em São Paulo - ao qual, antes, foi negada ajuda - e que, depois, teve seu corpo coberto por um plástico, enquanto a vida no entorno seguia sem atropelos provocou muitos comentários nas redes sociais sobre a falta de generosidade das pessoas. Há que falar sobre isso.  

Frequentemente ouvimos que estamos vivendo o pior dos mundos, que nunca houve gente tão ruim ou descabeçada. Não é verdade. Esse tipo de gente sempre existiu em todos os tempos. Cada tempo tem sua cota de maldade, de terror, de medo. Basta a gente pensar como seria, sendo pobre, trabalhador ou mulher, viver no século 16 ou 17, por exemplo, no Brasil? Ou na Idade Média, na Europa? Ou no Império Romano? Ou em Bagdá, no século III? Ou no Egito antigo? Ou na Mongólia? Ou na China imperial? 

Esse não é o pior dos tempos. É o nosso tempo. E nesse tempo, a tecnologia possível nos permite, inclusive, saber o que acontece em cada canto desse planeta. É o que torna os terrores ainda maiores, porque são mais visíveis. 

E assim como temos de analisar porque nos tempos passados foi possível tanta maldade humana, há que refletir porque hoje é assim. Maldade, indiferença, ódio. Não creio que haja uma explicação antropológica, mas sim uma explicação social. É o tipo de sociedade que existe que faz com essas pessoas possam se expressar e se manifestar. Quais as forças dominam a sociedade em cada época? Esse é o tema. 

Falando sobre o nosso tempo há que observar que o mundo capitalista alfabetiza os seres humanos, desde a tenra idade, para a competição, o individualismo, o egoísmo. Há que vencer o outro. Há que eliminar o outro. Há que disputar. Não se ensina solidariedade, cooperação, empatia. Isso é coisa de um grupo muito pequeno de pessoas que foge da caixa. A regra é olhar para o que está do nosso lado com absoluta indiferença sobre seu destino. Que se lasque. É por isso que a maioria não liga para um mendigo doente, um corpo no chão. Não há ali uma maldade intrínseca. Há um aprendizado social.   

Não sem razão que propostas sociais como o anarquismo e o comunismo são tão combatidas. Porque essas são formas de organizar a sociedade que escapam da lógica de dominação de uma minoria sobre a maioria. São propostas que, demarcadas suas diferenças, tem como elementos centrais a lógica da cooperação. Ou seja, não se compete, a proposta é atuar junto para que todos desfrutem da vida à larga. É justamente por isso que nesse tempo, de capitalismo tardio, a ideia de comunismo precisa ser demonizada. Imaginem as pessoas compreendendo o que seja isso? Imagina viver sem precisar destruir o outro? Viver sem ser explorado? Viver sem fome? Viver com acesso à terra, à moradia? Não. Isso impede a sociedade de avançar, dizem. É coisa do demônio.  

A ideologia obscurece a verdade. A mentira assume o status de verdade. E as pessoas, ensinadas desde o berço, acabam acreditando que se trabalharem muito poderão vencer na vida. E para isso, há que ir derrubando qualquer um que cruze o caminho. A sociedade do mérito, que é uma falácia.  

Então, antes de clamar aos céus sobre o tamanho da maldade no mundo, há que construir escolas de solidariedade, da prática do comum. Escolas não formais, é claro. Mas, escolas na vida, nos bairros, nas igrejas, nos partidos políticos, nos movimentos sociais. Há que alfabetizar para o bem-viver. Isso não brota do nada, muito menos da nossa vontade. É uma prática política. E que não pode ficar relegada a guetos, a ações pontuais. Precisa ser massiva e organizada. Precisa negar o capitalismo. Precisa ser uma força de destruição do que aí está. Não pode ser uma prática de convivência. É de destruição da forma social capitalista. Sem isso, seguiremos com nossas lágrimas. 

A felicidade é uma construção social e coletiva. A felicidade é o horizonte do comum. Não vai existir no capitalismo. Não vai. 


domingo, 15 de novembro de 2020

O sistema é bruto



No mundo capitalista o espaço reservado ao pobre é o da servidão. Quem aceita isso vai arrastando a miséria. Quem não aceita, toma porrada. Não há concessões. Passeatas, protestos, manifestações, tudo o que envolver reivindicação, trabalhador, gente pobre, é enfrentado na bala. A polícia não arrega. E nós, no Brasil, tivemos provas bem concretas nos últimos anos, quando as passeatas dos apoiadores do atraso – os riquinhos e a classe média - eram protegidas pela força bruta, e até fotos eram sacadas com os soldados, “amigos da paz”.  

Quando a noite cai, tudo o que acontece nas comunidades de periferia, nas favelas, nos bairros empobrecidos é bandidagem. E a polícia se compraz em entrar atirando. Aqui em Florianópolis, dia desses, mataram um menino de 12 anos. “O que um guri desses estava fazendo na rua a essa hora?”. Meia noite de uma noite quente. Deveria estar no teatro?  Ah, mas era uma comunidade pobre e nela, para a força, tudo que se move, de noite ou de dia, é bandido. E há que combater o tráfico. E quando a comunidade em luto se rebela em protesto, mais balas, mais porrada. Para que o medo siga grande e imobilize. 

Nos beach clubes de Jurerê, praia da elite, a droga rola solta. Mas, lá, não chega a força matando tudo que se move. Não. Lá estão os jovens brancos, sarados, criados a toddy, embriagando-se com champanhe, dando lucro aos bares da moda. Ali tudo é permitido: cocaína, heroína, boa-noite cinderela, estupro, o que for. Nada está fora da lei. Não há pé na porta, não há tiroteio, não há combate ao tráfico. Não. Traficante? Bandido? Esse tem cor e tem endereço certo. Não vou nem falar nos donos reais das drogas, né? Que certamente não são os gurizinhos da favela. Esses não têm aviões, nem salvo condutos presidenciais. Eles são apenas vendedores, um elo fraco da corrente.  

O sistema é bruto e existe para foder com a maioria. Uma pequena parcela dessa gente, luta. Outra parcela, bem grande, aceita a servidão, seja por medo, por desconhecimento, por puro cansaço. Parece que se mantiver a cabeça baixa e aceitar a migalha, poderá viver em paz. Mas, não. Isso é ilusão. Mesmo o que se ajoelha vai ser pego, mais hoje, mais amanhã. Pode estar na rua numa “hora imprópria”, pode ser confundido com alguém, pode ter a cor errada, no lugar errado. Pode estar com a roupa errada ou segurando um guarda-chuva. O sistema não poupa ninguém, se for da classe trabalhadora.  

Então, a única saída é enfrentar o bicho. Na porrada mesmo. No protesto, na manifestação, na batalha nas ruas. Porque quando muitos se juntam contra a minoria, acontecem coisas fabulosas, como a revolução russa ou a revolução cubana. O sistema tem um poderoso braço de propaganda, que engana, que mente, que esconde. Então, a parada é dura, dura mesmo. Mas, há que quebrar esse espelho de mentiras. E mudar as coisas. O sistema é bruto, mas podemos ser mais. O que ocorre é que não há escolhas. Quem luta pode morrer, mas quem não luta também. Então, qual vai ser? Que sejamos capazes do grito dos zapatistas. Já basta!  

Que viva o povo em luta! 

Que nossas noites tragam a primavera.

sexta-feira, 14 de agosto de 2020

Vereadores de Florianópolis aprovam aumento de contribuição da Previdência

 

Como a mídia comercial realiza uma sistemática campanha contra o serviço público, a população sempre tende a concordar que os trabalhadores públicos sejam vagabundos, incompetentes, etc...  E, como muitas vezes também se depara com uma estrutura carcomida, o que leva a um mau atendimento, acaba fortalecendo a opinião de que o serviço público é ruim por conta dos trabalhadores que são ruins. Mas, na verdade, o que realmente acontece é que o serviço público é ruim porque os governos não dão a ele a devida atenção e muito menos os recursos necessários para que sejam bons. E quando as coisas dão certo, no geral, é porque algum trabalhador teve de superar toda a estrutura para garantir o atendimento. É assim nas escolas, nos hospitais, nos espaços de atendimento burocrático. 

Agora mesmo, durante a pandemia, quem efetivamente está se desdobrando para garantir o atendimento às pessoas doente? Médicos, enfermeiros, atendentes, técnico de enfermagem, agentes de saúde. Muitos sendo infectados, e outros tantos morrendo. E quem são essas pessoas? Trabalhadores públicos. Ainda assim, se algo dá errado em qualquer espaço público, a tendência é sempre colocar a culpa no trabalhador e não naqueles que estão fazendo a administração do setor tais como prefeituras, estados e governo federal. O culpado do mau atendimento, do mau serviço sempre será o que está na ponta, o visto, o trabalhador. 

Essa é uma realidade que as entidades tais como sindicatos e federações ainda não conseguiram mudar. E mesmo que se façam campanhas recorrentes de valorização do serviço público e do trabalhador público, o peso do sistemático ataque aos trabalhadores parece ser bem mais eficaz. Quando uma Rede Globo faz uma reportagem de longos minutos mostrando como o trabalhador público onera o estado, ela não revela três coisas básicas: que os altos salários são uma minoria no setor, e que o número de trabalhadores na ponta dos serviços sequer é suficiente para um bom atendimento. Mas, quando a notícia termina, o que fica é: os trabalhadores públicos são um peso para ao estado. 

É por isso que quando os governos arrocham a vida dos trabalhadores públicos a maioria das pessoas vibra. Porque realmente acredita que os trabalhadores públicos são uma vergonha nacional. 

É também por isso que quando os governos decidem tirar direitos - conquistados em longa batalhas – ou privatizar a previdência ou aumentar contribuições, pouca gente se importa. Ocorre o contrário, há uma aprovação geral, porque afinal, se os trabalhadores públicos ganham tão bem, eles que paguem mais. Solidariedade de classe passa longe. Não existe. A lógica é: “se eu não tenho direito, que ninguém tenha”. 

Vivemos isso agora em Florianópolis quando os vereadores da cidade votaram, em uma sessão controversa e cheia de irregularidades, o que o sindicato dos trabalhadores está chamando de “confisco de salário”. Pois em plena pandemia, num momento em que a cidade vive um alerta vermelho, os nobres edis (que são também trabalhadores públicos, embora regidos por outras regras salariais), aprovaram o Projeto de Lei que reforma a previdência dos trabalhadores municipais aumentando em 3% a contribuição. Não houve debate com a comunidade, não foram apresentados os cálculos atuariais, nem sequer passou pela tramitação correta nas comissões. A proposta que partiu do prefeito Gean Loureiro foi votada sem que sequer as emendas apresentadas fossem apreciadas nas comissões. Tudo muito rápido, para evitar protestos. 

Na mídia, a notícia é dada como só uma notícia a mais, sem qualquer questionamento sobre as irregularidades, sobre a pressa ou sobre a falta de debates. Afinal, mais vale tirar 3% dos trabalhadores do que taxar fortunas ou discutir as verbas parlamentares. Ou seja, a partir de um alegado déficit – sem comprovação – na previdência, tira-se dos que mesmo têm. A questão que fica é: até quando a sociedade vai se manter cega diante da injustiça? Por que sempre são os trabalhadores os que que pagam a conta de um suposto déficit que, no geral, nunca é causado por eles?

Os vereadores que votaram a favor do confisco do salário dos trabalhadores – entre eles os da saúde, que hoje se arriscam por toda a população – foram: Beibe, Claudinei Marques, Dalmo Meneses, Dinho, Edinho Lemos, Erádio Gonçalves, Fábio Braga, Gabrielzinho, Gui Pereira, João Luiz da Silveira, Marcelo da Intendência, Maria da Graça, Miltinho, Renato da Farmácia e Roberto Katumi. 

Guarde esses nomes. Eles sempre estarão contra os trabalhadores, hoje, os públicos, amanhã, tu. 


segunda-feira, 6 de julho de 2020

A administração da UFSC e os trabalhadores

Promessas feitas por Cancellier foram esquecidas pela atual gestão

Quando Luiz Carlos Cancellier  venceu as eleições em 2015, para a reitoria da UFSC, levou com ele um número significativo de votos dos trabalhadores técnico-administrativos. Havia se comprometido, para o segundo turno, com as tão sonhadas 30 horas, que fariam a universidade ficar com as portar abertas desde manhã até a noite, sem fechar ao meio-dia. Eleito, precisou ser pressionado para levar adiante a proposta. Relutava, colocava entraves, mas ia caminhando.  Com sua trágica morte, em outubro de 2017, depois de uma espetaculosa ação da Polícia Federal, as demandas dos trabalhadores voltaram à estaca zero. No final daquele triste ano e no que se seguiu, a comunidade como um todo precisou se mobilizar para garantir que a universidade continuasse funcionando, até que viesse uma nova eleição.  As lutas particulares ficaram em segundo plano.

Em 2018, quando Ubaldo Balthazar enfrentou Irineu Manoel de Souza, os trabalhadores técnico-administrativos, em grande número, acreditaram que, por ser da equipe de Cancellier, Ubaldo honraria as promessas do reitor morto. Decidiram não colocar suas vidas nas mãos de Irineu, que já fora TAE e que já apontara com clareza meridiana suas propostas para a universidade, nas quais os TAEs teriam vez e voz. 

Com a chegada de Ubaldo Balthazar à administração central, os TAEs já tiveram de enfrentar de saída um longo processo de luta para garantir a permanência de uma trabalhadora que tinha sido reprovada no estágio probatório. Uma excrecência administrativa e uma clara perseguição. Não foi uma luta fácil, sempre barrada pela Pró-Reitoria de Gestão de Pessoas, que viria desde aí se mostrar, de maneira paradoxal, contrária a muitas demandas dos trabalhadores. 

Ao mesmo tempo em que a batalha por Juliane seguia dura, estava também colocada na mesa a proposta de controle de horário dos trabalhadores através do ponto eletrônico. Isso já tinha sido tentado em outras administrações, todas barradas. Os trabalhadores tinham construído uma proposta de controle social e com ela foram para a mesa de negociação, buscando esclarecer ao reitor que a universidade não era uma fábrica de salsichas e como uma instituição educacional não se prestava a um controle estrito como o do ponto. Mas, a conversa com a administração sempre foi difícil. Primeiro porque o reitor raramente se manifestou, sempre alegando que seguia o que mandava a Justiça, preferindo colocar a questão nas mãos da Pró-Reitoria de Gestão ou do chefe de gabinete, Áureo Moraes. 

Durante todo o processo que levou o Ministério Público indicar a implantação do ponto,  a reitoria se limitou a uma defesa formal sobre o tema, sem chamar os procuradores para uma conversa e sem propor uma ação mais agressiva no sentido de discutir a especificidade da universidade. Deixou que a questão corresse sem defender os trabalhadores, usando inclusive a ação como pretexto para acelerar o processo de controle. Estava mais do que claro para os trabalhadores que essa administração seguia a mesma linha de pensamento de praticamente todas (exceto a de Diomário de Queiróz) as que já passaram pela UFSC: a de tratar os TAEs como mão-de-obra desqualificada, sem qualquer ligação com o processo educacional. Para  maioria dos professores – e a administração parece se colocar aí – o TAE não desenvolve qualquer trabalho intelectual, podendo então ser controlado através do relógio. 

A administração finge desconhecer o trabalho dos TAEs que se faz nos espaços de ensino, de  pesquisa e de extensão, afinal, até mesmo os que tem como função abrir e fechar as portas estão envolvidos intelectualmente com seu fazer  e com a educação, porque sabem que se a porta não tiver aberta, o processo educacional não se realiza. Além do que, os que têm essa função não se limitam a ela, visto que esses trabalhadores também são responsáveis pela excelência dos espaços de aula e dos laboratórios, acumulando um conhecimento sobre os equipamentos e os processos que muito professor não tem. Isso é trabalho intelectual. 

O fato é que, passados três anos da administração de Ubaldo Balthazar, a gestão tem sido leonina com os trabalhadores TAEs. Praticamente nenhum avanço nas demandas internas, ainda que existam encontros e conversas amistosas que só revelam a omissão e o não-comprometimento com as promessas de campanha. O desmoronamento do já implantado processo das 30 horas foi central. Tudo foi cancelado sem levar em conta toda a estruturação da vida que já tinha sido modificada. Sem discussão e sem diálogo, os setores que já faziam 30 horas tiveram de desfazer os turnos e fechar os setores. 

Agora, em plena pandemia e todo o desconforto gerado pelo trabalho remoto, que tem esgotado e onerado os trabalhadores, a reitoria coloca como pão comido a implantação do malfadado ponto eletrônico. Nunca lutou junto com os trabalhadores, nunca se comprometeu, nunca sequer tentou compreender a proposta do controle social. Todo o debate sobre o tema sempre foi  marcado por uma postura anti-trabalhador  da pró-reitora Carla Búrigo – uma TAE – mostrando que o ponto nunca esteve em questão para essa administração, visto que nem o reitor, nem a Prodegesp esboçaram qualquer atitude diante das intervenções do Ministério Público e da Justiça.  A administração abriu mão da autonomia, não foi capaz de mostrar a verdadeira face do trabalho realizado na universidade e agora já dá como uma realidade sem volta a implantação do ponto eletrônico. Um ponto que será biométrico, com o uso de câmeras e catracas. Ou seja: O Ministério Público e a Justiça agem como se os trabalhadores da UFSC fossem um bando de irresponsáveis e relapsos, vagabundos em potencial, sempre dispostos a driblar o trabalho. E a administração aceita isso sem pestanejar. É o que pensa também? Acredita que os trabalhadores precisam desse tipo de controle bizarro e fora de propósito?

Claro, fora de propósito para nós que somos TAEs, porque para a administração e boa parte dos professores, é a coisa mais acertada a fazer: colocar um cabresto no trabalhador para voltar a exercer sobre ele o mesmo tipo de controle que havia quando não existia sequer concurso público: a velha moeda de troca para ganhar eleições. Aí, haverá chefes que afrouxarão, pedirão favores, tudo como antes na fazendinha Assis Brasil.

Assim que é hora de os trabalhadores compreenderem o tremendo erro que foi confiar nas promessas do grupo que trouxe Ubaldo para a reitoria. Porque foi um engano. Nem deu sequência às promessas feitas por Cancellier – e esse grupo venceu como defensor de seu legado – nem bancou as próprias promessas feitas. Para os TAEs essa administração não apontou nada de bom.  Pelo contrário.

É tempo de aprender a lição. 



segunda-feira, 27 de abril de 2020

Os trabalhadores da saúde


Nossa mente colonizada está bem acostumada à figura do herói. E ela vem associada aos tipos que, ou são deuses, ou recebem um superpoder por conta de alguma circunstância. Mas, o herói verdadeiro é aquele que sem nenhuma ligação divina ou poder adicional, enfrenta coisas muito maiores do que ele em nome de um bem comum. Por isso no nosso panteão de heróis temos figuras humanas falhas, fracas, contraditórias e tudo mais. Porque é o momento histórico que faz aparecer o herói. Ele pode ser uma criatura comum até que as condições históricas lhe cobrem um ato que sobrepassa suas forças, um ato de gratuidade, para além de qualquer recompensa. 

Têm aqueles que escolhem percorrer um caminho heroico. Entrar em uma batalha, ajudar numa tragédia, curar em meio à guerra. E têm os que são pegos no meio do furacão sem que lhes reste alternativa senão atuar em consequência. É o que estamos vendo agora, no campo do cuidado da saúde. De repente, em meio a uma pandemia, enfermeiras e enfermeiros, que até ontem eram seres invisíveis nos hospitais e centros de saúdem assumem o centro dos acontecimentos. Quem fica doente quer um médico, e é esse profissional que assume o foco da atenção. Mas, quem fica 20 ou 30 dias internado em um hospital sabe muito bem que é a enfermeira, os assistentes de enfermagem, o pessoal da cozinha e da limpeza os que vão  lhe dar o conforto, garantir o remédio na hora certa, a limpeza, o alimento, o cuidado.  

Diante da avassaladora crise do sistema de saúde causada pela infecção gerada pelo coronavírus, são esses profissionais os que assomam como anjos e heróis. 

Mas, uma olhada cuidadosa para toda essa gente mascarada que luta pela vida dos outros e já vamos perceber que eles fazem parte de uma classe muito específica: a dos trabalhadores. Não são filhos de deuses nem foram picados por uma aranha rara. São pessoas que amargaram anos de estudo, muitas vezes em condições ruins, e que para sobreviver precisam mais do que um emprego. No geral, a enfermeira trabalha em dois ou três lugares para poder juntar um valor considerado digno para manter uma família.  Ou se olharmos para os técnicos e o pessoal de apoio, vamos ver que cumprem oito horas diárias por um salário que mal cobre o mínimo. E esses, sequer têm a opção dos segundo emprego.

Lembro que durante anos, quando na direção do sindicato da UFSC, lutamos para garantir às seis horas como jornada da enfermagem. Entendíamos que esse é um trabalho duro, que exige muito, física e emocionalmente, e que as trabalhadoras precisavam de um período do dia para descansar e repor as energias. Por isso, causava estupor quando as companheiras vinham dizer que precisavam das seis horas para poder trabalhar em outro hospital, perfazendo assim 12 horas de trabalho diário. Ou seja, não era para descansar, mas para trabalhar mais, porque o salário é baixo e não vence pagar as contas. Algumas delas ainda faziam trabalhos extras de plantões. Um extenuante cotidiano, lidando, de quebra, com a morte e a dor. Já naqueles dias podíamos vislumbrar a jornada heroica dessa  gente que, ao final, é quase invisível como no geral são os trabalhadores de qualquer lugar. 

Agora, com a pandemia, as enfermeiras, enfermeiros, auxiliares técnicos e trabalhadores de apoio estão no centro da batalha. São para eles as lágrimas de agradecimento, os aplausos, a gratidão. Mas, o que estão fazendo é o que fazem todos os dias nos hospitais: garantindo que as vidas sejam cuidadas e salvas. E seguem fazendo isso nas mesmas condições. Sem os equipamentos de proteção adequados e sem salário digno. Provavelmente a maioria desses profissionais sai de um hospital para outro, como sempre, enfrentado pressão ao cubo. 

Assim que se agora eles e elas cumprem uma missão heroica em meio da pandemia, é preciso jamais esquecer que esse é o seu cotidiano. E que, quando tudo isso acabar, quando colocados diante de uma greve de trabalhadores da saúde, por exemplo, possamos lembrar o que esse pessoal representou nesses tempos duros. Ruben Alves dizia que a gente nunca percebe um órgão do corpo até que ele cause dor. E assim poderíamos pensar em outros aspectos da vida. Talvez, até ontem, muitos de nós não tivéssemos olhado para o fazer desses profissionais. Mas, agora, vimos. E não dá para “desver”. Esse povo que trabalha no setor da saúde está enfrentando com galhardia sua hora histórica. Que não seja esquecido. Nem agora, nem depois. 

quinta-feira, 2 de abril de 2020

A canalha ataca os trabalhadores


Diante da providencial crise “do coronavírus” aparece, no dia 24 de março, a proposta de Emenda Constitucional apresentada por um empresário, dublê de deputado federal, Ricardo Izar, do Partido Progressista (PP), que prevê redução de salários dos trabalhadores públicos em até 20% “enquanto durar o estado de calamidade pública. Diz ele, na sua justificativa, que os recursos serão todos usados em ação de combate a evolução do Covid-19. 

Para o empresário, é óbvio que o “sacrifício” precise vir dos trabalhadores. Afinal, sua categoria precisa seguir garantindo lucros. Já a elite brasileira, que segundo os últimos números chega a pouco mais de 200 famílias  e amealha mais de um trilhão de reais, é intocável. Nada de taxar a riqueza. Os trabalhadores que paguem a conta. 

Mas, a proposta de Izar ainda era insuficiente, e o governo decidiu dar uma “melhorada”, partindo do que aventara o Ministro da Economia Paulo Guedes, que já vinha ameaçando os trabalhadores com medidas dessa natureza bem antes do coronavírus. 

As informações sobre a nova PEC dão conta de que a redução dos salários deverá ser de 25% e não 20, como propunha o deputado do PP. E mais, em vez de durar só enquanto houver a “crise do coronavírus”, deve se estender até o fim de 2024. E os jornalistas boca-alugada festejam que a medida vai pegar “apenas” os que ganharem mais de três salários mínimos. Rodrigo Maia, presidente da Câmara já apelidou a PEC de “orçamento de Guerra”. Uma guerra na qual a bucha dos canhões serão os trabalhadores. 

Mas não é só isso. A PEC que deverá ser discutida na próxima semana no Congresso ainda prevê congelamento dos salários - já reduzidos  - até dezembro de 2022, alteração nos planos de salários que impliquem em aumento, e o congelamento das contratações. 

A canalha é insaciável.

Se isso passar, vai se somar a outras medidas que já atingem os trabalhadores da iniciativa privada os quais também poderão ter seus salários reduzidos. O governo diz que vai pagar até 80% deles e mais uma vez os jornalista boca-alugadas festejam como se fosse uma grande coisa. 

Assim que a tal “crise do coronavírus” servirá para, mais uma vez os representantes da classe dominante, que comandam o Congresso, tirarem o couro dos trabalhadores. 

Resta saber como será a organização dos trabalhadores nesse momento. As sessões poderão ser virtuais e muita gente está em casa. Não se vêem lideranças de esquerda ou sindicais tomando à frente nesse debate. Cada um está sozinho. 

O que é certo é que tirar o pão da boca dos trabalhadores provavelmente renderá bem menos do que taxar em apenas 1% os mais ricos do país. A escolha do governo é absolutamente esperada. Salvar os ricos e escalpelar os trabalhadores. Não há novidades. Esperamos que a novidade venha da luta. Porque se algo essa pandemia deixou bem á mostra foi a verdade que muitos ainda não conseguiam ver: só os trabalhadores geram riqueza. Sem eles, não há economia e não há vida.


quarta-feira, 25 de março de 2020

Os inúteis, que morram


O presidente do Brasil não tem qualquer doença mental, como alguns alegam. Não. Ele simplesmente é um competente feitor do capital. E o que é um feitor? É o que guarda, como um cão feroz, uma riqueza que não é sua, que é dos patrões. No seu pronunciamento à nação fez o que qualquer capacho faria: tomou partido do mercado, do capital, conclamando os trabalhadores a saírem da quarentena, e seguirem vendendo sua força de trabalho a despeito de perderem a saúde, quiçá a vida. Segundo ele, vão morrer aí “uns sete mil”, mas isso não tem importância. Porque os que vão morrer são os velhos e os que têm alguma doença grave. Os “atletas”, como ele, pegarão apenas uma gripezinha e pronto. Já está. Que morram os inúteis para o capital. Não importa o tanto de vida e valor que eles já tenham criado ao longo de suas vidas laborais.

Os velhos, até ontem, eram a principal preocupação dos governos. Os governantes até realizaram uma série de reforma no sistema de Previdência porque, segundo eles, os velhos estavam onerando o tesouro, visto que viviam muito depois da aposentadoria e o estado precisava bancar essa gente inútil por anos a fio. Em diversos países a reforma se fez, inclusive no Brasil, justamente para tentar conter o gasto com os novos aposentados. Aumentar a idade mínima, aumentar o tempo de serviço, enfim, fazer com que a acumulação capitalista pudesse se estender para o próprio corpo. Usando a medicina para prolongar a vida, mas ao mesmo tempo fazendo com que o corpo fosse até mais lá na frente servindo ao deus mercado. Trabalhar até o esgotamento, até os 80, 90 anos.

A reforma da Previdência passou no Brasil sem maiores gritarias por parte das centrais sindicais. Alguns sindicatos mais aguerridos tentaram lutar, mas estavam sozinhos. No dia da votação tudo passou tranquilamente. E os mesmos deputados que agora criticam a fala do presidente votaram sim à reforma sem nem ruborizar. Estavam igualmente condenando os velhos, tal e qual o mandatário hoje. Para eles, era absurdo que o estado pudesse continuar dispendendo dinheiro para os velhos viverem a vida depois de mais de 40 anos de trabalho.

Agora, das profundezas de algum lugar não sabido, surge o coronavírus, provocando uma doença que é mais letal justamente aos velhos e aos debilitados. Um vírus providencial. Acabar com essa penca de “inúteis” pode ser uma grande pedida. Imaginem quantas aposentadorias deixarão de ser pagas? É perfeito. Então, governantes como o nosso observam isso e chegam a clara conclusão: que as coisas sigam seu curso. Que os velhos e debilitados morram e deixem de onerar o estado.

Diz ele que basta isolar esse grupo de risco e tudo bem. Mas qualquer criança sabe que o isolamento seguro não existe. Não tem como acontecer na maioria das casas das famílias brasileiras. Eles não estarão protegidos de jeito nenhum. Vão pegar o vírus e morrer. Então, a proposta presidencial está ampara não na loucura, mas na racionalidade do capital. Ele não vê razão gastar dinheiro com essa gente inútil. Então, nada de quarentena, nada de hospitais, nada. Que morram, asfixiados na solidão.

Não há novidade alguma nisso. O sistema capitalista de produção nunca se preocupou com a saúde dos trabalhadores. Tanto que os explora até a exaustão. Sabe que tem um exército de reserva pronto para assumir quando um trabalhador tomba. E está tudo bem. Então, não há porque esperar que aqueles que dominam o mundo e os seus ferozes feitores se preocupem com a vida da gente. É por isso que a dengue, o zicavírus, a chicungunha, a malária, o sarampo, a tuberculose, o câncer, tudo isso nos mata todos os dias. Porque não importamos. E se o trabalhador produtivo, que ainda gera valor não importa muito, imagina os inúteis, os velhos e doentes, que não podem mais ser explorados pelo capital?

Por isso que nessa hora de angústia e de pandemia, na qual milhares morrerão, só há uma forma de resistir: lutar coletivamente, cuidar uns dos outros, acreditar na ciência e no que ela produziu de bom para a humanidade, apostar na abnegação dos trabalhadores da saúde – médicos, enfermeiros, e todas as categorias de suporte – manter a solidariedade de classe e derrubar todos aqueles que pretendem nos mandar para o corredor da morte.

Nos tempos da escravidão, quando os feitores eram senhores da vida e da morte, com seus cavalos e chicotes, homens e mulheres os enfrentavam e fugiam para os quilombos, a vida livre. É tempo de enfrentarmos os feitores do capital. Somos a maioria.


segunda-feira, 23 de março de 2020

O congresso será cúmplice?



O governo federal, em meio ao crescimento dos casos de coronavírus no país decidiu editar uma medida provisória com a qual permite aos patrões que suspendam o contrato de trabalho e o salários dos trabalhadores por quatro meses. Justamente os próximos quatro meses que serão os de maior curva do contágio da doença. A medida, perversa e cruel, é uma afronta a toda a população que nesse momento vive um momento de puro terror, com muitas famílias não tendo como garantir o isolamento. Ele disse no seu twiter que o governo - nesse período - dará uma "ajuda" ao trabalhador. Mas essa "ajuda" não será o mesmo valor do salário. 

A maioria dos países europeus, que atualmente estão vivendo o pico da doença suspendeu o pagamento das contas de luz, água, telefone e internet e ainda está concedendo bônus aos trabalhadores para que se mantenham em casa. Outros países da América Latina, como a Venezuela, que está desde 2015 sob ataque dos Estados Unidos, igualmente está definindo políticas de proteção dos salários para os trabalhadores fiquem em casa e permitam o melhor controle do coronavírus. Também decidiu  que o governo pagará os alugueis de quem é inquilino. 

Aqui no Brasil, além do presidente da nação incentivar as pessoas a descumprirem os avisos das autoridades médicas, agora baixa essa medida que é na prática, uma atitude autoritária para fazer com que os patrões – que sãos os mais ricos  - não percam seus lucros nem num momento como esse. O presidente vai na contramão da história, colocando a população brasileira em risco, seja pelo vírus, seja pelo desespero de não ter dinheiro para comprar comida. O resultado desse absurdo será a violência. 

É muito importante que a comunidade atenda as medidas de prevenção da doença divulgadas pelos profissionais da saúde. Eles é que estão realmente tentando proteger a população. 

Esperamos que a ação de movimentos, sindicatos e políticos sérios possam derrubar essa medida do governo e garantir aos trabalhadores as condições para atravessar esse momento difícil. Sabe-se que no Brasil existem 206 bilionários que, juntos acumulam uma fortuna de mais de um trilhão de reais , e que se o governo tirassem deles apenas 1% dos seus lucros, cerca de 116 bilhões de reais, já seria suficiente para o governo enfrentar esse crise. Mas, Jair Bolsonaro prefere salvar os lucros dos ricos em vez da vida dos trabalhadores. 

Por enquanto, fiquemos em casa. É hora de protegermos nossa família, nossa comunidade e também àqueles que não têm como ficar na quarentena e estão na rua mantendo o país funcionando. É tempo de solidariedade real.  


segunda-feira, 18 de novembro de 2019

Morremos sempre, mas levantamos



Quem estuda história sabe. Desde os tempos mais remotos, quando o ser humano decidiu dividir-se em classes, há os que dominam em nome de suas demandas particulares e os que são dominados, geralmente conformando a maioria. Nem sempre foi assim, certo? Houve uma infinidade de povos que existiu em sociedades livres, comunitárias, de mando compartilhado, cooperativo, nas quais as demandas de todos eram levadas em conta. E até hoje podemos encontrar entre algumas nacionalidades originárias essa forma de ser e estar no mundo, ainda que ilhadas pelo capitalismo. 

Dominar em nome de interesses particulares não é coisa fácil. Há que ter todo um trabalho cultural, ideológico, de disseminação de mentiras, que de tantas vezes ditas, se fazem verdades. É preciso fazer a maioria das pessoas acreditar que os interesses de uns poucos são os interesses de todos. E há que ter as forças da repressão para empurrar, pela força bruta, as mentiras feitas verdades àqueles que não foram enganados. É assim que ao longo da história humana as coisas aconteceram e seguem acontecendo. 

Nesse processo, sempre que os dominados se levantam em luta contra todas as dores que lhe são impostas, a saída encontrada pelos que dominam em interesse próprio é o extermínio de quem luta, para que não apareçam como laranjas podres a contaminar toda a gente com a verdade que se impõe. Então, começam as campanhas de mentiras e difamações contra os rebelados: “bandidos, subversivos, comunistas, loucos, desagregadores da boa ordem, insatisfeitos, baderneiros, etc...”. E se isso não basta para que uma massa significativa sirva de anteparo à rebelião, chegando ao ponto de matar seus vizinhos, parentes e amigos, acreditando piamente que os rebelados são “do mal, do demo, do capeta”, então vêm as forças da repressão: tiro, porrada e bomba. 

Essa é uma receita que se repete, e se repete, e se repete. 

Mas, se é assim, porque então as pessoas se levantam em luta? Ora, porque chega uma hora na qual a mentira já não mais se sustenta e as condições da vida material das pessoas ficam tão horríveis que não há mais saída. Os filhos não têm escolas, não têm saúde, não há segurança, a morte ronda pela miséria, pela fome, pela violência social. Como num átimo, as pessoas se dão conta de que os interesses defendidos pelos poderosos não lhes dizem respeito. 

Essa é a compreensão de boa parte do povo chileno, agora mesmo, em luta contra um estado que lhes tirou tudo. Eles observam e vêm que há uns poucos que juntam riquezas sem fim, enquanto a maioria empobrece sem parar. 

Essa é também a compreensão de grande parcela do povo boliviano, que tinha um governo que apresentava sensibilidade social, garantindo que pelo menos parte das riquezas do país fossem investidas no próprio país, servindo a toda gente. Por isso os bolivianos não aceitam o golpe. Sabem que os que estão a clamar por democracia em nome de deus serão bem piores, e que governarão para si e para garantir seus interesses particulares. 

Aos que não têm nem a máquina ideológica, nem as forças da repressão, resta juntar-se e, a partir daí, lutar. Quem decide enfrentar o horror sabe bem o que arrisca: nada menos do que a vida. Porque o poder não tem piedade, nem compaixão, nem clemência. É o que podemos ver no Chile, com os soldados do governo atirando para matar, ou, suprema crueldade, cegar. É o que vemos na Bolívia, com os mortos se acumulando. 

Morrem, fatalmente, morrem sempre os do lado da luta pelas demandas coletivas. Os que se atiram frente à repressão em nome de um mundo que possa ser bom e bonito para todos. E são esses mortos os que garantem as conquistas. É assim que é. E é por causa deles que o mundo avança. São os heróis dos trabalhadores, das mulheres, dos negros, dos índios, de toda a gente que começa a enxergar. Caem, estão mortos. Mas, desde a beirada de suas tumbas, se junta todo um povo, que se levanta e caminha. E é assim que os mortos levantam e caminham também. 

Hoje, no Chile, na Bolívia, no Equador, na Colômbia, nas ruas do Rio de Janeiro, nas veredas das terras indígenas do Brasil, no campo,  tombam os mortos das nossas fileiras. Nós os reverenciamos, os choramos, e os colocamos para andar. Que seja assim, sempre. 

Para os que ficam vivos, o poema de César Vallejo: Massa


Terminada a batalha,
E morto o combatente, veio até ele um homem
E lhe disse: “Não morras, te amo tanto”.
Mas o cadáver, ai! Seguiu morrendo.

Vieram mais dois e repetiram:
“Não nos deixe! Valor! Volte à vida!” 
Mas o cadáver, ai! Seguiu morrendo.

Acudiram a ele vinte, cem, mil, quinhentos mil
Clamando” “tanto amor e não poder nada contra a morte”!
Mas, o cadáver, ai! Seguiu morrendo.

Rodearam-no milhões de indivíduos
Com um pedido comum: “Fica aqui, irmão!”
Mas o cadáver, ai! Seguiu morrendo.

Então, todos os homens da terra o rodearam,
Os viu o cadáver triste, emocionado;
Incorporou-se lentamente
Abraçou o primeiro homem, pôs-se a andar.

quinta-feira, 14 de novembro de 2019

Ataque aos trabalhadores públicos



A proposta do ministro Paulo Guedes para o serviço público é a volta aos tempos dos coronéis. Ou seja: para ser um servidor público haverá de ter QI, o famoso “quem indica”. Todo o processo de luta que os trabalhadores travaram para garantir um serviço público livre das ingerências dos governantes de plantão irá para o ralo com a reforma que está em curso.

Segundo a proposta do ministro não haverá mais servidores públicos com estabilidade. E a estabilidade é justamente o único mecanismo que o Estado tem para não sucumbir aos humores dos governos. Ou seja, um trabalhar estável não pode ser demitido simplesmente porque o governo que está de plantão não gosta de sua cara ou de sua posição política. A estabilidade é uma garantia de que, independentemente de quem está no governo, o trabalho público segue visando apenas o bom atendimento à sociedade.

Pois a ideia do governo de Bolsonaro é colocar na máquina pública apenas os amigos e os amigos dos amigos. A estabilidade estará reservada apenas para um grupo muito seleto de trabalhadores como os auditores fiscais, diplomatas, policiais federais e fiscais do trabalho. Mas, mesmo esses terão de viver um período de “treinamento” de três anos, podendo ser demitidos se não houver vaga ou se não for bem avaliado. Caso passe por esse funil, que significa passar três anos fazendo as vontades das chefias para poder ser bem avaliado, o trabalhador ainda terá pela frente sete anos de estágio probatório, provavelmente o estágio mais longo já criado no universo. Assim, se a pessoa conseguir ficar 10 anos servindo aos seus chefes de maneira cordata e servil, sem meter-se com greves e reivindicações - aí sim terá o direito à estabilidade.
As demais carreiras não terão possibilidade de pleitear a estabilidade. Tudo ficará ao sabor do chefe de plantão. E, caso o governo decida, pode acontecer demissão. Também poderão ser contratados servidores temporários, ou seja, o trabalho precário e sem direitos.

Não bastasse isso quando o governo decidir que vive uma emergência fiscal, poderá passar a mão no salário dos trabalhadores, reduzindo-o em até 25%. Tirar dos ricos nem pensar, os empresários estão cada vez mais recebendo as benesses da desoneração de impostos. Vão tirar mesmos é dos trabalhadores.

Aí está. O plano “Mais Brasil” é na verdade um plano de “mais amigos meus mamando no estado”. Provavelmente só sobreviverão no serviço público os que fizerem a “aliança” pelo brazil e servirem ao senhor deus de Israel. Quando à sociedade? Que se dane!

E os trabalhadores? Esperarão a Justiça?


quinta-feira, 10 de outubro de 2019

Quem ataca a universidade e por quê?



Nos últimos dias, em Santa Catarina, temos lido alguns colunistas da imprensa comercial atacar de maneira violenta a universidade, os estudantes, os trabalhadores públicos. Isso não é novidade alguma. Sempre que, por algum motivo, os governos procuram destruir a universidade pública, logo assomam os cães de guarda, os puxa-sacos, os lambe-botas, os boca-alugadas, essa gente que só ocupa o lugar que têm nos jornais e emissoras de televisão justamente porque defendem a lógica do capital. Nada se pode esperar desses comentaristas a não ser justamente a defesa da classe dominante. É para isso que estão onde estão. 

A comunidade universitária, ao se ver atacada de forma brutal e praticamente sem espaço para expor seu pensamento, grita e tenta encontrar caminhos para dialogar com a sociedade, na tentativa de explicar os motivos pelo qual está em processo de luta. Mas, claro, os veículos de comunicação alternativos não têm o mesmo alcance que os meios comerciais e é sempre difícil vencer essa batalha de discursos. O que, talvez, precise ficar mais claro à comunidade, é que esse diálogo não pode ser tentado apenas nos momentos de crise. Ele precisa ser permanente. E não é. Quando tudo está bem, a universidade não se apresenta para a sociedade, fica restrita aos seus muros. E as pessoas lá fora não conseguem sentir a universidade presente no seu dia-a-dia, por isso também não se importam quando ela é atacada. Há um abismo aí. Reconhecer isso já seria um bom começo. 

Hoje, diante de mais uma tentativa de privatização da universidade e seu desmantelamento completo, há uma luta em curso. Os estudantes foram os primeiros a se levantar, premidos pela realidade concreta e material: o reitor anunciou que não haveria mais restaurante universitário nem seriam pagas as bolsas. Ora, isso significa o fim da linha para um número significativo de estudantes. Por isso eles se mobilizaram e decidiram entrar em greve. Muitos cursos pararam as aulas e vários atos começaram a acontecer. Isso, é claro, levantou a ira daqueles que defendem o capital e a proposta de privatização do ensino superior. Assim, na mídia, começaram a surgir os ataques, seja nas reportagens, ou através dos comentaristas. Os estudantes são apresentados como “baderneiros”, gente sem limite, sem ordem, vagabundos que não querem estudar. 

A verdade é bem outra. Os que decidiram parar, premidos pela notícia de que não teriam mais onde comer, nem como sustentar a permanência, tudo o que querem é estudar. É fato que diante da realidade, na qual as ameaças ainda não se cumpriram, a greve estudantil arrefeceu. Como o RU não fechou e as bolsas seguem caindo na conta, há propostas de levantamento da greve para o acúmulo de forças que serão necessário desatar nos próximos ataques. O movimento estudantil se debate nesse contexto. Os trabalhadores técnico-administrativos, também ameaçados pelo governo com vários projetos que implicam perda de direitos, decidiram esperar e não chamaram greve. Entendem que a tática governamental é de fazer bastante barulho e ameaças, e depois voltar atrás. Por isso, estão cautelosos. Vão fazendo trabalho interno, acumulando forças. Mas, sem os trabalhadores no movimento grevista, a greve estudantil perde força. Os professores, igualmente ameaçados pelo Projeto Future-se, também não aprovaram greve nesse momento. Como os TAEs, decidiram esperar que a realidade aponte nova tática.

Com apenas os estudantes em greve, os ataques externos ficam mais ferozes. Bater na juventude é mais fácil para os senhores sisudos, amantes da “ordem”. Então, a cada ação estudantil, como as protagonizadas na greve de 48 horas – com participação dos TAEs e professores  - quando fecharam os centros de ensino e as entradas da UFSC, são disparados os ataques virulentos pela mídia de massa. 

Como então, enfrentar esses borra-botas da imprensa vendida? Com informação e ação sistemática junto a população. Não há alternativa. Desde que o capitalismo nasceu com suas fábricas comedoras de gente que os trabalhadores vêm lutando para melhorar a vida. E o fazem com greves, com protestos, com atos. E no contexto do capitalismo, que nega saúde, educação, moradia e segurança a uma parcela muito grande da população, os que sofrem essa falta sabem que só a luta renhida muda as coisas. Não há caminhos fáceis, nem fórmulas mágicas. É luta! E, nesse embate sempre teremos os boca-alugadas do sistema contra nós. 

É fato de que o contexto universitário local hoje exige uma reflexão mais profunda por parte dos estudantes que estão parados. Até agora, estão em solidão. A greve estudantil não avançou nas demais universidades, a UNE não encampou nacionalmente e na maioria dos Centros de Ensino as aulas estão acontecendo. Talvez fosse momento de levantar a greve, rearticular as forças, preparar novas batalhas. 

Estamos vivendo bem agora, um levante nacional no Equador, país vizinho. Os povos indígenas, que tradicionalmente atuam coletivamente nas grandes lutas, estão parando o país. E, entre eles, circula uma máxima, que é a que dá concretude à força que têm: “si falta la gente, se levanta el paro”. Isso significa que se a maioria não assume a luta, a greve termina. É uma decisão difícil, mas necessária. Uma luta coletiva exige mobilização e engajamento, não pode ser o sacrifício de alguns sem o comprometimento da maioria. É tempo de aprender.

No cenário nacional, as coisas seguem acontecendo. No congresso avançam as pautas anti-populares, o projeto Future-se segue sendo construído pelo governo. Há muita coisa ruim sendo preparada não apenas contra a universidade, mas contra os trabalhadores. Por isso a necessidade de uma reflexão profunda e da construção de formas de luta capazes de efetivamente mobilizar as gentes e realizar o combate. 

Quanto aos detratores dos estudantes e dos trabalhadores públicos, eles seguirão atacando, agora e sempre. Porque farão sempre o que a classe dominante mandar. São cães de guarda bem treinados. Contra eles há que atuar sistematicamente, inclusive em tempos de calmaria. 




quinta-feira, 19 de setembro de 2019

Amanhã, será um novo dia



Nesse dia 20 de setembro o Sindicato dos Trabalhadores da UFSC dará início a um novo ciclo. Assume a direção da entidade uma geração totalmente nova. Ficam para trás os bons e velhos tempos do Movimento Alternativa Independente, grupo de esquerda que conseguiu justamente dar vida ao Sintufsc, tirando-o da atmosfera de associação esportiva e recreativa, colocando-o no caminho da luta. E ficam para trás também as velhas e insuportáveis práticas do grupo da direita, sempre tão sem graça, sem alegria, sem respeito pela diferença. 

A nova geração que dirigirá a entidade traz um sopro de juventude, vem com garra para a luta num tempo em que lutar parece ser impossível. Não será fácil recuperar a confiança daqueles que abandonaram o sindicato por conta da inércia e não será fácil organizar a luta em momentos tão sombrios. Ainda assim vibro na esperança. Sei que enfrentar as divergências internas cobrará esforço, que se deparar com o medo e a imobilidade implicará em cansaço. Mas sei também que essa é uma hora dos novos lutadores. 

Eles cometerão seus próprios erros, apontarão novos caminhos, táticas, estratégias, coisas bem diferentes do que já fizemos. Porque são outros tempos. Teremos então que estar presentes, no apoio. Tanto nos acertos quanto nos equívocos. Essa nova geração não é o MAI, mas acaba reverberando esse histórico movimento, na medida em que incorpora os nossos princípios, definidos lá nos anos 80 pela geração anterior a minha: Maneca, Silva, Moisés, Helena. Defesa intransigente da universidade pública, independência de governos e de reitores, vinculação direta com os trabalhadores. 

Meu coração canta de esperança e de alegria pois não teremos mais as assembleias tensas, desrespeitosas, autoritárias. Vamos caminhar por outras veredas, de calmaria, de liberdade, de vozes mansas, buscando construir em vez de gerar o caos. Vamos avançar na formação e na organização interna. 

Há muita coisa fazer e muito trabalho nos espera. Mas, não há o que temer. Se estivermos unidos e soubermos encarar com maturidade as diferentes formas de pensar a luta poderemos avançar bastante no processo de preparação dos trabalhadores para as lutas necessárias que virão. 

Nesse dia 20, às 14 horas, a Chapa TAEs Unidos. Juntos Somos Mais Fortes toma posse para um mandato de três anos. Que seja bonito, que seja sólido, que seja leve e que seja de luta.