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segunda-feira, 27 de abril de 2020

Os trabalhadores da saúde


Nossa mente colonizada está bem acostumada à figura do herói. E ela vem associada aos tipos que, ou são deuses, ou recebem um superpoder por conta de alguma circunstância. Mas, o herói verdadeiro é aquele que sem nenhuma ligação divina ou poder adicional, enfrenta coisas muito maiores do que ele em nome de um bem comum. Por isso no nosso panteão de heróis temos figuras humanas falhas, fracas, contraditórias e tudo mais. Porque é o momento histórico que faz aparecer o herói. Ele pode ser uma criatura comum até que as condições históricas lhe cobrem um ato que sobrepassa suas forças, um ato de gratuidade, para além de qualquer recompensa. 

Têm aqueles que escolhem percorrer um caminho heroico. Entrar em uma batalha, ajudar numa tragédia, curar em meio à guerra. E têm os que são pegos no meio do furacão sem que lhes reste alternativa senão atuar em consequência. É o que estamos vendo agora, no campo do cuidado da saúde. De repente, em meio a uma pandemia, enfermeiras e enfermeiros, que até ontem eram seres invisíveis nos hospitais e centros de saúdem assumem o centro dos acontecimentos. Quem fica doente quer um médico, e é esse profissional que assume o foco da atenção. Mas, quem fica 20 ou 30 dias internado em um hospital sabe muito bem que é a enfermeira, os assistentes de enfermagem, o pessoal da cozinha e da limpeza os que vão  lhe dar o conforto, garantir o remédio na hora certa, a limpeza, o alimento, o cuidado.  

Diante da avassaladora crise do sistema de saúde causada pela infecção gerada pelo coronavírus, são esses profissionais os que assomam como anjos e heróis. 

Mas, uma olhada cuidadosa para toda essa gente mascarada que luta pela vida dos outros e já vamos perceber que eles fazem parte de uma classe muito específica: a dos trabalhadores. Não são filhos de deuses nem foram picados por uma aranha rara. São pessoas que amargaram anos de estudo, muitas vezes em condições ruins, e que para sobreviver precisam mais do que um emprego. No geral, a enfermeira trabalha em dois ou três lugares para poder juntar um valor considerado digno para manter uma família.  Ou se olharmos para os técnicos e o pessoal de apoio, vamos ver que cumprem oito horas diárias por um salário que mal cobre o mínimo. E esses, sequer têm a opção dos segundo emprego.

Lembro que durante anos, quando na direção do sindicato da UFSC, lutamos para garantir às seis horas como jornada da enfermagem. Entendíamos que esse é um trabalho duro, que exige muito, física e emocionalmente, e que as trabalhadoras precisavam de um período do dia para descansar e repor as energias. Por isso, causava estupor quando as companheiras vinham dizer que precisavam das seis horas para poder trabalhar em outro hospital, perfazendo assim 12 horas de trabalho diário. Ou seja, não era para descansar, mas para trabalhar mais, porque o salário é baixo e não vence pagar as contas. Algumas delas ainda faziam trabalhos extras de plantões. Um extenuante cotidiano, lidando, de quebra, com a morte e a dor. Já naqueles dias podíamos vislumbrar a jornada heroica dessa  gente que, ao final, é quase invisível como no geral são os trabalhadores de qualquer lugar. 

Agora, com a pandemia, as enfermeiras, enfermeiros, auxiliares técnicos e trabalhadores de apoio estão no centro da batalha. São para eles as lágrimas de agradecimento, os aplausos, a gratidão. Mas, o que estão fazendo é o que fazem todos os dias nos hospitais: garantindo que as vidas sejam cuidadas e salvas. E seguem fazendo isso nas mesmas condições. Sem os equipamentos de proteção adequados e sem salário digno. Provavelmente a maioria desses profissionais sai de um hospital para outro, como sempre, enfrentado pressão ao cubo. 

Assim que se agora eles e elas cumprem uma missão heroica em meio da pandemia, é preciso jamais esquecer que esse é o seu cotidiano. E que, quando tudo isso acabar, quando colocados diante de uma greve de trabalhadores da saúde, por exemplo, possamos lembrar o que esse pessoal representou nesses tempos duros. Ruben Alves dizia que a gente nunca percebe um órgão do corpo até que ele cause dor. E assim poderíamos pensar em outros aspectos da vida. Talvez, até ontem, muitos de nós não tivéssemos olhado para o fazer desses profissionais. Mas, agora, vimos. E não dá para “desver”. Esse povo que trabalha no setor da saúde está enfrentando com galhardia sua hora histórica. Que não seja esquecido. Nem agora, nem depois. 

terça-feira, 14 de abril de 2020

O poder e o coronavírus



Os Estados Unidos é tido como um dos países mais ricos do mundo, e provavelmente é. E, agora, com a explosão do coronavírus, fica bem fácil ver o porquê. No mundo capitalista a riqueza é produzida pelos trabalhadores e se concentra na mão de um número pequeno de pessoas, que são as que detêm os meios da produção. Justamente por ser assim, aqueles que são os responsáveis pela produção da riqueza, dela não podem usufruir. A eles falta educação, saúde, moradia, segurança, lazer, arte, tudo. Sua função é unicamente rodar o moinho do capital.

Com a chegada do novo vírus mortal, a realidade aparece na sua expressão mais crua. Esses trabalhadores não têm a menor importância para o capital. Eles não têm nome, não têm sonhos, não tem sentimentos, não têm família, não têm existência real. São números. E, como tal, facilmente trocados sem que haja qualquer turbulência no andar da carruagem. 

Os Estados Unidos, sendo o país mais rico do mundo,  tem a maior taxa de pessoas infectadas – mais de 500 mil -  e o maior número de mortes, chegando hoje (dia 14 de abril) a 23 mil pessoas. Números que não são os números reais pois pode haver muito mais, uma vez que não há testagem em massa. Portanto, provavelmente há muita gente circulando pelas ruas com o vírus e transmitindo.  

O presidente Donal Trump, no começo da pandemia havia tripudiado da letalidade do vírus, dizendo que era apenas uma gripe, mas com a explosão dos casos foi obrigado a tomar algumas atitudes, afinal, é candidato à reeleição. Ainda assim, as medidas tomadas continuam não sendo as ideais e é por isso que as mortes se aceleram. Pela primeira vez na história do país o presidente foi obrigado a declarar desastre em todos os 50 estados. 

Não obstante, tal como o presidente brasileiro – que lhe segue os passos – Trump confunde os estadunidenses, hora falando bobagens, ora dizendo que agora, com essa declaração de desastre os EUA vencerão o vírus. Ele também trabalha contra os cientistas ligados à própria Casa Branca, que continuam afirmando: se as medidas de isolamento tivessem sido tomadas, a crise não seria tão violenta. Trump brinca no seu twitter, republicando opiniões de pessoas que pedem a demissão desses profissionais. As semelhanças com o Brasil não são coincidências. É o mesmo descaso com a maioria das pessoas. Trump, ignorando o avanço da doença, insiste que o país deve retomar a “normalidade” no primeiro de maio. 

Enquanto isso, a cidade de Nova Iorque, o coração pulsante da nação, é a que está mais fortemente impactada com a letalidade do vírus, com 10 mil mortos nessa terça-feira, sendo que representa a metade dos mortos no país. A comunidade médica e os trabalhadores da saúde são os que estão dando batalha, como em todo o mundo, contra todas as dificuldades. 

No país, o índice de morte entre os negros e pobres é altíssimo, desvelando também o aspecto de raça/classe, já que os negros estão, em sua maioria, na base da pirâmide social. E morrem justamente porque os pobres, nos Estados Unidos, não têm acesso à saúde. Ou a pessoa paga um seguro ou está morta. Não existe um sistema público capaz de dar suporte a toda essa gente. É por isso que muitos, mesmo doentes não procuram os hospitais. Sabem que se saem vivos, devem até a alma. E, como dever o que não têm?

Lá, como cá, também o governo busca formas de salvar os ricos, colocando a conta para os trabalhadores. É o caso do pessoal do agronegócio que deverá ser beneficiado com uma ajuda direta da Casa Branca, podendo ainda reduzir o salário de pelo menos 250 mil trabalhadores estrangeiros que tem permissão temporária para ficar no país trabalhando nos campos. São trabalhadores essenciais porque, sem eles, a cidade não come. Ainda assim, serão penalizados para que os fazendeiros não percam lucros. É o uso cirúrgico de uma gente que o país odeia (os migrantes), mas da qual necessita. Eles que sobrevivam como puderem. Caso morram, amanha terá mais gente chegando e tudo bem.  

Outro drama que não encontra visibilidade é o dos imigrantes que estão presos nos centros de detenção em todo o país. Gente que não cometeu crime algum, unicamente tentou entrar no país e está confinado em prisões insalubres e violentas. E agora enfrentam essa pandemia sem qualquer preocupação por parte do governo. Tanto que as entidades de Direitos Humanos têm se manifestado em frente aos cárceres, exigindo que o Serviço de Imigração garanta a saúde das pessoas, embora sem sucesso. Inclusive, há cárceres exclusivos de crianças, separadas dos pais e sem cuidados. 

Ou seja, a teoria que sustenta a forma de enfrentamento do coronavírus nos Estados Unidos é a mesma levada no Brasil. Que se infecte logo a maioria das pessoas, que morram os doentes, os fragilizados, os criminosos e que sobrem só os “fortes”, os que passarem pelo vírus sem sintomas ou com sintomas leves. Assim, a economia não para e os ricos continuam acumulando lucros. Num mundo de sete bilhões de almas não importa para o sistema capitalista e seus controladores que pereçam um milhão de vidas. Elas são facilmente substituídas. E segue o baile.

Essa lógica perversa encontra seguidores em todo o mundo. Alguns, por que acreditam mesmo numa “melhoria” da raça e outros porque acreditam cegamente nos seus líderes a ponto de disseminarem pelas redes sociais e nas suas relações interpessoais as mentiras que sustentam a racionalidade certeira do capital.

No Brasil, um vídeo de uma moradora do interior de São Paulo, resistindo a um pedido de policiais para que fosse para casa, respeitando o isolamento social, conseguiu, em poucos minutos, expor os argumentos que sustentam uma espécie de insanidade, que só é para as gentes, não para os governantes. Segundo ela, o vírus é uma invenção dos chineses, com o apoio do PT, para derrubar Bolsonaro. Ou seja, ela crê, sem pejo, que foi criada uma pandemia mundial unicamente para atacar o presidente do Brasil. Cenas semelhantes se multiplicam não só no Brasil, mas com versões locais em outros países que adotaram a lógica do “morram logo”, tal como os Estados Unidos. 

E assim, o planeta vai, mergulhado numa loucura sem precedentes. Uma loucura muito bem dirigida e direcionada. Nas altas camadas dos governos, das multinacionais, das entidades da classe dominante, a vida segue sem novidades, com cada um pensando em como acumular mais lucro e mais poder nessa hora de desespero entre a maioria dos trabalhadores. Para eles, é hora perfeita. 

Deveria ser um bom momento para que os trabalhadores percebessem qual é o seu papel nesse mundo capitalista. Mas, ao que parece, em vez de aflorar a consciência crítica, o que mais cresce é o misticismo e o fundamentalismo. Sem os instrumentos para compreender em profundidade a realidade, um número expressivo de pessoas se volta para o céu, para o milagre, esperando que a saída venha de algum deus poderoso e não da revolta organizada da classe trabalhadora. 

Com o isolamento social e a disseminação exponencial de mentiras a situação fica ainda mais difícil de ser enfrentada. 

Apesar disso, há que atuar e trabalhar no sentido de desvelar a realidade. A tarefa cotidiana e permanente. 

sexta-feira, 6 de julho de 2018

Trabalhadores: é tempo de lutar

Retomar as ruas, fortalecer as lutas.

Tarde de quinta-feira. O posto da Caixa Econômica Federal, um dos bancos públicos brasileiros, está lotado. São quase 100 pessoas sentadas nos bancos azuis, com olhar perdido no vazio, esperando. Antes de entrar, precisam passar pelo constrangimento de esvaziar suas bolsas ou coloca-las num escaninho que, mesmo na agência central, parece coisa do século passado. Leva-se pelos menos uns 10 minutos no trâmite de pegar a chave com um garoto que distribui senhas, abrir o cadeado que fecha uma corrente na porta do armário. Coisa bárbara. Lá dentro o ambiente é tóxico. Rostos ansiosos e tristes. Por ter de estar ali pagando contas, e por passar pela absurda espera. Como sempre, há poucos caixas, fruto do sistemático desmonte das empresas estatais brasileiras. Também os trabalhadores tem o rosto pesado, superexplorados que são. A tensão ali dentro é concreta, quase se pode pegar com a mão. 

Naquela tarde, no meio das cadeiras, um gurizinho de uns três anos, corria, brincando entre as cadeiras. Então, no meio do corredor, decidiu parar, abriu os bracinhos, apertou os punhos e fez cara de Hulk, rugindo, brabo. Sua manifestação espontânea de raiva por estar ali há tanto tempo, levou todo mundo ao riso. Foi um átimo de descontração. Poderia ter sido o catalizador para que toda aquela gente esse levantasse e quebrasse tudo, dando vazão ao ódio por estar sempre sendo espezinhado nesse mundo no qual o capital dita as regras e mantém as pessoas escravizadas. Mas, não. Houve o riso, o balançar de cabeça e os olhos voltaram ao vazio. Há que pagar as contas. Há que esperar. 

Esse tem sido o comportamento de boa parte dos brasileiros nos últimos tempos. Um resignado cumprir das tarefas cotidianas, enquanto o Brasil vai se esfacelando, com as riquezas sendo entregues e os direitos trabalhistas exterminados. Um processo de destruição tamanho que exigiria uma violenta reação. Mas, ainda não aconteceu. Há resistências pontuais, uma greve por salário aqui, outra ali. Reações particulares, algumas muito fortes, mas sem conexão com o todo. 

A reforma trabalhista aprovada pelo Congresso Nacional destruiu 60 anos de luta, pois praticamente todos os direitos conquistados a duras penas foram para o ralo. Ter a carteira assinada e, com isso, uma série de garantias trabalhistas já é coisa do passado. O tempo agora é do trabalhador por hora, por projeto, o famoso “self-made man”, aquele que se faz a si mesmo, o empreendedor individual. O empresário de si mesmo. Parece coisa bonita e o nome em inglês deixa ainda mais atrativo. “Só não se dá bem quem não se esforça”, dizem os patrões, agora livres de encargos e deveres, prontos para acumularem mais e mais. Viva o trabalho intermitente, no qual o trabalhador terá mais tempo para si trabalhando por períodos curtos. Como se o trabalhador pudesse existir sem o trabalho. Não no mundo capitalista. Nesse mundo o trabalhador só tem a força de trabalho para vender e se não a vende, não come, não mora, não tem saúde nem educação. Ainda assim, há quem aplauda a reforma. 

Os números, ah os números, dizem que o emprego aumentou. Mas não dizem que são precarizados, que são por prazo curto, que são por salários mais baixos. O desemprego estrutural se aprofunda e logo, logo, seus efeitos se farão sentir com mais força. 

Não bastasse isso a Câmara dos Deputados segue atuando rápida e livremente a favor de seus patrões: os latifundiários, as transnacionais, os bancos. Dia após dia aprovam novas leis que garantem mais lucros aos seus chefes e aumentam o abismo entre pobres e ricos no Brasil. Dane-se a pátria. Está a um passo de ser aprovada a desregulamentação dos agrotóxicos, que envenenarão ainda mais a comida da maioria do povo. Poderão ser vendidos sem fiscalização e, inclusive, marcas que estão proibidas em praticamente todo o mundo. 

Também aprovaram a privatização da Embraer, empresa brasileira que não apenas fabrica aviões de qualidade como é também responsável pela segurança aérea do país. Ou seja, os dados referentes à segurança do espaço aéreo brasileiro agora pertencerão aos Estados Unidos, através da Boing, empresa que comprou a Embraer. Há quem ache muito legal ser colônia dos EUA, mas seria bom dar uma espiada na situação do Afeganistão, Iraque, Somália, Porto Rico, Colômbia, para ver quem realmente ganha com o “protetorado estadunidense”. Não são os trabalhadores. Não são mesmo.  

Na semana passada os deputados aprovaram também a privatização da distribuição de energia, mais uma fatia da Eletrobras. Com isso, entregam para os estrangeiros ou para a elite nacional esse importante filão que é a energia elétrica. Hoje, com a distribuição sendo pública, mesmo as comunidades mais longínquas tem garantia de luz, pois ela é um direito e o estado provêm. Mas, privatizada a distribuição, estender linhas não será mais direito e sim espaço de consumo. Ou paga, ou não tem. E, da mesma forma, a conta da luz deverá ter uma alta significativa, pois as empresas cobrarão pelos caminhos por onde a energia vai fluir. 

No âmbito do executivo também se avolumam as decisões contra os trabalhadores, a maioria da população. Enxuga-se tudo o que é público, desmontam-se as empresas estatais, arrojam-se os trabalhadores. No campo da educação a destruição já vem de um bom tempo. A reforma do ensino médio, que levou os secundaristas às ruas, passou, e hoje as coisas já estão acomodadas. As escolas se apequenam, física e culturalmente. E o espectro da perseguição e da delação ronda, destruindo professores críticos e constituindo uma massa facistificada. O professor virou vilão e apanha na cara. A boa educação ficou para os que tem dinheiro para pagar. Aos pobres, as batatas. 

Na saúde o terror segue seu curso, cada vez mais forte, com o desmonte sistemático do SUS e com as propostas de sua destruição. Acabou a Farmácia Popular, diminuíram-se os recursos e o povo que arque com o custo dos remédios, para engordar a conta da farmacêuticas, tratando das doenças que são criadas pelos venenos das transnacionais de alimentação. Tudo articuladinho para manter os trabalhadores no limite entre a vida e a morte, para que não encontrem forças para rebelarem-se. Crescem os Planos de Saúde privados, atirando-se sobre as angústias das gentes e surgem como capim os chamados “espaços populares de medicina”, nos quais as consultas variam de 80 a cem reais, ficando “acessíveis” para a população. E as pessoas se agarram a isso porque os espaços públicos vão sendo destruídos, justamente para jogá-los aos tubarões privados. Saúde é mercadoria. 

Na segurança, segue o caveirão da morte, passando pelas comunidades de periferia, ceifando as vidas dos trabalhadores, particularmente a das crianças e jovens negros. Não há limites. Meninos que seguem para a escola são mortos preventivamente, porque “um dia poderão se tornar criminosos”. Meninos negros. Meninas são baleadas na porta de casa, na padaria, na frente da escola. E tudo bem. São meninas negras. “Que poderão fazer depois que crescerem?” A elite, a classe média justificam tudo. “Algo de mal irão fazer”. Matam porque temem a revolta dos desvalidos. E condenam os trabalhadores, a maioria, a eterna guerra entre si. 

E assim vamos indo, ladeira abaixo, perdendo cada dia um direito, esfacelando o tecido social, vendo o cotidiano se transformar num aterrorizante “Mad Max”, o mundo distópico da violência, do individualismo, do terror.

Na televisão das massas, um jornalista global teve a cara de pau de dizer que em Cuba “só” o que funciona é a saúde, educação e segurança, querendo tripudiar da forma de governo que ali existe desde a revolução de 1959, constituída pelo povo livre e em armas. O “só” dele é o tudo que uma população pode querer de dignidade. Educação de qualidade para toda a gente, saúde garantida para toda a gente, e o direito de andar pelas cidades, pelos campos, pelos caminhos, em paz, sem o terror de ser roubado, assassinado, violentado. 

O “só” de Cuba deveria ser nossa bússola. E para lá deveríamos caminhar. Em luta. Porque se são os trabalhadores que tudo produzem, se são eles os responsáveis pelas riquezas geradas, a tudo devem ter direito. 



quarta-feira, 18 de abril de 2018

Só os moradores de Florianópolis podem barrar as OSs

Foto: Rubens Lopes


Os vereadores de Florianópolis, por maioria, votaram contra a realização de uma audiência pública e aprovaram urgência urgentíssima para a votação do projeto do prefeito Gean Loureiro que propõe a contratação de Organizações Sociais para administrar a UPA do Continente e mais 10 creches. Não adiantou o clamor que vinha das ruas em frente à Câmara, afinal, a maioria dos vereadores está ali apenas para legislar conforme os interesses dos empresários ou do governo municipal.

Muita gente tem se manifestado nas redes sociais a favor desse projeto, atirando pedras nos trabalhadores que estão em greve. No geral, os argumentos são auto referenciados e dizem respeito as dificuldades que passam a ter com a paralisação, como não ter onde deixar os filhos, ou não ter a consulta agendada cumprida. É natural, então, a raiva. Mas, essa raiva deveria se voltar contra a prefeitura e não contra os trabalhadores que, além de estarem defendendo o serviço público, estão tentando preservar esses direitos a todos.

O fato é que a propaganda enganosa veiculada nas mídias comerciais induz ao erro. Ela chantageia a população dizendo que ou se contrata as OSs ou não haverá atendimento.  É uma ameaça. Não é uma informação. 

As OSs tem um nome bastante sugestivo, são organizações “sociais”. Isso também induz ao erro, pois pode parecer que estão preocupadas com o social. Mas, não. Elas atuam como empresas comuns, ou seja, estão na busca do lucro. E o que pode ser lucro na saúde ou na educação? Pensem!

Conforme explica o presidente do Sintrasem, Renê Munaro, a experiência de vários estados do Brasil com o uso de OS para administrar serviços públicos têm sido um desastre. E o que mais se vê é corrupção e desperdício de recursos públicos. Conforme Renê, o Tribunal de Contas de São Paulo, investigando OSs que administram hospitais, chegou à conclusão de que a taxa de mortalidade nos hospitais geridos por OSs é maior do que nos públicos  e tem apontado ao governo para que atente para esse dado. No estado do Rio de Janeiro, das 10 OSs que atuam no serviço público, oito estão sob investigação. Em Goiás, foi constatado que uma OSs que atendia o serviço de saúde obrigava os trabalhadores a reutilizarem seringas, para “economizar”. São exemplos escabrosos e que se repetem. Fraudes, superfaturamento, malversação de recursos. Vamos aceitar isso?

O projeto que está na Câmara e que vai ser votado – e provavelmente aprovado – sem qualquer discussão com a cidade, não prevê OS só para a UPA e as 10 creches. Não. Ele abre para qualquer outro serviço público. Deixa escancarada a porteira. E onde passa um boi passa a boiada. Além disso, as OSs  que forem escolhidas pela prefeitura para administrar os serviços receberão todo o patrimônio, que é público, por 10 anos. “São creches novinhas e uma unidade de saúde novinha entregues sem qualquer custo para a empresas”. Não bastasse isso, elas ainda receberão dinheiro público e se não cumprirem com suas obrigações, quem arca com a dívida é a prefeitura. “Ou seja, nós vamos pagar três vezes: no patrimônio, no subsídio e no pagamento das dívidas”, denuncia Renê.

O argumento de que a contratação de trabalhadores públicos é muito demorada e burocrática não se sustenta. E a contratação de trabalhadores via CLT não garante nem bom atendimento, nem qualificação. Até porque os salários são baixos e os trabalhadores asism que têm uma oportunidade melhor, saem. 
A melhor forma de garantir um atendimento de qualidade no serviço público ainda é com trabalhadores públicos. Não há como negar. A lógica de jogar para os trabalhadores as “culpas” do mau serviço só serve aos maus administradores, principalmente aqueles que não querem garantir o direito das gentes e se preocupam mais em servir aos seus apoiadores de campanha. 

É impressionante que nos últimos dois anos tenha-se visto a população sair às ruas com camisas amarelas, gritando contra os corruptos, e agora tenha-se que observar essas mesmas pessoas criminalizando os trabalhadores em apoio a um projeto que só virá contra elas e contra toda a população. Pode ser que a classe média tenha condições de pagar por serviços de saúde e de educação, mas isso não vai durar muito tempo. Então, seria bom ter essas pessoas na luta contra essa ideia de gestão via OS. Não precisa acreditar no sindicato. Mas, seria bom que procurassem saber sobre decisões de Tribunais de Contas e Ministérios Públicos de estados como São Paulo e Rio e já poderia ver a armadilha que é essa proposta.   

Quanto aos vereadores de Florianópolis, não há muito que esperar. Ontem, Lino Peres, Afrânio Tadeu Boppré, Marquito - Marcos José de Abreu e Lela fizeram uma transmissão ao vivo discutindo isso com seus eleitores, contando sobre o projeto, apontando os riscos. Mas, eles são minoria. É só a população que pode mudar o rumo das coisas, impedindo a votação. 

Uma coisa é certa, se passarem as OSs, logo, logo, mais dinheiro vai ter de sair dos bolsos dos trabalhadores para ter saúde e educação. Isso não é conversa de sindicalista. É fato.


segunda-feira, 6 de junho de 2016

Abraço em defesa do SUS


Por iniciativa da Rede de Médicos e Médicas Populares acontece hoje, dia 06 de junho, a partir das 17h30min, um ato em defesa do SUS, bem em frente ao núcleo estadual do Ministério da Saúde (em frente ao TAC - no centro). Um abraço à saúde e ao direito das gentes. A Rede de Médicos e Médicas Populares é um movimento novo, nascido depois da tragédia de Mariana, que mostra uma nova geração de profissionais disposta a lutar junto com a população por uma saúde e uma vida melhor. Alguns deles estiveram na manifestação no Campeche e são como um sopro de belezas nesse mundo em que a saúde é vista como uma mercadoria.


Prefeitura corta 28 milhões da saúde

Protesto realizado no domingo chamou a atenção quanto a esse fato, que desmonta o SUS e deixa a comunidade cada vez mais sem acesso a serviço de qualidade. Veja o vídeo com a entrevista de Murilo Leandro Marcos, médico, com atuação no sul da ilha.


sexta-feira, 9 de outubro de 2015

As alas do SUS nos hospitais privados



Imaginem um hospital no interior, pequeno, privado, com uma pequena ala do SUS, esse incrível sistema de saúde criado no Brasil,  que permite a qualquer pessoa ser atendida gratuitamente. Mas, que, por conta de maus administradores municipais ou de outros âmbitos, acaba sendo no mais das vezes o saguão do inferno. Pois, ali estava eu, num desses hospitais. Poucos médicos na ala SUS, poucas enfermeiras, poucos técnicos e muito doentes. Muitos. Na emergência chegam os estropiados, os quebrados, os urgentes. Os poucos leitos vivem lotados e os que chegam ficam nas macas, nos corredores. Não por maldade dos médicos ou atendentes. Não há vagas mesmo. E se a pessoa não tem dinheiro para um atendimento particular tem de se submeter.

Meu pai foi um desses tantos urgentes que amargou um dia inteiro, entre delírios e fraquezas, deitado numa maca no meio do corredor por onde entram as emergências. Só no segundo dia conseguiu leito, depois de diagnosticada uma infecção renal, coisa que, em velho, tem todas as chances de ser fatal.
O quarto onde agora se trata é simples e coletivo. As coisas estão velhas, mas parece limpinho. Há que destacar o trabalho quase desumano a qual estão submetidas as assistentes de enfermagem. Garotas guerreiras que seguram na força do braço um andar inteiro de gente para trocar, medicar e cuidar. É de emocionar, e algumas ainda conseguem ser humanas, engraçadas e gentis.

Junto com meu pai estão mais outros dois doentes. Um deles é o senhor Brasil, ele está com o pé necrosado e precisa do oxigênio para respirar. É o que está melhor dos três, podendo falar e andar. Negro, pobre, ele não sabe muito bem o que tem. “O médico vem, mas não explica direito, ou eu é que não entendo, não sei”. O que sim, sabe, é que lhe falta o ar e lhe explode o coração. Sem outro recurso, tem de confiar no tratamento que lhe dão.

O outro companheiro de quarto chama-se Marco, é um jovem que está morrendo. “A médica veio aqui e já desenganou ele”, conta a mãe, dona Maria, uma mulher de uns 60 anos que parece ter 80. O corpo magrinho se debruça sobre a cama e ela reza, entre lágrima, ao longo do dia e da noite. Há três semanas ela está ali, acompanhando o filho. E como no quarto coletivo não tem lugar para o acompanhante descansar, ela se encolhe na cadeira fria. Diz que já não há lugar no corpo que não doa. Está sozinha no cuidado, não tem como compartilhar a dor. Quando fala é para reclamar do tratamento do pessoal do hospital. “É triste ser assim, pobrezinha, feínha e velha. Eles tratam mal. Ontem eles me tiraram do quarto pra limpar meu filho. Mas chegam com brutalidade, dizendo sai, sai, como se a gente fosse lixo. Será que eles não têm mãe”.

Na noite de vigília que compartilhamos, chovia à cântaros, e ela se sentiu ofendida com a maneira da enfermeira falar e foi ficar lá fora do hospital, no meio da rua, chorando e clamando aos céus. Uma cena de cortar o coração. As assistentes, penalizadas, tentaram trazê-la de volta, mas ela não quis, preferindo a chuva a ser maltratada. Só no comecinho da manhã, quando o filho gritava por ela, sem parar, é que as jovens conseguiram fazê-la voltar, toda molhada. Ela veio, e ali ficou chorando, chorando, sem parar. Nenhum consolo parecia possível.

Em parte dona Maria tem razão. Há certo descaso com os pobres. Os médicos falam como se estivessem fazendo um favor e, se as perguntas são muitas, fazem cara de irritação e respondem sem paciência. Não explicam. Falam na língua de médico e esperam que as pessoas apenas confiem. Por vezes não é suficiente. Um pouco de ternura com uma mãe, ou um filho, ou uma esposa que cuida do parente, poderia ser muito producente. A gente confia, não há saída, mas custava ter um pouco de compaixão? Parece que eles aprendem na faculdade que não é para ter “envolvimento” com o doente, mas nada impede um pouco de humanidade. “É porque a gente é pobre, com os ricos não fazem isso”, insiste dona Maria. Vai saber, nenhum de nós nunca foi rico.

Outro aspecto alucinante é o barulho durante a noite. Os trabalhadores passam pelo corredor conversando alto, riem, gritam, arrastam máquinas, tonéis de lixo, escadas, pouco se importando se os doentes estão querendo dormir. Parece que eles, os pacientes, ficam invisíveis, e aí se pode entender o significado literal da palavra “paciente”. Não há saída. Estão ali prisioneiros da situação, sem força para sequer reclamar. Há uma perplexidade no olhar de cada um, que já estão assustados pela morte que espia nas portas, e ainda tendo de se submeter a situações tão constrangedoras.

Por isso que a madrugada acaba sendo também um espaço de solidariedade. Os doentes que podem ficam andando de quarto em quarto, procurando saber como está o colega de infortúnio, contam histórias, procuram ajudar. Os familiares que ficam como cuidadores, porque não há serviço de enfermagem, também buscam puxar conversa, se confortar mutuamente, encontrar algum olhar de ternura, de compaixão. É um momento no qual a humanidade se expressa, viva. A tal ponto que alguns fazem a ronda junto aos que estão nas macas e cadeiras, nos corredores, procurando apoiar, levando um café, um pão, para os que ficam esperando quarto, sem apoio de ninguém. É de enternecer.

Assim, os corredores do SUS são universos de tristeza, de abandono, de desespero, de repulsa, mas também são territórios da beleza, da solidariedade, da ternura. Tudo está ali, ao mesmo tempo. E o que sustenta aquele que está parado ao lado da cama do seu familiar é justamente o terno compartilhamento da dor e do sentimento de abandono. Parece que assim, juntos, todos conseguem atravessar, com certo consolo, o caudaloso rio da doença.


Como são longas, tristes e inacreditavelmente belas as madrugas nas alas do SUS. 


segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Viamão: um retrato singular do descaso com as gentes



Nara Regina foi morar no interior de Viamão, comunidade de Águas Claras, há pouco mais de um ano. Espaço rural. Algumas casas, pequeno comércio, mas com os serviços básicos de uma comunidade que já tem mais de sete mil almas: posto da brigada militar, escola e posto de saúde. Uma fábrica da Ambev atraiu muita gente e o povoado cresce a cada dia. Mas, o que pode parecer bucólico revela toda a falta de respeito que uma administração pode ter com o seu povo.

Viamão é o maior município da região metropolitana de Porto Alegre, maior até que a capital. Tem quase 300 mil habitantes, os quais se espalham pelo largo território. Uma grande parte vive nas comunidades rurais ou na periferia. Ainda assim, a prefeitura atua como se cada cidadão de Viamão fosse filho de Porto Alegre. Pouca coisa se consegue fazer no município e  quase tudo aponta para a capital, fazendo com que as pessoas vivam uma espécie de calvário por conta de pequenas coisas.

Um exemplo disso é a saúde. Na comunidade de Águas Claras, desde agosto de 2012 não há médico. Qualquer um que procure o posto de saúde do local vai ser recebido por uma moça solícita que só sabe dizer: não temos médico, não temos condições, não temos nada. Nara tem hipertensão e precisa de acompanhamento sistemático. Cada vez que precisa de uma avaliação precisa pegar um ônibus e se deslocar até a parada 44, quase na entrada de Porto Alegre, onde tem um posto central. Isso significa pelo menos uma hora de pé, em ônibus lotados, que passam em Águas Claras de hora em hora.

Na última quinta-feira ela foi mordida por um cachorro. Com a mão aberta, correu para o posto. A enfermeira nem sequer olhou o ferimento. “Já temos médico, mas ele é pediatra, e não está aqui agora. Também não temos a vacina anti-tetânica nem a anti-rábica. Melhor ir para Viamão”. Com a mão enrolada numa toalha, sangrando, lá se foi ela para a parada de ônibus. Quarenta minutos de espera, mais trinta minutos de viagem até o centro de Viamão.  No posto de saúde central tampouco havia vacina. Mandaram para o hospital, na emergência. Toca esperar mais de duas horas pelo atendimento. Feito o curativo, a médica anunciou que também o hospital não tinha a vacina. “Vai até o posto da 44”. Mais quarenta minutos na parada e uns vinte minutos de viagem. No posto da 44 tampouco tinha a vacina. O único jeito era ir à Porto Alegre. De novo, mais um tanto na parada de ônibus até um centro de referência na capital. Cada viagem no ônibus, três reais e vinte de passagem. Já se iam quase 10 reais.

No Sanatório Partenon, em Porto Alegre, uma única médica se desdobrava entre o atendimento dos mordidos por cachorro – que eram muitos  - e o plantão no hospital. Um desgaste tremendo para a profissional e para os que precisam dela. “Tinha que ter um médico são para o atendimento dos mordidos, mas não tem. Temos de dar jeito”. Toda essa odisseia entre a chegada no posto de Águas Claras e a volta para casa demorou exatas oito horas. A sorte da mulher foi que a mordida não lhe arrancou a mão. Ela pode aguentar.

Mas, a pergunta que fica é: como pode um município que tem uma população rural imensa, logo sujeita a esse tipo de ocorrência (uma mordida de cão ou de cobra) não ter, em nenhum dos seus postos uma vacina? Como pode um município empurrar uma demanda para outro sem qualquer prurido? Como pode abandonar sua população a esse tipo de sacrifício?

Pois esse município assim o faz. O novo prefeito, agora do PSDB, ainda chegou ao cúmulo de retirar ônibus de circulação, deixando a população rural em completo abandono. O que já era ruim, ficou pior. Foram retirados horários e os coletivos que fazem os percursos rurais ficam lotados, colocando em risco a vida das pessoas. A resposta ao caos veio da forma mais perversa possível. A prefeitura autorizou as empresas que fazem o transporte intermunicipal a recolher passageiros. Só que os ônibus que fazem as linhas intermunicipais não são adequados para transportar pessoas em pé. Os corredores são bem menores e não há onde se agarrar. É cruel ver aquelas pessoas idosas – um número bem expressivo – passarem todo o tipo de humilhação e aperto. Uma vergonha!

Nas paradas de ônibus a reclamação é geral, mas, como sempre acontece, os governantes não estão nem aí. Fazem ouvidos moucos. Eles não usam o transporte coletivo. Resta ao povo a humilhante espera nos pontos e todo aquele sofrimento para chegar em casa. Abaixo assinado, protestos, tudo já foi feito e nada. “A gente tem que ir lá e queimar tudo, só assim eles se mexem”, resmunga uma mulher , carregada de sacolas. “Estou aqui desde as quatro horas. Já são cinco e 15 e nada do ônibus”.  Ela conta que não pega o intermunicipal porque a passagem é mais cara. Ou seja. A lógica é clara. A prefeitura tira os horários dos ônibus urbanos e dá vantagem a dois grupos empresariais de uma só tacada. Os locais que circulam menos e levam mais gente, e os intermunicipais que podem lucrar muito mais com os passageiros extras. O povo? Que se arrombe!!!

E assim segue a vida na adorável Viamão... Até que alguém resolva acordar...

    

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Aventuras de um sem-saúde


A pessoa começa a passar mal e a primeira opção é, sem dúvida, apelar para a memória histórica dos chás das avós. Afinal, buscar um médico no sistema público é sempre um grande estresse. Mas, os dias se passam a e coisa só piora. Não há o que fazer. Toca ir para a fila do Posto de Saúde do Morro das Pedras. Chega lá no meio da manhã para saber como estão as regras. É que elas mudam todo o tempo. A moça: “Pode vir todos os dias, mas são apenas cinco fichas. Tem de chegar cedo”. Tudo bem, volta para casa sem atendimento.

Passam-se dois dias e tudo piora. Não há remédio. Toca enfrentar a fila de novo. Dessa vez acorda cedinho, antes das sete, afinal são só cinco fichas. Chega no Posto e a fila está grande. Mas, enfim, a necessidade obriga a ficar e tentar uma vaga. São sete horas e tudo está fechado. As oito e cinco começam a chegar os funcionários. A médica, bem jovem, chega num carrão, às oito e meia. A fila vai andando, todos com aquela cara de sofrimento que só os sem-nada têm.

Chega a vez da pessoa. Ela consegue a tal da vaga para ser atendida. Mas, há que esperar. São nove horas quando é chamada. Explica o problema. A médica sequer a olha nos olhos. “Tem que fazer um procedimento, mas não temos sala”. Como não tem sala? E o que é aquilo onde estão? “Não dá para fazer, procure outro posto”. Como procurar outro posto? A pessoa só pode ser atendida no posto da sua jurisdição. O Posto do Campeche não atende quem mora na região do Morro das Pedras. “Não posso fazer nada”, diz a mocinha, possivelmente recém-formada. E a pessoa sai, atordoada, sonhando com um médico cubano.

A pergunta que baila é: por que algumas pessoas precisam amargar o sofrimento da falta de atenção enquanto outras tem os melhores médicos à sua disposição? A resposta é fácil: o sistema que comanda nosso viver define isso. A forma como se organiza o mundo capitalista determina que os ricos se apropriem de todos os avanços da ciência, das melhores coisas, do nelhor cuidado. Os pobres são meras peças de reposição na grande engrenagem. Se morrerem, não farão falta. Outro vem e ocupa o lugar. Há pobres demais no sistema de vida que o mundo ocidental impõe.

Assim que os postos de saúde nos bairros, construídos para atender aos pobres, são meros espaços de enganação. Para que as pessoas digam: Mas, temos os postos e médicos à disposição. Temos as políticas públicas de saúde. Tudo farsa. É da natureza do mundo capitalista que uns explorem e outros sejam explorados. Que uns vivam e outros morram para que esses vivam. Assim, as medidas compensatórias sempre serão véus de Maya (a ilusão).

Por isso que aos pobres restam poucas opções. Resignação, aceitar que a vida é assim mesmo e esperar a morte tomando, no máximo, um paracetamol. Lutar para mudar o sistema, coisa difícil demais num mundo em que a resignação é regra e aquele que luta é visto como anormal. Quebrar tudo no posto de saúde. Ajuda a aliviar a tensão, mas piora a saúde, uma vez que nem o atendimento e ainda a prisão. Quebradeiras solitárias não são eficazes.

Então, para alívio da doença há que encontrar alguma saída individual ou morrer. Mas, para o fim do sistema que explora e oprime as soluções precisam ser coletivas. Novas escolas de medicina precisam nascer. Outra medicina precisa vingar. Mas, isso não pode ser feito de forma isolada, dentro do sistema que temos. Há que fazer vingar outra forma de organizar a vida, porque as coisas precisam mudar na sua totalidade. Não basta uma mudança pontual, aqui ou ali, isso só faz com que a exceção fortaleça a regra. Há que se reconhecer o sistema de vida que temos, entender seus meandros, suas leis. E, depois, coletivamente, encontrar formas de mudar tudo. Se não for assim, seguiremos morrendo como ovelhas no sacrifício para o deus do capital.


sexta-feira, 23 de agosto de 2013

Uso indiscriminado de remédios em crianças

São cada vez mais frequentes os casos de medicalização de crianças com remédios que melhoram a atenção ou fazem com que elas fiquem mais concentradas. Um desses remédios é a Ritalina, quase uma epidemia nacional. No Programa Campo de Peixe, que levamos ao ar todos os sábados, na Rádio Campeche, conversamos com a psicóloga Ana Claudia de Souza sobre o assunto.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

Os riscos do ascarel

Entrevista com o médico de família João Paulo Melo da Silveira sobre os riscos do ascarel para a população, principalmente para os moradores da região do bairro tapera, onde ocorreu o vazamento.

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

A saúde em Santa Catarina



As mulheres falavam alto, porque, afinal, o ônibus é espaço pedagógico. Discutiam a greve dos trabalhadores da  saúde que, em Santa Catarina, já passa dos 30 dias. No dia anterior trabalhadores do transporte público e os bancários haviam feito uma paralisação em apoio aos grevistas, provocando horas de filas e ansiedade, tendo o apoio de estudantes, sindicalistas e militantes sociais. E, no dia seguinte, a imprensa catarinense tocava o pau em todo mundo, alegando que o "pobre" governador Raimundo Colombo, não tinha como dar o aumento "absurdo" que os trabalhadores pediam. Não bastasse isso, ainda vinham os "baderneiros" dos motoristas e cobradores fazer confusão.

O tema era esse. As mulheres discutiam a eterna capacidade da imprensa de distorcer os fatos. Ao longo da greve, passa para a população a ideia de que o "absurdo" é os trabalhadores quererem aumento, e não o fato de um governo deixar a população sem atendimento de saúde simplesmente porque não quer se render à luta. Algumas pessoas viravam o rosto com um olhar fulminante até as mulheres, numa clara atitude de discordância. Certamente acreditavam na imprensa e nas inverdades que cria.

Mas, no banco da frente, uma outra mulher espiava com o rabo do olho, até que não se conteve. "As pessoas não sabem o que a gente passa". Explicou que era trabalhadora da saúde, aposentada há alguns anos. "O que faz os trabalhadores entrarem em greve agora é que foi tirada do salário a hora-plantão, E é isso que dá alguma dignidade ao que a gente ganha. Sem isso, o meu salário, por exemplo, fica 800 reais. Como é que uma família vai se sustentar assim?".

Então, enquanto partilhavam o trajeto, as mulheres foram ouvindo aquela cuidadora de gente. Ela contou que a maioria dos trabalhadores da saúde é obrigada a ter dois e até três empregos para  garantir um salário digno. E que isso se reflete no trabalho. "Imagine a gente passar duas, três noites sem  dormir, nos plantões. Quanto erros não são cometidos? O perigo que isso é? Não porque a gente seja incompetente, é o cansaço. Fico pensando porque as pessoas não se indignam com isso. Amanhã ou depois elas vão parar num hospital e vão ser cuidadas por nós, trabalhadores esgotados, cansados, aturdidos. Isso sim deveria ser discutido".

A greve na saúde é de fato um transtorno e uma fonte de dor. Os empobrecidos, que sofrem tanto no dia-a-dia, sem médico, sem atendimento digno, sem acesso aos equipamentos modernos de diagnósticos, sem opções de tratamento nas cidades do interior, submetidos a ambulancioterapia, acabam enfrentando mais um obstáculo. Mas, se formos observar bem, nada muito diferente do cotidiano, o qual só é vencido por conta desses mesmos trabalhadores, alguns deles verdadeiros heróis, que conseguem tirar leite de pedra.  

O governador Raimundo Colombo, que não precisa de atendimento público, prefere ignorar o grito dos trabalhadores. Faz queda de braço e se mantém inflexível. A imprensa reproduz os argumentos dizendo que o Estado não tem condições de dar a gratificação que substituiria a hora-plantão. Observem que a reivindicação dos trabalhadores ainda é modesta: apenas uma gratificação, que viria para substituir a hora-plantão, diminuída ou retirada. Ainda assim, o governador manda corta salários, humilha, recebe com gás de pimenta. Ora, não tem condições de dar a gratificação? Segundo dados do governo, no Portal da Transparência, só em recursos próprios o estado arrecada por mês 12 milhões para a saúde, gastando apenas 1,5 com pessoal. Do total do orçamento anual a saúde representa 15% de gasto. Que tal então cortar os comissionados que têm salários variando de 5 a 12 mil? Ou a publicidade, que consome 110 milhões ao ano? Dinheiro o estado tem, o fato que não quer investir na saúde. É, porque salário é investimento.

A questão é simples. Um trabalhador como o da saúde, que atua diretamente na sustentação da vida, precisa estar bem pago e bem descansado. O certo seria ter um único emprego, descansar o suficiente para poder cuidar bem de si e dos outros. Mas, o que se vê é um trabalhador desesperado, esgotado pelo excesso de trabalho, tendo de atuar com uma estrutura sucateada, um sistema desmontado, equilibrando-se no milagre. É esse o que cuida do doente, que pode ser o teu filho ou tua mãe. Aí está o ponto que deveria ser discutido pela imprensa.

O ódio da população deveria voltar-se para isso. Para o descaso com a saúde pública, com os trabalhadores, com a estrutura dos postos e dos hospitais. Mas, a maioria das gentes prefere odiar o trabalhador que luta. E mais, quando um trabalhador, esgotado pela exploração, comete um erro que custa a vida de alguém, todos os holofotes se voltam contra ele, apontado como o monstro, o assassino, o irresponsável. Lembram da enfermeira que injetou café na veia de uma pessoa? Pois é. Essa é crucificada! Não há nenhum dedo apontando para o Estado, para o governador, o prefeito ou para o diretor do hospital. A culpa é sempre individual, e do mais fraco.

O fato é que o desmonte da saúde é responsabilidade de quem governa, de quem gere os recursos, de quem decide para onde vai cada centavo. A negativa da gratificação aos trabalhadores é só uma ponta do problema. Há que pagar os trabalhadores, garantir a sua dignidade, há que garantir atendimento à população nos postos de saúde, nos hospitais, há que modernizar a estrutura, garantir os melhores equipamentos. E as pessoas também precisam se mobilizar para que isso aconteça de fato. Não basta choramingar. Há que lutar. Mas, para isso seria necessária uma articulação estadual e nacional, para além do sindical, que pudesse avançar para uma mudança radical do Estado brasileiro. Esse é o desafio da esquerda nacional. Ser capaz de gestar no meio das gentes o desejo de um mundo outro, que não esse, no qual os direitos precisam ser diuturnamente lembrados, na esgrima com o poder. Resta saber se isso é possível num país onde as lideranças sindicais e sociais estão - na maioria - domesticadas  e cooptadas. 

sábado, 4 de agosto de 2012

Um médico, por favor...


Há três anos quase morri. Estava com uma infecção numa pequena espinha que brotou nas costas e nenhum dos 12 médicos dos postos de saúde de Florianópolis pelos quais passei conseguiu ver. Depois de um mês inteiro de agonia, já com bolas gigantes em todo o pescoço e omoplatas, por insistência dos amigos, decidi buscar um infectologista famoso. Ele me atendeu e em menos de 15 minutos já tinha o diagnóstico. Olhou para mim, deu importância para minhas queixas, realizou um bom exame e medicou. Coisa rara. Em três dias estava bem.

Essa maratona nos postos de saúde me mostrou duas situações: médicos mais antigos, totalmente insensíveis e arrogantes, e médicos jovens, apavorados e despreparados. De 12 profissionais nenhum olhou para a espinha que eu tinha nas costas, sobre a qual eu insistentemente reportava. Alguns deles nem me tocaram, escrevendo a receita do indefectível paracetamol. Uma desimportância com os seres doentes, uma desconexão humana.

Naqueles dias de desespero me veio, nítida, a imagem do Dr. Hildebrando, um médico que cuidava de mim e dos meus irmãos na pequena cidade de São Borja. Morava do lado da nossa casa e minha mãe não tinha dúvidas. Se algum de nós ficava doente, ela saia porta afora e invadia o consultório. Ele era um homem sério, não recordo de vê-lo sorrir. Mas, era cuidadoso. Atendia com paciência e, no final do dia, batia na porta a perguntar como estávamos. Se a doença era grave ele vinha, todos os dias, espiar. Dinheiro era a última coisa que entrava na relação. Se houvesse, muito que bem, se não, também não era problema.

O Dr. Hildebrando era desses médicos que cuidava de seus pacientes por toda a vida. E quando alguns deles morria, ele ia ao enterro, cabisbaixo. Seguia o caixão na sua impotência, visto que sabia que a medicina só ia até certo ponto. Depois, era o mistério.

Médicos como aquele não existem mais. Pelo menos eu não tive a sorte de encontrar por aqui onde vivo hoje, na bela ilha de Santa Catarina. Em 24 anos de moradia, cada vez que fico doente vou num médico diferente. Não encontrei o meu “Dr.Hildebrando”, alguém que me olhasse como uma criatura humana, frágil e insegura na dor. No geral, a maioria nos vê como um talão de cheques ou um pedaço doente. Hoje, há médico para cada pedacinho do corpo. Perdeu-se a ideia de totalidade. Ninguém mais trata as pessoas, só pedaços delas. Tampouco há essa humildade de saber que às vezes, o único remédio que a pessoa precisa é um apertar de mãos e um dizer seguro: fica tranquila, isso vai passar. Não, seus olhares não se cruzam com os do paciente e suas bíblias são os catálogos das indústrias farmacêuticas.

Dia desses enfrentei forte gripe. Com medo da H1N1 fui atrás de médico. Toda a agonia outra vez. Assustada e sem conseguir consulta, me rendi outra vez ao particular. Liguei para 10 clínicas e mesmo pagando não havia vaga. Mais alguns telefonemas e nada de vaga. “Só para o dia 22”, e era dia 2. “Até lá já morri”. “Sinto muito”. Nem pagando.

Perdida de toda a sanidade recorri a automedicação. Pesquisas na internet, buscas nos livros de medicina. Estressada até o último grau, envolvida com greves e outros quetais, fui para a farmácia encomendar os remédios. Por um milagre, a farmacêutica olhou pra mim. E sentiu todo o desespero. Solícita foi perguntando o que era, os sintomas, acalmando. “É gripe forte, mas não é a suína. Fica tranquila. Vai passar”. Caí em lágrimas. Era o que eu precisava. Alguém que pudesse ver um ser humano em escombros. Seu nome é Selma e ela tende na farmácia do terminal, no meio do caos. Sai com o xarope na mão e a alma em festa. Não era o Dr. Hildebrando, mas já estava bom. Ainda assim sigo esperando, que haja, em algum lugar, alguém capaz de cuidar da gente como aquele carrancudo, mas cuidadoso, médico do interior.

E que a doença não me alcançe...

quinta-feira, 5 de julho de 2012

A gripe e o ônibus

aí está o vírus da gripe

Basta que cheguem os meses de inverno e já vem com eles a gripe. É batata. Ela aparece e contamina toda a gente. Quem está com a imunidade corporal em alta, pode resistir, mas os que estão mais fragilizados, não conseguem escapar. E, como a alimentação do brasileiro médio não é lá muito boa, o mais provável é que quando o vírus apareça, carregue para a cama milhares de criaturas.

A gripe é assim: transmitida por um vírus altamente contagioso, e sua propagação acontece sempre que alguém tosse ou espirra. As gotículas de secreção podem chegar até um metro. Daí que um dos lugares mais propícios para esse contágio é o ônibus.

Eu sinceramente não sei quem foi o inventor desse absurdo de fazer ônibus sem janela. Isso foi surgindo aos poucos e agora já quase não se consegue encontrar um carro sequer, no qual se possa abrir a janela para que entre o ar puro. São dezenas de pessoas espremidas num ambiente altamente contagioso, sem chance de escapar do maldito vírus. E o que é pior. Como ninguém nunca sabe se pegou um resfriado ou gripe, as pessoas saem de casa para trabalhar, para a escola e lá se vão, contaminando todo mundo.

Eu tenho sido a maior chata da paróquia na denúncia do ônibus sem janela. Sempre que viajo para outra cidade me deparo com o maldito. Chego ao posto da agencia nacional que faz a fiscalização e reclamo, escrevo longas cartas com argumentos sólidos e peço que a coisa muda. Ninguém me dá bola.

Agora a coisa passou do limite dos ônibus intermunicipais e interestaduais. Os coletivos urbanos estão entrando nessa onda de “modernidade”. O sofrimento é grande. Não bastasse a superlotação ainda tem mais essa. Potencial de contágio de gripe: 100%.

Nas duas últimas semanas eu peguei o maldito vírus. E, premida pelas urgências da luta, greve, atos, assembleias, compromissos militantes, fui pela vida espalhando o danado. Parece que ele sabe quando a gente está no ônibus. Vem aquela vontade louca de tossir e não dá para segurar. Mesmo tossindo dentro da bolsa eu creio que algum deles consiga fugir e pegar alguém.

O fato é que é que a parada da gripe é dura. Não há remédio para ela. Não há amparo. No posto de saúde a única receita é o paracetamol. E, para os mortais comuns, que não podem se dar ao luxo de ficar em casa repousando por uma semana só resta a triste tarefa de sofrer sozinha e ainda espalhar o vírus a outros pobres companheiros de desdita.

Quero registrar aos que infectei que não tenho culpa. Os ônibus não têm janela. O ar puro fugiu da nossa vida. A mim só resta pedir desculpas entre uma crise de tosse e outra. E que a gripe perca mais essa, embora eu não esteja me sentindo muito bem...

terça-feira, 13 de março de 2012

Posto de Saúde: só para saudáveis


Vivia de música o garoto. Assim que escutar é quase um instrumento de trabalho. Naquela noite sentiu que os barulhos diminuíam. Pouco a pouco perdia a audição. Deu medo. Cutuca com cotonete, tampa de caneta, loucuras. Hum... Não deu. “Tens que ir ao Posto de Saúde, guri”, advertiu a tia. Sexta-feira de manhã passou a mão na magrela e foi ao posto. Não tinha esperanças. É difícil ser atendido sem marcar com anos de antecedência. Mordeu a língua. Deu sorte. A enfermeira atendeu. “Isso deve ser cera, pinga cerumim por três dias e depois volta aqui que a gente faz a limpeza”. Saiu sorrindo, estava salvo.

Três dias depois, já completamente surdo e com uma boa dose de desespero voltou ao posto. Calor de matar, sol rachando. Pedala mais de cinco quilômetros até o posto do Morro das Pedras. “A moça não está, volta amanhã a uma hora”. Não adiantou fazer carinha de triste. Toca esperar. Dia seguinte, uma hora, sol a pino, lá vai ele, surdo total, pedalando até o posto. Estava no mais alto nível do estresse, já eram oito dias sem ouvir direito. “Não, a moça não veio, volta amanhã”. Reclama, xinga, nada. Sem saída, voltou para casa.

No dia seguinte lá vai ele outra vez. Toda a novela. Sentia vontade de chorar. De raiva, de ódio, de impotência. Quem não tem dinheiro precisa se submeter a tudo isso. Nenhuma humanidade, nenhuma preocupação, nenhum interesse pelo ser que está em sofrimento. Aquele foi o pior dia. “Olha, a moça saiu de férias, agora só depois do carnaval”. Surtou. Deu discurso, falou da falta de respeito. Se a moça iria entrar em férias, porque não haviam dito isso no dia anterior? Acaso não sabiam que o posto era longe e que a pessoa em sofrimento fica frágil? Nada, só os olhares insensíveis. “Vá ao Posto do Campeche, quem sabe lá tem alguém”.

Volta a pedalar mais uns 10 quilômetros até o outro posto. Repete a história toda, já quase tomado pela ira. O mesmo olhar indiferente. “Estamos sem médico. Só depois do carnaval”. Ou seja, qualquer doença haveria de congelar até passarem as festas do momo. Desesperou. Insistiu que era obrigação do estado prestar socorro. “Vá à policlínica que fica ali perto do terminal”. Seriam mais alguns quilômetros de bicicleta. Sol rachando, ouvido latejando, ódio espumando. Mas, estava desesperado e todo aquele empurra-empurra o deixara mais nervoso. Foi-se... Na policlínica toca a esperar, fila e fila, até que finalmente foi atendido. “Não, estamos sem atendente para limpeza de ouvido. Só depois do carnaval”. O guri desabou. Vontade chorar, de derreter, escorrer pela parede, sumir.

Quando a tia chegou a casa o encontrou prostrado, deitado no alpendre, os olhos em fogo. Conta toda a história, tremendo de indignação. Não adiantara apelar para o estatuto da lei, a Constituição, nada. “Não tem médico, não tem enfermeira, não tem ninguém”. E nada se pode fazer. Vontade de fúria, de matar, de quebrar, todas essas coisas que a impotência traz. Era sexta-feira, carnaval. Ou se resolvia ou não haveria de ganhar o pão. Então, a magia: DINHEIRO!

A tia ligou para uma clínica particular no centro da cidade. “Tem alguém que faça a limpeza de ouvido? Sim, atendemos 24 horas. É só chegar e pagar 200 reais. 200 reais? Sim! Pois é, simples assim... Sorte do guri ter uma tia que tinha 200 reais. Lá foi ele pegar três ônibus para chegar ao centro. Chegou duas horas depois à clínica. Em dois minutos estava ouvindo. E a gente fica a pensar... E os que não têm a grana? Esses, se f...