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quinta-feira, 21 de janeiro de 2021

Somos poeira


 

Esse ano que terminou foi dureza, pancada mesmo. Perdemos parentes, amigos, conhecidos, gente demais. A ceifadora passeou desinibida nos mostrando que basta um leve manear de cabeça e ela nos toca, irremediavelmente. O corpo se vai, ficam as palavras de pesar nas páginas das redes sociais ou os sussurros nas antessalas do velório. “Era tão bom”. E segue um rosário de lembranças boas, porque quando a morte vem só fica aquilo que foi essencial, aquilo que definitivamente tocou nosso coração. A bondade, o bem, a beleza. Aquilo que deveríamos ser e que não somos o tempo todo porque a vida nos carrega, na deriva, por caminhos tortuosos. A morte chega para nos dizer disso: das nossas belezas escondidas ou não vividas. Há que despertá-las. 

É por isso que gosto de dizer aos que amo que os amo, sempre que os vejo. Gosto de abraçar apertado a cada manhã, cada chegada, cada despedida. Principalmente os que estão no cotidiano. Porque tudo é tão fugaz. Descobri já faz algum tempo que viver é caminhar na beleza, como dizem os navajos. E é preciso reverenciá-la sempre, a toda hora. Dos que amo não espero homenagens à beira do caixão. Quero carinhos agora mesmo, quero olhares de ternura, apertos de mão, aconchego, beijos molhados, cafunés, abraços.  E é o que dou também. O tempo todo e sem parar, porque não sabemos o dia nem a hora.  

Nesses tempos de angústia, quando tudo se desfaz, só o que permanece é o amor concreto, real, esse que se pode tocar. Esse pequeno texto é um abraço afetuoso a toda gente que caminha comigo, presencial ou virtualmente. O que nos salva são os pequenos gestos poéticos. Sejam pródigos!  A revolução invém... nós vamos construir o mundo novo...



quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

Um sopro...



Dia 8 de dezembro é um dia de saudade para mim. Foi nesse dia, no distante ano de 1932 que a minha mãe nasceu. Naquele início de século, no interior da pequena Uruguaiana, fronteira com a Argentina, ela começou sua caminhada no rumo da beleza. Guardo sempre na memória seu riso de cristal, meio tímido, tão raro. No geral, era uma briguenta, e devo ter herdado dela essa mania de criticar tudo. Foi uma mulher comum, dessas de vida simples, cuidando dos filhos e da casa. Morreu em fevereiro de 1998, quase carnaval. Foi embora poucas horas depois de termos falado ao telefone, quando me contava de um bolo que estava fazendo. O bolo ficou no forno, enquanto ela dava seu último suspiro.

Lembro que estava indo para a Univali, parada no ponto do ônibus da UFSC, quando minha colega veio me chamar. Haviam ligado. Ela me disse: tua mãe se foi. E eu ri. Não podia ser, acabara de falar com ela. Mas, não era mentira. Num átimo, e ela era só saudade. A vida e suas peças. A ceifadora sempre à espreita.

Meu primeiro contato doloroso com a morte foi com a do meu avô, o qual eu amava com um amor sem tamanho. Por ele desacreditei de deus. Tão bom tinha sido, tão generoso, e morrera sem sua terra, com o peito estourando de tanta dor. Não me parecia justo.

Desde aí entendi que a vida da gente é feita de nossas escolhas. E há que pagar alto preço se elas não estiverem dentro das regras. Também vi que se há algo certo nesse mundo é essa hora dura em que temos de nos despedir desse imenso jardim. Deixar de brincar, deixar de rir e conviver com quem amamos, dar a mão à ceifadora e partir. Duro momento.

Nesses dias tristes, que mais sombrios ficam conforme anunciam festas e festejos natalinos, assomam os meus mortos, os que já encantaram. Sinto falta dos seus risos, do som da voz, do toque. E fica aquela sensação de que não expressamos suficientemente o amor, distraídos que estávamos em cuidar da própria vida. Mas, depois, pensando bem, imagino que o melhor presente para eles deve ser isso mesmo: a capacidade de seguirmos sozinhos, rasgando a vida sem medo.

Fico também pensando nos vivos, nos que ainda aí estão e que amo. Muitas vezes sem poder ver, sem poder dar carinho, impedida do abraço. E essa sim é a hora noa (da angústia), porque ainda há tempo, porque ainda correm os minutos. E a vida mesma, essa doida, nos joga para cá e para lá, com seus golpes. Até que venha o sopro fatal, quando nada mais restará.

São dias confusos e tristes... O balanço está vazio, o riso desaparecido. Como minha linda Abya Yala, feneço, olhando nos olhos da ceifadora, e paradoxalmente pedindo que espere um pouquinho mais...