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terça-feira, 24 de outubro de 2017

Do Dia do Saci e das coisas inúteis


Nós estaremos na Felipe, a partir das 15 horas - 31 de outubro - Foto: Rubens Lopes

Dia 31 de outubro se celebra no Brasil, o Dia do Saci Pererê e seus amigos. Uma resposta cultural e uma ação de resistência diante da invasão fetichizada da festa do “raloím”, bastante importante na cultura estadunidense, mas que para nós diz muito pouco.  E, da maneira como é festejada, nada mais é do que outro bom motivo para vender coisas, as mercadorias do mercado capitalista.
Em Florianópolis, no ano de 2003, um pequeno grupo decidiu enfrentar o desafio de resistir a mais essa invasão. O raloím, que até então era festejado só nas escolas de inglês, passou a invadir as escolas públicas e até as creches. Uma coisa de doido, porque aqui quase ninguém sabe o que esse mito representa.  E mito é coisa séria. Diz do humano, do que nos é mais profundo.

Estávamos no Sindicato dos Trabalhadores da UFSC e tínhamos acabado de conhecer a batalha de alguns grupos do interior de São Paulo, que procuravam contrapor o Saci ao mito do raloím. Resolvemos então trazer para Florianópolis a celebração desse adorável mito brasileiro, que é uma mistura das três grandes matrizes da cultura brasileira: o branco, o índio e o negro. Tudo junto e misturado. Nosso mito mais profundo, que simboliza o guardião das florestas, das matas, da vida. Que representa nossa alegria, nossa molecagem, nosso espírito rebelde.

Então, no 31 de outubro, levamos o Saci para as ruas. A resposta foi incrível. As pessoas conhecem e amam o Saci, elas apenas não têm oportunidade de brincar com ele, de conhecê-lo em profundidade. E foi isso que começamos a oferecer. Todo ano, no mesmo dia do raloím, lá vamos nós para a rua, carregando o Saci e contando sua história, que é, na verdade, nossa história profunda. A gente distribui panfletos, conta histórias, dança, pula, se diverte à larga. E junto com a gente, brincam todas as pessoas que passam pelo calçadão da Felipe. Ninguém fica imune. A alegria contagia. E mesmo aqueles  que apontam com a cara fechada, ao verem o Saci e ao perceberem que aquela muvuca é uma festa pindorâmica, ancestral, abrem o riso e passam pulando.

A festa foi sendo realizada todos os anos, já virou uma tradição. Sempre construída com o apoio de sindicatos e movimentos, promovida agora pelo grupo da Pobres e Nojentas. E movimenta tanto a vida da cidade nesse dia de resistência cultural, que o Dia do Saci e seus amigos foi oficializado pela Câmara Municipal de Florianópolis, como um dia de festa no calendário da cidade, assim como é de festa o dia do aniversário, o dia das rendeiras, dos pescadores. Isso é legal porque pode permitir que a municipalidade também atue na resistência cultural. Não tem feito isso, mas pode fazê-lo se quiser.

Pois agora, um vereador do PSB chamado Bruno Souza quer revogar a lei que institui o Dia do Saci e seu amigos, que aqui na ilha inclui também as bruxas do Cascaes e o Boi-de-mamão, mitos e festejos típicos do lugar. Ele diz que isso é uma bobagem e que a lei é inútil. Ele deve crer também que festejar a cultura nacional é inútil. Talvez acredite que o melhor mesmo é comprar uma roupa de esqueleto e sair por aí festejando o raloím.

Esse ano, vamos para a rua de novo, no décimo quarto ano de Dia do Saci e seus amigos. Porque a gente gosta das coisas inúteis. Essas coisas que não se prestam a valor de troca nem de uso. Não são pra vender, nem pra comprar, nem pra usar. São coisas para viver, brincar, amar.  As coisas inúteis são essas que nos conectam com a suprema beleza, com o sagrado profundo, as que provocam uma quentura por dentro e explodem em ondas de felicidade.

Nós vamos para a Esquina Democrática nesse 31 de outubro, com nosso Saci e com o Boi-de-Mamão. Vamos denunciar o golpe que vive nosso país, vamos denunciar o Estado de Exceção que prende, julga e mata sem qualquer processo - como fez com o reitor da UFSC, o Cao Cancelier. Vamos denunciar o capitalismo que destrói tudo que toca. Vamos informar sobre a luta dos povos originários, que ainda precisam batalhar por seus territórios, vamos denunciar as mortes no campo, o extermínio dos jovens negros, a violência contra as mulheres.

Vamos mostrar que estamos vivos e que não desistimos da luta. E que ela pode se expressar também nesses momentos “inúteis”, de pura brincadeira. Em meio a toda dor de um país que vai sendo destruído por poderosas gangues que ocupam hoje os cargos de poder, nós dançaremos nas ruas. Como Jeremias, no centro de sua terra arrasada, nós pularemos com o Saci, acreditando piamente que é da nossa luta, como povo unido, que brotará a primavera.

O Dia do Saci e seus amigos será celebrado, como tem sido ao longo desses 14 anos, no centro de Florianópolis. Haverá brincadeiras, danças, pulos, e distribuição de sacizinhos. Terá o Boi-de-Mamão e terá alegria. Nós te convidamos. Começa às 15 horas e vai até as 16h e 30 min. Passa lá. O Saci também estará lá, com seu cachimbo e suas peraltices.

Venha pular e dançar, porque é preciso. Há uma longa e feroz batalha para travar nesse nosso país acossado pelo golpe. E, nessa caminhada, precisamos da alegria.


Esperamos vocês... 





quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

O Saci


Meu pai tem aquela mania dos homens de antigamente de andar sempre com um lenço no bolso. Para nada, mas tem de estar ali. Hoje ele veio, brabo, dizendo que não encontrava mais nenhum lenço para usar.

- Mas, pai. Tu tens uns dez lenços. Onde estão?
- Não sei. Não encontro nenhum.

Lá vamos nós procurar os lenços por todo o quarto. Busca daqui, busca dali, e nada.  Hum... Problemas. Onde vou achar um lenço nesse Campeche feito forno? E sem lenço o cara não fica. A brabeza come solta.

Decido então buscar nos recônditos inauditos. Fundos de gavetas, atrás dos armários, embaixo da cama. É que às vezes ele guarda tão bem guardado que é, na verdade, um escondido. No meio das roupas de inverno observo que uma das meias está gorda demais. Vou escarafunchar.

Batata.

Dentro da meia, dobradinhos como pequenos torpedos estão os lenços. Todos eles.

- Olha pai, os lenços. Estavam aqui dentro dessa meia no fundo do armário. Como eles foram parar ali?

- Eu é que não sei. Mas, que barbaridade!


Pois é. Acho que foi coisa do Saci.

terça-feira, 15 de dezembro de 2015

Florianópolis oficializa o Dia do Saci e seus amigos



Valentes lutadores da cultura local e nacional

Corria o ano de 2004, num festival de primavera promovido pelo Sintufsc, sindicato no qual atuavam como diretoras e jornalista, quando Raquel Moysés, Elaine Tavares e Miriam Santini de Abreu conheceram o trabalho da SoSaci, Sociedade dos Observadores de Saci. A entidade, com sede no interior de São Paulo, então já desenvolvia uma verdadeira batalha cultural e anticolonial na tentativa de discutir a cultura nacional em contraposição à invasão dos festejos do Halloween no país.

Como todos sabem o “raloím” é uma festa tradicional nos Estados Unidos, comemorada no dia 31 de outubro que, aos poucos, foi invadindo as escolas e o comércio brasileiro. E, como o mundo caipira reverencia muito o Saci, foi primeiro no interior de São Paulo – em São Luiz de Paraitinga - que começou essa proposta de, no nosso 31, colocar foco no gurizinho negro, de uma perna só, que é responsável por estripulias  e traquinagens, além de ser o protetor das florestas e o amálgama das tradições étnicas formadoras do país: o índio, o branco e o negro. Depois, a festa do Saci Pererê foi se espalhando, congregando outros mitos que representam cada espaço particular.

Em Florianópolis a luta pela cultura nacional e local começou a ser feita pelo Sindicato dos Trabalhadores da UFSC, em 2004, e depois que as três mulheres que iniciaram os festejos saíram da entidade foi incorporada pela Revista Pobres e Nojentas, que passou a promover a festa. Assim, todo dia 31 de dezembro, a Pobres realiza o Dia do Saci e seus amigos no centro da cidade, contando com a parceria de vários militantes da causa cultural, outros sindicatos e movimentos sociais. A ideia é levar à comunidade o debate sobre a cultura brasileira, mostrando que aqui também temos lindos mitos que podem ser celebrados com festa e beleza. No caso de Florianópolis é assegurada a participação das bruxas, muito bem caracterizadas por Franklin Cascaes, que são elementos míticos tradicionais  da vida do litoral catarinense.

Assim, a cada ano que a festa se realizava apareciam novos parceiros para dar conta das atividades e também surgia o desejo por parte da população que passava pela rua de garantir a oficialização do festejo, para que a discussão sobre os mitos nacionais pudesse também ser incorporada pelas escolas e entidades sociais. “Não bastava mais lembrar as bruxas e o Saci só no dia 31. Era preciso levar esses personagens ao conhecimento das crianças, para que pudessem conhecer mais a cultura nacional e local”, lembra Raquel Moysés. Assim, começou a ser construído um abaixo-assinado para ser encaminhado à Câmara de Vereadores pedindo que o 31 de outubro entrasse para o calendário oficial.  

Imediatamente o vereador Lino Peres (PT) assumiu o compromisso de apresentar um projeto para tornar esse dia o Dia Municipal do Saci e seus amigos, a exemplo do que já existe em muitas outras cidades do Brasil, como São Luiz do Paraitinga (SP), São Paulo (SP), Vitória (ES), São José do Rio Preto (SP), Uberaba (MG), Fortaleza (CE), Guaratinguetá (SP), Embu das Artes (SP), Poços de Caldas (MG), Independência (CE). Também o Estado de São Paulo já instituiu o dia oficialmente.

A proposta foi feita, o projeto tramitou e nesse dia 14 de dezembro foi votado na Câmara Municipal da capital catarinense. Agora, a capital se junta, de maneira oficial, a essa luta pela cultura nacional e local, e o Dia do Saci e seus amigos passa a integrar o Calendário Oficial de Datas e Eventos da Prefeitura de Florianópolis. “Houve, por parte dos vereadores, sensibilidade em relação à valorização dessa figura ilustre do folclore popular, um símbolo da síntese de etnias que são base da nação brasileira: o índio, o negro e o branco. O Saci e seus amigos, como o Boitatá e o Curupira, são parte do folclore brasileiro, em contraponto à bruxa da festa do Halloween, que tem raízes irlandesas e virou dia de frenéticas compras nos EUA e também no Brasil, em um contexto bem diferente das Bruxas da Ilha de Franklin Cascaes, que simbolizam bela referência de Florianópolis e região”, comemorou o vereador Lino, depois da votação.

Não foi sem razão que a terça-feira amanheceu diferente, com rajadas de vento “suli” e redemoinhos varrendo as ruas. Dava para ver no céu emburrado a passeata das bruxas, tocando, com suas vassouras, uma penca de Sacis, os quais pulavam de nuvem em nuvem, em enlouquecida alegria.


Eita...


segunda-feira, 26 de outubro de 2015

Dia Nacional do Saci-Pererê e seus amigos será comemorado na Capital em 06 de novembro



Pelo décimo segundo ano, acontece a celebração do Dia Nacional do Saci-Pererê e seus amigos, que esse ano será no dia 06 de novembro (sexta-feira), das 15h às 18 horas, na Esquina Democrática, em frente à igreja São Francisco, em Florianópolis. 

A promoção é da Revista Pobres & Nojentas, com apoio do Sindicato dos Trabalhadores da Universidade Federal de Santa Catarina (Sintufsc), Sindicato dos Trabalhadores no Poder Judiciário Federal do Estado de Santa Catarina (Sintrajusc) e Sindicato dos Trabalhadores em Saúde e Previdência do Serviço Público Federal no Estado de Santa Catarina (Sindprevs/SC). No dia haverá música, contação de histórias, boi-de-mamão e distribuição de “sacizinhos”. O dia “oficial” é 31 de outubro, mas, como será um sábado, neste ano vamos antecipar!

A lenda é assim! Basta que exista um bambuzal e, de repente, de dentro dos caniços, nascem os sacis. É como eles vêm ao mundo, dispostos a fazer estripulias. Conta a história que esses seres já existiam bem antes do tempo que os portugueses invadiram nossas terras. Ele nasceu índio, moleque das matas, guardião da floresta, a voejar pelos espaços infinitos do mundo Tupi-Guarani. Depois, vieram os brancos, a ocupação, e a memória do ser encantado foi se apagando na medida em que os próprios povos originários foram sendo dizimados.

Quando milhares de negros, caçados na África e trazidos à força como escravos, chegaram no já colonizado Brasil, houve uma redescoberta. Da memória dos índios, os negros escravos recuperaram o moleque libertário, conhecedor dos caminhos, brincalhão e irreverente. Aquele mito originário era como um sopro de alegria na vida sofrida de quem se arrastava com o peso das correntes da escravidão.

Então, o moleque índio ficou preto, perdeu uma perna e ganhou um barrete vermelho, símbolo máximo da liberdade. Ele era tudo o que o escravo queria ser: livre! Desde então, essa figura adorável faz parte do imaginário das gentes nascidas no Brasil. O Saci-Pererê é a própria rebeldia, a alegria, a liberdade. 

Com o processo de colonização cultural via Estados Unidos – uma nova escravidão - foi entrando devagar, na vida das crianças brasileiras, um outro mito, alienígena, forasteiro. O mito do Haloween, a hora da bruxa e da abóbora, lanterna de Jack, o homem que fez acordo com o diabo.

A história é bonita, mas não é nossa. Tem raízes irlandesas e virou dia de frenéticas compras nos EUA e também no Brasil. Na verdade, a lógica é essa. Ficar cada vez mais escravo do consumo e da cultura alheia. Jeito antigo de colonizar as mentes e dominar. É por isso que a Pobres & Nojentas quer recuperar o Saci, o brasileiro moleque das matas, guardião da liberdade, amante da natureza que hoje está ameaçada de destruição. Junto com ele trazemos também os amigos, as bruxas de Cascaes, o Caipora, o Curupira, a Mula-sem-cabeça e tantos outros que povoam o imaginário em todas as regiões do país. 

Venha brincar com a gente. Esperamos você na celebração!

Mais informações com Elaine Tavares no 9907-8877.


terça-feira, 29 de outubro de 2013

Dia do Saci-Pererê e Lançamento de Livro da jornalista Elaine Tavares



A celebração do Dia Nacional do Saci-Pererê será no dia 31 de outubro, quinta-feira, das 15 às 17 horas, na Esquina Democrática, em frente à igreja São Francisco, na capital, Florianópolis. A promoção é  da Revista Pobres & Nojentas, com apoio do Sindicato dos Trabalhadores no Poder Judiciário Federal do Estado de Santa Catarina (Sintrajusc) e do Sindicato dos Trabalhadores da Universidade Federal de Santa Catarina (Sintufsc). No dia também será lançado o novo livro da jornalista Elaine Tavares, da equipe da Pobres & Nojentas, intitulado "Olímpia Gayo visita o diabo". O trabalho conta a história da freira franciscana Olímpia Gayo, que iniciou um fecundo trabalho de organização das mulheres prostituídas em Lages (veja no final do release). No dia haverá música, contação de histórias, brincadeiras e distribuição de “sacizinhos”.

A lenda é assim! Basta que exista um bambuzal e, de repente, de dentro dos caniços, nascem os sacis. É como eles vêm ao mundo, dispostos a fazer estripulias. Conta a história que esses seres já existiam bem antes do tempo que os portugueses invadiram nossas terras. Ele nasceu índio, moleque das matas, guardião da floresta, a voejar pelos espaços infinitos do mundo Tupi-Guarani. Depois, vieram os brancos, a ocupação, e a memória do ser encantado foi se apagando na medida em que os próprios povos originários foram sendo dizimados.

Quando milhares de negros, caçados na África e trazidos à força como escravos, chegaram no já colonizado Brasil, houve uma redescoberta. Da memória dos índios, os negros escravos recuperaram o moleque libertário, conhecedor dos caminhos, brincalhão e irreverente. Aquele mito originário era como um sopro de alegria na vida sofrida de quem se arrastava com o peso das correntes da escravidão.

Então, o moleque índio ficou preto, perdeu uma perna e ganhou um barrete vermelho, símbolo máximo da liberdade. Ele era tudo o que o escravo queria ser: livre! Desde então, essa figura adorável faz parte do imaginário das gentes nascidas no Brasil.

O Saci-Pererê é a própria rebeldia, a alegria, a liberdade. Com o processo de colonização cultural via Estados Unidos – uma nova escravidão - foi entrando devagar, na vida das crianças brasileiras, um outro mito, alienígena, forasteiro. O mito do Haloween, a hora da bruxa e da abóbora, lanterna de Jack, o homem que fez acordo com o diabo. A história é bonita, mas não é nossa. Tem raízes irlandesas e virou dia de frenéticas compras nos EUA e também no Brasil. Na verdade, a lógica é essa. Ficar cada vez mais escravo do consumo e da cultura alheia. Jeito antigo de colonizar as mentes e dominar. É por isso que a Pobres & Nojentas quer recuperar o Saci, o brasileiro moleque das matas, guardião da liberdade, amante da natureza que hoje está ameaçada de destruição.

Queremos vida digna, um país soberano na política, na economia, na arte e na cultura. Cada região deste Brasil tem seus próprios mitos. Caipora, Boitatá, Curupira, Bruxa, Negrinho do Pastoreio... São os amigos do Saci que estão presentes na atividade do Dia do Saci Pererê, saudando e buscando a liberdade.

Mais informações: Míriam Santini de Abreu - 96207333

SOBRE O LIVRO




Olimpia Gayo visita o diabo é o sexto livro da jornalista Elaine Tavares, que atua no Instituto de Estudos Latino-Americanos/UFSC. O trabalho conta a história da Pastoral da Mulher Marginalizada criada na cidade de Lages pela irmã Olímpia. A teóloga Ivone Gebara é quem apresenta essa preciosa história de uma mulher que nunca se recusou a olhar o diabo de frente. 

"Elaine Tavares tem o dom e a arte de contar histórias de mulheres apaixonadas pela vida. Mulheres que são parte da história oculta da bondade e da beleza e que atuaram intensamente para que esses valores continuassem a se manifestar nas vidas sofridas e silenciadas. "Olímpia Gayo visita o diabo" é mais uma preciosa narrativa que revela o percurso de uma mulher que cresceu vencendo o sofrimento que a vida punha em seu caminho. Desde criança vencia o sofrimento preparando-se e lutando pela dignidade da vida de outras sofredoras e sofredores.

O texto move o coração e convida a abrir os olhos para as vidas ocultas, aparentemente sem valor, para a escória humana que somos e criamos assim como para a salvação e libertação que também podem nascer de nós. Sim, somos salvadoras umas das outras, somos a mão estendida, o abraço apertado, o sentido da solidariedade, a misericórdia vivida. Somos a voz que denúncia, que grita até que os corações de pedra comecem a palpitar de novo e ver e ouvir o mundo ao seu redor.

Conheci Olímpia num encontro de estudos em Julho de 2013 em Lages. Sua congregação religiosa me convidara para uma semana de reflexão sobre espiritualidade ecofeminista. Desde as primeiras palavras que ouvi de Olímpia, a cumplicidade nas ideias, nas visões e, sobretudo, sua forma de "sentir a dor do mundo" ecoaram em mim. Cada uma do nós, de seu jeito, vivia a paixão pela vida manifestada através de muitas formas e expressa através de muitos nomes. Tínhamos muitas coisas em comum. Enfrentamos demônios parecidos, aqueles que atingem os corpos de mulheres e querem silenciar seus gritos de liberdade.

Nas visitas e encontros de Olímpia com os "diabos" da fome, da droga, da prostituição, seu nome, que faz lembrar o Olimpo, moradia dos deuses gregos, espantava os algozes e trazia algo apaziguador, algo ao mesmo tempo celeste e terrestre.  Os diabos fugiam e se descobria sua face oculta, sua beleza, sua momentânea integridade.  No encontro de coração a coração os diabos não ficam. Abrem o espaço para o amor e a justiça. Por isso tantas pessoas marginalizadas encontraram na presença de Olímpia a força para viver, levantar-se e seguir o caminho do resgate da vida.

Ao final da leitura do livro um sentimento de profunda gratidão e beleza tomou conta de mim. Gratidão à Elaine, à querida Olímpia e a tantas pessoas que no anonimato sustentam a vida e anunciam a grandeza do amor, único capaz de curar os corações partidos e renovar a face da terra".

Contato Elaine: 91516066

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

terça-feira, 15 de outubro de 2013

O sacialismo

O psicólogo Bruno Simões fala sobre o trabalho com os indígenas em São Paulo e também sobre o "sacialismo" um forma nova de pensar a vida...


quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Veja como foi o Dia do Saci em Florianópolis


A falta de uma política cultural na cidade de Florianópolis ficou evidente nessa quarta-feira, 31 de outubro. Uma caminhada pelo centro com um grande Saci Pererê já teve o efeito de enfeitiçar e parar um grande número de pessoas, interessadas em simplesmente fruir alguma coisa boa que só a arte e a cultura viva podem dar.

Numa promoção da Revista Pobres e Nojentas e do Sintrajusc (trabalhadores da justiça federal), com o apoio do Sindicato dos Bancários e do Sintraturb (motoristas e cobradores do transporte público), um pequeno grupo celebrou, na Esquina Democrática, o Dia do Saci Pererê, moleque protetor das matas desse imenso Brasil.

Num dia de vento sul, típico de sacis, o centro da cidade, por algum motivo mágico, estava cheio de crianças. Arrastadas pelas mães que tinham pressa, elas batiam pé e insistiam em parar para ver e brincar com o Saci. Profundo encantamento com as histórias do molequinho, deliciosa alegria com o chapeuzinho vermelho na cabeça. Um  menino em particular, encheu de emoção todo mundo. Abraçou-se ao Saci num abraço apertado, como se tivesse encontrado um velho amigo e, encantado, recusava-se a soltar o Saci, enchendo-o de carinho. Seu rostinho enfeitiçado era puro deleite. E essas são as coisas que tornam todos os percalços para um ato dessa natureza totalmente insignificantes.

Durante três horas, os manifestantes contaram histórias, distribuíram panfletos, cantaram, dançaram e fizeram estripulias, bem ao estilo do Saci, tornando a tarde uma alegria só. Como a Felipe Schmidt é uma rua de passagem, de compras, o povo por ali anda apressado, mas nesse 31 de outubro foram as crianças que deram o tom. Seguraram o passo e se deliciaram com o Saci. A brincadeira também contagiou a gente grande que, num primeiro momento, passava desconfiada, olhando de revés, mas, sem poder conter-se diante da alegria, voltava, pegava o panfleto e posava para uma foto com o Saci. "Vocês estão de parabéns. Isso é o que deveria ser feito nas escolas. Levar nossa cultura para as crianças conhecerem", disse uma professora aposentada que se deixou ficar no ato, cantando e brincando com o Saci.

E assim, na tarde emburradinha de vento sul, as gentes de Floripa que corriam apresadas e sérias, não tiveram outro jeito que escancarar o sorriso. Coisas de Saci.   

Veja o vídeo 


segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Conhecedores de Saci

O repórter Rubens Lopes esteve em Botucatu , interior de São Paulo, onde se sabe que é morada de Sacis. Ele entrevistou pessoas que já tiveram contato com o molequinho. Acompanhe e divirta-se.


sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Vem aí o Dia Nacional do Saci Pererê...



Preparem seus barretes vermelhos e as estripulias  A revista Pobres e Nojentas promove atividade no centro da cidade de Florianópolis (esquina democrática), no dia 31 de outubro. Celebração do Dia do Saci Pererê e da cultura nacional. Participe!!!

Conheça a ideia do Dia do Saci como luta anticolonial

Até os anos 60 a vida da gente era completamente imbricada com a natureza. As grandes cidades ficavam muito distantes e as crianças vivenciavam toda a beleza de conhecer e compartilhar as figuras míticas, moradoras das florestas e dos cantos escuros do lugar. Desde pequenos, os meninos e meninas aprendiam que no meio da noite vagava um negrinho, pastoreando uma boiada, e que se alguma coisa se perdesse dentro de casa era só acender uma vela, e o negrinho ajudava a encontrar. O negrinho do pastoreio era visto nas noites de chuva, quando os relâmpagos riscavam o céu, imponente, no seu baio, cavalgando no rumo das estrelas.

Nas tarde de inverno, quando os redemoinhos varriam as ruas, a gurizada saia como foguete, com suas garrafas de bocas abertas, buscando aprisionar os sacis pererês. Porque afinal, desde sempre aprendiam que o negrinho de uma perna só costumava estar sempre no meio do redemoinho e só aí, quando estava distraído, girando no vento, é que se podia pegá-lo. De resto era sempre um tal de fazer estripulias, batendo janelas, quebrando as louças, levantando as saias das moças. O Saci é guri frajola, serelepe, cheio de alegria e de liberdade.

E se vinha a noite fechada, as crianças entravam em casa, porque sabiam que lá fora, na mata, haveria de andar o boitatá, a cobra de fogo que come os olhos dos bichos, ou ainda o lobisomem, buscando sangue fresco, e o curupira, arrastando os pés virados, procurando pela mula-sem-cabeça. Esse era um universo conhecido e reproduzido nas escolas, na família, nas rodas de conversa ao pé do fogo.

Mas, com a consolidação do modo capitalista de produção no Brasil, que começou a apertar os laços no final dos anos 50, outra dominação foi tomando conta da vida das gentes: a dominação cultural. Já não bastava mais importar o jeito de produzir, a maneira de fazer as coisas, mas era necessário também copiar a cultura daqueles que os poderosos julgavam ser dignos de confiança. Foi assim que se introduziu a moda, com a calça jeans, a minissaia, ou a música, com a introdução da guitarra elétrica e o rock, abafando de vez a marchinha, o xaxado, o baião e a vaneira. No cinema, dava-se adeus aos musicais inocentes e aos filmes do caipira Mazzaropi, recheados da vida nacional. Era chegada a hora de Hollywood e seus enlatados repletos de ideologia, colonizando as mentes. Os faroestes estadunidenses endeusavam os cowboys e demonizavam os índios. Os filmes de ação apresentavam os soldados estadunidenses como heróis, salvando o mundo dos  horrores das guerras, dos comunistas, e os dramas consolidavam a certeza de que bom mesmo era viver em apartamentos com carpete, fumar Malboro e encontrar o homem dos sonhos, que seria branco, alto e de olhos claros.

A partir daí foram-se ocupando os territórios mentais. As cidades cresceram, se modernizaram, e as gentes se faziam cada vez mais parecidas com aqueles que, de certa forma, já dominavam no terreno da economia e da política. Bom mesmo era cantar em inglês e não foram poucos os jovens cantores brasileiros que iniciaram suas carreiras cantando na língua estrangeira. Um bom exemplo foi Morris Albert, que fez sucesso no mundo todo com a música “Feelings”. Cantar em português era coisa de brega. Nas festinhas a juventude enrolava um inglês que sequer se entendia. Papagaios.

O conceito de colonização diz que essa situação se faz real quando se conquista um território e se estabelecem novos moradores de acordo com o desejo dos que dominam. Pois foi exatamente isso que aconteceu com a gente. Nas cabeças das crianças, desde a mais tenra idade, foram sendo plantados novos conceitos, totalmente alienígenas. E esse tipo de controle chegou também no campo dos mitos. De repente, já ninguém mais falava em Saci, Curupira, Boitatá, Mula-sem-cabeça. Pela via do cinema cresceu a figura do vampiro e das festas estadunidenses. Uma delas é o Dia das Bruxas.

Até uns 20 anos atrás o tal do “Raloim” era celebrado apenas nas escolas de inglês, o que até tinha certo sentido, uma vez que quando se aprende uma língua há que se aprender algo da cultura do povo. Mas, depois, de mansinho, a festa foi se imiscuindo na vida cotidiana dos jardins de infância das escolas públicas e particulares, espaço de terra virgem, onde a colonização mental tem uma força tremenda. Sem que as famílias percebessem, os elementos mais enraizados da cultura estadunidense começaram a fazer morada na vida da criançada brasileira. Abóboras, a lenda do Jack, enfim, todos os elementos da belíssima lenda de origem celta que foi trazida aos Estados Unidos pelos colonos ingleses. Coloniza-se a cultura e movimenta-se a máquina do capital.
Ao contrário do significado cultural e místico que o Halloween tem nos Estados Unidos, aqui, ao ser transferido de forma artificial, o tal “dia das bruxas” nada mais é do que uma data a mais para vender coisas. Desafortunadamente, essa colonização mental não acontece unicamente no Brasil, ela toma conta também de quase todos os países latino-americanos, onde se pode ver a indefectível abóbora nos 31 de outubro de cada ano.

No Brasil, um grupo de ativistas da cultura do interior de São Paulo começou desde há anos um importante trabalho de conscientização sobre a história da cultura nacional. Grupos como a Sociedade dos Observadores do Saci, a Sosaci, tem dado contribuição importante nesse processo, produzindo vídeos e outros materiais educativos visando recuperar os antigos mitos e lendas da cultura indígena e negra. Levando esse debate por todo o país, os militantes da Sosaci querem que seja instituído o dia 31 de outubro como o Dia do Saci, fazendo com que nosso moleque, de raiz indígena e negra, vença de uma vez por todas a dominação cultural do “raloim”, como bem atesta o manifesto do grupo. “Nós, brasileiros, temos nossos próprios mitos, que não ficam nada a dever a esses importados, comerciais, que são usados para anestesiar a auto-estima do nosso povo. Respeitamos os mitos dos outros, mas não queremos que eles sejam usados pela indústria cultural como predadores dos nossos. Cada vez mais, muitos brasileiros começam a compreender isso.

Uma prova são  eventos como “O Grito do Saci”, realizado em São Luiz do Paraitinga, Estado de São Paulo, que atrai muita gente e cria uma catarse geral, uma lavação de alma. Outra prova é a onda de adesões que a Sosaci (Sociedade dos Observadores de Saci) vem recebendo de vários pontos do país. O Saci, a Iara, o Boitatá, o Curupira, o Mapinguari e muitos outros brasileiros legítimos estão aí para serem festejados, sem espírito comercial, como nossos legítimos representantes no mundo do imaginário popular e infantil”. E assim é.


A discussão que foi criada em torno da celebração do Dia do Saci em nada tem a ver com a xenofobia ou o desrespeito a outros povos. Momentos como o Dia dos Mortos no México, o Inti Raimi na América Andina e o Halloween nos Estados Unidos representam a essência cultural de cada um dos povos que os reverenciam. Pois a celebração dos mitos autóctones seria justamente a retomada do nosso território cultural que há tanto tempo vem sendo invadido e colonizado. Respeitar e dialogar com as demais culturas é rico e saudável, mas o preço disso não pode ser a destruição das nossas memórias ancestrais. 
O campo da cultura é sempre um espaço muito mal cuidado pelos movimentos sociais e sindicatos de luta. Faz-se muita política, discute-se o capitalismo, mas muito pouco se discute o pilar de todas as mudanças que é o imaginário popular, a cultura. Desde aí se pode avançar com muito mais eficácia no processo de transformação da sociedade. Se desde bem pequenas as crianças tomarem contato com a beleza que vive no seu próprio espaço de vivência, muito mais fácil será trabalhar conceitos como soberania, liberdade, pensamento crítico, transformação.

A proposta que toma corpo sobre a instituição do Dia Nacional do Saci não é pueril, muito menos folclórica. É uma resposta inteligente e criativa a um longo processo de colonização mental que impera no nosso país desde a invasão européia. Destruíram muitas culturas originárias, impuseram determinadas crenças e hoje, buscam homogeneizar a cultura. Mas, por todos os cantos do Brasil se levantam os amantes do saci, do Curupira, do Boitatá, de Iara, Mãe d´água, Boto cor-de-rosa. Todos juntos prometem vencer o culto à abóbora, fazendo uma grande festa com carne seca, mandioca e viola. Porque nossa cultura autóctone tem beleza demais para se render aos interesses do capital.

Mas, para isso, é preciso que cada brasileiro faça sua parte. Pais e mães precisam retomar as velhas histórias, escolas devem ensinar os antigos mitos e toda a gente deve celebrar esse dia 31 de outubro como o dia do Saci e de todos os seus amigos. Para participar do abaixo assinado, entre na página da Sosaci e dê o clic: http://www.sosaci.org/abaixo-assinado.htm.

Enquanto isso preste muita atenção quando passar por um bambuzal. Ao ouvir os barulhinhos de “cloc, cloc, cloc”, atente-se. São os sacis nascendo. E estão vindo aos milhares, pulando em uma perna só, fazendo bagunça na proposta de destruição cultural que o império tenta nos impor. O Saci vive e está bem aí, do seu lado. Acredite! 

Publicado originalmente na revista Novo Olhar.