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sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

O Museu do Índio é história...





Fotos: Ricardo Casarini

Contra o “negócio” Copa do Mundo, a beleza e a força do mundo indígena se levantam

1556. Rio de Janeiro. Território Tupinambá

No meio da mata os Tupinambás espiam a baia. Desde há muito tempo (1502) que por ali havia chegado uma gente estranha. Traziam cruzes e armas que cuspiam fogo. Por anos foram empurrando os nativos para longe da praia, expulsando das terras que ocupavam em paz e destruindo seu modo de vida. Muitos tinham sido mortos, outros escravizados e uns poucos se embrenhavam para dentro da floresta, ainda livres. As batalhas eram frequentes, mas desiguais. Em 1554, um jovem índio chamado Aimbiré, filho do cacique Kairuçu, depois de ver o pai capturado e morto por conta dos maus tratos na fazenda de Brás Cubas, em São Vicente, consegue fugir do cativeiro e começa a reunir-se com chefes de grupos indígenas que ainda andavam livres pela região. É ele quem vai costurar uma aliança histórica de resistência. Naqueles dias andavam pela baia também os franceses, loucos para abocanhar riquezas. Os Tupinambás – que nos tempos da invasão dominavam todo o litoral - por algum motivo, acreditaram que aqueles poderiam ser amigos e se aliaram a eles para expulsar os portugueses. Lograram um pacto com os Goitacazes e os Guaianases, e essa parceria se configurou na famosa Confederação dos Tamoios, liderada por Aimbiré. Os indígenas pelearam por mais de 10 anos contra os portugueses. Traziam na pele a marca da opressão e queriam suas terras de volta.

Em 1565, Estácio de Sá desembarca perto do que hoje é o Pão de Açúcar e começa dali a resistência portuguesa contra os franceses e os indígenas. É quando funda a vila de São Sebastião do Rio de Janeiro. Com a ajuda do padre Anchieta, os portugueses vão se misturando a outras etnias indígenas, conquistando amizades e enfraquecendo a Confederação. Naqueles dias a coroa não atinava perder o comércio do pau-brasil, abundante na região. Por dois anos deram batalha aos indígenas. Esses eram chefiados pelo valente cacique Aimbiré, que conduzia os guerreiros pelas canoas através da baia da Guanabara em duros confrontos contra os invasores. Ainda assim, Estácio de Sá seguia distribuindo terra aos amigos portugueses, visando fortalecer suas posições. Em 1567, os portugueses conseguem abafar o movimento indígena e expulsam os franceses da região. A Confederação dos Tamoios é derrotada, os povos originários do lugar são dizimados, as lideranças caem nas batalhas, e poucas famílias conseguem escapar pelo mato, garantindo assim a continuidade do povo indígena na região.

2006. Rio de Janeiro. Ocupação Guajajara

No meio dos prédios os Guajajaras espiam o grande estádio do Maracanã, templo de um esporte que chegou ao Brasil pelas mãos dos ingleses, num tempo em que a Inglaterra era dona do mundo. Remanescentes dos velhos guerreiros da Confederação dos Tamoios, os indígenas se embrenham na cidade maravilhosa para recuperar o que acreditam ser seu: uma pequena fatia de território. O mesmo espaço que foi palco da disputa sangrenta entre portugueses e tupinambás nos primeiros anos de invasão. O lugar em questão é um velho prédio localizado ao lado do estádio, que de 1953 até 1977 abrigara o Museu do Índio, criado por Darcy Ribeiro para ser justamente um espaço onde o homem branco pudesse compreender o modo de vida dos povos originários.

O território onde está o prédio tem larga vinculação com os indígenas. Primeiro, era o seu mundo original. Depois, com a vitória portuguesa foi passando por várias famílias até que em 1865, o então proprietário, Duque de Saxe, doou a grande mansão que construíra para que o governo federal a transformasse em Centro de Pesquisa sobre a cultura indígena. Nada aconteceu. A casa acabou abrigando a Escola Nacional de Agricultura e só décadas depois sediou o antigo Serviço de Proteção ao Índio (SPI). Quando o SPI foi transferido para Brasília em 1964, o prédio passou para a mão dos militares. Foi só em 19 de abril de 1953 que o casarão retornou para a vida indígena, quando Darcy Ribeiro instituiu o Dia do Índio e criou ali o museu.

Mas, o espaço não ficaria muito tempo dedicado ao abrigo da história indígena. Em 1977 o museu é transferido para o bairro do Botafogo e o prédio passou para o controle da Companhia Nacional de Abastecimento, que praticamente o abandonou. Ao longo dos anos, a velha casa foi ruindo e nunca sequer foi tombada pelo Patrimônio Histórico.

Só que para os indígenas aquele lugar é espaço sagrado, templo de resistência e foi assim que em 2006 cerca de 20 pessoas – indígenas de várias etnias - decidiram ocupar o prédio, dispostos a fazer dali um ambiente de acolhimento para todos os irmãos que chegam à cidade maravilhosa, além de guardar a memória ancestral das gentes que viveram naquele território desde os tempos imemoriais. A casa foi tomada e começou a batalha pelo tombamento e recuperação. Desde então as comunidades originárias vem travando grande batalha institucional para manter o prédio, criando um polo de produção de cultura e de conhecimento sobre os povos originários. Mas, a exemplo dos tempos da invasão, novos Estácios de Sá armam suas esquadras e dão combate aos indígenas. Ao que parece, nada muda nas terras de Pindorama.

2012. Rio de janeiro. Copa do Mundo

Pois em julho desse ano, completamente surdo aos desejos dos povos indígenas e dos movimentos sociais para que fosse feito o tombamento do lugar, o governo federal vendeu a área ao governo do Rio de Janeiro. A proposta do governador Sérgio Cabral, singela, é derrubar o prédio para que sirva de espaço de mobilidade para as pessoas que virão assistir aos jogos da Copa do Mundo de 2014. Mais uma vez, a cultura indígena sendo solapada em nome de um deus estranho: nesse caso, o dinheiro.

Hoje seguem vivendo no prédio perto de 20 pessoas, representando etnias de diversas regiões do país: Guajajara, Pankararu, Xavante, Guarani, Apurinã, Fulni-ô, Pataxó e Potiguara, entre outras. Várias casas foram erguidas no lado de fora, uma vez que o prédio principal está em ruinas, apesar de servir para algumas atividades. A proposta dos ocupantes é recuperar o prédio e transforma-lo na primeira Universidade Indígena do país. Atualmente já são ministradas aulas de língua Tupi Guarani, inclusive para professores universitários e acontecem manifestações culturais, rituais, pinturas de corpo, feitura de comidas típicas das etnias na cozinha coletiva, ensinadas medicinas nativas e contadas histórias das tradições indígenas. Segundo as lideranças vivem mais de 30 mil índios no espaço urbano do Rio de Janeiro e o casarão deverá ser também um ponto de referência para a sobrevivência da cultura de todos eles.

Nesses dias, quando a demolição se aproxima, muito mais gente está se unindo aos moradores originários, tentando fazer pressão para que o governo estadual reverta a situação. Já foram feitas audiências públicas na assembleia estadual, caminhadas, protestos, ações judiciais. Tudo o que dá para fazer dentro da ordem burguesa. Mas, nos governos, todos estão surdos. Para se ter uma ideia do que pensam basta espiar a fala do Superintendente Federal de Agricultura no Estado do Rio de Janeiro, Pedro Cabral, em entrevista aos jornais: “A memória dos índios será preservada, talvez com uma loja de artesanato para eles venderem seus materiais”. Para eles, índio é folclore. Já Sérgio Cabral insiste: “vamos derrubar”. Mas, na aldeia Maracanã, o povo segue em resistência.

E tu, cara pálida?

A verdade pode soar incômoda, mas, índio, no Brasil, é estorvo. Por conta disso, eles são assassinados, estuprados, dominados, chutados, queimados, escondidos, degradados. Só que nem sempre foi assim. Antes da invasão dos portugueses os grupos étnicos, mais de 200, iam construindo suas vidas, dentro dos limites de suas culturas. Vivendo em terras férteis e abundantes não chegaram a constituir uma civilização como os astecas, incas e maias, premidos pelas dificuldades geográficas. Eram caçadores, coletores, e sentiam-se livres na imensidão das terras tropicais. A chegada dos estrangeiros colocou o mundo de cabeça para baixo, todo um modo de vida ruiu. Com os portugueses vieram a cruz e o arcabuz, exigindo a fé num deus estranho e impondo a escravidão. Estarrecidos diante da violência dos homens de além-mar, os habitantes originários dessas terras foram se embrenhando no interior. Os que não conseguiram foram exterminados. E assim foi se fazendo esse imenso Brasil. O índio era um animal sem alma que não servia sequer para ser escravo. Por isso, o extermínio, o genocídio.

Com o passar do tempo, as etnias que se embrenharam pelo interior também foram sendo encontradas. Com a chegada dos imigrantes, as terras que eram espaços de liberdade, começaram a ser aradas e escrituradas, passavam para outras mãos, viravam mercadoria, coisa que se compra. Na solidão das noites, os grupos indígenas que tinham sobrevivido ao massacre dos primeiros tempos também foram sendo destruídos, um a um. Eram chamados de bugres, selvagens, animais. Precisavam ser “civilizados” para que aceitassem pacificamente o roubo de suas terras e vidas. Assim se criaram os “bugreiros”, os bandeirantes, uma gente que fez fortuna caçando e matando índio e que até hoje são apontadas como “heróis nacionais”. De novo, os habitantes originais da grande Pindorama eram um entrave para o progresso que representavam os imigrantes.

No início do século XX uma nova versão de contato começou a se fazer. Já não era mais o tempo da morte, do extermínio, mas da inclusão. Os indígenas começaram a ser procurados para que pudessem sair do seu estado “selvagem” fazendo parte da “civilização”. Com o lendário Marechal Rondon acabava-se a caça e começava um processo de integração. Foi ele quem criou o Serviço de Proteção ao Índio, em 1910, com sede no Rio de Janeiro, então capital da República. O objetivo era dar amparo e ajudar no processo de integração. Mas, apesar de todos os esforços e da boa vontade de muita gente do calibre de um Rondon, a integração do índio à sociedade que se criou a partir do genocídio nunca se deu de verdade. Fora do seu lugar sagrado, os povos originários seguiram sendo vistos como um estorvo. Os que se integraram na vida fora das matas, foram perdendo suas referências culturais, e ainda assim seguiram sendo discriminados. E os que aceitaram viver em aldeias, amargam até hoje a falta de direitos e de terra.

Apesar da história triste de morte, destruição e genocídio, os povos indígenas nunca se entregaram sem luta. Desde os primeiros dias da invasão, quando perceberam que ali estava a opressão, as comunidades resistiram. Resistem ainda hoje por todo o país, na luta pela demarcação das terras, contra a invasão de seus territórios, contra os megaprojetos que destroem a vida, pela garantia de seus direitos. E não é diferente o que acontece hoje no Rio de Janeiro. Tão pouco o que querem: um prédio, uma universidade, um espaço para que sua gente possa descansar a cabeça e cultivar sua cultura. Ainda assim, a sanha por lucro, dinheiro, negócios, prevalece. A Copa do Mundo, que pretende atrair turistas de todo o planeta, trará com ela mais um massacre.

Que fazer diante disso? Da impotência frente à fria lógica do capital? Talvez seja hora de evocar Aimbiré, a alma sagrada da Confederação tamoia, o desejo secular de liberdade das gentes indígenas para viver sua cultura, seus deuses, seu modo de vida. E, com essa força, iniciar uma rebelião que acerte o ponto mais sensível dessa gente que quer derrubar a aldeia Maracanã: o bolso. As formas? Haveremos de encontrar...

domingo, 14 de outubro de 2012

A cidade...




A cidade é sempre um corpo em mutação. Misturam-se o modernoso, o contemporâneo, as tendências vanguardistas. Mas, sempre, indefectivelmente, apareço o antigo, o que perdura, o que adormece nas memórias e, vez ou outra, assoma em cor e beleza. No centro de Florianópolis pode-se ver esse antigo, tentando respirar por entre os grandes prédios, colorindo-se, para ficar mais perto dos dias atuais. Essa cidade que tanto amo, me surpreende... a cada passo!

sexta-feira, 30 de março de 2012

Ruralistas querem legalizar o saque das terras indígenas


Os povos que viviam na terra chamada de Pindorama – quando chegou Cabral – se organizavam em grandes grupos, mas não chegaram a formar civilizações como aconteceu com os incas, maias e astecas, em outras regiões deste grande continente. Os daqui eram nômades e coletores. Viviam num espaço tão generoso em água e frutos que não tinham ainda encontrado necessidade de organizar cidades ou outras estruturas parecidas como já faziam os povos andinos, premidos pelo ambiente inóspito. Hoje, sabe-se que todos os povos do continente de alguma forma se conheciam e se encontravam, como prova o Caminho de Piabeiru, que sai do litoral sul de Santa Catarina até a região inca, ligando os dois oceanos. O que faz crer que outros caminhos havia e que muitos encontros de davam, não necessariamente de conquista. Enfim, as gentes viviam aqui do seu jeito e com sua organização. Essa não era uma terra vazia.

A chegada dos europeus em 1492, sedentos de ouro e riquezas selou o destino desses povos. Invadidos pelos espanhóis e depois pelos portugueses, as comunidades da região sul de Abya Yala (hoje chamada de Américas) foram sendo dizimadas. Os impérios aqui existentes acabaram vencidos militarmente e as comunidades mais afastadas caíram em dominó. Algumas demoraram mais porque como o continente era grande, o interior demorou a ser ocupado. Muitas são as páginas heroicas dos povos autóctones em defesa de seu território e de sua forma de viver, como os exemplos de Tupac Amaru, Tupac Catari, Nheçu, Lautaro e tantos outros. Mas, apesar das lutas e da resistência, a força bruta dos invasores – e depois dos já nativos  - foi mais forte.

O caldo de toda essa história foi a dominação. O homem branco assumiu a liderança do “mundo novo” e aos indígenas ficou relegado o limbo. Chamados de seres sem alma, eles primeiro foram escravizados e depois – quando os brancos viram que se não se prestavam a isso – dizimados. Só que apesar de todo o processo de violência muitas comunidades sobreviveram. Acossados pela necessidade de sobrevivência foram se adaptando de alguma forma ao mundo que lhes foi imposto, o que Darcy Ribeiro chama de transfiguração. Ocorre que essa decisão nunca significou o abandono de sua cultura. Em algum lugar ela permanecia viva e nas entranhas das comunidades ela se expressava. Foi assim que muitas etnias lograram sobreviver, como é o caso dos ayamara, quéchua, kichwa, mapuche, guarani e tantos outros.

Hoje, essas comunidades retomam sua cosmovisão e exigem o reconhecimento de sua cultura e da sua forma de organizar a vida. Muitas foram as batalhas travadas ao longo desses 500 anos e em alguns países como o Equador e a Bolívia, os indígenas conseguiram avançar ao ponto de garantir o Estado Plurinacional, que significa o reconhecimento de suas organizações e de seus territórios como regiões livres, conduzidas e governados por eles mesmos. Ainda assim, apesar de consolidado na Constituição, esse estado plurinacional ainda é uma construção. Basta ver o caso dos indígenas equatorianos que lutam contra as mineradoras que avançam sobre suas terras sem que seja respeitada a lei da consulta e do domínio do espaço pelos verdadeiros donos, que são os originários.Aqui no Brasil, por força da organização menos estruturada que a dos povos andinos, as comunidades autóctones ficaram mais expostas à destruição, e a dizimação aconteceu de forma acelerada. Com a chegada massiva dos imigrantes no século XVII, o interior, que ainda servia de abrigo a muitas etnias, também começou a ser invadido e a matança voltou a ocorrer. Os bandeirantes cumpriram esse triste papel. Visto como “heróis” pelos seus contemporâneos eles avançavam pelo Brasil adentro caçando e matando índios, “limpando” a terra para entregar aos imigrantes ou aos seus patrões latifundiários. Alguns deles são os incensados fundadores de cidades, homenageados até hoje, como é o caso de Francisco Dias Velho, que expulsou da ilha de Santa Catarina os guarani e fundou o que hoje é Florianópolis.

A solução encontrada pelos “bondosos” senhores das terras naqueles dias era confinar em reservas os sobreviventes. A proposta primeira era integrar. Uma ideia que parecia muito piedosa depois do massacre. Diziam que aos índios era necessário “civilizar”, ou seja, submetê-los a uma cultura e a um deus que não era deles. Assim, aprisionados como bichos, os indígenas ou se integravam ou morriam. Mas, a tal da integração também nunca foi uma tarefa fácil. Os indígenas eram vistos pelos colonos brancos como uma ameaça e o confronto sempre foi latente. Daí para o racismo foi um pulo. A integração jamais foi conseguida. Aqueles que saiam das reservas e se aventuravam na cidade, tinham “por castigo” sofrer todo o tipo de preconceito e discriminação. Raramente se livravam da marca do “selvagem”.


No início do século XX foi a vez da ocupação das terras amazônicas e, de novo, a proposta apresentada pelo governo era a de “civilização”. Trazer os “selvagens” para a vida civilizada, integrá-los ao mundo moderno, tira-los da mata e torná-los “gente e bem”. De novo, apesar das boas intenções, seguiu o longo processo de apagamento das culturas, senão pelos arcabuzes, pela integração. Ainda assim, muitos conseguiram seguir nos seus territórios, ainda que confinados nas reservas. Desde então é assim. Os indígenas que não migraram para as cidades  e ainda seguem seus costumes tais como suas formas organizativas são seres tutelados pelo Estado. Não têm autonomia. São vistos e tratados como crianças, incapazes de gerir suas próprias vidas. Seus territórios não lhes pertencem, são da União, e é o Estado quem decide onde e como eles ficam na terra.

Os argumentos para essa tutela seguem sendo os mais piedosos: “os indígenas não sabem negociar no mundo moderno, são bêbados, são vagabundos, são inúteis, são ladrões”. Ou seja, imputam ao índio toda a sorte de vícios e problemas que são típicos do homem branco invasor. É certo que os indígenas não são pessoas puras, desprovidas de toda a maldade (afinal, são 500 anos convivendo), mas daí a dizer que só por ser índio alguém vai conduzir de forma equivocada um pedaço de terra beira ao absurdo. Basta dar uma olhada nas fazendas que mantém pessoas escravizadas e ver quem as dirige: não são índios. São os latifundiários.

Assim, nesse sistema de tutelagem, as comunidades indígenas são mandadas para cá e para lá conforme os interesses dos governos de plantão. Poucos são os que conseguiram garantir a permanência no seu território original. Ocorre que para as comunidades indígenas o território não é descolado da vida. Não é a mesma coisa que para um cidadão ocidental que pode mudar de casa, de cidade ou de país sem qualquer alteração no seu modo de ser. Um indígena está conectado com o lugar de vivência, precisa de espaço para caçar, cultivar, nadar, adorar os seus deuses. A terra faz parte do seu ethos cultural, é parte constitutiva de sua cosmovisão. Por isso que tantas etnias sofrem a fome, a miséria e a morte – alguns chegam a preferir o suicídio. Levadas para reservas – que são cópias mal apanhadas do mundo branco - sem identidade, as pessoas sucumbem e precisam viver à custa do Estado como se fossem inúteis. Não o são. Foram expropriados de sua maneira original de viver e ainda têm de pagar o preço de uma decisão que nunca foi delas.

Como no Brasil as comunidades são espalhadas e pequenas, a organização também é bem mais difícil do que em países como Bolívia e Equador, onde a maioria da população é indígena. Nesse sentido, acossados por todos os lados, os indígenas de Pindorama mal conseguem se fazer ouvir, a não ser em casos específicos onde, inclusive, são mais uma vez apontados como selvagens, avessos ao progresso, como é o caso da construção da usina Belo Monte que vai alagar a terra de muitas comunidades e contra a qual as comunidades estão em luta. Os indígenas defendem seu território, mas são mostrados na mídia como bárbaros, enquanto os verdadeiros “bárbaros” passam por empresários de sucesso que só querem o bem e o progresso do país. A União, que detém a posse legal da terra, põe e dispõe conforme os interesses dos depredadores da vida e do país.

Pois agora, não satisfeitos com a entrega das terras indígenas para seus projetos privados e destruidores, os negociantes e empresários, de olhos nas riquezas das terras ocupadas pelas comunidades autóctones, deram mais um golpe na já combalida organização indígena. Levaram para o Congresso Nacional uma proposta que aparentemente é singela e democrática: tirar da União a decisão sobre as terras indígenas e passar para o Congresso Nacional. Assim, pensam eles, será mais fácil vencer as resistências que por ventura possam surgir quando da ocupação de algum lugar onde vivam os índios. Como agora há uma presidente permeável às demandas das comunidades eles viram que era melhor arrancar o mal pela raiz. Devem ter pensado: “vai que a presidente resolve dar uma de esquerda e proteger os índios. Melhor não arriscar”. A ideia então foi jogar a decisão para o Congresso Nacional onde os poderosos têm quase total controle.

Numa primeira vista pode parecer interessante. No Congresso a coisa parece mais democrática, a decisão precisa ser discutida, negociada. Mas, não é. No Congresso quem manda são os poderosos, os endinheirados. Na correlação de forças, os trabalhadores, os empobrecidos, os índios, os excluídos sempre perdem. As chances de uma proposta de ocupação de terra indígena são muito maiores se levadas ao Congresso, pois o lobby dos ruralistas é forte demais. E eles agiram apresentando uma proposta de emenda constitucional, o que significa alterar a Constituição que, com todos os seus problemas, tem alguns avanços no que diz respeito à questão indígena.

Pois, sem debate e sem uma discussão nacional, essa proposta leonina já passou na Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania. Os argumentos são os mesmos usados pelos invasores e destruidores do passado: os indígenas precisam se integrar. E, caso algum dia (que será bem breve) alguma terra precisar ser ocupada por algum projeto mirabolante ou mesmo por uma fazenda de bois, os indígenas terão “todo o direito” de se organizar, ir ao Congresso e debater. Ora, isso é o cinismo levado à última potência.

A emenda constitucional ainda vai tramitar e ser votada no plenário. Ela foi inscrita como PEC 215. É mais uma violência contra as já tão aviltadas comunidades indígenas. Caso seja aprovada, pode ser a pá de cal nas ainda sobreviventes comunidades que lutam pela demarcação de seus territórios. É por isso que a luta contra essa PEC precisa ser assumida pelos movimentos sociais populares, pelos sindicatos. Já basta de deixar a questão indígena para os índios. Ela é parte de cada uma de nós, está no nosso DNA, precisa ser uma luta nacional.



A batalha que agora começa a ser travada contra essa PEC também não deveria ficar no mais do mesmo. Não se trata de apenas impedir que a decisão sobre as terras indígenas seja apreciada no Congresso, muito menos de aceitar que siga como tem sido, na base da tutela governamental. Há que avançar. A decisão sobre as terras indígenas pertence aos indígenas. É hora de caminhar para a consolidação da autonomia real. É o momento de lutar pela retomada dos territórios originais, pelo direito à cultura e a organização da vida e pelo direito de gerir o seu território no que diz respeito às riquezas que ali estão. Essa não é uma luta fácil, mas tem de iniciar. O debate sobre os direitos das comunidades originárias precisa tomar o país para além das folclorizadas visões de um mundo puro, natural e perfeito. O mundo indígena tem seus próprios problemas, mas acabe às comunidades resolverem. Como em toda Abya Yala é chegada a hora das comunidades indígenas de Pindorama também se levantarem na luta pelo que lhes é direito. Todos contra a PEC 215, mais uma safadeza dos ruralistas.  Ainda é tempo de estancar a fonte do crime seguindo o que ensinava o inesquecível poeta palestino Mahmud Darwish: “rebelem-se... e permaneçam vigilantes, prontos para o combate”!

segunda-feira, 12 de março de 2012

No Egito: do outro lado da linha


Por José Newton Tavares
Chegamos ao Egito tarde da noite. A longa viagem do aeroporto até o hotel, aproximadamente 25 kilômetros, mostrava a dimensão do que nos esperava. Lá nada seria pequeno. Entre uma e outra conversa com o guia, que nos mostrava, pacientemente e em detalhes, lugares e monumentos ao longo do caminho, percebemos que estávamos diante de um mundo novo. Meu olhar se deliciava com aquele mundo “exótico”. Jamais eu havia saído da cultura ocidental. Jamais estivera do outro lado da linha. Estava agora dentro do “eixo do mal”.

Ali estava eu imerso no mundo muçulmano. Mundo esse que a mídia ocidental teima em demonizar, desfigurar, fazendo com que olhemos para ele com um olhar de mão única. Somos “obrigados” a vê-los a partir daquilo que nós temos e eles não têm. O que nos tira a delicia de vê-los a partir daquilo que eles têm e nós não temos. Mas é preciso estar do outro lado da linha para perceber isso. É preciso trocar de pele.

A grandiosidade do Egito não se resume a templos e estátuas magníficas, pirâmides e faraós. Há isso também. Essas coisas vão buscar os turistas comuns, aqueles que, ao viajar, nunca deixam a si mesmo na soleira da porta de entrada; nunca de despem das suas verdades eternas; nunca se deixam beber pelo mundo que visitam. “Os outros são os outros e só”. Esses são os turistas profissionais. Vão apenas visitar a “exoticidade” alheia e voltam como foram: cheios de fotos e vazios por dentro.

Eu, ao contrario, fiz um esforço hercúleo. Andei na contramão. Escutei histórias, contos e sons....percebi lugares, roupas e olhares. Como os antigos beduínos daquelas paragens desérticas, eu esperei que eles se mostrassem para além das chilabas e véus. Esperei que eles mostrassem seus rostos marcados pelo sol escaldante. Fiquei atento a seus mundos escondidos para além das nossas notícias organizadas e editadas pela CNN. E então a surpresa: um oásis de beleza se revelou. Uma humanidade escondida, preterida, sufocada em nome do capital.

Nosso guia, um muçulmano convicto, mas não radical, apaixonado pela sua cultura, nos brindou com um emocionante relato sobre a forma de viver de seu povo. “Vocês nos olham de fora e não entendem a nossa lógica” dizia. “Nós queremos apenas que nos deixem ser do jeito que desejamos. Não queremos a democracia ocidental. Ela não nos fará bem”. Com uma delicadeza de emocionar ele nos disse o óbvio: confundimos autocrático com autoritário. Acreditamos que nossa “democracia” ocidental é libertária. Será democracia? Liberdade para que?

O Egito é um país pobre, mas lá ninguém passa fome. Todos se ajudam. Há um senso de comunidade já completamente extinto em nosso “mundo livre e democrático”. A religião muçulmana, longe de pregar a “guerra santa”, estabelece o dízimo não a uma instituição ou a seu ministro. O dízimo deve ser dado a outro irmão em dificuldade. Com um detalhe: em segredo. Lá não se compra o céu. Ele é dado de graça. Presente divino. Basta alguns instantes dentro da mesquita na Fortaleza de Saladino para perceber isso: a beleza custa barato. Um olhar apenas e nos sentimos no paraíso, aconchegados, ternamente, nos braços de Alá.

Uma pequena história exemplificará. Eu e minha irmã estávamos comprando chilabas em uma pequena loja - numa espécie de shopping do islã - na delicada cidade de Aswan. Cada vendedor se esforçava para ganhar seu freguês. A insistência beirava a insanidade. Na correria para dar o troco, e não perder os clientes, nosso vendedor caiu e machucou a perna. Imediatamente todos os que, antes, de digladiavam em busca de freguês, acorreram ao irmão machucado. Ele parecia importante demais. Lá é assim: primeiro a pessoa, depois a mercadoria. Quão diferente do nosso mundo “democrático e livre”.

As ruas do Cairo também falaram, assim como suas roupas, seus gestos e buzinas (lá a buzina é uma forma de cumprimento). Há algo naquela cidade incompreensível para nossa cultura “democrática e livre”: o trânsito. Aparentemente não há lei. Os carros, em disparadas, entram onde podem e, pasmem, ninguém briga. As batidas são frequentes. Os carros, quase todos, são marcados. Ninguém mata nem morre por um para-choque amassado. É um carro, de plástico/lata. Apenas um carro. Porque brigar? Só pensa assim quem não inverteu valores. Lá amam-se as pessoas e usam-se as coisas. Quão diferente do nosso mundo “democrático e livre”.

E o que dizer das mulheres muçulmanas? Tão aviltadas pela mídia ocidental como oprimidas, relegadas a segundo plano, massacradas e esmagadas na sua feminilidade? Pergunte a elas. Foi o que fizemos. Qual a surpresa? Elas não se sentem oprimidas. A maioria se sente muito bem usando o véu e a chilaba. É a cultura. É seu jeito de viver. Isso em nada depõe contra sua feminilidade. Lá a maioria das famílias está integrada. Vivem juntas até a velhice na saciedade da comunidade, com os filhos e netos. A ideia do amor romântico não é preponderante. Casa-se pelo olhar.

A nossa ideia de relacionamento amoroso seria melhor ou mais livre? Nós que casamos por tesão seríamos mais felizes? A crítica é que lá os casamentos são arrumados, não há amor. E aqui há? As estatísticas dizem que no Brasil a cada oito minutos uma mulher é agredida por seu companheiro. A cada dia uma é morta por esse mesmo homem que lhe jurou “amor” eterno. As delegacias da mulher se entopem a cada dia. Sem contar as milhares que não denunciam, por medo. E a mulher ocidental, escrava de uma beleza inatingível, de uma ideia de amor idílica e criminosa, ainda acredita ser livre. Livre para apanhar ou morrer como quiser nas mãos do seu amado. Mas morrerá sarada, linda de morrer.

É preciso estar do outro lado da linha, verdadeiramente, para perceber que nós somos os escravos. Nós somos os coitadinhos. Nós é que estamos doentes. O mundo “livre e democrático” da democracia estadunidense ora imposta ao mundo é escravizante, desestruturante e assassina. Por isso eles, lá no Egito, não a querem. Sabem que nessa democracia os grandes valores da vida humana jazem sob o capital e a única ética que sobrevive é a ética do mais forte.

No “mundo livre” as mercadorias falam. Surpreso? Vá a um shopping qualquer. Fique atento e ouvirá o grito das mercadorias. A moça entra na loja, experimenta uma calça, mas ela não entra. A moça está acima do peso. Delicadamente a vendedora coloca a calça de volta na prateleira. A calça grita: “Moça! Você está gorda. Vá fazer uma lipoaspiração. Academia. Se vira. Você está feia. Depois volte. Eu ordeno”. Dito e feito. A moça investe tempo e dinheiro, sofrimentos e angustias. Faz regime. Caminhada. Academia. Fica gostosa. Volta na loja na ilusão de que agora ela vai comprar a calça. Ledo engano. A calça a comprou. Há muito tempo. A mercadoria a monitorou o tempo todo, silente, da prateleira. Escrava. Totalmente escrava. Mas não tem importância. Ela vive num “mundo livre”. Poderá passear linda e saltitante com sua calça nova, seu corpo escultural e uma estranha sensação de que nunca será amada, somente desejada.

“Aqui não sabemos o que é depressão” nos disse o muçulmano Abdel Aziz. Palavras estranhas para um ouvido ocidental. Nós vivemos numa angústia crassa. Os consultórios psiquiátricos estão lotados. Crise de ansiedade, crise de pânico, depressão. Essa é a maravilha do “mundo livre”. Preferimos um corpo sarado, malhado, a mostra, umbiguinho de fora, embora desfigurado por dentro. Retorcidos. Almas em escombros. Mas, “livres”.

O corpo e o sexo se tornam as vias régias para a felicidade. Consumir. Somos corpos que consomem corpos. Mas há algo errado. Os urologistas afirmam que 48 % dos homens acima de 18 anos sofrem de algum tipo de disfunção sexual. Aproximatamente metade das mulheres nunca sentiu orgasmo. Confundem a profundidade do amor com um ralo prazer sexual. Estranho. Se no “mundo livre” felicidade é consumir coisas e sexo e se nesse mundo nunca foi tão fácil consumir coisas e sexo, porque a metade dos homens e mulheres são infelizes? Incapazes de sentir o mais terno dos sentimentos: o amor? Mistérios do mundo livre.

Uma conversa rápida com qualquer egípcio médio, esses que estão olhando agora para um novo Egito, basta para perceber que eles vibram em outra frequência, lutam por outros valores e querem outros paraísos, não esses prometidos pela democracia liberal, mas o verdadeiro paraíso humano da bondade, fraternidade e liberdade. Claro que há problemas. Não estou idealizando e glamourizando a cultura muçulmana. Nem tudo são rosas, como em todo lugar. Apenas acredito que não cabe a nós, “democratas ocidentais”, interferir nas suas buscas. Eles têm outra lógica, outra forma de olhar o mundo. Portanto, tem também as soluções. A questão é deles. Porque raios deveríamos dizer o que é certo ou errado? Acaso estamos nós em melhores condições?

Olhar o mundo muçulmano através daquilo que eles têm e nós não temos muda tudo. É um exercício psicanalítico. Um mergulho no nosso vazio. Uma imersão na nossa dor e nossas mazelas. Não é para todos. Dói. Perceber que entregamos ao deus capital a nossa dignidade humana não é algo muito seguro. Perceber que eles ainda mantêm valores essenciais, nos incomoda. Para eles, quem deve mandar na sociedade é Alá e não o capital. Que heresia! Disso decorre toda uma outra forma de viver. Outra lógica. Outro olhar. Outra delicadeza. Mas para perceber isso é preciso sempre estar do outro lado da linha.