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terça-feira, 27 de julho de 2021

Covidagrobussinespopvideofinanceiro


Muito se fala da pandemia. O vírus novo que apareceu na China e se espalhou pelo mundo todo, causando morte e sofrimento. Um vírus que provoca uma doença feroz, capaz de deixar sequelas inimagináveis. Todos os dias, na TV, nos jornais, na internet, acompanhamos os números de infectados, de mortos, de recuperados, vacinas. No Brasil, onde já passamos das 500 mil mortes, temos até uma CPI para investigar o papel do governo federal no não/enfrentamento da pandemia. Mas, pouco se diz das causas. O que, afinal, provocou o aparecimento de um vírus tão mortal? 

O professor Gilberto Felisberto Vasconcellos tem uma teoria. Para ele as causas podem ser encontradas no tipo de agricultura que o capitalismo produz. Ele lembra que os seres humanos não conseguem mais escapar de uma rotina cotidiana que é o caminho entre o supermercado e a farmácia. Segundo ele, estamos presos nisso. As mesmas empresas que produzem sementes são as que produzem veneno e produzem remédio. Ou seja, os remédios são criados para enfrentar os males provocados pelas sementes e pelos venenos. É uma cadeia muito bem articulada. 

O agro é pop, diz a propaganda na TV. E é assim que a ideologia do capital vai tentando convencer a população de que aquilo que é produzido no latifúndio é bom para todos. Não é. “A origem do coronavírus está no sistema agrobussines”, diz Gilberto. Um sistema que é sustentado pelo petróleo e que apenas visa o lucro para alguns. A comida que vem daí é só um efeito colateral. E também não importa a essas empresas que a comida seja envenenada, que os frangos estejam entupidos de hormônios, que os peixes recebam antibióticos e que os grãos e vegetais estejam encharcados de pesticidas. Isso é bom porque ajuda a indústria farmacêutica. A população que se dane. 

Assim, para combater os efeitos dos venenos ali está a drogaria. E ela é a que vai fornecer o remédio para o câncer, o diabetes, o coração, a pressão alta e tudo mais que é gerado pelo modo de produção do capital. Uma jogada de mestre. 

O novo vírus junta a economia com a epidemiologia, em mais uma onda geradora de lucro. “O contágio da gripe está ligado ao contágio do capital. Vivemos uma gripe agrofinanceira. O agro é pop. O pop é money. O agro é pix, petróleo, CO2 e céu sujo”.

Gilberto lembra que os pesticidas que envenenam a comida têm origem no Napalm, uma arma química usada no Vietnam. Isso por si só já dá conta do tamanho do problema. Não bastasse a disseminação do veneno pela agricultura e pecuária,  a terra inteira ainda vive o drama do desmatamento, da política de terra arrasada. Tudo é devastado para que entre o agropop.

Assim que não precisa ir longe para saber as causas da aparição de um vírus como esse. A causa é econômica, social, cultural. Está visceralmente ligada ao que comemos e como produzimos a vida. Logo, muito em breve teremos outra epidemia, e mais outra, e mais outra. Mais doenças, e mais dor. 

Sendo assim, a única vacina possível é a morte do capitalismo. Ou isso, ou seguiremos como zumbis entre o supermercado e farmácia.


terça-feira, 25 de maio de 2021

O Brasil e os dias



É outono no Brasil. Os dias de maio são luminosos. Mas, para a maior parte da população os tempos são sombrios. A pandemia, que chegou em março de 2020, segue seu caminho de morte, sem parada, e sem que o governo federal invista em políticas de prevenção. Avançamos para 500 mil mortes em ritmo acelerado, e não há previsão de alteração no quadro de perdas e dor. Pelo contrário. O presidente da nação segue apostando alto no contágio de rebanho e faz ele mesmo a sua parte, circulando, aglomerando, sem máscaras ou cuidados. E, atrás dele, segue o bonde da negação e da ignorância.

O Congresso Nacional, depois de mais de um ano de omissão, decidiu instalar uma CPI para investigar se há ou não responsabilidade do governo na disseminação acelerada da doença. Passaram por lá os três últimos ministros da sáude, todos eles revelando o que o país inteiro já sabia. O governo não se preocupou em proteger a população, o governo incentivou o não uso de máscaras, incentivou o tratamento precoce com remédios inúteis para a Covid, não atuou para resolver a falta de oxigênio em Manaus – quando morreram centenas de pessoa, sem ar - e não está preocupado com a vacinação. Nenhuma novidade, portanto. 

Mas, apesar de tudo isso, mesmo com os depoimentos e as provas, nada acontece e ao que parece nada acontecerá. Isso porque a escolha governamental tem sido muito boa tanto para os cofres públicos quanto para os negócios da pequena fatia dos brasileiros que conforma a elite local. Os idosos – considerados como peso para a previdência – são os que mais morreram, somando mais de 70% das mortes, e esse dado foi comemorado pela Superintendência de Seguros Privados, pois diminuiria o chamado rombo das contas da previdência. Segundo a Fundação Getúlio Vargas, a morte dos velhos retirou cerca de cinco bilhões de reais da renda potencial das famílias, muitas delas tendo nos aposentados a única fonte de renda. Isso significa um número considerável de gente sendo jogada para a miséria. 

Para os empresários esses números são considerados bons também porque aumenta o exército de reserva e eles podem barganhar ainda mais os salários, exigindo mais dos seus trabalhadores e pagando menos. É um momento propício para aumentar os lucros.

Não bastasse isso, enquanto o país se distrai com os depoimentos da CPI gerando memes nas redes sociais, a casa legislativa segue arrochando ainda mais a vida dos brasileiros, seja votando leis que tiram cada vez mais direitos ou entregando a preço de banana o patrimônio nacional. A última agora foi a aprovação para a venda da Eletrobras, empresa brasileira de geração de energia elétrica. A historinha é a mesma de sempre: tem muita dívida, e empresa dá prejuízo, a conta da luz vai baixar. Ora, uma empresa estatal – a quinta maior do mundo - que cuida de um setor estratégico como o da energia não é uma empresa para dar lucro e sim para servir a nação. Qual empresa privada vai investir e adentrar no interior do país para atender as necessidades de pequenos consumidores? Nenhuma. 

Outro golpe que corre célere no congresso é a tal da reforma administrativa do ministro Guedes, que prevê acabar com o serviço público no país. É um desmonte total do estado, cujas consequências não são divulgadas para a população visto que a mídia comercial é totalmente cúmplice do projeto ultraliberal do governo Bolsonaro. 

Não vou nem falar nos inúmeros casos de corrupção envolvendo a família do presidente que, apesar de todas as evidências e provas concretas, não comove o judiciário brasileiro, igualmente cúmplice dessa tragédia nacional que vivenciamos. E, se está tudo bem para a classe dominante, dane-se o populacho. Essa é a tônica. 

Já vamos entrar no sexto mês do segundo ano da pandemia e por aqui menos de 10% da população está vacinada. Não há indícios de que as coisas possam melhorar, bem como não há indícios de que haja uma reação massiva. Num país onde a Covid-19 só avança, o medo ainda é o nosso maior inimigo. Porque além de não haver vacinas, não há também qualquer garantia de que haverá hospitais, leitos de UTI ou oxigênio para os infectados. É o cenário perfeito para a classe dominante – que se vacina nos EUA – avançar sobre os direitos dos trabalhadores e saquear a nação. 

Nesses tristes dias, nem deus é por nós! 



sexta-feira, 7 de agosto de 2020

No Brasil, segue a procissão dos mortos

No quinto mês do ano da peste chegamos aos 100 mil mortos no Brasil, enquanto nos EUA são 155 mil. Pelo visto, já, já, o nosso paisinho ultrapassa a matriz, para alegria dos que governam. Enfim, poderemos estar na frente do “tio” Sam. Seguindo a risca a lógica do sistema capitalista, os mortos que se mantenham em silêncio, pois “há que tocar a vida”. Não há novidade ou assombro diante da declaração presidencial, afinal, assim tem sido desde sempre. Os empobrecidos, os trabalhadores, aqueles que têm de seu apenas o corpo nu, esses não têm a menor importância. Não há sequer que pranteá-los. Desde que a máquina de tear foi inventada e os camponeses ingleses foram expulsos do campo para se venderem na cidade industrial que tem sido assim. Sem qualquer meio para prover a vida, sem nem uma nesguinha de terra, os trabalhadores foram morrer nas fábricas. Ali trabalhavam 20 horas ou mais e acabavam morrendo moços, de tanta miséria. Não passava nada. Os ricos tocavam a vida. 

Para quem quiser saber em detalhes sobre como era a vida no início do capitalismo, basta ler o luminoso livro de Frederich Engels “A situação da classe trabalhadora na Inglaterra”, ou para os mais renitentes com a leitura, ver o filme “Germinal”. Os trabalhadores sempre morreram como moscas. E passados séculos, nada mudou. Talvez o cenário, apenas. Se não há pandemia, há exploração, miséria, assassinatos. Basta uma olhada nesses programas imundos do tipo Datena. Os corpos caem sem parar. Isso se naturaliza porque as mortes parecem acontecer devagar e espalhadas, então, aparentemente não guardam relação. E mesmo quando as mães pretas, de crianças pretas, saem em passeata pelas ruas do Rio de Janeiro, ou de São Paulo ou de Florianópolis, pedindo justiça pelo assassinato de seus filhos, a maioria olha insensível: “não é comigo”, ou então, pior: “Alguma coisa deve ter feito pra morrer assim”. 

Agora, quando o novo coronavírus surgiu, já se sabia: os que iam morrer seriam os empobrecidos, os trabalhadores. Sem cuidado com eles, pereceriam. E não deu outra. Para o sistema, a morte de 1% da população significa coisa alguma, nada, logo, não há o que prantear. Toquem a vida, dizem para os que sobrevivem, sigam trabalhando e nos enriquecendo. E os que ficam tocam a vida, de novo, sem guardar relação com a lógica que os domina. É um massacre, não apenas de vidas, mas de consciências, porque os que não são tocados pela ceifadora seguem caminhando sem compreender porque tantos morreram. “Foi o destino”, “deus no comando” ou pior: “malditos comunistas”. 

A verdade é que não foi o destino. Foi o descaso. O governo federal minimizou a doença, sugeriu que ninguém ficasse em casa, tripudiou do uso da máscara, incentivou a aglomeração. Não fosse isso, muito menos gente teria morrido. Cuba, a pequena ilha caribenha, socialista, é um exemplo disso. Com 11 milhões de habitantes teve 88 mortes. O governo cuidou de seu povo. A Bélgica, capitalista, com o mesmo número de habitantes (11 milhões), teve 9.800 mortes. Uma diferença abissal, sendo que a Bélgica é rica e Cuba é um país bloqueado. 

No Brasil, alegando que não era coveiro, o presidente da nação se recusou a dar um trato unificado à doença. Jogou a responsabilidade para cada governador, cada prefeito. E todos eles, pressionados pelos empresários, foram entregando, de bandeja, as cabeças e os corpos dos trabalhadores brasileiros. Que se salve a economia. Danem-se as pessoas. Outras sobrarão para substituir. Vamos tocar a vida. 

Há projeções de que até outubro o país chegue aos 200 mil mortos. Para o sistema, nada. 1%. E para os que sobrarem também parecerá que foi muita gritaria por tão pouco. Afinal, as novelas serão retomadas, as aulas voltarão, o comércio reabrirá todinho, será lançado um novo Ifone, as academias de ginástica voltarão a ser o templo do corpo, a Amazon divulgará seus lucros estratosféricos, os bancos abrirão linhas de empréstimos e tudo ficará no passado. O sistema capitalista segue vigoroso, até fortalecido, afinal, morreram tantos velhos, quantas aposentadorias que já não serão mais necessárias. Será então a hora de criar um novo imposto, aumentar o preço dos produtos, alguma coisa assim que leve as pessoas a trabalharem mais para poderem manter a existência. Marx já dizia isso lá no século XIX: “para o capital, os trabalhadores devem ganhar não tão pouco, para evitar que morram, nem tão muito que os leve a preguiça”. Manter o trabalhador no limite. É e será perfeito. 

Os mortos? Ah, os mortos. Esses estarão bem, na glória de deus, que foi quem quis assim.