Mostrando postagens com marcador Artigas. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Artigas. Mostrar todas as postagens

domingo, 9 de fevereiro de 2020

Artigas, um caminho

Em tempos de Oscar, no qual se celebra a indústria do cinema, apresento nosso documentário feito a facão, produzido e financiado com recursos salariais próprios, meus e de Rubens Lopes. Quinze dias rodando o Uruguai, vivendo aventuras, raiva e alegria. Por fim, um trabalho que conta um pequeno pedaço da saga do povo da Banda Oriental, seguindo Artigas por mais de 500 quilômetros, à pé, na luta pela libertação. Esse é o nosso prêmio, ter conseguido trazer à luz essa linda história, ainda que sem recursos técnicos ou financeiros, porque, no capitalismo, a cultura é guerrilha.


quarta-feira, 7 de junho de 2017

Artigas, um caminho





Por Raul Fitipaldi

“Artigas, um caminho”, de Elaine Tavares é um documentário que percorre a estrada épica do Protetor dos Povos Livres, José Gervasio Artigas, líder e ícone da independência oriental e apresenta o trajeto que durante quase 600 km recorreram Artigas e seu Povo, de Montevidéu até Concórdia, na atual Argentina.

Elaine Tavares resume em 35 minutos, com entrevistas, belas paisagens e grande sensibilidade jornalística, o Êxodo Oriental, ou melhor, a Redota, nome dado pelo povo da Banda Oriental àquela gesta histórica que, iniciada em 23 de outubro de 1811, construiu o caminho da independência uruguaia.

É nesse momento resgatado pela jornalista e escritora que começam os processos libertários do Sul das Américas. A luta pela Reforma Agrária, a luta dos pobres do campo e das periferias, dos indígenas, dos negros e pardos, marchando em retirada estratégica, tão dolorosa como genial, para organizar a vitória final contra o dominador espanhol e as oligarquias nascentes.

“Artigas, um caminho” se oferece como um audiovisual leve, informativo e didático, que recolhe, na história desta região da Pátria Grande, o instante exato em que nossos povos do Sul, tomaram consciência de sua capacidade para conquistar a liberdade e derrotar a opressão.

O vídeo será apresentado no Festival Audiovisual do Mercosul, o FAM, dia 21 de junho, na sessão de documentários que começa às 16h e 30min. Artigas, um caminho será projetado junto com o documentário Som dos Sinos, de Marina Thomé e Marcia Mansur.

Ficha técnica:
Roteiro e direção: Elaine Tavares
Direção de fotografia e edição: Rubens Lopes
Som direto: Paulo Renato Venuto
Assistente de câmera: Antônio Martins
Duração: 31’54”


terça-feira, 23 de maio de 2017

Artigas, um caminho

o exército de Brancaleone...


Gina, a condutora, artiguista de valor


Sempre que nos encontrávamos nosso assunto preferido era o Artigas, o homem que conduziu o povo da banda oriental para a liberdade. Gina e eu somos orientais. Ela, do Uruguai e eu de Uruguaiana. Nossas histórias se misturavam com a história daquela região. Gina, carregando suas caixas de livro, armando a barrada da Expressão Popular, me provocava. “Tens que escrever o livrinho sobre o general”. E eu dizia: - vou escrever, vou escrever. Por vários anos fomos recolhendo tudo sobre Artigas e nas nossas conversas ele era sempre o foco. Ambas éramos apaixonadas por aquele homem. Então, em 2015 decidi fazer o caminho do “êxodo”, a saga do povo oriental que seguiu Artigas por mais de 500 quilômetros Uruguai afora, primeiro fugindo e depois voltando para a vitória.

Num carrinho Fiat, todo estuporado, confiando na providência, partimos, eu, Rubens, Antônio e Renato. Uma equipe minúscula, com uma câmera e a ideia na cabeça. Dois nunca tinham mexido com vídeo. Mas, não faltava vontade. Viajamos por quase 20 dias, atravessando o Uruguai. Buscávamos as pegadas de Artigas. Foi uma viagem fantástica, de risos, lágrimas e descobertas.

Na volta, fui ver a Gina. Queria contar pra ela tudo que tinha vivido. Foi uma tarde memorável. Ela já estava doente, mas sua alma era a de uma menina, encantada com todas as estórias. Rimos, tomamos café, falamos de Artigas, de toda a experiência, do meu encontro com sua alma libertária. Pedi a ela que me desse uma entrevista. Falando de Artigas. Ao longo de toda nossa vida juntas ela nunca quis me dar entrevista. Dizia que sua vida não era importante. Ora, pois. Mas, para falar de Artigas, sim, topava. Foi a primeira e última vez que ela fez um depoimento gravado em vídeo. Nós duas sabíamos o quanto aquilo era importante. Era Artigas.

Ela queria muito que o vídeo sobre o Artigas ficasse logo pronto, para que mais pessoas pudessem conhecer aquele homem que tanto nos arrebatava. E nós, com as parcas condições materiais que tínhamos, fomos fazendo o que era possível. Demorou demais.

No dia 2 de setembro de 2016 a Gina me fez essa sacanagem. Encantou. Não pode ver o vídeo pronto. Quase desisti do projeto. Estava difícil demais terminar. Mas, a Gina merecia que fôssemos até o fim. Com a parceria essencial do amigo/filho/irmão Rubens Lopes, o trabalho seguiu. Com sua mão firme na edição, o documentário sobre o Artigas foi tomando forma. E, no início desse ano, depois de várias batalhas, terminamos.

Hoje saiu a notícia de que o nosso vídeo, pequeno e intimista, foi selecionado para o FAM, a mais importante mostra de vídeos e filmes do Mercosul. Foi uma alegria sem fim. Finalmente Artigas vai ser visto por outros tantos brasileiros, tal qual a Gina queria, mostrado pelos nossos olhos. Ela é condutora. Ela é alma que move cada centímetro. Chorei bastante. Queria que ela estivesse viva para ver. É um vídeo singelo, como era a Gina, e eu sei que ela o amaria.  

Divido então esse contentamento, certa de que todos os nossos amigos lá estarão no dia da mostra, que será na UFSC, em junho. Para ver a Gina, para ver Artigas e para conhecer essa saga incrível do povo da banda oriental. A nossa história. A história da nossa libertação.

E, sei, que de algum lugar - talvez de dentro de mim - a Gina estará vibrando com seu riso doce, murmurando: mi general!!!! 


domingo, 16 de dezembro de 2012

Simón e Artigas


No Uruguai é assim. A gente vai andando pelas cidades, sejam elas grandes ou pequenas e lá está, indefectível, a estátua de José Artigas. Durante muito tempo, logo depois da independência, ele foi enxovalhado pelos dirigentes locais, dado como bandido, renegado, traidor. Mas, como a história sempre acaba vindo à tona, aos poucos a verdade aflorou e Dom José foi sendo conhecido como aquele que fora capaz de tornar o Uruguai uma nação. Com os índios charrua, tapes e minuano, os negros e os pobres ele formou um exército popular. Foi com essa gente valente que ele enfrentou a elite argentina, a cobiça dos ingleses e o desejo dos portugueses de se adonar da banda oriental. Naqueles dias de guerras intensas em que tudo era tão incerto, as gentes se debatiam entre se aliar aos portugueses, aos ingleses ou aos espanhóis. E, Artigas, nascido e criado nas tolderias indígenas, dizia: e por que não sermos livres? Por que não sermos nós mesmos?

Essa sua pergunta radical foi a que fez tanta gente andar com ele pelas planuras da campanha uruguaia. Famílias inteiras o seguiam, na batalha contra os invasores e contra os vende-pátria, sempre tão numerosos. E foi ele, mais a sua gente livre, os que garantiram a liberdade e a independência do Uruguai. Não foi à toa que a elite da época tratou de traí-lo e massacrar os que nele confiavam. Artigas tinha muito poder, andava como um igual entre os seus, era amado. Então, depois de formado o estado uruguaio, ele passou a ser uma ameaça. Queria reforma agrária, terra para os pobres, poder para os “de abajo” e uma pátria grande, unindo todos os povos. Os dirigentes trataram de empurrar Artigas para fora do país, tirá-lo da órbita do seu povo. Ele buscou abrigo no vizinho Paraguai, onde morreu, muitos anos depois, impedido de voltar ao Uruguai. Os que não foram com ele para o exílio tiveram destino pior, como os índios charrua. Atraídos para uma emboscada, foram massacrados em Salsipuedes.

Só mais tarde é que, necessitando criar um espírito nacional, a mesma elite que o repudiu, o trouxe de volta, já como cinza e o incensou como “pai da pátria”. Mas, para as gentes ele nunca deixara de ser o valente blandengue que construíra uma mátria, uma terra-mãe, espaço de povo livre. Por isso Artigas se apresenta em pedra, em cada praça uruguaia, a lembrar de um tempo em que índios, negros e pobres ergueram uma nação.

Dia desses, numa praça de Tranqueras, no departamento de Rivera, um pedacinho de gente chamado Simón Ernesto encontrou com uma dessas estátuas de Artigas. E, depois de subir por aqui e por ali, fixou seu olhar no rosto impávido do velho herói. Com a sensibilidade que só um “niño” pode ter, ele percebeu que o homem de pedra estava estranho:

- Mamãe, por que o Artigas tá com a boca pra baixo?

- Porque ele deve estar triste, meu filho.

- E por que ele tá triste, mamãe?

Paciente, Verônica, a mãe, explicou a história toda. Que, depois de lutar com tudo e todos pela liberdade do Uruguai ele foi obrigado a sair do seu país, indo morar em terra estranha. Também ressaltou que por toda a vida ele fora companheiro dos índios, dos camponeses, dos negros e dos pobres. E que, por isso, até hoje havia quem não gostasse dele. E ele, talvez, ali, fixado em pedra, ainda estivesse triste por tudo isso.

Simón Ernesto ouviu, silente, os olhos pregados no busto de Artigas. Pela cabecinha de menino, mais afeito a brincadeiras e estrepulias, a breve lição sobre seu país poderia ter ficado perdida entre o giro de uma pandorga e o grito de algum moleque na esquina. Mas não. Simón acercou-se da estátua, tomado pela ternura, e a abraçou, enchendo o rosto contrito de muitos beijinhos.

Só depois saiu correndo pela praça. Ele nem viu, mas o rosto de pedra se distendeu e o velho caudilho sorriu.