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segunda-feira, 4 de março de 2013

Antônio, um líder



É nesse dia 8 de março, às 18h, na Escola América Dutra Machado,  o lançamento do livro "Seu Antônio, a história de um líder", fruto do trabalho generoso da educadora Sandra Ribes junto á vida das comunidades Chico Mendes e Monte Cristo. Ué, mas no dia da mulher, a história de um homem?  É que nós, da Pobres e Nojentas, já conseguimos superar essa divisão. Mulheres e homens - se estão na luta por um mundo melhor - ocupam o mesmo patamar e suas histórias merecem o mesmo destaque.

Seu Antônio é mais um personagem que poderia passar invisível na história de uma cidade pródiga em homenagear carrascos e predadores. Ele é um homem simples, que vive numa comunidade empobrecida, não frequenta altas rodas, nem salões acarpetados. Sua trajetória se fez na estrada de chão, nas vielas da comunidade, sempre na batalha por direitos, por dignidade e vida plena.
São essas pessoas que a equipe da Pobres e Nojentas  faz questão de iluminar com focos de luz intensa. Porque é gente assim, como o Antônio, que verdadeiramente constrói a cidade e muda a vida de centenas de outras pessoas com sua força, garra e luta renhida.

Então, nesse dia da mulher, as mulheres da Pobres convidam homem e mulheres, gente que luta, para prestigiar esse lançamento. Não acontece em uma galeria chique, nem numa livraria "da hora". É na comunidade mesmo, espaço de Antônio e dos seus. O livro é a memória viva da luta das comunidades do continente. O livro é história real, façanha comunitária. Pode chegar no Monte Cristo e compartilhar, com amor e com ternura.

Escola América Dutra Machado - Bairro Monte Cristo - 18h - 08/03/2013   

domingo, 24 de junho de 2012

Ela, de Novo



Por Marcela Cornelli, jornalista

"Esse crime, o crime sagrado de ser divergente, nós o cometeremos sempre". Pagu

A Revista Pobres & Nojentas volta a circular pelas ruas de Desterro. Irreverente já no nome, sem papas na língua e com muito conteúdo crítico e de qualidade, ela se contrapõe, desde o seu nascimento em 2006, à mídia burguesa e conservadora catarinense, que atua sob o monopólio da RBS, afiliada da Rede Globo no Sul do Brasil.

Depois de um ano interrompido o projeto, devido a questões financeiras – não e fácil manter um projeto de mídia alternativa, principalmente porque muitos criticam a mídia burguesa, mas poucos são os que apoiam iniciativas que se contrapõem ao modelo do capital – a revista volta com sua edição de número 28.

As matérias dessa edição tratam da luta das empregadas domésticas pelo reconhecimento de seus direitos trabalhistas, da luta dos egípcios e dos chiapanecos no México para preservar sua cultura, traz uma análise sobre Florianópolis em ano de eleição municipal, denuncia o insaciável apetite da elite da Capital para privatizar espaços públicos e conta a história da criação de uma inédita cooperativa de comunicação em Santa Catarina, a Cooperativa de Produção em Comunicação e Cultura. A Pobres também traz duas crônicas e dois poemas, em edição dedicada aos companheiros de luta Uby e Mosquito, falecidos em Florianópolis no ano passado.


Assim como o Desacato, parceiro de muitas lutas, a Pobres & Nojentas vem mostrando ser uma proposta de mídia alternativa em Santa Catarina que dá voz aos empobrecidos e às comunidades que não são ouvidas pela mídia e/ou quando são ouvidas, o são de forma pejorativa como se as pessoas que ali vivem precisassem de caridade e não que são capazes de se organizarem e irem à luta pelos seus direitos.

A Pobres & Nojentas- Nojentas no sentido de quem não desiste nunca de buscar vida boa e bela para todos, não é, como o próprio nome sugere, uma mídia comercial. A Pobres é vendida de mão em mão, em uma peregrinação pelas ruas de Florianópolis, e, em eventos nos quais a equipe de jornalistas que a editam, todos voluntariamente, participam, leva-se o seu nome. Graças ao apoio cultural do Sindprevs/SC, ela é distribuída gratuitamente nas comunidades empobrecidas que participam das suas reportagens. E não se obtém nenhum lucro com ela, toda renda da venda é usada para editar o próximo número.

Foi na antiga padaria Brasília, que hoje já não existe mais para infelicidade de quem gostava de tomar um café e pão com ovo baratos no centro da cidade, logo ali do lado da Praça XV, que as primeiras ideias da Pobres nasceram das mãos de duas jornalistas e hoje editoras da revista, Elaine Tavares e Míriam Santini de Abreu, e de um grupo de amigas. Aos poucos, mais gentes foram se engajando no projeto. Foram lindas as parcerias com o Desacato também, sempre em busca de mostrar o outro lado da notícia, da informação, busca tão necessária para ajudar na transformação social. A Pobres é uma revista de classe, escolheu um lado na luta, o lado da classe trabalhadora, e a equipe que trabalha nela são jornalistas que acreditam que o jornalismo deva ser libertário, quebrando conceitos e abrindo caminhos para uma nova sociedade mais justa e igualitária. Jornalistas que acreditam que, por suas mãos entrelaçadas, podem ajudar a transformar a sociedade em que vivem. Que sabem que o jornalismo não é e nem deve ser parcial, porque o jornalismo da mídia burguesa também não o é. Jornalistas que entendem que sim, é preciso checar fatos e ouvir as pessoas, mas mais que isso, além de ouvi-las, deve-se ajudá-las a escreverem a sua própria história.

Muitos foram os sonhos e projetos de vida que a Pobres nesse breve tempo de vida ajudou a realizar. Foi com o apoio da Pobres que várias publicações foram lançadas, através da Companhia dos Loucos, como: Porque é preciso romper as cercas: do MST ao Jornalismo de Libertação, da jornalista Elaine Tavares; Mulheres da Chico, de Catarina Francisca de Souza, Daniele Braga Silveira, Janete Osvaldina Marques, Lídia Almeida, Maria do Carmo Apolinário e Jussara Fátima dos Santos, a Sara; Seres do Bem – retratos de viandantes, do jornalista Ricardo Casarini Muzy.; Uma Cidade na Memória, do jornalista James Dadam e Jornalismo nas Margens – uma reflexão sobre comunicação em comunidades empobrecidas, da jornalista Elaine Tavares.

Agora a Pobres está apoiando um novo projeto que contará a história de uma adolescente que teve a vida ceifada pela anorexia, doença que muito retrata o que a indústria da “beleza”criada pelo capitalismo está fazendo com nossos jovens, meninos e meninas.

Muitos foram os temas já trazidos pela Pobres como as denuncias sobre a criação do Costão Golf no Santinho; a falta de direitos básicos na cidade como moradia e saneamento básico; as lutas travadas contra o capitalismo que explora e destrói nosso meio ambiente e elitiza cada vez mais a cidade, expulsando os pobres dela. Trouxe reportagens desde a América Latina, Cuba e as lutas dos povos. Retrata a realidade de uma cidade vendida ao capital e que exclui seus filhos.

A Pobres veio ironicamente para se contrapor às revistas do tipo “ricas e famosas” , veio para contar a história de mulheres de verdade, de mulheres de luta, lindas de corpo e alma. Está aí há seis anos trilhando a estrada, tentando fazer a diferença na luta de classes, a favor da classe trabalhadora.

Para que este projeto possa continuar, agregar mais forças e efetivamente fazer frente aos meios de comunicação burgueses ele precisa do seu apoio.

Você pode conhecer mais o projeto pelo link na Internet do Portal Desacato: http://desacato.info/pobres-e-nojentas/

Para comprar e/ou assinar a revista e também ajudar a construir esse projeto entre em contato com a Pobres através do e-mail: eteia@gmx.net.

A revista é vendida também na banca da Praça VX, no valor de R$ 5,00.

Para assinar são 4 edições anuais no valor de R$ 25,00 reais (incluído as despesas com Correio).
 
Vamos seguindo de mãos dadas pelo caminho!

Porque para transformar é preciso lutar!

sexta-feira, 8 de junho de 2012

A praça do povo livre




Para Maria Medianeira


Já andei por muitos lugares surpreendentes no mundo. E também pisei espaços de muita beleza. Como esquecer a visão da Acrópole numa noite de lua cheia, logo depois de uma greve geral que sacudiu Atenas? Ou a deslumbrante da ilha de Patmos onde fica a caverna dentro da qual São João recebeu as revelações do Apocalipse? Também já tive a graça de contemplar as pirâmides do Egito, numa noite fria, de lua branca, num dos maiores espetáculos de som e cor que já vi. Também pude caminhar pelos templos egípcios ao longo do Nilo, com suas colunas imensas, cheias de notícias do passado distante. A cidade espanhola de Córdoba, memória do mundo árabe, Granada, Lisboa. Já pisei na Chapada Diamantina, no serrado mineiro, nas praias de Maceió, na pedra da Bruxa, e tantas outras paragens onde até a respiração pára, de tanta lindeza.

Mas, a cena que mais me emocionou até hoje foi a de uma praça no interior do Rio Grande do Sul, na cidade onde nasci. Tínhamos saído de Florianópolis – ao melhor estilo easy rider – em direção à fronteira gaúcha aonde iríamos levar as cinzas da minha mãe. Ela havia morrido em 1998, e seu sonho sempre fora voltar aos pagos. Mas, só em 2010 tínhamos conseguido as condições para tanto. Partimos no carro de uma amiga, eu, ela, meu pai, meu sobrinho e um amigo dele. Fomos devagar, parando aqui e ali. Dormimos em São Miguel depois de ver o show de luzes que mostra a saga de Sepé Tiaraju. Outro momento de encanto.

No dia seguinte já estávamos à margem do rio Ibicuí, onde minha mãe costumava nadar quando criança. Era ali que ela queria ficar para sempre, circulando de um lado a outro, misturada à grande energia cósmica. O rio faz divisa entre Itaqui e Uruguaiana, a cidade onde vim ao mundo. Então, nada mais natural que depois da bonita cerimônia a gente fosse para a terrinha, visitar velhos amigos do meu pai. Foi o que fizemos.

Uruguaiana segue sendo o que sempre foi. Uma cidade pequena, bem no estilo das cidades da banda oriental. Ruas largas, casas altas, calçadas espaçosas, árvores por toda parte. Foi bonito circular por ali, nas paragens da minha infância. Tudo continuava lá, apenas aparecia aos meus olhos adultos com outra força. Até o castelo que era meu sonho e que parecia grandioso, surgiu só como uma casa grande. Mas nada diminuiu o encanto. Tudo era emoção. Os amigos, os parentes, aquele ar.

Então, quando a noite chegou, veio a maior beleza. Decidimos encontrar uma amiga num bar em frente à praça central. E para lá fomos. A tarde já caia e a barra da noite se anunciava no céu de janeiro. Fazia calor. A praça era a mesma de 40 anos atrás. Mas havia uma novidade. Ela estava cheia de gente. Nunca vi coisa assim em toda minha vida. Cada canto da praça estava iluminado. Parecia dia claro. As crianças corriam por entre as árvores e os heróis de bronze. As mulheres passeavam tomando sorvete, famílias tomavam chimarrão. Era quase como a visão do paraíso. Havia música, risos, luz, cor. Todos nós fomos tomados por uma emoção indizível. Forte demais. Aquilo era comunidade. A imagem concreta de comunidade.

Sempre que quero expressar esse sentimento de vida comum, de comunhão, de partilha amorosa, me vem àquela cena. Nunca vi nada igual. E os meus olhos se enchem de lágrimas. Dentro de mim, que sou filha da banda oriental, assoma o mesmo sonho de meu amado Artigas - o general dos povos livres: a construção de uma comunidade onde todos vivam em paz, felizes e livres. Por um átimo, naquela noite, na feérica Praça de Uruguaiana, esse sonho pareceu real.