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quarta-feira, 5 de março de 2014

Um ano sem Chávez


















A vida na Sabana Grande

Fizemos uma volta em torno do sol, sem Chávez. Quando anoiteceu, abri uma cerveja, bem gelada, e fui sorvendo gole a gole. Como se estivesse de novo na Sabana Grande. Foi ali que descansei o corpo nos dias em que vivi a Venezuela de Chávez. Era 2006. Tinha reservado hotel aqui do Brasil, sem saber como era, nem onde se localizava. Tudo que sabia é que era em Caracas. Pois o Hotel Cristal era um desses hotéis de fluxo contínuo, que serve aos amantes do grande bulevar da Sabana Grande. Só por isso já aparecia belo aos meus olhos. Porque abrigava esses amores fortuitos, apressados, de delicado estilo, cheios de urgência. 

Na recepção, nos aguardava um mal-humorado Jesus, anti-chavista, portanto sem qualquer afinidade com seu homônimo, nazareno, que por certo amaria a revolução bolivariana. Achando ruim que chegassem tantos estranhos – e o que é pior, nem eram casais – o tempo todo ficou criando caso. Talvez não conseguisse conceber hóspedes normais, sem a marca do amor que urge se consumar. Os chegantes, alguns já intimidados com a simplicidade do lugar e com sua peculiar especificidade, se olhavam sem saber o que fazer. Mas, com o passar dos dias, tudo foi se acomodando, O hotel Cristal virou casa. O mau humor dos porteiros foi tirado de letra e alguns deles, como o Abrão e o Omar, viraram amigos. 

Saindo do Cristal, assomava toda a beleza do bairro onde ele estava situado: Sabana Grande. O bairro era um amontoado de barracas de lona e um universo caótico de sons de salsa, merengue e música llanera. E, bem ali, no coração da Sabana, estávamos nós, um pequeno grupo de catarinenses. “Cuidado! É muito perigoso! Não se desgrudem das bolsas! O povo aqui ataca com faca! Fiquem longe dos drogados!” Estes eram alguns dos conselhos do povo do hotel e de quem mais a gente encontrasse na cidade. Pois a Sabana Grande era um espaço de pobres, onde vicejavam os hotéis de encontros e as tascas, casas de shows com mulheres de preço bom. Pelas ruas, tão logo levantavam acampamento os trabalhadores informais, chegavam os mendigos, drogados, prostitutas e as gentes sem porvir que buscavam um pouco de amor, ainda que em braços e bocas alugadas. 

Mas, apesar de todos os avisos, ninguém ali teve problemas. Terminadas as funções do Fórum e as visitas a grande Caracas, voltávamos e nos aboletávamos em alguma mesa de um dos bares mais animados. Depois de algumas “polares” geladas, muito bem atendidos pelo simpático Jairo – chavista de coração - a gente vinha saltitando pela calçada suja, sem que ninguém interpelasse. Nenhum roubo, nenhuma agressão. Por conta desses paradoxos da vida, na perigosa Sabana, nosso refúgio era o Cristal. E assim, por tão frágil, não podia quebrar. Os perdidos do bulevar, num átimo de beleza, compreenderam a metáfora e nos deixaram em paz. Garrafadas, assaltos e confusões? Sim, tudo isso aconteceu, mas só depois que os catarinas já estavam seguros nas camas repartidas do Cristal.

Aquela vivência na Sabana Grande nunca mais saiu das retinas. Lembro até hoje o ranger do elevador do Cristal,  pequenino, fatigado de tanto levar os seres do bulevar rumo às camas do amor urgente. Era irascível. Sacudia, balançava, travava, demorava. Parecia triste. Não via mais aqueles olhos oblíquos de quem se esconde, aquele trote no coração de quem escapa da vida certinha, aquele suor assustado de quem sabe que vai viver uma delícia proibida, aquele tremor de mãos que anseiam por toques, aquele cheiro de corpo de fêmea e macho, fremindo de paixão. A velha engrenagem do Cristal estava a ponto de falhar. Na sua caixinha entravam e saiam todos aqueles viajantes estranhos, espantando os hóspedes fortuitos. Morreria o elevador se não pudesse ver florescer o amor, esse, feito de carne, dor e segredos. Ainda bem que os dias passaram rápido e, quando saímos, parece que ele retomou seu ritmo normal, sem paradas e sustos. Mas seu barulho ainda ressoa em mim. Saudade!

Aqueles foram dias de vertigem. A revolução bolivariana estava no seu auge. Por todo lugar a luta de classes se expressava. Anti-chavistas, chavistas, venezuelanos apartidários, sindicalistas. Tudo estava em ebulição. Era o Fórum Social Mundial e também havia gente de todo mundo, doida para ver e sentir as transformações que tinham começado em 1998, com Chávez.  Andávamos pelos bairros conhecendo os “simoncitos”, espaços para a educação infantil, as escolas novas, as estruturas para atendimento médico, os trabalhos das missões. 

Ficou nas retinas o Maracao, populoso bairro da periferia, misto de reduto português com venezuelanos da gema. Com Raul e Daniel, dois moradores locais, circulamos por ali, sentindo a força da transformação e o sentimento de profundo amor que as gentes tinham pelo “comandante”. Chovia forte e os estudantes se amontoavam nas paradas, entrando aos borbotões. Ao saber que ali viajavam brasileiros logo queriam saber de coisas. Faziam perguntas, contavam de suas vidas e confirmavam o que dizem quase todas as gentes mais humildes de Caracas. “Com Chávez, é bom!” 

Depois circulamos pelo “23 de Enero”, o famoso bairro que cerca Miraflores, o palácio presidencial. Dizia Daniel que até poucos anos atrás ninguém poderia andar por ali, assim, como fazíamos. “Era um reduto de violência, de assaltos, de gangues. Agora não, a comunidade assumiu o controle. A gente pode passear, os velhos podem ficar ao sol e as crianças brincam nas praças. Tudo isso só foi possível com o poder popular”. Dos milhares de apartamentos populares que compõe o bairro, assomavam, nas janelas, as cabeças dos mais ferrenhos defensores da revolução bolivariana. Foram eles que, no golpe de 2002, desceram rua afora até o palácio, prontos a defender com armas e com a vida o governo de Hugo Chávez. Aquele era um bairro mítico e não havia como não se arrepiar ao andar pela calle La Silsa , uma rua imensa, cheia de casas e muros pintados com grafites pró-revolução. 

É essa Venezuela, prosaica, que hoje me assalta, enquanto celebro a semeadura desse homem que marcou a vida da América Latina. Sinto o cheiro do Cristal, o barulho do elevador, a alegria da Sabana Grande, o olhar cheio de eternidades daqueles que acreditaram na revolução bolivariana, dos que o amaram e o amarão. Como eu! 

Um trago, comandante!  


sexta-feira, 19 de abril de 2013

Chávez sob a mirada popular

quinta-feira, 7 de março de 2013

Nuestra América seguirá...



Ele poderia ser tudo de ruim nessa América baixa: milico, nacionalista, populista. Exemplos já vivenciados, com grotescos resultados. O corpo grandalhão, a voz tonitruante, o enfrentamento sem papas na língua com o império. Típico de um bravateiro. Mais um dos tantos que já passaram por "Nuestra América". Assim, melhor era colocar as barbas de molho. Mas, o tempo foi passando e o milico, outrora golpista, foi se constituindo um dirigente capaz. O exército, que poderia existir para massacrar o povo, começou a atuar no trabalho comunitário. Criaram-se as missões, para as quais as pessoas foram chamadas a participar. E a Venezuela, que desde a derrota de Bolívar vinha sendo governada por predadores das riquezas do povo, começou a se levantar.  Aos poucos, aqueles que sempre tinham vivido como párias, foram se enchendo de dignidade. Dirigiam o que começou a ser chamada de "revolução bolivariana", porque Chávez chamara para si o discurso do velho libertador, Simón. A Pátria Grande começava a andar através da Venezuela, outra vez soberana.

Foram 14 anos com Chávez. Um tempo bom. Chamado de ditador, ele foi talvez o dirigente que mais passou pelo crivo do voto popular. Nenhum outro no mundo. Eleito presidente, ele prometeu uma nova Constituição. Chamou o povo para escrevê-la, depois a colocou em plebiscito. Venceu. Com a nova Constituição colocou-se então à disposição de outra eleição, já submetido à nova carta. venceu. E assim foi. A oposição tentou um golpe. O povo foi às ruas e o resgatou. Depois, a oposição chegou a conseguir as assinaturas pedindo a revocatória, a destituição do presidente. E isso é possível num país que agora tem como poder máximo o poder popular. Chávez submeteu-se outra vez à eleição. Venceu. Eleito três vezes presidente pelo voto da maioria das gentes. E ainda assim, os inimigos insistindo em chamá-lo de "totalitário".

Pois o "totalitário" governou com transparência, com liberdade, respeitando as leis burguesas. Não fez uma revolução armada, não aplastou os inimigos. Pelo contrário. Eles lá estão, na Venezuela, tramando dia e noite, na claridão do dia. Nunca foram molestados. Contra eles apenas a lei, a mesma lei que eles próprios fizeram. Só que para a direita que sempre comandou a Venezuela, a lei só valia quando fosse para seu bem. Quando uma empresa de comunicação perdeu a outorga por não cumprir a lei, andou por aí a denunciar: "censura, censura". Mais uma vez a má-fé. Mas, o povo atravessou tudo com força e participação. E o milico serviu às gentes, o nacionalismo caminhou para a soberania e o populismo foi hegemonizado pelos trabalhadores.

A Venezuela nova, popular, nacional, soberana ensinou sobre generosidade e integração. Derrotou a Alca, proposta estadunidense de nova colonização, criou a Petro Caribe, com a qual começou a distribuir equitativamente o petróleo, ajudando as pequenas nações da América Central e do Caribe, criou a Telesur, uma televisão latino-americana, o Banco do Sul, outra proposta de crédito às nações que ainda amargam a dependência. O país era como uma locomotiva novidadeira, derrotando o império, abrindo novos caminhos, espalhando a solidariedade de classe. E, devagar, porque afinal foram séculos de exploração e miséria, foi reconduzindo as gentes para a vida digna, na qual a participação era a pedra de toque.

Na Venezuela de agora são as pessoas que decidem as coisas. Na luta de classes diária. No enfrentamento cotidiano com a oposição. Vencendo dia-a-dia um leão. Chávez era o condutor. nem herói, nem pai, nem mito, nem nada. Um homem, nada mais, um companheiro. Um homem que caminhava com sua gente em busca de um esperado "meio-dia". Agora o condutor desse novo "trem" latino-americano morreu. para alguns, tão esperada morte. E chorar por ele não é, como dizem alguns, mitificá-lo de forma personalista. Chorar por Chávez é chorar pela ausência desse homem que, com tanta valentia, empreendeu a virada latino-americana. Um momento único na história desse continente. Nunca jamais vivido, a não ser nos sonhos de Martí, Sandino ou Bolívar. Ele merece essa reverência, com todas as suas contradições.

A vaga vermelha que ocupa as ruas da Venezuela nesses dias de dor é a prova de que Chávez era muito mais do que um homem amado. É a constatação da riqueza desses 14 anos com ele à frente do país. Não de forma solitária ou ditatorial, mas com as gentes, através das dezenas de missões que estão encarnadas na vida de cada venezuelano. Alfabetização,saúde, moradia, comida, segurança, tudo avançando, devagar, mas de forma segura. A Venezuela não rompeu com o capital, é fato. Ninguém jamais vai apontar o governo de Chávez como um governo socialista. Não o era. Tinha rasgos socialistas, estava pavimentando o caminho, e isso não é coisa para dez anos. Ainda mais quando é assim, sem revolução radical.

A morte de Chávez agora já não importa. Foi-se o homem, frágil, sua casca corporal. Ficam as ideias, os sonhos, as esperanças e, sobretudo, as concretudes, as coisas feitas, definidas, assentadas. O comandante tinha suas contradições, seus arroubos mas, ninguém pode negar, fez pela América Latina o que ninguém jamais fez ao recuperar esse sentido de união, de integração, de fortaleza e soberania. Só isso já valeria sua passagem breve por esse mundo. Mas, ele fez mais. Educador, amigo, dirigente seguro, articulador, generoso, ardente, apaixonado. Tudo isso fazia dele uma figura de destaque no processo dessa nova América Latina que se conforma lentamente.
Agora é seguir o caminho, colocar à prova se o que havia era apenas Chávez ou se esses 14 anos conseguiram realmente formar um povo capaz de caminhar com as próprias pernas. Tudo está para ser escrito. Um novo capítulo da história da Venezuela e da América Latina. Vem aí uma nova eleição e o poder popular dará seu veredito. Não será uma coisa simples, pois as forças reacionárias estarão agindo com todas as armas: Intrigas, poder econômico, armas, tumultos.  Recuperar a riqueza da Venezuela, tirá-la da mão do povo, é ponto de honra para a elite predadora, sempre à espreita com seus parceiros de fala inglesa.

Para mim, desde o sul do Brasil, resta a torcida para que todo o sonho bolivariano que foi constituído nesses 14 anos siga adiante, com força, com a participação concreta das gentes. E hoje, irmanada ao povo da Venezuelana que toma as ruas do seu país para honrar o amado presidente, igualmente me rendo à dor pela perda de um homem que, desde sua singularidade, ajudou a dar outra cara para essa nossa Pátria Grande. Mas, fundamentalmente, rendo graças por ter vivido esses tempos, por ter pisado na Venezuela bolivariana e ter experimentado a força de um poder verdadeiramente popular.

Aos inimigos que celebram sua morte fica o recado da história. O que morre é o homem. O caminho semeado de ideias e sonhos haverá de florescer, porque, afinal, os semeadores somos todos nós. E seguiremos! Porque a luta de classes está mais do que viva nesta Abya Yala.