sábado, 23 de maio de 2026

A Venezuela caiu

Aviões estadunidense mostrando força em Caracas

 Lembro-me da dor profunda que senti quando Chávez morreu. E do tanto que chorei. Era o fim de um sonho de ver nossa América baixa soberana. Nunca mais aquela voz de trovão, aquele riso, aquele olhar de águia. Sabia que Maduro o haveria de suceder, mas não seria igual. E não foi. Ainda assim, creio que Maduro, com erros e acerto, ia cumprindo o legado bolivariano, anti-imperialista. Foi estrangulado com o roubo do ouro e das divisas da Venezuela, também com as sanções comerciais, até que acabou sequestrado numa espetaculosa ação estadunidense que, certamente, contou com um traidor. Trinta combatentes cubanos caíram defendendo Maduro, firmes até o fim, leais companheiros da Pátria Grande. Com eles mais outros 70 venezuelanos.

Já andava triste com o caminhar das coisas na Venezuela desde o sequestro criminoso, que foi tratado pelo mundo inteiro como coisa normal. Está bem. Foi sequestrado. Legal! Nenhum protesto, nada. Só o vazio das vozes. E, dias depois a vice-presidente em exercício, Delcy Rodríguez, já recebia enviados estadunidenses para discutir coisas do país. Venezuela estava tomada. Caíra naquela madrugada quando Maduro foi tirado de casa e levado embora para os Estados Unidos. Só o sangue dos 100 soldados cubanos e venezuelanos que tombaram foi testemunha. Depois veio a abertura da embaixada dos EUA e o subsequente roubo do petróleo.

Hoje de manhã voltei a chorar, copiosamente. Porque até então alimentava algumas ilusões. Delcy estava dando tempo ao tempo, mantendo o povo tranquilo, esperando a boa hora para que a Venezuela voltasse a ser autônoma. Mas, hoje, vendo os Estados Unidos realizarem manobras militares bem no centro de Caracas, treinando com aviões de guerra no que chamaram de “capacidade de resposta rápida” vi que não há mais espaço para ilusão. A Venezuela bolivariana caiu. E assim, sem, qualquer resistência popular. Apenas os 30 cubanos e os 70 venezuelanos que deram a vida pelo sonho de Chávez.  

No dia seguinte ao sequestro não estavam nas ruas as milícias, treinadas durante anos. A população, acalmada pela presidente e pelos demais dirigentes, esperou. E o resultado é esse: políticos e empresários estadunidenses tomando conta das riquezas do país e militares ianques fazendo provocações, como essa dos aviões ensaiando uma “resposta rápida” no centro da capital. Acordei do torpor. A Venezuela é hoje mais um país ocupado pelos criminosos da “américa”. Ali está, de joelhos, como jamais poderia supor. Cedendo a cada pequeno capricho do governo invasor. Sem qualquer resistência. Trump ainda tripudia e diz que com o petróleo que tirou da Venezuela está conseguindo pagar a conta da guerra que armou contra o Irã. E o mundo quietinho, quietinho... 

Este é certamente um momento triste para Nuestra América. Venezuela ocupada, Cuba sitiada, Raul ameaçado de sequestro, Colômbia em risco, sanções e chantagens sobre qualquer um que resolva não pactuar com a sanha imperialista, resistência enfraquecida. A impressão que tenho é de que toda a gente está com a cara no celular vendo alguma dancinha enquanto nosso continente queima, a Palestina queima, o Líbano, o Sudão e tantos outro lugares onde alcança a mão criminosa do império. 

É certo que já vivemos momentos assim, e superamos. Com alto custo, é óbvio. Quanto ainda haveremos de pagar, por termos riquezas e por querermos ser livres? Não sei... O que sei é que chove... Na cidade e em mim. E o presente é tão desgarrador quanto a frase do androide no Blade Runner: "Todos esses momentos se perderão no tempo, como lágrimas na chuva. Hora de morrer." 



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