terça-feira, 19 de fevereiro de 2019

As memórias e o pai


Há dias nos quais o pai acorda muito agitado, nervoso mesmo. Não sei o que é, deve ser da doença. Hoje foi assim. Chegou na porta da cozinha com o rosto crispado, perguntando por que as coisas estavam como estavam. A pergunta não tinha resposta, mas eu vou dando as que posso. Ele pra lá e pra cá. E, a cada retorno, fazendo a mesma pergunta e eu dando novas respostas. Aquilo é turbilhão. Vai nos desconcertando. Mas, temos de manter a fleuma para não deixá-lo ainda mais nervoso.

Fiz um mate e chamei ele para conversar. Veio resmungando, mas veio. 
- Cadê o povo?
- Tá todo mundo trabalhando
- Eu também tenho que ir.

Aproveitei o gancho trabalho e comecei a ladainha de que ele já tinha trabalhado muito, agora estava aposentado e era hora de descansar. 
- Mas, eu trabalhei?

Então comecei a desenrolar o novelo dos lugares onde ele tinha trabalhado na vida. Lembra quando tu foste soldado? E ele ia lembrando de Quaraí. Lembra do escritório dos Fagundes. Ele começou a rir e disse que lembrava. Lembra da Rádio Fronteira do Sul? E ele assentindo. Lembra do DEER? Fui nominando um a um os seus velhos companheiros de trabalho. E para todos eles ele tinha uma lembrança. Já estávamos rindo, bem descontraídos. Ufa...

Então, de repente, ele desconfiou: 
- Mas, para aí, como é que tu sabe tudo isso de mim?
- Ora, eu sou tua filha, querido.
- Minha filha? 
- É.

Ele ficou me olhando, olhando. Até que uma lágrima se formou no seu olho. Ele levantou, emocionado, e me abraçou.
- Mas, que coisa mais querida. Minha filha.

E ficamos assim, por um tempo.

Essa é aquela hora em que a vontade é de chorar todas as lágrimas. Mas, há que manter a cara alegre, o sorriso e a firmeza. Não é fácil fingir que a alma não está em escombros. 


sábado, 9 de fevereiro de 2019

Juanita e o vento



Uma das minhas gatinhas, que tem por nome Juana Azurduy, tem medo de vento. É uma coisa bem incrível isso. Basta começar a soprar o vento sul ela fica numa agitação sem fim e começa a miar desesperadamente. Ela é do tipo que detesta qualquer carinho, e tomá-la no colo é uma invasão a qual ela não permite de nenhuma forma. A não ser que tenha vento. Só aí consigo apertá-la junto ao coração, acarinhando devagar. Ela vai acalmando, acalmando e fica, com os olhos graúdos, olhando pra mim, já em paz. E enquanto venta, não sai de dentro de casa.

Numa dessas noites de tormenta ela foi surpreendida numa área que fica em cima no puxadinho de trás da casa. E, como sempre, paralisou. Fica incapaz de se mexer. Era umas quatro horas da manhã e ouvi seus miados de desespero. A chuva caia com força e o vento agitava as ramagens, que batiam umas nas outras, como cabeleiras loucas. Os gritos de Juanita rasgavam a noite.

Lá fui eu, noite adentro, buscar a bichinha. A força do vento tornava qualquer guarda-chuva obsoleto, então, o jeito foi correr pelo pátio e subir as escadas sem proteção. Juanita estava num canto, horrorizada, e tanto que não me permitia pegá-la. A chuva nos fustigava. Desci e peguei uma toalha, das grandes, e voltei. Ela gritando, em desespero. Atirei sobre ela a toalha e segurei com força, para que não me rasgasse com as unhas. Ela se debatendo em completo desespero.

Desci a escada correndo, entrei em casa, fechei a porta e coloquei uma musiquinha, baixinho, enquanto acarinhava seu corpinho trêmulo. Foi acalmando, acalmando, acalmando, até que se enroscou no sofá, dormindo como um anjo. Não sei o que ela vê no vento, mas a parada é lôca. Então, sempre fico atenta quando o vento vem. E mesmo que seja no meio da madrugada, lá vou eu, tal qual um super-herói, salvar a "mocinha". 

Os bichos nos têm!

terça-feira, 5 de fevereiro de 2019

Que viva o povo bolivariano


Eu lembro de 2004 quando o mundo inteiro se manifestou contra a invasão do Iraque. Era óbvio que os Estados Unidos usavam da mentira para respaldar a invasão. Não havia armas químicas, nunca houve. Mas, os EUA sempre usaram da mentira, ao longo de sua história, para justificar seus crimes. E, ainda que houvesse passeatas, marchas, protestos em vários lugares do planeta, os EUA foram lá e promoveram a onda da destruição, que segue até agora. Já tinham feito a mesma coisa no Afeganistão em 2001 para perseguir seu velho amigo e aliado Bin Laden. Julian Assange, com o WikiLeaks foi quem desvendou os crimes e por isso vive trancafiado na Embaixada do Equador em Londres, jurado de morte pelos senhores da guerra. 

Nesse mundo é assim: os heróis de verdade, como Julian Assange e Edward Snowden  são perseguidos, enquanto os assassinos circulam livremente. 

Agora, a mentira da vez é a Venezuela. Os EUA precisam destruí-la, como destruíram o Afeganistão, o Iraque, a Líbia, o Líbano, a Síria. Há que atacar e dominar todos os lugares que têm petróleo. Venezuela desgraçadamente tem e desde a ascensão de Chávez usa os recursos do petróleo para a maioria da população. 

Então, os EUA e os lacaios locais decidiram estrangular o governo. Roubam seus recursos, seu ouro e sua possibilidade de atender a população. Fecham as portas do comércio e  impedem que entre a comida, os produtos de primeira necessidade. Vem a fome, vem o terror. 

O mundo inteiro se levanta contra mais essa ignomínia. Mas, os líderes mundiais que se ajoelham diante do império e também aproveitam para abocanhar algum ganho, não querem nem saber. Aceitam a mentira e respaldam o golpista que se autonominou presidente, sem ter recebido o respaldo das gentes venezuelanas. Aceitam porque querem lucrar com tudo isso. Dane-se o povo que morre de fome. Que morram. Assim poderão gritar aos quatro ventos que foi o bolivarianismo que os matou.

Lá dentro da Venezuela o povo bolivariano está sofrendo a fome, a falta de remédios, o terror. Mas, eles sabem de quem é a culpa. Dos vende-pátria, os mesmos que governaram a Venezuela por séculos, mantendo-os na escravidão. Os mesmos que agora se aliam ao império, aos senhores da guerra, para destruir a generosa proposta de Bolívar. O libertador sendo traído outra vez, num eterno retorno. 

Tenho muita clareza do que é o governo do Maduro e tenho muitas críticas a sua postura e política. Mas, jamais me aliaria aos monstros do terror apenas para tirá-lo do poder. A Venezuela precisa seguir seu caminho autônomo, com as gentes decidindo por onde ir. Se há oposição de esquerda, que se organize, que dispute, que enterneça os corações. Mas, como aceitar uma oposição que se diz de esquerda e que se junta ao deputado golpista, think-tank dos EUA? Nada justifica isso...

Sei que nossa voz se perderá no mar de ódio, de desinformação, de ignorância. Sei que nada podemos na nossa impotência. Mas, não poderia deixar de dizer que repudio a agressão que os EUA empreendem contra a Venezuela desde 1998, quando Chávez assumiu, e que agora assume sua cara mais nefasta. A mesma velha cara do terror que vem matando e destruindo a vida dos trabalhadores, dos lutadores, dos governantes que querem garantir soberania. 

Não há conciliação com o império. Que viva a gente bolivariana e chavista. Que resista e que se mantenha de pé. Mesmo que esteja sendo abandonada pelos oportunistas. 

A terra-mãe



A terra, como ensinam os povos originários não é só um lugar onde nós, os humanos, caminhamos.  Ele é viva, interage e se comunica. Viver em equilíbrio com ela é valor que faz parte de qualquer filosofia originária, de qualquer etnia dos povos antigos. Pacha é espaço e tempo, sem divisão. E nós, somos parte desse universo pulsante, aqui, hoje, ontem e amanhã.

Não descobri isso agora, há tempos comungo desse sentipensar, ainda que tenha de ver tudo isso ser ridicularizado por gente que nos chama de “pachamamistas”, ou “bicho grilo” ou “hippie” ou qualquer outra coisa de conotação depreciativa. Não importa. Creio nisso e sigo no meu caminho respeitando essa poderosa mãe.

Lá em casa tenho por costume dar pago à terra todos os dias. Cuido dela, alimento, acarinho, porque sei que ela também cuida de mim. Porque somos uma coisa só, parte da mesma grandeza infinita.

Percebi que no meu quintal desde alguns anos brotaram determinadas plantas que não havia lá: melissa, alecrim, fisalis, maracujá.  Ontem, sentada à sombra, com meu pai, tomando chimarrão, entendi que a terra que vibra em mim mandava mensagens. Todas essas plantas têm a ver com calmante e memória, duas coisas de que necessito agora, quando vivencio o processo de perda de memória do pai. Uma dura caminhada de aprendizado sobre a finitude.

Certa feita, lá no planalto central, caminhando na imensidão das terras secas, ouvi de um conhecedor das ervas essa verdade: a terra dá o que precisamos. Basta olhar ao redor e ali estarão as plantas que são vitais para nossas dores. Ontem, assim, num átimo, me surpreendi com a concretude dessa máxima.

Tudo está ao nosso alcance. Basta saber enxergar. Alegrei-me por ainda saber ver. E agradeci!


quinta-feira, 31 de janeiro de 2019

O tempo e o pai



A vida de um cuidador de idoso não é bolinho. Além de ter de dar conta do trabalho, que garante a existência, quando chega a casa tem uma infinidade de tarefas para cumprir. O pai fica numa alegria quando eu chego. E gosta que eu fique paparicando. Então, eu trato de arrumar o café, o qual tomamos juntos, conversando sobre a manhã que passou, o almoço, a sesta. Mas, depois disso preciso dar início a arrumação. Trocar roupa de cama, pois sempre tem alguma surpresinha. Limpar de cima a baixo o banheiro, pois a pontaria já está prejudicada. Juntar as roupas todas para lavar, e eu tenho o costume de lavar à mão. Então essa é função que toma tempo.

Não bastasse isso ainda tem o restante da casa para limpar, pois os bichos, que ficam entrando e saindo, aprontam uma boa bagunça. E, nesse verão de lascar, é sempre bom passar um paninho e deixar tudo cheirando a lavanda. O pai gosta de ajudar nas tarefas, então eu dou a ele a missão de lavar as xícaras do café. É uma boa ideia isso aí porque ele fica bem entretido por algumas horas.

Enquanto ele faz essa tarefa trato de cuidar dos bichos. Lavar as vasilhas, colocar água fresca, comida, limpar o cantinho de dormir. É puxado. O tempo voa e já é hora de arrumar a janta. De novo, outra função.

Ao longo de todo esse tempo, procuro encontrar formas de interagir com ele. Faço um chimarrão para tomarmos embaixo das árvores, dou água, fazemos pequenas caminhadas pelo jardim. Uma forma não deixar ele abandonado pela casa, já que dormir de dia, nem pensar. É uma correria, pois tudo tem de ser cumprido.

Depois da janta ele vai para o quarto ver televisão e é a hora que eu encontro para estudar um pouco, ler, escrever, antes de desabar. Abro o computador e fico nessa tarefa. Enquanto eu escrevo ele fica num vai e vem. Para na porta e fica espiando. Sai e volta, sai e volta, sai e volta, como a se certificar de que eu estou absorvida em algo que não é ele. Fico com pena e pergunto:

- Precisa de alguma coisa, querido?
- Preciso. 
- Do quê?
- De atenção.

Aí não tem jeito, largo o computador e vou ver a novela com ele. Tudo para garantir esse sorrisão. O tempo vai assumindo outra dimensão e muitas tarefas vão ficando para trás...

segunda-feira, 28 de janeiro de 2019

Sobre a imprensa e a classe trabalhadora

Na foto, a jornalista Claudia Weinman entrevista Vilson Santin, do MST.

Jornal Nacional. Rede Globo. O presidente da Vale fala por um tempo gigante, a considerar o valor do tempo num jornal global. Repete insistentemente que o que houve em Brumadinho foi um acidente. Um acidente? Com todos os laudos técnicos que mostram o risco dessas barragens? Com todos os avisos de gente muito especializada que milita nos movimentos? Com a trágica experiência de Mariana? Acidente? Foi um crime.

Na hora em que vi aquela cena grotesca, sem a interferência de nenhum jornalista, questionando e apontando as contradições, fui tomada pelo ódio, a indignação. Mas, passado o estupor inicial, a cabeça esfria e a gente começa a pensar. Nada poderia ser diferente. A mídia comercial é braço armado do capital. Jamais encontraremos ali a crítica ou o contraditório. Pode escapar, é verdade, nas brechas que naturalmente os fatos apresentam. Mas, é só isso mesmo. Escapadas, rápidas e sem ligação, coisa que pode tornar bem difícil o entendimento da totalidade do fato.

Isso nos leva a um debate que raramente as forças da esquerda fazem: a necessidade de uma imprensa de classe. O máximo que temos visto nos sindicatos de jornalistas, de radialistas, nos movimentos que atuam no âmbito da comunicação é a discussão sobre liberdade de imprensa. Ora, colegas. Por favor.

Não existe liberdade de imprensa, nem aqui, nem na China, nem em lugar nenhum. O que existe é imprensa de classe. E qual é a classe que domina a mídia? No mundo em geral é a classe dos endinheirados, dos artífices e gestores do capital.

Nós, no Brasil, nunca conseguimos avançar para a construção de uma imprensa de classe. Nem mesmo nos 15 anos que tivemos o Partido dos Trabalhadores no poder. Absolutamente nada foi feito nesse sentido. Pelo contrário. Durante o governo de Lula a própria Globo acabou sendo salva e todos devem se lembrar do presidente no velório de Roberto Marinho, consternado. Também não é pouco que a gente lembre sobre a tão sonhada Conferência Nacional de Comunicação, na qual o governo nos impôs uma derrota, colocando junto os empresários e permitindo que eles dessem a direção para o debate. Praticamente nada foi mexido na estrutura das comunicações no Brasil. Nem mesmo o tema das outorgas foi tocado. O estado, na mão do PT, seguiu rezando pela cartilha empresarial. O resultado disso vimos agora, quando a classe trabalhadora estava desguarnecida de veículos de massa para fazer frente a avalanche conservadora.

É mais do que hora de ultrapassarmos esse discurso liberal de “democratização das comunicações”. Isso nunca acontecerá no âmbito do capital. Porque esse sistema não está aí para brincadeiras e só solta alguns anéis se tem uma ameaça muito grande diante dele. Hoje, ao que parece, não existe nada no horizonte. Então, não virá nada. Pelo contrário. Quando o capital corre livre, sem inimigos de peso, ele não concede um centímetro. Ele aplasta! Vejam que já se configura a vinda da CNN para o Brasil. O tentáculo mais manipulador do sistema. Esse povo não brinca em serviço.

E pensar que quando o governo petista teve a chance de colocar como canal aberto a Telesur, rede televisiva de classe, não o fez. Nunca avançou um milímetro no sentido de trazer a América Latina para dentro do Brasil.

No que diz respeito ao campo dos trabalhadores tampouco se conseguiu avançar, mesmo nos anos de maior ascensão das lutas sociais. Jamais se chegou a um jornal de alcance nacional e o mais próximo disso que tivemos - que foi o Brasil de Fato - acabou se esboroando, justamente por falta de uma compreensão mais classista por parte dos inúmeros movimentos sociais e militantes populares. O que restou foram os grupos de mídia alternativa, comunitária, popular e independente, que vão se arrastando conforme podem, com pouco poder de fogo diante da maquinária capitalista. É muito difícil enfrentar com uma rádio comunitária, uns 30 segundos num jornal noturno de uma rede de televisão que abocanha o país inteiro. O poder do capital é avassalador.

Em Santa Catarina vivemos o mesmo dilema. Temos uma imprensa ridícula, cada dia mais vazia de qualidade. Só nos últimos meses foram demitidos dezenas de jornalistas do grupo hegemônico, ex RBS, atual NSC. Precarizam-se as relações de trabalho, aumenta a exploração dos trabalhadores e a comunidade fica cada dia mais refém de uma comunicação pífia e manipuladora. Assistir um jornal televisivo é de chorar. O pensamento crítico passa longe. Não há sequer boas perguntas, matéria prima básica do bom jornalista. É uma vergonha. Mas, ainda assim temos muitos sindicatos, e movimentos, e parlamentares que preferem assinar um jornal da imprensa comercial que investir nas propostas de comunicação populares que teimam em existir, ainda que em difíceis condições.

Creio que é tempo de aprendermos a lição. Façamos a autocrítica e caminhemos no sentido de construir uma imprensa de classe. Da classe trabalhadora. Já basta de querer melhorar o capitalismo, basta de pensar que pode ele ser humanizado. Não pode. Por isso a comunicação não será democratizada. Há que mudar o modo de organizar a vida e enquanto isso não vem, fortaleçamos a imprensa de classe. É isso, ou morte.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2019

O médico de família




Nada no mundo é por acaso. Vivi décadas em Florianópolis sem conseguir encontrar um médico, desses como os do passado, que conheciam a gente, a família da gente, que nos enxergavam como seres humanos, que não nos viam como pedaços doentes ou receptáculos de remédios. Procurei bastante, mas nada. Então, um belo dia, por conta das vivências na rádio comunitária, encontrei um desses jovens médicos que conseguiram passar pela faculdade sem se perder na selva do mundo sem coração. Formação de médico de família, perspectiva popular, compreendendo a questão indígena e a realidade do país. Guardei na memória. Um dia, quem sabe, se eu precisasse de um médico, teria a referência.

Então, pouco tempo depois, a vida me deu uma rasteira, e meu pai, de 86 anos de idade, começou a apresentar sinais de demência. Ele morava no mato e lá não tinha como ficar. Fui buscá-lo para ficar comigo. Ele estava bem baleado, muito fraquinho e totalmente fora de si. Não havia tempo para as intermináveis esperas nas filas do posto de saúde. Tinha de agir rápido. Na mesma hora me veio à cabeça o médico que havia conhecido nas lutas pelo SUS. Era o que eu precisava. Chamei.

Eu não queria um desses médicos que nem olham na cara, e já vão receitando. Queria alguém que visse o meu pai como uma pessoa na sua inteireza histórica. O Henrique foi perfeito. Sem pressa, atencioso, carinhoso, respeitoso, explicativo, honesto. Sem soluções milagrosas, mas com propostas inovadoras e perspectivas mais naturais. Iniciamos o cuidado.

Agora em junho de 2019 se completarão três anos que estou cuidando do pai, sempre com o acompanhamento do Henrique. Um médico que eu posso chamar a qualquer hora pelo uatizapi, que me atende e me aconselha. E que se está longe, encontra caminhos e atalhos para o bem estar. Um médico que pede notícias quando elas faltam, e que se preocupa com cada passo da jornada. Um médico que divide o que sabe, que expõe o que não sabe, que aprende junto. Um médico que abraça, que conforta, que ri, que se emociona. Um médico que se move com a força do compromisso, que sabe não ter todas as respostas, que está preparado para perder batalhas, mas sem largar a mão.

Eu que tanto procurei, agora encontrei o médico sonhado. E foi na hora certa, quando o mundo ruiu sobre meus pés. Nada é por acaso, mesmo. Conforta-me saber que passarei por essa dura estrada da demência e do Alzheimer tendo por parceiro do cuidado um cara como esse. Meu pai merece isso. Meu desejo mais profundo é de que cada pessoa nesse Brasil pudesse ter um médico assim, um médico de verdade, trabalhado no carinho, no cuidado, na atenção. E por isso eu luto pela saúde pública, pelos programas de médico de família, pela medicina preventiva.

Agradeço aos deuses e deusas que me permitiram encontrar o Henrique. E sei que, como ele, outros andam por aí, aqui mesmo em Florianópolis. Wagner, Murilo, só para citar alguns que são crias da mesma cepa e não concebem a medicina como negócio. São poucos ainda. Mas, rezo para que sejam mais. Possivelmente a própria ação desses que agora vivenciam essa prática fornecerá o exemplo para o surgimento de novos médicos assim, capazes de encontrar a humanidade que existe neles mesmos, e no outro. Uma parceria construída no amor.

A realidade nos mostra que esse caminho ainda é longo. Basta lembrar que a maioria das vagas dos Mais Médicos, as que estão nos lugares mais pobres, ainda não foram preenchidas. Porque não é moleza ficar cara-a-cara com o dor de quem não tem nada, a não ser o próprio corpo que se deteriora. Mas, não há saída. Só o amor salva. E o tempo da vida plena chegará para todos e todas. É um caminho sem volta, a despeito dos vilões sempre à espreita. Enquanto isso, lutamos!

Recomendo vivamente o Henrique. Podem chamar .