segunda-feira, 21 de abril de 2014

Os Amarildos, firmes!


foto: Celso Martins

Os textos, ditos sagrados, para mim sempre foram metáforas da vida mesma. Um jeito de contar histórias que pudessem ser entendidas pelas pessoas simples. Arquétipos de nós mesmos, de situações históricas, de passagens da vida que sempre se repetem, dando conta de nossa condição humana. Por isso, me encantam, e a eles dispendo tempo. Gosto, particularmente, no novo testamento, das parábolas de Jesus, o jovem galileu, nascido no espaço do que hoje é a Palestina ocupada. Histórico ou não, ele tinha esse dom de falar por metáforas, buscando encontrar o centro do amor humano. Então, é a ele que recorro para pensar meu mundo, nessa segunda-feira gris.

Ontem voltei a ver um velho filme que tocou minha alma na infância: Ben-Hur, com o inesquecível Charlton Heston. É sobre um homem que passa por todas as agruras de um tempo de invasão estrangeira em sua terra, que perde tudo, e que arma toda uma vingança. Mas, tocado pela figura e pelo exemplo de um “ninguém”, um andarilho, um rebelde - o homem que mais tarde veio a saber que era Jesus -  ele volta a ser o que era, generoso e bom, recebendo assim, outras bênçãos. Uma metáfora dentro da metáfora. Só o amor pelo outro – caído - pode salvar a nós mesmos.

Hoje, em Florianópolis, um pequeno grupo de famílias vive a dor de ser ninguém. Rebeldes, andarilhos, sem casa, sem um lugar para descansar a cabeça, eles buscam um lugar para viver. Premidos pelo progresso excludente, que enriquece alguns e empobrece a maioria, eles foram expulsos de suas pequenas ou grandes cidades e saíram atrás de um mero sobreviver. Gente do interior do estado, de outros estados, do interior da ilha, seres humanos querendo também um lugar no grande banquete da vida. Quem não quer?

Outro dia, unidos pelo sonho de ter sua própria casa, eles fizeram o que tantos outros – hoje heróis nacionais – fizeram há muito tempo atrás. Ocuparam terras devolutas, que pertencem à União. Terras abandonadas, sem uso social, e que já estavam sendo rapinadas por alguns espertos. Esses - autoridades, empresários, de ternos bem cortados – nunca foram questionados. Cercaram as terras, forjaram escrituras e bem logo a venderiam para que se transformassem em um campo de golfe, esporte praticado por ricos senhores.  

O que fizeram então os sepulcros caiados (limpos por fora e podres por dentro) - a saber, a mídia e algumas pessoas “de bem”? Tal qual a massa raivosa diante de Pilatos, entre o empresário ladrão e as famílias sem porvir, escolheram o empresário para “libertar”. Já para as famílias empobrecidas, gritavam: “Crucifiquem-nas”. A história se repetindo como uma dolorosa tragédia.  

Retiradas da terra ocupada na beira do Rio Ratones, as famílias da Ocupação Amarildo viveram a sua “paixão”. Casas derrubadas, tralhas recolhidas, foram buscar abrigo em outros espaços. Mas, eram terras de outrem e ali, ninguém queria tirar espaço de ninguém. Seguiram sua via dolorosa, buscando outro recanto de amparo, que fosse público, devoluto, sem ninguém.

Acharam novas terras dentro da ilha da magia, essas, também tomadas desde há séculos por ladrões a soldo da coroa portuguesa. Terras usurpadas de povos indígenas e que, por força de lei de um povo invasor, acabaram se legalizando como de um estado, ou de alguém. E lá se foram os Amarildos, com suas tralhas, seus bichos, crianças e esperanças para o bairro do Rio Vermelho. Ainda um espaço cedido, ainda um lugar não definitivo. Uma passagem, um descanso, até que venha a vitória.

Não imaginavam esses caminhantes, essas almas grávidas de justiça, que ali encontrariam outra vez alguns poucos representantes das famílias “de bem” a levantar os braços, bramindo: “crucifiquem-nas”. Nos olhos inflamados desses “bons cristãos”, um ódio sem medida contra aquilo que desconhecem. Não sabem nada daquelas pessoas, a não ser o que lhes reproduz a mídia e as hipócritas vozes dos fariseus – esses sepulcros caiados. E, tal qual autômatos sem cérebro, incorporam a sentença de que aqueles são bandidos, vagabundos, gente desqualificada, uma ameaça ao seu bem viver.

Hoje, informes de colegas que lá estão dão conta de que alguns moradores do Rio Vermelho estão querendo expulsar, eles mesmos, os Amarildos da comunidade. Não é a polícia, são os moradores. Pessoas ditas “de bem”, que querem garantir “a paz” para suas famílias. Alguns chegaram a verbalizar: “A PM que deixe eles com a gente”. Ou seja, estão dispostos, inclusive, a atos de violência contra uma gente que nem conhecem. De dentro da ocupação, os olhinhos assustados das crianças observam, estupefatos. Que crime cometeram? Por que não podem morar como esses que ali hoje já têm as suas casas? Difícil explicar.

“Eu comprei a minha casa com muito sacrifício. Eles que vão trabalhar!” Essa é a frase mais dita nos comentários dos textos que tratam do tema. Mas como falar do outro sem saber dos dramas que tiveram, e ainda têm, que passar? Como comparar as vidas? E por que não apoiar aqueles que, diante de tanta falta e exclusão, ainda encontram forças para enfrentar batalha tão desigual?

Vejo essas tristes criaturas como aqueles que na velha judeia cuspiram e apedrejaram o galileu, apenas porque assim lhes disseram os sacerdotes. Incapazes de pensar por si mesmo, incapazes do gesto amoroso de amparar o que sofre, incapazes da compaixão. Pessoas tomadas por um ódio cego, insuflado desde fora, que nem mesmo é delas.

Enquanto isso, em algum lugar bem protegido, os que se adonaram da cidade, os que roubaram terras, ou que as compraram a preço de banana de nativos enganados, festejam. Não precisam sequer enviar as tropas policiais. Fizeram o que era preciso. Criaram o ódio aos desgraçados, dividiram os que sofrem dos mesmos infortúnios. Eles agora que se matem. Ao final, sobrará mais para eles mesmos.

Eu, que creio na força das gentes, sei que, como na história do galileu, haverá de chegar a páscoa. A hora do renascer. Ainda que tudo pareça conspirar para o fim, ainda que crucifiquem “os cabeludos rebeldes”, o povo  unido haverá de levar adiante esse sonho. E ele vai vingar.

Amarildos! Firmes!


Joaquim, tu vives!



Joaquim nasceu em família de um abastado proprietário rural, o quarto de nove filhos. Mas, bem cedo perdeu os pais. Tinha onze anos quando se viu órfão. Foi levado por um tio que era dentista e lhe ensinou o ofício.  Também atuou em uma botica que dava assistência para o povo pobre na bonita e próspera Vila Rica. Ali, cuidava de doentes e atendia quem precisasse de um dentista, por isso ganhou o apelido de Tiradentes. Também trabalhou como minerador e conhecia como ninguém o terreno das Gerais. Foi contratado pelo governo para andar nos caminhos levantando a topografia da região. Por conta disso foi vendo a realidade com olhos críticos. Muita riqueza para poucos e tanta pobreza para a maioria. Não foi sem razão que esse homem se integrou ao movimento de luta contra a cobrança de impostos, iniciado por gente da elite de Vila Rica.  

O movimento contra a derrama era também uma luta pela República. Mas, precursores da independência, Joaquim e seus companheiros foram traídos, como soe ocorrer quase sempre. Presos como inconfidentes, traidores da coroa, apenas ele foi condenado à força.   Não tinha nome de família “de bem”, não tinha posses. Seu único erro foi acreditar que, unido com a elite local, poderia trazer coisas boas para sua Vila Rica. Não conseguiu, e acabou preso com todos os inconfidentes. Os filhos da classe dominante receberam perdão da rainha Maria I e foram condenados ao degredo. Sobrou Joaquim, o sem lugar, sem família, o que não pertendcia à maçonaria, o que não tinha nada além dos sonhos de liberdade e de vida boa para sua gente. Ele foi usado com um exemplo pela monarquia. Seguiu, condenado, em procissão pelas ruas de Vila Rica. Foi montado um “espetáculo” que durou 18 horas.

Assim foi o suplício do jovem Tiradentes, o alferes, o conhecedor de caminhos. Ele acabou enforcado e sua cabeça pendurada na entrada da Vila. Toda sua geração foi amaldiçoada. Seu corpo esquartejado foi jogado pelos caminhos e sua casa foi salgada para que lá, nada mais nascesse.

Ah, esses carrascos das gentes livres, Quão estúpidos são! O sangue de Tiradentes regou novas lutas, novos desejos de libertação. Até que, enfim, veio a República.

Mas, a República não mudou nada, ainda... E, nos caminhos de Minas ainda reverbera aquela ideia de justiça, de vida plena para a maioria. Joaquim vive na luta do povo pobre dos morros de Belo Horizonte, da Rocinha, da Maré, da ocupação Telerj. Joaquim vive bem aqui, na Ocupação Amarildo, na aldeia Itaty, nas ruas da cidade, onde outros homens e mulheres sonham com a libertação.

Joaquim, te recordo, com amor e com ódio. Amor pela proposta de vida livre que ousaste defender e ódio aos vilões do amor que te mataram!!! Por aqui, seguimos... Como tu... Sem posses, sem nada, apenas com nossos “corpos nus”, como diria Faermann.


Seguimos morrendo, mas tu vives para sempre! Assim como essa “imorrível” ideia de vida boa e bonita para todas as gentes...

quarta-feira, 16 de abril de 2014

O jornaleiro





Final de manhã em Rio Grande. Faz calor, prenúncio de tempestades. Caminho pelo centro da cidade embriagada em belezas, essas coisas das cidades ocultas, que ninguém mais vê, porque as pessoas já estão com as retinas acostumadas à paisagem. Mas, eu, viageira, vou percebendo e me emocionando. Entro pela Praça Tamandaré, uma das tantas praças da cidade,  e me encanto com a delicadeza dos lagos, as pontes, as esculturas. Tudo é absolutamente bonito, inclusive as gentes que compõem a moldura desse quadrado que é, a bem da verdade, um parque. Há os vendedores de ervas, com suas poções mágicas. Rio Grande  é conhecida como uma cidade que produz muita doença, afinal, por aqui estão fábricas de agrotóxicos, de produtos químicos, que causam muita poluição. Há haitianos vendendo badulaques, tentando sobreviver numa cidade que os acolheu, mas que tem muito pouco a dar. Banquinhas de produtos chineses e gente tirando foto no mausoléu de Bento Gonçalves, que fica bem no meio da praça.

Mas, os meus olhos caminheiros são atraídos para um estátua que está escondida num nicho do lado direito da praça, o qual, em algum momento, abrigou alguns animais, visto que ainda tem os espaços de encerro. Ela representa um menino, cansado ao extremo, que adormece ao lado de um jornal. No lado da estátua está escrito: homenagem à imprensa.

É aí que meu coração explode em profunda emoção. O artista, de nome Erico Cobbi, não retratou um rico empresário da mídia, nem mesmo um jornalista. Ele imortalizou na pedra um jornaleiro, um desses meninos sem nome, que sai de sua casa bem cedo, em algum lugar da periferia e cumpre a honrosa função de distribuir o jornal. O menino da escultura está adormecido, na expressão de total pureza. Um trabalhador infantil, um anônimo passarinho que planta a informação na vida das pessoas, e com isso ganha os trocados que certamente deverá encher a mesa de toda a família.

Ali estava eu e o menino dormido em pedra. Ele no seu sono eterno, e eu com meu coração em um alucinado turbilhão.  Então me deu uma vontade louca de abraçar fortemente esse artista que não sei quem é, passante que sou. E dizer, obrigada. Naquele menino extenuado ele mostra que a "imprensa" é essa roda de mó, que anuncia um mundo que não é real, que engana, que mutila, que desinforma, que esgota. Que está para além de nós, jornalistas, que buscamos fugir da bigorna da mentira produzida pela mídia comercial. A "imprensa" se configura naquele menino, exaurido pelo trabalho de divulgar a notícia e o jornal.  O jornaleiro, possivelmente vítima dos podres poderes que ele mesmo anuncia toda manhã.

Deixei a Praça Tamandaré com a alma em escombros e, ao mesmo tempo agradecida por esse gesto poético do Erico Cobbi. A "homenagem à imprensa" é um grito branco na imensidão verde daquele parque cheio de belezas. E aquele menino está agora cravado no meu coração...  


terça-feira, 8 de abril de 2014

Greve dos trabalhadores da UFSC segue forte



Trabalhadores da UFSC em greve desde o dia 17 de março lacraram, nessa manhã do dia 08 de abril, a entrada do Prédio Santa Clara, onde funciona a administração central da UFSC. O objetivo é chamar a atenção da comunidade para a pauta de luta que inclui melhorias salariais, condições de trabalho, acertos no Plano de Cargos e defesa do HU público.  

São sete e meia da manhã e a universidade já está em ebulição. Aos poucos, os alunos vão chegando, buscando a salas onde passarão a manhã, em aulas ou pesquisas. Eles não percebem, mas a porta que encontraram escancarada foi aberta por alguém que chegou bem antes. Circulando pelos Centros, também é custoso pensar que tudo aquilo está limpinho porque alguém limpou. As notas foram digitadas no currículo, os materiais dos laboratórios foram lavados e arrumados, pesquisas foram realizadas, jardins foram embelezados, animaizinhos foram cuidados. Tudo isso é trabalho do técnico-administrativo em educação (TAE), uma das categorias que dá vida à universidade juntamente com os professores. E não se trata de dizer que há uma divisão entre trabalho manual e intelectual. Toda ação desenvolvida por um TAE, seja ela a de simplesmente garantir a abertura das salas ou de finalizar uma pesquisa, está amparada numa ação intelectual. Da mesma forma que a do professor que tem como tarefa, repassar e criar conhecimento.

Pois essa categoria dos técnico-administrativos em educação que, no mais das vezes, é completamente invisível, está e greve desde o dia 17 de março. Alguém poderia dizer: “mas, de novo?” É, de novo. Porque, ao contrário dos trabalhadores da iniciativa privada, os trabalhadores públicos não têm data base, ou seja, não há um mês específico no qual os patrões são obrigados a repor as perdas do ano.  Assim, cada vez que a inflação come o salário deles, é preciso iniciar uma luta. Nenhum governo assumiu o compromisso com a data-base. É por isso que todo avanço salarial ou de condições de trabalho acaba se dando só a partir das greves. Logo, não é culpa dos trabalhadores. A greve torna-se a última carta de um longo processo de negociação.

No ano de 2012, os trabalhadores realizaram uma greve para garantir reposição salarial e para manter os HUs públicos. Foi uma batalha demorada que terminou com um acordo muito fraco. O governo comprometia-se em repassar uma reposição escalonada, dividida em 5% a cada ano, até 2015. E também comprometia-se em terminar grupos de trabalho para resolver alguns problemas que perduram no Plano de Cargos dos TAEs, relacionados a enquadramento, qualificação, capacitação, terceirizados e cargos extintos. Foi o que deu para garantir. Ao longo de 2013 e 2014 o governo honrou os 5%, mas não avançou em nada nos GTs. Não bastasse essa enrolação com relação ao Plano de Cargos, a inflação já comeu bem mais do que os 15% acertados em 2012. Daí a necessidade de renegociar. E não pensem que faltaram reuniões para que isso se desse sem greve. Muitas foram realizadas, mas o governo não cedeu um ponto. Sem alternativa, os trabalhadores decidiram parar.

A greve começou no dia 17 e até agora não houve qualquer negociação. Reuniões no Ministério da Educação foram realizadas, mas quem manda no dinheiro é o Ministério do Orçamento e Gestão, então, é uma espécie de papo-furado, pois o MEC não tem poder de decisão. O que dizem os representantes do governo é que não há dinheiro para rever salário e que nada será concedido. Por outro lado, os trabalhadores sabem que todos os meses, o governo federal tira dos cofres públicos bilhões de reais para pagamento de dívidas – grande parte delas ilegítimas. Bem como investiu milhões de reais em obras para a Copa do Mundo, beneficiando grandes empresas da construção.  Ou seja, dinheiro há. Só que o governo prefere molhar o bico dos grandes bancos nacionais e internacionais. Por isso é necessária a queda de braço. Os trabalhadores param, lutam, buscam melhorias.

Como sempre acontece a greve quase nunca é só por ganhos trabalhistas. Embutida na pauta salarial estão as questões políticas estruturais, como o aumento de verbas para educação e a manutenção dos hospitais universitários públicos. Desde muitos anos que os governos buscam sistematicamente contaminar os HUs com a mão privada. Mas, isso se fez real a partir do governo de Luis Inácio, quando ele levou adiante a proposta de criar uma empresa para gerir os HUs. Empresa pública de caráter privado. E o que isso significa? Que, ligados a ela, os hospitais terão de trabalhar com “metas de produtividade”, o que é uma insensatez. O que podem os hospitais produzir? Eles existem para garantir a manutenção da vida e no caso dos HUs, para servirem de campo de estudo aos alunos da universidade. Administrados como uma empresa, os HUs abrirão uma porta privada, para atendimento de “clientes” com planos de saúde privado e os atendimentos pelo SUS podem ser diminuídos. Perdem as populações empobrecidas que têm no HU sua única chance de atendimento. Assim que a luta contra a EBSERH também faz parte da pauta da greve.

Só que como sempre acontece nas greves em educação, a luta se arrasta. Como os trabalhadores são, em geral, invisíveis, demora um pouco para que a falta deles seja sentida. Até porque o trabalho do TAE se dá em sintonia com o do professor e esses não estão parados. Agora, passadas três semanas de greve, a paralisação começa a se fazer sentir. Secretarias fechadas, biblioteca fechada, restaurante fechado, pesquisas paradas, tudo isso vai parando a roda do cotidiano. Ainda assim, nem a mídia local, nem a própria comunidade parecem se importar. O Conselho Universitário da UFSC, que se reuniu na segunda semana de greve, recusou-se a fazer o debate sobre a greve. A presidente do CUn, Roselane Neckel alegou que os trabalhadores não tinham solicitado uma discussão. Mas, um conselho realmente sério deveria discutir a greve, mesmo sem ser solicitado, afinal, uma categoria está parada e as atividades não estão na normalidade.

É por conta dessa maneira arrogante de lidar com os TAEs que as ações de greve começam a engrossar. Primeiro, os trabalhadores param, buscam diálogo. Sem ele, passam a realizar ações de impacto buscando visibilidade para a greve e abertura de negociação. Na UFSC, o espaço da reitoria foi tomado para realização de encontros e assembleias. Também são realizadas passagens nos setores para sensibilizar os que ainda não pararam. Outros atos são feitos nas rótulas, causando uma certa rugosidade no cotidiano e levantando ódios naqueles que não conseguem estacionar seus carros. Também foram realizados atos públicos nos campi do interior que amargam problema de toda ordem causados por uma expansão mal planejada e apressada.

E assim a greve vai caminhando, com tentativas de negociações em Brasília e com ações locais, buscando avanço nas pautas internas. No caso da UFSC, o tema das 30 horas tem sido dominante. Os trabalhadores querem garantir turnos de 12 horas seguidas, para que a universidade não tenha de fechar na hora do almoço. Melhoria para a vida do trabalhador e para a comunidade também. Só que mesmo com a administração tendo criado um grupo para estudar a viabilidade das 30 horas, não se avançou um passo. Agora, os dirigentes se escondem atrás de uma interpretação da lei e não se encorajam a mudar a vida da UFSC.

Nessa semana que se inicia os trabalhadores decidiram se juntar ao debate das Jornadas Bolivarianas, evento anual do Instituto de Estudos Latino-Americanos, que começa na quarta-feira, dia 09, às 8h30min, no Auditório da Reitoria. O tema não poderia ser mais propício para uma categoria que tem sido a ponta de lança na luta por um serviço público universitário realmente voltado à maioria da população, com qualidade e com sentido crítico: a teoria marxista da dependência. Diante de um governo que prefere encher os cofres dos bancos, pagando uma dívida ilegítima, em vez de melhorar os serviços públicos, a teoria da dependência e da superexploração cai como uma luva para compreender a correlação de força, a conjuntura e as possíveis saídas. Assim, durante os três dias nos quais teóricos do Brasil e de outros países da América Latina mostrarão a vigência dessa teoria para interpretar a realidade, os trabalhadores estarão atentos, buscando, nesses debates, elementos para a luta que está em curso.



sábado, 5 de abril de 2014

O exército de pinus




Já é noite fechada quando o carro passa velozmente pela cidade de Lages rumo à região do Contestado, em Santa Catarina. A lua cheia no céu é puro esplendor. A luz é tanta que ilumina  campos e matas, construindo sombras fantasmagóricas. De repente, no meio da escuridão surge outra luminosidade, uma espécie de nave-mãe, encravada no meio do verde. Com ela, um cheio ruim, uma náusea.

- O que é aquilo?
- É a Klabin. A fábrica de papel. Parece uma ferida na mata, né? – Ninguém diz nada, prisioneiros daquela cena bizarra.
O carro segue em direção à Caçador. As sombras continuam a se delinear no horizonte. Ao longe julgo ver uma fileira de gente andando, muita gente. Penso em João Maria, o monge, conduzindo seu povo rumo à mítica Taquaruçu, a cidade santa do Contestado. O velho que enfrentou o exército, o medo, a dor e empurrou as gentes à luta contra a estrada de ferro inglesa que cortava Santa Catarina e lhe levava as terras, tornando o povo escravo em seu próprio lugar. João Maria e sua gente combateram o invasor. Foram até o fim e hoje são estrelas fulgurantes da história deste chão, estudados na escola e reverenciados por todos aqueles que buscam liberdade. Apertei os olhos para ver. Mas não era ele. A fileira que eu via, mal iluminada pela lua cheia, era feita de pinus elliotis, milhares, milhões. Não eram gentes em busca de vida digna. Era um novo invasor.

1910

No México começa a revolução. Os índios, os camponeses, as gentes “de abajo” reclamam terra e liberdade. Armam-se até os dentes e, com Zapata e Villa, passam a escrever uma das mais belas páginas da história popular. No Brasil, o povo silencia diante do avanço do cavalo de ferro. Em todo território abrem-se as veredas para a passagem do trem. No comando, as empresas estrangeiras, como sempre, a maioria inglesas.  Em Santa Catarina não é diferente.  A Brazil Railway Company (é, assim mesmo, em inglês) termina de rasgar o solo do estado. Vai trazer o progresso, dizem. O dono é um estadunidense chamado Percival Farqhuar, que decidiu fazer fortuna com as ferrovias criando uma empresa em 1906  e, nestes dias, já domina praticamente tudo ao sul do mundo. O trecho que atravessa Santa Catarina, entre São Paulo e Rio Grande, está terminado e agora vem a melhor hora para o empresário do norte. Ele vai abocanhar mais de seis mil e seiscentos quilômetros quadrados de terra ao longo da ferrovia. O propósito é “enricar” com a madeira. É o acordo. Já os trabalhadores, em número de quatro mil, que penaram na obra, são demitidos sem que se cumpra a promessa de dar dinheiro para a volta a casa. Por isso, são eles que vão engrossar o exército de miseráveis que se forma com a expulsão dos camponeses das terras que agora são do “americano”. É a primeira florada do que mais tarde será conhecido como o Exército Encantado de São Sebastião.

2008

O olhar enviesado e o tique nervoso no canto da boca dão conta de que o homem está incomodado. Ele ouve a mulher falar sobre os males do pinus e mexe a cabeça silenciosamente num gesto de negativa. Depois, mais tarde, numa conversa reservada, enquanto os demais parceiros estão no almoço, arrisca um debate. “A moça não sabe o que é viver de produção. Uma hora é a chuva, ou o sol demais, os riscos de perder tudo estão aí, a toda hora. Depois, ainda que a coisa dê, pode ser que o preço fique lá embaixo e a gente está sempre no vermelho. Com o pinus não, é favas contadas. A empresa paga, e pronto. Dê o que der. Pra quê melhor?” inquire, sério. O agricultor do meio-oeste catarinense  diz o que quase todos os plantadores de pinus têm na ponta da língua. Esta é uma produção segura, sem muito risco. A árvore não exige muito e o retorno é garantido. Para quê então arriscar plantando feijão, trigo, mandioca ou qualquer outra cultura que exige demais dos camponeses e ainda pode levar à falência? Falar de cuidados com o meio ambiente provoca o riso. Boa parte não acredita nesse discurso de que as mudanças climáticas tenham a ver com o que se faz com a terra. “Antigamente os nossos avós cuidavam da terra, e o quê eles tinham?” – Este é o argumento. Os pequenos proprietários do meio-oeste estão enredados até a medula na armadilha do sistema capitalista. Vida simples e natural? Qual nada. Melhor é o microondas e o freezer. Hoje, nas cidades que formam a região de Lages, falar mal do pinus é puxar briga. Os que estão conveniados com as grandes fábricas de papel ou as madeireiras não querem nem ouvir falar de outro tipo de exploração da terra. E se alguém insiste, corre o risco de ser cuspido e até apedrejado.

1500

As caravelas de Cabral se aproximam da costa. Está descoberto o paraíso. Na carta enviada ao rei, vai a semente do grande mal extrativista que daria à colonização destas terras uma marca indelével. “Esta terra, Senhor, será tamanha que haverá nela bem vinte ou vinte e cinco léguas de costa. Traz ao longo do mar em algumas partes grandes barreiras, umas vermelhas, e outras brancas; e a terra de cima toda chã e muito cheia de grandes arvoredos. De ponta a ponta é toda praia... muito chã e muito formosa. Pelo sertão nos pareceu, vista do mar, muito grande; porque a estender olhos, não podíamos ver senão terra e arvoredos...  Até agora não pudemos saber se há ouro ou prata nela, ou outra coisa de metal, ou ferro. Em tal maneira é graciosa que, querendo-a aproveitar, dar-se-á nela tudo; por causa das águas que tem!” Desde aí, cortar madeira passa a ser coisa normal por aqui. Todo o pau-brasil vai sendo levado embora e séculos mais tarde, para se ver um pezinho, só em viveiros de abnegados que se dedicaram a salvar o que fora uma grande riqueza. Por outro lado, nos castelos e igrejas de Portugal e Espanha lá está a madeira cor-de-rosa a denunciar, com beleza, o roubo.

1776

Andam pela região (hoje Lages) turbas de castelhanos. É um tempo de fixação de fronteiras. Os tropeiros que vêm de São Paulo para o sul dão notícias de que a bandidagem está comendo solta por ali. Então, o governador de São Paulo decide fixar naquela região um povoado. Quem vem é Correia Pinto, um bandeirante acostumado na batalha contra os índios. Vai dar conta dos castelhanos e da “bugrada”. Ele monta uma vila, bem próxima ao rio Canoas. A terra é boa e as araucárias que vicejam por ali prometem grandes lucros. A madeira é de primeira. 

1925

Pelas estradas poeirentas de Lages, Correia Pinto, Lebon Régis, enfim, por todo o meio oeste, circulam, gordos, os caminhões. A Guerra do Contestado já caiu no esquecimento, afinal, quem se importaria com meia dúzia de “fanáticos?”  O trem de ferro que causara tanta dor agora é a anunciação do progresso.  As gentes que por ali vivem têm uma riqueza bem à mão: a floresta. O pinho é madeira nobre, retorno garantido. Basta um machado, força no braço e um caminhão. A boca do monstro tem nome estrangeiro. É a serraria Southern Brazil Lumber Co. Sem que isso seja coincidência, o dono da empresa de nome inglês é o mesmo da ferrovia que foi o estopim da luta camponesa naquelas terras, o estadunidense Percival Farqhuar. Lá dentro a lei é a dos Estados Unidos, pistoleiros vigiam os empregados e só o 4 de julho é dia de festa. A serraria, que foi a maior de toda América Latina, ocupando mais de 60 hectares, devastou a região desde 1913. A madeira abasteceu o mercado estadunidense e sugou a riqueza do meio oeste. Como é de praxe, quando a empresa faliu, em 1938, foi estatizada pelo governo de Getúlio Vargas. Mas, o ciclo do pinho já tinha feito o estrago. Em São Paulo, sem nem saber de Farqhuar, a empresa da família Klabin começa a se destacar no ramo papeleiro.

1960

A empresa nascida do sonho do Mauricio Klabin estende seus tentáculos para o sul do país. Já tinha fincado raízes no Paraná e agora é a vez de Santa Catarina. Para isso, precisa “profissionalizar” seu fazer, então, se junta a duas empresas estrangeiras, ambas estadunidenses: a Adela Investiment Co. SA e a International Finance Corporation – IFC - financeira do Banco Mundial. No ano seguinte abre a Papel e Celulose Catarinense Ltda, que só vai operar a partir de 1969, na cidade de Lages. O som do machado começa a vibrar com força outra vez no meio oeste. Quase sem pinheiros – consumidos na febre da Lumber - a saída encontrada será típica da selvageria capitalista, ou seja, o que der mais lucro em pouco tempo. O povo da região de Lages esquece o feijão, a mandioca e começa a plantar árvore, pinus e eucalípto, afinal não é o verde que os eco-chatos querem? 

2008

O biólogo Ademir Reis, professor na Universidade Federal de Santa Catarina, diz que muito do que se diz sobre os males do pinus é blefe. “Ele não estraga a água e não espanta passarinho. O verdadeiro problema não é o pinus, são as pessoas”. Segundo o biólogo, toda e qualquer plantação cobra sua fatura da terra, seja a soja, o arroz ou o pinus. O que se necessita é adequar a produção a uma forma sustentada, de respeito ao meio ambiente. Sobre o argumento de que o pinus chupa a água de onde está, Ademir argumenta: “toda a árvore puxa água. Na Amazônia, a floresta suga 30% da água que sobe e volta”. O único problema que ele reconhece é o da condição de invasor. “Realmente as sementes de pinus voam a grandes distâncias, elas fogem do espaço plantado e vão ocupando novos territórios.  Isso tem que ser cuidado. No demais, ele até protege a terra da erosão. Há que respeitar as beiras de rio e os topos de morro”. Para o professor, as empresas catarinenses que trabalham com o pinus são responsáveis e têm certificação internacional. “Já no que diz respeito a ser uma monocultura, é certo que é ruim. A produção deveria ser diversificada”


2007



Nas escolas da cidade de Fraiburgo começa a circular uma singela cartilha que leva o nome de: O quati, a gralha e o pinus – como enriquecer preservando a natureza. A idéia é educar as crianças, filhas de agricultores, para as vantagens dos pais plantarem a invasora. O trabalho se utiliza do que há de mais simbólico na região, os dois animaizinhos silvestres. A gralha, inclusive, é a sementeira da araucária, o que torna a cartilha algo grotesco. No documento em forma de gibi, a gralha e o quati vão dizendo o quanto o pinus vai trazer trabalho. “Se o pinus nasce na montanha, porque os trabalhadores estão parados?” pergunta o quati, aludindo a vantagem de se ocupar os morros. Diz a gralha: “ O pinus ajuda o governo através do imposto e o governo depois dá ao povo saúde, educação, lazer e segurança”. E acrescenta: “As árvores protegem as margens dos rios e os animais. Melhora a qualidade do solo, limpa a atmosfera e deixa as águas limpinhas, além de gerar muito emprego”. Isso é claro, revestido da idéia principal que é de se ficar rico com esta plantação. Finaliza, alegre,  o quati: “mas então vamos erguer um monumento ao pinus em todas as cidades”. O documento distribuído tem a coordenação de um conhecido empresário da área de maçã da cidade, Willy Frey, com a colaboração do Projeto Renda Crescente. 

2008

O agrônomo Eros Mussoli não considera “blefe” os males da árvore que hoje invade o Estado. Ele conhece bem a região de pinus que se formou no Rio Vermelho, em Florianópolis, e garante que a árvore solta uma espécie de resina que destrói a vida da terra. “Nada se cria sob o pinus, acaba com a vida orgânica. Ali no Rio Vermelho onde cai a palha não nasce nada. Não precisa ser estudioso para ver”. Pescadores que vivem na Lagoa da Conceição também concordam e denunciam que em dias de chuva, a resina escorre para a lagoa, matando peixes, siris e camarões. Eros considera que a característica do pinus, com suas sementes voadoras, contribui para a formação de grandes desastres ambientais. “É como uma endemia. Lá no parque do Tabuleiro, que é uma região super protegida, já tem pinus. Eles vão tomando conta e quem protesta e quer discutir a questão é logo marcado como um anti-progressita”. Não é à toa que na cidade de Lages já se pode observar, instigada por conhecidos políticos locais, uma sistemática caça aos que eles chamam de eco-chatos.

2009

Mas os dias do pinus podem estar contados em Santa Catarina. E sua “morte” não terá nada a ver com as lutas contra suas características destrutivas ao meio ambiente. Será simplesmente pelo novo gosto dos europeus, como bem convêm ao sistema capitalista. Diz o professor da UFSC, Ademir Reis, que na Europa as pessoas não querem mais saber de móveis descartáveis. Há um retorno à idéia de durabilidade da madeira e estes novos hábitos já repercutem, por exemplo, em Rio Negrinho e São Bento, municípios catarinenses com grande atividade de exportação de móveis. “Tem muita empresa fechando por lá”. Não bastasse a questão da durabilidade tem ainda a cor. O gosto europeu para este ano está mais para as madeiras vermelhas, mais claras, como o cedro e o mogno. “Tem outra madeira que virou sucesso por lá, é a paricá, uma madeira branca, muito bonita, nativa da Amazônia. E o que se sabe é que já tem muita gente botando mata abaixo lá no norte para plantar paricá”. 

Atualidade

Nem a tragédia envolvendo a região do Vale do Itajaí, que praticamente ruiu durante fortes chuvas,  faz com que os governantes compreendam que tudo está ligado à questão ambiental. A prova disso foi o novo Código Ambiental proposto pelo governo de Luiz Henrique da Silveira. Nele, estão liberados os plantios nas margens dos rios e nos topos dos morros, bem ao gosto dos plantadores de pinus, além de outras tantas aberrações. No cerce de tudo, os desejos dos empresários, dos latifundiários, dos ricos. A roda da economia não pára e a política do desenvolvimento a qualquer preço também não. No campo, entre os pequenos proprietários plantadores de pinus, praticamente ninguém aceita falar em mudar de cultura. O pinus dá lucro sem esforço. É o sonho de toda a gente. Quase ninguém quer falar sobre estas coisas chatas que envolvem a destruição do planeta, ecologia, etc... “Isso é coisa de gente atrasada, inimigo do progresso”. Poucos levam em consideração os fatos, tais como conta uma agricultora de Timbó Grande. “Lá tem nove mil habitantes, 10 ou 15 são agricultores. O resto planta pinus. A maioria das cabeceiras de rio está secando, não tem emprego para os jovens, aumentou a pobreza, a droga, a gravidez na adolescência”.

Para o biólogo Ademir Reis, com as mudanças na preferência por outros tipos de  madeira, buscar o replantio da araucária pode ser a grande saída econômica do Estado, que vai assim aproveitar a sua flora nativa. Mas isso só pode acontecer com um grande programa estatal de salvamento. “Temos 100 anos de melhoramento do pinus, enquanto a araucária, por conta da lei, não tem sido replantada. Não é viável economicamente para o dona de terra ter araucária, por isso eles arrancam a árvore assim que ela brota. Porque se vingar ele só pode tirar 50%. Além disso não havia mercado para a araucária. Por isso, um programa de salvamento tem que incluir o Estado. A empresa sozinha não vai se ajustar sem benefício”.

E assim são as coisas. Quando mudam, mais levam em conta os interesses do mercado capitalista do que a vida das pessoas, o bem estar ambiental, o cuidado com o planeta. Só vale aquilo que traz lucro, e de preferência fácil, sem que se faça muito esforço.  

Enquanto isso, em Caçador, à janela sigo fixando os vultos que parecem marchar. Agora sei, são pinus e não as gentes de João Maria. Mas, uma aragem leve me traz um perfume de fogão de chão, e, com ele, vêm a lembrança de uma gente guerreira que vê a terra como mãe, de um povo que conhece o segredo da Pachamama, de homens e mulheres que não se entregam ao canto da sereia da falsa promessa do capital. E, assim, marcham, novos e velhos combatentes do Exército encantado de São Sebastião, das hostes guerreiras de Tupac Amaru, de Sepé Tiaraju. Logo, serão milhões, e suplantarão o exército de pinus... Assim pede a minha vontade na noite fresca de Caçador! 

sexta-feira, 4 de abril de 2014

quarta-feira, 2 de abril de 2014

Albinos na África



O medo das coisas que não se conhece é capaz de levar a posturas terríveis. Isso é o que acontece na África do Sul com relação a crianças negras que nascem albinas, ou seja, sem pigmentação. Em muitas comunidades a criança albina é vista como um ser mágico e muitas vezes chega a sofrer mutilações para que suas partes sejam usadas em rituais de feitiçaria. Conforme texto divulgado no sítio Opera Mundi pessoas albinas costumam ser escondidas por conta da ação dos “caçadores”, que podem lucrar até 75 mil dólares vendendo um “conjunto de membros”.  

"As partes mais valorizadas (dedos, língua, braços, pernas e genitais) podem ser comercializadas por 3 mil dólares. Entre 2006 e 2012, 71 albinos foram sequestrados, mutilados ou assassinados ao redor da África-subsariana. O último crime registrado no país sul-africano ocorreu em 2011, quando Sibisuso Nhatave desapareceu enquanto caminhava para a escola na província de KwaZulu-Natal. O menino albino de 14 anos nunca mais foi encontrado. Concluídas no ano passado, as investigações apontaram para sacrifício tribal".

O fotógrafo Paquito Masiá esteve na África do Sul e registrou essa imagem, capturada numa espécie de orfanato, onde ficam protegidas crianças albinas. São órfãos, ou rejeitados pelas famílias por causa da falha genética. No momento da foto, elas aguardavam pelo horário da refeição, durante uma apresentação cultural que buscava arrecadar verbas para sustentação da entidade. 

Tristeza. Foi isso o que Paquito viu no olhar de cada uma daquelas crianças. Tristeza e abandono. 

"cada um com seu sentir
cada um com seu se saber
cada um na pele em que habita
cada um com o seu
cada seu"
(Paquito Masiá)




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