quarta-feira, 1 de setembro de 2021

O pai e as surpresas


Uma das coisas mais seguras nessa doença de Alzheimer é o mexe-mexe nas coisas. Uma ansiedade por abrir portas, gavetas e mexericar em tudo. Aqui é assim. O pai almoça e dá uma descansadinha no sofá. Fica ali vendo TV ou olhando para a janela. De repente, do nada, ele se levanta e sai. Caminha ligeirinho em direção ao portão. Pode fazer o tempo que for, inclusive chuva. Ele se manda. Depois de mexer no cadeado do portão, sem sucesso para abrir, ele volta. Ai começa o abre fecha de tudo que há. Gavetas, armários, fogão, geladeira. E ai de quem diga alguma coisa ou o impeça. Tem que deixar fuçar. Eu fico de longe só observando se ele não vai pegar alguma coisa de vidro ou derrubar algum pacote aberto. 

Nisso ele fica um tempo. Pega as panelas em cima do fogão e bota na mesa. Tira da mesa, bota de novo no fogão. Fuça no lixinho da pia. Geralmente deixo uns saquinhos pendurados nos pegadores das portas dos armários com coisa que ele pode comer como pão, frutas, biscoitos. Ele pega os saquinhos e sai de fininho, achando que está me enganando. E eu fico bem quietinha. É um joguinho de gato e rato que pode durar horas. Ele até dá uma paradinha para o café, mas logo retorna ao mexe-mexe  e esconde-esconde. 

Quando chega a hora de dormir é hora de finalmente recolher as surpresas. Dentro dos bolsos encontro cada coisa. É controle da televisão, cartas, pedacinhos de dominó, bolinhas, banana, pinhão, cascas, pedaços de pão, colheres, pedacinhos de papel, garrafinhas de molho, panos de prato, canetas, lápis de cor, prendedores de roupa, latinhas,  caixinhas de remédio e até cabeças de alho. Também já achei uma caixinha de Maisena. Tudo isso ele vai amealhando ao longo do dia. Eu vou trocando a roupa dele e encontrando os “mimos”. E tenho de esconder debaixo da cama senão ele quer pegar de volta. Tem alguns aos quais ele se aferra e aí não tem jeito. Há que esperar adormecer para tirar da mão. Geralmente são panos de prato ou saquinhos plásticos.

A vida dele gira em torno dessas insólitas e prosaicas atividades. Pode parecer que ele está fechado em mundinho pequeno. Mas, não. Nessas colheitas de pequenos objetos, no vai-e-vem no quintal, nas espiadas por cima do muro, nas conversas com o Rolando Boldrin e no diálogo com os cachorrinhos existem universos inteiros que podem ser incompreensíveis para nós, mas que o enchem de alegria e serenidade. E é assim que seus dias passam, na paz.



Fenaj quer mitigar danos aos jornalistas. Esse é o caminho?



Participei de uma discussão chamada pela Fenaj na qual os seus dirigentes apresentaram uma proposta que me deixou boquiaberta: a taxação das grandes plataformas. Oi? Confesso que me esforcei. Mas não entendi. Então, fui buscar mais informações no sitio da minha federação e lá estava a manchete, assim, sem pejo: “FENAJ apresenta proposta de taxação de plataformas digitais como forma de mitigar danos causados ao jornalismo”. Oi? Como assim, meu deus? Mitigar os danos? 

A Fenaj era para ser uma federação de sindicatos, logo, deveria atuar numa pegada sindical. Mas, não é assim. Já faz algum tempo que a Federação dos Jornalistas atua mais como um espaço de trabalhadores liberais. Tanto que é a Fenaj quem tem feito a campanha pela criação de um Conselho Nacional de Jornalistas, que seria algo assim como um espaço de fiscalização da profissão, típico das profissões liberais, como médico, engenheiro, contabilista, etc...

Sempre acreditei que os trabalhadores da comunicação deveriam se unificar em um sindicato único. Não faz muito sentido ter um sindicato de uma categoria que não se sente trabalhadora. No nosso caso, jornalistas, temos avançado muito para essa forma de ser que é a pessoa pejotizada. Ou seja, não é trabalhador, porque não assalariado, mas também não é patrão, porque precisa da empresa que o contrata de forma terceirizada. Logo, tá sempre numa espécie de limbo identitário. 

Já fui contra o Conselho Nacional de Jornalistas justamente porque, se ele existisse, o sindicato dos jornalistas seria algo totalmente inútil e eu acreditava que os jornalistas poderiam, sim, ter um sindicato que fosse um instrumento de luta dos trabalhadores desse fazer. Hoje não me oponho mais. Observo que cada vez mais os jornalistas vão se distanciando da ideia de ser trabalhador. Vivemos um tempo de pessoas-projeto, de empreendedores, e os poucos que ainda estão nas galés (mídias comerciais, sindicatos e instituições), portanto, com patrões, acabam se determinando no conjunto do grupo onde estão inseridos. O sindicato dos jornalistas fica inútil. Não que isso seja “culpa” dos jornalistas. É que o tempo histórico, que constituiu outras ferramentas de comunicação, tem destruído a profissão e ao mesmo tempo não há qualquer proposta revolucionária que garanta a construção de outra realidade.

Agora, ao me deparar com essa campanha da Fenaj pela taxação das grandes plataformas, tenho fortalecida essa sensação de que a profissão de jornalista se esboroa.

A ideia é tirar das grandes plataformas de dados e informação – que hoje matam o jornalismo – uma grana, que seria colocada num fundo. Esse fundo seria gerido por um conselho que iria destinar as verbas para a formação de jornalistas e/ou produção de notícias. A proposta não é da Fenaj mesmo, é da FIJ, a Federação Internacional. Esta federação está  preocupada com a queda dos investimentos nas empresas de comunicação. Como a queda de investimentos acaba tendo impacto nos empregos, eles pensaram em taxar as megaempresas e com a grana criar alternativas para os jornalistas. Uma coisa meio surreal. É mais ou menos como as entidades de luta popular que usam recursos das Fundações estadunidenses para combater as políticas que essas mesmas fundações oferecem aos Estados Unidos e que os  Estados Unidos nos impõem. Sinto muito, mas não consigo entender.

É incognoscível.

Conforme ainda a notícia no sítio da Fenaj, esse  fundo seria usado para a produção de jornalismo, notícias, que, assim, garantiriam a pluralidade e a democratização da comunicação. Eu confesso que ainda não entendi direito a parada. Como que isso iria garantir a pluralidade? Por mais notícias que fossem produzidas pelos jornalistas pagos pelo fundo, haveria garantia de que essas notícias circulariam nas big empresas de informação? Seria uma espécie de terceirização do serviço jornalístico por essas big empresas? Ne afinal essas informações circularia?  E a universidade então não teria mais sentido na formação do jornalista? A formação universitária seria apenas ritualística, com a verdadeira formação para os meios sendo feita à parte?  Seriam os cursos promovidos com a grana das plataformas que iriam definir a qualidade do jornalismo? De que forma isso combateria a formação dos oligopólios? Sem or! Não me parece fazer sentido essa proposta.

Compreendo a apreensão da Fenaj com o futuro dos jornalistas, afinal, a realidade aponta para o fim das empresas de comunicação tal como as conhecemos. Televisão, jornal e rádio são mídias que tendem a encolher com o avanço das grandes avenidas comunicacionais criadas pelas bigdatas, streamings e plataformas de bobagens tipo o tik tok. Continuo acreditando que, mesmo nesse cenário, o jornalismo ainda é necessário, pois diante de tanta desinformação e alienação é sempre o jornalismo que tem o papel de desvendar o que se esconde. Assim que o jornalismo deve continuar existindo, fazendo o ataque feroz aos inimigos do conhecimento. Mas, não creio que o caminho seja esse proposto pela Fenaj. 

Da minha parte penso que deveria ser transformado e fortalecido o ensino do jornalismo nas universidades, capacitando os profissionais para serem  bons perguntadores, bons analistas da realidade e críticos. E, do ponto de vista da luta política teríamos de combater os oligopólios e não fazer alianças com eles. 

Ou seja, precisamos de teoria revolucionária, luta revolucionária e um sindicato capaz de incorporar essa luta, insuflando os trabalhadores à construção de outro mundo, socialista. A proposta da Fenaj está dentro da lógica da “humanização do capitalismo”, coisa que obviamente não é possível.



segunda-feira, 30 de agosto de 2021

Anita



Há quem diga, para desqualificar nossa Anita, que ela era apenas uma mulher que, por amor, se deixou levar por aí, nas batalhas farroupilhas e em outras peleias de libertação, inclusive na Itália. Heroína de dois mundos. Ora, ainda que fosse isso, deveríamos lhe render glória. Afinal, que mulher, naqueles dias, foi capaz de fazer o que ela fez?  

Mas, o fato é que sua saga não foi só seguir um homem. 

Fosse assim ela não teria lutado batalhas sem ele, espada em punho, revólver na cintura, em cima do cavalo e com os filhos nos braços. Anita era mulher apaixonada. Anita era soldado, era organizadora, era mãe, era parceira. Anita era valente, era destemida, era furacão. 

Hoje, quando se celebra seu nascimento, sopra desde o mar, vindo lá de Laguna, um vento levinho. E com ele vem o seu perfume de mulher tocada pelo amor. Uma amor que a fez imortal. Eu te reverencio, Ana, Aninha, Anita, guerreira desses nossos caminhos. 

E tudo o que posso desejar é que brote em nós essa paixão louca que te fez combatente quando tudo apontava para uma pacata vida na beira do mar. Eu te reverencio Anita, assim como reverencio Juana Azurduy, Bartolina, Micaela, Manuela e tantas outras mulheres que, por amor, conduziram uma nação.

quarta-feira, 25 de agosto de 2021

De cozinha e de felicidade



Minha mãe adorava dormir de manhã e odiava cozinhar. Por isso, no geral, acordava de mau humor. Porque sabia que logo teria de entrar na cozinha. Levantava sempre depois das 10h, cara amarrada, tomava um cafezinho preto e já começava a azáfama do almoço. Não gostava da parada, mas era mestre. Jamais fez um prato só. Enchia a mesa com várias opções. E era tudo muuuuito bom. Seu mau humor ia diminuindo conforme ela dançava entre as panelas, a mesa e o fogão. Eu sempre procurava diminuir seu trabalho e funcionava assim como uma auxiliar de cozinha. Fazia o pré-preparo e, nisso, fui aprendendo a cozinhar também.  Ela não gostava de carne moída. Preferia picar em pedaços bem pequenos e bater, bater, bater. Era uma perfeccionista. Nunca entendi como podia ela detestar tanto cozinhar e fazer isso tão bem. 

Depois que saí pra vida levei comigo esse desgosto com a cozinha. Também nunca fui de cozinhar e minha opção principal sempre foi comer fora. Nos finais de semana, um sanduiche de mortadela já estava muito bom. O máximo que eu chegava a fazer era um arroz com guizado para comer com farinha. Quando decidi morar com o Pedro, os deuses me abençoaram, ele adora cozinhar. Depois, chegou meu sobrinho, praticamente um chef. Ô, bênção! Ainda assim, se eles não estão, eu tranquilamente me viro com sanduiches.

Com a chegada do pai, as coisas mudaram. Ele precisa de refeições balanceadas. Há que ter almoço, jantar, lanches. Valamideuzi. Antes da pandemia, o Renato me valia e tudo ia bem. Mas, com a peste, tive que ficar em casa e aí, a cozinha estava lá, me chamando. As aulas pela internet do Renato e o meu trabalho remoto viraram a vida de pernas para o ar, e ao final, em vários dias da semana o almoço é por minha conta. 

Foi só aí que entendi o lance da mãe. Sobre como podia ela não gostar de cozinhar, mas ainda assim fazer as comidinhas mais deliciosas do mundo (sim, porque nunca encontrei panquecas ou bifes à milanesa melhores do que os dela).  Não era o que fazer, mas o para quem. Ela cozinhava para nós, seus filhos, seu companheiro. Ela superava o fato de não gostar de cozinhar com o seu compromisso de amor. Por isso tudo saia tão bom.

É o que acontece comigo. Quando é meu dia de cozinhar já começo bem cedinho tirando os ingredientes da geladeira, deixando-os descansar. Depois, vou fazendo tudo como a mãe fazia, do mesmo jeitinho e com os mesmos temperos. Coloco para tocar as músicas do Expresso Rural, abro uma cerveja, e entre cantorias e bailados vou mexendo os caldeirões. Quando o pai acorda, já encontra a cozinha nessa polvorosa, porque também como a mãe, eu faço uma baita bagunça com os temperos e as panelas. Como ele gosta de música, ponho os vídeos do Orlandinho e ele se diverte com os passinhos. A gente dança. Depois, passamos para as músicas gaúchas, de preferência as que falam de Uruguaiana. Ele toma um vinho e a comida vai se fazendo. Não há mau humor nem má vontade porque tudo está temperado com a bem-querença. É quando sinto, visível e concreto, o espírito da minha mãe. Ela conhecia esse segredo. Era só amor. 

Acho que é por isso que consigo fazer comidas gostosas, mesmo que sejam meio sem sal (por conta da pressão alta da turma). E, assim, vamos mantendo o bom astral e a alegria, apesar de ter de conviver com uma doença tão terrível como é o Alzheimer. 

Não, a vida não é um conto de fadas e nem todos os dias são bons. Mas, seja em qualquer hora, ver o riso do pai é a melhor pedida. Vale todos os sacrifícios. Penso que era isso que ia mudando o humor da mãe, todas as manhãs, enquanto ia cozinhando. Sua alegria era a mesa farta e todos nós saboreando. Mas, ela encontrava um jeito de se “vingar” também, deixando a pia repleta de louças. Acabo fazendo igual. Cozinho, mas bagunço. Por isso o Renato, quando se prepara para sua tarefa de lavar a sujeira toda, diz:

- A dona Helena passou por aqui. E é bem verdade.



segunda-feira, 23 de agosto de 2021

O império às claras


Ouvi ontem a fala do presidente dos Estados Unidos sobre a retirada do “seu” pessoal do Afeganistão. Ele informava à nação sobre a evacuação do país e sobre quem eles tinham decidido salvar. Tranquilo e sem pejo ele disse que 28 mil afegão tinham sido resgatados, aqueles que durante esse tempo de ocupação haviam colaborado com os Estados Unidos. “Fizemos isso, porque é assim que somos. Cuidamos dos nossos”. Pois bem, 28 mil pessoas e ponto final. Os demais que se virem. Foram lá e destruíram um país, então esse descaso com as gentes não é novidade. “Só se dá bem que é nosso amiguinho”. E provavelmente a audiência aprovou sem destaques a decisão.

Disse ainda o presidente que não havia mais o que fazer no Afeganistão. Eles tinham ido pra lá para pegar Osama Bin Laden e destruir a Al-Kaeda. Isso já estava feito. Então, nada mais havendo a tratar, encerramos essa etapa. Foram 20 anos para ver que nem Osama estava lá, nem a Al-Kaeda. Mas, Julian Assange, o homem que o governo estadunidense quer encarcerar e destruir, já havia dito há anos atrás: não se trata de vencer, se trata de manter a máquina de guerra. Tudo o que há é o business. Tudo que se quer é manter a economia girando. E, depois, o mundo é tão grande. Há tantos países para destruir. Mas, não se preocupem, quem ficar do nosso lado, a gente resgata. Essa foi a mensagem.

Assim, apaziguados e certos de terem sido solidários com os seus amiguinhos, os estadunidenses devem ter ido dormir em paz. Provavelmente haverá algumas campanhas de denúncias por conta da situação das mulheres e depois, em alguns dias, o assunto sai das manchetes e tudo segue seu curso. Tampouco se falará que o Talibã é cria do serviço não tão secreto dos EUA.

Pouco sei do Afeganistão, sua cultura e sua forma de viver. Mas, ao longo desses 20 anos sempre estive do lado daqueles que defendiam o direito do país se autodeterminar. Dizem alguns que lá é um emaranhado de clãs, dominado por tradições arcaicas e que é dever do mundo ocidental, civilizado, impor sua maneira de viver a isso que consideram um atraso. Bem, nós, em Abya Yala, sabemos de cor e salteado sobre o que acontece quando alguém se arvora em ser  “a” civilização. No caso específico do Afeganistão nós pudemos acompanhar via satélite: os crimes, os massacres, o terror, a tortura, tudo o que foi imposto pelas armas estadunidenses em nome da “democracia e liberdade”. Provavelmente isso só foi bom para uma minoria que encheu os bolsos. De novo, o que deve ter pesado foram os negócios, o dinheiro, o lucro.

Assim que os fatos se apresentam sem disfarces para todos nós. Quem tiver olhos para ver, que veja. Quem tiver ouvidos para ouvir, que ouça. Enquanto o que dominar o mundo for o interesse de uma classe minoritária, as coisas serão assim.



Farinha pouca, meu pirão primeiro


Esse é um ditado popular que infelizmente parece ser a regra no mundo humano. Aquilo que toca individualmente é o que acaba prevalecendo. O coletivo serve para bonitos discursos, mas a prática é o que determina aquilo que realmente somos e pensamos. Um dos exemplos disso é a vacina. Há os que, em nome de suas convicções individuais, preferem deixar o coletivo se explodir. Mesmo sabendo que a vacina terá mais eficácia quando mais gente estiver vacinada, há os que se negam, ainda que nos seus perfis de redes sociais façam emocionados discursos pela família, por deus, por gatinhos ou cachorros. 

Outro exemplo são as lutas sindicais, coletivas. Uma batalha travada por uma categoria precisa da adesão de todos, mesmo aqueles que não são tocados pelas decisões. Lembro-me das greves da UFSC quando os técnicos de nível superior decidiram criar uma associação própria porque entendiam que os ganhos vinham só para os de nível médio.  Estudados, sabiam muito bem que numa greve existem várias demandas e que os ganhos podem não chegar da mesma forma nem no mesmo tempo para todos. Houve greves que os TAEs de nível superior ganharam mais, e outras que os de nível médio ganharam mais. É assim. 

Também havia e há até hoje os que sequer fazem greve porque acreditam que estão muito bem, que o seu salário tá bom, que não sofrem assédio, que têm chefias camaradas etc... Então, se existe alguém que não está satisfeito, que lute sozinho. O bom e velho egoísmo funcionando a mil. Sempre tentamos trabalhar isso nos movimentos, observando que a luta coletiva é o que fortalece a categoria, e que as batalhas pontuais a gente vai travando ora aqui, ora ali. 

Agora mesmo a UFSC define um retorno ao trabalho presencial em setembro, apenas para os técnico-administrativos é claro, bem no meio de uma nova onda da Covid, com a variante Delta chegando para arrasar. A ideia, diz o documento da reitoria, é preparar os setores gradualmente para o retorno, ainda que diga que os setores precisam abrir das 08 às 18. Onde fica o gradual aí? E como trabalhar em salas que não têm a devida ventilação quando os prédios foram sendo feitos para o uso de ar-condicionado? Há tantas coisas que causam insegurança e até terror. 

Isso acontece com todos os trabalhadores? Não! Existem setores na UFSC que podem estar bem preparados para um retorno. Inclusive existem trabalhadores que nunca pararam de ir à universidade, presencialmente, para resolver problemas. Eu mesma fui várias vezes ao IELA ligar os equipamentos, fazer limpeza, fazer a manutenção nas máquinas fotográficas, filmadoras e em outras máquinas que não podem ficar tanto tempo paradas. Sabemos o quão difícil é conseguir a estrutura. Amamos a UFSC e temos muita clareza de que precisamos cuidar. E por que eu fui ao IELA? Porque lá estou sozinha. Não divido o espaço com ninguém e nunca permiti ar-condicionado no meu espaço, sempre de janelas abertas. Ora, essa é minha realidade, individual. 

O mesmo não acontece com uma parcela bastante grande da universidade. Boa parte dos trabalhadores labuta em salas coletivas, fechadas. Então, o compromisso ético de cada um de  nós deve ser com essa maioria. A luta coletiva precisa estar em primeiro lugar. Atualmente, os mais diversos setores da UFSC, com suas especificidades tão díspares, estão trabalhando na sua capacidade máxima. Cada pequeno setor segue dando respostas para a comunidade e para a instituição. Ninguém está parado. O trabalho da maioria está sendo feito remotamente, mas, possivelmente, muitos colegas já foram até a UFSC para resolver alguma coisa presencialmente. Porque é assim que são os trabalhadores comprometidos com a universidade.

Assim que um retorno presencial em massa não tem sentido algum nesse momento, muito menos na lógica confusa da administração que afirma ser um retorno gradual, mas exige setores abertos. Haveremos de retornar, é certo. Quando for seguro. E ainda não é. Por que então expor os trabalhadores a um risco desnecessário? Por conta das cobranças da imprensa pelega? Ora, desde quando a UFSC se rendeu à bocas-alugadas de plantão? O documento da reitoria diz que serão acompanhados os casos de infecção que possam surgir. Ora? O que é isso? Depois de os trabalhadores serem infectados, sem necessidade, o que a UFSC fará? Rezar? Chorar no enterro? Isso não tem qualquer cabimento. 

Cada trabalhador da universidade sabe do seu trabalho e a maioria sempre esteve e está comprometida com a qualidade do que faz, sabendo muito bem o que significa ser um trabalhador público. Sim, existem os ladinos, os preguiçosos, os egoístas. Mas, esses, são poucos, exceções. Não podem servir como base. 

O que deve nos orientar é a luta coletiva. Enquanto houver um único colega em risco, por conta de uma decisão irresponsável, temos de estar juntos, lutar juntos.  

Precisamos preparar a universidade para o retorno, é certo, mas isso não se dá assim, num ato administrativo, sem diálogo com os trabalhadores e sem a devida contrapartida estrutural. Esse retorno precisa ser articulado e discutido com as categorias que conformam a UFSC. Não estamos em Marte. Estamos aqui e temos muito a contribuir. 

Esperamos que a administração central não se esqueça de tudo que prometeu na campanha eleitoral. A democracia tem de ser participativa e, tal e qual a solidariedade, ser uma prática cotidiana e não um discurso vazio.



quinta-feira, 12 de agosto de 2021

O trabalho e os dias


Eu tinha 19 anos quando consegui meu primeiro trabalho de carteira assinada. Foi em Pirapora, Minas Gerais. E eu tinha essa carinha aí. Naqueles dias minha mãe vivia a dor de ter desenvolvido a doença da tristeza: a tuberculose. E, não havia SUS. A parada era sinistra. O tratamento muito caro. Era preciso agir. Eu não tinha muita qualificação e fui atrás do que fosse. Padaria, lanchonete, hotel, qualquer coisa que assegurasse uma ajuda para o pai, que era o único que tinha salário. 

Depois de muita procura consegui uma vaga numa distribuidora de bebidas, de um amigo/vizinho da minha amiga Fathiô, que ficava quase na saída da cidade, bem longe. Minha função lá era anotar os pedidos que chegavam por telefone ou ao vivo e fazer as notas. Era um escritório pequeno e trabalhávamos eu e outra menina, a doce e querida Lúcia, que pacientemente me introduziu naquele mundo de números, quase incognoscível para mim. Já no pátio, onde ficava a carga e descarga de bebidas, tinha bem mais gente, todos rapazes bem encorpados, pois era um trabalho de força. Ali, era sempre uma festa, apesar do trabalho pesado.

Em pouco tempo já percebi que o trabalho no pátio, apesar de alegre, era bem perigoso. Volta e meia alguém se machucava, garrafas quebravam e pronto, ali estava o acidente. Pedi ao chefe uma caixa de primeiros socorros, pois às vezes, era necessário um curativo. Claro que não me deram bola. Insisti, enchi o saco, mas nada. Sempre que alguém se machucava eu tentava dar um jeito e foi assim que fui montando uma caixinha com gaze, iodo, bandeide, pomada para ferimentos, comprimido para dor de cabeça, o básico. Acabei virando uma referência para a gurizada. Sempre que alguém se machucava me gritavam e lá ia eu com minha caixinha. Ainda assim continuava reivindicando que era a empresa quem tinha de garantir. Todo dia um embate.

A gota d´água foi o dia em que um dos guris enterrou alguma coisa na cabeça, acho que foi um prego. Como sempre acontecia, me chamaram. Eu fui lá com a minha caixinha e quando vi o ferimento, saia uma coisa branca da cabeça do guri. Apavorei, pensei que podia ser coisa grave. Nunca tinha visto assim. Corri para o gerente pedindo que o levassem para o hospital. Não tinha sangue, só aquela coisa branca. Ele não levou em conta. O guri lá, pálido e trêmulo. Ah, bom... Aí virei o Jiraya!

Peguei o guri pela mão e fui para a estrada, fazendo sinal de socorro.

Ao primeiro carro que parou pedi que o levassem ao hospital. Voltei para o escritório, peguei minhas coisas, abracei a Lúcia, agradeci por todo o seu cuidado comigo, já que me ensinara todo o trabalho, e saí. Bati o pó das sandálias e me fui, a pé, até em casa, tremendo de ódio. Eu precisava daquele emprego, mas não deu de segurar. Desde então, sempre foi assim. Em cada lugar que trabalhei virei a “encrenqueira”, sempre com alguma demanda. Hoje tenho 60 anos e sigo igual. Valamideuzi.