terça-feira, 23 de abril de 2013

Democracia de ocasião



As eleições no Paraguai dispararam um alarme no quesito democracia. Imediatamente ao resultado, presidentes de diversos países da América Latina se manifestaram dando os "parabéns" ao presidente eleito. Cristina Kirchner, da Argentina, Pepe Mujica, do Uruguai e Juan Manoel Santos, da Colômbia. Com isso, ao que parece, já estão sinalizando que a Unasur, bem como o Mercosul, certamente restabelecerão o Paraguai que estava suspenso desde o golpe parlamentar do ano passado.  Conforme se pode ver divulgado em vários jornais, Cristina praticamente garantiu o retorno e Mujica declarou que "é muito importante que as eleições tenham ocorrido com normalidade e que o país tenha vivido a democracia na sua plenitude”. O embaixador Tovar da Silva Nunes, do Ministério das Relações Exteriores do Brasil também declarou que as eleições foram uma demonstração inequívoca de civismo.

Ora, isso não é verdade de forma alguma. Várias denúncias foram formuladas sobre a vergonhosa compra de votos que ocorreu pelo país afora. Tem até vídeo comprovando a ação de um senador do Partido Colorado, que teve como punição apenas a suspensão por dois meses. Então, seria bom fazermos algumas análises sobre de que democracia estamos falando, pois como dizia Lênin, a democracia não existe em seu estado puro, ela sempre pede um adjetivo. Nesse caso do Paraguai, em que comprovadamente as ações ilegais de compra de votos e coerção aconteceram, qual o adjetivo que haveria de ter a democracia? 

Ocorre que o Paraguai não é a primeira nação a passar por uma situação de golpe nos últimos anos na América Latina. A Venezuela foi golpeada em 2001, mas justamente a democracia participativa incentivada pelo presidente Chávez e pelo bolivarianismo, foi a que jogou as gentes na rua e exigiu a volta do presidente constitucional.

Depois, foi a vez de Honduras, que por haver se acercado da Venezuela recebeu o "castigo" do golpe militar. Mel Zelaya, ainda que saído das elites latifundiárias, defendia a soberania de Honduras e estava trabalhando para sair do atoleiro de nação sempre satélite dos Estados Unidos e das empresas multinacionais. Por esse "crime", pagou com a deposição pelas armas. Os países da órbita da América do Sul rechaçaram o golpe. O Brasil chegou a abrigar Zelaya na sua embaixada por muito tempo. Mas, foi só o país chamar eleições que todo mundo se aquietou. "Agora sim, voltou a democracia". Não importava que essas eleições tivessem acontecido sem a participação dos partidos de esquerda, ou que continuassem a ser assassinados os militantes sociais, sindicalistas, estudantes e jornalistas. As tais das eleições redimiam tudo. 

A pergunta que fica então é essa: é de eleições que se trata a democracia? Se elas acontecerem, não importa como, está tudo bem?  Pois, ao que parece essa é a receita que temos visto os Estados Unidos apresentar para os países que não se alinham com suas políticas ou que tenham alguma riqueza que eles cobiçam. A democracia que esse país imperial tem exportado para o mundo é a das eleições. Não importa que seja num mundo em que todo o ethos cultural exija outra forma de organização, não importa que elas aconteçam sob ocupação militar, com assassinatos em massa. O que tem de haver é eleição. As formas como elas se dão, ou o contexto na qual acontecem tampouco importa. Botou voto na urna e já chamam de "festa cívica".

Na América Latina já está soando o alerta vermelho. Só não vê quem não quer. Seria bom que a Unasur pudesse fazer uma longa discussão sobre esse tema porque se agora foram Honduras e Paraguai, amanhã pode ser a Argentina, ou o Brasil. E o que todos farão? Chorarão durante o golpe e celebrarão a democracia assim que eleições sejam chamadas? Fecharão os olhos para as condições objetivas nas quais estarão se dando as eleições? 

Democracia é muito mais do que eleição. É participação efetiva das gentes. É um sistema de governo em que o executivo manda obedecendo, sempre conectado com a maioria da população. É quando a maioria das gentes pode decidir sobre as coisas importantes que acontecem no país. Quando o poder popular é exercido de forma livre e sistemática e não apenas de quatro em quatro anos depositando um voto na urna, muitas vezes em condições de exceção ou subordinados ao poder financeiro.

Li várias opiniões nas redes sociais sobre o povo do Paraguai. Que gostam de seguir falsificados, que não têm cabeça por votar num multimilionário que vai depredar o país, que são burros e muitas outras coisas depreciativas. Mas, muito pouca gente sabe o que se passa no Paraguai desde que a Inglaterra, em 1864, incitou Brasil, Uruguai e Argentina a fazer uma guerra contra o país destruindo quase toda a sua população. Desde aí, desta vergonhosa invasão - que nem pode ser chamada de guerra, tamanha a desproporção das forças  - que o Paraguai vem servindo de chacota, como um lugar onde apenas existe contrabando e falsificação. 

Ocorre que o Paraguai tem um povo forte, que resistiu aos mais bárbaros sistemas de extermínio, que luta por terra, por moradia, por saúde, educação. Tem uma juventude que lutou bravamente contra o golpe. Tem trabalhadores batalhando por direitos. Mas, ao mesmo tempo, são acometidos por governos despóticos, ditaduras militares, e gângsteres. Não é coisa fácil se mover nesse universo, daí que fica difícil fazer julgamentos sobre as escolhas que fazem nesse momento ritual de eleição. Os paraguaios que estão em luta sabem muito bem que a eleição, da forma como acontece, é só um momento ritual, que não define nada. Nela atuam as forças econômicas, os interesses multinacionais, os embaixadores obscuros de países ricos. E também há os que se movem com medo, que precisam proteger as famílias ou o pouco que conseguiram amealhar. 

O Paraguai não pode ser motivo de chacotas por parte dos brasileiros. Esse país e tudo o que lá acontece também é nossa responsabilidade, porque como povo nós já fizemos parte de momentos duros e impactantes para as gentes irmãs. Da mesma forma, Honduras precisa estar na nossa agenda, porque lá, mesmo depois das tais "eleições livres" seguem sendo assassinados os seguidores de Zelaya, os sindicalistas, os jornalistas, os militantes sociais. 

A democracia não é uma coisa mágica que faz sua retumbante aparição num domingo qualquer, em que as pessoas saem a votar. A democracia é batalha diária, disputa cotidiana, participação sistemática. Essa democracia é que precisa ser incensada, lembrada, amada, buscada. O demais, é rito. Perigoso rito. 

segunda-feira, 22 de abril de 2013

Geografia da cultura em Florianópolis




A cidade de Florianópolis se vende como a capital do Mercosul, um espaço de belezas turísticas capaz de atrair os mais refinados gostos. Até aí não existem inverdades. De fato, a cidade é pura beleza, de uma natureza exuberante e uma cultura rica e original. Mas, ao longo dos últimos anos, tudo isso está esboroando. A beleza natural cede espaço para os prédios, condomínios e empreendimentos imobiliários de todo o tipo que estão apagando a beleza da costa. Das 42 praias que  só a ilha possui, pode-se contar numa mão aquelas que ainda não foram transformadas para dar lugar ao "progresso". Um certa insanidade porque os turistas que aportam na ilha querem ver a beleza das praias. Só que com a ocupação desenfreada e irregular, aos poucos a natureza vai dando lugar ao cimento e à loucura da vida urbana. Ou seja, transforma-se no contrário daquilo que os turistas, e os que buscam a cidade para viver, desejam.  

E, da mesma forma como a natureza vem sendo destruída, também a cultura está pagando o preço do crescimento da cidade. Com o inchaço das comunidades, muitas vezes de maioria forasteira, a cultura local vai desaparecendo. Nada contra os "de fora", mas, ao que parece, muitos dos que aportam na ilha preferem não se integrar aos ritmos culturais autóctones e, aos poucos, a riqueza da vida ilhoa vai se perdendo, com a priorização de eventos de caráter homogeneizado, representando a cultura "global" tais como os grandes shows musicais e festas ao estilo "jet-set".

Uma das construções culturais que pena para se firmar é o boi-de-mamão, brincadeira de danças e cantorias típicas da região de descendência açoriana. Poucos são os grupos que sobrevivem na cidade e raras as escolas que ainda se dedicam a ensinar a brincadeira e a construir os personagens. Mesma a festa do boi que a prefeitura realiza de tempos em tempos, não reverte em vivencias cotidianas locais, ficando apenas como um evento a mais no cartel turístico. O pão-por-deus, outra tradição cultural na ilha também já vai se perdendo nas brumas das memórias dos mais velhos. Os pequenos versinhos rimados, escritos em um coração de papel, oferecidos junto com um pão, vivem no cotidiano de poucos e também o seu caráter comunitário se esfuma, já que as comunidades cresceram e estão cheias de pessoas que não se importam com as velhas práticas locais. A renda de bilro ainda resiste na lagoa e em alguns outros espaços bem delimitados. Não se vê a juventude aprendendo a construir belezas com o batucar delicioso dos bilros de pau. Assim também acontece com a prática da olaria, hoje praticamente transformada em folclore, quase sem seguidores.  

A cultura para quem?

E se a cultura popular da ilha de Santa Catarina se arrasta em indigência e falta de apoio, também falta à população espaços de outras formas de cultura, para que possam se alimentar de belezas e reinventar as práticas comunitárias. Há alguns anos, a prefeitura criou um projeto bastante interessante chamado "Floripa Letrada", a partir do qual foram instalados espaços nos terminais de transporte urbano, para o empréstimo de livros. As pessoas, esperando o ônibus, podiam pegar livros e revistas e, inclusive, levar para casa. O projeto ainda existe, mas o cuidado com os livros oferecido é praticamente nenhum. O que se vê são depósitos de livros velhos, sem maiores critérios e sem uma preocupação real com a distribuição de obras de autores catarinenses, por exemplo. Na verdade, são livros que ninguém quer. Perde-se a chance de encantar as pessoas com boas obras.

No que diz respeito ao acesso aos equipamentos culturais que uma cidade deve ter, também a situação é sofrível. Os cinemas estão praticamente todos dentro dos "xopingues", cercados de tantas outras formas de sedução e com ingressos tão caros que é praticamente impeditivo para um trabalhador assistir a um bom filme.  Os teatros, excetuando o belo e velho TAC (Teatros Álvaro de Carvalho), que fica no centro da cidade, ficam completamente distantes da vida da maioria. O Centro Integrado de Cultura (CIC) sequer tem uma parada de ônibus na frente. Para chegar até lá, aos que não tem carro, é preciso pegar um ônibus que para na parte de trás e andar um bocado para entrar no local. Da mesma forma, por conta da falta de mobilidade na cidade, se uma pessoa  que mora num bairro do norte ou do sul decidir ver um filme no CIC, está frita. Com a sessão terminando perto das onze da noite, a pessoa corre o risco de não conseguir pegar um ônibus para chegar em casa.

O mesmo acontece com o Teatro Pedro Ivo, construído na sede do governo estadual que fica na SC 401. Uma pessoa ônibus-dependente não pode desfrutar dos eventos teatrais ou dos shows musicais. Certamente não chega em casa por falta de mobilidade. Assim, a geografia da cultura em Florianópolis está toda preparada para uma pequena parcela que pode se deslocar de carro e pode pagar caro para usufruir dos bens culturais.

Os eventos que acontecem no centro da cidade ou no mercado público são muito esporádicos e, por conta disso, não conseguem criar vínculo com as pessoas. A sede por cultura é grande e isso pode ser notado em momentos como o  do Festival Isnard de Azevedo, que leva o teatro para a rua, para os bairros, gratuitamente. As pessoas participam, gostam, se deixam ficar. Mas, isso só acontece uma vez ao ano, quase como um evento ritual. Não se vê, no cotidiano da cidade, o teatro pelas ruas. Até porque, como também não há uma política de incentivo à arte por parte do poder local, os artistas tampouco conseguem oferecer espetáculos á maioria da população . É um triste círculo vicioso que não encontra paradeiro. Os realizadores culturais precisam se virar nos 30 para conseguir montar uma peça, fazer um show, montar uma exposição. É tudo muito difícil. Para complicar, também não existe uma organização ativa dos artistas e gente da cultura. Cada um batalha por si e a força se esvai.

Algumas ações isoladas sempre acontecem nos bairros. Na região de Santo Antônio de Lisboa, o Baiacú de Alguém,  por exemplo, que era só um bloco de carnaval, hoje também se dedica a promover outras formas de cultura. Ou o Cine Dona Chica, no Campeche, que busca levar o cinema para a comunidade, bem como a discussão dos temas importantes da vida cultural do bairro. Há a ação da Banda da Lapa, no Ribeirão da Ilha e a quase heroica resistência de Valdir Agostinho, na Barra da Lagoa, a Barca dos Livros, na Lagoa, entre outras experiências semelhantes. Mas, são ações que estão sempre dependendo dos fluxos e refluxos dos financiamentos, patrocínios ou doações das comunidades. Não estão unificadas nem tampouco fazem parte de uma política clara de promoção cultural da cidade.

Assim, nessa geografia que privilegia os mais abastados e isola cada vez mais as práticas locais mais tradicionais, a cidade segue seu curso, enchendo-se de prédios, afogando-se no cimento, perdendo dia-a-dia a sua beleza natural e o patrimônio cultural de extrema riqueza. Não é sem razão que nas tardes de outono, quando baixa o vento sul, as pessoas  que ainda podem ouvir o chamado telúrico desse belo lugar,escutem a gritaria das bruxas, resistindo na pedra grande do Morro das Pedras. Elas embaraçam os cabelos das gentes e lhes sopram no ouvido  a verdade inabalável: se esquecermos nossas raízes, ficaremos à deriva no mar da vida. Ainda há tempo para a cidade, através das forças vivas que atuam politicamente nas lutas gerais, assumir a batalha pelo direito à cultura. Faz-se a luta por parques, pelo plano diretor, por mobilidade e tantas coisas da vida prosaica. Mas também é hora de brigar pela cultura, essa coisa aparentemente inefável e etérea, mas que, na sua concretude, torna as gentes sempre melhores do que são. Todos os seres precisam ter o direito de desfrutar dos bens culturais.

sexta-feira, 19 de abril de 2013

Uma cidade na memória



Existem livros que ficam entranhados na gente e a eles sempre voltamos porque nos encantam de maneira diferente a cada retorno. Hoje, quando o corpo gritou por descanso e os gatos me impediram de trabalhar, me fiz ficar na rede, balançando e re-lendo coisas boas. Um desses livros é o que foi produzido por um jovem jornalista chamado James Dadam. Na verdade, os textos foram feitos para o seu trabalho de conclusão do curso de jornalismo e eram tão belos, tão belos, que a gente (eu e minha amiga Raquel Moysés) decidiu criar uma editora: a Companhia dos Loucos. E tudo isso só para fazer circular as belezas que os alunos de então criavam todos os semestres.  O livro do James foi o primeiro de uma série que andamos por aí a colocar na roda da vida.

Pois o livro chama-se “Uma cidade na memória” e conta a história da cidade de Balneário Camboriú/SC através de pequenos textos, quase poesias. É uma coisa tão bonita, tão simples, tão singela, que nos leva a mais profunda emoção. James consegue, de maneira magistral, fazer aquilo que Adelmo Genro ensinou: a partir do singular, transitar pelo particular e atingir o universal. Essa é a viagem que fazemos ao sorver as histórias que brotam das páginas. Coisas que fazem parte da vida de Camboriú, mas que poderiam ter acontecido em qualquer outra cidade do mundo. Um desses textos sempre me tira o fôlego, até porque vivo metida na luta contra a especulação imobiliária aqui na ilha de Santa Catarina. É o “paredes de pitanga”. Espia... “Todos os dias, Jorge e sua mãe iam caminhando para o trabalho. Ali pertinho, também na Brasil, entre as ruas 951 e 971, ficava o local preferido da criançada da época. Era um terreno cheio de pitangueiras e goiabeiras”... O restante vocês precisam conhecer, lendo o livro....

E assim vai o James narrando a história a partir de pequenos momentos do cotidiano das gentes. O pescador, o vendedor do mercado, a bruxa, os políticos, os namorados, todos vão passeando pelas páginas e a gente vai se enredando no colorido das imagens que as palavras evocam. Dá uma alegria por ver textos tão bem feitos e uma tristeza por saber de tanta destruição, em nome do progresso. Camboriú já é outra cidade, cheia de prédios altos e baladas barulhentas. Mas, no livro do James vive ainda o velho lugar que era só pura beleza. “A canoa, que outrora dormia no quintal de casa, agora se deita sobre o monte de areia, esperando que seu dono venha de longe para lança-la ao mar”.

Está na hora de uma segunda edição...

Dia do índio - levanta nação originária


Desocupação da Aldeia Maracanã

Os povos indígenas do Brasil estão de pé. No dia do índio e em todos os dias. Enfrentaram a ocupação de seu território, a escravidão, a servidão, o extermínio, o saque de suas riquezas, e seguem resistindo. Diz a história que não foram poucos aqueles, que nos primeiros tempos da invasão, se deixaram morrer. Preferiram o horizonte de sua mítica "terra sem males" que viver num mundo no qual lhes obrigavam a ter uma fé estranha e a trabalhar obrigado para gente que nem conheciam.  Outros fugiram para longe do litoral, abandonando suas raízes, mas nem assim escaparam. A sanha bandeirante adentrou o território e iniciou uma caçada sem precedentes. Tinham a força das armas de fogo. Os poucos que sobreviveram à "pacificação" foram jogados em reservas, sem direitos, tutelados como crianças ou como animais.

Depois, no começo do século XX, também a região amazônica, ainda intocada, foi sendo conquistada e as comunidades chamadas a se "integrarem" ao mundo branco. Mesmo aqueles que permaneceram aldeados não conseguiram fugir da intrusão.  Aos poucos, as doenças, os hábitos e os vícios do mundo branco, capitalista e opressor, foi se imiscuindo e provocando dor e destruição. Aqueles que optaram por integrar-se nunca o conseguiram. Trazem na pele a marca e o preconceito os persegue, vivo, cada dia mais.

Ao final do último século, por todas as partes desse lindo continente (Abya Yala), desde o Alasca até a Patagônia, as comunidades indígenas começaram a se levantar. Não mais a tutela, não mais o silêncio, não mais o absurdo extermínio. Se tivessem de morrer que fosse peleando como já haviam ensinado suas lideranças mais importantes como o cacique taino Hatuey, no início da colonização, o caraíba Guaicaipuro, o asteca Cuauhtémoc , o quechua Tupac Amaru, o aymara Tupac  Katari, o mapuche Lautaro, o tamoio Tibiriça, o guarani Sepé Tiaraju, o charrua Vaimaca e tantos outros.

E é o que se tem visto desde as ocupações das igrejas de Quito em 1990, o levante armado dos zapatistas, a revolução cultural do povo aymara, a luta dos kichwa no Equador e de todos os povos que vivem no território brasileiro. As comunidades lutam pelo direito a viver na sua terra originária, de vivenciar sua cultura, seus deuses, seus rituais. Querem também tudo aquilo que a humanidade conquistou ao longo desses anos. Querem se apropriar das tecnologias, sem perder seus conhecimentos ancestrais. Querem estar no facebook, mas para divulgar suas propostas de modelos de organização da vida. Os indígenas têm uma história, uma cultura e também têm sonhos e perspectivas de futuro. Querem e vão abrir os caminhos para o lá-na-frente sonhado, a partir de suas referências culturais. Se são boas ou ruins, cabe a eles definirem. Aos que aqui estão e que são fruto de toda essa triste história de invasão e de mescla étnica cabe compreender e respeitar.

É certo que os "brancos" não precisam temer aos índios, como se viu na corrida desesperada dos deputados essa semana. A menos que tenham motivos para isso. Se não, não há o que preocupar. Basta que se conheça a história e se entenda as demandas dos povos. Li, entre tantos textos divulgados essa semana, a frase: "Os índios não são assim tão bonzinhos". E é a mais  pura verdade. Não são e nem têm porque ser. Enquanto foram "bonzinhos" a sociedade os prendeu, matou, sufocou, destruiu, matou de fome. Agora é hora de assomar com a dignidade rebelde. Basta de ser "bonzinho" e aceitar a opressão. É tempo de reforçar ainda mais a luta, porque ela de fato nunca deixou de existir. Ocorre que as batalhas sempre foram travadas de forma pontual, em algum lugar específico. Mas, agora, não. Os povos estão unidos e atuam em uníssono. Levam com eles também aqueles que compreendem a história, que conhecem a dívida que o país tem com os povos antigos, que se comprometem e se sabem também indígenas já que o nosso sangue contém ainda que uma grama do sangue originário.  

Não dá para dar ouvidos às bobagens que a mídia diz, sobre índios querendo tomar as cidades, as casas das pessoas e tudo mais. Isso nada mais do que o bom e velho terrorismo da elite assustada que precisa encontrar aliados na maioria da população. Os índios exigem muito pouco. Um pedaço de terra que permita vivenciar sua cultura e o direito de construir seu futuro do jeito que querem e sabem, autônomos e livres.

Nesse dia do índio fica o convite para que todos se debrucem sobre a história e conheçam os povos antigos, antes de atirarem pedras e julgarem pela cabeça de outros. Sim, os índios não são bonzinhos, bem como não o são os brancos. É tempo de todos se olharem com respeito e respeitarem as opções de cada um. Mas é sempre bom lembrar que não dá para zerar acriticamente tudo que já passou. Essa terra foi invadida e os donos dela foram roubados. A coisa tem de começar daí.  

Chávez sob a mirada popular

quarta-feira, 17 de abril de 2013

Os grandes eventos esportivos e a destruição da vida



 Foto do Rio sem pobreza - propaganda da Petrobras

A fala do jornalista mexicano Maurício Mejía, durante a nona edição das Jornadas Bolivarianas, deu o tom acerca do que se transformou o esporte, não só no Brasil, mas em quase todos os países do mundo, principalmente os chamados subdesenvolvidos: negócio, espetáculo, mercadoria. Segundo ele, no México, que hoje conta com pouco mais de 110 milhões de habitantes, grande parte da população pode dizer como está o Barcelona, quem são os melhores no basquete, os campeões da natação, mas, de fato, 72% dos maiores de 12 anos não praticam e nunca praticarão esportes. No geral, os mexicanos se deixam ficar à frente da televisão assistindo e consumindo o que incita a propaganda. "O México é um país que não joga, tem 7% de analfabetos e mais de 52 milhões na linha da pobreza. Por outro lado, quase 95% das casas tem uma televisão. Os mexicanos leem um média de meio livro por ano, e toda a informação que lhes chega é pela televisão. A considerar a qualidade da televisão do país, o resultado em alienação e consumo sem crítica é assustador". Mejía lembra que apesar de ser um país no qual a população não pratica esporte, o México já sediou duas Copas do Mundo e uma Olimpíadas. Assim, pode-se observar que o legado desses eventos que tanto consomem de dinheiro público é praticamente nenhum.

Para Jaime Breilh, médico e epidemiologista equatoriano que discute a relação saúde e esporte, isso não é novidade. Segundo ele, no sistema capitalista o esporte, como tudo, está ligado a uma lógica de morte, e não de vida. É que o sistema orienta toda a sua força para a produção de mercadorias e isso implica na consolidação de um modelo específico de civilização. Dentro do capitalismo, portanto, o esporte assume essa condição também e a vida assim como a saúde das pessoas é o que menos importa. O que vale é saber como conseguir mais acumulação de capital. Se nesse movimento for necessário sacrificar pessoas, espaços, natureza, o que for, não tem problema.

Essa afirmação encontra concretude na narrativa de Renato Cosentino, do Comitê Popular Rio Copa e Olimpíadas. Embasado em documentos e vídeos de propaganda do próprio governo, ele mostrou como a cidade está sendo preparada para os grandes eventos esportivos, sem que sejam levadas em conta as preocupações da população. Obras faraônicas estão sendo feitas, comunidades inteiras estão sendo destruídas, vidas aniquiladas e tudo em nome da beleza do espetáculo. Até o velho Maracanã será privatizado, com tudo a sua volta sendo arrasado. Assim foi eliminada uma histórica pista de atletismo que ficava ao lado do estádio, bem como um dos melhores colégios públicos do Rio, que deverá ir abaixo até a Copa de 2014. As peças de propaganda do novo estádio mostram o mesmo como um lugar de executivos, no qual os torcedores ocuparão cadeiras estofadas e vibrarão de terno e gravata. Um lugar para a elite e não para o povo. Também foi possível ver as explicações dos governantes do Rio de janeiro, mostrando em vídeos promocionais, como construirão estradas que passam por cima de comunidades inteiras, sem que a vida das pessoas seja respeitada.

Essa lógica do esporte como um mero espetáculo, como mercadoria, é coisa dos tempos modernos, do sistema capitalista. Desde que as Olimpíadas surgiram na Grécia, o elemento principal do encontro era justamente o amadorismo. A proposta era incentivar aqueles e aquelas que praticavam esporte a um convívio saudável de troca de experiência e de propagação da ideia de que o esporte produz uma vida plena. Segundo Marcelo Proni, da Universidade de Campinas, esse tipo de consciência sobre o esporte só existiu até os anos 30, quando então também a política passou a se imiscuir no processo. As Olimpíadas de Berlim, comandadas por Hitler, já assumiam um caráter de doutrinação e depois da segunda mundial, a disputa política da chamada guerra frio passou também a se misturar com o evento. As competições passaram a ser também entre as nações. Nos anos 60 do século passado, com a entrada da televisão e os direitos de transmissão, o dinheiro passou a mandar e o esporte assumiu a sua condição de mercadoria.

Proni também acredita que até a Copa do México esse tipo de evento não seria considerado algo que obrigatoriamente deixasse um legado. As exigências com relação aos equipamentos e espaços não eram tão grandes. Foi depois do ano de 1986, com achegada de Havelange na Fifa e sua ligação visceral com a Adidas que o futebol passou a ser um negócio a mais. Nos anos 90, esse tipo de evento ficou restrito aos países mais ricos, mas, depois, com o chamado processo de crescimento de algumas nações até então subdesenvolvidas, o foco mudou. O capital precisava se expandir e nada melhor do que entrar nesses países que principiavam a crescer. É o caso da China, África do Sul e agora o Brasil. Como se pode ver, tudo está ligado às necessidades da acumulação do capital.

O jornalista Juca Kfouri, que acompanha o esporte brasileiro desde há anos, não teve pudores em afirmar que por aqui tudo está "podre". Segundo ele, o Brasil não tem uma política esportiva, logo eventos como a Copa e as Olimpíadas não podem deixar qualquer legado. Conta que chegou a acreditar que com o governo Lula as coisas pudessem começar a mudar, mas, aos poucos, também Lula foi se deixando seduzir e nada avançou. Para Juca, o esporte no Brasil acaba sendo apenas um escoadouro de lavagem de dinheiro e máquina de lucro para muito poucos.  A chamada "década dos esportes", como os governantes tem chamado esses anos em que vão realizar os dois grandes eventos esportivos, deixará dívidas para o país e sofrimento para grandes fatias da população que estão sendo removidas ou violentadas, como é o caso das comunidades "pacificadas". Juca lembrou que não tem o menor cabimento construir "arenas" gigantescas em lugares como Manaus ou Natal, onde não haverá demanda para ocupação. O destino desses lugares, que consumirão milhões de reais certamente será o mesmo dos grandes estádios construídos em outros países que acabaram sendo sucateados, demolidos ou abandonados. É o caso do famoso Ninho de Pássaro, da China, que há anos não vê um jogo de futebol. 

Eddie Cottle, sindicalista sul-africano, mostrou claramente o que aconteceu no seu país por conta da realização da última Copa. Uma espécie de repetição de tudo aquilo que temos visto acontecer por aqui. Obras faraônicas, comunidades inteiras removidas, lugares "higienizados", e exploração dos trabalhadores. Segundo ele, um grande estádio, construído na cidade do cabo, agora está para ser implodido, pois não há como manter uma estrutura tão gigantesca. Ou seja, dinheiro público jogado às traças. Eddie conta que durante todo o processo de preparação para a Copa, muitas foram as lutas do povo, capitaneadas principalmente pelos sindicatos, que foram muito atuantes. "Conseguimos alguns avanços no que diz respeito a direitos, mas foi tudo". As centenas de famílias desalojadas continuam vagando pela capital e os que foram levados para a tristemente famosa "cidade de lata", seguem vivendo nos contêineres, sem  perspectivas de terem suas casas de verdade. Eddie ainda contou que os sindicatos descobriram um documento, assinado entre o estado e as empresas que "fizeram" a Copa, no qual o estado dava todas as garantias para exploração e venda de serviços e mercadorias. Ao final, os que ganharam com a Copa foram as empresas multinacionais e as elites locais. Nada mais que isso.

No Brasil, o envolvimento dos sindicatos é praticamente nulo diante de todas as mazelas que já se concretizaram e das que se anunciam. Segundo o professor Fernando Mascarenhas, da UNB, mesmo os movimentos sociais mais combativos não estão dando atenção para o processo que envolve toda a construção da Copa e das Olimpíadas. "Não se vê o MST falando no assunto, nem os sindicatos". Para ele, sem o envolvimento dessas forças, a "patrola" dos megaeventos vai passar e apenas os atingidos de primeiro turno se mobilizarão, como é o caso das famílias desalojadas que hoje, no Rio de janeiro, principalmente, travam uma luta renhida. O fato é que há uma ignorância completa sobre o tema e, no geral, a esquerda sempre se mostrou bastante avessa a qualquer coisa ligada ao esporte. Juca Kfouri lembrou que quando era mais jovem e militava na esquerda, várias vezes foi chamado de alienado por gostar de futebol. O professor Nilso Ouriques, da Unoesc, também fez referência a esse preconceito, o que mostra o tanto que o tema não encontra eco nas cabeças mais "revolucionárias".

Nada mais equivocado do que abandonar o país a própria sorte nesse universo de megaeventos. O esporte - e principalmente o futebol - permeia a vida cotidiana de grande parte da população e as consequência para o país de toda a essa maquiagem que se está produzindo nas chamadas cidades-sede  repercutirão em toda a sociedade. A "lógica da morte" avança a passos largos, os acordos com as grandes empresas se fazem às claras. O país corre o risco de construir uma estrutura gigantesca - com grandes quantias de dinheiro público - que mais tarde serão abandonadas e não servirão para a democratização do esporte. Pelo contrário. Por suas características grandiosas, gerarão despesas demais e os atletas amadores não encontrarão abrigo em seus muros.

Assim como no México, onde a realização de duas Copas e uma Olimpíada não gerou nenhum avanço na prática de esporte, a tendência é de que no Brasil, a situação até piore. Com a destruição dos campinhos, com a derrubada das comunidades e o avanço da especulação imobiliária é mais provável que a prática de esporte diminua.
A nota dissonante durante as Jornadas Bolivarianas foi a realidade cubana. Na ilha socialista o esporte está submetido a uma política de estado e está incorporado a prática cotidiana da população. Vive não apenas nas escolas, onde a prática da educação física é obrigatória, mas se democratiza na proliferação de centros de esportes, praças, campos de futebol, de basquete, de basebol, de atletismo, em cada pequena cidade. A lógica é de pequenas estruturas para atender a todos. A performance que os atletas cubanos conseguem nas competições vem justamente dessa política que investe na saúde bem como no esporte de rendimento, mas só o consegue porque tem o esporte encarnado na vida das gentes. Para um cubano, a realidade do atleta que se vende a patrocínios, que é comprado por outros países para aumentar o número de medalhas, é totalmente incompreensível. O esporte em Cuba não é mercadoria, está intimamente ligado à saúde da população e no campo competitivo se vincula ao sentimento de profundo amor pela pátria. Jogar numa olimpíada é defender Cuba.

E já que falamos em medalhas, Jaime Breilh, do Equador, também desmistificou esse tal quadro de medalhas que tanto é divulgado durante os jogos olímpicos e que parece deixar patente o fato de que só os países ricos, como os Estados Unidos ou a China, estão no topo do mundo do esporte. Jaime chama a atenção para que as pessoas façam as contas pelo número de habitantes dos países. Assim, ele chega a um quadro diferente sobre os "melhores do mundo". No ano de 1998, por exemplo, o quadro de medalhas ficou assim:  Em primeiro lugar os estados Unidos, depois Rússia, depois China. Mas confrontados com o número de habitantes, a coisa muda: em primeiro fica a Nova Zelândia, depois Cuba, seguida da Dinamarca. Os Estados Unidos cairiam para vigésimo primeiro e China para trigésimo. Então, é tudo uma questão de perspectiva.

Para os conferencistas que fizeram as Jornadas Bolivarianas desse ano o esporte é algo que deve ser levado a sério, pois ele não é mercadoria. Está ligado intimamente ligado com a saúde, com a qualidade de vida, com a soberania de um povo.  E, no caso do Brasil, ainda há tempo de caminhar para uma política que atue no sentido de garantir a prática esportiva com qualidade, com espaços adequados, de caráter popular. Assim, em vez de construir "arenas" gigantescas e inúteis, o Ministério dos Esportes deveria se preocupar em definir uma política nacional de esporte comunitário, para produzir vida e saúde e não consumidores de produtos tão inúteis quanto as propaladas arenas. É preciso que o ministro Aldo Rabelo defenda mais o povo brasileiro do que a Nike. Se isso não mudar, a tendência é caminharmos para um país em que pessoas obesas se postarão diante da TV para falar de esporte, sem vivê-lo. E, no que diz respeito aos grandes eventos, corremos o risco de inventar um país que não existe, apenas para entrar no jogo do negócio. Renato Cosentino, do Comitê Popular Rio Copa e Olimpíadas, mostrou uma propaganda da Petrobrás no exterior, falando sobre o pré-sal, que exibe uma foto aérea do Rio de Janeiro, na qual as favelas e todos os sinais de pobreza foram apagados pelo fotoshop. Essa é a dura realidade do Brasil. Está sendo preparado para a Copa, e haverá de eliminar os pobres, custe o que custar. Tudo em nome de alguns dias de entretenimento para muito poucos e de lucros estratosféricos para muito poucos também.  


Eddie Cottle - sindicalista da África do Sul



terça-feira, 16 de abril de 2013

Atentado em Boston

Entrevista com o historiador Waldir Rampinelli.