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O transporte coletivo de Florianópolis nos desumaniza. É de chorar. Agora mudaram todas as plataformas no Ticen e tá uma baita confusão, porque tem muita gente que não sabe. Hoje foi assim. Nosso ônibus para o Tirio já estava saindo e entra esbaforido um jovem negro. Senta do meu lado. Assim que o ônibus sai da plataforma e segue em frente em vez de virar ele põe a mão na cabeça, meio desesperado.
- Pra onde vai esse ônibus? Pro Tirio, respondo.
- Meu deus, meu deus, não é pra lá que eu vou. A voz com sotaque mostrava que ele não era daqui. Então eu falei, corre lá e pede para o motorista parar, antes de sair do terminal. Ele foi lá pra frente e pediu. O motorista não abriu. Disse que não podia. Eu comecei a gritar também. “Porra, deixa o cara descer. Vai ter que ir até o Rio Tavares”. Era o direto. O motorista impassível.
Os demais passageiros mantiveram silêncio.
O rapaz voltou para o meu lado, com os olhos brilhando de lágrimas. Iria perder a entrada no trabalho. Ir até o Rio Tavares e voltar daria uma hora ou mais, conforme o trânsito. E ainda tinha que ir até o continente. Não teve jeito.
Sei que os motoristas não podem parar em qualquer lugar, mas porra, estava parado no sinal. Não iria fazer diferença. E também que se fodam os fiscais. A prioridade tem de ser o ser humano. Mas, o motorista não abriu a porta. O jovem é do Haiti, ainda se adaptando na cidade. Era óbvio que ele era estrangeiro. Haveria que abrir a porta.
Quando o ônibus parou no terminal depois de mais de meia hora, ele saiu correndo, rumo ao outro direto que voltava para o centro. Eu fiquei ali parada, vendo ele entrar e sentar. Ele me acenou, de novo alegre. E eu comecei a chorar sem parar. Não sei se era por ele, pela insensibilidade do motorista, porque o Mazinho encantou, porque ando em pedaços. Sei lá. Só sei que a vida podia ser mais afável. E as pessoas também. Não custa nada. Porra de gente ruim! E entre lágrimas, fui rogando maldições.
Uma pessoa é literalmente o que come, já dizia o velho Bataclan, atleta negro e figura lendária em Porto Alegre que desde os anos 1950 pregava a necessidade de uma alimentação saudável, baseada em legumes e hortaliças. Seu lema era “não comemos cadáveres”. Chegou a andar pelo estado fazendo propaganda da alimentação natural, dando cursos e palestras. Uma das coisas engraçadas que ele dizia era que seu cocô era perfumado, porque não tinha nele nenhum vestígio de carne putrefata. E nos desafiava a mudar totalmente os hábitos.
Bataclan viveu até 1990, mas se hoje estivesse ainda na sua luta pela vida vegetariana, imagino que teria muita dificuldade em convencer as pessoas, já que alimento saudável é coisa para muito pouca gente.
Os que não têm recursos para garantir uma comida verdadeiramente orgânica - a maioria – estão num beco sem saída. Se a opção for comer carne, entopem-se de gordura ruim, hormônios e toxinas. Se decidirem ser vegetarianos estarão ingerindo quilos e quilos de agrotóxicos, cancerígenos e provocadores de outras tantas doenças. Cultivar a própria comida não é opção para a maioria também e mesmo aqueles que têm alguma terra e conseguem criar animais e plantar legumes ou hortaliças acabam entrando na cadeia do veneno, seja pelo ar ou pela água. E ainda assim é uma saída individual.
O Brasil tem sido desde há tempos um espaço privilegiado para as empresas de veneno. E , agora, no governo de Jair Bolsonaro, a coisa tem piorado bastante. A tal ponto que nos primeiro seis meses de governo já foram autorizados 239 novos venenos para uso nas lavouras. O argumento utilizado pelo Ministério da Agricultura é de que boa parte das substâncias autorizadas seguem fórmulas que já existem no mercado. Apenas uma delas nunca havia sido introduzida no Brasil. Mas, mesmo assim, as fórmulas dos agrotóxicos são cheias de venenos e muitas dessas fórmulas foram totalmente banidas na União Europeia, por exemplo. O motivo: são muito perigosos para o meio ambiente, logo, para as pessoas também.
A ministra Tereza Cristina, que é representante do latifúndio, diz que os agrotóxicos não estavam sendo liberados nos governos anteriores por “motivos ideológicos” e que agora, com os novos venenos vai ser possível aumentar a concorrência e baratear o custo da comida. Então veja bem: a comida ficará mais barata, mas terá mais agrotóxico. Logo, haverá mais doenças. Isso é bom para quem?
Em discurso na FAO, a ministra defendeu a democratização do acesso ao alimento para que se acabe a forme no mundo. Mas, é fato que essa tal democratização não pode ser a produção de comida envenenada. A menos que esse seja o projeto, matar a população ou então engordar as receitas da indústria farmacêutica, que enche as burras com tanta doença nova no pedaço.
É fato também que os agrotóxicos permitem maior produtividade e também garantem uma aparência bonita aos produtos. Mas, quem de nós já não se surpreendeu com a aparência e o gosto de plástico de uma alface verdinha demais para ser real? O resultado da ação dos agrotóxicos na vida de todos nós é algo que só vai aparecer em longo prazo. O aumento dos casos de câncer, por exemplo, é uma consequência direta da alimentação contaminada, seja ela vegetariana ou não, afinal os animais são alimentados com ração, e a ração é feita com produto que consumiu muito agrotóxico. Não há escapatória.
Nesse país perverso, no qual para que pouco mais de mil grandes proprietários de terra possam ter lucros astronômicos, milhões tenham de ser contaminados, estamos todos aprisionados. E, mesmo que só comêssemos folhas e legumes e nosso cocô fosse perfumado, tal como queria Bataclan, ainda assim seguiríamos na trilha da morte. Uma triste morte, envenenados. Irremediavelmente envenenados.
Em todo mundo vicejam as pessoas de bem. Bons cristãos que ajudam pessoas quando tem desastre tipo enchente, terremoto. Que doam alimentos e brinquedos nas campanhas de natal. Que ajudam os “pobres”. Mas, desde que esses “pobres” permaneçam no seu lugar. O lugar da vítima, do caído, do desgraçado, daquele que precisa da esmola que estão dispostos a oferecer. Que não venham para seus jardins, ou para a porta de suas casas, que não inventem de namorar suas filhas ou entrar nos salões.
É o que temos visto todos os dias no nosso triste país. E é o que vemos em todo o canto do planeta. Sábado, na Itália, foi presa a jovem capitã alemã, Carola Rackete, que comanda o barco de uma ONG holandesa cuja missão é salvar pessoas que estão à deriva no mar, fugindo de seus países. Foi presa porque não atendeu a ordem da guarda marítima italiana e atracou no porto de Lampedusa para deixar 40 pessoas que estavam em sério risco de saúde. As pessoas, no caso, eram migrantes. E não migrantes quaisquer. Migrantes negros.
Ela tinha escolha. Podia seguir com o barco no mar, e deixar as pessoas morrerem. Ou, desobedecia aos soldados italianos e atracava, dando uma chance para a vida daqueles seres. Optou por seguir rumo ao porto. Uma mulher jovem, branca, provavelmente em boa situação financeira. E por isso mesmo, por saber que faz parte de um grupo privilegiado, ela decidiu se arriscar no mar, por pessoas que nem conhece. Sabe que essas pessoas têm milhares de vezes menos chance que ela.
Agora, sobre ela pesa a acusação de “resistência e violência contra um navio de guerra”. Porque, sozinha, arremeteu seu barco carregado com 42 almas contra um buque cheio de armas. Sim, porque os italianos não querem ver chegar às suas costas os imigrantes. Muitos, inclusive, aplaudiram veementemente a ação da polícia. Consideram que ajudar pessoas a não morrer no mar é incentivar a imigração ilegal. Sim, esse é o argumento. “Que se fodam os pretos, os pobres, os ninguém. Que não venham nos roubar emprego”, é o que dizem os mais raivosos.
Carola seguiu serena para a prisão. Pode pegar até 10 anos de cárcere, mas sabe que terá muita gente lutando por ela. Coisa que é difícil de dizer em relação aos milhares de corpos que se lançam ao mar na desesperada fuga da guerra, da fome e da miséria.
Carola salva vidas de gente pobre, africana, árabe. Por isso é considerada uma criminosa. Esse é o nosso mundo.
Há mais de mil dias vivemos a mesma cena. Quando o relógio bate as sete da noite eu apareço com o remédio e o copo de água.
- Oi querido. Tá na hora de tomar o remédio.
Ele me olha com os olhos arregalados, na maior surpresa:
- Reméeedio? Que remédio?
- Sim, broto, o remédio da pressão. Tem que tomar agorinha.
- Ah... Então, tá.
Aí ele estende a mão, confiante, e bota o remédio na boca, engolindo logo em seguida com um pouquinho de água. E, sem mais delongas, volta a fazer o que estava fazendo, esquecido de mim. Na noite seguinte, se surpreenderá outra vez.
- Reméeedio? Que remédio?
Circula pela rede a triste foto de um homem e uma menina (pai e filha), segundo consta salvadorenhos, mortos, na beira do Rio Bravo, o rio que separa os Estados Unidos do México. Os dois são um número a mais na trágica contabilidade da migração. Todos os dias um corpo boia naquele rio. Mas, essa cena, em particular, é dolorosa porque envolve o corpinho de uma criança de dois ou três anos. Toda a tragicidade de um povo que sai de suas casas, suas cidades, seus países, porque não suporta mais a miséria, a fome, a violência e caminha em direção ao anunciado “eldorado” que são os Estados Unidos.
Mas, lá, ninguém os quer. É um paradoxo. Porque nos seus países de origem essa gente também é vista como lixo, um atrapalho ao desenvolvimento. Como se sua pobreza não fosse consequência da exploração e da riqueza de uns poucos.
A foto do pai e filha afogados inundou a rede. Todo mundo compartilha alucinadamente. Mas, ao que parece, fica tudo no reino da sensação. Um espetáculo que logo será substituído por outro espetáculo. A morte como espaço de “likes”. E enquanto isso, as mesmas pessoas que por um dia ou dois ficarão chocadas com a cena são as mesmas que apoiam políticos que odeiam migrantes. É um carrossel de horrores.
Exatamente agora milhões de pessoas se movem no mundo, fugindo da dor e da fome. E em cada canto desse planeta haverá uma criança morta, uma mulher violada, um homem despedaçado. São os fugitivos do capitalismo, as vítimas do capital. Pessoas que se transformam em números, estatísticas. Pessoas que alimentam a grande roda do sistema que come gente. Porque para que um viva bem, outro tem de morrer.
Essas pessoas em eterna caminhada não são “sensações”. Elas carregam dentro delas um mundo, têm sonhos, histórias, esperanças. Não são números, são criaturas singulares, únicas, que significam algo par alguém.
Suas mortes na montanha, no rio, no cárcere, não podem servir para alimentar o reino das sensações ou as curtidas no livro das caras. Elas devem servir como espelho para que enxerguemos nossa própria tragédia como humanidade, ainda incapaz de constituir um tempo de riquezas repartidas e de bem viver para todos. Um tempo que precisa chegar, antes que seja tarde para todos nós.
Andar pelo mundo deveria ser uma escolha e não a única alternativa para seguir vivo.
Que se acabem as fronteiras. Nenhum ser humano é ilegal!
No ano passado, quando o Brasil viveu o processo eleitoral, não faltaram denúncias sobre as manobras realizadas pelo juiz Sérgio Moro, visando impedir a candidatura de Luís Inácio Lula da Silva, somando-se assim ao mosaico que estava se desenhando com o crescimento da candidatura de Jair Bolsonaro, até então um azarão. Durante todo o processo que culminou, finalmente, com a prisão de Lula, acusado de ter recebido propina e com ela comprado um apartamento pobrinho, a mídia não comercial apontou os equívocos, os erros, a irregularidades. Mas, nada foi levado em conta. Tudo seguiu seu rumo, dentro daquilo que o então senador Romero Jucá dizia que era o acordo “com o Supremo, com tudo”. Sem o Lula na parada, e com o discurso frouxo da esquerda, o caminho ficou aberto para a ascensão da direita ultraliberal que se apresentava como antissistema.
O jogo seguiu, as eleições aconteceram e Jair Bolsonaro venceu. O projeto que recebeu o respaldo das urnas foi o de destruição total de tudo o que significasse ganho à maioria da população. E, tão logo iniciou o mandato, Bolsonaro chamou para Ministro da Justiça, justamente o juiz que levara Lula à prisão. Não bastasse isso, pouco depois já anunciou que ele era o nome a ser brevemente indicado ao Supremo Tribunal Federal. E, da mesma forma que no processo eleitoral, tudo isso foi visto pela mídia comercial como bastante normal.
As denúncias feitas durante o processo eleitoral ficaram sempre no vazio e, aparentemente ninguém se preocupou em investigar a fundo cada uma delas. Agora, nas últimas semanas, uma série de reportagens divulgadas pelo jornal Intecept traz as provas de tudo aquilo que, antes, parecia ser só a choradeira dos derrotados. A relação entre o juiz do caso Lula e o procurador, com conversas sistemáticas sobre o processo, inclusive com o juiz indicando caminhos até para a divulgação na imprensa, seria um escândalo brutal em qualquer lugar do mundo. Mas, no Brasil, não.
Imediatamente à divulgação das conversas, que vazaram provavelmente a partir de alguém de dentro do esquema, tudo o que se viu na imprensa comercial foi a tentativa de criminalizar o jornalista e a fonte. Começou uma caça ao suposto “hacker” que conseguiu as gravações e até a Rússia entrou na conversa, visto que os diálogos vazados tinham sido praticados no Telegram, um sistema russo de mensagens. Ler os jornais brasileiros, desde então, é quase como estar metido dentro de uma série cômica dos tempos da “guerra fria”, como a do Agente 86, que via russos em todo o lugar. Seria realmente risível se não fosse trágico.
Há uma tragicidade no campo do jornalismo, visto que as reportagens de TV e jornal são assustadoramente vazias, revestidas da absurda defesa de que se pode cometer um crime se for para combater um crime. Então, se Moro descumpriu a lei pra prender um corrupto, no caso, Lula, aí pode. Poucos se perguntam sobre qual a legitimidade que tem um juiz de decidir sobre quando pode ou não pode burlar a lei. Se for assim, para que existe a lei? Não. Não há qualquer resquício de inteligência ou de pensamento crítico no jornalismo tradicional nacional.
E há também a tragicidade no campo da vida mesma. Porque justamente os meios de comunicação de massa respaldam firmemente a ideia de que o juiz Moro agiu mal para defender o bem. E pronto. Acabou. Entre os apoiadores do presidente, que seguem cegos diante de qualquer crítica, quem tem de ser preso é o jornalista que divulgou as conversas, porque, esse sim, quer o mal do Brasil. E nas redes sociais se formam as torcidas organizadas, do Bolsonaro, do Lula, do Intercept.
Enquanto isso o presidente vai editando medidas provisórias, decretos e propondo leis que acabam com o país e colocam os trabalhadores numa fria sem tamanho. O Congresso Nacional faz o seu velho jogo, apertando o cerco para tirar benesses e punindo o governo quando não é atendido. Um jogo entre os poderosos, no qual a maioria só fica de assistente.
Mas, lentamente os trabalhadores vão constituindo lutas, ora singulares, em greves pontuais, ora mais universalistas, como a greve geral do dia 14 de junho que mobilizou mais de 45 milhões de pessoas. E, timidamente, vão surgindo reações como a da Ordem dos Advogados do Brasil, que está exigindo a saída de Moro e do procurador Dallagnol dos seus cargos. Na última semana, os jornalões paulistas Folha e O Estado de São Paulo, em seus editoriais, apontam que a relação estabelecida por Moro com Dallagnol é mesmo uma ilegalidade. Para a direita tradicional, é fundamental que os tribunais possam ser reconhecidos como “legítimos”, sob pena de esfacelamento total das instituições, então, a única saída é fritar o juiz, que já serviu aos interesses.
Resta saber quais as implicações de um possível desembarque de Sérgio Moro do governo. Terá força para empurrar outras denúncias contra o governo Bolsonaro ou servirá apenas para esquentar a campanha do Lula Livre? Ainda há muita água para correr sob a ponte. Mas as forças políticas se movimentam e tudo pode acontecer.
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| A Maria Fumaça |
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| O minuano |
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| A estação de São Borja |
Corriam os anos 1960, finalzinho já. Meu pai ainda não tinha comprado seu primeiro carro, que foi um fusca branco, e só chegou em 1972. Então, a única maneira de viajar para Uruguaiana, onde íamos ver os avós, era de trem. Quando o pai avisava sobre a viagem, o mundo vibrava em mim. A viagem era alguma coisa mágica, indescritível e, hoje, penso que vem daí essa minha fome por horizontes.
Chegar à estação era como descortinar outro mundo. Nos trilhos, fumegava a Maria Fumaça, negra como a noite, com suas bolas de fumaça ora brancas, ora pretas, e nos embalaria por horas a fio naquele tranquito familiar, troc, troc, troc, nos trilhos. Pela janela passavam os campos sem fim e, neles, as emas, com sua correria louca, tentando vencer o trem. E a gente passava de vagão em vagão, imitando as emas, no saltitar. Era uma festa. Lembro que meu coração parecia bater no mesmo compasso que a enorme Maria Fumaça e curiosa, me postava no caminho dos homens que enchiam sua boca enorme de carvão. Era uma aventura épica.
Quando vieram os anos 1970, a Maria Fumaça deu lugar ao Minuano, um trem moderno, construído lá na Alemanha. A enorme máquina vermelha já não comia carvão, era movida à diesel. A magia da viagem já não era a mesma. Lembro que toda a gente saudou a chegada do Minuano, pois a viagem ficaria mais rápida. Eu chorei. Desde pequena avessa ao progresso. E na primeira viagem que fizemos no novo trem o meu coração já batia no descompasso. Sem a fumaça, sem os homens do carvão, sem o troc, troc, troc, até as emas pareciam desencantadas. Eu também perdi o gosto.
Pouco tempo depois o pai comprou o fusquinha e nossas viagens passaram a ser de carro. Outras miradas, outras paisagens se descortinavam. Mas, quando chegava à ponte do Rio Ibicuí, meu coração sangrava. Ali permanecia intacta a imagem da velha Maria Fumaça, fosse na enorme armação de ferro, ou nos trilhos que ainda riscavam toda a extensão da ponte. E da janela do fusca eu quase podia ver a velha máquina gigante e negra, fumegando desesperada enquanto sacudia a velha estrutura sobre o meu rio do coração.
Hoje já não há mais nem mesmo o Minuano e nas quebradas da fronteira poucas são as pegadas da velha ferrovia. Mas, mesmo assim, a Maria Fumaça ainda assombra minhas noites, quando seu apito me desperta, chamando para o embarque. Viajar, descortinar paisagens, encontrar as gentes e as histórias. Ah, que incríveis universos paralelos naqueles trilhos que cruzavam a pradaria, os campos sem fim da pampa. Maria Fumaça, companheira rumorosa das aventuras que começaram dentro do seu corpo agigantado e nunca mais se perderam de mim.