terça-feira, 23 de maio de 2017

Artigas, um caminho

o exército de Brancaleone...


Gina, a condutora, artiguista de valor


Sempre que nos encontrávamos nosso assunto preferido era o Artigas, o homem que conduziu o povo da banda oriental para a liberdade. Gina e eu somos orientais. Ela, do Uruguai e eu de Uruguaiana. Nossas histórias se misturavam com a história daquela região. Gina, carregando suas caixas de livro, armando a barrada da Expressão Popular, me provocava. “Tens que escrever o livrinho sobre o general”. E eu dizia: - vou escrever, vou escrever. Por vários anos fomos recolhendo tudo sobre Artigas e nas nossas conversas ele era sempre o foco. Ambas éramos apaixonadas por aquele homem. Então, em 2015 decidi fazer o caminho do “êxodo”, a saga do povo oriental que seguiu Artigas por mais de 500 quilômetros Uruguai afora, primeiro fugindo e depois voltando para a vitória.

Num carrinho Fiat, todo estuporado, confiando na providência, partimos, eu, Rubens, Antônio e Renato. Uma equipe minúscula, com uma câmera e a ideia na cabeça. Dois nunca tinham mexido com vídeo. Mas, não faltava vontade. Viajamos por quase 20 dias, atravessando o Uruguai. Buscávamos as pegadas de Artigas. Foi uma viagem fantástica, de risos, lágrimas e descobertas.

Na volta, fui ver a Gina. Queria contar pra ela tudo que tinha vivido. Foi uma tarde memorável. Ela já estava doente, mas sua alma era a de uma menina, encantada com todas as estórias. Rimos, tomamos café, falamos de Artigas, de toda a experiência, do meu encontro com sua alma libertária. Pedi a ela que me desse uma entrevista. Falando de Artigas. Ao longo de toda nossa vida juntas ela nunca quis me dar entrevista. Dizia que sua vida não era importante. Ora, pois. Mas, para falar de Artigas, sim, topava. Foi a primeira e última vez que ela fez um depoimento gravado em vídeo. Nós duas sabíamos o quanto aquilo era importante. Era Artigas.

Ela queria muito que o vídeo sobre o Artigas ficasse logo pronto, para que mais pessoas pudessem conhecer aquele homem que tanto nos arrebatava. E nós, com as parcas condições materiais que tínhamos, fomos fazendo o que era possível. Demorou demais.

No dia 2 de setembro de 2016 a Gina me fez essa sacanagem. Encantou. Não pode ver o vídeo pronto. Quase desisti do projeto. Estava difícil demais terminar. Mas, a Gina merecia que fôssemos até o fim. Com a parceria essencial do amigo/filho/irmão Rubens Lopes, o trabalho seguiu. Com sua mão firme na edição, o documentário sobre o Artigas foi tomando forma. E, no início desse ano, depois de várias batalhas, terminamos.

Hoje saiu a notícia de que o nosso vídeo, pequeno e intimista, foi selecionado para o FAM, a mais importante mostra de vídeos e filmes do Mercosul. Foi uma alegria sem fim. Finalmente Artigas vai ser visto por outros tantos brasileiros, tal qual a Gina queria, mostrado pelos nossos olhos. Ela é condutora. Ela é alma que move cada centímetro. Chorei bastante. Queria que ela estivesse viva para ver. É um vídeo singelo, como era a Gina, e eu sei que ela o amaria.  

Divido então esse contentamento, certa de que todos os nossos amigos lá estarão no dia da mostra, que será na UFSC, em junho. Para ver a Gina, para ver Artigas e para conhecer essa saga incrível do povo da banda oriental. A nossa história. A história da nossa libertação.

E, sei, que de algum lugar - talvez de dentro de mim - a Gina estará vibrando com seu riso doce, murmurando: mi general!!!! 


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