quinta-feira, 26 de dezembro de 2019

O pai e o banho


A parada do banho é uma das mais difíceis. Não sei porque essa implicância. Basta falar a palavra e o pai já começa a resmungar e ficar nervoso. Ou diz que não quer mesmo, ou diz que já tomou. É uma dança louca e demorada que temos de empreender até acabar no box. Tem dias que não tem jeito mesmo. Há que pular o banho. O que é bem complicado porque limpar "as partes" pode ser ainda mais difícil. Levo horas nesse ritual, tentando encontrar o caminho. Nunca é o mesmo. Cada banho é uma descoberta. Quando ele finalmente diz "sim" eu faço a maior festa, dançando, pulando e carregando ele para dentro do banheiro.

Hoje foi assim. No natal não teve jeito. Pulou o banho. Mas, nessa quinta calorenta eu comecei a ensaiar já de manhã.
- Bora banhar?
- Não mesmo.

E assim vamos, pelo dia afora.
Quando deu cinco horas topou. Fiz a festa. E dá-lhe banho. Uma alegria.

Depois, saímos para a nossa caminhada diária. Eu ia conversando, mostrando os passarinhos, até que arrisquei.
- Coisa mais boa tomar um banho, ficar bem limpinho, né?
E ele, virando a cabeça, fez um muxoxo e respondeu.

- Sinceramente? Não vejo diferença. E seguiu, pitando seu cigarro apagado.


segunda-feira, 23 de dezembro de 2019

Gujo Teixeira



Conheci a poesia do Gujo Teixeira na voz do Luiz Marenco. A música me caiu como um raio e eu a escutei infinitas vezes, lágrimas nos olhos, arrebatada por tamanha beleza. Era a “quando o verso vêm pras casas”, uma dessa maravilhas que simplesmente nos tomam para sempre. A música ficou grudada em mim. Então, fui procurar o poeta. Era uma cornucópia de esplendores. Desde aí fui seguindo, nas músicas e nos livros. Gujo é incrível.

Essa semana me chegou o seu livro “Escritos de Terra” que condensa 30 anos de sua escritura campeira. Sua poesia é forte, é densa, é profunda. Ela me remete a um tempo distante demais, mas que ainda vive em mim, pulsante. A campanha gaúcha, os trabalhadores ponteando as tropas, os esquiladores, o cheiro de rio, as taipas de arroz, o gado na sombra do tarumã, a imensidão dos horizontes.

Não, nunca tive terra, meu avô foi meeiro, lavrando sempre em terra alheia, e com ele pude vivenciar as alegrias e as dores daqueles que fazem a terra parir, sem nunca ter direito à ela. É por isso que na poesia campeira as imagens que me assaltam são a dos paysanos silentes e taciturnos, na beira do fogo de chão, rocando um mate. Homens calejados, estradeiros, valentes, e ao mesmo tempo doces. E são eles que assomam nas folhas do livro de Gujo.

“Estes gaúchos de barro
Semelhados pela estampa
Foram moldados no tempo
Com a terra bruta da pampa”.

No passar das folhas vou caminhando pelas canhadas, nas tardes de inverno do Japejú. Esse Rio Grande que não sai de mim...

“A mansidão da campanha traz saudade feito açoite
Com olhos negros de noite que ela mesma querenciou
E o verso que tinha sonhos prá rondar na madrugada
Deixou a cancela encostada e a tropa se desgarrou”.

E por aí andam as tropas de versos, desgarradas do livro, que agora galopam na minha cabeceira...


Então, é Natal


2019 passou. E o que me sobra é o pasmo. Como sobrevivi? Não sei! Talvez alguma poeira cósmica de energia e de amor, vinda sabe deus de onde.

E agora, é Natal. Penso no meu deusinho, que sempre vem me visitar. Às vezes ele vem menino, outras homem criado, depende da conjuntura. Eu gosto de passar a “noite feliz”, sozinha, esperando por ele, que é o aniversariante. Geralmente conversamos, rimos, dançamos, tomamos Pureza, fazemos coisas de criança, para manter a ternura do advento.  

Esse ano, não sei, creio que vamos chorar. Foi um ano duro, no qual tanta maldade se produziu em seu nome. Não que tenha sido muito diferente ao longo dos tempos humanos, mas me choca que aqui, nesse espaço geográfico sempre tão caloroso, a crueldade tenha aparecido assim, com carimbo cristão. Penso que ao menino isso também vá chocar.

Ainda assim seguirei meus rituais de natal com presépio, luzinhas, capim para o burrinho e o sapato na janela. E esperarei Jesus como sempre faço, jesuânica que sou. Sua presença doce haverá de me animar para enfrentar mais esse novo ciclo, que igualmente não será fácil. Vamos conversar pela noite afora, sérios e compenetrados. Tristes. Talvez ele invente alguma graça pra me alegrar, e eu diga algum chiste para ver seu riso. E enquanto a noite adentra, ficaremos abraçados, ouvindo só o som do coração, emponchados na tristeza.

Na madrugada haverá de cair uma estrela e faremos um pedido. Então, sorriremos, cúmplices, porque saberemos que foi o mesmo. O dia de aniversário romperá invencível e trará com ele todas aquelas esperanças que nos movem. O menino irá embora, e eu seguirei trilhando os caminhos dessa vida terrena, até que venha o grande meio-dia. Sempre na estrada do amor, ainda que ele não vença sempre. Sempre na estrada do amor!

Feliz Natal pra toda gente. Força na peruca que esse mundo exige coragem. Vamos em frente, sem esmorecer.

quinta-feira, 19 de dezembro de 2019

Avança a construção da revolução brasileira



Coletivo nascido em 2017 realiza seu primeiro congresso em 2020 amparado no nacionalismo revolucionário e na construção da revolução brasileira

Era verão. 2017. Florianópolis. Na casa do professor Nildo Ouriques, ele e alguns ex-alunos discutiam a política brasileira. O Brasil estava vivendo um turbilhão, fruto do processo de destituição da presidenta Dilma Roussef iniciado em 2016. Por isso, todas as conversas convergiam para o tema. A falta de uma ação mais ousada por parte do governo petista, que enfrentou os ataques sem convocar a população para a luta, mostrava que estava mais do que na hora de uma nova práxis na política. Esse era um debate que Nildo vinha fazendo desde há anos, mas de certa forma restrito à universidade e a alguns circuitos sindicais onde o professor realizava formação. Para ele, a dobradinha PSBD/PT , configurada no que chama de “petucanismo”, estava com os dias contados. A população já estava farta do liberalismo, tanto de direita quanto de esquerda. E estava bem claro que os brasileiros precisavam de um novo radicalismo político. Naquele dia, o pequeno grupo reunido na casa do Nildo, avaliava que desde os partidos de esquerda esse radicalismo não viria. Provavelmente a direita haveria de aproveitar desse buraco. E foi o que se viu com a ascensão de  Jair Bolsonaro. 

Pois foi naquele verão que o grupo decidiu ser necessária uma ação político/partidária capaz de fazer emergir esse radicalismo. Bradar desde a universidade já não era suficiente, havia que encarnar a ideia de uma revolução brasileira nas gentes. E isso só poderia ser feito se houvesse uma organização nacional. Filiar-se a um partido era condição imediata. A escolha recaiu sobre o PSOL entendendo que ali poderia haver espaço para crescer a proposta que vinha sendo madurada ao longo de anos de estudos acerca da tradição revolucionária brasileira que tem suas raízes na gênese do que é o Brasil, sendo fortalecida a partir dos anos 30 do século XX. 

Quando ainda era estudante de Economia Nildo teve contato com as teses da POLOP (organização revolucionária marxista Política Operária), nas quais o conceito de revolução brasileira aparecia de maneira bastante clara. Depois, militando no Movimento de Emancipação do Proletariado (MEP) essa proposta foi se consolidando ainda mais. Os estudos no México e o trabalho cotidiano junto a Ruy Mauro Marini, um dos teóricos mais importantes da Polop e expoente da Teoria Marxista da Dependência, ficaram bases sólidas no pensamento e na práxis de Nildo Ouriques. A revolução brasileira não era um sonho dos anos de chumbo. Ela era um processo em curso. 

Pois se a revolução era um processo, a proposta do grupo de Florianópolis – que já incluía Mauricio Mulinari e Daniel Correa da Silva, hoje formadores na Revolução Brasileira – foi de reacender o debate e retomar uma tradição histórica e uma tradição teórica. Só assim seria possível romper com o engessamento da política nacional baseada no petucanismo e construir o novo radicalismo político que parecia ser uma exigência da população. 

O primeiro passo então foi reunir mais gente no debate da proposta e começaram as reuniões em Florianópolis e em outros estados brasileiros com aqueles que já se vinculavam ao grupo. Foi assim que em agosto de 2017 nasceu oficialmente o coletivo “Revolução Brasileira”, com o lançamento do manifesto, que abria o debate da seguinte maneira: “A sociedade brasileira vive uma verdadeira guerra de classes. Guerra declarada pela classe dominante, que bombardeia diariamente o povo brasileiro sem encontrar grande resistência. Reféns do projeto conciliatório e desarmados ideologicamente, os setores populares encontram-se em completa desorientação e são incapazes de reagir e apontar qualquer saída ao povo brasileiro. O contra-ataque só se mostra possível mediante um acerto de contas com o passado.”   

Houve então uma filiação em massa ao PSOL, com pessoas ligadas ao grupo da Revolução Brasileira em muitos outros estados do país, pois a proposta era já partir para o ataque na campanha presidencial que estava em curso. O grupo entendia que para enfrentar o radicalismo que vinha da direita, via Bolsonaro, era preciso outro radicalismo, desde a  esquerda, capaz de compreender os anseios da população e dar o devido combate aos sistema político que estava totalmente carcomido. 

Os fatos se aceleravam, a direita crescia. Então, em dezembro de 2017, a corrente da Revolução Brasileira organizada no PSOL decide lançar o nome de Nildo Ouriques como pré-candidato à vaga de presidente da República, uma tática para possibilitar o debate sobre a revolução em nível nacional. O entendimento era de que os anos de governo petista haviam empobrecido a práxis e alimentado um desprezo pela teoria. Isso precisava mudar e a proposta da Revolução Brasileira (RB) era a de reconciliar a teoria com a práxis militante. Foi um divisor de águas na esquerda e acabou com o discurso “paz e amor”.  A guerra de classes voltava à cena e a possibilidade da revolução vinha sustentada teoricamente. 

Como pré-candidato, Nildo começou a rodar o país levando a proposta da revolução brasileira e nas fileiras do PSOL começaram a aparecer novos militantes atraídos pela possibilidade da constituição de uma nova práxis. Muitas filiações se faziam ancoradas nessa linha. Mas, sem prévias – nas quais todos os militantes partidários poderiam votar – prevaleceu a decisão da corrente majoritária que escolheu Guilherme Boulos para ser o candidato presidencial.  O resultado é história. Sem radicalidade na esquerda, a direita nadou de braçada e elegeu o novo presidente cuja palavra de ordem era: “mudar tudo isso que está aí”, o que para a população aparecia como uma proposta de mudança radical. 

Para o grupo da Revolução Brasileira a derrota de Nildo na disputa interna só deixou mais clara a necessidade de seguir atuando e formando gente nos caminhos da revolução. Por isso, o trabalho de formação seguiu tomando corpo, crescendo, avançando para todos os espaços do país. “Entendíamos que era papel da RB contribuir para a formação de uma nova vanguarda política, capaz de compreender as teses da revolução e atuar com capilaridade nos  sindicatos, movimentos, universidades e organizações populares”, aponta Nildo. 

Ele lembra que as novas tecnologias de comunicação têm sido muito importantes para esse trabalho de formação de novas lideranças. “Antes, quem falava pela esquerda eram o Lula, o Brizola, o João Amazonas. Agora não, nós podemos falar sobre a política nas redes sociais, qualquer um pode falar. E também não precisamos viajar o país inteiro para discutir política. É possível debater usando as ferramentas tecnológicas. Antes, esse trabalho de formação era caro e difícil. Agora não, verbalizamos para milhares de pessoas. Essa é uma potencialidade que a estrutura da rede dá. Tem seus limites e suas contradições, mas também ajuda”.  

É assim que vai caminhando a revolução brasileira, com atividades sendo realizadas todas as semanas, em algum lugar do país. O núcleo de formação se ampliou com novos militantes como os professores Waldir Rampinelli e Angélica Lovatto, além de outras importantes contribuições que surgem fora dos muros das universidades, brotando desde os sindicatos e movimentos sociais. Com isso novos grupos de pessoas vinculadas aos coletivo surgem, tanto nas capitais como nos rincões mais inauditos, nas profundezas do Brasil.

O coletivo da Revolução Brasileira atua prioritariamente junto aos partidos políticos e sindicatos, buscando influir diretamente nos setores que podem verdadeiramente bloquear o capital, cortando seu circuito de circulação. Tem como elemento suleador do debate o nacionalismo revolucionário e com essa proposta busca abrir espaço também junto às Forças Armadas, outro flanco importante para a transformação do país. O circuito de formação avança nesses grupos e a preocupação é caminhar com aqueles que realmente podem contribuir na construção da revolução, gente que tenha autonomia intelectual, que não despreze a teoria e que esteja buscando vivenciar uma nova práxis. A preocupação não é quantitativa, tampouco eleitoral, mas procura garantir, nesse momento, a formação de gente que possa formar mais gente, ampliando e capilarizando a ideia da revolução brasileira.

Em abril de 2020 a Revolução Brasileira fará seu primeiro Congresso Nacional, nos dias 16, 17 e 18 de abril, em São Paulo, já contando com uma significativa militância formada nesses três anos de trabalho ininterrupto. Será o momento de fortalecer as teses, organizar a corrente e planejar os novos caminhos. O coletivo cresce e se espalha de maneira segura.

Devagar, despacito, a revolução vai se forjando. 

quarta-feira, 18 de dezembro de 2019

Helena

Foto: Helena, com Brenda Piazza. Aqui, de novo, no apoio concreto às novas lideranças, durante uma das campanhas eleitorais.


Hoje vou falar de uma pessoa muito especial que é uma referência para mim: Helena Dalri. A conheci quando cheguei à UFSC em 1994. Funcionária nova, na primeira assembleia da categoria tratei de ir para saber a quantas ia a luta dos trabalhadores públicos, categoria a qual eu me integrava. Naqueles dias as assembleias eram realizada no Restaurante Universitário, porque eram sempre gigantescas. Já nas primeiras falas, de análise da conjuntura e nas proposições, vi que a direção não era de esquerda e que havia um grupo bem articulado fazendo oposição. A Helena era uma das pessoas que faziam parte do grupo. Alta, forte, firme na fala, ela logo chamou minha atenção. Ali estava uma liderança, pensei. E era.

Poucas assembleias depois eu já decidira me integrar ao Movimento Alternativa Independente, grupo do qual Helena fazia parte, junto com outras figuras importantes da luta na UFSC tais como Silva, Maneca, Valcionir, Moisés, Ângela, Aldo, Silvana. Em pouco tempo já estávamos articulando chapa e em 1997 vencemos as eleições para o Sindicato. Pegamos uma bucha. Havia uma dívida de 500 mil reais. Helena era a presidente. Poucas vezes na vida pude trabalhar junto com uma pessoa tão íntegra e tão firme nas suas convicções. Aparentemente dura no trato, ela é de uma doçura e generosidade incomensuráveis. Os reitores a temiam e ela era mesmo implacável na defesa dos direitos dos trabalhadores. Sob a sua batuta entramos no Sintufs e, em um ano, já tínhamos quitado todas as dívidas deixadas pela gestão anterior. Trabalho sério, honesto, comprometido.

Durante todo o tempo em que atuamos juntas no sindicato e mesmo depois que ela saiu da direção, todos nós que chegamos nos anos 1990 pudemos aprender sobre como atuar na luta sindical e como administrar um sindicato sem perder a noção de que aquilo ali é um espaço de toda a categoria, coletivo, único. E que, cuidá-lo, é como cuidar de cada um e cada uma. Com ela enfrentamos as feras cotidianas da UFSC, as batalhas na Fasubra, as negociações com a Fapeu, as quedas de braço com os reitores. A liderança que Helena exercia sobre os trabalhadores era tão forte que a uma palavra dela as gentes seguiam sem pestanejar. Quantas ocupações da reitoria fizemos a partir de seu sinal. Um braço levantado, seu corpo gigante na frente, e lá íamos todos nós, na certeza de que ela nos conduziria bem.

Quando veio o governo Lula ela já não estava mais no sindicato. Tinha deixado o espaço aberto para as novas lideranças que surgiram durante a década dos 90. Mas, não faltava uma assembleia sequer, sempre de olho e pronta a puxar as orelhas de quem não atuava como tinha de ser. Muitas batalhas travamos também, inúmeras vezes na divergência. Só que Helena nunca permitiu que a política interferisse nas relações pessoais. Podíamos bater boca nas assembleias , mas não faltava o abraço, o sorriso e o companheirismo. E mesmo quando muitos companheiros nos abandonaram por conta da nossa crítica ao Lula, ela continuou nos acolhendo no seu abraço caloroso. Nunca se perdeu de nós, seus aprendizes. E eu sempre serei grata por isso. Afinal, esse foi mais um ensinamento.

Hoje a Helena está aposentada e já não atua mais diretamente nas lutas sindicais da UFSC. Mas, isso não significa que ela está fora do mundo. Não. Segue atenta, apoiando sempre as lutas que são travadas. E continua igualmente atenta às novas lideranças que vão surgindo, no suporte, e ensinando.

Sempre que eu penso em sindicato e em como viver essa passagem de atuação coletiva, a imagem que me vem é definitivamente a da Helena. Seu exemplo, seu cuidado, sua vontade férrea, sua capacidade de trabalho. Não consigo imaginar a vida dos trabalhadores da UFSC sem sua figura altaneira. Com ela nasceu o sindicato, com ela realizamos as mudanças mais significativas da entidade, com ela aprendemos sobre companheirismo, dignidade, força e humildade.

Eu a reverencio como uma das mais importantes pessoas que já passaram pela UFSC, deixando sua marca indelével. E eu a amo profundamente. Gracias Helena, por tudo que és e representas! Inesquecível. Eterna!


quinta-feira, 12 de dezembro de 2019

A fortaleza vem do coletivo


Esse é um tempo de solidão, de desespero, de nojo. E isso não é um problema pessoal, que atinge um ou outro. É um drama social. Li outro dia o belo trabalho do nosso companheiro, agora jornalista, Pedro Cruz, seu texto de final do curso de Jornalismo. Nele, Pedro narra a dor psicológica de alguns estudantes nos seus dramas aparentemente singulares. Cada história vai descortinando sofrimentos psicológicos, mentais e espirituais que não são exclusivos da vida pessoal. Eles se forjam no embate com o público, com a vida na sua concretude, nas relações desconstruídas, sem tecimento, provocadas por essa maneira absurda de organizar a vida que nos é imposta pelo capitalismo.

Daí o sofrimento de uma juventude de classe baixa ou média sem horizontes, sem objetivos de longo prazo, sem ilusões, sem propostas. A vida se lhes aparece como uma sucessão de dias que são cumpridos automaticamente, no torvelinho das redes sociais, dos relacionamentos sem estofo, do emprego precário ou da tragédia diária vivida nas comunidades empobrecidas, de miséria e morte.

Esse é um tempo de solidão, no qual as pessoas deixam de falar umas com as outras: mandam mensagens por uatizape, mensagens que não permitem interação. Não há afeto, abraços, beijinhos, afagos. Não há horas de completo ócio, com as pernas pra cima, pensando na revolução. As pessoas esqueceram que a revolução é possível. Estão domesticadas num sistema que lhes mente o tempo todo sobre felicidades vãs, inalcançáveis.

E a solidão vai ficando tão grande que as pessoas já não acreditam mais na força da amizade, do amor. Não se permitem se deixar acolher, abraçar, ficar. Pensam que seus dramas são pessoais e que só a elas cabe resolver. Esse círculo louco vai fazendo com que o que sofre fique sozinho, e os demais não se importem com a dor do outro. O circuito da solidão existencial. E é aí que aparecem as igrejas oportunistas, puxando esses tristes seres do vazio, dando-lhes comunidade, pertencimento, mas ao mesmo tempo fortalecendo ainda mais o cerco do capital, na medida em que oferecem a promessa dos bens materiais como isca. Isso não é por acaso.

Ontem eu perdi um amigo. Ele se recusou a responder as mensagens, os telefonemas, os correios. Ele estava longe. Ele estava só. Acuado na sua dor. Ele foi embora pensando que os problemas dele eram só dele. Não eram. Eram meus, eram nossos, eram de todos os brasileiros fodidos, de todos os seres humanos submetidos à moenda do sistema capitalista que tudo destrói.

É preciso que nos recusemos a isso. O sofrimento de um dos nossos companheiros é o sofrimento de todos. E só tem um jeito de mudar esse mundo sombrio: transformá-lo. É tempo de revolucionar, mudar, revolver, virar patas arriba. O mundo precisa ser solidário, amoroso, cooperativo. Só que isso não vai acontecer no privado, no particular, no nosso movimento particularista, ou apenas no nosso grupo de amigos. Precisa ser geral, para a classe trabalhadora, para os oprimidos. E para isso, só a revolução mesmo. A revolução brasileira. A mudança total das coisas. Um mundo no qual as pessoas possam viver sem medo, amparadas socialmente, criando belezas. O mundo do comum.

Não quero prantear corpos vencidos pelo sofrimento. Quero a alegria compartilhada. E te convido. Quando esse sistema for destruído, as coisas vão mudar. Para todas as pessoas. Temos que decidir por isso. Basta!

quarta-feira, 11 de dezembro de 2019

A informação e o direito à cidade



Conversa sobre informação e o direito à cidade realizada no I Congresso de Direito à Cidade realizado nos dias 9 e 10 de dezembro de 2019.

1 – A mídia comercial, tal qual a justiça, é um instrumento da classe dominante e se ampara em duas pedagogias fundamentais: a Pedagogia da Sedução e Pedagogia do Medo. Uma olhada no seu conteúdo e pode-se perceber que os conteúdos estão voltados ora para seduzir, ora para amedrontar.  Na sedução: o capitalismo é bom, compre isso, compre aquilo, seja bonito fumando tal cigarro, seja feliz comendo tal margarina, veja como os empresários da novela são bonzinhos. É o que o pensador venezuelano Ludovico Silva chamou de mais-valia ideológica. O trabalhador, ao acessar a mídia, não se descola do sistema que lhe rouba vida. Assim que da mídia comercial não podemos esperar nada, democratiza-la, dentro do sistema capitalista, não significará absolutamente nada para os trabalhadores, para a maioria da população. O sistema capitalista, para se consolidar e seguir poderoso, precisa desse braço armado, sedutor, por onde divulga suas ideias, expressa a cultura do sistema, trabalha a pedagogia da sedução e define os inimigos que precisam ser combatidos. Ele pode conceder uma coisinha aqui, outra ali, para se dizer “democrático”, mas na essência continuará mentindo e seduzindo.

2  - A mídia comercial não mostra nem nunca mostrará a cidade real, essa cidade dos desvalidos, dos condenados, dos sem casa, dos sem esgoto, dos sem lazer. Não tem interesse nisso, porque ao apresentar a realidade expõe as contradições do sistema. Assim, quando a cidade aparece na mídia é sempre de maneira ritual e fragmentada. Matéria sobre buracos de rua, sobre problemas estruturais são dadas como se fossem pequenos furúnculos num corpo sadio. Aí os repórteres mostram a denúncia e depois mostram o poder público dizendo que vai arrumar. Pronto. Problema resolvido.

3 – Já com relação aos que enfrentam o sistema, a proposta da mídia comercial é aprofundar a  pedagogia do medo. Tudo é feito para amedrontar as pessoas e para criar os estereótipos do que vem a ser o inimigo da ordem e do progresso. Programas como os do Datena, que tem sua filial em todos os estados do país, são usinas do medo. Mortes, assassinatos, coisas horríveis sendo praticadas por quem? Por gente pobre, preta, desempregada, favelada. Raramente um crime de gente rica, branca, bem alimentada. E quando aparece soa como algo assim, quase inusitado. Parece que nada de ruim acontece nos palácios. A parada ruim é só nas comunidades empobrecidas. Por isso que massacres como os de Paraisópolis são vistos como normal, já que aquele povo lá, nos bailes funk, é pobre, preto e favelado, logo, para a maioria alfabetizada pelo medo é “tudo bandido”.

4 - Quando as gentes se levantam em luta, a mídia também mostra. Mas essas lutas igualmente aparecem como uma parte doente de um corpo saudável, reforçando o preconceito instalado pela pedagogia do medo. São pessoas que incomodam. E sobre elas já está manufaturado o conceitos necessários para fazer com que a sociedade encare esses movimentos como coisas ruins. São os baderneiros, os contra tudo, os eco chatos, os vagabundos que querem mordomia sem trabalhar, que querem casa sem pagar por ela. Ou seja, tudo de ruim. Gente ruim. Isso não é por acaso. É preciso fortalecer essa ideia para que a sociedade os veja como seus inimigos também. Então, a pedagogia do medo já fez o seu trabalho.

5  - A mídia mostra como inimigos de todos aqueles que são apenas os inimigos do capital, da classe dominante, ou seja, uma pequena parcela da humanidade que domina o mundo e que produz tanta dor, destruição e desgraça. É um trabalho eficaz e a conjuntura nos mostra isso. De novo estamos enfrentando o ódio de nossos iguais. Esse ódio foi apaziguado por um tempo, durante a era do “politicamente correto”, mas ele não desapareceu. Permaneceu vivo. Porque a mídia continuou seu trabalho de sedução/medo. É importante frisar que o ódio de classe é bom e necessário. Só que o capital faz com que o ódio fique entre a classe trabalhadora, sem envolver a classe dominante. Odeia-se o índio e não o sistema que rouba suas terras (os ricos, os latifundiários, os grileiros). Odeia-se o negro e não o sistema escravocrata que o aprisionou, odeia-se o pobre e não o sistema que o produz. Odeia-se o gay, o trans, o anarquista, o sem teto, o sem terra, o comunista, porque eles desestabilizam a “paz”. Uma paz que não existe, mas que as pessoas acreditam que exista, porque bombardeadas com toda a maquinaria ideológica do capital que também se reproduz na família, na escola, na igreja e na mídia. 

6 – O dramático de tudo isso é que a luta dos empobrecidos pelo direito a cidade sempre se volta contra eles. Quando ocupam um vazio urbano, por exemplo, na batalha por moradia, estão abrindo caminhos para que se expresse a renda da terra, já muito bem explicada por Marx. As famílias ocupam, sofrem a ação da polícia, e quando finalmente conquistam a terra, o posto de saúde, os caminhos, acabam por valorizar os espaços. E os endinheirados olham para o que era um vazio sem estrutura e querem tomar para si. Porque já está ocupado, já conquistou a estrutura, valorizou. Então, os empobrecidos voltam a sofrer a pressão do capital querendo tomar suas terras. Vivemos isso todos os dias na nossa cidade, nas praias e nos morros.  

6 – Diante disso, que fazemos? Como informar sobre a cidade real num sistema de contrainformação? Como desfazer as armadilhas ideológicas montadas via rádio, tv, jornal, internet, redes sociais? Como enfrentar o monstro midiático? 

7 – Ao longo dos tempos sempre procuramos montar nossa própria mídia. Os jornais de bairro, jornais sindicais, as rádios comunitárias. Processos importantíssimos de resistência, mas praticamente ineficazes, porque não atingem a massa. Tem pequeno alcance e, no geral, são incapazes de trabalhar a notícia com a totalidade, igualmente fragmentando a informação, passando um discurso ideologizante que não ajuda no processo de emancipação do sujeito. O que quero dizer com isso? Que não basta mostrar a ocupação, por exemplo, há que dizer que ela só existe por conta de um sistema de produção que tem como norma básica a existência do empobrecido. Para que um viva, outro tem de morrer. Esse é o tema. Então, se há uma ocupação de luta por moradia, a nossa mídia tem de contextualizar de tal maneira que quem está na ocupação entenda sua posição dentro da realidade, e quem está de fora perceba que a responsabilidade daquela situação não é só do prefeito de plantão, mas de um sistema que se organiza pra que as coisas sejam assim , um sistema global do qual o prefeito é braço. Temos dificuldade com isso. Em mostrar isso. 

8 – Adelmo Genro Filho, um teórico do jornalismo, já nos mostrou como é possível fazer jornalismo sem manipular. Usar a informação como formação de conhecimento e não só como uma informação a mais. Mas, infelizmente, nossos companheiros jornalistas, que atuam nas mídias independentes, comunitárias e populares, apesar de conhecerem a teoria, ainda não se apropriaram desse modo de escrever e narrar e, no mais das vezes, produzem ideologia também. Agora nas redes sociais isso é ainda mais óbvio. Quanta mentira sai no campo da esquerda. Não é só a direita que mente. Isso não pode acontecer. Na nossa mídia a informação tem de ser veraz, confiável, correta, totalizante. 
9 – E, diante do assombroso volume de informações que hoje nos chega via redes sociais, como atuar, como se defender, como encontrar a verdade? Não é coisa fácil e demanda um trabalho conjunto entre partidos políticos, movimentos sociais, educadores, lutadores sociais, no sentido de ajudar a criar o pensamento crítico em cada pessoa com a qual atua. 

10 – Partilho da ideia de que ainda é muito preciosa a formação cara-a-cara, a comunicação interpessoal e ainda aposto no impresso. As pessoas querem saber das coisas, elas têm fome de informação, porque hoje a informação é uma necessidade social. Mas, elas também estão mergulhadas num redemoinho de palavras que lhes chegam no celular, fragmentadas e sem amarração totalizante. Então, temos dois caminhos:

a) Ou tentamos responder a enxurrada de ideologia e mentiras que são divulgadas pela mídia comercial e pelas redes sociais, coisa que não conseguimos, porque não temos o controle dos meios. Uma emissora de TV chega a milhões de pessoas. Uma empresa disparadora de uatizapi chega a milhões e nos não temos isso. Não temos essa estrutura, esse alcance de massa. Não temos como competir. Nossa mídia é pequena. Não é de massa. 

b) Ou enfrentamos com criatividade, fugindo do modelo que nos é imposto. A loucura do roubo do tempo nos é imposta pelo capital. O sistema nos quer enredados nessas maluquices informativas que desinformam, nos rouba o tempo para que não pensemos. E entramos na loucura, querendo competir com o tempo do capital. Um exemplo: estamos hoje em Florianópolis sem nenhum jornal. As empresas fecharam, atuando só nas redes sociais.  Acredito firmemente que um jornal pode ter papel importante nesse momento histórico. As pessoas querem ler, gostam disso. A Igreja Universal – que é uma usina ideológica tremenda – sabe disso e distribui um jornal bonito e capaz de tocar as pessoas. Eu as vejo no ônibus, lendo o jornal, que é standard ( grande). E por quê? Porque ali têm coisas que lhes interessa. Então, o que nos falta para ter um jornal, capaz de mostrar a cidade real, provocar o desequilíbrio, fazer a pessoa sair do uatizapi?

11 – Finalizo dizendo que a mídia popular sozinha não faz a revolução, não é o motor da mudança. Hoje, é apenas resistência. Mas, já passamos do tempo da resistência. É preciso avançar e construir o processo da revolução brasileira. Garantir o país para os trabalhadores, os empobrecidos, os oprimidos. Garantir uma cidade para quem a constrói cotidianamente. Para isso nossa mídia tem de atuar para além da resistência. Tem de formar gente. E claro, precisa que também existam partidos políticos forjando o novo, sindicatos formando seus trabalhadores, movimentos sociais lutando, mas também estudando, vanguardas políticas e intelectuais fazendo seu trabalho de pensar em profundidade, totalizar os desejos e concretizar em propostas as demandas populares. O trabalho tem de ser conjunto. Uma andorinha sozinha não faz o verão. 

12 – E finalmente, deixo como provocação final a seguinte afirmação: não é possível democratizar a comunicação no capitalismo. Isso nunca vai acontecer. Não gastem cartuchos com isso. Há que destruir o capitalismo como modo de produção, como maneira de viver. Um novo modo de produção, uma nova cosmovivência apontará também uma nova comunicação, na qual os meios de informação de massa estarão nas mãos dos trabalhadores, da maioria das gentes. Precisamos avançar para além da resistência. Essa é a nossa hora histórica.